Mostrando postagens com marcador Blues. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Blues. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de outubro de 2022

Psycheground - Psychedelic and Underground Music (1971)

 

Não é novidade aos queridos amigos leitores que o cerne deste humilde e reles blog é sobre as bandas obscuras, isto é, pouco conhecidas do grande público. Aqueles álbuns e bandas que não tiveram nenhum apoio, foram esquecidas, caíram simplesmente no ostracismo e engavetadas no baú escuro e empoeirado do rock n’ roll.

Mas parece que algumas bandas encarnam essa condição, tem como método existir dessa forma e praticam, concebem a sua música, a sua arte, nesse aspecto. São obscuras e edificam a sua história dessa forma. São tão raras, tão obscuras e undergrounds que sequer tem a certeza dos nomes dos seus integrantes, não há nomes, não há silhuetas de sua anatomia, não há registros, nada.

E para nós, amantes, enamorados do rock obscuro, não há nada melhor e estimulante ter acesso, ouvi-las e melhor: quando gostamos. A excitação parece se incontida! E para mim, que cria textos sobre muitas delas, que pesquisa sobre elas, parece ser superlativo esses sentimentos de prazer.

E a banda alvo de mais um novo texto veio até mim, graças, claro, às minhas incursões pela grande rede, pelas redes sociais e outros canais de comunicação que, abnegados que são, difundem a música obscura a todo preço. E quando ouvi seu álbum foi como se arrebatado fosse por um trovão sonoro que me chacoalhou dos pés à cabeça! Aquele som, aquela banda, aquele álbum que, quando estabelecemos um primeiro contato, já te deixa de joelhos em uma sensação prazerosa de subserviência.

E essa banda vem, adivinhem, da Itália! Ah a Itália, bons amigos leitores que, a cada dia nos proporciona novidades em todas as suas gerações, em todas as suas décadas e momentos históricos. E o melhor é que a década de 1970 naquele país parece interminável, inesgotável nas suas bandas, nos faz parecer ser uma selva ainda intocada, selvagem, um universo vasto e inexplorável.

Mas sem mais delongas vamos às devidas apresentações. Essa banda se chama PSYCHEGROUND. O nome denuncia os seus predicados: psicodélico, mesclado a momentos de hard rock, jazz rock, blues e súbitos momentos de prog rock ainda embrionário na Itália.

À época a banda, dada a sua aura misteriosa, foi confundida, até pela sua sonoridade por mais uma banda britânica. E claro, além do seu nome, em inglês, e pela música, muito típica da Inglaterra, sugestiona o ouvinte a esse caminho, mas não, a banda foi concebida em terras italianas.

Se o nome denuncia a sua vertente sonora, a capa, desenhada em um intenso e chamativo fundo vermelho, traz um homem, de proeminente barba, com uma bandana colorida, o que, se me permitam a licença poética, retratavam, em imagens, os costumes, os comportamentos da época, a contracultura na música, capitaneada pela música lisérgica, psicodélica.

E o que dizer do nome do único álbum lançado em 1971? Simplesmente se chama "Psychedelic and Underground Music"! Música psicodélica e underground! O nome entrega a sua condição, mostra o seu direcionamento, define a obscuridade de sua história.

E quem esteve por trás de "Psychedelic and Underground Music"? Na época se tratava de um mistério! Ninguém sabia quem eram os músicos que conceberam este álbum e quem compôs as suas músicas. No álbum lançado nos primórdios anos 1970 não tinha fotos, não tinha nomes, nada que apresentasse os caras que estiveram por trás deste excelente trabalho, mas tinha um nome, um pseudônimo: “Ninety”.

“Ninety” era Gianpiero Reverberi, figura conhecida na música italiana nos anos 1960 e 1970 e foi quem escreveu, concebeu as músicas de “Psychedelic and Underground Music” e também produziu o New trolls e o Le Orme, sendo que neste último foi, por um curto período de tempo, membro efetivo da banda. E os responsáveis por materializar em estúdio as músicas, por questões contratuais, foram os músicos do Nuova Idea, banda que sequer ainda tinha lançado seu primeiro álbum, com este nome, o “In The Begining”, em 1971. “Psychedelic and Underground Music” foi gravado no estúdio de Gianpiero Reverberi.

