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sábado, 29 de agosto de 2026

Messa - The Spin (2025)

 

Aos saudosistas que acham que o rock italiano se limita ao progressivo, está totalmente equivocado ou não quer aceitar que aquele país está trafegando em outras vertentes do rock n’ roll. E não se enganem também de que se tratam de bandas “retrô” que emulam fielmente sonoridades dos anos 1970 e 1980. São bandas que trazem o frescor de um rock mais arrojado e pouco ortodoxo.

Claro que ouvimos referências de cenas de outrora, mas que entregam mesclas totalmente inusitadas para os ouvidos demasiadamente conservadores e que traz um tempero totalmente novo e sedutor aos ouvintes sedentos por sons novos. Preciso falar do MESSA.

A banda, oriunda de Veneza, foi fundada em 2014, banda extremamente nova e que, com seus quatro álbuns de estúdio lançados, em um curto período de nove ou dez anos, trouxeram uma sonoridade calcada no heavy metal, doom metal mais épico e cheio de camadas que vai do new wave ao black metal, carregados de uma atmosfera sombria e marcada pelo experimentalismo e post metal. Loucura, não é? Talvez sim, pelo fato de trazer esses rótulos sonoros, mas na prática, a magia acontece.

Acontece de uma forma nem um pouco datada, deixando a criatividade falar mais alto, sem amarras, sem constrangimento algum de sentir medo da rejeição, muito pelo contrário, haja vista que, diante de tantas vertentes percebidas, a chance de absorver fãs dos mais diversos sons que floresce no rock, é grande, muito grande.

Messa

Evidente que a banda ainda navega pelas águas do underground, mas o faz com maestria, ganhando olhares interessados e arrebatadores. É uma sonoridade consistente, cheia de alma, de sua verdade na mais pura e genuína concepção. Apesar de absorver várias vertentes é nítido e cristalino que existe uma sonoridade bem definida, bem delineada e que edifica a banda a um status que, a médio e longo prazo, de inovadora. Não sei se estou em um estado tamanho de catarse que me impede de ser mais racional. O fato é que a banda, em uma curta trajetória discográfica, está dizendo a que veio.

E falando em discografia preciso, mesmo que de forma bem resumida e rápida, falar sobre seus petardos sonoros, a começar pelo seu debut, “Belfry”, de 2016, com um desenho mais voltado para o doom metal, com aquela atmosfera de occult rock densa e pesada. Depois surgiu para o mundo o segundo trabalho da banda, chamado de “Feast for Water”, de 2018. Aqui ele traz também a pegada doom, mas com uma dose louca e inusitada de blues e post metal, com nuances sutis de progressivo, um metal progressivo volumoso e potente.

"Belfry" (2016)

"Feast for Water" (2018)

O terceiro, lançado somente em 2022, chamado de “Close”, já traz algumas mudanças, diria, significativas, importantes na sonoridade do Messa. Há algo hipnótico e imediatamente nostálgico, mas com o pé da vanguarda fincado no chão. O rock progressivo está mais vívido nas suas composições, fazendo deste álbum o passo mais significativo para a evolução de seus músicos e de sua música.

"Close" (2022)

E esse momento culmina com seu mais recente lançamento, de 2025, chamado de “The Spin”. Aqui o Messa atinge, a meu ver, o nirvana sonoro, aqui a banda se aventura em mais vertentes do rock, aliando tudo que, até então, tinham produzido nos seus três primeiros álbuns, e mostrando para o seu público, para o mundo uma sonoridade calcada no heavy metal, no black metal, no doom metal, no post metal, no metal progressivo, com a new wave.

“The Spin” é um álbum sedutor, deliciosamente atraente, nostálgico, mas com a criatividade dando o norte para o um futuro promissor do rock, sem amarras, sem estereótipos, sendo simplesmente a música pela música. E será nessa viagem louca e necessária que tentarei falar sobre o mais recente trabalha da banda veneziana.

Eu confesso, estimados leitores, que esteja “contaminado” pela euforia de ter feito, desde que esse trabalho do Messa foi lançado, inúmeras audições de “The Spin” e que esteja movido pela passionalidade sendo, consequentemente, incapaz de traduzir em texto, uma crítica construtiva e sem emoções deste álbum. Mas que se dane! Afinal música traz uma dose de emoção e passionalidade e aqui, pelo menos nesse momento, é o que virá à tona.

Mas como não permitir vir à tona quando se, além das vertentes mencionadas, você ainda perceber jazz, blues, o peso seco e direto do stoner, tendo a aura melancólica do doom em sua dança mais épica e menos suja, como típico de sua gênese. E por mais que se revele sombria, oculta, mostra também, por outro lado, suas emoções mais ousadas e declarativas. É incrível o quanto esse mais recente trabalho do Messa é complexo, dramático, melancólico, pesado e contemplativo.

A formação do Messa, para “The Spin”, cuja gravadora é a Metal Blade Records, traz: Sara Bianchin, nos vocais, Mark Sade no baixo e guitarra. Alberto Piccolo, na guitarra e Rocco na bateria, além de Michele Tedesco, no trompete e Andrea Mantione nos sintetizadores, que também foram determinantes para a construção sonora deste álbum. Essa formação, a propósito, é a única desde o início da trajetória discográfica da banda, claro, exceto aos músicos contratados. Digo de Sara, Mark, Alberto e Rocco.

A faixa de abertura é “Void Meridian” que dedica um momento a desenvolver um estilo sério, girando seus motores movidos a sintetizadores até que a força da música tenha uma progressão digna de um doom metal que remete ao Trouble, como desfecho. Um começo meio rocker, com zumbidos etéreos, antes do bálsamo mais pesado e rasgado do seu fim. Aqui a banda mostra a sua incrível conexão emocional com a alma de um blues rock pesado, com um doom mais melancólico e sombrio.

