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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Electric Funeral - The Wild Performance (1970 - 1991/2019)

 

Uma pergunta parece ecoar na minha cabeça desde que esse reles, humilde e famigerado blog nasceu! E para variar, bons amigos leitores, a farei de novo, porque essa banda se adequa aos meus devaneios febris: Pode uma banda obscura, rara, que se não lançou álbum de forma oficial em sua época, ser considerada pioneira ou uma das precursoras da música pesada?

Será que esse tipo de pergunta, que parece atormentar a minha vida, me acompanhar como a minha sombra, pode ser tida como importante para mudar a história do rock pesado, para a construção de um movimento, de uma cena?

A história! Essa palavra mágica que permeia a essência desse esquecido blog que faz questão de dissecar, com requintes de detalhes, as histórias esquecidas do rock n’ roll, das bandas marginais, marginalizadas, que caíram no mais profundo ostracismo por uma série de situações que levaríamos uma vida e centenas de páginas para contar.

Mas comecemos por essa banda que descobri recentemente e que me cativou, confesso, pelo nome que, quando revelar, vocês entenderão! Uma banda da Suíça que não conseguiu, lá pelos anos 1970, não conseguiu lançar nenhum trabalho oficialmente e que pereceu de forma precoce. Falo da ELECTRIC FUNERAL.

Conseguiu associar a clássica música do gigante inglês do heavy rock, o Black Sabbath, saída de seu segundo e icônico álbum, “Paranoid”, de 1970? Pois é, essa banda suíça traz em seu nome, a música do Sabbath e torna-se inevitável a pergunta, aquelas que ecoam nos confins da nossa cabeça e mente: Qual “Electric Funeral” veio primeiro: o da banda rara e obscura da Suíça ou a do Sabbath?

Bem eu não consigo cruzar as datas, mas o fato é que o álbum, embora não tenha sido lançado no período em que as suas músicas foram concebidas, foram gravadas no mesmo ano em que o Black Sabbath lançou seu debut e “Paranoid”, ou seja, em 1970.

Diante desse cenário podemos dizer que Electric Funeral e Black Sabbath que são bandas contemporâneas e que, de certa forma, são as pedras fundamentais do estilo! Será? Não quero cair nessa discussão difícil de pioneirismo, mas o fato é que não podemos negligenciar a importância do Electric Funeral para a música pesada, pelo menos na Suíça. Mas aqui, com o devido respeito, não há espaço para o gigante Sabbath, mas para as “fracassadas” bandas obscuras. Então vamos de Electric Funeral!

“The Wild Performance”, nome dado a essas músicas oriundas de fitas privadas de apresentações ao vivo e ensaios, como disse, gravadas em 1970, com exceção de uma música, chamada “My Destiny”, gravada em 1973, foram lançadas, pela primeira vez, em 1991, pelo selo Vandisk, como um LP muito limitado, com tiragem, pasmem, de 200 cópias numeradas, porém hoje muito procurado e, sem dúvida, se estiver sendo vendido, deve estar a preços astronômicos, teve uma reedição expandida e caprichada com som remasterizado e quatro faixas bônus, retiradas de rolos e fitas encontrados nos arquivos do Electric Funeral.

A sonoridade de “The Wild Performance” é crua, sujo e pesado e o nome faz jus às músicas lançadas finalmente de forma oficial. O lançamento de 1991, como disse, não foi tão caprichado, mas também existe a precariedade pela qual tais faixas foram concebidas originalmente. Porém o relançamento de 2019, no formato CD e também LP, pelo selo Sommor (Guerssen), está um pouco melhor, porém, o “charme” da sujeira e da selvageria dessas músicas, ainda estão lá, intactas.

