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sábado, 27 de dezembro de 2025

Blues Addicts - Blues Addicts (1970)

 

Na transição dos anos 1960 para os frutíferos anos 1970 tínhamos muitas bandas que orientavam as suas músicas, as suas sonoridades para o rock, mais precisamente para o hard rock e o blues. Bandas como Cream, Jimi Hendrix Steppenwolf eram as que estavam no topo da pirâmide da qualidade e da visibilidade, servindo de parâmetro para muitas outras que surgiriam nos anos seguintes.

Evidente que existiam outras menos conhecidas, logo com roupagens mais ousadas e, diria, menos compreensivas pelo grande público que testemunhavam, ainda de forma embrionária, o surgimento desse som híbrido e peculiarmente espetacular, como o Blue Cheer, por exemplo. Esta banda trazia a versão “eletrificada” e pesada do blues rock, com versões agressivas e intensas que tendiam, inclusive, para o proto punk, dada a sujeira e a despretensiosidade de seu som.

Mas o Blue Cheer, ao longo dos anos, foi conquistando um público fiel e deleitado com o seu som que até hoje, principalmente em seu debut, chamado “Vincebus Eruptum”, de 1968, graças também com o advento das ferramentas de internet, como as redes sociais, canais de YouTube e afins que difundiram a sua música.

Porém, dignos e estimados leitores, ainda há bandas que percorreram o mesmo caminho do Blue Cheer nos seus primórdios, não apenas pela sonoridade, mas também pelo árduo caminho da obscuridade, da marginalidade e do ostracismo. Eu descobri recentemente uma banda que me fez rememorar não apenas essa sonoridade tão querida entre os apreciadores de rock, mas também uma porção esquecida e rara de álbuns que, ao fazer uma retrospectiva, fizeram história pelo pioneirismo e também pela ousadia em se fazer um som tão potente e latente: Falo da banda BLUES ADDICTS.

Você, meu bom amigo leitor, conhece o Blues Addicts? Diante de tantos nomes pesados qual a importância de uma banda tão rara como essa? O rock escandinavo, em especial o dinamarquês, deve reverenciar uma banda como o Blues Addicts. Certamente está entre as pioneiras do blues rock e quiçá do rock n’ roll de seu país.

Claro que não podemos negligenciar bandas, igualmente obscuras, como o conterrâneo Moses que também, com seu único álbum, homônimo, de 1972, cuja resenha pode ser lida aqui, tem o seu mérito, sua história, mas temos de admitir que o Blues Addicts, em termos temporais surgiu antes. E aproveito aqui para dizer que, por razões óbvias, pouco se tem de informação sobre a banda na web, mas tentarei, dentro do possível, falar um pouco dessa seminal banda.

O Blues Addicts foi formado em 1969 e pegou o rastro que a banda Young Flowers deixou quando eles se separaram. A banda tinha, em sua formação, Ivan Horn, na guitarra e vocal, Gibber Thomsen, cujo nome verdadeiro era Thorstein Thomsen, nos vocais e bongôs, Mick Brink, no baixo e Henning Aasbjerg na bateria.

Apesar das dificuldades inaugurais de qualquer banda que praticavam bases sonoras embrionárias e ousadas, conseguiu gravar o seu primeiro e único álbum, um ano após a sua formação, em 1970, homônimo, pelo selo underground e infame de nome “Spectator Records”, mas foi uma produção muito “artesanal”, sem o mínimo de estrutura, e isso se confirma no produto final, porém não diminui em nada na sua audição, pelo contrário, traz todo um charme, porque é um álbum ousado, mantendo um viés de garage rock, mesclado a um blues rock ácido, agressivo e pesado.

Assim o é: “Blues Addicts” é um álbum de garage rock, um blues rock pesado, um hard rock elétrico, potente, que nos remete ao Blue Cheer, porque não tem aquela, diria, complexidade na sonoridade que o Cream e o Hendrix traziam em seus sons. Era algo garageiro, sujo, despretensioso mesmo e alia isso o rock psicodélico, com aqueles riffs de guitarra lisérgico, estridentes e pesados, com momentos experimentais e viajantes. É ácido, é pesado, é intenso e, por vezes, contemplativo, dado os seus momentos experimentais. Resumo: é um álbum louco e completamente novo para a sua época.

