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sábado, 29 de agosto de 2026

Messa - The Spin (2025)

 

Aos saudosistas que acham que o rock italiano se limita ao progressivo, está totalmente equivocado ou não quer aceitar que aquele país está trafegando em outras vertentes do rock n’ roll. E não se enganem também de que se tratam de bandas “retrô” que emulam fielmente sonoridades dos anos 1970 e 1980. São bandas que trazem o frescor de um rock mais arrojado e pouco ortodoxo.

Claro que ouvimos referências de cenas de outrora, mas que entregam mesclas totalmente inusitadas para os ouvidos demasiadamente conservadores e que traz um tempero totalmente novo e sedutor aos ouvintes sedentos por sons novos. Preciso falar do MESSA.

A banda, oriunda de Veneza, foi fundada em 2014, banda extremamente nova e que, com seus quatro álbuns de estúdio lançados, em um curto período de nove ou dez anos, trouxeram uma sonoridade calcada no heavy metal, doom metal mais épico e cheio de camadas que vai do new wave ao black metal, carregados de uma atmosfera sombria e marcada pelo experimentalismo e post metal. Loucura, não é? Talvez sim, pelo fato de trazer esses rótulos sonoros, mas na prática, a magia acontece.

Acontece de uma forma nem um pouco datada, deixando a criatividade falar mais alto, sem amarras, sem constrangimento algum de sentir medo da rejeição, muito pelo contrário, haja vista que, diante de tantas vertentes percebidas, a chance de absorver fãs dos mais diversos sons que floresce no rock, é grande, muito grande.

Messa

Evidente que a banda ainda navega pelas águas do underground, mas o faz com maestria, ganhando olhares interessados e arrebatadores. É uma sonoridade consistente, cheia de alma, de sua verdade na mais pura e genuína concepção. Apesar de absorver várias vertentes é nítido e cristalino que existe uma sonoridade bem definida, bem delineada e que edifica a banda a um status que, a médio e longo prazo, de inovadora. Não sei se estou em um estado tamanho de catarse que me impede de ser mais racional. O fato é que a banda, em uma curta trajetória discográfica, está dizendo a que veio.

E falando em discografia preciso, mesmo que de forma bem resumida e rápida, falar sobre seus petardos sonoros, a começar pelo seu debut, “Belfry”, de 2016, com um desenho mais voltado para o doom metal, com aquela atmosfera de occult rock densa e pesada. Depois surgiu para o mundo o segundo trabalho da banda, chamado de “Feast for Water”, de 2018. Aqui ele traz também a pegada doom, mas com uma dose louca e inusitada de blues e post metal, com nuances sutis de progressivo, um metal progressivo volumoso e potente.

"Belfry" (2016)

"Feast for Water" (2018)

O terceiro, lançado somente em 2022, chamado de “Close”, já traz algumas mudanças, diria, significativas, importantes na sonoridade do Messa. Há algo hipnótico e imediatamente nostálgico, mas com o pé da vanguarda fincado no chão. O rock progressivo está mais vívido nas suas composições, fazendo deste álbum o passo mais significativo para a evolução de seus músicos e de sua música.

"Close" (2022)

E esse momento culmina com seu mais recente lançamento, de 2025, chamado de “The Spin”. Aqui o Messa atinge, a meu ver, o nirvana sonoro, aqui a banda se aventura em mais vertentes do rock, aliando tudo que, até então, tinham produzido nos seus três primeiros álbuns, e mostrando para o seu público, para o mundo uma sonoridade calcada no heavy metal, no black metal, no doom metal, no post metal, no metal progressivo, com a new wave.

“The Spin” é um álbum sedutor, deliciosamente atraente, nostálgico, mas com a criatividade dando o norte para o um futuro promissor do rock, sem amarras, sem estereótipos, sendo simplesmente a música pela música. E será nessa viagem louca e necessária que tentarei falar sobre o mais recente trabalha da banda veneziana.

Eu confesso, estimados leitores, que esteja “contaminado” pela euforia de ter feito, desde que esse trabalho do Messa foi lançado, inúmeras audições de “The Spin” e que esteja movido pela passionalidade sendo, consequentemente, incapaz de traduzir em texto, uma crítica construtiva e sem emoções deste álbum. Mas que se dane! Afinal música traz uma dose de emoção e passionalidade e aqui, pelo menos nesse momento, é o que virá à tona.

Mas como não permitir vir à tona quando se, além das vertentes mencionadas, você ainda perceber jazz, blues, o peso seco e direto do stoner, tendo a aura melancólica do doom em sua dança mais épica e menos suja, como típico de sua gênese. E por mais que se revele sombria, oculta, mostra também, por outro lado, suas emoções mais ousadas e declarativas. É incrível o quanto esse mais recente trabalho do Messa é complexo, dramático, melancólico, pesado e contemplativo.

