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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Quantum - Quantum (1983)

 


No Brasil definitivamente temos músicos teimosos, resistentes! A arte, pura e genuína, em nosso país, por si só é um ato de resistência. Em um país em que não existe a cultura da leitura, o senso crítico caiu no senso comum, na vala do simplismo mórbido.

Mas ainda há, repito, os resistentes, aqueles que, bravamente, difundem a sua música, a sua arte, contra um status quo que privilegia a letargia, a inércia da estupidez.

E no caso dos músicos brasileiros, voltemos a eles, sobretudo aqueles que não se contentam com a coisa pasteurizada que trafega pelo mainstream, lutam em uma luta hercúlea e, para muitos, injusta, mas resistem e para o nosso deleite, pois, mesmo em tempos tão frívolos ainda podemos, temos a chance de ouvir músicas que nos impactam positivamente.

Mas há aqueles que sucumbem e, para ter o seu trabalho minimamente exposto, visto, optam por ir para a Europa, para cenas que propiciem um pouco de estrutura para materializar a sua música. Talvez não seja a palavra correta, a de sucumbir, mas cansaço.

Contudo voltando-se para os que, bravamente, ficam, há uma banda que realmente deslocou-se do tempo em que existiu. Sabe aquele caso em que você é muito descolado? É o caso dessa banda de hoje.

O QUANTUM, banda formada em 1982, no Rio de Janeiro, é um exemplo fiel de resistência e de que não “adequou-se” ao período em que foi concebida. É sabido que o rock dos anos 1980 foi dominado pelo pós-punk, pela new wave e, por algum tempo, o heavy metal, a “New Wave of British Heavy Metal” e o Quantum entregou o rock progressivo.

Logo o rock progressivo que, para muitos, estava em baixa, derrotado, esquecido, pouco criativo. Evidente que a cena não estava em alta, mas sob o aspecto comercial e muitas bandas gigantescas do estilo pereceram exatamente por conta desse triste fenômeno mercadológico e outras lotaram arenas pelo simples fato de se adequar ao modismo sonoro da época.

Não com o Quantum. Eu não aprecio as comparações entre as bandas, mas no caso do Quantum vem a calhar para ilustrar a sua situação nos anos 1980: a banda, com o seu primeiro trabalho, que completou 40 anos, lançado em 1983, traz influências da cena britânica de Canterbury personificado no som do Camel, principalmente, com elementos de jazz que proporcionou um balanço interessante ao som sinfônico em geral.

Mas a essa influência britânica da banda de Andrew Latimer e companhia você acrescenta um art rock instrumental com uma abordagem lírico-romântica bem instigante e original, típico das bandas brasileiras do gênero e até mesmo das bandas sul americanas no geral.

O Quantum, com seu debut mostrou-se digno sucessores dos trabalhos das grandes bandas que lá nos anos 1970 construíram tão brilhantemente um estilo, um conceito, uma cena, isso em plenos anos 1980 que alguns maldosos teimam em dizer que o prog rock deixou de existir. Como um som híbrido, o rock e seus gêneros, só se manifestam de forma diferente, é isso!

O álbum, “homônimo”, nasceu, para variar, de forma independente, na base da luta e resistência, por um selo chamado “Café”, mas pasmem, vendeu cerca de 6.000 cópias o que é um número deveras alto para uma música relegada ao descaso, ao esquecimento.

Claro que a produção deixa um pouco a desejar, mas o trabalho é inspirador, repleto de entonações fabulosas. O componente composicional, bem como a classe de desempenho são excelentes. Não podemos negligenciar também as linhas gêmeas de guitarra que dão o tom para a maioria das faixas, com solos arrojados, floreios acústicos contemplativos, sutis que nos faz viajar.

A formação clássica do Quantum, neste trabalho de 1983, contou com: Marcos G. Rosset (Gringo) na guitarra e violão, Reynado Rana Junior (Dinho) na guitarra e violão de 12 cordas, Fernanda Costa nos teclados e guitarra na faixa “Chuva”, Segis C. Rodrigues no baixo e Paulo Eduardo Naddeo na bateria e percussão. Fecha com a ilustre participação do icônico baterista brasileiro Rolando Castello Junior participando com as suas baquetas na faixa “Inter Vivos”. E por falar em faixas, vamos a elas, dissecando-as.

