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domingo, 12 de abril de 2026

Triade - 1998: La Storia di Sabazio (1973)

 

A influência do britânico Emerson, Lake & Palmer para o rock progressivo italiano é notório! Não falo de plágio ou que a Itália progressiva se deita na fama sonora do ELP para construir o seu som. É perceptível! Mas ainda assim a Itália, mesmo com a forte influência, e assim devemos chamar, soube edificar a sua sonoridade com qualidade e originalidade.

Os teclados, as texturas sinfônicas baseadas na música clássica serviram e ainda servem de sustentáculo para o prog italiano. A maioria das bandas clássicas da Itália traz essas nuances de forma latente, viva. As bandas progressivas italianas, principalmente aquelas que atingiram o status de pioneirismo, foram movidas pelo teclado, pelas notas sinfônicas, com um forte toque de dramaticidade tipicamente italiano.

E a banda que falarei hoje indica a forte influência do Emerson, Lake & Palmer, mas, claro, assume também uma história calcada no mistério e na escassez de informações. Assim deve ser, afinal, essa é a razão de ser deste humilde e reles blog que você, estimado leitor, lê. A banda se chama TRIADE.

O Triade era é uma banda que foi concebida na cidade de Florença, na Itália, no início dos anos 1970 e, como o ELP, era um trio que, por décadas, não se sabia seus nomes. Sim, já começa por aqui! No seu único álbum, lançado em 1973, de nome “1998: La Storia di Sabazio”, o selo de Milão, Derby, não creditou seus nomes no vinil. Na realidade apenas seus sobrenomes apareciam como créditos na arte gráfica do álbum. E isso fomentou a aura sombria que pairava na história da banda.

Mas de certa forma isso era comum entre os jovens músicos italianos de rock progressivo na década de 1970 onde se usava nomes “fantasmas” ou pseudônimos para evitar problemas legais, pois a maioria não eram membros da Siae, a italiana Riaa.

Somente anos mais tarde, por intermédio de um árduo trabalho, o historiador de Rock Progressivo Italiano, Augusto Croce e o músico Enrico Rosa descobriram o mistério e a história foi revelada. O tecladista Vincenzo Coccimiglio (que tinha apenas 18 anos na época) conheceu o baixista Agostino "Tino" Nobile em um clube de Rock. Os dois se deram bem e cada um escreveu um lado do material no álbum. Demorou algum tempo, mas eles finalmente encontraram um baterista bom o suficiente para lidar com o que eles escreveram: Giorgio Sorano.

As origens do Triade, no início dos anos 1970, surgiram a partir da banda “Noi Ter”, onde Agostino tocou com Franco Falsini, do Sensations Fix e Paolo Tofani, do I Califfi e, posteriormente, do Area. Ele trabalhou então no Space Electronic, em Florença, onde conheceu Vicenzo. Começaram a tocar juntos e, como disse, compuseram cada um deles, um lado do álbum e com a adição de Sorano formaram finalmente o Triade.

A origem do nome "Triade", poderia ser usada em vários contextos. Talvez religioso, as três divindades, os três músicos ou ainda musicais, um acorde com três notas. O fato é que a nomenclatura tem origem, gira em torno do número "3". A tríade é um termo que se refere a um conjunto de três elementos, pessoas ou coisas. A palavra vem do grego, "trias" que significa "três". O fato é que a origem do nome, sem dúvida, gira em torno do número "3". E já que falei da arte gráfica, o belo trabalho da capa do álbum, foi de responsabilidade da namorada do baterista que era design gráfica.

Triade

Eles foram contratados pelo produtor Elio Gariboldi (um famoso produtor italiano, mais conhecido por ter feito parte da banda italiano “Squallor”) e também contratado, de forma imediata, pelo selo Derby. Em 1973 “1998: La Storia di Sabazio” foi gravado no Rossi Studio, em Milão, e teve a arte, bem interessante e enigmática, desenhada pela esposa de Sorano. Convém lembrar que o selo Derby já havia produzido muitos álbuns de Toquinho ou Gianni Bella, uma gravadora que nada tinha a ver com rock progressivo.

“1998: La Storia di Sabazio” apresentava uma obra conceitual, pequenas “peças” progressivas de no máximo dois ou três minutos cada, explorando diferentes progressões e arranjos instrumentais, tendo o teclado como ponto central de sua música. Tal construção me remete e muito o estilo “Tarkus”, clássico do Emerson, Lake & Palmer”, com os teclados em destaque, sobretudo na primeira faixa, “Sabazio”, que é dividida em quatro partes instrumentais.

O único álbum do Triade é, como disse, fortemente influenciado por Emerson, Lake & Palmer, isso é inevitável, mas não se pode afirmar plágio ou cópia, mas a forte influência britânica na música progressiva italiana. Assim como suas inspirações inglesas, a música do Triade focava em um jogo intenso entre teclados, claro, e seções rítmicas marcadas. E assim se percebia no primeiro lado do álbum, composto por Vincenzo Coccimiglio. Um som instrumental, curtas faixas, influências clássicas, prog com psych em várias partes, um som suave nada intrincado, mas com o toque requintado das teclas de Vincenzo, mostrando virtuosidade.

O segundo lado do álbum, continua no rock progressivo, mas com forte viés melódico e sinfônico, onde Agostino Nobile, compositor das faixas, surge com violão acústico, em vez do baixo, acompanhando os teclados. Aqui, neste lado, traz à memória o Le Orme, mas também traz toques evidentes do ELP, mesclando partes instrumentais, acústicas e vocais, intercaladas com teclados e sintetizadores, sempre dentro da linha progressiva um pouco mais melódica e sinfônica. E o violão lembra os sets de Greg Lake quando esteve à frente do Emerson, Lake & Palmer. Essas nuances, um tanto quanto distintas, entre os lados do álbum ganhou críticas não muito agradáveis, por conta dessas abordagens sonoras, mas penso ser exageradas, pois, apesar de contarem com compositores únicos e diferentes, percebe-se, apesar de tudo, uma base calcada no prog italiano que se praticava na primeira metade dos anos 1970.

