Mostrando postagens com marcador Jazz Prog. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jazz Prog. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de janeiro de 2026

Grupo Um - Marcha Sobre a Cidade (1979)

 

A segunda metade dos anos 1970 a música instrumental estava passando por uma série de mudanças mercadológicas e estéticas, principalmente diante de um cenário em que o punk, a música “disco” e a new wave começava a ganhar tendência entre os jovens e que logo se revelaria em uma onda modista que ganharia o cerne das atenções.

Mas no Brasil estava começando uma abertura por intermédio de lançamentos independentes. Na Europa existia um movimento em torno da gravadora ECM Records, que lançava álbuns de jazz com uma estética própria. Nos Estados Unidos existiam várias tendências, desde o radicalismo tradicionalista até o experimentalismo eletrônico que se desdobrava em vários novos “formatos” sonoros. E nesse contexto que, apesar do sucesso comercial do punk, da “disco” e da “new wave”, que a música instrumental estava ganhando novas roupagens.

E a banda brasileira chamada GRUPO UM surgiria exatamente nessa efervescência. A banda nasceria, embrionariamente, em 1976, período em que Zé Eduardo Nazário, bateria e percussão, Lelo Nazário, pianos e teclados e Zeca Assumpção formava a banda “Cozinha Paulista”, de Hermeto Pascoal. Durante os períodos em que Hermeto se ausentava para algum trabalho fora do Brasil ou quando não tinha shows agendados, o trio se reunia na casa de Zé Nazário, na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para ensaiar, para tocar.

Grupo Um com Hermeto Pascoal no MAM (1976)

Em julho de 1976, ao lado de Luiz Roberto Oliveira, dos irmãos Nazário (Zé e Lelo), o Grupo Um realizou o seu primeiro show e com um sintetizador eletrônico, um ARP 2600), um dos primeiros que se tinha notícia no Brasil à época. A instrumentação contava com piano acústico e elétrico, fita pré-gravada (lançada a partir de um gravador), bateria e percussão, o que incluía, entre outras coisas, objetos diversos que eram quebrados dentro de uma enorme bacia, constatando uma incrível capacidade de improvisação, experimentalismo e minimalismo musical. No show teve até a pausa para o café!

Grupo Um

Nesse período o grupo Um gravou trilhas sonoras para filmes (longas-metragens e científicos) e até mesmo música para balé, como o “Transformations”, do coreógrafo japonês Takao Kusuno. Em 1977, quando a banda deixou efetivamente de seguir com os shows com Hermeto Pascoal, o Grupo Um fez a sua primeira sessão de estúdio, no “Vice-Versa B”, que pertencia ao maestro Rogério Duprat, já contando com a participação de Roberto Sion, no sax soprano e Carlinhos Gonçalves, na percussão.

A gravação era feita em poucas tomadas, com todos tocando juntos e em um espaço bastante limitado, simultaneamente, sem “play back”, como manda a tradição. A banda gostou muito do resultado e o próximo passo era levar o material gravado para às gravadoras. Os músicos perderam meses, recebendo sempre respostas negativas. Mas seguiram com seus ensaios e realizando algumas apresentações.

O trabalho com Egberto Gismonti, que se iniciou em 1977, obrigou o Zé Eduardo Nazário a abandonar o projeto do Grupo Um por algum tempo, muito em função das viagens, ensaios e gravações. Ao retornar da turnê “Tropical Jazz Rock”, em maio de 1979, se desligou finalmente do “Academia de Danças” e voltou a trabalhar com Lelo e Zeca no Grupo Um, organizando nova sessão de gravação no mesmo estúdio “Vice-Versa B”, pequeno e sem a estrutura adequada, afinal era tudo que o dinheiro dos músicos podia pagar.

Gismonti com Grupo Um 

Mauro Senise, saxofonista, foi convidado, Carlinhos Gonçalves, percussionista, foi mantido e dessa sessão, entre 26 e 27 de setembro de 1979, registrada quase que efetivamente “ao vivo”. Assim surgia o primeiro álbum, lançado oficialmente, naquele mesmo ano “Marcha Sobre a Cidade”, conhecido como o primeiro trabalho de música instrumental independente no Brasil que se tenha notícia, em uma tiragem de 1.000 cópias. Vale como registro histórico que o lado “A” inteiro foi gravado em uma única tomada, afinal, não tinha estrutura e dinheiro para longas e longas sessões.

Mauro, Zeca, Felix, Lelo e Zé

A estreia do novo trabalho foi no Teatro Lira Paulistana, a “meca” das bandas independentes, fazendo história no Brasil durante os anos 1980. “Marcha Sobre a Cidade” recebeu ótimas críticas, vide os recortes de jornais e revistas que foram publicadas à época e foi apresentado ao público em várias regiões brasileiras, nas suas principais capitais.

 

Grupo Um em ação no Lira Paulistana (1981)

O reconhecimento foi considerável a ponto de ganhar terras europeias e em 1983 o álbum foi lançado na França, pelo selo Syracuse, com uma capa bem diferente do original. O Grupo Um realizou uma turnê naquele país e visitando também a Suíça, tendo participado do Festival de Jazz de Grenoble e nas cidades de Toulose, Montpellier e Pari, onde gravou um show no “Studio 106”, da Raio France e se apresentou na conhecida casa de jazz “New Morning”, além de ter gravado com o cantor e compositor francês Frederic Pagés o álbum “Chansons Mètisses”, finalizando a turnê em Genebra. A banda estava no seu auge!