O Electric Funeral foi formado no final dos anos 1960, para algumas poucas fontes, a banda teria existido entre os anos de 1970 e 1973 e foi formado por Edi Hirt, na bateria, Pierrot Wermeille, no baixo, Alain Christinaz, na guitarra e Dominique Bourquin nos vocais. Poucas, como disse, são as informações da banda, mas reza a lenda de que o Electric Funeral era avassalador nos palcos, com apresentações poderosas e tocando alto, muito alto e que ainda tocavam atrás de pilhas gigantes de amplificadores Marshall. O som era tão pesado que nenhuma gravadora tradicional ofereceu um contrato a banda.

Electric Funeral

“The Wild Performance” é pesado demais para a sua época e não posso negligenciar a informação de que se não fosse pela falta de qualidade do som, da produção do som, poderia se extrair muito mais desse material, mas, por outro lado, é inegável, principalmente para este que vos escreve, que é um charme ouvir esse som cru, sujo e até mesmo brutal, esse hard rock áspero, com pitadas de psych e proto metal que lembra o belo Edgar Broughton Band em algumas partes. Definitivamente é para se ouvir esse som no ápice do volume! Então vamos falar de cada faixa!

O álbum começa com “People” com uma introdução de bateria pesada e riffs e solos de guitarra sujas, que te remete a um psych rock, com uma pegada hard rock aliado a uma lisergia. A faixa vai ganhando em velocidade e assume uma carcaça proto metal muito bem definida trazendo um vocal gritado. “War Funeral Song” me remete ao som sujo e arrastado do doom e que vai mudando o andamento, com dedilhados de guitarra ácida, mas logo vai ficando mais alto, agressivo, personificado por uma guitarra pesada, com bateria espancada e baixo frenético e pulsante. Mas depois volta a ficar arrastado! Diria ser um protótipo de metal progressivo!

"War Funeral Song"

“Black Pages” me traz a lembrança de um hard rock com pitadas de occult rock. Uma sonoridade sombria e aterrorizadora que descortina um Deep Purple em “In Rock” (Odeio comparações!), com baixo pesado e desafiador, bateria marcada e agressiva e riffs de guitarra abafados e de textura ácida! “Rock Ba Rock” também segue uma proposta mais arrastada, uma balada rock com solos de guitarra mais longos e até mesmo mais trabalhados, soando, em alguns momentos, mais sujo e cru, até mesmo selvagem.

"Black Pages"

“To Be One” tem grunhidos, tem gritos altos e um groove ótimo, riff de guitarra grudento e pesado e um baixo pulsante e arrastado. Lá pela metade da faixa ganha em velocidade, mais peso, o baixo é esmurrado, os riffs de guitarra ficam mais pesados e velozes. Espetacular! “We're Gonna Change The World” é o típico hard rock dos anos 1970, com uma pegada cadenciada que entrega riffs grudentos de guitarra, baixo potente e pulsante com solos de tirar o fôlego! Verdadeiramente traz uma energia contagiante.

"To be One"

“Fly Away” é o puro e genuíno heavy metal! Vocais gritados, aos berros, guitarras com riffs pesados e altos, bateria pesada ao extremo. A faixa, certamente uma das melhores, é veloz e agressiva e festiva! “My Destiny” segue a mesma pegada, com uma veia pesada e agressiva, solos e riffs de guitarra pesados e animados, pura energia, com um baixo cavalar lembrando uma banda famosa por aí...

"My Destiny"

“I Don't Know” começa com um riff de guitarra poderoso e vocal, mais uma vez, gritado, bateria com uma batida intensa e agressiva. Após os estridentes gritos do vocalista, o tom fica engraçado, algo pastelão, mas que mostra o tamanho do rock de garagem dessa e todas, na realidade, faixas desse álbum. “You Can Help” já traz algo um tanto quanto atípico para um álbum que, até então, trazia hard rock. Essa faixa tem traços visíveis de proto punk que lembra MC 5 e Stooges, certamente. E fecha com outra versão para “To Be One”, que se revela mais veloz e frenética.