O álbum começa com a suíte “Sabazio” que é dividida por quatro partes, com pouco mais de três minutos cada, são elas: 1- “Nascita”, 2- “Il Viaggio”, 3- “Il Sogno” e 4- “Vita Nuova”. A parte 1 traz um som mais suave, mais pastoral e viajante, quase contemplativo, com um órgão flutuante. A parte 2 já traz um órgão mais pulsante, com a seção rítmica mais enérgica, o baixo e bateria em uma sinergia interessante. A parte 3 apresenta tambores, algo mais percussivo, órgão também pulsante e latente, com energia, além da inclusão de violoncelo. Ao longo da música vai ficando mais poderosa, um pouco mais pesado. A parte 4 traz a predominância de teclados duplos, a prog rock aqui é mais evidente. “Sabazio” é o sonho para qualquer amante de música clássica e progressiva, graças ao órgão, ao piano, violoncelo, com elementos de rock como o baixo e a bateria. Uma sonoridade, embora simples, se revela atraente e elegante o que é incrível para músicos tão jovens à época.

"Sabazio - Nascita" (Parte 1)

"Sabazio - Il Viaggio" (Parte 2)

"Sabazio - Il Sogno" (Parte 3)

"Sabazio - Vita Nuova" (Parte 4)

Segue para o outro lado do álbum com a faixa “Il Circo” que traz uma batida mais voltada para o rock, com uma pegada mais hard, pesada, com um órgão igualmente pesado e enérgico. Aqui as teclas se destaca, com a bateria, marcada e pesada, também protagoniza.

"Il Circo"

“Espressione” soa mais como um típico rock progressivo italiano com sintetizadores, acústico, com pianos doces e vocais calorosos e agradáveis. Aqui percebe-se, de forma nítida, o lado mais suave e romântico da Itália progressiva. Um ótimo trabalho de piano e acústico agradável. Traz um pouco de sinfônico com sintetizadores já para o final da música.

"Espressione"

“Caro Fratello” é parecido com Il Circo, por ser um rock mais acelerado com órgão, mas se expande por incluir mellotron, violão acústico e vocais mais suaves. O destaque fica logo no começo com órgão, bateria e baixo em uma ótima jam, extremamente animado, solar. Aqui também traz, claro, destaque para o órgão, que divide momentos mais animados e enérgicos, com momentos mais intimistas e dramáticos.

"Caro Fratello"

E fecha com “1998 (Millenovecentonovantotto)” começa com uma onda de dedilhados acústicos, com vocais suaves e melódicos, com um baixo bem tocado. A bateria surge dando “corpo” a faixa. Fica mais edificante com sintetizadores alegres e vibrantes, sobretudo em seus momentos finais. As seções acústicas, bem tocadas, se misturam com bons teclados. Se revela uma música com boas camadas e animada.

"1998 (Millenovecentonovantotto)"

Com a mudança do produtor Gariboldi para Munique, na Alemanha, o novo produtor, de nome Lombroso, assume a produção do Triade. A primeira exigência dele foi que a banda voltasse ao estúdio e gravar um álbum mais comercial. A banda imediatamente recusou a proposta. Aqui seria o começo do fim do Triade. Mas não foi apenas a discordância entre produtor e banda, com relação às novas tendências sonoras, que fez com que o Triade findasse, tão precocemente, a sua trajetória.

A crítica também não foi muito gentil com a banda. Os acusou de serem pouco originais, principalmente por não enfatizar tanto, segundo os críticos, a essência do rock progressivo italiano, absorvendo sonoridades britânicas, principalmente do Emerson, Lake & Palmer. Evidente que o único álbum do Triade não soa original e traz influências do ELP, afinal, penso que as raízes progressivas italianas vêm dos britânicos, principalmente do Emerson, Lake & Palmer e nota-se, de forma evidente, a meu ver, uma sonoridade simples, quase inocente, sim, mas muito talhado para o rock progressivo italiano.

“1998: La Storia di Sabazio” talvez não represente totalmente a pureza do rock progressivo italiano que foi se construindo ao longo dos anos 1970, mas é um resultado, como todas bandas que surgiriam no cenário italiano, das influências daquele país, absorvendo ainda as características marcantes da sua sonoridade, as suas peculiaridades.

Após a formação da Triade, quando o baterista Giorgio Sorano entrou por último na banda, surgiu a chance, e foi tudo muito rápido, de se reunir com o produtor Elio Gariboldi. E deve-se a ele por ajudar os jovens músicos à época, a lapidar seu som, produzindo resultados lucrativos, sob o aspecto sonoro, com “1998: La Storia di Sabazio”, que incluíam equipamentos, instrumentos de ponta, como mellotron e um gonue gigante, além de um tempo considerável em um estúdio com um engenheiro de som. E assim surgiu o único álbum do Triade.

“1998: La Storia di Sabazio” entrou na cena prog italiana com um grande destaque, devido às performances ao vivo enérgicas e até extravagantes da banda. Os garotos do Tríade estavam no auge da criatividade e físico e o mundo parecia ser o limite. Logo abriram shows para as grandes bandas da época, como Banco, Premiata Forneria Marconi e Franco Battiato e até conseguiram alguns shows como atração principal, mas apesar da exposição que a banda vinha conquistando, o álbum não emplacava, não correspondendo às expectativas de vendas.

A corrida do ouro do progressivo italiano, nos anos 1970, para muitos virou simplesmente um latão desvalorizado e frustrante e com o Triade não foi diferente. As baixas vendas de seu álbum e o tímido apoio da gravadora fez com a banda cessasse as suas atividades precocemente, como tantas outras que seguiram sua trajetória na mais profunda obscuridade e ostracismo.

“1998: La Storia di Sabazio” teve alguns relançamentos. Em 1974, um ano após seu lançamento, o selo Derby o relançou na Itália, no formato LP e cassete. Em 1993 foi lançado no Japão pelos selos Nexus International e King Records no formato LP. Em 1987 novo relançamento no Japão no formato CD, pelo selo Nexus e outro relançamento, em 1993, também em CD, pelo selo CGD. Em 1993 foi a Coréia do Sul. Entre 1994 e 2020 foram vários relançamentos, em CD e LP, alternando entre a Itália e o Japão.