A formação do Messa, para “The Spin”, cuja gravadora é a Metal Blade Records, traz: Sara Bianchin, nos vocais, Mark Sade no baixo e guitarra. Alberto Piccolo, na guitarra e Rocco na bateria, além de Michele Tedesco, no trompete e Andrea Mantione nos sintetizadores, que também foram determinantes para a construção sonora deste álbum. Essa formação, a propósito, é a única desde o início da trajetória discográfica da banda, claro, exceto aos músicos contratados. Digo de Sara, Mark, Alberto e Rocco.

A faixa de abertura é “Void Meridian” que dedica um momento a desenvolver um estilo sério, girando seus motores movidos a sintetizadores até que a força da música tenha uma progressão digna de um doom metal que remete ao Trouble, como desfecho. Um começo meio rocker, com zumbidos etéreos, antes do bálsamo mais pesado e rasgado do seu fim. Aqui a banda mostra a sua incrível conexão emocional com a alma de um blues rock pesado, com um doom mais melancólico e sombrio.

"Void Meridian" (Live in Athens, 2025)

Segue com “At Races” que se mostra cativante, embora se apresente um occult rock e até mesmo algo como um hard psych, bem lisérgico, arriscaria dizer. Ela me traz a sensação latente de um tom embriagante, empolgante, que forja um fio convincente e sombrio ou pelo menos reverente. Tem refrão potente, tempos viciantes e vocais arrebatadores e extremamente delirantes.

"At Races" (Official Video)

“Fire on the Roof” se mostra igualmente cativante, o vocal de Sara é admirável, sendo forte, alto, mas cristalino e muito competente. Aqui se percebe, além do peso do doom metal arrastado, porém épico, um synth-rock que te remente imediatamente aos anos 1980, onde o Messa evoca influências que vai do Sisters of Mercy ao Mercyful Fate. O peso do doom e do heavy metal mesclado ao gótico com tempero da new wave dos anos 1980. É simplesmente incrível essa faixa e que nos faz querer ouvir e ouvir novamente.

"Fire on The Roof" (Official Video)

“Immolation” já chega mudando um pouco a dinâmica do álbum. Trata-se de uma balada, linda, contemplativa, sombria. E embora não seja exatamente inédito em termos de instrumentalização, principalmente visto em seu álbum anterior, “Close”, tudo, nessa faixa, é reduzido às estruturas tradicionais de um hard rock que vai evoluindo, encorpando, tendo, consequentemente uma abrupta transformação. Fica o destaque para o slide guitar de Alberto!

"Immolation" (Live in Locomotiv Club, 2026)

Eis que surge talvez a faixa destaque do álbum, “The Dress”! A começar com as harmonias vocais de Sara que entrega um nível de ressonância incrível, isso tudo alinhado a experimentação destemida de toda a banda. Aqui a ousadia instrumental beira a complexidade com um solo de trompete assombroso de Michele Tedesco, fundindo a intensidade lenta do doom, com a fluidez estranha do jazz, criando algo único e intenso aos ouvidos e a alma.

"The Dress" (Official Video)

“Reveal” surge hasteando a bandeira do heavy metal! É impossível não passar incólume nessa faixa, sendo extremamente animada, pesada, com um groove totalmente diferente do que se ouve no álbum. Timbre rítmico envolvente, uma guitarra elástica, com movimento acelerado, que lembrou, penso, algo como death e black metal.

"Reveal" (Official Video)

E fecha com “Thicker Blood” que traz a combinação mais do que completa do rock gótico dos anos 1980 em sintonia com o doom metal mais tradicional, arrastado e sujo. Na realidade aqui nesta faixa percebemos a versão mais evidente do Messa nos seus primeiros álbuns, com uma música mais pesada e direta, trazendo elementos-base de sua música, calcada no heavy metal e no doom metal.

"Thicker Blood" (Live in Italy, 2025)

A arte da capa de “The Spin” é assinada por Nico Vascellari e, à primeira vista, se revela discreta, mas curiosa com um olhar mais profundo. Trata-se de um “ouroboros” metálico emergindo das sombras. Embora eu não possa dizer que entendo o simbolismo diretamente, ele combina com a mentalidade clássica do rock gótico que está bem presente na estrutura sonora deste álbum.

Penso que as escolhas da banda para a arte do álbum parecem ser motivadas por emoção, talvez por um senso de lugar ou movimento que funciona com cada lançamento e suas particularidades. Mas agora o simbolismo parece, ao mesmo tempo, contemplativo e até conflituoso.