"To be One (Alternative Version)"

Pega-se os amplificadores Marshall, aumenta o volume no máximo, no máximo que puder e aí está o Electric Funeral: sujo, potente, despretensioso! Um hard rock dos anos 1970 como deve ser! Essas músicas foram gravadas em um ou em uns shows ao vivo da banda. Não se tem informações do local ou dos locais, mas provavelmente na parte francófona da Suíça (Romandia). O Electric Funeral deve ser mencionado ao lado de seus contemporâneos de bandas pesadas da Suíça como Toad, Haze, After Shave e Pacific Sound. A versão remasterizada de “The Wild Performance”, lançada pelo selo Sommor Records, teve uma tiragem de 500 cópias.




A banda:

Edi Hirt, na bateria

Pierrot Wermeille, no baixo

Alain Christinaz, na guitarra

Dominique Bourquin nos vocais

 

Faixas:

1- People

2- War Funeral Song

3- Black Pages

4- Rock Ba Rock

5- To Be One

6- We're Gonna Change The World

7- Fly Away

8- My Destiny

9- I Don't Know

10- You Can Help

11- To Be One (Alternate Version)




"The Wild Performance (1970 - 1991/2019)












 


segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Toad - Open Fire (Live in Basel 1972 - 2005)

 

O texto hoje assumirá um caráter de homenagem. Não que os outros que estão registrados neste humilde e reles blog não sejam, mas esse lamentavelmente tem um ensejo póstumo. No primeiro dia de novembro de 2023 o virtuoso e grandioso guitarrista italiano, baseado na Suíça, Vittorio Vergeat, nos deixou.

Talvez para muitos apreciadores de rock n’ roll esse nome não seja lembrado, esteja no ostracismo, nos porões empoeirados do estilo, mas se tratou de um dos melhores e mais influentes dos guitarristas que o mundo testemunhou nos últimos cinquenta anos!

É sabido que é mais salutar que as homenagens devem ser feitas em vida, mas quis as circunstâncias que Vic Vergeat, como era conhecido, nos deixasse tão prematuramente, antes de ter um texto sobre a banda gigante, porém pouco comercial, que fundou: o TOAD.

Vic Vergeat

Embora, como disse, o Toad não tenho gozado, ao longo das décadas, de fama, sucesso, se tornou emblemática pelo menos na Suíça, sendo, sem sombra de dúvida, uma das precursoras do heavy rock, do proto stoner naquele país. Se tornou também um ponto fora da curva quando se tratou de apresentações ao vivo. 

A banda se notabilizou em seu país por sua ferocidade, musicalidade e algumas “travessuras”, se é que me entendem, no palco, principalmente quando Vic tocava guitarra com os dentes, algo que emulou de sua grande inspiração no instrumento: Jimi Hendrix.

Então já que falei das poderosas apresentações ao vivo do Toad, nada mais interessante falar de um registro ao vivo avassalador que, apesar de ter acontecido na cidade de Basel, em 1972, foi lançado apenas em 2005, levando o nome de “Open Fire – Live in Basel 1972”.

O Toad passou por várias mudanças de formação ao longo de sua trajetória, mas construiu os seus melhores e mais criativos momentos com o seguinte line up: Vic Vergeat na guitarra e vocal, Werner Fröhlich no baixo e voz e Cosimo Lampis na bateria.

Mas antes de passear na história do Toad e de seu registro emblemático ao vivo, “Open Fire – Live in Basel 1972”, vamos falar um pouco também da história de Vic Vergeat, o nosso também homenageado.

O Toad clássico

Vittorio Vergeat nasceu e viveu na Itália até os quinze anos de idade, se mudando para Ticino, na Suíça. Começou, nesta mesma idade, a tocar violão, um autodidata, gravando sua primeira música com um produtor com certo renome precocemente e logo começou a se apresentar com uma banda que tinha gêmeos cantando. Com quinze anos também lançou um single que foi traduzido para o inglês com uma banda chamada “The Black Birds”, que tinha um ótimo cantor com o dobro de sua idade.