A banda:

Vincenzo Coccimiglio nos teclados

Agostino Nobile no baixo, violão e vocal

Giorgio Sorano na bateria

 

Faixas:

1 - Sabazio: Nascita

2 - Sabazio: Il Viaggio

3 - Sabazio: Il Sogno

4 - Sabazio: Vita Nuova

5 - Il Circo

6 - Espressione 



"1998: La Storia di Sabazio" (1973)



























 


sábado, 6 de dezembro de 2025

Apoteosi - Apoteosi (1975)

 

O rock progressivo em família! A família italiana em prol do rock progressivo dos anos 1970! A cultura do prog naquele país é tão grande que famílias se reúnem para tocá-lo. Músicos são talhados para tocar essa vertente do rock tão vivo e presente até os dias atuais. A história que vou apresentar hoje nesse texto inevitavelmente se depara com uma situação única e particular.

Particular e única por ser uma banda que trazia três irmãos e um pai como produtor, mas que não traz novidades em se tratando de sua precocidade. Mais uma daquelas “one-shot-bands” italianas negligenciadas, esquecidas e que, como um sonho, surgiu e passou rápido, tal como também um desses cometas. Falo da banda APOTEOSI.

Outro ponto particular e peculiar foi o local de surgimento do Apoteosi, na região de Palmi, na Calábria, tida como pouco conhecida no que se refere ao rock n’ roll, no rock progressivo. A cena era insipiente, poucas bandas surgiram nessa parte da Itália. Além de particular, o Apoteosi se tornou importante, praticamente se tornando a única ou uma das poucas a terem, mesmo que discretamente, um surgimento e carregando, consequentemente, o rock progressivo da Calábria.

E o Apoteosi, quando lançou seu álbum, em 1975, que, neste ano de 2025 completou cinquenta anos de lançamento, se tornou importante e um referencial não apenas pelo fato de ter sido uma das poucas bandas da Calábria, mas por ter construído um álbum conceitual, tendo a cidade natal desses músicos, como cerne, um verdadeiro hino à sua terra, uma espécie de hino de esperança para o despertar desse pequeno pedaço da Itália esquecido pelo rock progressivo.

Apoteosi

Bem já que falamos de família, vamos tecer detalhes da história do Apoteosi que, como disse, tem fundações enraizadas no conceito familiar, na família Idà. São eles: Silvana Idà nos vocais, Massimo Idà, na guitarra e vocal, Federico Idà, no baixoe flauta, juntamente com os “forasteiros” Franco Vinci, na guitarra e vocais e Marcello Surace na bateria.

E regendo tudo isso vinha o pai, o patriarca do prog na família Idà, o Salvatore Idà que, além de pai de Silvana, Federico e Massimo, desempenhou o papel de produtor e compondo uma das músicas do único álbum da banda. Pode parecer algo pouco usual um pai incutir na mente de seus filhos o conceito do rock progressivo e ajuda-los a montar uma banda e financiá-los, mas a cultura do prog rock na Itália, apesar de todos os problemas e turbulências políticas nos anos 1970, era forte e não podemos negligenciar a veia musical dos jovens músicos.

Os irmãos Idà

E quando falo jovens músicos é porque são efetivamente jovens mesmo, onde a maioria dos Idà sequer chegaram à adolescência quando formaram a banda e lançaram o seu autointitulado álbum, em 1975. Para se ter uma ideia o Massimo tinha apenas quatorze anos de idade quando gravou o álbum juntamente com seus irmãos e Franco Vinci tinha apenas dezessete anos quando tocou em sua primeira banda, “The Green Age”. Muito dessa referência dos irmãos se deu também pelo estúdio que o seu pai tinha e ter sido também o homem forte, o que comandava o selo Said Records. O álbum foi editado pelo próprio Massimo Idà, em um processo que não gerou nenhum cachê, afinal, tudo estava em família.

Sobre o álbum do Apoteosi, embora tenha sido concebido em família e em uma região italiana pouco visível para o rock progressivo na Itália, não teve a repercussão que se esperava a começar pela baixa distribuição e exposição desse álbum e muito se atribuiu também, à época, por conta das semelhanças com a já famosa banda Premiata Forneria Marconi, que tendia evidentemente para o progressivo sinfônico, primordialmente.

E falando em lançamento, a tiragem foi limitada e quase que caseira, diria “artesanal”, tendo ainda uma distribuição local, se tornando, claro, entre os aficionados pelo vinil, cópias muito raras. Mas se o Apoteosi tem certa visibilidade hoje, nem tanto, se deve aos relançamentos, às abnegadas gravadoras, mas também a “web”, as redes sociais e os produtores de conteúdo e que bom, caros leitores, que esse trabalho esteja figurando neste reles e humilde blog.

Mas por mais que não se vislumbre no único álbum do Apoteosi a tal da originalidade, não podemos deixar de comentar a incrível capacidade e habilidade de seus músicos, mesmo que na mais tenra idade. E o que dizer também de suas habilidades composicionais? Não podemos, de forma alguma, negligenciar isso desta banda da Calábria.

E as referências evidentes em PFM, Banco del Mutuo Soccorso talvez se evidencia pela pouca idade de seus músicos que, mesmo habilidosos com seus instrumentos, eram muito jovens e isso não se pode esquecer, eles, ainda assim, estavam em uma fase de construção de sua identidade musical.


Mas ver como Massimo, o tecladista, um menino no auge dos seus quatorze anos de idade, toca piano, Hammond e ainda editando o álbum é algo no mínimo assombroso de tão incrível. A sua irmã, a vocalista Silvana Idà, um pouco mais velha que ele, mas trazendo uma voz linda e extremamente versátil, que vai da psicodelia, progressivo ao folk rock, mesmo que ainda dependesse de um pouco mais de estrutura, altivez, mas penso que isso se deva a questão da maturidade, afinal, ela também era muito jovem e estava em fase de desenvolvimento musical, como todos os demais músicos.