Nuova Idea - "In The Begining (1971)

O genovês Gianpiero Reverberi se notabilizou, além de trabalhar com o rock n’ roll italiano nos anos 1970, por trabalhar em uma ampla gama de mídias, como temas sonoros para TV, trilhas sonoras para os famosos “faroestes espaguetes” e ao lado de Robert Mellin compôs a memorável música tema para a TV a série infantil “As Aventuras de Robinson Crusoé”, em 1964, além de produzir também álbuns de muitos cantores populares da Itália.

Gianpiero Reverberi (Ninety)

E a formação da banda tinha Enrico Casagni no baixo, flauta e vocal, Claudio Ghiglino na guitarra e vocal, e Paolo Siani na bateria e vocal, Giorgio Usai nos teclados e vocal, e Marco Zoccheddu na guitarra e vocais. Seus nomes não foram creditados no álbum lançado, nas apenas 500 cópias lançadas em 1971 pelo pequeno selo “Lúpus”. E, nessas condições, outras bandas também lançaram seus álbuns sem creditar músicos, nesta mesma camada de mistério, tais como Planetarium, Blue Phantom, Fourth Sensation e Underground Set.

Nuova Idea no início dos anos 1970

E já que mencionei o Undeground Set vale aqui um adendo a essa banda que tem, além da sonoridade, muita coisa em comum com o Psycheground. O Underground Set, com o seu primeiro álbum, lançado em 1970, mas “construído” ainda nos anos 1960, teve as suas músicas compostas pelo próprio Gianpiero Reverberi e a banda que as executou foram também da banda Nuova Idea.

"The Underground Set" (1970)

Reza a lenda que, além de Reverberi, outros compositores participaram de “Psychedelic and Underground Music”, são eles: Sandro Brugnolini, Massimo Catalano e Stefano Torossi. Tais nomes, para variar, não foram creditados no álbum, portanto não está confirmada a informação se de fato participaram da composição das cinco faixas do álbum ou teriam assinado essas composições para fins comerciais, promocionais, uma prática frequente naquela época, obrigando muitos músicos e artistas a usar um ou até mais pseudônimos.

“Psychedelic and Underground Music” é um álbum predominantemente instrumental, com raros momentos de harmonizações vocais e nada mais trazendo muita psicodelia, um hard psych de muito respeito, rhythm & blues e levadas bem comerciais, radiofônicas, diria, apesar de ser álbum obscuro e raro, com um cunho, como disse fortemente britânico, o que levou a muita gente, à época de seu lançamento, crer se tratar de uma banda britânica.

O álbum é inaugurado pela faixa-título, “Psycheground”, e de entrada já nos brinda com um riff pesadão de guitarra, mesclado a um hammond bem nervoso, um típico, mas poderoso, hard psych ao estilo Cream. Uma sonoridade que nos remete às bandas potentes dos anos 1960. Uma guitarra ácida, lisérgica que nos faz balançar, bater a cabeça, mas, sobretudo viajar loucamente em sua loucura necessária.

"Psycheground"

“Easy” inicia cadenciada ao som da bateria, algo meio jazzy, talvez, com o hammond delicadamente ao fundo, trazendo aquele tempero psicodélico, juntando ao riff de guitarra que entrega uma pegada meio funk, dançante, tudo envolto em um clima lisérgico, como sempre.

"Easy"

“Traffic” começa introspectiva, ao som de dedilhadas notas de guitarra e harmonizações vocais ao estilo Vanilla Fudge e contemplativa na sua introdução vai ganhando corpo, com riffs mais pesados de guitarra e os teclados mais eloquentes e logo irrompe com um solo de guitarra lindíssimo, a música ganha peso, mas logo volta contemplativa. Um exemplo de progressivo clássico.