O álbum é inaugurado com a faixa “Tema Etéreo” que já começa avassaladora, uma incomparável aula de como se deve fundir com habilidade e maestria o jazz rock e o progressivo. São pouco mais de nove minutos de inspiração, complexidade e qualidade técnica de todos os seus músicos. Não podemos esquecer do equilíbrio suave dos teclados e o frenesi do jazz rock da seção rítmica.

"Tema Etéreo" (Ao vivo na TV Cultura)

A sequência temos a faixa “Chuva”, mas simples e direta, entrega guitarras dedilhadas, contemplativa, viajante, ao estilo mais voltado para o prog rock que mais parece ser uma introdução para a faixa seguinte, “Acapulco” que me remete ao progressivo sinfônico aliado a pegada mais pesadas, diria, de hard rock. É contundente, é complexo, o jazz se revela pelos teclados, pela seção rítimica. Excelente!

"Acapulco"

Chega “Inter Vivos” e a guitarra e a bateria trazem uma beleza que positivamente destoa do álbum, com um hard rock mais vivo, mais pesado, com solos ao estilo Camel, que traz à tona o brilho, a competência de cada músico, é simplesmente emocional, intenso, vívido e pleno. E, mais uma vez, cabe uma menção a Castello Junior que se tornou notório no hard rock, deixou sua marca e se aventurou perfeitamente no rock progressivo.

"Inter Vivos"

A faixa seguinte é “Sonata”, outra joia desse excelente álbum, uma das mais lindas e belas composições que tive a alegria e o privilégio de ouvir. Com sua vibe suave é profunda, intensa e emocionante.

"Sonata"

E fecha com a faixa título, “Quantum” que poderia ser considerada uma “micro-suite”, mas é o que menos importa, o mais importante e enaltecedor é que é repleta de uma beleza que, inicialmente se revela incontida que se desdobra sutilmente nos dois primeiros minutos, para logo depois revelar-se explosiva, catastrófica, linda, intensa, tensa, com temas cativantes, geniais.

"Quantum"

Dez anos depois dois integrantes da banda, os principais compositores, Fernando Costa e Reynaldo Rana Junior, com o apoio de músicos convidados, gravaram o segundo álbum da banda, o “Quantum II”, um ano depois, de 1994 que deixa um pouco a desejar do primeiro álbum, trazendo um pouco a artificialidade de um neo-prog dos teclados e uma difícil ausência de guitarras, não satisfazendo os fãs que apreciaram o Quantum da década de 1980.

E o resultado foi o inevitável: o fim. Os líderes do projeto, desse triste retorno tomaram a decisão de se dissolverem. Infelizmente algumas comparações acontecem e o fim se tornaria talvez a melhor maneira para não continuar com decisões equivocadas.

Mas ainda em 1993, algo bom aconteceu, pois, o debut do Quantum, de 1983, foi relançado com uma faixa bônus, “Presságio”, compilada durante os trabalhos de material para o segundo álbum, “Quantum II”, em 1994.

“Quantum” é exemplar, fantástico e merecedor de grande destaque, sendo indispensável na cabeceira qualquer apreciador do jazz rock e progressivo, dada as devidas proporções de predileções, evidente. O fato é que os caras do Quantum são verdadeiros abnegados da música progressiva em tempos que essa sonoridade foi rejeitada clamorosamente pela indústria fonográfica.




A banda:

Marcos G Rosset (Gringo) na guitarra e violão (baixo em "Inter Vivos")

Reynaldo Rana Jr. (Dinho) na guitarra e violão de 12 cordas

Fernando Costa nos teclados (guitarra em "Chuva")

Segis C. Rodrigues no baixo

Paulo Eduardo Naddeo na bateria e percussão

 

Participação:

Rolando Castelo Jr.: bateria em "Inter Vivos"

Felipe Carvalho: baixo em "Presságio"

 

Faixas:

1 - Tema Etéreo

2 - Chuva

3 - Acapulco

4 - Inter Vivos

5 - Sonata

6 – Quantum

 

Faixa bônus de relançamento de 1993:

 

7 - Presságio


"Quantum" (1983)















 




quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Ritual - Widow (1983)

 

A história da indústria da música está repleta de pitorescos e incomuns momentos que definitivamente vale a pena ser contada. Por isso a existência deste humilde e reles blog, porque aqui bons amigos leitores a história também tem o seu lugar de protagonismo, bem como, claro, a música, afinal, convenhamos que ambos se complementam.

E muitas dessas histórias, desses momentos são daquelas bandas, inúmeras, diga-se de passagem, que não chegaram ao estrelato, que não atingiram o status de banda conhecida, não pelo fato de serem ruins, uma porcaria, mas o sucesso é sob o aspecto comercial da coisa e esse sim é no mínimo “digno” de questionamentos no que tange a qualidade sonora.