Em 1969 decide tentar a sorte em Londres. Lá chegou a tocar brevemente com uma banda que nascia e se chamava Hawkwind! Sim! Vergeat foi o guitarrista original do Hawkwind! Mas apesar da pouca idade e do talento prodigioso na guitarra, o relacionamento com os outros caras do Hawkwind não era dos melhores, sempre brigando. Diante da falta de perspectiva em Londres e das intensas brigas com o Hawkwind decidiu largar tudo e voltar para a Suíça, baseando-se em Basel.

Em Basel havia uma banda de psych rock, de krautrock chamada Brainticket que estava meio alinhada aos que os alemães da cena kraut estavam fazendo em seu país natal e que estava fazendo algum sucesso na Suíça. Na realidade a banda tinha músicos da Alemanha, da Suíça, da Itália. Era uma banda, digamos, “multinacional”.

Vergeat se aproximou dos caras e tal proximidade fez com que Cosimo Lampis e Werner Frohlic, baterista e baixista, respectivamente se juntassem a ele para formar uma nova banda, o Toad. E como os caras não se sentiam bons vocalistas o “time” se completou com Benjamin Jaeger. Mas Cosimo e Werner, antes de sair do Brainticket, ajudaram a gravar o debut da banda chamado “Cottonwoodhill”, gravado em 1970 e lançado em 1971.

Brainticket - Cottonwoodhill (1971)

Com o Toad formado, isso em 1970, eles precisavam, claro, fazer shows, compor para lançar seu novo álbum. O primeiro show da banda aconteceu em Zurique e a banda foi, para variar, muito bem recepcionada, os moleques curtiram e muito a ferocidade do Toad no palco. Depois tocou em Ticino. A banda ainda não tinha nome. Precisavam criar um nome para facilitar a sua divulgação. Vergeat, antes do show começar, decidiu dar uma volta nos jardins do clube em Ticino e viu um sapo, foi daí que veio a inspiração para o nome da banda: Toad!

Apesar da banda, ainda jovem, não ter uma formatação em seu estilo de som, afinal era muito cru, estava nítido que o Toad tinha a vontade de seguir a linha dos “power trios” muito comum na época, como Blue Cheer, Cream, Mountain, Jeff Beck Group, Experience, de Hendrix etc. O som era um volumoso hard rock, com pegadas blueseiras bem pesadas. É notadamente um som voltado para o proto metal e proto stoner, muito solar e pesado.

O Toad logo ganhou alguma visibilidade recebendo ofertas para tocar em vários lugares na Suíça. A banda foi encorpando público de forma natural, graças, principalmente às suas apresentações ao vivo e ao seu primeiro álbum, homônimo, que seria lançado em 1971.

"Toad" (1971)

Tal trabalho foi concebido em um estúdio em Londres, após assinatura de contrato com a “Hallelujah Records”. O dono da gravadora foi extremamente legal com os caras do Toad, embora eles tenham gravado em uma semana, afinal, estar em estúdio era caro, principalmente para uma banda nova como o Toad. “Toad” foi mixado por Martin Birch, lendário produtor que trabalhou, entre outros, com o Deep Purple. A banda fez mais de 200 shows por toda a Suíça.

Um ano depois, em 1972, a banda lançaria seu segundo álbum, “Tomorrow Blue”. Esse trabalho traria uma veia mais “blueseira” mas sem deixar de lado, claro, seu hard rock potente e poderoso. Vergeat assumiria os vocais, pois Benjamin Jaeger sairia da banda, ao fim da produção do primeiro álbum. Martin Birch assumiria também a produção deste álbum. Assim nasceria o Toad no “formato” power trio, o que sempre sonhou Vic Vergeat. Um dos grandes e subestimados “power trios” da história do rock n’ roll nos anos 1970.