É isso! Um álbum à frente de seu tempo, que trazia frescor e, claro, com isso um pouco de rejeição pelas gravadoras e também pelo público, mesmo que o blues rock estivesse ganhando alguns adeptos pelo mundo graças ao que o Cream, Hendrix e Jeff Beck estavam fazendo com seus instrumentos e músicas.

“Blues Addicts” nasceu escuro, obscuro, tanto que, ao ser gravado pouquíssimas foram as cópias geradas e reza a lenda que a banda, ao tê-las em mãos, as distribuiu para os seus amigos e pessoas mais próximas. Então ter essa versão original é para poucos e se esses felizardos que as receberam, lá no longínquo ano de 1970, colocassem para vender, o fariam a cifras astronômicas, sem dúvidas. Logo falarei dos relançamentos, que não foram muitos, o que colaborou e muito para o nascimento de alguns bootlegs e lançamentos não oficiais. Mas agora falemos de suas originais nove faixas.

O álbum é inaugurado com a faixa “5/4” e já começa com um pé na porta sem avisar. Pesado, riffs grudentos e pegajosos, porém pesados, de guitarra, bateria pesada, a batida intensa e agressiva, o baixo pulsante, mostrando uma “cozinha” de groove. Aqui o hard rock, em sua pureza, está mais presente do que o blues rock. Segue “Ba-Ba-Dar” que traz um balanço contagiante, o acid rock está mais latente nessa faixa. O vocal aqui é mais limpo e agradável, o solo de guitarra é mais competente e complexo, trazendo a lisergia já manjada, bem como o blues rock que dá o ar de sua presença magnânima. E, claro, não podemos negligenciar o bom hard rock por aqui também e com aquele groove que revela ser outro destaque do álbum.

"5/4"

“Bottleneck” traz uma introdução acústica, o dedilhar de guitarra e um viés mais psicodélico, um momento mais contemplativo, eu diria, mas logo surge a guitarra bluesy, o blues mais primitivo se revela na faixa, mas retorna à psicodelia. Um exemplo experimental de acid blues na sua gênese. Era algo novo, soava novo aos ouvidos e me coloco no lugar de quem a ouviu em 1970! Que maravilha! “Hailow” surge pesada, autenticamente blues rock, com pitadas extremamente bem servidas de um tempero hard rock eletrificado, trazendo à tona o Blue Cheer. É arrastada, é pesada, agressiva. Espetacular!

"Bottleneck"

“Jazzer” é curta, rápida, mas que traz uma novidade no álbum e que reflete em seu nome: o jazz rock! Sim, amigos leitores, um jazz rock envenenado, potente, com uma batida pesada e animada. Uma música definitivamente solar que mostra que o Blues Addictis, apesar de ter concebido um álbum artesanal, mostrava repertório. Segue com “Simple Expressions” que traz a essência do blues rock. A levada blueseira que lembra o Cream. Um som pesado, bem acabado, diria complexo. O vocal se mostra versátil, adequando-se ao blues ácido, pesado, latente e altivo. Solos de tirar o fôlego, bateria marcada e pesada, baixo pulsante. Sem dúvidas um dos destaques do álbum.

"Simple Expressions"

“Coward Way” começa estranha, ruídos tirados da guitarra um tanto quanto experimental, mas logo isso acaba, revelando a sua veia blueseira, um solo de guitarra puro, simples, mas bem feito, cheio de groove e peso, mas aquele peso cadenciado, o que corrobora o seu balanço inconfundível e saborosamente animado. E fica mais animado e dançante quando entra o bongô. Uma loucura experimental que só se via, ou melhor, ouvia, naqueles anos distantes de 1970. “Smukke” começa contemplativa e sombria, algo de The Doors pode ser ouvido, com um dedilhado de guitarra bem lisérgico. O peso alterna, o acid rock é latente, mas aqui se percebe o psych vivamente.

"Coward Way"

E fecha com “Electric”, a mais longa faixa do álbum, e traz um riff pesado e potente de guitarra. É sujo, é underground até a espinha e mostra uma versão arrogante e agressiva de Steppenwolf. Um acid rock com pitadas blueseiras, que mostra uma banda poderosa e incrivelmente versátil. Solos de guitarras espetaculares, de tirar o fôlego, avassaladoras, uma “cozinha” potente, vocal gritados. Eis a faixa ou uma das faixas mais legais e pesadas do álbum que é finalizado com chave de ouro.