Mas este reles e humilde blog que o nobre leitor lê é uma ode ao fracasso! Nós amamos o fracasso, porque nele reinam absolutas as bandas obscuras, esquecidas, vilipendiadas pela história da indústria fonográfica. O fracasso é extremamente rico e rende histórias e momentos únicos.

Talvez esse tal fracasso possa ser dissecado, entendido de várias formas: a banda estar na hora e lugar errado, a tal da sorte, como se qualidade dependesse de sorte e afins, mas como falamos em mercado, em uma indústria orquestrada, geralmente, por um sistema destrutivo e paternalista, muitos sucumbem para poucas “oligarquias” prosperarem e sucesso se torna algo totalmente raso.

E essa banda que vos apresento neste texto sintetiza com fidelidade esse panorama que, por se tratar de um sistema, perdura desde os seus primórdios, com algumas mudanças de “aperfeiçoamento” nos dias atuais com alguns adventos tecnológicos, por exemplo. Falo da banda britânica RITUAL.

Ritual

Já começa pelo nome, digamos pouco ortodoxo. Não chega a ser algo agressivo, indulgente, mas que suscita algumas interpretações ameaçadoras que foge do maldito status quo de uma sociedade podre e pseudo conservadora. Mas para os pagãos da música, atrai, no mínimo, atenção e foi o que aconteceu basicamente comigo. Quando se lê um nome desses, é como se fosse mesmerizado.

E quanto a banda, foi formada em 1973 e por anos e anos trafegou por circuitos de clubes sombrios é fétido, na incessante e, às vezes, inglória busca por um mísero contrato para gravar a sua arte, mas absolutamente nada vinha, nenhum convite.

E assim o foi por quase 10 anos! A persistência é um dos pontos positivos dessas bandas obscuras, a defesa de suas verdades sonoras é o maior e mais relevante patrimônio de tais bandas! Seu single saiu em 1981 e o seu primeiro álbum lançado em 1983 pelo selo “Legend Records”.

Era o auge da famosa “New Wave of British Heavy Metal”, a nova cena do heavy metal britânico e ainda assim o Ritual não conseguiu se “encaixar” na cena assumindo certo protagonismo comercial como bandas do naipe de Iron Maiden, Def Leppard entre outras.

O seu álbum “Widow” trazia uma miscelânea do hard rock e do heavy metal, este último no auge, haja vista que a banda trafegara nessas duas cenas, é oriunda do hard setentista e teve seu álbum lançado nos anos de ouro do heavy metal que era, de fato, a “onda” do momento.

“Widow” corrobora definitivamente de que o hard construiu as arestas para o heavy metal reinar nos anos 1980, mas ainda assim o álbum, como disse, não se “encaixou” aos anseios do “mercado”, ou melhor, da cena da época, composta basicamente por jovens que foram moldados a gostarem do heavy metal.

O Ritual, com seu recém-lançado trabalho, foi, diante disso, incompreendido, mal divulgado pela gravadora, não foi tocado nas rádios mais populares e ficou à margem do gradativo sucesso da NWOBHM e das suas principais bandas. A banda caiu no mais puro e triste ostracismo, aquém do sucesso estrondoso e do bem-sucedido heavy metal que também logo cairia em segundo plano, dando lugar ao “metal farofa” surgida na “animada” Los Angeles.

“Widow”, quando lançado à época, no formato LP teve, foi concebido quase que, diria “artesanalmente”, com apenas 2.000 cópias, então aos que adquiriram essa pepita é digna de edição de colecionador.

O resultado de “Widow” foi tão desastroso para o Ritual que, em virtude dessa mínima visibilidade e também da arte gráfica do álbum, o nome da banda foi confundida com “Widow” e não “Ritual”. Inclusive o nome “Widow” está listado em alguns sites importantes de rock e heavy metal, causando confusão e dúvida até entre os fãs do estilo.

E ainda sobre a arte gráfica reza a lenda de que a imagem da mulher ajoelhada e nua se trate de uma bruxa sendo crucificada ou em uma espécie de ritual dando uma razão de ser ao nome da banda, mas isso nada mais é do que uma licença poética de quem vos fala.