Diante desse, digamos, problema vocal, a banda deitou-se em um terreno seguro para demonstrar toda a sua capacidade nos seus instrumentos. Além de Massimo Idà dando espetáculo com as suas teclas, tinha também a seção rítmica formada por Federico, no baixo e Marcello Surace na bateria, mostrando-se sólidos e harmoniosos. As guitarras são enérgicas e, além de trazer as indefectíveis nuances sinfônicas, nos remete também a algo mais pesado, um hard rock. É isso que faz desse único álbum do Apoteosi especial: versátil, inusitado, com pitadas folk, psicodélicas e mais pesadas destacadas pelos riffs de guitarra, além de um toque de inocência, pelo fato de termos jovens ainda descobrindo o seu DNA sonoro.

Eu diria, amigos e estimados leitores, que esse álbum tem muitos rostos, a cara de cada um é impressa de forma, embora ainda inocente pela inexperiência, muito viva e plena. São composições convincentes, brilhantes, orgânicas, com destaque, como disse, no seu instrumental, na guitarra vibrante, na seção rítmica empolgante e calcada no rock progressivo sinfônico que, embora revele referências de bandas já estabelecidas na cena italiana, mostra, com evidência, a característica do prog rock da Itália.

“Apoteosi” é franco, altivo, simples, orgânico, intenso e mostra as habilidades de jovens músicos que deixaram, definitivamente, a criatividade falar por si só, sem abrir mão de suas convicções sonoras, trazendo à tona também as suas mais fiéis inspirações e referências, personificando também o que se fazia na Itália progressiva nos anos 1970.

Então vamos às faixas! O álbum é inaugurado pela faixa “Embrion” que se trata, claramente, de uma introdução que, embora curta, se revela cintilante principalmente na execução do teclado na primeira metade da música, com a banda avançando com força total. É perceptível que a ideia composicional dessa faixa era de explorar as habilidades de todos os músicos e, diante desse caos, se faz a beleza sonora. Reza a lenda que a “confusão fragmentada” desta música veio da ideia de todos e que não havia tempo para realmente discutir a construção da mesma. Então o já falado caos se fez presente na faixa.

"Embrion"

Eis que surge então a próxima música, que é uma verdadeira epopeia sonora e certamente se revela a melhor do álbum: “Prima Realta / Frammentaria Rivolta”! No auge dos seus quatorze minutos o piano começa lentamente antes da bateria, lindamente, juntamente com a flauta assumirem o controle. O ritmo logo acelera, os vocais femininos de Silvana trazem a contradição, a leveza. Definitivamente a bateria e o piano ganham destaque, com a guitarra, com alguma energia, tenta, com algum sucesso, protagonismo, sendo esta a mola propulsora do peso na música.

"Prima Realta /Frammentaria Rivolta"

"Il Grande Desumana / Oratori (Coral) / Atteca" começa com um piano que entrega algo sombrio, uma atmosfera melancólica, mas logo acelera com a bateria, que vem forte e soberba. Surgem vocais masculinos sem muito destaque, com a guitarra em seguida, com dedilhados sutis. Os vocais de Silvana são contidos, discretos, diria pastorais e com uma pegada folk. Mas logo anima novamente com uma veia jazzística órgão espectral assombroso e sóbrio e interlúdio coral.

"Il Grande Disumano, Oratorio (Chorale), Attesa"

“Dimensione Da Sogno” se torna triunfante e esperançoso com Silvana cantando com dignidade e certo espírito. Percebe-se nitidamente uma faixa audaciosa e repleta de nuances sonoras distintas, sobretudo quando se sente o prog sinfônico em voga nas variações rítmicas.

"Dimensione Da Sogno"

E fecha com a faixa título, “Apoteosi” que, lentamente vai se desenrolando, com sintetizadores brilhantes, com pitadas interessantes e intrigantes de um space rock e solos de guitarra bem sutis e contemplativas. Talvez nessa música é o que chega mais próximo de um momento psicodélico que nos remete a fase inaugural de bandas como Pink Floyd e Nektar.

"Apoteosi"

A banda, reza a lenda, que nunca se apresentou ao vivo, após o lançamento do álbum e, devido a falta de apoio e de uma estrutura que permitisse a banda difundir a sua arte e manter o mínimo de estabilidade para seguir com a sua trajetória, o inevitável se deu: o Apoteosi se desfez para dar lugar às diferentes decisões de cada um dos irmãos, ou seja, cada um seguirem com as suas carreiras e convicções sonoras. Talvez, arrisco dizer, que o Apoteosi não passou de uma espécie de tudo de ensaio para os jovens músicos testarem as suas aptidões e, a partir daí, explorarem, individualmente, as suas habilidades musicais.

Mas antes disso decidiram juntos enveredar pela música comercial, mudaram o nome para “Stress Band” e gravaram um single, em 1979, com um cover de uma música de Gino Vannelli. Mas com a inevitável dissolução, cada irmão seguiu com carreiras diametralmente distintas uma das outras.

"Stress Band"

Massimo Idà mudou-se para Roma, trabalhando como músico de estúdio e produtor de música para televisão. Atualmente ele toca em uma banda de funky disco, chamada “Frankie & Canthina Band”. Ele também produziu e se apresentou no álbum “Dylaniato”, de Tito Schipa Jr., de 1982.

Silvana Idà deixou a indústria musical para formar a sua família e continua a morar em Palmi, na Calábria, sua cidade natal. Seu filho atualmente toca em uma banda de rock n’ roll. Federico Idá, juntamente com seu irmão Massimo, fez um single como “The Zombies”. Ele faleceu em 1992.

"The Zombies"

O guitarrista Franco Vinci continuou tocando e continua muito ativo no blues. Seu álbum, com a banda “Bootleg”, “Boot Trip”, foi lançado em 2003. Sua banda atuaç leva seu nome e se chama “Franco Vinci Blues Band”. O baterista Marcello Surace continua tocando como músico de estúdio na Itália e na França e também faz parte da “Frankie & Canthina Band”, juntamente com Massimo Idà.