"Traffic"

“Ray” é solar, animada, uma energia mais evidente, marcada por uma levada mais pop, mais acessível, mais radiofônica, diria. O piano ganha destaque e é a camada, a textura por trás da música, a base da música e ganha uma versão mais rock, com um solo pesado de guitarra, mostrando uma banda extremamente versátil.

"Ray"

E o fim do álbum traz a faixa “Tube” que, certamente é a mais jazzística de todas, um jazz rock que tem o “recheio” da lisergia, da psicodelia, com o hammond conferindo essa textura ácida à música. A qualidade da banda e de seus músicos pode ser traduzida, materializada nessa música.

"Tube"

Algumas das faixas do “Psychedelic and The Underground Music”, como “Psycheground” e “Ray” estiveram em uma compilação promocional chamada “Oggi & Domani”, lançada pela “Leo Records”, em 1971. E aqui também vale outra curiosidade que o “Ninety”, o nosso Gianpiero Reverberi, usou seu pseudônimo para uma faixa no álbum “Ventaglio Musicale”, de Beppe Carta. A última faixa desse álbum contou com a composição de Gianpiero.

 

"Ventaglio Musicale'

"Oggi & Domani"

Reza a lenda também de que possa ter sido uma faixa remanescente de “Psychedelic And Underground Music”. A história é de que tenha sido um corte ou um take estendido de uma sessão de gravação para a penúltima faixa “Ray”. E a última teoria é devido ao longo tempo de execução da faixa, não havia espaço suficiente para ela no álbum “Psychedelic and The Underground Music”.

E não podemos deixar de falar da dupla Gianpiero Reverberi e do seu irmão, Gianfranco Reverberi, também muito conhecido na Itália por produzir trilhas sonoras para os filmes, séries de TV da Itália. Ambos gravaram junto um álbum também muito conceituado na Itália que leva o sobrenome dos irmãos.

Irmãos Reverberi

O álbum original, lançado em 1971, pelo Psycheground é muito raro, afinal, como disse, foram apenas 500 cópias prensadas naquele ano, sendo, claro considerado, por colecionadores, uma preciosidade do rock italiano. “Psychedelic And Underground Music” foi relançado, em vinil, pela Cinedelic Records em 2008 e CD pela AMS em 2009.

Um clássico raro e obscuro e que corrobora a sua condição, a sua história em seu nome e que marcou um curto, mas significativo momento do rock italiano, com sonoridades, embora com uma forte influência do rock britânico dos anos 1960, com algumas grandes bandas e álbuns que inauguraram a brilhante e vultosa cena progressiva da Itália e que, até os dias de hoje, se perpetua com grandes novidades. Psycheground com o seu “Psychedelic and The Underground Music” definitivamente é uma preciosidade sonora e que vale cada segundo de nossa audição.


A banda:

“Ninety” (Gianpiero Reverberi) na composição das músicas

Enrico Casagni no baixo, flauta e vocal

Claudio Ghiglino na guitarra e vocal

Paolo Siani na bateria e vocal

Giorgio Usai nos teclados e vocal

Marco Zoccheddu na guitarra e vocais

 

Faixa:

1 – Psycheground

2 - Easy

3 - Traffic

4 - Ray

5 - Tube

 

"Psychedelic and Underground Music" (1971)


 

 

 





















 







 


segunda-feira, 18 de julho de 2022

Armaggedon - Armaggedon (1970)

 

Estamos em um período de escassez criativa! Essa talvez seja a minha única crítica, a minha única preocupação no rock n’ roll. Eu tentei, em dado momento ou em vários momentos, refletir o que tem acontecido com a cena rock. Talvez seja a forma como ouvimos a música ou como buscamos por ela. Contextualizei a possibilidade de que estivesse garimpando erradamente, buscando as mesmices do mainstream que traz, em sua maioria, bandas sem alma e vendidas a um anseio vazio de um mercado ávido por música pasteurizada e que evita a reflexão ou coisa que o valha.

