Quando falamos das bandas
completas de rock progressivo alemão, aquelas bandas que romperam com os
paradigmas sonoros, que bateram com o pé na porta, que mudaram o curso da
história, mas que não tiveram o devido reconhecimento e crédito da cena, da
indústria, dos fãs, não podemos esquecer o grande e eclético FRUMPY.
A história
do Frumpy começa na cidade de Hamburgo, em 1965, com uma banda local chamada Die
City Preachers que é considerada a primeira banda de folk alemão daquela região, quiçá da Alemanha. Descontente
com o vocalista Dagmar Krause, o baterista Carsten Bohn resolveu deixar a banda
em 1969 e com ele foram outros integrantes da banda. O tecladista Jean-Jacques
Kravetz, o baixista Karl-Heinz Schott e a vocalista Inga Rumpf se juntaram ao Carsten e formaram o The New Preachers.
Die City Preachers
Notando rapidamente a falta de criatividade no
nome, mudaram para Frumpy. A banda participou de alguns festivais,
principalmente do "Essen International Pop & Blues Festival". Foi
lançada uma compilação com duas músicas ao vivo das bandas que participaram do
festival e as faixas escolhidas do Frumpy foram "Duty" e
"Floating".
A boa aceitação lhes rendeu alguns shows pela Alemanha,
França e Holanda, além da participação no programa de TV "Kiel Progressive
Pop Festival". Assim lançaram seu primeiro álbum chamado “All Will be
Changed”, em 1970, um ótimo álbum de estreia que, por não possuir guitarra,
exploraram o uso do hammond.
"All Will be Changed" (1970)
O álbum teve um reconhecimento do público e da
crítica e rendeu alguns shows com o Yes. Mas, ainda faltava algo, faltava peso.
Então a decisão foi unânime: "Vamos colocar em nossa música um guitarrista!".
Assim entrou Rainer Baumann. A notícia foi recebida com ceticismo pelos fãs e
pela crítica, mas eles compraram a briga e para solidificar essa decisão,
tornou-se necessário a produção de um álbum.
Rainer Baumann
E foi assim que nasceu “Frumpy 2”,
de 1971, alvo da resenha de hoje. A formação da banda que trouxe ao mundo
o “Frumpy 2” tinha em seu line-up: Inga Rumpf: vocal, Jean-Jacques Kravetz: órgão, Karl-Heinz
Schott: baixo, Carsten Bohn: bateria e Rainer Baumann: guitarra.
Frumpy
Agora falemos
do álbum faixa a faixa. Começa com “Good Winds” com um lindo solo de guitarra
mostrando a nova faceta sonora da banda, com muito mais substância e arrojo. Um
misto de peso, hard rock, progressivo e música clássica faz dessa música a
extensão de que é o álbum em sua totalidade.
"Good Wings"
“How the Gipsy Was Born” é a música
de grande sucesso do álbum, foi a escolhida para ser o single e o que dizer
desse som, com grandiosos solos de guitarra em uma salutar briga com o órgão
com destaque excepcional do vocal rouco e poderoso de Inga que dá todo o
tempero a música.
Frumpy - Hpw the Gipsy Born, live at Beat Club, Rádio Bremen, 1971
“Take Care of Illusion” tem
viradas de bateria de tirar o fôlego e um órgão tocado de forma tresloucada e
frenética que não tem como não deixar de bater cabeça com essa música.
Frumpy - take Care of Illusion, live at Beat Club, Rádio Bremen, 1971
“Duty” fecha o disco com
muito hard progressivo de qualidade, mesclando com uma psicodelia, uma levada
meio jazzística, um destaque para o hammond e longas viagens instrumentais.
"Duty"
É
inegável o poder de fogo do Frumpy em seus dois primeiros álbuns e que também
sintetiza capacidade camaleônica do Frumpy em levar inovações em suas camadas
sonoras. Inga certamente é uma das melhores vocalistas femininas da história do
rock progressivo, do rock n’ roll em todas as suas vertentes.