“The Spin”, com esse pensamento, se mostra extremo, um exorcismo do “underground extremo” até as raízes rock não tão terrosas assim. O Messa quis mostrar, com seu mais novo recente trabalho, uma profundidade maior ao “esculpir” tais ideias às músicas, mostrando uma nítida mudança de paradigma sonoro, sobretudo nas suas melodias, entregando para os seus ouvintes uma audição dignamente memorável, mas também mostrando ao mundo a que veio.

As fusões das vertentes sonoras, as emoções mais variadas, a sonoridade orgânica e rebuscada faz de “The Spin” um álbum surpreendente, inventivo, transcendendo o metal e mergulhando o ouvinte em um mundo de beleza assombrosa e emoção extremamente carregada e cheia de nuances imprevisíveis. Para apreciadores de algum tempo da banda, “The Spin” trará uma revelação e para os novatos poderá ser uma introdução arrebatadora.







A banda:

Sara Bianchin nos vocais

Mark Sade no baixo e guitarra

Alberto Piccolo na guitarra

Rocco na bateria

 

Com:

Michele Tedesco no trompete

Andrea Mantione nos teclados, pianos e sintetizadores

 

Faixas:

1 - Void Meridian

2 - At Races

3 - Fire on the Roof

4 - Immolation

5 - The Dress

6 - Reveal

7 - Thicker Blood 



"The Spin" (2025)




 



















 










sexta-feira, 7 de junho de 2024

Legend - Fröm The Fjörds (1979)

 

Final dos anos 1970. O rock n’ roll passava por um forte período de ebulição, de transição, de mudanças. O rock progressivo se tornava cada vez mais indulgente, o punk ganhava o seu auge comercial, o ‘faça você mesmo” traria os primórdios do rock e a cena hard rock, com as suas bandas mais emblemáticas, perderia espaço por conta de seus músicos imergidos no mundo das drogas ou em litígio com os seus companheiros de banda.

Os anos 1980 foi inaugurado com a erupção do peso, da velocidade no rock n’ roll, tendo como protagonista a cena inglesa chamada “New Wave of the British Heavy Metal”, espalhando-se em vários cantos do mundo.

O heavy metal ganhava espaço porque ganhava em atitude, rebeldia e agressividade nos comportamentos das bandas e de seu público, encaminhando todos esses novos elementos às letras e conceitos dos seus álbuns, apresentando características peculiares, de acordo com as manifestações culturais de suas regiões e/ou países.

Evidente que essa cena bebeu da fonte dos clássicos setentistas como Led Zeppelin, Deep Purple e principalmente os primeiros trabalhos sombrios do Black Sabbath. As arestas começaram a ser pavimentadas nos longínquos anos 1970, não esquecendo daquela banda que levantou e criou o estilo, não apenas pelo aspecto sonoro, mas também estético: o Judas Priest.

E longe do embrião dessa cena pesada, mais precisamente em uma região chamada New Haven, em Connecticut, nos Estados Unidos, surgiria uma banda que caiu no mais profundo e genuíno ostracismo, trafegando pelas sombras marginais do rock n’ roll, um power trio chamado LEGEND, em 1978, que, nos seus primórdios, se chamava “Judge”.

A tradução livre, “lenda”, talvez não se adeque a triste realidade e fim precoce desta banda que tingiu a sua música de uma forma tão peculiar e especial que sempre me faz surgir aquela maldita pergunta que parece me perturbar a cada momento: Por que essa banda não conquistou o mundo? Por que essa banda não atingiu o sucesso?

Legend

E para aqueles que consideram a música pesada, em todas as suas vertentes, algo ruim, sem qualidade, se torna urgente a audição do único trabalho da banda, lançado em 1979 chamado “Fröm The Fjörds”, lançado pelo selo “Empire Records”, uma divisão da “Colussus Enterprises”, com uma tiragem mais do que limitada, cerca de 500 cópias apenas e vendidas rapidamente e hoje atingindo o status de banda “cult”, seus LPs e relançamentos são disputados a tapas mesmo que os valores muito altos.

Porém antes, em 1978, foi lançado uma demo chamada de “Before The Fjords”, que continha cinco faixas que logo seriam agregadas ao seu álbum lançado um ano depois, que seria relançado em CD, em 2019, com a reedição do álbum “Fröm The Fjörds”, quarenta anos após seu lançamento original.

"Before the Fjords" (1978)

“Fröm The Fjörds” traz elementos do já citado jovem, à época, do heavy metal, mas também de rock progressivo dos anos 1970, além de variações que apresentam o jazz, o folk, country music, o hard rock e o classic rock. Parte de seus músicos, mais precisamente o baterista Raymond Frigon, trafegou em influências progressivas antes de constituir a banda. Era o que o cara ouvia: Yes, Emerson, Lake & Palmer, bandas jazz fusion como um todo e certamente essa predileção “contaminou” a música do Legend.