“Marcha Sobre a Cidade” é calcado primordialmente no jazz, no jazz fusion, com experimentações e improvisações rítmicas e melódicas incríveis, estimulantes e até mesmo intrigantes, com construções que trazem referências do rock n’ roll, a música brasileira e música africana, graças ao seu trabalho ousado na percussão. O debut do Grupo Um definitivamente é para quem aprecia um som ousado e pouco usual, que entrega um minimalismo ao extremo, que lembra o krautrock germânico, com texturas experimentais e variações e desafios sonoros.

O primeiro álbum do Grupo Um estava longe de ser maçante, por conta das inúmeras improvisações e experimentalismos. Ele dispunha de uma estimulante pulsação, porque trazia o conceito regional muito acentuado, texturas tipicamente brasileiras e africanas, um genuíno “beat” brasileiro, um legítimo e solar free jazz brasileiro.

O álbum é inaugurado com a faixa “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]” que já começa com o excelente trabalho de percussão ao estilo música brasileira, a brasilidade mesclada a jazz rock, com um trabalho, igualmente excelente, do sax, melódico e dançante. Assim é a faixa: dançante, cheia de energia, animada. Entre solos rápidos de bateria e de sax, a música vai ficando mais encorpada, um jazz fusion com a cara do Brasil, o balanço do baixo, o frenesi dos teclados. Uma música incendiária para abrir o álbum.

 “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]”

Segue com “Sangue De Negro” que traz um caráter, uma textura mais experimental, com solos de bateria, trazendo um jazz mais “root”, mas por outro lado percebe-se algo mais minimalista, que me remete a um krautrock, com pitadas psicodélicas. Porém, ao longo da música, vai ganhando mais corpo com a bateria mais pesada, um fusion novamente, mas logo retoma o experimentalismo kraut.

"Sangue de Negro"

A faixa título, “Marcha Sobre A Cidade”, se revela mais a cara do álbum, um jazz contemporâneo, com a pegada fusion, a pitada mais pesada. Por vezes contemplativa e viajante, graças a linda execução do sax. É progressiva, cheia de viradas rítmicas, é psicodélica, é lisérgica, é experimental, é viva, é latente. Se mostra complexa, versátil. Aqui a banda está em nível criativo e de improvisação únicos. Sem dúvida uma das melhores faixas do álbum.

"Marcha Sobre a Cidade" - Ao vivo (1980)

“A Porta do ”Sem Nexo” mescla o free jazz, com a sonoridade experimental bem evidente, trazendo uma versão mais kraut, experimental, com ruídos, sons mais introspectivos, diria algo soturno, sombrio. Flautas, percussão, teclados, tudo trazendo texturas minimalistas e ousadas para a sua época. Definitivamente “Marcha Sobre a Cidade” é um álbum à frente do seu tempo.

"A Porta do Sem Nexo" - Ao vivo (1980)

“54754-P(4)-D(3)-0” segue com um jazz fusion mais puro e genuíno. Aqui é a música mais nervosa, um sax mais frenético e cheio de energia e até mesmo desconcertante, poderoso. A bateria segue batendo forte também, em um “duelo” mais do salutar com o sax. As teclas não ficam atrás, cheio de energia!

“54754-P(4)-D(3)-0”

E fecha com “Dala” que linda, viajante e contemplativa, segue, reinando absoluta durante toda a música, com um piano ao fundo que, em uma textura acústica, estica o tapete vermelho para o protagonismo do sax.

"Dala"

“Marcha Sobre a Cidade”, mesmo sendo um dos primeiros ou o primeiro álbum de música instrumental concebido de forma independente no Brasil, atingiu, de forma inacreditável, um sucesso que parecia, diante desse cenário, inimaginável. Era como se tivesse passado pelo buraco de uma agulha, trazia luz a um caminho escuro e completamente tortuoso que era do jazz fusion, da música experimental e instrumental em um país, em um mundo onde reinava o punk, a “disco music” e a new wave.

Era a possibilidade de abrir um caminho, com a sua luz, sendo um farol para tantas outras bandas que quisessem seguir a trilha, uma nova estrada para lograr um objetivo maior. Este lugar, ainda não explorado, situava-se além da fronteira do permitido, que era fortemente guardada pelos “baluartes” e “arautos” do colonialismo provinciano, que só abriam as portas para os que chegassem do exterior, mesmo que tivessem saído daqui, voltando depois com o selo de “importado”, para que pudessem ser “legalizados” e aceitos no meio artístico e no show business, principalmente em se tratando de música instrumental.

Os anos 1980 entraram e foram frutíferos para o Grupo Um. Foram gratificantes porque os músicos mostraram suas caras com seus próprios nomes, sem a tutela de quem quer que fosse, sendo músico, empresário ou produtor. Eles estavam conseguindo mostrar a sua música “louca” para o máximo de pessoas possível, mesmo que trafegando na zona underground. Estavam ganhando visibilidade, tanto que Carlinhos Gonçalves recebeu um convite para tocar na Austrália, sendo sucesso por muitos anos. Zeca Assumpção optou por mudar-se para o rio de Janeiro, em vistas das boas propostas de trabalho que surgiram. Em seu lugar ficou seu melhor aluno, que acompanhava de perto as apresentações do Grupo Um, esse era Rodolfo Stroeter que permaneceu na banda até a sua dissolução, em 1984.

Outro que se juntaria ao Grupo Um era Felix Wagner, nascido na Alemanha e vivendo, desde adolescente no Brasil. Paralelamente ele integrou com Lelo e Rodolfo o “Symmetric Ensemble”, uma banda composta por dois pianos e um baixo!