"Electric"

O Blues Addicts, após o lançamento de seu underground álbum, em 1970, rodou toda a Europa, fazendo muito shows, muitas apresentações. Era uma banda estradeira, de turnê, mesmo que as dificuldades estruturais surgissem. E graças a sua energia nos palcos, com apresentações catárticas, conseguiu uma razoável base de fãs. Mas infelizmente as dificuldades, a falta de apoio e a inexperiência de seus jovens músicos, a banda não tardou a perecer, tendo uma vida muito curta.

Mas deixou um legado! Deixou, mesmo que desconhecidamente, um conceito de rock n’ roll mesclado ao blues que o criou lá nos anos 1950, juntamente com outros tantos estilos. Ajudou, não só a fundi-los, mas principalmente a mostrar uma alternativa de música pesada que surgiu, em profusão, no início dos anos 1970. Um álbum cru, envenenado, potente, vivo, pulsante, pesado, intenso, garageiro e sujo, totalmente sujo e despretensioso.

Pouco se sabe sobre os integrantes do Blues Addicts, mas o guitarrista e vocalista da banda, Ivan Horn, quando o Blues Addicts se separou tocou guitarra com CV Jørgensen e vários outros músicos e bandas construindo uma carreira também na cena underground dinamarquesa.

O único álbum do Blues Addicts teve alguns relançamentos. O primeiro ocorreu em 1991, pelo selo Little Wing Refugees, da Alemanha e com ele veio uma capa alternativa, além de faixas jamais lançadas e até mesmo inéditas. São elas: “Train Kept Rollin”, “Saxe” e “Kong Midas”, além de faixas lançadas na versão original, mas com tonalidades alternativas, como: “5/4”, “Ba-Ba-Dra” e “Hailow”.

Em 2006 outro selo dinamarquês, o Karma Musica, relançaria o álbum e logo depois outros relançamentos aconteceriam entre 2007 e 2008, alguns oficiais e outros não. Os “viciados em blues” deixou uma marca no rock dinamarquês e mundial, mesmo com um álbum obscuro, unindo o blues e o rock de forma poderosa, crua e original.



A banda:

Thorstein Thomsen no vocal e percussão

Ivan Horn na guitarra e vocal

Mich Brink no baixo

Henning Aasbjerg na bateria

 

Faixas:

1 - 5/4

2 - Ba-Ba-Dar

3 - Bottleneck

4 - Hailow

5 - Jazzer

6 - Simple Expressions

7 - Coward Way

8 - Smukke

9 - Electric



"Blues Addicts" - Versão original (1970)


"Blues Addicts" - Relançamento com faixas extras e inéditas (1991)

























 





quinta-feira, 12 de junho de 2025

Hair - Piece (1970)

 

A transição das décadas de 1960 e 1970 para o rock n’ roll foi extremamente importante, porque tínhamos, lá pelo ano de 1967, 1968 e 1969, o ápice do rock psicodélico e o surgimento de algumas bandas que tinham o desejo de trazer uma música mais crua, pesada e agressiva, fugindo do experimentalismo e do “beat” da psicodelia.

E quando os anos 1970 foram descortinados o hard rock estava florescendo, juntamente com a versão, digamos, mais sofisticada do psicodelismo, que era o prog rock. Eram períodos embrionários, de tendências sonoras e fim de outras cenas e muitas bandas flertavam com muitas sonoridades. Estereótipos à parte muitos álbuns que surgiram no final da década de 1960 e início dos anos 1970, mesclavam o rock psych com o hard e o prog.

Eram épocas que não se podia pontuar um álbum como majoritariamente de hard, prog ou psych, as bandas estavam delineando seu som, definindo sua sonoridade, aparando as suas arestas sonoras e se permitiam, apenas, à liberdade criativa, sem se preocupar tanto com os rótulos.

Caro leitor, avaliem, percebam ao ouvir álbuns inaugurais de grandes e famosas bandas, por exemplo, principalmente aquelas que gravaram seus primeiros álbuns nessa transição das décadas e verão que são trabalhos distintos uns dos outros ou verão ainda que essas vertentes sonoras estavam presentes em um só álbum!