O único álbum de Apoteosi oferece rock progressivo melódico surpreendentemente acessível ao rock progressivo italiano dos anos 1970. É sim um rock progressivo por excelência, afinal todos os elementos certos estão lá: interação musical complexa, seção rítmica sólida, mudanças de tempo e assim por diante. Embora os vocais de Silvana Idà não sejam tão competentes mostram certo prazer. As entradas sinfônicas de teclado são fantásticas e maduras, flautas competentes e guitarras que vão do peso a sutileza.

Um álbum mais do que recomendado que, infelizmente, à época não recebeu a atenção que merecia, afinal, sua edição foi muito limitada, sendo um dos vinis mais procurados e cobiçados entre colecionadores, chegando a valores, quando encontrados astronômicos. Felizmente em 1993 a abnegada Mellow Records relançou o álbum em CD e fez um grande favor aos apreciadores e fãs de rock progressivo. Tiveram outros relançamentos como no Japão, em 2012, pelo selo Belle Antique, em CD, em 2015, na Itália, pelo selo AMS Records e também pelo selo dos pais dos músicos, Salvatore Idà. Entre 2022 e 2024 a AMS Records e a Belle Antique relançaram o álbum no formato CD.





A banda:

Silvana Idà nos vocais

Franco Vinci nos vocais e guitarra elétrica e acústica

Massimo Idà no piano, Hammond B3, Eminent organ, ARP Pro Soloist synthesizer

Federico Idà no baixo e flauta

Marcello Surace na bateria

Com:

Coro Alessandroni / vocais do coro (Em “Oratorio”)

 

Faixas:

1 - Embrion

2 - Prima Realta / Frammentaria Rivolta

3 - Il Grande Disumano / Oratorio (Chorale) / Attesa

4 - Dimensione Da Sogno

5 - Apoteosi



"Apoteosi" (1975)




 











 










 






sábado, 9 de agosto de 2025

Odissea - Odissea (1973)

 

O início dos anos 1970 na Itália o rock progressivo reinava absoluto. Era o auge! Uma profusão criativa musical, tantas bandas, tantas vertentes sonoras que fazia do prog italiano tão vivo, latente e diversificado. Mas o auge criativo e um número vertiginoso de bandas que surgiam não garantiam sucesso e glamour, caindo no ostracismo.

Várias bandas singulares com elementos de peculiaridade que deveriam ter reconhecimento mais amplo, caíram no esquecimento, sendo vilipendiadas e vou trazer à luz, por intermédio desse texto, uma banda que caiu nas sombras da cena progressiva italiana e, como tantas outras, teve uma efêmera trajetória. Falo do ODISSEA.

Eu sempre me pergunto o motivo pelo qual bandas do naipe do Odissea e tantas outras que trouxeram ao mundo músicas tão arrojadas e novas para a sua época, não conseguiram o espaço merecido no pedestal do poderoso rock progressivo italiano. São muitos os fatores que talvez não seja muito relevante, neste momento, levantar as hipóteses e sim falar dos primórdios da banda, já que esta é tão pouco comentada por aí.

Odissea

Nascido com o nome engraçado de “Pow-Pow”, na região de Biella, no início dos anos 1970 e por muito tempo como banda de apoio do popular cantor Michele, viria a se estabilizar definitivamente em 1972 com a chegada do guitarrista Jimmy Ferrari e mudando o nome para “Odissea”.

Além de Ferrari, na guitarra, trazia Roberto Zola, na guitarra e vocal, Ennio Cinguino, nos teclados, Alfredo Garone, no baixo e Paolo Cerlati na bateria. A partir desse momento, o recém-formado quinteto teve imediatamente a oportunidade de brilhar em ocasiões realmente importantes: em abril de 1972 abriria as datas italianas do Genesis e logo depois seguiu o Banco del Mutuo Soccorso em sua turnê.

Ainda teve, como reforço às suas apresentações ao vivo, participações em importantes festivais, tais como o “Festival d'Avanguardia di Mestre” e da nona “Mostra di Musica Leggera”, em Veneza. Com isso o Odissea foi conquistando seu espaço com as suas boas apresentações ao vivo. E graças também a esse sucesso obteve rapidamente um contrato com o selo “Ri-Fi” (gravadora de bandas como Circus 2000 e Giganti), gravando o seu único álbum, em 1973, homônimo.

O álbum, produzido por Sandro Colombini, futuro colaborador de Antonello Venditti, além de ter sido equipado com um atraente design gráfico de Mario Convertino traz a melodia como ponto central, apresentado por vocais carismáticos, instrumentais ambiciosos, ricos e enérgicos, repleto de talento, criatividade e imaginação.

A parte técnica também não decepciona, com uma mixagem praticamente perfeita e a qualidade acústica está sem dúvida nos níveis da prestigiada gravadora que contrataram o Odissea. Mas voltando à música o álbum entrega uma mistura articulada de harmonias excepcionais e agradáveis, com um viés progressivo, com um groove basicamente melódico, sinfônico, com nuances de folk rock e tudo isso fica muito claro e caracterizado entre as partes vocal e instrumental, com atmosferas que remetem, um pouco, ao progressivo britânico, mas também, claro, com todo aquele tom dramático do prog italiano. A harmonia e os solos das duas guitarras também são agradáveis, enriquecendo as músicas com uma camada mais pesada e louvável de sons.

E falando nas partes cantadas que, assentadas em linhas melódicas simples e distintas das partes instrumentais, injetam ainda um forte “aroma” de blues rock proporcionado pela poderosa voz de Roberto Zola cujo timbre lembra muito o de Alvaro Fella, do Jumbo. Isso inclusive gerou algumas rivalidades entre os músicos e as bandas, também dada a co-regionalidade dos dois vocalistas.

Deve-se enfatizar, contudo, que as obras sonoras do Jumbo em que o uso da voz de Fella era mais áspero e hipermodulado, no álbum do Odissea, o vocal é dinamicamente proporcional à estrutura musical, o que torna o som mais homogêneo e orgânico. É melhor que o Jumbo? Claro que não! Digamos se tratar de dinâmicas distintas.