Em 1981 o Symmetric Ensemble faria uma turnê importante para a Europa cabendo a Zé Eduardo Nazário continuar com o Grupo Um. Além de Mauro Senise, participaram o pianista Nelson Ayres e os baixistas Evaldo Guedes em algumas oportunidades e Paulinho Soveral em outras, mantendo a banda em atividade, fazendo alguns shows.

Quando o resto da banda retornou dessa viagem à Europa, decidiram se reunir para iniciar o trabalho do segundo álbum, com novas composições que que Lelo vinha desenvolvendo. Assim nasceria para o mundo “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, lançado em 1981, nos estúdios JV, dos músicos Vicente Sálvia e Edgard Gianullo, em São Paulo, que tinha um bom equipamento e contava com um excelente técnico, Sérgio Kenji Okuda (Shao-Lin), jovem, mas com bastante experiência e atento às nossas necessidades para colher o melhor resultado possível. O álbum foi considerado pela revista Manchete um dos dez melhores de 1981, além de conquistar elogios em resenhas dos mais conceituados críticos de música da época, colocando a produção independente no mais destacado patamar até então atingido por qualquer músico ou banda instrumental no Brasil.

"Reflexões Sobre a Crise do Desejo" (1981)

Em 1982 iniciaria a fase mais “colorida” do trabalho da banda, a começar pela capa do terceiro álbum do Grupo Um, “A Flor de Plástico Incinerada”. Esse LP foi gravado em outubro, época que marcou o início de uma transição nas carreiras dos jovens e talentosos músicos, sendo a eles oferecido o custeio da gravação e da produção gráfica do novo disco pelo selo “Lira Instrumental”, criado por um acordo entre o Teatro Lira Paulistana em parceria com a gravadora Continental e artistas que vinham apresentando trabalhos com regularidade na programação do teatro localizado à Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo.

"A Flor de Plástico Incinerada" (1983)

Isso se devia ao notável crescimento das bandas de música instrumental, que passaram a ser vistos como um “filão” comercialmente explorável. Nesse mesmo pacote foi oferecido a zé Eduardo Nazário também o custeio da gravação e produção gráfica de seu primeiro álbum solo, “Poema da Gota Serena”, que foi realizada no mesmo estúdio (J.V.) e no mesmo período em que foram feitas as gravações de “A Flor de Plástico Incinerada”. Além disso, foram oferecidas também as passagens para a turnê europeia do Grupo Um, onde seria lançada a versão francesa do LP “Marcha sobre a Cidade” pela gravadora parisiense “Syracuse”.

Grupo Um no aniversário de São Paulo (1983)

A banda faria uma pausa em 1984 e que se tornaria um hiato por mais de trinta anos quando decidem retornar em 2015, gravando um registro ao vivo chamado “Uma Lenda ao Vivo”, em 2016. O show, gravado no dia 20 de agosto de 2015, no Teatro Sec Pompeia, foi diante de uma plateia atenta e afetuosa e é um registro da noite memorável que marcou a volta do Grupo Um aos palcos e que assinalaria outro fato marcante: os 40 anos da fundação da banda.

Grupo Um - SESC Instrumental Brasil (Ao Vivo)

"Uma lenda Ao Vivo" (2015)

As incursões pelo free jazz; pelo primitivismo étnico; pelo abstracionismo da música impressionista; pela fragmentação da música minimalista; pelos ruídos pelas células harmônicas e melódicas da música contemporânea; bem como pelas harmonias complexas da música brasileira; além das inúmeras experiências atonais do jazz contemporâneo, projetam o Grupo Um para além do música plástica e careta e muito próximo do experimentalismo e das improvisações livres de qualquer coisa modista e sempre “escravo” da criatividade sem arestas. “Marcha Sobre a Cidade” lançado de forma independente em 1979, com segunda edição pelo selo Lira Paulistana. Lançado na França pelo selo Syracuse em 1983. Reeditado em CD pela Editio Princeps em 2002.




A banda:

Zé Eduardo Nazario na bateria e percussão

Zeca Assumpção no baixo (Piano na Faixa 6)

Lelo Nazário no piano

Carlinhos Gonçalves na percussão

Com:

Roberto Sion no sax soprano (Faixa 8 – Bônus track)

Mauro Senise na flauta, sax alto e soprano (Faixas de 1 a 7, esta última Bônus Track)

 

Faixas:

1 - [B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]   

2 - Sangue De Negro        

3 - Marcha Sobre A Cidade         

4 - A Porta Do ''Sem Nexo''          

5 - 54754-P(4)-D(3)-0        

6 – Dala

 

Bônus Tracks:         

7 - N'daê      

8.1 - Festa Dos Pássaros 

8.2 - C(2)/9-0.74-K.76



"Marcha Sobre a Cidade" (1979) - Audição aqui!






























































quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Crash - Cassette (1978 - 2019)

 

Lamentavelmente estamos vivendo em um patamar de péssimo gosto musical. Embora seja temeroso dizer isso, haja vista que a percepção musical é particular, é de cada um, admitamos que certas sonoridades são no mínimo discutíveis em sua qualidade. Sons rasos, cheio de rótulos, estereotipados, plastificados, um verdadeiro cenário desolador, capitaneado por um mercado tendencioso que, perverso, incute na mente das pessoas que aquele som, aquela música, aquela cena é a viável para as suas vidas.

Mas nem tudo é tão desolador e perigoso assim! Atualmente temos presenciado alguns selos, undergrounds, claro, que abnegados que são, tem trazido à luz rocks obscuros, esquecidos pelo tempo, engavetado pelo preconceito e graças ao advento das redes sociais e pela grande rede, tem disseminado esses lançamentos de bandas que, independentemente de sua época, sequer tiveram seus materiais lançados oficialmente.