E a banda que eu falarei hoje, com o seu único álbum lançado, exatamente no fim de uma década, a de 1960 e o início da outra, a década de 1970, no ano de 1970, trouxe, em seu trabalho, nuances bem definidas de hard rock, de peso, de lisergia, de psicodelia e de rock progressivo. Falo da dinamarquesa HAIR.

A banda foi formada na cidade de Copenhague, capital da Dinamarca, no auge do rock psicodélico, 1967, mas sob o nome de “Second Review”. Naquela época era um “power trio”, inspirando-se na mais famosa banda de power trio” de todos os tempos, o Cream, e tinha, em sua formação Benny Dyhr, na guitarra e vocal, Allan Sorensen, no baixo e vocal e Peter Valentin Rolnes, na bateria e vocal. Esses músicos, todos muito jovens, na faixa dos 20 anos de idade, fizeram vários shows por Copenhague e na Nova Zelândia. Foi nessa época também que eles se juntariam ao crítico musical e letrista Torben Bille.

O Second Review tocava primordialmente uma espécie de “beat progressivo”, aquela música dançante e chapante com viagens psicodélicas e progressivas, com muito experimentalismo. Era basicamente o que se ouvia à época. A banda, por mesmo sendo dinamarquesa, se inspirava na cena psicodélica norte-americana, com nuances britânicas.

Porém mudaria a sua sonoridade quando Paddy Gythfeldt, vocalista, tecladista e vocalista, entrou para a banda, tornando-se um quarteto. Mudaria também o nome da banda, passando a se chamar “Hair”. Como o “antigo” Second Review a cena vigente na Dinamarca sofreram influências do rock psicodélico dos Estados Unidos e da Inglaterra, mas com a nova concepção sonora do agora Hair, a banda passou a destoar da cena local praticando um som mais calcado no hard rock e na sofisticação do rock progressivo que nascia para o mundo lá pelo ano de 1970, aproximadamente.

Hair em 1969

E com uma nova formação, um novo nome e uma nova sonoridade, a banda partiu para o estúdio (não demorou muito) para gravar seu debut. Este foi concebido, foi gravado no “Wifos Studio”, entre abril e junho de 1970, com o nome de “Piece”. A produção de “Piece” teve, a contrário da época do Second Review, um trabalho mais ostensivo de marketing, com muitos shows e uma cobertura grande da imprensa musical e foi lançado, como disse, em 1970, pelo selo Parlophone Records.


O álbum, com isso atingiria o status da produção de rock dinamarquesa mais cara até então. Estava ganhando visibilidade. Para se ter uma noção do tamanho que a banda estava atingindo, vieram, após o lançamento de “Piece”, mais quatro singles, um dos quais, “Happy Child”, chegaria ao sétimo lugar das paradas dinamarquesas!

"Happy Child"


E falando de “Piece”, traz um excelente heavy rock com pitadas generosas de rock psych, típico da virada da década de 1960 e 1970, com toques perceptíveis de rock progressivo em algumas faixas de seu álbum, com viradas de andamento rítmico de tirar o folego, com peso na bateria, com batidas marcadas e pesadas, riffs pesados e grudentos de guitarra, em alguns momentos bem lisérgicos e em uma salutar disputa com o órgão Hammond, com destaque também para os vocais de Paddy Gythfeldt e tudo cantando na língua inglesa. Não sou um entusiasta de comparações, mas remete ao Blue Cheer, ao Iron Butterfly, Cream, entre outras bandas que aspiravam à música pesada já no fim dos anos 1960.

O álbum é inaugurado pela faixa “Coming Through” e já se apresenta animada, com riffs de guitarra mais dançantes, ao estilo soul music, que logo dá lugar a um órgão mais austero e bateria com batida cadenciada. Porém o hard rock, na metade da faixa, ganha destaque com a bateria em outra levada, mais pesada, agressiva, com os teclados ainda ditando o ritmo.

"Coming Through"

“Supermouth” entrega a pegada hard logo no início. Batida forte da bateria, riffs pesados e pegajosos de guitarra. Baixo pulsante. Não podemos negligenciar o trabalho da cozinha, da seção rítmica desta faixa excepcional. Os teclados são animados, cheios de energia.