Mas Fred Melillo, baixista e Kevin Nugent, guitarrista e vocalista, também, de certa forma, compartilhavam da mesma paixão pela música de Ray e tornar-se até improvável uma banda como Legend ser uma referência do heavy metal estadunidense.

É uma sonoridade diversificada e por mais que possa aparentar, como disse, algo improvável, atípico, se mostra sinérgico e poderoso e o trinômio peso/velocidade/agressividade se junta a complexidade, porém entrega uma música extremamente orgânica, cheia de vida e traz a luz o tema, até então pouco usual naqueles tempos na música pesada: deuses, vikings, magos, batalhas épicas e tudo o mais, afinal o título de seu álbum sugere esse tema. Bandas de hard rock como Rainbow, provavelmente trouxe pioneirismo a esse estilo de música, comumente chamado de “power rock” ou “epic rock”, “viking metal”, são tantas nomenclaturas...

Em algumas entrevistas, o baterista Ray Frigon conta que a inspiração em mitos e lendas, usadas para a construção do álbum, sejam elas históricas ou fabricadas, foram concebidas nas suas influências pessoais, bem como a de Kevin e Fred. Dizia também que as suas batidas de bateria foram baseadas mais em Gentle Giant, por exemplo, do que qualquer coisa relacionada ao heavy metal.

Já que estamos esmiuçando a história do Legend, cabe aqui uma curiosidade: “fiorde”, palavra que compõe o nome do álbum da banda, do norueguês fjord, é uma grande entrada de mar entre altas montanhas rochosas, originada por erosão causada pelo gelo de antigo glaciar. Os fiordes situam-se principalmente nas costas da Noruega, Groelândia, Chile e Nova Zelândia, onde são um dos elementos geomorfológicos mais emblemáticos da paisagem.

Kevin e Fred se conheceram no Centro Educacional de Artes em New Haven. Eles assistiam a poucas aulas por dia, afinal a intenção, o ideal dos moleques eram tocar, a música corria no sangue deles. Tanto que nas poucas aulas que assistiam, quando dela saiam, pegavam o ônibus e passariam o resto do dia tocando música.

Eles tocavam em uma banda cover chamada “Edge” e que tocava em todo o Nordeste, gozavam de alguma popularidade nos pequenos “clubs” e pubs espalhados por essas regiões no entorno de Connecticut. E nessas andanças, de show em show, conheceram Ray Frigon e o baixista John Judge. Logo se identificaram e daí surgiu a necessidade de criar uma banda e tocar música autoral.

Mas as coisas não deram muito certo com John e Fred Melillo foi convocado para a formação que seria a criadora de “Fröm The Fjörds” que, para muitos especialistas em música pesada, é o precursor do heavy metal norte americano apesar da sua obscuridade.

Ray nunca tinha se envolvido em um projeto musical antes do Legend, bem como os demais caras que fundaram a banda, como John e Fred. Ray chegou a participar de algumas audições, testes para tocar em outras bandas, mas não deu certo e continuou a tocar bateria, que muito gostava, em sua casa.

Conheceu John por intermédio de um anúncio de jornal que Ray respondeu. John foi a casa de Ray e o viu tocar e logo se entusiasmou em formar uma banda. John conhecia um tecladista e queria fazer algo que se alinhasse ao Emerson, Lake & Palmer. Esse tecladista não gostou muito e não voltou mais para as audições, foi quando John levou Kevin até a casa de Ray e a partir dessa primeira reunião que o embrião do Legend surgiu.

Kevin Nugent

Ray logo escreveu todas as letras e o que o incentivou foi a obra de Frank Frazetta. Comprou seus livros e olhava fixamente as suas ilustrações e inventava uma letra ou história sobre o que via. Raymond levava a linha melódica para Kevin, que organizava suas partes e a peça em torna dessa linha básica. Ensaiavam na casa, mais precisamente no porão, de Ray. Nessa época John ainda estava na banda. Era os primórdios do Legend.

Os jovens músicos tocaram apenas 4 vezes antes de gravar “Fröm The Fjörds”: duas vezes em um clube e duas vezes outro. A receptividade do público foi boa, os clubes ficaram razoavelmente cheios, a ponto de, em alguns momentos Ray e Kevin ter tido discussões acaloradas por conta da desanimação de encontrar nesses clubes, pouca gente, pensando até em acabar com o Legend, mas, entre uma briga e outra, os shows aconteceram e o Legend seguiu até as gravações de seu álbum.