E esse punhado de gravadoras, espalhadas pelo mundo, tem cavado fundo, levando poeiras que, grossas e pesadas, apagam o brilho de muitas sonoridades incríveis, bandas que teriam projeção, que tinham tudo para seguir suas trajetórias, suas histórias personificadas em seus álbuns e são esquecidas pelo tempo, pelo homem. E finalmente tem a chance de existir e catapultar as suas músicas por intermédio dos LPs, dos CDs.

Joias raras, brutas pelo massacre do tempo, são lapidadas pelos lançamentos, pelos engajamentos (palavra da moda) de apreciadores da boa música. A internet é o trampolim de tudo que nele é injetado para as massas ouvirem. Bem pode parecer estranho aliar a audição das massas às bandas obscuras que apresento neste blog, mas o fato é que se não teve tanto acesso no passado, difícil, hoje, mesmo que não atinja tantas pessoas, o cenário é mais benevolente para atingir a mais ouvidos e corações.

Sem mais delongas vou apresentar uma banda, claro, obscura, que descobri recentemente, movido pelas minhas incursões ao mundo maravilhoso do desconhecido, do lado negro do rock n’ roll e da viagem que representa o desbravar. E foi a apresentação, confesso, que me chamou a atenção: jazz rock fusion e melhor, da Polônia, fugindo um pouco dos grandes “centros” do rock no mundo. Falo da banda CRASH.

E quando a gente fala da Polônia, entre outras coisas, nos anos 1970, entre outras coisas, fala também da Cortina de Ferro e das censuras que os países do Leste Europeu sofreram com o governo de Moscou, na antiga União Soviética, na Guerra Fria, com as disputas ideológicas entre capitalismo e socialismo, disputas armamentistas e tudo o mais.

E nesse ambiente beligerante o Crash desenvolveu sua sonoridade e ainda assim conseguiu evoluir seu som e adquirir alguma visibilidade na cena jazz rock da Polônia. A música de fato rompe fronteiras e dilacera qualquer cenário político distorcido, nocivo e destrutivo, independente se é ou não a Cortina de Ferro, o sistema neoliberalista ou qualquer coisa que seja.

O Crash, ao longo dos anos 1970, se tornou uma das mais interessantes bandas da sua vertente sonora e tocou em alguns festivais europeus ganhando prêmios e, consequentemente, reconhecimento de um público, embora pequeno, mas ávido pelo estilo que desenvolviam muito bem. A banda, naquela década, também se apresentou com músicos importantes, como Sonny Rollins, saxofonista icônico norte-americano, que fez sua carreira, produtiva, no jazz.

E essa evolução da sonoridade da banda, que a fez edificar alguma credibilidade na cena polonesa e até mesmo em alguns países pelas quais passaram, se deu pelas inúmeras mudanças na sua formação ao longo dos anos 1970. Mas o que poderia ser um risco para a descaracterização de sua sonoridade, os músicos que entraram entregaram características únicas no som da banda.

Mesmo com a sua caminhada sendo feita de acordo, com shows em festivais, com reconhecimento de sua música, a banda sofreu com o ostracismo, com o pouco apoio e gravou apenas um trabalho, entre 1977 e 1978, mais precisamente na primavera de 1978, chamado, por alguns de “Cassette”. Agora creio que você, caro leitor, deve estar se perguntando o porquê do nome “Cassette”.

O Crash gravou as músicas que compuseram esse trabalho, no estúdio de uma rádio polonesa, em Opole, e lançada, diria de forma “artesanal”, em uma fita cassete, uma dessas fitas de áudio, pelo selo Wifon. É também chamada de “Kakadu: The Lost Tapes (1977-1978) ”, mas esse nome se fortaleceu quando o álbum foi lançado, no formato LP, em 2019, mas acalme-se, aclamado leitor, isso eu falarei logo mais...



O Crash, oriundo da cidade de Breslau, quando gravou “Cassette” era formado por: Władysław Kwaśnicki, no alto saxofone e soprano saxofone, Andrzej Pluszcz no baixo, Stanisław Zybowski na guitarra, Zbigniew Lewandowski na bateria e percussão, Juliusz Mazur no piano, sintetizador (moog), com Zbigniew Czwojda no trompete e Władysław Gawroński no designer e produção de álbum.

O álbum, como já denunciado, é uma incrível fusão entre jazz, rock n’ roll e rock progressivo, pinceladas com uma pegada de funk com viés dançante extremamente competente, sofisticado e orgânico. Percussão envolvente e solar, som penetrante do trompete, do saxofone, com riffs de guitarra intrigantes, por vezes pesado, com solos dedilhados que trazem à tona o jazz. Um típico jazz rock, mas muito inspirado, mostrando que a banda estava no seu auge criativo por desenvolver um som, ao mesmo tempo acessível e complexo.

O álbum é avassaladoramente inaugurado com a faixa “Koncowka Banderoli” que, no auge dos seus mais de nove minutos de duração já inicia com a bateria percussiva e marcada mostrando personalidade e peso, isso mesclado a uma pegada meio funk e soul e um dedilhado de guitarra que dá o tempero necessário para toda essa miscelânea sonora. Sim! Uma mistura que traz vários “humores” ao som dessa faixa, corroborando a sofisticação progressiva repleta de viradas, de mudanças rítmicas. Não podemos negligenciar o jazz rock com profundo destaque graças ao saxofone. Música impecável!