"Supermouth"

“Dream Song” começa com dedilhados de violão, uma atmosfera acústica, diria pastoral, mas logo irrompe em riffs pesados de guitarra e retorna com a sonoridade mais suave e viajante, agora com solos, embora curtos, mas bonitos de guitarra. Nessa faixa as mudanças de andamento rítmicos ditam as regras. A pegada hard e prog se fazem presentes, além de pitadas psicodélicas. É um som encorpado, orgânico e sofisticado. Sem dúvida uma das melhores músicas do álbum.

"Dream Song"

“Everything's Under Control” começa como um trovão, uma hecatombe de riffs pesados e lisérgicos de guitarra, com bateria dura, pesada e marcada. O vocal no megafone me remete às músicas do rock dos anos 1960, porém com uma pegada mais incisiva e agressiva. Mas não deixa de ter uma pegada pop, um hard rock um pouco mais cadenciado.

"Everything's Under Control"

“Pleasant Street” mostra vocais à capela e dedilhados doces de piano iniciam a música, mas por pouco tempo, porque ela logo explode com uma bateria pesada e rápida que a deixa rude e agressiva, corroborando com riffs de guitarra. Mas o destaque realmente centraliza na batida, quase que contínua, pesada da bateria.

"Pleasant Street"

E fecha, com chave de ouro, com “Piece (Of My Heart)”, que já entrega, na sua introdução um solo direto, mas bem elaborado de guitarra com uma camada de teclados que traz uma pegada psicodélica. A realidade é que eles rivalizam salutarmente entregando um hard psych na medida, na dosagem perfeita. Uma vibe ao estilo Jefferson Airplane. Solos de guitarra, ao longo da faixa, são ouvidos com mais destreza e emoção e, com isso, a música vai assumindo contornos de hard rock. Essa música foi popularizada por Janis Joplin.

"Piece (Of My Heart)"

A banda, após o lançamento de “Piece”, não teve uma longa vida. Chegou a gravar mais singles, cerca de quatro músicas, como disse, mas se desfez em 1971. O tempo de vida muito curto e precoce, lamentavelmente, levando-se em consideração o talento de seus músicos, com uma sonoridade muito espirituosa, bem executada. Eram promissores e ficaram apenas em um único álbum. Eles chegaram a se reunir novamente para gravar as seções do segundo álbum, mas se separariam, em seguida.

Em 1972, o baixista Allan Sorensen e o baterista Peter Valentim se juntariam novamente para formar a banda RiverHorse. A título de curiosidade a origem e a inspiração para o nome da nova banda partiu de uma piada infantil dinamarquesa, que é: “O cavalo do rio tem algo ruim, então não entre”. Peter, que era baterista no Hair, queria mudar para o baixo no RiverHorse e Allan, que tocava baixo, migrou para a guitarra, como começou na sua carreira.

A banda foi muito ativa, entre 1972 e 1976, gravando cerca de 100 músicas, mas tiveram dificuldades para emplacar ofertas de gravadoras dinamarquesas, que optavam por bandas que cantassem no idioma local e em 1976 o RiverHorse sairia de cena. Mas voltaria em 1981 e desde então está na ativa até os dias atuais, produzindo álbuns, fazendo shows pela Dinamarca.

Riverhorse em 1990 e 2001

Em 2004 o selo Walhalla Records faria o primeiro relançamento, no formato CD, de “Piece”, trazendo os singles que foram lançados após o lançamento deste álbum. Teria também um relançamento, também em CD, pelo selo Frost Records, licenciado pela EMI-Medley Records. Há um livreto de 16 páginas escrito pelo crítico de rock dinamarquês Torben Bille, contando a história da banda e da época. Há, porém, um relançamento mais recente, de 2019, pela gravadora Mayfair, que vem com um LP bônus de 25 minutos de seus singles.




A banda:

Paddy Gythfeldt no Órgão, Guitarra, Vocal Principal

Benny Dyhr na Guitarra, vocal

Allan Sorensen no Baixo, vocal

Peter Valentin Rolnes na Bateria, Percussão, vocal

 

Faixas:

1 - Coming Through

2 - Supermouth

3 - Dream Song

4 - Everything's Under Control

5 - Pleasant Street

6 - Piece (Of My Heart) 




"Piece" (1970)













 






























sexta-feira, 28 de março de 2025

The Ghost - When You’re Dead – One Second (1970)

 

Quando você lembra da cidade fabril britânica de Birmingham de quais bandas você lembra quase que forma imediata? Claro que o Black Sabbath em primeiro lugar e logo depois o Judas Priest! Bandas que são sinônimos de música pesada, os primórdios do heavy metal.