"Void Meridian" (Live in Athens, 2025)

Segue com “At Races” que se mostra cativante, embora se apresente um occult rock e até mesmo algo como um hard psych, bem lisérgico, arriscaria dizer. Ela me traz a sensação latente de um tom embriagante, empolgante, que forja um fio convincente e sombrio ou pelo menos reverente. Tem refrão potente, tempos viciantes e vocais arrebatadores e extremamente delirantes.

"At Races" (Official Video)

“Fire on the Roof” se mostra igualmente cativante, o vocal de Sara é admirável, sendo forte, alto, mas cristalino e muito competente. Aqui se percebe, além do peso do doom metal arrastado, porém épico, um synth-rock que te remente imediatamente aos anos 1980, onde o Messa evoca influências que vai do Sisters of Mercy ao Mercyful Fate. O peso do doom e do heavy metal mesclado ao gótico com tempero da new wave dos anos 1980. É simplesmente incrível essa faixa e que nos faz querer ouvir e ouvir novamente.

"Fire on The Roof" (Official Video)

“Immolation” já chega mudando um pouco a dinâmica do álbum. Trata-se de uma balada, linda, contemplativa, sombria. E embora não seja exatamente inédito em termos de instrumentalização, principalmente visto em seu álbum anterior, “Close”, tudo, nessa faixa, é reduzido às estruturas tradicionais de um hard rock que vai evoluindo, encorpando, tendo, consequentemente uma abrupta transformação. Fica o destaque para o slide guitar de Alberto!

"Immolation" (Live in Locomotiv Club, 2026)

Eis que surge talvez a faixa destaque do álbum, “The Dress”! A começar com as harmonias vocais de Sara que entrega um nível de ressonância incrível, isso tudo alinhado a experimentação destemida de toda a banda. Aqui a ousadia instrumental beira a complexidade com um solo de trompete assombroso de Michele Tedesco, fundindo a intensidade lenta do doom, com a fluidez estranha do jazz, criando algo único e intenso aos ouvidos e a alma.

"The Dress" (Official Video)

“Reveal” surge hasteando a bandeira do heavy metal! É impossível não passar incólume nessa faixa, sendo extremamente animada, pesada, com um groove totalmente diferente do que se ouve no álbum. Timbre rítmico envolvente, uma guitarra elástica, com movimento acelerado, que lembrou, penso, algo como death e black metal.

"Reveal" (Official Video)

E fecha com “Thicker Blood” que traz a combinação mais do que completa do rock gótico dos anos 1980 em sintonia com o doom metal mais tradicional, arrastado e sujo. Na realidade aqui nesta faixa percebemos a versão mais evidente do Messa nos seus primeiros álbuns, com uma música mais pesada e direta, trazendo elementos-base de sua música, calcada no heavy metal e no doom metal.

"Thicker Blood" (Live in Italy, 2025)

A arte da capa de “The Spin” é assinada por Nico Vascellari e, à primeira vista, se revela discreta, mas curiosa com um olhar mais profundo. Trata-se de um “ouroboros” metálico emergindo das sombras. Embora eu não possa dizer que entendo o simbolismo diretamente, ele combina com a mentalidade clássica do rock gótico que está bem presente na estrutura sonora deste álbum.

Penso que as escolhas da banda para a arte do álbum parecem ser motivadas por emoção, talvez por um senso de lugar ou movimento que funciona com cada lançamento e suas particularidades. Mas agora o simbolismo parece, ao mesmo tempo, contemplativo e até conflituoso.

“The Spin”, com esse pensamento, se mostra extremo, um exorcismo do “underground extremo” até as raízes rock não tão terrosas assim. O Messa quis mostrar, com seu mais novo recente trabalho, uma profundidade maior ao “esculpir” tais ideias às músicas, mostrando uma nítida mudança de paradigma sonoro, sobretudo nas suas melodias, entregando para os seus ouvintes uma audição dignamente memorável, mas também mostrando ao mundo a que veio.

As fusões das vertentes sonoras, as emoções mais variadas, a sonoridade orgânica e rebuscada faz de “The Spin” um álbum surpreendente, inventivo, transcendendo o metal e mergulhando o ouvinte em um mundo de beleza assombrosa e emoção extremamente carregada e cheia de nuances imprevisíveis. Para apreciadores de algum tempo da banda, “The Spin” trará uma revelação e para os novatos poderá ser uma introdução arrebatadora.







A banda:

Sara Bianchin nos vocais

Mark Sade no baixo e guitarra

Alberto Piccolo na guitarra

Rocco na bateria

 

Com:

Michele Tedesco no trompete

Andrea Mantione nos teclados, pianos e sintetizadores

 

Faixas:

1 - Void Meridian

2 - At Races

3 - Fire on the Roof

4 - Immolation

5 - The Dress

6 - Reveal

7 - Thicker Blood 



"The Spin" (2025)




 



















 










sexta-feira, 14 de agosto de 2026

The Blues Right Off - Our Blues Bag (1970)

 

Nas transições das décadas de 1960 e 1970 o blues rock estava em alta em alguns grandes centros do rock n’ roll, como os Estados Unidos e a Inglaterra, por exemplo. Bandas como Cream e Led Zeppelin estavam entre as maiores e mais famosas bandas do planeta e traziam, em seu DNA sonoro, o blues mesclado ao hard rock.

Porém em alguns países não estava nas intenções das bandas essa vertente do rock e podemos colocar no rol a Itália que, sobretudo na primeira metade da década de 1970, respirava o rock progressivo. Não se pode pontuar que o blues era inexistente, é bem verdade, mas era difundido entre jovens músicos iniciantes que queriam manter certa proximidade com o público.