“Unione” abre o álbum com uma discreta acústica discreta e frágil, diria, com um tempero, um sabor folk, antes da explosão de teclados sinfônicos e riffs poderosos e pesados de guitarra. O vocal tem canto rouco e entre esse atípico vocal para o rock progressivo, a música rasga com um bom sprint instrumental, mas sempre trazendo momentos mais suaves de folk que introduziu a faixa. E assim se segue, entre peso e suavidade, tendo mudanças incríveis de humor, variâncias rítmicas inacreditáveis e de tirar o fôlego.

"Unione"

Segue com “Giochi Nuovi Carte Nuove” começa contemplativa, leve, suave. O vocal até inicia mais límpido e melódico, com aquele típico tom dramático dos vocalistas italianos. A faixa vai ganhando corpo, trazendo um progressivo mais britânico, com solos de guitarra dançantes e um baixo mais sombrio e experimental. Os teclados aqui corroboram a proposta da música mais introspectiva. Uma faixa sem dúvida mais sofisticada e forte, intensa, não no peso, mas no tom de dramaticidade.

"Giochi Nuovi - Carte Nouve"

“Crisalide” é um verdadeiro atordoamento sinfônico, salpicado de sabores barrocos e medievais. Órgãos dançantes e véus de sintetizadores brilhantes, solares, tudo isso em uma incrível interação entre as passagens reflexivas de guitarra acústica e elétrica, com um frenesi em várias passagens de tempo. É uma verdadeira montanha russa sonora, de tirar o fôlego.

"Crisalide"

“Cuor di Rubino” traz o folk como ponto central, nevrálgico. O toque suave da guitarra acústica é solar e animada, com momentos bem elaborados com um slide bem “choroso” de guitarras, com teclas alegres do piano. “Domanda” segue basicamente a mesma proposta da faixa anterior, com slides de guitarra que me remeteu a música sulista norte-americana. O vocal é altivo, mais límpido, sem a rouquidão característica. Uma linda faixa que te traz a sensação de liberdade, que te faz voar sem destino. Linda!

"Cuor di Rubino"

“Il Risveglio di un Mattino” começa potente, bateria com batida mais hard, mais pesada, mas surge o vocal mais acústico e limpo traz certa calmaria. Essa faixa me parece ser mais convencional, mais voltado para o classic rock, com um viés mais comercial, sem aquele típico prog rock das músicas anteriores, mas, ainda assim, traz qualidade. O toque de emoção dada à faixa sim se junta a dinâmica das demais que compõe o álbum. Teclados simples, mas solares e animados.

"Il Risveglio Di Un Mattino"

“Voci” devolve o álbum ao folk, a guitarra acústica é determinante para o humor e o temperamento da música, com o baixo, mais consensual, ao fundo. Os teclados protagonizam a transição da faixa para uma pegada mais sinfônica, com uma cozinha rítmica mais entusiasmada, viva e latente.

"Voci"

E fecha com “Conti e Numeri” que já entrega uma balada com um vocal igualmente límpido e, por vezes, mais potentes, com um bom alcance. Slides de guitarra e baixos pulsantes dão abertura para uma bateria marcada, entregando algo medieval, celta, pagão, mesclado a um progressivo sinfônico bem interessante.

"Conti e Numeri"

Apesar do sucesso moderado do álbum, o vocalista Roberto Zola decidiu deixar o Odissea em 1974 e seguir carreira solo, não tendo também muita sorte, não conquistando visibilidade. Enquanto isso o resto da banda voltou a ser apoio do cantor Michele, com quem já havia colaborado em 1971 e participou de uma turnê nos Estados Unidos com a La Famiglia Degli Ortega.

Em 1976 Elio Vergnaghi, vocalista, e Aldo Ambrosi, guitarrista, se juntaria ao Odissea e como uma nova formação a banda faria algumas apresentações na Suíça. Mas quando tudo parecia voltar aos trilhos, o baterista Cerlati deixaria a banda e os “sobreviventes” não tiveram outro jeito a não ser voltar a tocar com Michele e dessa vez por muitos anos. Ennio Cinguino, que havia tocado com I New Blues, nos anos 1960) e Alfredo Garone ainda continua na música, tocando em circuitos de piano-bar.

O único álbum do Odissea foi lançado, em 1974, pelo selo Orbe, no formato LP, relançado na Itália, em CD, pelo selo Vinyl Magic, depois ganhou o Japão, em CD, no ano de 1991 e dez anos depois também no Japão, em 2011, também no formato CD. Em 2013 voltou à Itália com relançamento, em CD e LP, no ano de 2013.

Quatro faixas do álbum, “Cuor di Rubino”, “Conti e Numeri”, “Unione” e “Giochi Nuovi Carte Nuove”, foram incluídos em um “promo”, de uma compilação sem título lançada pelo selo Ri-Fi, em 1973, juntamente com faixas pelos cantores Corrado Castellari e Franco Simone.

O álbum do Odissea não é difícil de encontrar, aos navegantes do colecionismo, talvez não seja considerado tão raro, tão obscuro, mas sem dúvida se deve e muito por abnegados trabalhadores amantes do prog obscuro que, espalhados em gravadoras, fazem questão de difundir o som da banda por intermédio de relançamentos. Da obscuridade ao eterno!

 

 

A banda:

Roberto Zola nos vocais e guitarra acústica

Luigi “Jimmy” Ferrari na guitarra elétrica e acústica

Ennio Cinguino no piano, órgão e mellotron

Alfredo Garone no baixo

Paolo Cerlati na bateria

E Simona: a voz da criança.