"Koncowka Banderoli"

“Kakadu” entra na sequência com riff de guitarra mais discreto, bem rudimentar, mas que se torna um portão de entrada para o jazz rock mais maduro e evidente, com uma vibe bem peculiar e animada que se configura com um piano solar e tocado de forma enérgica e frenética, diria. O Saxofone surge com dosagens potentes e diretas que “rivaliza” com o piano e que entrega, mais uma vez, aquelas “viradas” de ritmo mostrando a pegada progressiva ao som.

"Kakadu"

“Nocna Zabawa” começa mais animada, a guitarra, com seus dedilhados, é responsável por isso, juntamente com o baixo, que traz de volta a pegada mais funk e soul. Uma faixa com muito “balanço” e groove. Instrumentos de corda e de sopro em uma incrível simbiose sonora e ainda com direito a solos de bateria, cheio de viradas e de moog.

"Nocna Zabawa"

“Baraqua” traz de volta, sobretudo na sua introdução, o jazz, com destaque para o saxofone tocado de uma forma bem viajante e até mesmo lisérgica, algo de psicodélico incrementa a música. É uma pegada mais experimental no seu início, mas que irrompe para algo mais dançante e animado. A bateria encorpa a faixa, deixa ela mais pesada, em alguns momentos. Uma faixa cheia de “recursos sonoros”. “Trzy Po Cztery” começa inusitada! Algo como um progressivo sinfônico mesclado ao jazz rock, com riffs de guitarras um pouco mais altivo, sax em um tom mais alto, com solos de tirar o fôlego e um rock progressivo mais vivo e pleno, faz dessa música mais arrojada e intensa.

E fecha com a faixa “Akelei” que começa mais experimental e intimista, com bateria tocada de forma mais discreta e saxofone igualmente discreto. Mas surpreende por trazer, logo em seguida, algo mais “latino”, com percussão mais acentuada e que me fez lembrar até de bossa nova e samba rock, pasmem. Os apitos, ao fundo, parecem confirmar essa impressão.

Lamentavelmente o Crash não teve uma longeva vida e teve apenas esse registro que, ao ser gravado em fitas cassete, ficou escondida, esquecida nos escombros empoeirados do rock e nos arquivos do estúdio daquela rádio onde foram as faixas concebidas. A propósito a banda se reuniu com a cantora Grażyna Łobaszewska e lançou, em 1979, um álbum chamado “Senna opowieść Jana B.”, cujo álbum pode ser ouvido aqui. Traz, basicamente, uma sonoridade similar ao álbum que gravaram um ano antes, o “Cassette”. Porém depois disso nada mais gravaram e sumiram da cena musical polonesa.

Mas para a alegria dos apreciadores do jazz rock, do prog rock, em janeiro de 2019, o álbum foi remasterizado a partir das fitas originais encontradas nos arquivos da rádio polonesa em Opole e copiados, com precisão, sendo lançadas, no formato “LP”, com uma limitadíssima prensagem de 500 cópias, pelo selo Sound by Sound. Nesse lançamento de 2019 quatro gravações adicionais feitas por músicos em Opole, entre 1977 e 1987, foram adicionadas à lista de faixas. Há um livreto que apresenta um ensaio abrangente de Barnaba Siegel discutindo a história da banda e algumas fotos exclusivas de Wojciech Zawadzki.

Outro relançamento aconteceu em 2020, agora no formato “CD”, pelo selo GAD Records também aconteceu, brindando novamente os fãs de jazz rock que não tiveram a oportunidade de adquirir a versão em LP lançada um ano antes. Lançamentos assim para os colecionadores são oportunidades únicas para se ter, em sua estante, uma pérola da música, do rock polonês dos anos 1970, uma pérola mais do que recomendada do jazz rock.





A banda:

Władysław Kwaśnicki, no alto saxofone e soprano saxofone,

Andrzej Pluszcz no baixo,

Stanisław Zybowski na guitarra,

Zbigniew Lewandowski na bateria e percussão,

Juliusz Mazur no piano, sintetizador (moog)

Zbigniew Czwojda no trompete

 

Faixas:

1 - Koncowka Banderoli

2 - Kakadu

3 - Nocna Zabawa

4 - Baraqua

5 - Trzy Po Cztery

6 - Akelei



"Cassette" (1978) ou "Kakadu - Lost Tapes (1977-1978) - 2019"








 






















quinta-feira, 23 de maio de 2024

Ocean - Sunrise (1982)

 

Afirmo, de forma categórica e até mesmo entusiasmada, que não sou eclético, que apenas aprecio o bom e velho rock n’ roll! Apenas? Sim, apenas tudo isso! Evidente que os amantes e quase unânimes apreciadores do ecletismo musical combatem duramente contra a minha máxima de amor incondicional ao rock simplesmente, mas que espécie de motivação tenho para gostar de outras músicas se o universo do rock é amplo e cheio de possibilidades?

Quando comecei a desbravar as matas selvagens e quase intocáveis do rock obscuro, a “tese” de que tanto defendo começou a ganhar contornos mais fortes, ganhando vida. Percebi que, com as inúmeras bandas, esquecidas, jogadas em um profundo ostracismo, também traziam vertentes, até conhecidas pelo grande público, porém pouco “exploradas” e até pouco compreendidas.

Não quero cair na teia do estereótipo e me prender a estilos, mas sim a música, mas as nuances sonoras de cada banda e álbum nos faz entender um pouco a proposta e história de cada banda e seus trabalhos e de história, amigos leitores, como podem perceber, aprecio e muito.

E assim foi com o “jazz fusion”. Por ser uma música híbrida do famoso jazz com a pegada mais forte do rock e muito apreciada entre os apreciadores do rock progressivo, eu pude ter acesso graças a uma profusão de bandas do estilo que flertam com as bandas progressivas que, claro, absorveu fortemente o jazz e outras músicas eruditas, diria ser oriunda do jazz.