A tal proximidade era em virtude das apresentações das bandas que, ao término de seus repertórios, para cativar o público, faziam os famosos bises, emendando algum blues rock ou aquele blues mais antigo, primitivo mesmo.

Em 1970, o blues era a herança de poucos na Itália: apresentado principalmente em pequenos locais, limitado a um público muito pequeno e geralmente para os estrangeiros que visitavam a Itália. Era a “música para estrangeiros” do que um “produto” que poderia ser importado para a Itália.

Mas não significava que não existissem bandas e ouvintes de blues rock na Itália, claro, que em um número extremamente reduzido e uma das primeiras bandas italianas de blues rock, veio de Veneza e se chamava THE BLUES RIGHT OFF, surgida no final dos anos 1960. É difícil pontuar se esta banda foi a pioneira, mas certamente foi uma das primeiras a praticar o blues rock na Itália, seguramente.

O fundador da banda era o guitarrista Claes Cornelius que, claro, era um estrangeiro, um dinamarquês chegado à Itália na metade dos anos 1960 e que logo foi muito bem inserido na cena beat daqueles anos. Participou também da formação o que seria o futuro engenheiro de som do único álbum do The Blues Right Off, Ermanno Velludo, que também juntos criariam os estúdios de gravação “Suono”. Os demais músicos eram: Giancarlo Salvador, no baixo, Fuffi Panciera, na bateria e Paolo Zanella na flauta e guitarra, além de Velludo como engenheiro de som.

Claes Cornelius

O único álbum da banda, de nome “Our Blues Bag”, foi lançado, de forma quase que “artesanal”, em 1970.  Foi editado, privadamente, em 500 cópias e guardado em uma bolsa, com o nome da banda e do álbum, e também continha uma litografia do artista veneziano Vittorio Basaglia. A cópia original é numerada à mão, indicando um total de 500 cópias e assinada pelo artista, portanto nem todos os álbuns lançados continham tais informações. Nem mesmo a bolsa de alça provavelmente estava presente em todas cópias vendidas ou distribuídas.


Essa forma, um tanto quanto inusitada, de ter uma bolsa de alça guardando o vinil da banda, deve ser destacado por ser uma embalagem inovadora e particular, além, claro, muito raro e, embora não seja uma obra progressiva, antecipou as loucuras promocionais do prog rock nos próximos anos.

Apesar do baixo número de cópias prensadas de “Our Bag Blues”, existem três variantes diferentes da capa não gatefold: junto com a versão padrão com abertura do lado direito, há cópias que tem o disco inserido pelo lado esquerdo e outras cuja capa é feita por uma única folha dobrada ao meio e não colada. Isso se confirma o quão “artesanal” esse trabalho foi concebido. E ainda para corroborar tal condição, este único trabalho do The Blues Right Off foi gravado em cerca de dois dias e muitas das faixas em “primeiras tomadas”. É essencialmente um álbum ao vivo, gravado no ateliê de um pintor e não em um estúdio de gravação profissional!

“Our Bag Blues” é, no geral, um trabalho semiprofissional, sendo gravado para o pequeno selo Paplirnaplano em um Tandberg de 2 faixas e mixado com Binsons de dois tubos. A gravação, embora comprimida nas frequências médias, é agradável e não diminui, nem um pouco o bom nível técnico da banda.

E falando no álbum, o mesmo contém sete músicas originais escritas pela banda, todas cantadas em inglês e na melhor tradição do blues elétrico, do blues rock, baseadas em solos de guitarra, na veia hard rock e uma voz bastante aguda e potente.

O álbum é inaugurado pela faixa “One Mint Julie” que é extremamente sedutora, graças ao vocal quase cantado ao pé do ouvido, com a intenção do flerte sonoro. Uma cadência bluesy envolvente, guitarra com riffs lisérgicos e uma bateria bem marcada ditando o ritmo do blues rock.

"One Mint Julie

“Rushing Wish” começa com uma levada espetacular no jazz rock e uma flauta doce e o vocal que também protagoniza. Aqui eu arriscaria dizer que traz uma versão jazz prog com pitadas sutis do blues, cerne sonoro do álbum. Ousado, animado, solar e dançante e, por vezes, mais pesado, graças aos riffs de guitarra.

"Rushing Wish"

“Black Angel” traz de volta o blues rock! O baixo é pulsante, a bateria segue marcando o groove. Um balanço com caráter de balada blues e o “choro” da guitarra endossa o blues tendendo para algo mais pesado, mas contido. E assim segue, uma balada blues, com mudanças de andamento para o hard com guitarras limpas e lisérgicas.

"Black Angel"

“Love’s Gonna Show Up Someday” já começa avassaladora, arrebatadora para os apreciadores do bom e velho blues rock com um pé no primitivo do blues. Um solo de guitarra limpo, eloquente, espetacular e vocal, agudo, traz o contraste bem interessante e pouco ortodoxo. A sessão rítmica entrega a textura bluesy e faz da faixa uma das mais enraizadas no blues.

"Love's Gonna Show Up Someday"

“Leaving My Hometown” segue a mesma proposta e traz a nítida impressão de que é, ou pelo menos poderia ser, uma continuação da música anterior. O baixo pulsa, a bateria, marcada, bate forte, a guitarra impulsiona o blues rock com uma pegada, embora cadenciada, do hard rock. E não tem como não bailar nessa faixa!

"Leaving my Hometown"

“Born On The Highway” retorna à pegada meio jazzística. A sedução e a qualidade com que essa música foi concebida é espetacular! Vocal límpido, quase doce aos ouvidos, a guitarra entrega solos mais diretos, porém competentes, a bateria insinua idas ao jazz e blues, simultaneamente. Mas quando a música se encaminha para o final o solo de guitarra é envolvente e de tirar o fôlego. E finalmente fecha com “Miss D” que introduz meio enigmática, com distantes sons de flauta e, em curto espaço de tempo, finaliza em poucos segundos de duração.