Com o lançamento de “Tomorrow Blue” a banda sairia em turnê, claro, afinal, o segredo do Toad estava em sua energia ao vivo, nos palcos. A cada show que realizava, o seu público aumentava, ganhava corpo. As casas, algumas pequenas, já não comportava os jovens que passavam a seguir o Toad e todo o seu belicismo sonoro.

"Tomorrow Blue" (1972)

Um dos shows mais significativos e importantes foi na cidade de Basel, em 1972, intitulado “Open Fire – Live in Basel”, que viria a ser lançado em CD, apenas em 2005, será alvo de nossa resenha de hoje para homenagear Vic Vergeat, sintetiza fielmente, além das influências de Vic e companhia, como toda a força, a consistência e poderio do hard rock da banda suíça. Inclusive este ao vivo contempla faixas eternizadas e escritas por Jimi Hendrix, como: “Red House” e “Who Knows”.

Então falemos de “Open Fire”. O álbum é inaugurado com a faixa título do segundo álbum, “Tomorrow Blue”. A introdução, ao estilo “bluesy” contagia, anima, é dançante. A bateria, cadenciada, mas pesada, dá o tom do poderio bélico dessa faixa. A propósito essa faixa, em sua versão ao vivo, ganhou vida, mais peso, a banda se permitiu improvisar, ousar em alguns momentos, tanto que atinge os 14 minutos de duração. Guitarras explosivas, distorcidas, baixo marcado e pulsante. “Tomorrow Blue” é um verdadeiro arrasa quarteirão!

"Tomorrow Blue" (Live in Basel 1972)

Segue com “Thoughts”, também do segundo álbum, que já diz a que veio logo no início. Riffs pesados de guitarra, “cozinha” afinada dando o tom, com a bateria pesada, indulgente, os pratos parecem voar. Baixo intenso, galopante. Aqui é a personificação do hard rock sem arestas, puro e bruto.

"Thoughts" (Live in Basel 1972)

A sequência tem a sugestiva faixa “Blues”. Como nome já entrega aqui impera o blues rock. A guitarra viaja entre o “bluesy” e o hard rock nos seus momentos, claro, mais pesado. Bateria marcada, cheia de viradas, mas sem deixar de lado o peso. O baixo segue o compasso e traz algum groove.

"Blues" (Live in Basel 1972)

“Pig’s Walk”, faixa do primeiro álbum, de 1971, começa indulgente com a riffs poderosos de guitarra que logo se entrelaçam com solos avassaladores. Não traz tanto virtuosismo, mas dá conta do recado trazendo um “tempero” pesado. Pesado é o nome ideal para essa faixa! Aqui o proto metal parece reinar, com direito a solos de bateria e tudo o mais!

"Pig's Walk" (Live in Basel 1972)

E eis que surge o clássico eternizado por Jimi Hendrix, “Red House”. A pegada do blues rock que notabilizou Hendrix e que serviu de inspiração para Vic Vergeat e sua trupe parece emulada com sucesso nessa versão. Blues rock mesclado ao hard rock, com groove, balanço e consistência.

"Red House" (Live in Basel 1972)

E fecha finalmente com outro clássico de Hendrix, “Who Knows”. A pegada dançante é delineada pela guitarra, um dedilhado simples, mas genial de Vic dá o tom e abre os trabalhos nessa faixa que não despreza o hard rock, mas traz uma boa cadenciada que se torna inevitável dançar e “bater” a cabeça.

"Who Knows" (Live in Basel 1972)

O Toad ficou um tempo sem gravar material, depois de “Tomorrow Blues”, até que em 1974 começa a preparar o seu terceiro trabalho de estúdio, “Dreams”, que seria oficialmente lançado em 1975. Vic fala com muito carinho desse álbum, dizendo em algumas entrevistas que o processo de gravação foi muito leve, prazeroso.

"Dreams" (1975)

Mas a crítica já não olhou com bons olhos esse lançamento. Em “Dreams” o Toad notadamente direciona sua sonoridade para uma pegada mais “funk”, alguma mais groove, o que não deixa de ser percebido, em menor “dosagem” nos álbuns anteriores. Era fato também que os teclados e o piano suavizariam um pouco a sonoridade da banda neste álbum, porém era nítida a intenção da banda explorar novas sonoridades.