Assim se desenha o debut do Ritual: Resquícios evidentes do hard rock oculto com contornos do novo heavy metal que figurava nos primeiros anos da década de 1980. E ouvindo esse belo trabalho “old school” percebe-se, pelo menos para este que vos fala, uma evidência dos primeiros do occult rock, sobretudo pelo teor das suas letras, mas, em algumas entrevistas, o guitarrista e vocalista Re Bethe, sempre tentou minimizar tal afirmativa, mas é até razoável pensar se tratar de um álbum de occult rock, pois traz ecos da assombrosa abordagem do início dos anos 1970 e sua pequena vertente do rock oculto.

A formação do Ritual na construção de “Widow” trazia além de Re Bethe, na guitarra e vocal, tinha Phil Mason no baixo e Rex Duvall na bateria. E voltando às apresentações de “Widow” a sua atmosfera segue com faixas pouco convencionais trazendo uma aura sombria, soturna, entregando, em alguns momentos, algo arrastado, lamacento, lembrando um doom metal, na sua gênese.

A faixa inaugural do álbum, a música título, “Widow” carrega consigo a firme vertente hard obscura do início dos anos 1970 que lembra, em alguns momentos, os primeiros trabalhos do Black Sabbath, com riffs cativantes de guitarra, bateria marcada, cadenciada e baixo pulsante ditando o ritmo. O vocal, soturno, limpo, melódico, melancólico abrange a toda essa textura sonora entregando uma sonoridade extremamente emocional e sombria.

"Widow"

“Come to the Ritual” muda a “chavinha” literalmente! Traz o heavy metal em voga naquela época, com mais velocidade, elétrico, frenético, riffs de guitarras mais pesado e poderoso. O vocal mantém a chama melancólica, porém um pouco mais indulgente e sedutor, algo ameaçador que sintetiza a letra e mensagem da música. Outro ponto interessante da faixa é a mudança rítmica seguindo uma proposta mais progressiva, como na faixa anterior, diria, dando arestas para o que convencionaria mais no futuro como metal progressivo.

"Come to the Ritual"

“Rebecca” é mais “urgente” no que diz respeito ao heavy metal. O protótipo perfeito da vertente repaginada dos primórdios setentistas do hard rock. Mas o peso contrasta com uma cadência que me remete ao doom metal em sua gênese. Mas não desperdiçam nos solos de guitarra, embora diretos e simples. O vocal, mais imponente, não deixa de valorizar a sua limpidez e dramaticidade.

"Rebecca"

“Never for Devil” traz, em sua introdução, a chuva, os trovões eternizados pelo Black Sabbath em seu clássico de mesmo nome, mas que irrompe em um galopante solo de bateria e um pulsante e intenso baixo, a “cozinha” da banda não faz feio e dá abertura para um poderoso e frenético heavy rock que flerta, cronologicamente e instrumentalmente falando, com os anos 1970 e 1980, trazendo o peso de um e a velocidade do outro, respectivamente. Não há como deixar de bater cabeça e dançar nesta faixa.

Morning Star” segue a mesma proposta da faixa anterior, mas um tanto quanto introspectiva e até, por vezes, contemplativa. O peso, personificado pelos riffs pegajosos de guitarra, se contrastam com o vocal melódico que “obriga” os instrumentos a recuarem no peso, em um momento mais suave, tendo apenas o baixo marcado ditando o ritmo.

"Morning Star"

“Journey” te transporta inteiramente aos anos 1970! O peso “bate de frente” com a cadência, trazendo um pouco mais de qualidade ao som, mostrando que a banda pode sim, trabalhar um pouco mais a sua perspicácia instrumental, com guitarras com solos mais limpos e me trabalhados, apesar de diretos e bateria bem trabalhada, sem contar com o vocal repetidamente sendo executado de forma limpa e competente.

E fecha com a faixa “Burning” que me remete aos anos 1970, porém com uma pitada generosa de occult rock e suas bandas de gueto, esquecidas, ao estilo Coven e primeiros álbuns do Blue Oyster Cult. O Ritual nessa faixa tira um pouco o pé do freio, com uma pegada mais “sedutora”, pop, por vezes, atraente como todo bom e velho occult rock.

"Burning"

Mesmo com a nítida produção de baixo orçamento a banda conseguiu sintetizar, sonoramente, a sua proposta e revelando as suas raízes que o tempo não se encarregou de esvair. Embora o álbum tenha trazido as novidades do período em que fora concebido corrobora as suas verdades calcadas na gênese dos anos 1970. O flerte com as vertentes nada mais é do que essa confirmação, de que a gestação do heavy metal se deu com o pai hard rock no início dos anos 1970, ganhando corpo nos anos 1980, ganhando a sua independência nos dourados anos 1980.