"Born on the Highway

“Our Bag Blues”, um álbum autoproduzido, graças aos pedidos de um pequeno, mas sólido público que a banda conquistou tocando ao vivo vendeu suas cópias nas ruas de Veneza e em shows e o rótulo que ostenta de “raríssimo” é mais do que apropriado, já que sequer não foi distribuído em lojas. Hoje se tornou cult e pode ser encontrado valendo cifras estratosféricas.

Logo que esse álbum foi concebido, a banda se dissolveu! Cornelius continuou como músico de estúdio, vivendo nos Estados Unidos, por um ano e depois, de volta a Veneza contribuindo para o álbum da banda “Venetian Power”, chamado “The Arid Land”. Depois, ele se estabeleceu na Dinamarca em 1974 e permanece na indústria musicam desde então, tanto como produtor quanto como músico.

Existem algumas lendas urbanas que giram em torno do The Blues Right Off e que merecem aqui destaque. Foi, por um fã, que inclusive escreve em um blog especializado em rock progressivo italiano, de nome “John’s Classic Rock” que aqui coloco a informação na íntegra, de que fora encontrado um vinil do The Blues Right Off que teria sido adulterado.

Este teria sido riscado, ocultando algumas informações, e inseridas, de forma tosca, escrito a caneta, o nome “Blues Society” com o ano de 1972. Todas as referências do The Blues Right Off foram excluídas, como o nome da banda, o de Cornelius, que escreveu todas as músicas do álbum e de Ermanno Veludo, que era o engenheiro de som.

Ainda segundo o editor deste blog que adquiriu esse vinil adulterado o baixista do The Blues Right Off, Giancarlo Salvador, havia entrado para a banda “Blues Society”, de Guido Toffoletti, um “bluesman” já ativo na cena veneziana desde os tempos do beat.

Este traz a possibilidade, nada, evidente, confirmação, apenas uma especulação, de que Salvador poderia ter usado a cópia ou as cópias do raro “Our Bag Blues” como demos pela Blues Society, em 1972. Se isso de fato se confirmar um dia, poderia explicar o motivo pelo qual todas as referências a “Our Blues Bag” terem sido deletadas, porque todos os créditos relacionados ao álbum e à banda foram desaparecidos. Quanto exemplares teriam sido adulterados dessa forma?          

O fato é que o Blues Right Off deixou, mesmo que usado indevidamente, um legado para o rock italiano dos anos 1970, navegando contra a maré que inundava aquele país do rock progressivo que estava ganhando certa notoriedade quando este “Our Bag Blues” foi concebido em 1970. O blues rock, em evidência nos principais polos do rck n’ roll, também tinha um obscuro, mas significativo representante na Itália.

O álbum foi relançado, pela primeira vez, em 2009, no formato CD, pela AMS, sendo, muito provavelmente a primeira chance de muitas pessoas em ouvi-lo e de colecionadores ter em seu acervo. Essa reedição, feita com a ajuda de Claes Cornelius e Ermanno Velludo, vem em uma edição numerada à mão de 500 cópias, guardada em uma capa de mini-LP e inclui um livreto com notas em italiano e inglês. Em 2012, a primeira reedição em vinil já feita para este álbum foi lançada na Inglaterra, produzida pelo selo português Pavilion Records, também em 500 cópias com capa gatefold.


A banda:

Claes Cornelius no vocal e guitarra

Giancarlo Salvador no baixo

Fuffi Panciera na bateria

Paolo Zanella na flauta e guitarra

 

Faixas:

1 - One Mint Julie

2 - Rushing Wish

3 - Black Angel

4 - Love's Gonna Show Up Someday

5 - Leaving My Hometown

6 - Born On The Highway

7 - Miss D




"Our Blues Bag" (1970)





 






















sábado, 16 de maio de 2026

Laser - Vita Sul Pianeta (1973)

 

Certos temas e assuntos, com o passar do tempo, vão se tornando clichês, se estereotipam, até. Mas é preciso ser mencionado, pela urgência do tema e/ou se especializa em dizer certos assuntos ou melhor, se decide desbravar por certos temas. A razão de ser, por exemplo, deste reles e humilde bolg é falar de bandas obscuras, que trafegam ou trafegaram no underground e que, por algum motivo, que geralmente são inúmeros, dada a sua complexidade, sucumbiram.

A ideia central é trazer à tona as suas histórias, aqui neste site o fracasso compensa enaltecer. E não se enganem, nobres leitores, em associar fracasso a incapacidade musical, como, por exemplo, a trabalhos ruins ou coisas que o valham. Não! Há e muito a se aproveitar, com o digno garimpo, nas obscuridades, no underground!

E, quando me pus a refletir sobre isso, procurei buscar uma banda e um álbum que personificasse esses temas, essas questões e trazer aqui, porque, como disse, a ideia central é contar e disseminar histórias e álbuns que possa arrebatar ouvidos e corações sedentos por algo que fuja do usual, mas, sempre trazendo a qualidade como mote.

Claro que a questão da qualidade pode ser relativa, afinal, as percepções e gostos podem ser diametralmente diferentes uns dos outros. Isso não é nenhuma novidade, evidentemente. Mas acalmem-se, estimados leitores, tentarei dizer onde quero chegar dizendo com isso.

Quando eu ouvi o único álbum dessa banda pela primeira vez eu vi, ou melhor, li algumas poucas críticas acerca deste trabalho e digo que todas ou quase todas foram negativas. A rejeição foi grande, diria. Alguns atribuíram a incapacidade dos músicos, a produção aquém etc. Ouvi algumas vezes mais para tentar “achar” tais deficiências e algumas, de fato, foram notadas por mim, como a produção. Contudo, mesmo diante de alguns reveses, eu adorei esse álbum. Sim! Adorei! São percepções, são opiniões distintas e isso é salutar para a vida!