 

Faixas:

1 - Unione

2 - Giochi Nuovi Carte Nuove

3 - Crisalide

4 - Cuor di Rubino

5 - Domanda

6 - Il Risveglio di un Mattino

7 - Voci

8 - Conti e Numeri



"Odissea" (1973)


 







 




















sábado, 21 de junho de 2025

Witchwood - Litanies From The Woods (2015)

 

Atualmente falar que a cena italiana de rock progressivo e também de outras vertentes expandiu de uma forma quantitativa e qualitativa não é novidade para ninguém. Mas não podemos, ainda assim, deixar de falar o quanto os italianos vivem e respiram a cena como uma manifestação cultural, como de fato o é.

É inacreditável a quantidade de bandas que povoam os palcos italianos que vem produzindo músicas, não emulando às bandas dos anos 1970, mas fazendo, de forma arrojada, a sua própria música, contemporânea, com o frescor dos novos tempos, sem se seduzir com o glamour pasteurizado do mainstream e sim, nada menos do que homenageando as bandas que desbravaram a música progressiva dos primórdios anos setentistas.

Nos últimos 30 anos um boom avassalador está impactando as estruturas sonoras do rock italiano construindo uma nova perspectiva de som, trazendo as boas novas de cada ano mágico que o rock italiano tem. Há vida pulsando no hard rock e progressivo da Itália, não há um passado ultrapassado e carcomido.

Diante de uma cena interessada e ávida por consumir a música progressiva a oferta, mesclada a um impacto de criatividade, se faz presente, fomentando, inclusive, o ressurgimento de muitas bandas clássicas e obscuras que a tempos hibernava no berço da sua história, a produzir material novo.

O flerte do passado e o futuro é notório e se entrelaçam em uma cena plena e latente, fazendo do prog italiano uma realidade viva e intensa. Tenho, com fiel atenção, acompanhado esse fenômeno que está longe de ser efêmero e conhecendo grandes bandas que definitivamente está ganhando, não apenas a minha audiência, mas a dos italianos e do mundo.

E uma banda que sempre quis escrever sobre, e eis que foi chegada a hora, personifica, com requintes de originalidade, essa cena. Falo do WITCHWOOD. A banda, com sua sonoridade, abraça a vários apreciadores do hard rock, do rock progressivo, do psych rock e até mesmo do heavy metal, fazendo de sua música uma salada sonora improvável e singular e convincente.

Witchwood

O Witchwood nasceu das cinzas da banda de hard rock Buttered Bacon Biscuits, um nome curioso, que lançou um trabalho, em 2009, chamado “From the Solitary Woods”, pelo emblemático selo Black Widow e relançado pela Jolly Records também no formato LP. O álbum pode ser ouvido aqui!

The Buttered Bacon Biscuits foi uma banda baseada na cidade de Faenza, localidade em uma área chamada Romagna e esteve ativa entre 2008 e 2013 com um estilo enraizado nos anos 1970, tendo uma pegada psicodélica, de hard rock e uma discreta pitada de rock progressivo. Foram ativos em apresentações ao vivo, mostrando-se intenso e enérgico, mas mesmo com o álbum lançado e uma razoável reputação criada, a banda não durou por muito tempo, finalizando as suas atividades em 2014.

"From The Solitary Woods" (2009)

Com o final da banda, ainda no ano de 2014 surgiria o Witchwood, um quinteto que traria três músicos do Buttered Bacon Biscuits, Rick (Riccardo) Dal Pane, nos vocais, guitarras, bandolim e percussão, Stefano Olivi no hammond, piano e sintetizador e Andrea Palli, na bateria e percussão, juntamente com Samuele Tesori, na flauta e gaita e Luca Celotti no baixo.

Em 2015, o Witchwood lançaria o seu interessante e diria, sem medo de errar, épico, álbum de estreia chamado” Litanies from the Woods”, pelo selo independente “Jolly Roger Records”, alvo de meu texto hoje. E nada melhor para falar de uma nova e grande banda, pelo seu debut, pois é por ele, que entendemos a sua importância, o seu real desenho sonoro que alia o glorioso passado do rock italiano com vistas ao futuro.

“Litanies from the Woods” consegue, de forma magistral, mesclar hard rock, progressivo, psicodelia e até mesmo algo de Southern rock, além de pegadas blueseiras, adicionando sons vintages e atmosferas sombrias, obscuras do occult rock dos anos 1970. Mas não se enganem, caros leitores, que se restringe o som do Witchwood a reminiscências dos anos setentistas, trazendo um frescor, uma música contemporânea solar e acessível aos ouvidos mais exigentes e iniciantes, fazendo da banda extremamente competente e versátil sonoramente falando. E assim construíram, sobretudo em seu álbum inaugural, a sua personalidade.

E essa mistura de gêneros e estilos se deu graças a experiência da maioria de seus músicos em outras bandas e também a história que a maioria tiveram juntos em outras jornadas sonoras em outros projetos. Os caras se conhecem, sabem de seus defeitos e qualidades e essas coisas “orgânicas” trazem a verdade do Witchwood em seu debut.

“Litanies from the Woods” é inaugurado com a faixa “Prelude/Liar”, onde a “Prelude” introduz, com uma curta introdução, de guitarra elétrica, mas que logo irrompe com a cáustica “Liar”, com peso de riffs de guitarra que clama por uma “cozinha” bem ritmada e igualmente pesada, com passagens mais acústicas capitaneado pela flauta. A letra fala de uma reclamação sincera e urgente contra um mundo onde as aparências são mais importantes que os valores reais e a democracia não passam de uma ilusão criada por políticos cínicos, um mundo onde as mentiras da mídia escondem os pecados mais sujos e onde os sonhos enchem os túmulos.

"Prelude/Liar"

Na sequência tem “A Place for the Sun” começa introspectiva com sons sombrios de teclados, mas logo ganha energia com a bateria forte, marcada e uma flauta tocada a plenos pulmões ao estilo Jethro Tull, logo surgem os riffs poderosos de guitarra, vocais rasgados e, entre passagens pesadas e mais discretas percebe-se a grandiosidade da faixa, cheia de recursos rítmicos. A letra evoca o poder catártico da música e nos convida a viver dia após dia para enfrentar as adversidades da vida, sempre buscando o lugar escondido em sua alma onde o sol sempre brilha.