O que dizer da cena stoner e doom metal, que há pouco mais de 20 anos, aproximadamente, vem crescendo, principalmente em termos quantitativo, chegando ao patamar de saturação? Será que estaria enganado quanto a tal escassez criativa? Talvez! Afinal as bandas são excepcionais, ou pelo menos a esmagadora maioria, mas hoje vejo cópias surgindo, o famoso e temível “mais do mesmo” e nada além, nada que de fato arrebatasse o ouvinte, transformando-se em uma espécie de amontoado de bandas e álbuns.

Nada se assemelhará aos incríveis anos 1970 que, claro, como toda cena, surgiram também os oportunismos e a falta de originalidade, mas foi a época em que as bandas, em todo o planeta, experimentaram, trouxeram elementos peculiares à sua música trazendo conceitos sonoros arrojados e que não se renderam aos estereótipos da qual somos escravos e vítimas atualmente.

E já que estou falando do arrojo sonoro, da música, não há como deixar de mencionar a cena rock alemã de meados dos anos 1960 e todos os anos 1970, tendo o krautrock como o seu pilar e a sua referência. Apesar de ser um nome pejorativo, em tom de galhofa por parte da imprensa britânica, o kraut trouxe novidades a uma Alemanha pós-guerra, sem auto estima cultural e bandas que, nos primórdios, eram tidos como grupos de hippies que queriam peitar o status quo, trazendo  uma nova perspectiva cultural, comportamental e política para a Alemanha, aventuraram-se na música psicodélica, lisérgica, buscando a referência no movimento contracultural norte americana, sobretudo, claro, no rock psicodélico.

E uma banda, voltando à Alemanha, por mais rara e obscura que tenha sido, foi de suma importância para um movimento musical do rock que ostentava o minimalismo, o experimentalismo, a introspecção, a viagem psicodélica repleta de ruídos, barulhos eletrônicos. Essa banda colocou em um caldeirão o rock psicodélico, o blues rock e o hard rock, em pleno início de 1970, onde o krautrock, principalmente em bandas mais emblemáticas como Kraftwerk, Amon Duul II e Can, se ouvia a viagem experimental. Falo do ARMAGGEDON!

Mas não se enganem com o Armageddon britânico formado pelo icônico guitarrista e vocalista Keith Relf, que inclusive a sua resenha pode ser lida aqui, ou ainda da banda norte americana Armaggedon, mas da banda alemã, talvez a menos conhecida das suas “irmãs” de mesmo nome.

A palavra “Armagedão” ou “Armageddon” é atribuída ao livro de São João, ao Apocalipse de São João, o último livro da Bíblia e, diante, desses conceitos e visões apocalípticas que esse livro traz, entrega também a inspiração para batizar bandas de rock, afinal, tem tudo a ver, não acham? Essa necessidade premente de chocar, de trazer o impacto a sociedade pseudo conservadora também foi uma tônica no rock germânico dos anos 1960 e 1970 e por que não dizer dos dias atuais naquele país?

O Armaggedon alemão surgiu da mente de um brilhante guitarrista chamado Frank Diez que começou a sua carreira em 1960 e sempre à frente do seu tempo, começando a tocar blues rock e tinha como inspiração musical, claro, o blues americano, bem como o folk rock, muito típico nos anos 1960. Em seu site (frankdiez.de), ao ler a sua biografia, diz que ele foi o único guitarrista alemão que teria tocado com Jimi Hendrix, Chuck Berry e Little Richard. Uau! Que escola! Se de fato esses momentos acontecerão, é totalmente compreensível essa veia bluseira pesada, intensa.

Frank Diez

E assim o foi quando formou o Armaggedon! Tinha como base o blues, o blues rock que surgia na Inglaterra com o Jeff Beck, o Cream, no Canadá com o Steppenwolf e tiveram nessas bandas o pioneirismo no estilo, na fusão do rock com o blues em um acabamento mais pesado, mais agressivo, fugindo e muito do que fazia o Rolling Stones, na sua gênese. E ousaria dizer que o Armaggedon criou esse conceito na Alemanha. E as vezes me pergunto: Como que essa banda é pouco conhecida? Como que essa banda não ganhou o reconhecimento naquela época?