Então esse texto seria uma espécie de me posicionar contrário ao que a maioria disse a respeito dessa banda e álbum. Mas não é tão somente isso! É um texto para expor o meu apreço por este álbum e banda, afinal, neste blog irá figurar apenas o que este reles dono gostar. Sem mais delongas falarei do LASER.

As poucas referências, sobretudo da Itália, país de origem da banda, dão conta e isso me parece óbvio, é de que a mesma é considerada como obscura. Mas confesso que, ao ler isso, me encheu de alegria, pois se até em seu país é tida como obscura, merece figurar nesse blog.

Os protagonistas do Laser, um quinteto, eram nascidos entre Roma, Formello e Campagnano e eram: Riccardo Paolucci (vocais, guitarra), Valentino D'Agostino (vocais, teclados), Loris Cardinali (guitarra), Adalberto Sbardella (baixo) e Antonello Musso (bateria). O único álbum lançado pela banda foi “Vita Sul Pianeta”, de 1973.

A banda em 1973

Os primórdios do Laser, à época de sua formação, no final dos anos 1960, o nome era bem mais longo, sendo chamado de "Il Laser, di Elvezio Sbardella". Este foi, por um certo período cantor e letrista da banda. Nessa primeira formação havia um tecladista de nome Gino.

Fizeram as primeiras 45 RPM no ano de 1972, para uma pequena gravadora, de nome Mantra, que ficava em Bolonha. Os singles se chamavam "Dove Andremo" e "Lacrime di Ragazzo", sendo, claro, muito raro e feito com uma distribuição local, lançado apenas com uma capa branca genérica.

Single

No ano seguinte, 1973, após a formação ser definida, com a saída do tecladista Gino e o nome da banda abreviado para “Laser”, os cinco músicos foram contratados pelo selo Car Juke Box, de Carlo Alberto Rossi, que tinha, em seu cast, bandas icônicas como Le Orme, decidiu investir em novas bandas, em novos talentos em boa companhia com I Nuovi Corvi e o excelente músico de jazz Paolo Tomelleri. Tudo isso sob a égide tanto do Maestro Mario Bertolazzi (maestro da Rai) quanto de Renato Pareti, dos Nuovi Angeli.

"Vita Sul Pianeta" ou, em inglês, “Life on the Planet” (“Vida no Planeta”) era uma obra conceitual sobre a evolução da vida, do homem, no planeta. Uma parábola existencial do homem na Terra em forma narrada, com finais dramáticos e mensagens fortes e de grande urgência. A sonoridade da banda era principalmente a mescla do hard rock, com predominância, protagonismo dos seus guitarristas, com o rock progressivo, com interessantes mudanças de andamento.

Mas não para por aí. Neste único trabalho do Laser é perceptível o blues rock, pitadas de psych e até mesmo, muito em virtude dos primórdios do rock italiano, do beat, do pop macarrônico do país da bota. Embora traga nuances de progressivo, as faixas são curtas e em alguns momentos, mais básicas, porém viciantes e que cativa a todos os gostos que variam, claro, do hard ao prog. Acredito que o fato de ter, acerca desse álbum, certa rejeição, pelo fato de fugir um pouco do que se ouvia, à época, auge do progressivo italiano, mais voltado para o sinfônico e coisas mais complexas de bandas mais consagradas.

Mas é inegável observar que tais músicas trazem melodias cativantes, animadas, solares e muito daquele espírito do rock italiano, que absorveu o seu ápice e os seus primórdios, sem dúvida. Esse, posso dizer, sem quaisquer constrangimentos e medo, álbum do Laser traz, em sua essência sonora, a cultura underground, marginalizando-se do que se praticava na primeira metade dos anos 1970. E o interessante que até mesmo nas letras dessas músicas, dada a sua questão conceitual, também entrega elementos mais underground, diria até mais hippie.

Outro ponto de muita crítica acerca de “Vita Sul Pianeta” está nos vocais e na produção muito abaixo que, para muitos, colaborou negativamente para o resultado final deste álbum. Há uma rotação nos vocais entre três músicos: nos dois guitarristas e tecladista. De fato, as vozes podem não ser convincentes, estupendas vozes, mas compensa pelos alcances altos, em alguns momentos mais altos e gritados, o que traz algo pouco ortodoxo para a realidade dos trabalhos progressivos. Nos momentos pesados das faixas é extremamente atraente!

O álbum é inaugurado com a faixa título, “Vita Sul Pianeta” que começa com uma narração, mas logo traz uma atmosfera sombria, soturna, com os teclados psicodélicos e sinfônicos que é entrelaçado por riffs de guitarra e solos lisérgicos curtos. A bateria é marcada e pesada, baixo pulsante, o ritmo, cadenciado, tende para o hard rock e pitadas progressivas. Vocais altos e agudos entregam uma música mais pesada e me remetem, por um instante, o norte-americano Vanilla Fudgie. O final já revela aquele progressivo mais sinfônico tipicamente italiano. Música de muitos recursos!

“Non Vede La Gente” já começa cativante com uma pegada meio beat, meio psicodélica, com o hard rock dando o “tempero”. É inegável que aqui percebe-se o hard prog em sua mais fiel essência. O peso dos riffs de guitarra e as mudanças de andamento, faz da música interessante e atraente.

Non Vede La Gente

“Sconosciuto Amico” traz o vocal, praticamente à capela, apenas com um piano e teclado ao fundo, mostra a voz mais apurada, melódica e tipicamente dramática do rock italiano. Uma balada prog bem legal vai se revelando aos poucos. Uma sonoridade contemplativa e viajante que mescla o progressivo e o rock psicodélico. Backings vocals femininos me remetem a um clássico floydiano dos anos 1970. Mas quando se encaminha para o final, algo meio King Crimson se percebe com saxofone e uma pegada experimental.