A rainha Annie
Haslam tem seu posto de grande vocal, símbolo do rock progressivo, mas algo me diz que Inga
é a melhor por trazer, juntamente com o Frumpy, uma mescla de estilos sendo
difícil categorizar a banda e o seu estilo de vocal. O vocal de Inga sem sombra de dúvidas é o grande regente
disso tudo.
O frio dos países nórdicos
está, felizmente, restrito ao clima. O rock n’ roll pega fogo com as bandas que
lá brotam, com o perdão da analogia infame e sem criatividade. A riqueza sonora
é grande, que varia do virtuosismo, complexidade à rusticidade e aspereza.
Há
para todos os gostos! Essa que tomará algumas linhas desse texto é muito rara,
pouquíssima conhecida e vem da Dinamarca, da cidade de Randers, e se chama
CINDERELLA. Não se enganem essa não é aquela banda de glam metal ou vulgarmente
conhecida como “heavy metal farofa” que proliferou na segunda metade da década
de 1980 que os músicos vestidos de mulher e com a cara repleta de maquiagens,
numa androgenia que invadiu a MTV.
O Cinderella dinamarquês, além de ter sido o
original, o primeiro, surgida em 1970, tinha um som cru, pesado, agressivo e
direto. Um hard rock viril, intenso e vigoroso. Embora na capa esteja estampada
que o Cinderella era uma banda dinamarquesa de rock progressivo, em nada tinha
de prog rock e talvez tenha usado o título de banda progressiva para ter um
pouco de publicidade, haja vista que o rock progressivo estava nascendo no
início daquela década e ganhando alguma notoriedade e adeptos.
O som é pesado, com guitarras distorcidas, riffs em abundância, envolto em uma
atmosfera psicodélica, ácida e chapante capaz de deixar o ouvinte mesmerizado,
louco e arrebatado por uma música poderosa.
É evidente as influências de Jimi
Hendrix, Led Zeppelin entre outras bandas pesadas da transição dos anos 1960 e
1970. Era um power trio que tinha a seguinte formação: Allan Vokstrup
(bateria), Henning Kragh Pedersen (guitarra, vocais) e Søren Hilligsøe (baixo,
vocais).
Poucas são as informações sobre como a banda surgiu e foi formada, bem
como o histórico de seus integrantes, mas o seu primeiro álbum, de 1970, não
fora lançado na época, foi apenas produzido e gravado naquele ano. Chegaram a lançar um single de nome "The Sandbox Series", em 1970, mas o álbum empacou.
Em 1972 os master tapes
foram perdidos quando a gravadora Spectator Records sofreu um incêndio
embargando o lançamento. Mas as tais fitas ainda existiam e foi descoberta em
1990 quando alguns jovens estudantes de música faziam uma pesquisa sobre o rock
dinamarquês e as encontrou! O “Danish Progressive Rock 1970”, como foi chamado
foi lançado 20 anos depois de sua gravação. Com a redescoberta deste material a própria Spectator Records lançou o álbum do Cinderella.
Este álbum não goza de boa
qualidade na gravação e tudo leva a crer que foi gravado ao estilo “alive in
studio” e é inaugurado com a faixa “Break Song-Red House” com um solo de
bateria e um baixo pulsante, a cozinha super afiada, seguido de uma guitarra
meio bluesy, com passagens jazzísticas que se alternava no hard rock. Um
espetáculo instrumental transborda! Parecia-me um momento de improvisação, de
libertação criativa total, sem amarras.
"Break Song - Red House"
“Carlt” traz uma envolvente percussão,
meio tribal, psicodélica, uma música cheia de candências, o peso é deixado de
lado, uma sonoridade ácida, lisérgica, resquícios dos áureos momentos do flower
power, mas um tanto quanto indulgente e arrogante.
"Carlt"
“Parchman Farm”, o clássico
do blues, de Mose Allison, também está no line up e que foi gravado por muita
gente do rock, como o Cactus, por exemplo. Na versão do Cinderella entrega um
blues mesclado a um rockabilly, algo bem dançante e solar. Ótima versão!