Tudo em “Widow” é úmido, endurecido, pesado, sombrio e que mostra, personifica uma dura jornada de uma banda que, por muitos e muitos anos, em uma invejável persistência conseguiu superar os reveses impostos pela paternalista e conservadora indústria fonográfica e gravou seu álbum que, embora não tenha tido a audiência necessária revela a importância de vertentes de duas décadas importantes para o heavy rock.

Depois de algum tempo, não muito, do lançamento de “Widow” o Ritual mergulhou em um hiato tirando-o de cena, certamente motivado pelo insucesso de seu álbum, sob o aspecto comercial e o baixo apoio da sua gravadora e das rádios, mas retornando, dez anos depois, com o seu segundo álbum, chamado “Valley of The Kings”, de 1993.

Diante do tamanho da importância e da influência que o Ritual e o seu debut, “Widow”, representou para a música e os músicos, era inevitável que ele fosse revisitado, revisado e relançado, ganhando uma nova e convincente arte gráfica em 2008 pelo selo Shadow Kingdom Records com faixas bônus.

"Widow" em reedição de 2008

O Ritual, mesmo que nos escombros escuros do rock n’ roll ditou regras, serviu de referência para as principais vertentes da música pesada, trafegou por elas, se tornando necessário, urgente e poderoso! E assim o é com seu álbum, “Widow”, que parece resistir ao tempo.



A banda:

Phil Mason no baixo

Re Bethe nos vocais e guitarra   

Rex Duvall na bateria

 

Faixas:

1 - Widow     

2 - Come to the Ritual       

3 - Rebecca 

4 - Never for Evil     

5 - Morning Star      

6 - Journey  

7 - Burning  

 

 

"Widow" (1983)

 





















 




quinta-feira, 30 de abril de 2020

Black Sabbath - Born in Hell: Live at the Centrum, Worcester (1983)


 

O BLACK SABBATH definitivamente está no rol das grandes bandas da história da música pesada que serviu e até hoje serve de referência, dado o seu pioneirismo e importância. Todas as cenas que surgiram depois de sua fundação, na transição dos anos 1960 para a década de 1970 e tiveram como base a sua sonoridade, bem como as mensagens transmitidas pelas suas letras apocalípticas, sombria e até de cunho politizadas travestidas com as ‘metáforas” satânicas dos seus primeiros álbuns. 

A banda, apesar de ser consagrada e conhecida em todos os confins do planeta, vendendo milhares de álbuns e tocando em ginásios e arenas, vale ter um capítulo especial por aqui, principalmente em uma fase um tanto quanto obscura, pouco mencionada entre os mais ardorosos fãs, diria até rejeitada apesar de contar com músicos que naquela época já estavam em um patamar de lendas. 

Falo do Black Sabbath com Ian Gillan no vocal. Gillan, como já é sabido, fez sua história, sua carreira no emblemático Deep Purple, mas, no início da década de 1980, mais precisamente em 1983, a banda estava estagnada, tinha finalizado suas atividades e o Black Sabbath tinha perdido o seu então vocalista, Ronnie James Dio, que decidiu investir na carreira solo e estava em busca de um novo cantor. 

Tonny Iommi, guitarrista do Sabbath, convida Gillan e, dessa parceria de Gillan com Black Sabbath, nasce o álbum de estúdio “Born Again”, de 1983. O álbum não recebeu uma crítica positiva por parte do público e dos especialistas e ficou “deslocado” da discografia essencial da banda. 

"Born Again" (1983)

Até hoje há um descrédito por parte dessa parceria e dessa época do Black Sabbath dizendo que a entrada do Ian Gillan descaracterizou o som da banda, fugindo do heavy metal e trazendo uma proposta mais hard rock, assemelhando ao Deep Purple. 

Como fã do Sabbath e Purple, discordo dessa “máxima”, afinal, o Black Sabbath pode ter influenciado o heavy metal porém, antes de mais nada, influenciou a música pesada e todas as suas vertentes. Então Gillian, que estava no auge da carreira e da sua voz, poderosa e altiva, adaptou-a a sonoridade do Sabbath e os seus clássicos, cantando-as rasgadamente, levando também, claro, o seu "know how" adquirido no Deep Purple. Ficou particularmente diferente? Sim! Mas também exótico e poderoso! Ouvir "Born Again" é ouvir o peso avassalador e despretensioso de um Sabbath sujo e sombrio.