“Dove Andremo” segue basicamente a mesma pegada da faixa anterior: vocal mais soturno, urgente, introspectivo e uma bateria, meio percussiva ao fundo. Mas conforme o vocal ganha alcance, a sonoridade vai ganhando mais corpo e irrompe em uma explosão de riffs e teclados enérgicos em um hard rock potente e volumoso. Mas logo retorna ao som mais sombrio do início. As mudanças de andamento, mais uma vez, se mostram evidentes, trazendo a veia progressiva que permeia todo esse trabalho.

"Dove Andremo"

“L'ultimo Canto Del Killer” introduz com a “cozinha” dando o recado: solo de bateria, baixo cheio de groove, pesado, e depois vem o peso da guitarra, de riffs mais sujos e pegajosos, entregando, de imediato, um hard rock cadenciado com o vocal gritado e rouco. Aqui se percebe também uma pegada mais bluesy, um bom blues rock com recheio progressivo, um pouco mais sutil aqui, é bem verdade. Talvez uma das mais pesadas do álbum!

"L'Ultimo Canto Del Killer

“Corri Uomo” vem trazendo o carro-chefe do álbum: o hard prog! Aqui há uma belíssima “rivalidade” entre os teclados, enérgicos, com a guitarra, em riffs pesados e solos curtos igualmente pesados. O final é de tirar o fôlego com solos de guitarra estrondosos e teclados ainda mais pesados. Pesado! “Eri Importante” já começa dançante: instrumentos de sopro animados, teclados lisérgicos, um beat solar. Vocais mais gritados e, por vezes, melódicos. A pegada pop está mais latente. O beat italiano é mais vivo nessa faixa.

E fecha com “Alla Fine Del Viaggio” já começa com o pé na porta, com uma explosão de guitarra, em um solo bem competente. O hard rock aparece aqui com veemência. A camada de teclados traz uma textura progressiva. O “duelo” entre guitarra e teclado é um espetáculo à parte e nítida sensação de um hard prog vem tocando aos ouvidos deliciosamente. Grande e derradeira faixa!

"Alla Fine Del Viaggio"

Poucas foram as cópias impressas para esse álbum, em 1973. É evidente que a produção, fruto do baixo envolvimento e investimento da gravadora para com o Laser, esteve aquém, mas não se pode atribuir a responsabilidade à banda que, mesmo contra tais adversidades, mostrou competência no que se propôs a produzir. Sim! Um som áspero, mais pesado, incomum no auge do rock progressivo italiano no início dos anos 1970 que prezava pela qualidade técnica, mas um álbum muito bom diante da sua proposta de um hard prog.

Os reveses, diante desse cenário, seriam evidentes para a trajetória do Laser. A sua trajetória foi curta, precoce e a banda, lamentavelmente, se desfez logo após o lançamento de “Vita Sul Pianeta”, em 1973. Culminou, também, com a saída do tecladista Valentino D'Agostino que foi obrigado a prestar o serviço militar. A banda se reúne, décadas depois, em 2019.

"L'Ultimo Canto Del Killer (Live, 2019)

“Vita Sul Pianeta” teve alguns relançamentos ao longo dos anos. Em 2000 o selo Akarma o relança, no formato LP. Em 2012 foi a vez do selo AMS/BTF relançar, também no formato LP. Já no formato CD o primeiro relançamento foi em 1992 pelo icônico selo Mellow. Akarma também relançou em 2000, bem como a gravadora AMS/BTF.

Capa de relançamento

Um clássico incompreendido! Um clássico obscuro marginalizado, que caiu no mais profundo ostracismo que o tempo, quem sabe, se encarregará de trazer justiça pela forma arrojada como foi concebido. Produção pobre? Inocência sonora? As percepções são variadas, mas uma coisa é fato: é único por ser simplesmente diferente.


A banda:

Riccardo Paolucci nos vocais e guitarra

Valentino D'Agostino nos vocais e teclados

Loris Cardinali na guitarra

Adalberto Sbardella no baixo

Antonello Musso na bateria

 

Faixas:

1 - Vita Sul Pianeta

2 - Não Vede La Gente

3 - Sconosciuto Amico

4 - Dove Andremo

5 - L'ultimo Canto del Killer

6 - Corri Uomo

7 - Eri Importante

8 - Alla Fine Del Viaggio 



"Vita Sul Pianeta" (1973)






 

















domingo, 12 de abril de 2026

Triade - 1998: La Storia di Sabazio (1973)

 

A influência do britânico Emerson, Lake & Palmer para o rock progressivo italiano é notório! Não falo de plágio ou que a Itália progressiva se deita na fama sonora do ELP para construir o seu som. É perceptível! Mas ainda assim a Itália, mesmo com a forte influência, e assim devemos chamar, soube edificar a sua sonoridade com qualidade e originalidade.

Os teclados, as texturas sinfônicas baseadas na música clássica serviram e ainda servem de sustentáculo para o prog italiano. A maioria das bandas clássicas da Itália traz essas nuances de forma latente, viva. As bandas progressivas italianas, principalmente aquelas que atingiram o status de pioneirismo, foram movidas pelo teclado, pelas notas sinfônicas, com um forte toque de dramaticidade tipicamente italiano.

E a banda que falarei hoje indica a forte influência do Emerson, Lake & Palmer, mas, claro, assume também uma história calcada no mistério e na escassez de informações. Assim deve ser, afinal, essa é a razão de ser deste humilde e reles blog que você, estimado leitor, lê. A banda se chama TRIADE.