Mas não se enganem, estimados leitores, a cena desta cidade na Inglaterra não se resume à música pesada dos precursores e famosos Sabbath e Priest, se estendendo a uma rica e diversificada vertente sonora que vai do progressivo ao folk rock.

Evidente que a esmagadora maioria estão no submundo de sua existência, povoando a obscuridade, tendo uma efêmera vida, mas que, como cometas, passaram, causaram algum impacto e sumiram, algumas sem dar vestígios.

A minha caminhada pelo desbravar da música obscura e suas bandas tem me proporcionado a descoberta de algumas pérolas e, quando o blog foi concebido, a explosão se deu, pois, a sua essência é trazer as histórias das bandas marginalizadas pela indústria e seus audaciosos álbuns e isso é motivo de um arrebatamento impressionante, trazendo luz e realidade a cenas que jamais pensei ter um tamanho quase que descomunal.

E uma banda que conheci, há alguns anos atrás, me trouxe, diria descortinou diante da minha retina, um lado da cena rock de Birmingham que jamais esperava que fosse existir: THE GHOST.

Aos aficionados pela música rara e obscura o The Ghost talvez não esteja no patamar de uma banda rara, totalmente desconhecida, porém ainda é inegável dizer que esta banda, principalmente comparando-a aos icônicos filhos da terra, como Sabbath e Priest, esteja em uma condição de underground inclusive de sua cidade natal, quiçá do mundo.

The Ghost

Mas, a meu ver, acredito ser o mais relevante, quando se fala do The Ghost, não seja tanto o “nível” de sua obscuridade e sim a sua sonoridade, que se dispersa totalmente do óbvio que se praticava à época naquela cidade na segunda metade dos anos 1960 e início dos anos 1970. Um som híbrido que trafega no hard rock com pitadas lisérgicas, um progressivo de vanguarda, com a predominância do órgão, a onipresença dos sintetizadores que traz uma versão folk sombria, arrastada e soturna.

Uma “sopa” sonora que tem como pilar o rock psicodélico, mas nada muito experimental, pois traz exatamente o peso, por vez, visceral de riffs de guitarra, de vocais gritados e “cozinha” rítmica enérgica e animada. Nome do álbum: “When You’re Dead – One Second”, de 1970. O único, inclusive! Mas antes de entrar mais detalhadamente na história do álbum, falemos, um pouco mais, do The Ghost e seus primórdios.

O núcleo do The Ghost se formou, em 1969, em torno do ex-guitarrista do Velvet Fogg, Paul Eastment, que era primo de nada menos que Tonny Iommy, guitarrista do Black Sabbath, Charlie Grima, na bateria, Terry Guy, no órgão, piano e vocal e Daniel McGuire, no baixo e vocal. Entrando, um pouco mais tarde a multi-instrumentista e vocalista Shirley Kent. Eis a formação do The Ghost que, quando surgiu, se chamava “Holy Spirit” que, por razões óbvias, decidiram encurtar.

Quando Shirley se reuniu à banda, ainda em 1969, lançaram seu primeiro single, seguido por uma produção completa ainda naquele ano, mais precisamente no final daquele ano. Assim ganharia o mundo o “When You’re Dead – One Second”.

Antes de Shirley Kent ingressar na banda, o The Ghost tocava uma espécie de blues rock em pequenas casas de shows, tendo na figura de Kent a importância na nova concepção sonora que culminou no seu único rebento, que, embora tenho sido finalizado em 1969, foi lançado oficialmente em janeiro de 1970, pelo selo Gemini. Em 1971 o álbum foi lançado no Reino Unido e na Espanha pelos selos Exit / Ekipo Records, respectivamente.

Shirley já gozava de algum reconhecimento na cena musical e havia gravado, em 1966, duas faixas para um EP, “The Master Singers And Shirley Kent Sing For Charec 67 (Keele University 103)”, além de Eastment, o guitarrista, que havia tocado, também pelos idos de 1966, no Velvett Fogg.

Já que mencionei o Velvett Fogg, não podemos negligenciar sua interessante, porém curta história, onde além do Paul Eastment, que fundou o projeto, contou, em seu line-up com Tony Iommi, seu primo, mesmo que tenha sido em apenas um show e o tecladista Frank Wilson que se juntaria ao Warhorse.