E assim foi! Os primeiros contatos, como tudo que é novo, gera incertezas, algumas rejeições, mas a sonoridade arrojada foi, aos poucos me cativando: um som complexo, mas, ao mesmo tempo solar, pesado, energético. Claro que muito antes de qualquer banda de rock experimentar o jazz temos os movimentos culturais musicais e músicos engajados que se tornaram pioneiros, como  Dizzy Gillespie, Miles Davis, o jazz afro cubano e tantos outros, precisam ser enaltecidos, mas o jazz rock elevou o nível.

E eu não poderia negligenciar hoje essa ramificação da frondosa árvore do rock progressivo com uma banda que seja e, nas minhas infindáveis e saborosas incursões pela grande rede, ouvindo um já satisfatório número de bandas, gostaria de destacar uma banda norte americana que ouvi quase que aleatoriamente, sem intenção prévia, sem roteiros, sem absolutamente nada e simplesmente me arrebatou: a banda se chama OCEAN.

Depois de uma árdua e obcecada busca por referências a respeito de sua história foi muito difícil encontrar algo sobre a banda, apenas algumas linhas sobre a sua trajetória e pouco replicada em sites especializados, mas é, dada as devidas proporções, normal, levando em consideração que o Ocean, por exemplo, gravou sem único álbum, de jazz rock, no início dos anos 1980, em uma década dominada pelo pós punk, pela new wave e o heavy metal, quando o prog rock estava em declínio, sob o aspecto comercial.

E o álbum, gravado mais precisamente em 1982, com o nome de “Sunrise”, foi o único de sua meteórica passagem por este mundo, o que também é, digamos, normal, diante do cenário de rejeição mercadológica ao estilo em pleno anos 1980. Diante da escassez de informações do Ocean, muito pode se especular, encarando essa banda, como um mero projeto de estúdio, desses que se reúne músicos, geralmente de estúdio, grave-se um álbum e por lá finaliza a sua trajetória, algo com início e fim, mas se há um álbum e músicos, pode-se considerar uma banda na sua real acepção da palavra.

"Sunrise" (1982)

O pouco que se tem a respeito do Ocean é de que a banda foi formada no início dos anos 1980 em Cincinnati, em Ohio, nos Estados Unidos e que gravou um álbum, o “Sunrise”, que trazem teclados totalmente analógicos, uma bela guitarra “fuzzy”, o que mais me cativou neste trabalho, com composições inegavelmente originais, diria arrojadas. Não querendo tornar “Sunrise” datado, sua sonoridade me remete aos anos 1970 e traz a sensação de que estava descolado do seu tempo.

Mas prefiro dizer que os músicos simplesmente deixaram a sua criatividade e a sua verdade pela música simplesmente aflorar, sem amarras e preocupações com tendências e modismos ditados pelo mercado fonográfico, não é à toa, claro, que caiu no ostracismo, se tornando deveras obscura. E ainda no campo das especulações, “Sunrise” foi gravado por um selo de nome, adivinhem, Ocean Sounds Records, levando a crer que seja um produto, um projeto de curta duração e de estúdio, sem pretensões de “ganhar o mundo” com turnês ou coisas que o valha.

E falando também em músicos, a banda era formada por Bruce Fox, guitarrista e produtor do álbum, Rick Snyder (Dennis DeYoung) nos teclados e sintetizadores, Michael Sharfe no baixo e baixo acústico e Chris Erickson, na bateria e percussão. Com a participação de Curt Ramm, no trompete (Chic, They Might Be Giants, Levon Helm, Jon Batiste, William Shatner, Bruce Springsteen).

Músicos perfilados, vamos dissecar as suas faixas! O álbum é inaugurado com a música “Hickey” que já começa enérgica, intensa, vívida, a bateria jazzística, trompete dita o ritmo. A faixa é extremamente dançante e os solos de guitarra traz um “tempero” muito atípico e arrojado, tornando a música mais pesada e solar.

Segue com “Of Birdland Fame” e a introdução fica mais introspectiva com os teclados, a bateria, mais contida, entra anunciando uma levada mais prog rock, o trompete traz uma textura mais contemplativa. O teclado domina as atenções e deixa a faixa mais dançante. Mas na metade da música o que era contemplativo fica mais animado graças ao próprio trompete, o jazz fusion ganha destaque. A bateria muito bem executada, ganha corpo até a música retornar a sua vibe mais contemplativa. Complexa, cheia de viradas rítmicas. Excelente faixa!

“The Bubble” já entrega algo mais pesado! Bateria marcada e mais pesada e um solo mais direto de guitarra destaca um hard rock inicial, mas que logo fica cadenciada, com baixo pulsante com algum groove e solos de guitarra ao fundo e que, aos poucos, ganham destaque, mas que vai finalizando meio experimental. Definitivamente é a faixa mais “rock n’ roll” do álbum.

“Tidal Wave” tem uma pegada meio comercial, pop, mas muito bem executada e capitaneada pelo trompete. Traz uma “latinidade” muito dançante e que nos remete a música brasileira. A guitarra dedilhada é um “tempero” a mais a energia da música.

“Just One of Those Little Things” começa com o som de mar, os pássaros, sintetizando a estética e nome da banda e álbum e o trompete continua ditando as regras sonoras dessa faixa, mas os solos de guitarra são mais elaborados e longos, dando um caráter mais pesado à música e nesse interlúdio tem a bateria trazendo a pegada mais latina a faixa. Mais uma faixa complexa e cheia de viradas rítmicas.