O Triade era é uma banda que foi concebida na cidade de Florença, na Itália, no início dos anos 1970 e, como o ELP, era um trio que, por décadas, não se sabia seus nomes. Sim, já começa por aqui! No seu único álbum, lançado em 1973, de nome “1998: La Storia di Sabazio”, o selo de Milão, Derby, não creditou seus nomes no vinil. Na realidade apenas seus sobrenomes apareciam como créditos na arte gráfica do álbum. E isso fomentou a aura sombria que pairava na história da banda.

Mas de certa forma isso era comum entre os jovens músicos italianos de rock progressivo na década de 1970 onde se usava nomes “fantasmas” ou pseudônimos para evitar problemas legais, pois a maioria não eram membros da Siae, a italiana Riaa.

Somente anos mais tarde, por intermédio de um árduo trabalho, o historiador de Rock Progressivo Italiano, Augusto Croce e o músico Enrico Rosa descobriram o mistério e a história foi revelada. O tecladista Vincenzo Coccimiglio (que tinha apenas 18 anos na época) conheceu o baixista Agostino "Tino" Nobile em um clube de Rock. Os dois se deram bem e cada um escreveu um lado do material no álbum. Demorou algum tempo, mas eles finalmente encontraram um baterista bom o suficiente para lidar com o que eles escreveram: Giorgio Sorano.

As origens do Triade, no início dos anos 1970, surgiram a partir da banda “Noi Ter”, onde Agostino tocou com Franco Falsini, do Sensations Fix e Paolo Tofani, do I Califfi e, posteriormente, do Area. Ele trabalhou então no Space Electronic, em Florença, onde conheceu Vicenzo. Começaram a tocar juntos e, como disse, compuseram cada um deles, um lado do álbum e com a adição de Sorano formaram finalmente o Triade.

A origem do nome "Triade", poderia ser usada em vários contextos. Talvez religioso, as três divindades, os três músicos ou ainda musicais, um acorde com três notas. O fato é que a nomenclatura tem origem, gira em torno do número "3". A tríade é um termo que se refere a um conjunto de três elementos, pessoas ou coisas. A palavra vem do grego, "trias" que significa "três". O fato é que a origem do nome, sem dúvida, gira em torno do número "3". E já que falei da arte gráfica, o belo trabalho da capa do álbum, foi de responsabilidade da namorada do baterista que era design gráfica.

Triade

Eles foram contratados pelo produtor Elio Gariboldi (um famoso produtor italiano, mais conhecido por ter feito parte da banda italiano “Squallor”) e também contratado, de forma imediata, pelo selo Derby. Em 1973 “1998: La Storia di Sabazio” foi gravado no Rossi Studio, em Milão, e teve a arte, bem interessante e enigmática, desenhada pela esposa de Sorano. Convém lembrar que o selo Derby já havia produzido muitos álbuns de Toquinho ou Gianni Bella, uma gravadora que nada tinha a ver com rock progressivo.

“1998: La Storia di Sabazio” apresentava uma obra conceitual, pequenas “peças” progressivas de no máximo dois ou três minutos cada, explorando diferentes progressões e arranjos instrumentais, tendo o teclado como ponto central de sua música. Tal construção me remete e muito o estilo “Tarkus”, clássico do Emerson, Lake & Palmer”, com os teclados em destaque, sobretudo na primeira faixa, “Sabazio”, que é dividida em quatro partes instrumentais.

O único álbum do Triade é, como disse, fortemente influenciado por Emerson, Lake & Palmer, isso é inevitável, mas não se pode afirmar plágio ou cópia, mas a forte influência britânica na música progressiva italiana. Assim como suas inspirações inglesas, a música do Triade focava em um jogo intenso entre teclados, claro, e seções rítmicas marcadas. E assim se percebia no primeiro lado do álbum, composto por Vincenzo Coccimiglio. Um som instrumental, curtas faixas, influências clássicas, prog com psych em várias partes, um som suave nada intrincado, mas com o toque requintado das teclas de Vincenzo, mostrando virtuosidade.

O segundo lado do álbum, continua no rock progressivo, mas com forte viés melódico e sinfônico, onde Agostino Nobile, compositor das faixas, surge com violão acústico, em vez do baixo, acompanhando os teclados. Aqui, neste lado, traz à memória o Le Orme, mas também traz toques evidentes do ELP, mesclando partes instrumentais, acústicas e vocais, intercaladas com teclados e sintetizadores, sempre dentro da linha progressiva um pouco mais melódica e sinfônica. E o violão lembra os sets de Greg Lake quando esteve à frente do Emerson, Lake & Palmer. Essas nuances, um tanto quanto distintas, entre os lados do álbum ganhou críticas não muito agradáveis, por conta dessas abordagens sonoras, mas penso ser exageradas, pois, apesar de contarem com compositores únicos e diferentes, percebe-se, apesar de tudo, uma base calcada no prog italiano que se praticava na primeira metade dos anos 1970.

O álbum começa com a suíte “Sabazio” que é dividida por quatro partes, com pouco mais de três minutos cada, são elas: 1- “Nascita”, 2- “Il Viaggio”, 3- “Il Sogno” e 4- “Vita Nuova”. A parte 1 traz um som mais suave, mais pastoral e viajante, quase contemplativo, com um órgão flutuante. A parte 2 já traz um órgão mais pulsante, com a seção rítmica mais enérgica, o baixo e bateria em uma sinergia interessante. A parte 3 apresenta tambores, algo mais percussivo, órgão também pulsante e latente, com energia, além da inclusão de violoncelo. Ao longo da música vai ficando mais poderosa, um pouco mais pesado. A parte 4 traz a predominância de teclados duplos, a prog rock aqui é mais evidente. “Sabazio” é o sonho para qualquer amante de música clássica e progressiva, graças ao órgão, ao piano, violoncelo, com elementos de rock como o baixo e a bateria. Uma sonoridade, embora simples, se revela atraente e elegante o que é incrível para músicos tão jovens à época.