O Armaggedon era formado, além do guitarrista Frank Diez, pelo vocalista e tecladista Manfred Galaktik, o baixista Michael Nurnberg e o baterista Jurgen Lorenzen. Hoje esses nomes podem não dizer nada, mas graças a abnegados que trabalham positivamente com as redes sociais que difundiram sua música e que nos faz chegar a conclusão de sua importância para à época, trazendo uma inspiração sonora anglo-americana com uma cara totalmente germânica, com o peso e a agressividade que o rock naquele país produziu.

Armaggedon

O Armaggedon assinou contrato com o lendário selo “Kuckuck”, em 1970 e as gravações para o seu debut começaram na virada de julho para agosto daquele mesmo ano. Os caras ficaram, pasmem, apenas nove dias em estúdio! Em menos de duas semanas a banda foi capaz de fazer história, mesmo que não reconhecida em 1970, no rock alemão. O suficiente para que hoje seu álbum seja objeto de suspiro e de loucura para todos os amantes de rock, e acredito que, diante do ostracismo em 1970, há quem tinha se deixado arrebatar para este álbum no seu primórdio.

O álbum, homônimo, lançado em 1970, além da notável e brilhante referência do blues rock, com pitadas psicodélicas, trazia algumas inspirações progressivas, tudo isso envolto em uma chama pesada do hard rock. Eram os anos 1970 e eram perceptível bandas flertarem com tantos estilos que ainda eram meio que embrionários, estavam em formação.

O álbum é inaugurado com a música “Round” e já começa com o pé na porta. Um senhor petardo, um voluptuoso hardão setentista com riffs pesados, arrogantes e pegajosos. Diria que essa faixa pode ser considerada como um proto metal, pois traz o peso e a agressividade necessária para se chegar a essa conclusão. Não podemos negligenciar o vocal indulgente de Galatik e as viradas rítmicas tendo uma textura primorosa dos teclados, dando o contraponto ao peso da guitarra. Fabulosa faixa!

"Round"

Na sequência temos uma virada na proposta do álbum, mas que sintetiza a sua versatilidade, com a música “Open”. Traz uma viagem mais lisérgica, psicodélica e contemplativa, diria, sem medo de errar, que se trata de um space rock ao estilo Pink Floyd em seu clássico “Meddle” e não podemos deixar de dar os créditos nas viradas de bateria e da guitarra dando o clima necessário à proposta sonora. Um conceito prog/space rock de excelente qualidade.

"Open"

“Oh Man” volta ao estágio inicial: hard rock e blues rock da melhor qualidade! E aquele riff típico de um hardão, meio desleixado e sujo, abre a música e o vocal rouco e despretensioso é o destaque com riffs atrás de riffs de guitarra que dá o tom pesado a faixa, mas que traz algo meio dançante e a bateria dá esse groove saboroso.

O primeiro cover da banda, em um total de dois, vem com o clássico exuberante da banda Jeff Beck Group, “Rice Pudding”. Mas não se enganem que seria uma versão idêntica da banda do grande Jeff Beck! Pelo contrário! Traz a versão blues, com pitadas generosas de hard rock, mas com uma pegada bem lisérgica também. Espetacular!

"Rice Pudding"

“People Talking” entrega também uma pegada mais dançante, menos pesada, até, diria, mais comercial, radiofônica, mas que ganha substância com os solos de guitarra que, embora simples, encorpa a música, além de um baixo pulsante e vibrante que segue em uma salutar disputa com a guitarra de Diez.

E fecha com outro cover chamado "Better By You, Better Than Me", um clássico da banda Spooky Tooth. E confessarei que não sei qual versão gosto mais, se é a original ou a versão do Armaggedon! Poderia dizer do Armageddon? Olha hein! E que maravilha ficou essa versão! O vocal mais limpo, mas potente, altivo, os riffs de guitarra que entoam potência que rivalizam com uma atmosfera mais soturna, psicodélica. Solos simples de guitarra nos faz dançar, entrar em transe! Fantástico!