A banda lançaria o seu álbum autointitulado, em janeiro de 1969, pelo selo Pye, com uma capa deliciosamente escandalosa, onde a banda estava fotografada juntamente com duas modelos com os seios nus, disfarçados de uma obra de pintura corporal. Será que em dias atuais ela seria “cancelada” pelos pseudo conservadores da internet.

"Velvet Fogg" (1969)

Embora Shirley Kent tenha sido determinante para a nova orientação sonora do The Ghost, percebe-se, ao ouvi-lo, que há contrastes entre as músicas que Kent canta, com uma pegada mais folclórica, mais folk, além da pegada mais ácida, com aditivos de blues rock bem generosos pelo resto da banda, fazendo com que seu único trabalho apresente algo bem diversificado, sonoramente falando.

A capa, a arte gráfica do álbum é deveras assustadora e, embora não goze de uma beleza arrojada, mostra uma imagem translúcida fantasmagórica, daí talvez o nome da banda, dos seus cinco integrantes, em torno de uma grande lápide, encabeçada por uma cruz celta. No mínimo horripilante e muito instigante para os apreciadores de occult rock.

Feitas as devidas apresentações históricas, falemos um pouco de cada faixa, a começar pela “When You’re Dead”, a faixa título, que entrega, de imediato, alguma velocidade na sua condução, algo mais calcado no hard psych, apoiada fortemente pelos teclados de Terry Guy e uma guitarra que, por mais que não soe tão sofisticada e bem elaborada nos seu timbres e solos, se mostra como tem de ser, levando em consideração a sua proposta sonora: lisérgica e áspera. As intervenções vocais têm forte conotação sombria, trazendo momentos mais agressivos, gritados, potentes. Já se revela, na sua introdução, um álbum espetacular e muito diverso em sua sonoridade.

"When You're Dead" (1970)

Segue com “Hearts and Flowers” mostra, além dos impulsos sombrios, traz os riffs ácidos de guitarra, o impulso psicodélico dos teclados e o rock métrico da seção rítmica, bem como a pegada folk de Kent, fechando uma sonoridade diversificada, diria até arrojada, mas ainda assim apresenta uma “compostura” clássica. “In Heaven” une espirais concêntricas de teclados, com coros altos, vocais tenebrosos, com um pouco de emoção perversa dando a textura da faixa. Não se enganem, amigos leitores, com o título da música!

"Hearts and Flowers"

“Time is my Enemy” segue similarmente à proposta de “Hearts and Flowers”, onde gira em torno de todos os instrumentistas, mas com o destaque, para ambas as faixas, inclusive, para o vocal de Shirley Kent, bem definida e diria, sem medo de ousar, poderosa. O destaque também fica para a guitarra igualmente poderosa de Eastment, com seus riffs psicodélicos tendendo mais para o hard rock.

"Time is my Enemy"

Na sequência temos “Too Late to Cry”, onde temos um dos episódios mais cativantes do álbum, que consiste, do começo ao fim, em viradas de guitarra espetaculares, galopantes, que aumenta, com ímpeto, uma veia mais para o occult rock. Não se pode esquecer do suporte robusto do baixo, pulsante e enérgico. Mas o melhor estaria por vir no longo solo de Eastment, na guitarra, que floresce no meio da faixa, simples e intenso, ao mesmo tempo.

"Too Late to Cry"

“For One Second” tenta, e com êxito, entrelaçar seus diferentes humores, para constatar seu viés progressivo, mesmo antes desta vertente sonora ganhar um pouco mais de visibilidade, tendo, como base, a textura dos teclados, criando uma espécie de tensão, além de leve arpejo de guitarra. “Night of the Warlock” traz um curioso country music mergulhado em ácido. Uma lisergia country bem apreciável e instigante, diria. O refrão é sombrio e até atordoante, com alguns dedilhados discretos de guitarra. Me remeteu a alguns rituais, algo pagão.