“Dreams” foi lançado pelo pequeno selo “Frog”. O álbum foi lançado apenas na Itália. O nível de atividade da banda diminuiu significativamente, mas não impediu que o Toad continuasse com as suas poderosas apresentações, dando-lhe o status de uma das grandes bandas ao vivo dos anos 1970. Mas o Toad não conseguia sucesso comercial nos Estados Unidos e Inglaterra, o que era intenção de Vic Vergeat.

Então o inevitável acontece com a saída de Vic Vergeat e o fim, em 1975, do Toad. Assim Vic foi para a América e o Reino Unido tentar a sorte. Gravou um álbum solo com a intitulada “Vic Vergeat Band” chamado “Down to the Bone”, em 1980 que saiu pelo selo “Capitol”. De fato, um belíssimo álbum que foi produzido pelo ícone produtor alemão Dieter Dirks, que mostra o hard rock com uma pegada mais radiofônica. Até que deu certo, porque Vic saiu em turnê com bandas do naipe de Nazareth e o Aerosmith.

Vic Vergeat Band - Down to the Bone (1980)

Show de divulgação do álbum na Alemanha (1980)

Mas Vic Vergeat parece nunca ter esquecido de seu “filho” pródigo, o bom e velho Toad. A banda se reuniu, de forma esporádica, nos anos 1980, mas não lançou nenhum material novo.

Porém reformulou a banda no início dos anos 1990 com um novo baixista e contando ainda com Cosimo Lampis, na bateria. Dois novos álbuns foram finalmente lançados: “Hate to Hate”, em 1993 e “Stop this Crime”, em 2001.

Um guitarrista à frente de seu tempo, um músico vanguardista que, mesmo diante de reveses comerciais que o manteve, juntamente com a sua banda, à margem do protagonismo, Vic Vergeat e o Toad conseguiram construir uma cena, se tornando referência no estilo e em todos os outros que porventura viriam mais à frente. Fica o seu legado para a sua eternidade.




A banda:

Vic Vergeat no vocal e guitarra

Cosimo Lampis na bateria

Werner Froehlich na bateria


Faixas:

1 - Tomorrow Blue

2 - Thoughts

3 - Blues

4 - Pig's Walk

5 - Red House (Hendrix)

6 - Who Knows (Hendrix)



Toad - "Open Fire - Live in Basel (1972-2005)"




























 
















sábado, 8 de abril de 2023

Exit - Exit (1975)

 

O que vem a sua mente quando falamos na Suíça? Os melhores chocolates produzidos no planeta são de lá! Uma grande concentração de bancos internacionais, com as contas mais felpudas e vultuosas também estão lá, algumas de caráter duvidoso, mas isso não vem em questão aqui e agora. Não podemos deixar também, é claro, de enaltecer a limpeza e organização das vias públicas e o caráter de neutralidade em tensões bélicas é de admirar.

Mas óbvio que esses quesitos não são tão importantes para o cerne deste reles e humilde blog, mas a música, o rock n’ roll! Lamentavelmente a cena rock suíça vive às sombras em comparação a prolífica Alemanha, Inglaterra e a Itália progressiva. Infelizmente criamos uma espécie de processo “oligárquico” da música na Europa, concentrando o rock n’ roll a uma quantidade incipiente de países em detrimento de outros centros que produzem sim belas bandas que merecem a nossa audiência.

E na Suíça temos grandes bandas principalmente de hard rock e heavy metal, algumas inclusive que, embora não tenham despontado sob o aspecto comercial, são referências para os estilos e aqui cito algumas, como: Celtic Frost, Coroner, Darkspace, Circus, Krokodil, Krokus, Brainticket, Toad entre outras bandas. Talvez eu não tenha ido tão fundo no mar da obscuridade, mas algumas aqui citadas infelizmente não ganhou a luz, não vingando na destrutiva indústria fonográfica.