Inclusive um tecladista foi efetivado como músico principal do Sabbath, dando a entender que Gillan levara um pouco de sua antiga banda a sua até então nova banda. Mas não falarei do “Born Again”, mas de um registro ao vivo, da turnê deste álbum de estúdio que certamente tem um status de “obscuro” e que mostra um Black Sabbath como sempre foi: poderoso, visceral, mas extremamente técnico e virtuoso capitaneado pela incrível voz de Ian Gillan em contraponto ao vocal intencionalmente despretensioso, tenso, paranoico e até, em alguns momentos, desafinado de seu vocalista original, Ozzy Osbourne. 

Falo do “Born in Hell: Live at the Centrum na cidade britânica de Worcester”, um bootleg de 1983. Gillan assumiu o grande desafio de cantar as clássicas músicas que ganhou notoriedade na voz de Ozzy e algumas faixas do até então novo álbum “Born Again” e as versões ficaram excelentes! Poderosas! 


O vocal virtuoso, de grande alcance de Ian Gillan ficou rasgado e sombrio e aliado a guitarra de Tonny Iommy, a bateria de Bev Bevan, que assumiu o lugar de Bill Ward que saiu da banda após o lançamento de “Born Again” e que era do Electric Light Orchestra, Geezer butler no baixo e o tecladista Geoff Nicholls entregou uma banda inusitada e excepcional. 

Apesar de ser um bootleg é impressionante a qualidade do som que reproduz toda essa força, esse massa poderosa sonora que era o Black Sabbath naquela época. Arrisco em dizer que esse é um dos melhores registros ao vivo da banda de todos os tempos! 

E começa com o clássico arrasa quarteirão “Children of the Grave” com vocais melódicos com gritos rasgados de Gillan e a guitarra característica de Iommy com seus riffs e a camada de teclado dando uma pitada pitoresca a música. 

"Children of the Grave'

“Hot Line”, do álbum “Born Again” ganhou vida na sua versão ao vivo, mais pesada ainda. “War Pigs” ganha mais velocidade e um vocal “cuidadoso” e cadenciado de Gillan dá um caráter de uma nova roupagem ao clássico. 

"War Pigs"

E dessa forma segue “Iron Man” com uma introdução linda de teclado, mas o peso e a agressividade são patentes. “The Dark/Zero the Hero”, também do “Born Again”, também ganhou “vida nova” ao vivo, mais pesada e rápida. 

"Zero the Hero"

“Heaven and Hell”, um dos clássicos absolutos da “era Dio” também ficou pesada e gritada em alguns momentos, sobretudo no seu título, ganhando uma nova e convincente roupagem. “Digital Bitch”, também de “Born Again”, também na versão ao vivo fica interessante, mais solar, agitada e diria até dançante. 

"Heaven and Hell"

Mas a faixa que merece atenção é a obscura e soturna faixa “Black Sabbath” que, originalmente traz essas propostas, mas Gillan eleva a música com um vocal competente, com absurdos alcances, mas respeita a sua essência sombria e perigosa. O peso é evidente! 

"Black Sabbath"

E há um espaço para o Deep Purple com a execução de “Smoke on the Water” que não foge muito a estrutura original, mas com a assinatura de Tonny Iommy com os riffs mais claros e evidentes, ganha mais peso, mais robustez.

"Smoke on the Water"

Fecha com chave de ouro com “Paranoid”, que mantém o petardo e o habitual chute na porta com um Gillan mais despretensioso no vocal. Essa fase do Black Sabbath foi curta lamentavelmente, caiu no obscurantismo discográfico da banda, mas que não pode e nem deve ser esquecida pelos amantes da boa música. Bevan e Gillan saem logo da banda e o primeiro também merece um reconhecimento, pois assumir a vaga do grande Bill Ward e tocar os clássicos do Black Sabbath com tamanha maestria não é para qualquer um. Um registro obscuro e não oficial de uma banda consagrada e badalada que merece todas as reverências possíveis.





A banda:

Ian Gillan no Vocal
Tony Iommi na Guitarra
Geezer Butler no Baixo
Bev Bevan na Bateria
Geoff Nicholls nos Teclados

Faixas:

1 - Children of The Grave
2 - Hot Line
3 - War Pigs
4 - Iron Man
5 - Zero the Hero
6 - Heaven and Hell
7 - Tony Iommi Guitar Solo
8 - Digital Bitch
9 - Black Sabbath
10 - Smoke on the Water
11 - Paranoid





"Born in Hell: Live at the Centrum, Worcester" (1983)