“Fröm The Fjörds” foi gravado graças a um empréstimo feito pelos pais de Ray, para financiar as gravações do trabalho dos jovens músicos. O álbum foi feito por US$ 6.000,00. Kevin conhecia um estúdio de 8 pistas em New Haven e lá foram. Era a primeira experiência de gravação desses três garotos. Claro que os entraves aconteceram no processo de gravação, mas seguiram fortes. A maioria das músicas demorou apenas uma ou duas tomadas, afinal não tinham tanta grana para os custos do estúdio, precisavam fazer logo tudo.

O conceito da capa foi dado pelo Ray Frigon a um jovem artista grego de nome Ioannis. Ele conseguiu realizar o trabalho e após alguns ajustes enviou a sua arte final, não sendo, segundo o Legend, uma boa representação do original. Os detalhes nítidos não foram, segundo a banda, capturados, ficando ainda em preto e branco para sobrar mais dinheiro para imprimir o maior número possível de cópias do álbum, conseguindo cerca de 500 cópias. O artista que concebeu a capa tinha feito uma versão colorida, mas, por conta da decisão da banda em investir mais dinheiro na prensagem do álbum, guardou a arte. Talvez quando a banda assinasse com alguma grande gravadora, pudesse usar a versão em cores.

O álbum é inaugurado pela faixa “The Destroyer” e o peso desemboca em ótimos riffs de guitarra, com vocais fortes, limpos, de grande alcance. Mas a seção rítmica também dá o tom, corroborando o peso, algo cadenciado, é verdade, mas pleno, intenso.

"The Destroyer"

“The Wizard's Vengeance” traz a introdução de riffs frenéticos de guitarra que entrega algo mais dançante, apesar do evidente peso da música. Mais uma vez a “cozinha” dá a textura rítmica, conduzindo a uma veia mais hard rock setentista a faixa. Mas a guitarra definitivamente dá o tom heavy rock.

"The Wizard's Vengeance"

“The Golden Bell” muda o ambiente do álbum, algo sombrio, folclórico, pagão toma conta da música. Uma faixa mais complexa, com veias mais progressivas, com algumas viradas rítmicas e arrisco em dizer que discretas e rápidas pegadas jazzísticas na bateria. Vale ressaltar que, mais uma vez, a sinergia entre baixo e bateria se faz presente.

"The Golden Bell"

“The Confrontation” retoma ao hard rock e entrega algo mais comercial, radiofônico, diria. Talvez essa faixa se encacharia em qualquer álbum do Van Halen, por exemplo. É uma faixa instrumental muito bem elaborada, mostrando uma sinergia de seus músicos.

"The Confrontation"

“R.A.R.Z”, que significa “'rock and roll zole” (“Zole” é uma gíria britânica para “buraco”), começa meio bluesy, mas apenas começa, porque logo irrompe em um bélico heavy metal capitaneado pela bateria pesada e marcada, logo endossado pela guitarra e seus riffs pegajosos.

"R.A.R.Z"

Segue com “Against the Gods” que traz o hard rock com sustentáculo da faixa, cadenciada entre peso e uma viagem meio psicodélica, lisérgica, com solos limpos e avassaladores de guitarra.

"Against the Gods"

“The Iron Horse” é talvez uma das mais complexas faixas a começar pela introdução jazzística da bateria, mostrando destreza do instrumento, aliás a faixa é predominantemente instrumental e vai revelando as mudanças de ritmo, tendo o destaque da bateria e as suas viradas sensacionais, sem contar com o solo com mais de três minutos, o que é incomum.

"The Iron Horse"

E fecha dignamente com a faixa título, “From the Fjords” repleto de viradas de tempo, de ritmo, caracterizando um perfeito e poderoso hard prog. O destaque fica para os riffs de guitarra e a bateria explodindo em peso e competência. No terceiro minuto a música abranda e ganha uma textura psicodélica e sombria, algo até com improvisações, com a “cozinha” ganhando destaque. Mas logo explode em intensidade de som com o característico peso da banda.

From The Fjords"

Reza a lenda que o Legend tinha material para gravar cerca de cinco ou seis álbuns, afinal os shows eram muito longos, durando cerca de duas horas ou até duas horas e meia e, com músicos, apesar de jovens, esbanjavam competência e tudo fluía e eram muitos shows. E diante desse turbilhão criativo, Ray chegou a pensar na possibilidade de ter, simultaneamente, três bandas para trabalhar esse material: uma banda de rock progressivo, outra de jazz fusion e, claro, o Legend. Todas bandas gravariam esse material e faria shows.