E digo ainda: embora a Suíça não seja tão prolífica na cena rock europeia, não podemos negligenciar a altíssima qualidade que as bandas mencionadas tem e a sua relevância para as suas cenas e a inspiração que geraram para o futuro e o presente da música.

Falei de representantes do heavy metal e do hard rock, mas não mencionei o rock progressivo. Será que temos representantes do velho e bom prog rock suíço? Lembro-me que, quando comecei a garimpar algumas bandas suíças em um passado mais ou menos distante, tive dificuldades para encontrar. A primeira banda que conheci da Suíça foi o Krokus e a mescla, sobretudo em seus primórdios nos anos 1970, com o hard rock e progressivo e depois o heavy metal nos anos 1980, fez com que o meu ávido interesse pela música do país crescesse e a partir daí veio a necessidade de descobrir o rock progressivo no país dos relógios.

E por acaso, como na maior parte das situações, descobri uma banda nesses grupos temáticos em redes sociais e, a princípio, desconfiei da qualidade da banda, haja vista que estampava na capa, na arte gráfica um ovo sendo rompido. Um tanto quanto bobo e infantil, mas a incredulidade deu lugar a curiosidade. Decidi ouvir e como eu estava enganado e travestido de visões pré-concebidas, preconceituosas mesmo. Não julgue o livro pela capa, já dizia aquele velho ditado clichê, mas que ainda funciona.

O som era cativante e trazia, além do rock progressivo, alguns elementos de hard rock mais elaborados, genuíno, com longas faixas intricadas, complexas, mas solares, agitados, com aquele teclado envenenado, frenético, com corais ao fundo, um exemplo pleno de um progressivo sinfônico sem soar chato e indulgente. A qualidade é devidamente atestada para quem gosta do estilo e o retorno do tempo de audição é garantido. Falo da banda EXIT.

Exit

Revelando o nome da banda, talvez até se explique a capa do álbum que me gerou, ao primeiro olhar, certa rejeição. Exit, em tradução livre, significa sair, saída e o ovo sendo rompido explica o nome da banda e para os que possuem a versão em LP, rara, ou CD, verá que, de um lado tem o ovo sendo rompido e a contracapa tem os músicos lépidos e fagueiros pulando, como que saindo, nascendo com o romper do ovo.

Não há uma confirmação dessa informação, trata-se de uma dedução, uma licença poética desse que vos fala, ou melhor, digita, pois são pouquíssimas as informações sobre o Exit na grande rede, claro, mais uma banda relegada ao ostracismo e escondida no empoeirado baú do rock n’ roll que costuma ser injusto ou pelo menos aqueles que os “operam” em um mercado excludente que segmenta os que consideram ser poucos “vendáveis”.

O Exit foi formado em Frauenfeld, uma cidade nortenha da Suíça, em 1972 por iniciativa do guitarrista Andy Schimd e do baterista Kafi Kaufmann que agregou Roman Portail no órgão, teclados e sintetizadores, Edwin Schweizer no baixo. Em 1975 lançou seu primeiro e único álbum, pela “Boing Records”, chamado simplesmente de “Exit”.

O álbum foi lançado como uma edição privada, ou seja, uma edição limitada para alguns fãs e admiradores da banda. Foram prensadas apenas 350 cópias e o mesmo foi concebido graças ao abnegado trabalho dos músicos da banda, sem nenhum apoio da indústria fonográfica, sem orçamento praticamente. Para se ter uma noção o Exit gravou com uma Revox-2 de dois canais o que, de certa forma, ficou bom, pois mostrou uma banda mais orgânica e crua.

E o nascimento desse trabalho foi em virtude da turnê que o Exit fez abrindo os shows das bandas alemãs Birth Control e Jane em uma espécie de agradecimento a dedicação e a boa repercussão que essa turnê teve. Um presente para aqueles que acompanharam a banda neste momento.