"A Place for the Sun" (Official Videoclip)

“Rainbow Highway” traz o protótipo do rock com uma “queda” para os anos 1990, com uma veia mais comercial, riffs de guitarra dançante, baixo pulsante, bateria pesada e solar, teclados dando uma textura radiofônica. Os vocais são apaixonados, melódicos. Faixa animada! A letra denuncia o desejo de liberdade e aventura de um garoto que cresceu em uma cidade pequena, cercado por tédio e velhas tradições. Evoca o sonho de uma vida sem regras, um desejo de liberdade absoluta, um passeio fantástico nos ombros de um demônio do arco-íris para sentir o vento soprando livre e selvagem por todo lado.

"Rainbow Highway" (Live at KFZ, Marburg)

“The Golden King” os caras reduzem as coisas, é uma balada rock e a introdução meio tribal, com a percussão e os teclados juntos, essa “paixão”, essa volúpia sonora é amenizada. O vocal sussurrado corrobora essa condição. A letra fala de uma caravana vinda de um planeta distante, navegando por céus infinitos.

"The Golden King"

A próxima faixa é “Shade of Grey” que abre complexa, com uma guitarra intrincada, enquanto vocais reservados, até discretos se fundem, tendo, inclusive, vocais femininos ajudando nessa faixa. Temos a presença de bandolim e flauta, antes de começar a esquentar, mas se acalma de volta, tornando-a ainda mais contemplativa e pastoral. É sombria e até mesmo assustadora. A letra evoca uma atmosfera gótica e uma criatura inquietante de um mundo oculto se movendo pela floresta.

"Shade of Grey"

A próxima música é outra balada, mais acessível, chamada “The World Behind Your Eyes” com vocais relaxados, violões delicadamente dedilhados, até que entra em ação após os dois minutos e esses contrates continuarão. Essa música é dedicada a Laura, musa do vocalista Rick Del Pane.

"The World Behind Your Eyes"

“Farewellt to the Ocean Boulevard” é a mais longa e complexa. Uma faixa instrumental longa, com pouco mais de quinze minutos de duração, que mostra toda a capacidade instrumental da banda, com músicos competentes e criativos. Começa com um violão dedilhado enquanto a flauta se junta, com um som completo. Um solo de guitarra agradável chega, com teclados mais a frente vem à tona, permanecendo relaxada a faixa, contemplativa, inclusive, juntamente com a flauta e gaita, mas logo a guitarra “ilumina” a música com força e intensidade. Diria, sem medo, que é épica!

"Farewell to the Ocean Boulevard"

“Song of Freedom” apresenta, no início, bandolim e gaita, enquanto os vocais se juntam, forte, imperioso, com alguma percussão. Torna-se mais pesado em torno dos dois minutos de música. Um hard típico irrompe a faixa, mas esses contrastes continuarão até o fim. A letra fala da celebração da vida na estrada, a canção de um viajante apaixonado por sua doce liberdade.

"Song of Freedom"

E fecha com outra faixa muito interessante, “Handfull of Stars”, cheia de mudanças rítmicas caracterizando um hard prog. Trata-se de uma suíte dividida em três partes e que lembra aquelas histórias de terror de HP Lovecraft (sou um leitor assíduo) e que lida com sonhos assustadores e perigosos, diz a letra. Na primeira parte, “The Gates of Slumber” a letra fala da imagem de um sonhador perdido em seu quarto com planetas flutuantes ao redor, enquanto as estrelas enchem sua mente e coração. Ele cai em um abismo atemporal de sonhos sombrios que a música evocativa das próximas duas partes instrumentais, "Nox Erat..." (Era noite) e "Epilogue: Litanies For A Starless Night", deixa sua imaginação livre para construir.   Riffs poderosos de guitarra e teclados sombrios “temperam” a música de um occult rock voluptuoso, além de vocais expressivos e poderosos.

"Handfull of Stars" (Official Videoclip)

Um trabalho engenhoso, com frescor, com traços evidentes de contemporaneidade, com a urgência da perpetuação, em dias atuais, do passado glorioso do rock progressivo italiano dos anos 1970.

O trabalho de estúdio, de composição, de juntar os fragmentos concebidos em momentos de pura liberdade criativa, faz desse primeiro trabalho do Witchwood uma peça de arte que nos remente ao passado com olhares para um futuro não promissor, mas real, latente, de uma cena que não desiste de se reinventar, de mostrar que é forte e que está viva.

O rock n’ roll não está morto. Morto está aquele que não se desprende do passado, sujeitando-se aos encantos mortais da zona de conforto. O Witchwood é a prova cabal de que há vida e que pulsa.

O Witchwood lançaria o ótimo “Handful of Stars”, em 2016 e mais tarde, em 2020 “Before the Winter”, com uma roupagem mais direta, com um hard rock mais visceral e sem firulas. Embora a discografia da banda seja pequena, é gigantesca em termos de qualidade e que, no auge de seus quase 10 anos de vida, possa trazer ao mundo novos rebentos sonoros para o nosso deleite.

A gravadora Jolly Roger Records relançaria “Litanies from the Woods” várias outras vezes, seja no formato CD, como no formato LP, em toda a Itália, entre 2015 e 2019. Não ficaria restrito apenas no país de origem do Witchwood, mas também em vários países da Europa, inclusive na Rússia. Perpetuando um “jovem clássico” do rock italiano.





A banda:

Riccardo "Ricky" Dal Pane: vocal principal, vocal de apoio, guitarra elétrica, slide guitar, violão, bandolim, percussão

Stefano "Steve" Olivi: Hammond C100, Leslie 760, Moog Voyager, piano

Andrea Palli: bateria, percussão

Samuele Tesori: flauta, gaita

Luca Celotti: baixo

 

Faixas:

1 - Prelude / Liar

2 - A Place for the Sun

3 - Rainbow Highway

4 - The Golden King

5 - Shade of Grey

6 - The World Behind Your Eyes

7 - Farewell to the Ocean Boulevard

8 - Song of Freedom

9 - Handful of Stars



"Litanies from the Woods" (2015)