Mas a banda estava fadada a ter um fim precoce. O legend não ia bem, apesar dos shows, do lançamento do álbum. Ray estava infeliz e também estava se convertendo ao cristianismo. Ele estava se sentindo só, a fase de gravação do álbum o estava afetando, sugando suas energias. E antes mesmo da concepção do álbum Ray já estava extremamente infeliz. A banda estava sofrendo com o sofrimento de Ray. Kevin e Fred não entendia o que acontecia, principalmente Kevin que se preocupava com seu melhor amigo.

E não demorou muito para Ray chamar Kevin para comunicar-lhe que estaria fora da banda, dizendo da sua conversão aos estudos bíblicos e seguiu. Claro Kevin foi pego de surpresa, tentou convencê-lo do contrário, mas foi inútil. Sem Ray seria complicado seguir. Mas Kevin acabou, dentro das suas possibilidades, promovendo a distribuição de “From the Fjords”. Tentaram colocar outro baterista no lugar, mas não durou muito tempo e o término precoce da banda se deu em 1979 ou 1980, mais ou menos.

Mas os problemas não findaram juntamente com o Legend. O empréstimo do álbum precisava ser pago e foi nesse momento que a tensão se fez entre Ray e Kevin. Ray foi obrigado a vender sua bateria e teve que trabalhar lavando louças em restaurantes para pagar integralmente o empréstimo. Kevin Nugent tocou em um punhado de bandas, mas morreria em 1983 enquanto dormia. Fred Melillo ainda toca, mas dedica-se a ensinar música e Ray Frigon, o baterista, ainda segue no mundo da música também.

Eles não queriam estrelado, glamour e fama. Queriam apenas tocar, nada mais do que isso. Queriam apenas trazer um pouco de conforto para os seus pais e tocar a sua música, extremamente arrojada e pouco classificável para o seu público.

Muitos pedidos surgiram para o relançamento do álbum em vinil e CD. Mas a banda se mostrou relutante quanto a isso e reza a lenda que as fitas do álbum ficou com o irmão de Kevin, Al. Muitas gravadoras queriam lançar esse trabalho, mas o paradeiro das fitas era incerto. Mas não teve lançamento oficial, mas as versões piratas inundam o mercado, são muitos e vendidos por US$ 100 ou até mais. E não terá lançamento oficial, pois, apesar das especulações de onde as fitas másters estejam, o fato é que não foram encontradas.

Mas para a alegria de todos nós, fãs da banda, “Fröm The Fjörds” foi resgatado pelo selo grego “Cult Rock Classic”, em 2019, quando o álbum completou quarenta anos de lançamento, sendo remasterizado e recebendo edições de luxo em LP e CD, ou seja, finalmente sendo reverenciado pela sua qualidade sonora e relevância histórica.




A banda:

Kevin Nugent na guitarra e vocal principal

Raymond E. Frigon na bateria

Fred Melillo no baixo

 

Faixas:

1 - The Destroyer

2 - The Wizard's Vengeance

3 - The Golden Bell

4 - The Confrontation

5 - R.A.R.Z.

6 - Against the Gods

7 - The Iron Horse

8 - From the Fjords 



"From The Fjords" (1979)





 






























 



quinta-feira, 27 de abril de 2023

Witch - Salem's Rise (1985)

 

O ápice da “New Wave of British Heavy Metal” aconteceu em meados dos anos 1980. As bandas, outrora marginalizadas e temidas pelas suas indumentárias e letras ultrajantes calcadas nas mazelas comportamentais da sociedade ou temas obscuros, se tornaram “mainstream”, se tornaram populares.

Algumas cenas, algumas “células” do heavy metal como o glam metal, por exemplo, ganhou notoriedade, atingindo as rádios, a MTV, com clipes caros, atingindo status de superprodução cinematográfica, com androginia que excitam as menininhas que, revoltadas sem motivo, tentavam, a todo custo alarmar seus pais.

O heavy metal estava na moda. No Brasil rádios como Fluminense, a famosa “Maldita”, catapultava o “rock de bermuda” e, cada vez mais o público “consumia” cada vez mais as bandas estrangeiras que estavam no pedestal do sucesso, culminando no até então maior festival de música do país, o “Rock in Rio”.

Ozzy Osbourne, hedonista, se drogava, ostentava dinheiro, Iron Maiden se apresentava em palcos suntuosos, Def Leppard fazia as menininhas suspirarem, o glam metal era um tapa na cara da sociedade politicamente correta com suas roupas espalhafatosas e homens meticulosamente “femininos”.

Mas como tudo na indústria fonográfica, há também o lado “obscuro”, o lado esquecido, “empoeirado”, que, vilipendiado, formou um nicho marginalizado, longe dos olhares e ouvidos dos ardorosos fãs que trafegavam na “zona de conforto” das bandas medalhonas e é essa cena que soube, com maestria, construir uma cena intocável e genuína.