Por ser do ano de 1975, período em que o rock progressivo começou a ter certo descrédito pela indústria fonográfica e não, que fique bem registrado, por conta da ausência da criatividade, o som da banda em “Exit” soa clássico, fincado nas tradições progressivas, mas com um viés calcado no hard rock. Alguns, ao ouvir o álbum, diriam que se tratar de proto prog, outros trariam um pouco de rock psicodélico, mas me parece uma mescla de tudo, um flerte de cada estilo que, de alguma forma se interdependem, pois vieram da mesma fôrma sonora.

Percebe-se, como disse, uma profusão de teclados e sintetizadores e órgãos rodopiantes, versões jazzísticas, alguns momentos mais ásperos garantidos pelo hard rock e momentos bem salutares de uma música versátil e altiva.

Então sem mais delongas dissequemos “Exit” e suas quatro grandes e bem elaboradas “peças”. Abre com “Paradise” que se revela um espetáculo de sintetizadores e teclados com pitadas generosas de hard prog e bateria jazzística, uma linha de baixo pulsante, um petardo digno de progressivo genuíno de altíssima qualidade.

"Paradise"

Segue com “Balade of Live” cuja introdução do som do mar e de pássaros cantando mostra uma suavidade, uma viagem interessante a música e que explode com a dupla bateria e baixo em total destaque, a cozinha está perfeita nessa faixa, uma linda balada que faz jus ao nome, uma das melhores músicas do álbum, certamente.

"Balade of Live"

“Talk Around” é uma faixa, instrumentalmente falando, mais simples, porém mais dançante, mais comercial, mas o teclado se mostra em grande destaque, desdobrando em um intenso prog sinfônico.

"Talk Around"

E fecha com “Bad Gossip” com uma atmosfera mais introspectiva garantida também pelo teclado, pelo órgão, conferindo uma viagem psicodélica com sinfônico, uma mescla interessante. Um solo de guitarra à la Gilmour que te faz arrepiar. Linda faixa!

"Bad Gossip"

“Exit” foi cantado em inglês e empregou muitos aspectos do rock psicodélico, rock progressivo e hard rock, mas trazendo à realidade um viés do pop, de algo mais comercial, mas sem soar frívolo ou pobre, muito pelo contrário, entrega complexidade, versatilidade e personalidade no que se propôs a fazer. Uma banda que, mesmo não tendo vida longa e uma discografia idem, plantou o que os anos 1970 germinara em seus primórdios: o apego à criatividade sem rótulos.

Evidente que nos mostra também uma qualidade aquém na produção do álbum, o que não é para menos, levando em consideração o baixo orçamento que levou quase que praticamente a banda arcar com os custos de produção e tudo o mais. O potencial do Exit para criar um álbum interessante foi evidente com base nos teclados e uma invejável habilidade de composição, mas que, como tantas outras não vingou caindo no ostracismo empoeirado do rock n’ roll.

Scmid e Kaufmann se mostraram, quando o Exit finalizou as suas atividades em 1979, ativos musicalmente. Kaufmann lançou, de forma regular, alguns álbuns solos até os dias de hoje, já Scmid teve sua carreira precocemente abortada, finalizada, pois morreu em 2001, sofrendo uma hemorragia cerebral durante uma apresentação de sua banda no Cairo, Egito.

“Exit” foi relançado em 1993 pela Black Rills Records no formato vinil e em 2008 o álbum foi lançado em CD, com um punhado de faixas bônus.



A banda:

Edwin Schweizer no baixo

Kafi Kaufmann na bateria, percussão

Andy Schmid na guitarra, gaita

Roman Portail nos sintetizadores, teclados

Com:

Gallus Bachmann no saxofone

Martin Beerli no saxofone

 

Faixas:

1 - Paradise

2 - Balade of Live

3 - Talk Around

4 - Bad Gossip



Exit - "Exit" (1975)