"For One Second"

“Indian Maid” é primordialmente lisérgica e se torna um tanto quanto sombria no seu refrão, pois me remete a uma invocação de uma missa negra, trazendo, ainda, algo meio teatral a sua estrutura sonora. É tenso, um pouco intenso, é cênica, é vívida. “My Castle Has Fallen” tem uma verve rítmica de sobra, que beira a perfeição, com uma boa dose de ousadia e coragem entre os vocais, mas o órgão, os teclados de Guy definitivamente iluminam a música, sendo contagiante e excitante, dispensando a leveza do que se fazia na música nos anos 1960, sendo enérgica e solar.

"My Castle Has Fallen"

E finalmente fecha com a faixa “The Storm” que traz uma síntese das diferentes peculiaridades da banda, com a voz de Shirley Kent gélida e distante. A faixa bônus, que saiu na reedição do selo Mellotron, no formato CD, “I’ve Got to Get to Know You” entrega uma versão austera, quase que arrogante, com uma pegada folk rock psicodélica bem interessante, além de uma seção rítmica calcada em uma bateria simples e comum, mas um baixo de excelente substância.

"The Storm"

“When You’re Dead – One Second” não foi um sucesso comercial e a tendência, triste e inevitável, era de que a banda pudesse se separar. Existia o interesse, por parte de alguns integrantes, de continuar com a banda, mas pelo simples fato de não ter a unanimidade para manter o The Ghost já suscitava para o início de um iminente fim.

E foi o que aconteceu! Em 1975 Shirley Kent, sob o pseudônimo de Virginia Trees, concretizaria seus desejos de uma carreira solo, gravando o seu primeiro álbum chamado “Fresh Out”. Mas ela contaria com Paul Eastment na guitarra e Terry Guy no piano e teclado em sua banda para a concepção do seu debut.

"Fresh Out" (1975)

Daniel MacGuire morreria de um ataque cardíaco em 1998, deixando em sua filha, Zennor, a herança musical. Hoje ela é um músico que atua no underground e está buscando um lugar ao sol da sua carreira. Charlie Grima, após o The Ghost, tocaria bateria em uma banda chamada Mongrel, participando da gravação de um álbum chamado “Get Your Teeth Into This”, de 1973.

"Get Your Teeth Into This" (1973)

The Ghost, com o perdão da analogia, vagou invisível e obscuramente pela cena rock, no sussurro da psicodelia e no alvorecer do hard rock no início dos anos 1970. Isso não deduz ausência da qualidade sonora que produziu com seu único álbum, afinal muitas bandas pereceram precocemente naqueles longínquos anos, deixando um ótimo trabalho que, por mais que possa parecer incoerente, serviu de referência para a transição do rock psicodélico para o hard rock e rock progressivo, servindo de norte para muitas bandas que viriam a surgir logo depois de sua repentina morte. The Ghost tornou-se necessário, mesmo que tenha sofrido na própria carne, em prol de um novo despertar de vertentes sonoras que revolucionariam o rock na prolífica década de 1970.

Em 1987 o selo Bam-Caruso relançou o álbum do The Ghost, no formato LP, com o título “For One Second”, com a adição do single que não foi lançado no LP de 1970, “I’ve Got to Get to Know You”. Em 1991 o selo UFO Records, da Inglaterra, lançaria o álbum, em CD. O icônico selo italiano Mellotron lançaria, no formato CD, o álbum “When You’re Dead” em 1991, 1999 e 2005.

O selo que lançou o álbum originalmente, Walhalla, o relançaria, em CD, em 2006, o selo espanhol Wah Wah, relançaria, em LP, em 2007, a gravadora Tam-Tam, norte-americana, lançaria, em CDr, em 2007. O Mellotron novamente faria uma série de relançamentos do álbum entre 2010 e 2024, seja no formato LP ou CD. Posteriormente a 2024 tiveram outros relançamentos pirata e outras também do selo Mellotron.

 

A banda:

Terry Guy no órgão e piano

Shirley Kent na guitarra acústica, tamborim e vocal

Paul Eastment na guitarra solo e vocal

Daniel MacGuire no baixo

Charlie Grima na bateria e percussão

 

Faixas:

1 - When You're Dead

2 - Hearts and Flowers

3 - In Heaven

4 - Time is my Enemy

5 - Too Late To Cry

6 - For One Second

7 - Night off The Warlock

8 - Indian Maid

9 - My Castle Has Fallen

10 - The Storm

11 - Me and my Loved Ones

12 - I've Got to Get to Know You




"When You're Dead - One Second" (1970)