E fecha com “Ocean Sunrise (Sara’s Elegy) traz de volta a versão mais contemplativa, com um violão acústico ditando o ritmo, com um baixo meio groovado e o trompete “rivalizando” com o piano traz uma harmonização perfeita à faixa.

“Sunrise” pode não ser nada inovador entre as bandas de jazz fusion, para muitos pode soar até manjado ou algo pior, como plágio, por exemplo, tema tão em voga para se polemizar, mas não podemos negligenciar que o Ocean foi, primeiramente ousado em produzir um material esquecido em pleno anos 1980 de jazz rock e prog rock e segundo trata-se de um álbum arrojado sim, embora não seja nada novo. A pegada jazzística com riffs e solos de guitarra mais pesado definitivamente caiu muito bem aos meus ouvidos. Altamente recomendada!


A banda:

Bruce Fox na guitarra e produção do álbum

Rick Snyder nos teclados e sintetizadores

Michael Sharfe no baixo e baixo acústico

Chris Erickson na bateria e percussão

Com

Curt Ramm no trompete

 

Faixas:

1 - Hickey

2 - Of Birdland Fame

3 - The Bubble

4 - Tidal Wave 5:52

5 - Just One of Those Little Things

6 - Ocean Sunrise (Sara's Elegy)



"Sunrise" (1982)


 







quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Triode - On n' a Pas Fini D'Avour Tout Vu (1971)

 

A cena progressiva da França não goza de muita popularidade, não sendo muito respeitada, ficando, por conta disso, aquém do que realmente representa, em termos de qualidade, para a cena progressiva global.

E não se enganem, caros amigos leitores, a França entrega um punhado de grandes bandas, não apenas do prog rock, mas do rock n’ roll em todas as suas vertentes.

Infelizmente fatores mercadológicos impactam nesse triste cenário, sem sombra de dúvida, haja vista que a França não está no centro da música progressiva como a Inglaterra, Alemanha e até mesmo a Itália. Talvez fatores culturais que se “aplicam” na música, mas acredito, este último, se tratar de meras especulações sem nenhuma sustentação.

E falando em grandes centros da música progressiva, bem como em peculiaridades sonoras que variam de país para país, a banda que escolhi para falar ou melhor escrever traz uma sonoridade bem típica da Inglaterra, por exemplo, celeiro de bandas que executavam, flertavam com o jazz rock, o prog rock entre outros sons pagãos bem interessantes. Falo do TRIODE.

O Triode, como tantas bandas de sua geração e flerte sonoro, teve um precoce fim, um desfecho anormal quando se trata de qualidade de música, gravando apenas um álbum, no longínquo ano de 1971, chamado “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu”.

A banda foi formada na “capital luz”, em Paris, no início de 1970 e teve seu álbum lançado pelo selo “Futura Records” com uma tiragem mínima de cópias. Algo que intriga é que “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu” não possui um teclado, o que surpreende em se tratando de um álbum que traz, na sua base sonora, o prog rock e o jazz rock.

Talvez a palavra certa a se usar não seja “intriga”, mas “ousadia”, afinal uma banda de rock progressivo não ter em sua formação um tecladista e ainda assim soar com uma imensa qualidade, é digno de reverências.

E falando em formação, o Triode, quando gravou “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu”, tinha o já exímio Michel Edelin na flauta, Pierre Chereze na guitarra, Pierre Yves Sorin no baixo e Didier Hauck na bateria. Edelin apesar de ser responsável apenas por tocar a flauta, é dono de uma importância grande, afinal a alma da banda passa por seu instrumento.

O Triode imprimiu em seu único trabalho lançado, além da já mencionada veia progressiva com generosas pitadas picantes de jazz rock, traz nuances bem evidentes de psicodelia, lisergia graças ao trabalho extremamente versátil de Edelin e claro, dos demais integrantes.

Ao buscar referências da banda pela “web” observei que muitos analisavam ou melhor, comparavam o Triode ao Jethro Tull, por conta do protagonismo da flauta em seu álbum. Mas ao ouvir “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu é nítido que essa comparação, além de ser um tanto quanto perniciosa, é equivocada, penso. Trata-se de uma comparação carregada de estereótipos, somente pelo fato do Tull trazer também na flauta de Ian Anderson o protagonismo que no Triode também possui. Evidente que, por conta do uso do instrumento, algumas similaridades são percebidas, mas o Triode tem o que o Jethro Tull quase não tem: o jazz rock.

“On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu” é enérgico, solar, um álbum vivo, pleno e intenso. É totalmente instrumental o que evidencia tal questão. E convém ressaltar que, além da forma fascinante de tocar flauta de Michel Edelin, que harmoniza perfeitamente com o seu psicodélico, lisérgico da guitarra de Pierre Cherez, além da seção rítmica totalmente descolada e envolvente de Didier Hauck e Pierre-Yves Sorin.

O álbum é acelerado, em boa parte de sua execução, nenhuma faixa é fraca ou, digamos, enfadonha, traz uma musicalidade de extrema qualidade, mostrando músicos em excepcional sinergia e ainda assim permaneceram tão esquecidos, desconhecidos, envoltos em uma obscura bolha, inclusive nos circuitos do prog rock ficaram no mais puro ostracismo, sem contar com a linda arte gráfica que já nos convida a ouvir o seu conteúdo.

E foi exatamente assim que me aproximei do álbum do Triode: em minhas incursões, desbravando o mundo encantado da obscuridade que, confesso não lembrar como, cheguei ao álbum desta banda francesa. A arte gráfica foi mesmerizante e, claro, logo me pus a ouvir e o resultado e de total frenesi que relato neste texto.