"Better By You, Better Than Me"

Este álbum é um excelente exemplo da excelente cena do Krautrock progressivo alemão no início dos anos 1970, mas que trouxera à época uma grata novidade: a junção do blues, do classic rock, do hard rock, do prog rock e do psych. Tudo em um só álbum! Um álbum que deveria ser incluído em toda coleção de discos que se preze!

O álbum do Armageddon disparou de preço nos últimos anos, devido ao crescente interesse, graças ao advento das redes sociais e de abnegados que garimpam e disseminam tais pérolas esquecidas e obscurecidas pelo ostracismo no universo do rocn n’ roll. Mas no entanto a demanda pela banda foi muito baixa, em 1970 e o Armaggedon logo se separou após o lançamento de seu único álbum.

Mas o que também fez com o interesse pelo Armaggedon e seu álbum tenha crescido nesses últimos anos foi também pelo relançamento de “Armaggedon” em 1991 com um som mais limpo e nítido, com um ótimo trabalho de remasterização digital, com uma edição limitada de apenas 1.000 cópias numeradas.

Após o fim do Armaggedon Frank Diez tocou jazz rock com a banda Emergency e mais tarde com Randy Pie, Karthago, Ihre Kinder e Atlantis, Snowball e Eric Burdon's Fire Department. Fundou a Peter Maffay Band que durou, com a sua liderança, por 30 anos. As suas habilidades afloraram também como produtor: Miller Anderson, Telecats, Blues Company e por último, mas não menos importante, sua produção solo melancólica e bela "Stranded on Fantasy Island" são apenas alguns exemplos.

Mesmo que diante do pouco caso pela qual o Armaggedon sofreu em sua gênese, e seu álbum ficando em segundo plano, caindo no ostracismo, no esquecimento, o tempo, mesmo que demasiadamente longo, se encarregou de coloca-lo no seu devido lugar de importância, de pioneirismo. Um arrojado trabalho que conferiu o título, a honraria de um álbum relevante, consiste de blues rock germânico. Altamente recomendado!



A banda:

Frank Diez na guitarra 

Manfred Galatik  nos vocais e teclados

Michael Nürnberg no baixo e guitarra rítmica

Jürgen Lorenzen na bateria

  

Faixas:

1 - Round

2 - Open

3 - Oh Man

4 - Rice Pudding

5 - People Talking

6 - Better By You, Better Than Me       


"Armaggedon" (1970)    

 

 

 

 

 









 








quarta-feira, 27 de maio de 2020

The Devil and the Almighty Blues - The Devil and the Almighty Blues (2015)


Sou um entusiasta dessa nova (nem tanto mais) cena de bandas de stoner rock, doom metal, rock psych que vem crescendo nos últimos 20 anos, desde o início da década de 2000 e ainda mais na segunda década de 2010. 

Vem crescendo tanto que já está saturada e, como costuma acontecer nesses casos algumas bandas se tornam um tanto quanto repetitivas, uma redundância sonora inconveniente, mas ainda assim, formada por bandas, em sua maioria, consistentes e que estão resgatando as origens do rock n’ roll, genuíno, aquele que se faz com o colhão, da forma mais visceral e despretensiosa possível, sem amarras, no seu formato mais marginal, como em tempos gloriosos de outrora. 

Conhecidos como “rock retrô”, talvez de forma pejorativa, pois trazem, além da sonoridade característica da década de 1970, tem um apelo estético muito evidente daquela época. Mas não se enganem, caros amigos leitores, pois apesar de tudo isso, da saturação e tudo mais, ela traz consigo um frescor, um odor de novidade, um toque de contemporâneo, diante de grandes entressafras criativas que costumamos ver e ouvir na cena maisntream

Tenho dada a devida atenção a essa cena, a essas bandas que fazem um som orgânico, real, sem máquinas eletrônicas que precisam apenas de botões para emitir sons desconexos para dar o título de músicos a charlatões que pregam uma pseudo revolução da música. 