E claro, a cena não foi “setorizada”, restrita a países, mas globalizada e consequentemente algumas bandas, espalhadas pelo mundo, ostentaram o seu ostracismo. E, a partir daí, vem a pergunta: Por que algumas bandas foram relegadas a esta condição? Muitos são os fatores, logo difíceis de mensurar exatamente: maior sorte, incompetência, sonoridade “pouco digerível” etc.

O fato é que por aqui neste reles e humilde blog, essas bandas, fracassadas sob o aspecto comercial da coisa, ganha luz, ganha vez. E uma em especial é digna de contar a história, embora pouco, muito pouco mesmo se saiba a respeito dela, por isso, óbvio, é uma banda extremamente rara e obscura, falo da banda norte americana WITCH.

Witch

A banda foi formada em Dayton, Ohio, mas não se sabe exatamente em que ano os caras se juntaram. O pouco que há a respeito do Witch é de que a banda teve uma vida curta e gravou apenas um álbum de estúdio chamado “Salem’s Rise”, em 1985.

Reza a lenda que a banda gravou o álbum apenas para eles, os músicos e para alguns amigos mais próximos, enfim, trata-se de um trabalho predominantemente “artesanal” vide, inclusive, a arte gráfica do álbum, muito simples, diria inocente de tão “rudimentar”, em suma, é realmente um trabalho artesanal.

Sabe-se que o álbum teve lançamento inaugural da série OH Wax Gotta Groove Records e originalmente lançado pela gravadora “Eargasm Productions”. O produtor executivo da Eargasm Productions, Tim Grogean foi apresentado ao guitarrista do Witch, Ted George, em 1984, quando este foi ao estúdio em Dayton, Ohio, de Gorgean.

Ted Goerge

Ted foi ao estúdio de Tim Grogean para pedir para produzir um single de sua banda para ele. Ted George era conhecido por ser um avassalador guitarrista da cena de Ohio, conhecido também pela sua apresentação animalesca nos palcos. Ted ansiava em escrever um álbum e Tim estava procurando por um projeto para apresentar às grandes gravadoras em Los Angeles, onde estava borbulhando a famigerada cena glam metal, e também na cidade de Nova Iorque.

As composições e os ensaios começaram em Versailles, Ohio. Além de Ted George na guitarra e composição, a banda era formada por Dave Chappie, no baixo, Tony Chappie, na bateria e Ace Matthews no vocais. Muitas e muitas noites os caras do Witch tocaram no porão da casa dos irmãos Tony e Dave para dar existência ao seu álbum de nome “Salem’s Rise”.

A pré-produção foi feita nos estúdios do Eargasm. A gravação de “Salem’s Rise” aconteceu na “Audio Productions”, em New Carlisle, em Ohio e teve a engenharia de Tim e Mike Niklas. Tim Grogean, além de produtor executivo do álbum, ajudou também na composição das músicas e na guitarra. Foi masterizado na QCA em Cincinnati, Ohio, onde também foi originariamente fabricado os LPs. Tonny Chappie e Tim Grogean escreveram os solos de bateria e o pianista Larry “LD” Hampshire ficou ao lado de Ted para a composição dos teclados.

“Salem’s Rise” é o típico heavy metal oitentista, solos galopantes de baixo, guitarras estridentes, com riffs pegajosos, pesados e vocais melódicos e com algum alcance, mas traz algo diferente, algo inocente, algo orgânico que não se faz nos dias de hoje, onde a avidez é para atender a demandas de um público distante e que não se apega aos instrumentos.

Não é um álbum matador, um petardo sonoro, mas personifica a cena heavy dos anos 1980, trazendo todos os ingredientes para se ter um álbum de heavy rock, pois ainda traz nuances do hard rock setentista perdido e esquecido pelo tempo.

O álbum é inaugurado com a faixa “Poison”, uma faixa típica de heavy metal com riffs pesados e pegajosos, com bateria marcada, cadenciada, baixo pulsante e vocal indulgente e sombrio. “Poison” entrega algo de hard rock também, algo dos primórdios da New Wave Of British Heavy Metal em meados dos anos 1970, quando eram mais cruas e que sofriam influência das bandas setentistas.

"Poison"

“Beckon” começa cadenciada, riffs discretos de guitarra traz uma textura mais sombria, algo como occult rock, mas que logo irrompe em uma explosão heavy com um vocal mais alto, por vezes mais gritado. Música direta e poderosa!