Trata-se um álbum versátil ou que se convencionou de “eclectic rock” e confesso que, apesar de ser um tanto quanto reticente com esses “rótulos musicais”, esse realmente se encaixa, se adequa ao estilo de som do Triode: um jazzy prog com interlúdios quentes de flauta, com a guitarra ácida, lisérgica e uma “cozinha” competente e audaciosa, dando a textura ideal para a sua vertente sonora.

"Magic Flower"

“Misomaque” de imediato se percebe que é mais acelerada que a música anterior e quem dita esse ritmo é a bateria, mostrando-se mais dinâmica e enérgica, logo depois vem o baixo pulsante e solos rápidos e diretos de guitarra dando mais peso ao conjunto. Uma sopa sonora intensa e dançante!

"Misomaque"

“Moulos Grimpos” já começa contemplativo, com uma pegada mais psicodélica, graças também ao instrumento percussivo. A flauta entra nos momentos mais leves da música, com guitarras dedilhadas e baixo e bateria, mais uma vez, em extrema e competente harmonização. Solos de guitarra limpas e lindas se ouvem e me remete algo meio bluesy.

"Moulos Grimpos"

Segue com “Blahsha” que é a síntese do jazz rock! Bateria swingada e frenética, em alguns momentos, a flauta “duela” com os riffs de guitarra. O todo logo se mostra único com peso e irreverência. Nota-se ao fundo gritos de êxtase, a música é envolvente e plena, texturas pesadas com solos lisérgicos de guitarra. Sem dúvida uma das melhores músicas deste belo álbum. Baixo pulsante de forma louca, bateria pesada, flauta rasgando. Tudo nessa música é intensa!

"Blahsha"

“Lilie” é uma faixa em que se corrobora a qualidade da flauta, tendo o apoio da seção rítmica, baixo e bateria apoiam firmemente, deixando a música mais dançante. A flauta cede lugar ao solo jazzy de guitarra que, embora simples, é extremamente emocional e igualmente dançante. Mas a flauta logo retoma a sua condição de protagonista.

"Lilie"

“Ibiza Flight” anuncia a excelente introdução de baixo enquanto a bateria segue apoiando e a flauta, excelente, “rivaliza” salutarmente com o pulsante baixo. A sintonia é perfeita! O solo de guitarra entra na festa e ganha as atenções, com peso, solo que me remete a um poderoso hard rock.

"Ibiza Flight"

 “Adeubis” é uma faixa mais curta com o predomínio da flauta, mas logo vem os riffs meio dançantes de guitarra, algo entre jazz rock com groove que, mesmo com simplicidade, traz todo o zelo pela riqueza instrumental.

"Adeubis"

“Come Together”, clássico dos Beatles, ficou bem interessante na versão instrumental, nada muito especial, é bem verdade, mas, para variar, é extremamente interessante ouvir a flauta substituir o vocal e a guitarra distorcida, ao estilo acid rock, conferindo a faixa um pouco mais de peso.

"Come Together"

E fecha com “Chimney Suite” é de longe a faixa mais longa, no auge de seus mais de nove minutos de duração e é basicamente conduzida pela flauta, percussão e baixo, tendo a guitarra, em uma versão mais pesada, se junta rapidamente, vindo rasgada, com solos pesados, fazendo o contraponto com a suavidade da flauta que sempre se mostra viva e presente.

"Chimney Suite"

O Triode se separou um ano após o lançamento de “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu” se separou. O flautista Edelin lançou alguns trabalhos solos, ganhando notoriedade e um deles é o “Michel Edelin Trio/Quartet. Mais tarde Edelin iria se consagrar como uma das lendas da flauta citado, inclusive no “Dicionário do Jazz” (Laffond), como um dos “"The Great Creators of Jazz", autêntico especialista do jazz-flute e um dos quatro na lista do Jazz Hot Prize (ao lado de Dave Valentin, James Moody e Sonny Fortune).

Chereze lançou vários singles e álbuns como artista solo, enquanto Pierre-Yves Sorin tocou como “session man” ao lado de grandes nomes do jazz, se unindo com o exímio baterista Didier Hauck no Jazz Sextet.

“On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu” teve, ao longo do tempo, vários relançamentos com o primeiro pelo famoso selo italiano, a Mellow Records, entre 2000 e 2001, pelo Futura Records, na versão LP, em 2012, sendo que este selo foi o responsável pelo lançamento do álbum em 1971, no mesmo ano outro selo italiano, o Luna Nera Records lançaria o álbum em LP e por fim, até o momento, o selo francês “Souffle Continu Records”, o lançaria em LP.

Um álbum instrumental uniforme, com músicas de excelente qualidade, com a flauta e guitarra fuzzed que se revezam na “liderança” sonora deste obscuro trabalho, com uma seção rítmica que dão o apoio e uma textura pesada e percussiva que faz desse trabalho do Triode, mesmo não sendo uma obra-prima, mas uma pérola do jazz rock. Recomendado!


A banda:

Pierre Chereze na guitarra

Pierre Yves Sorin no baixo

Didier Hauck na bateria

Michel Edelin na flauta

 

Faixas:

1 - Flower

2 - Misomaque

3 - Moulos Grimpos

4 - Blahsha

5 – Lilie                                                                                      

6 - Ibiza Flight

7 - Adeubis

8 - Come Together

9 - Chimney Suite


Download de “On n’a Pas Fini d’Avoir Tout Vu pode ser feito aqui!


Triode - "On n'a Pas Fini d'Avoir Tout Vu" (1971)