Mas confesso que quando conheci o THE DEVIL AND THE ALMIGHTY BLUES, uma banda que veio da Noruega, mais precisamente da cidade de Oslo e li as suas influências musicais, tais como: doom metal, hard rock e blues, fiquei relutante e confesso que subestimei os caras. 

The Devil and The Almighty Blues

Afinal, essas referências vem de bandas como Black Sabbath e essa cena está repleta de bandas com influência do Sabbath. Pensei: Ah, mais uma que soa como o Black Sabbath! Dei uma chance e decidi ouvi-la. Uau! Como pude ter tido uma visão tão pré-concebida? 

Uma banda tão vigorosa, arrogantemente poderosa, com uma sonoridade tão crua, direta, mas dotada de tanto virtuosismo, ao mesmo tempo. Pois é, a terra do black metal pode te entregar algo além e de muito peso também e que, claro, traz influências das bandas sujas e pesadas dos anos longínquos da década de 1970, mas com o arrojo de mesclar o hard rock, o blues, o doom metal e o stoner rock, em uma sopa contemporânea, o frescor dos novos tempos com o pé no passado sem soar datado. 

A banda foi formada foi em 2015 e logo neste mesmo ano lançou o álbum, que ouvi e será alvo desta resenha, o homônimo “The Devil and the Almighty Blues” e contava com a seguinte formação: Arnt O. Andersen, nos vocais, Petter Svee e Torgeir W. Engen nas guitarras, Kim Skaug no baixo e Kenneth Simonsen na bateria. 


Um álbum impossível de ficar parado, porque é poderoso e vivaz e que começa soturno, arrastado, com o riff característico do doom metal e um baixo pulsante e marcado de "The Ghosts of Charlie Barracuda", mas que logo irrompe em um hardão alto com vocal gritado e frenético e aquele tempero bluesy para dar o sabor a comida sonora. 

"The Ghosts of Charlie Barracuda", live at Sonic Blast Moledo

“Distance” já começa dando um murro na porta, com um hard rock direto e cru, com solos de guitarra bem elaborados, um som que te remete aos anos 1970. “Storm Coming Down” começa com um riff de guitarra, algo repetitivo, mas os outros instrumentos como o baixo e uma bateria mais marcada e forte vêm sendo adicionada, uma a uma compondo uma sonoridade agressiva e pesada, aqui o doom e o stoner ganham destaque. 

"Distance"

“Root To Root” se apresenta com um doom sujo, com um riff pesadão de guitarra, um contexto instrumental ameaçador e sombrio, com o blues inserido de uma forma dilacerada e inusitadamente homenageado, assim segue a faixa seguinte, “Never Darken my Door”, mais com um pouco de groove, um pouco dançante, animada e cadenciada.

"Root to Root, live at Desertfest, Berlim, 2019

E fecha com “Tired Old Dog” com a característica introdução de um riff pesado e sujo de guitarra e com a apresentação gradativa dos outros instrumentos formando uma camada densa e soturna em uma combinação explosiva entre hard e blues em um duelo salutar em prol da música. 

"Tired Old Dog"

O The Devil and the Almighty Blues, que vem da fria Noruega, apresenta, em seu debut, o calor borbulhante do rock autêntico e sujo, que parece ter minado das profundezas do inferno fazendo jus ao seu nome. Uma pérola bruta mais do que recomendada.





A banda:

Arnt O. Andersen no vocal
Petter Svee na guitarra
Torgeir W. Engen na guitarra
Kim Skaug no baixo
Kenneth Simonsen na bateria


Faixas:

1 - The Ghosts of Charlie Barracuda
2 – Distance
3 - Storm Coming Down
4 - Root to Root
5 - Never Darken My Door
6 - Tired Old Dog




"The Devil and the Almighty Blues" (2015)


Versão do álbum para Bandcamp acesse aqui