"Beckon"

“Eyes on You” tem uma abordagem mais pop, mais comercial e radiofônica, mas não se perde do contexto do álbum com os indefectíveis riffs pegajosos de guitarra dando o ritmo. Essa música me remete a fase oitentista de Alice Cooper. Bandas como Ghost, que é notória fazendo esse tipo de música atualmente, o Witch já o fez mais de trinta anos antes.

"Eyes On You"

“Lady Medusa” vem botando o pé na porta  e traz uma miscelânea interessante entre heavy metal e hard rock, com um vocal límpido e quase falado em alguns momentos com uma “cozinha” bem entrosada, dando uma textura intensa e densa ao contexto sonoro, com um solo lindo e direto de guitarra sendo a cereja do bolo.

"Lady Medusa"

Segue com “Will I See You Again” que traz a evidência dos teclados, dando uma nostalgia sombria dos primórdios do occult rock, como o Coven, por exemplo, com um vocal de grande alcance. Uma atmosfera sombria e melancólica se arquiteta nessa música e fecha de forma excelente com um solo de bateria.

"Will I See You Again"

“Teen of Darkness” segue basicamente a mesma atmosfera da faixa anterior, uma pega mais occult rock, porém com uma diferença: peso. O peso protagonizado pela guitarra, pelos seus riffs e a intensidade da bateria que também dita o ritmo da faixa e toda a sua indulgência.

"Teen of Darkness"

“Hear the Thunder” faz jus ao nome da faixa. Traz de volta o heavy rock do álbum com a excelente dobradinha entre a bateria e a guitarra, sendo tocadas de forma intensa e agressiva. O baixo vai ganhando força e encorpando a música, dando-lhe certo groove. Uma das melhores músicas de “Salem’s Rise”.

"Hear the Thunder"

E agora segue com a faixa título, “Salem’s Rise”, que é arrastada, com algumas evidentes “pitadas” de doom metal. Traz algo de sujo e ameaçador em sua melodia. Cada nota tocada me trouxe a impressão de que a banda flertava com o despretensioso e orgânico, mas com algumas variâncias rítmicas que denota complexidade. Intrigante e fantástica faixa.

"Salem's Rise"

“Loki” é uma ode ao heavy metal, mas que, ao mesmo tempo, entrega algo complexo também, ousaria dizer que remete a bandas como Mercyful Fate, com o seu metal progressivo e todas as suas mudanças de andamento, mudanças de ritmo. Os vocais e os riffs de guitarra são os destaques da música.

"Loki"

E fecha com “Something Evil” não poderia encerrar da melhor maneira, bateria pesada, riffs pesados e agressivos, baixo pulsante e vocal alto e gritado, rasgadão mesmo. Tem uma sonoridade direta, curta e grossa, sem rodeios, mas é, por outro lado, robusta, encorpada, intensa, energética, solar.

"Something Evil"

“Salem’s Rise” teve uma festa de lançamento que foi realizada na “Hara Arena”, em Dayton, Ohio. As cópias do álbum esgotaram quase que imediatamente, foram poucas cópias produzidas. Mas nem tudo foi festa, porque diante de um mercado perverso e que ansiava pela new wave e a “big hair metal”, o famoso “metal farofa” e também com o glam metal, “Salem’s Rise” se viu deslocado de tudo que o mercado fonográfico queria e a banda não conseguiu nenhum contrato de gravação, ninguém quis assinar com o Witch.

A maioria dos músicos envolvidos com o Witch continuam tocando e gravando até os dias de hoje. Ted passou a liderar várias bandas e a trabalhar com outros artistas, incluindo Rick Derringer. Ele é conhecido hoje como “Fast Eddie” devido a sua velocidade ao tocar guitarra.

Os irmãos Chappie acabaram se tornando empresários e pouco ou nada se sabe sobre o futuro do vocalista Ace Mathews. O tecladista “LD” continuou a tocar em bandas com Tim Grogean e gravaram muito nos estúdios da área de Dayton, em Ohio. Tim passou a trabalhar com bandas como Rush, Sponge, Days of The New e Sun e até hoje grava e faz turnês com sua atual banda chamada Amplified. O álbum foi relançado, em outubro de 2018, pelo selo “Gotta Groove Records”.



A banda:

Dave Chappie - baixo       

Tony Chappie - bateria     

Ted George - Guitarras     

Ace Matthews – Vocais

Com

Larry “LD” Hampshire – Teclados

Tim Grogean – Produção, composição das músicas

 

Faixas:

1 - Poison

2 - Beckon

3 - Eyes on You

4 - Lady Medusa

5 - Will I See You Again

6 - Teen of Darkness

7 - Hear the Thunder

8 - Salem's Rise

9 - Loki

10 - Something Evil




"Salem's Rise" (1985)


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