"Sabazio - Nascita" (Parte 1)

"Sabazio - Il Viaggio" (Parte 2)

"Sabazio - Il Sogno" (Parte 3)

"Sabazio - Vita Nuova" (Parte 4)

Segue para o outro lado do álbum com a faixa “Il Circo” que traz uma batida mais voltada para o rock, com uma pegada mais hard, pesada, com um órgão igualmente pesado e enérgico. Aqui as teclas se destaca, com a bateria, marcada e pesada, também protagoniza.

"Il Circo"

“Espressione” soa mais como um típico rock progressivo italiano com sintetizadores, acústico, com pianos doces e vocais calorosos e agradáveis. Aqui percebe-se, de forma nítida, o lado mais suave e romântico da Itália progressiva. Um ótimo trabalho de piano e acústico agradável. Traz um pouco de sinfônico com sintetizadores já para o final da música.

"Espressione"

“Caro Fratello” é parecido com Il Circo, por ser um rock mais acelerado com órgão, mas se expande por incluir mellotron, violão acústico e vocais mais suaves. O destaque fica logo no começo com órgão, bateria e baixo em uma ótima jam, extremamente animado, solar. Aqui também traz, claro, destaque para o órgão, que divide momentos mais animados e enérgicos, com momentos mais intimistas e dramáticos.

"Caro Fratello"

E fecha com “1998 (Millenovecentonovantotto)” começa com uma onda de dedilhados acústicos, com vocais suaves e melódicos, com um baixo bem tocado. A bateria surge dando “corpo” a faixa. Fica mais edificante com sintetizadores alegres e vibrantes, sobretudo em seus momentos finais. As seções acústicas, bem tocadas, se misturam com bons teclados. Se revela uma música com boas camadas e animada.

"1998 (Millenovecentonovantotto)"

Com a mudança do produtor Gariboldi para Munique, na Alemanha, o novo produtor, de nome Lombroso, assume a produção do Triade. A primeira exigência dele foi que a banda voltasse ao estúdio e gravar um álbum mais comercial. A banda imediatamente recusou a proposta. Aqui seria o começo do fim do Triade. Mas não foi apenas a discordância entre produtor e banda, com relação às novas tendências sonoras, que fez com que o Triade findasse, tão precocemente, a sua trajetória.

A crítica também não foi muito gentil com a banda. Os acusou de serem pouco originais, principalmente por não enfatizar tanto, segundo os críticos, a essência do rock progressivo italiano, absorvendo sonoridades britânicas, principalmente do Emerson, Lake & Palmer. Evidente que o único álbum do Triade não soa original e traz influências do ELP, afinal, penso que as raízes progressivas italianas vêm dos britânicos, principalmente do Emerson, Lake & Palmer e nota-se, de forma evidente, a meu ver, uma sonoridade simples, quase inocente, sim, mas muito talhado para o rock progressivo italiano.

“1998: La Storia di Sabazio” talvez não represente totalmente a pureza do rock progressivo italiano que foi se construindo ao longo dos anos 1970, mas é um resultado, como todas bandas que surgiriam no cenário italiano, das influências daquele país, absorvendo ainda as características marcantes da sua sonoridade, as suas peculiaridades.

Após a formação da Triade, quando o baterista Giorgio Sorano entrou por último na banda, surgiu a chance, e foi tudo muito rápido, de se reunir com o produtor Elio Gariboldi. E deve-se a ele por ajudar os jovens músicos à época, a lapidar seu som, produzindo resultados lucrativos, sob o aspecto sonoro, com “1998: La Storia di Sabazio”, que incluíam equipamentos, instrumentos de ponta, como mellotron e um gonue gigante, além de um tempo considerável em um estúdio com um engenheiro de som. E assim surgiu o único álbum do Triade.

“1998: La Storia di Sabazio” entrou na cena prog italiana com um grande destaque, devido às performances ao vivo enérgicas e até extravagantes da banda. Os garotos do Tríade estavam no auge da criatividade e físico e o mundo parecia ser o limite. Logo abriram shows para as grandes bandas da época, como Banco, Premiata Forneria Marconi e Franco Battiato e até conseguiram alguns shows como atração principal, mas apesar da exposição que a banda vinha conquistando, o álbum não emplacava, não correspondendo às expectativas de vendas.

A corrida do ouro do progressivo italiano, nos anos 1970, para muitos virou simplesmente um latão desvalorizado e frustrante e com o Triade não foi diferente. As baixas vendas de seu álbum e o tímido apoio da gravadora fez com a banda cessasse as suas atividades precocemente, como tantas outras que seguiram sua trajetória na mais profunda obscuridade e ostracismo.

“1998: La Storia di Sabazio” teve alguns relançamentos. Em 1974, um ano após seu lançamento, o selo Derby o relançou na Itália, no formato LP e cassete. Em 1993 foi lançado no Japão pelos selos Nexus International e King Records no formato LP. Em 1987 novo relançamento no Japão no formato CD, pelo selo Nexus e outro relançamento, em 1993, também em CD, pelo selo CGD. Em 1993 foi a Coréia do Sul. Entre 1994 e 2020 foram vários relançamentos, em CD e LP, alternando entre a Itália e o Japão.





A banda:

Vincenzo Coccimiglio nos teclados

Agostino Nobile no baixo, violão e vocal

Giorgio Sorano na bateria

 

Faixas:

1 - Sabazio: Nascita

2 - Sabazio: Il Viaggio

3 - Sabazio: Il Sogno

4 - Sabazio: Vita Nuova

5 - Il Circo

6 - Espressione 



"1998: La Storia di Sabazio" (1973)