"Parchman Farm"
“Sexbombe”
já entrega de cara solos de guitarra arrasadores com uma bateria carregada de
jazz, soa um pouco comercial, mas de grande qualidade. “Fire”, o clássico
eternizado na voz de Jimi Hendrix, e que faz jus ao nome, quente, sedutora e
poderosa! O Cinderella não trouxe novos arranjos, novidades, sendo fiel a
original, mas a executando com precisão e qualidade.
"Fire"
“Ana-T-Nas” começa ao
estilo Cream, um proto metal, um heavy metal de vanguarda, já esmurrando a
porta com bateria pesada, baixo pulsante e alto, solos distorcidos de guitarra,
um verdadeiro arrasa quarteirão. A cozinha arrasa nesta faixa! Baixo e bateria
em uma sinergia incrível!
"Ana-T-Nas"
“Mr. Wild” fecha o disco, curto, com pouco mais de trinta
minutos, com um solo de guitarra ao estilo surf music inaugurando a faixa, a
sensação é de ser levado gentilmente pelas ondas calmas, com o vocal finalmente
revelando seu valor. Parece outra banda, dada a versatilidade personificada nessa faixa que finaliza, com chave de ouro, essa pérola sonora.
"Mr. Wild"
Um álbum excelente e que graças ao acaso ganhou a luz,
nasceu para o mundo há 30 anos atrás. Em 1971 um segundo álbum fora gravado na
cidade de Copenhague com Pete Quaife como produtor.
"Udkoksning I Tre Satser" (2006)
Este material permaneceu
inédito na época e finalmente também viu a luz, mas apenas em 2006, e que você pode fazer o download neste link. Isso se deve a
gravadora Karma Music em uma espécie de compilação, com as faixas originais de
1970 com algumas versões de músicas ao vivo recebendo o nome de “Udkoksning I Tre Satser”.Outro registro essencial que vale a
audição.
Bandas obscuras, esquecidas, relegadas a própria sorte... Deem o nome que quiserem, mas o que poderia se taxado de fracasso no passado, hoje, ao ouvirmos, nos arrepiamos e chegamos a acalentadora constatação de que bandas como o Cinderella deixaram uma marca indelével para a história da música pesada em todos os tempos. Uma referência! Uma pérola perdida e altamente recomendada!
Vamos sair do eixo Estados
Unidos e Inglaterra. Esse eixo, confesso, incomoda um pouco. O rock não pode e
nem deve ser oligopolizado, restrito, como se fosse um clube seleto, a poucos
países. Deve ser encarado, visto globalmente.
Independente de ser uma questão
estratégica, mercadologicamente falando ou ainda uma questão quantitativa, ou seja,
esteja concentrada a maioria das grandes e consagradas bandas nesses países,
torna-se urgente um garimpo de cada um de nós, apreciadores do estilo, por
outros países, afinal há muito a se explorar, é um universo a ser explorado ainda.
E a banda de hoje veio da Espanha, a terra do flamenco. E vem como, desculpe a analogia
infame, como uma tempestade. Um hard rock avassalador, destruidor. Embora sejam
adjetivos meio clichês, são condizentes com a mais pura e genuína realidade.
Falo do THE STORM, que, na tradução livre, significa "tempestade", em inglês. A banda foi formada na cidade de Sevilha, em 1969, pelos jovens
irmãos Angel e Diego Ruiz, guitarra e vocal e bateria e vocal, respectivamente,
juntamente com Luis Genil nos teclados e vocais e José Torres no baixo e vocal.
The Storm
Na transição das décadas de 1960 para a de 1970, as bandas progressivas, como
Smash, Triana e Medina Azahara dominavam a cena musical espanhola, mas o The
Storm que, nos primórdios se chamava “Los Tormentos”, nome dados aos garotos
Angel, Diego e José, quando ainda estavam na escola, começaram a tocar covers
de Beatles, Jimi Hendrix, Cream e Guess Who, mostrando uma veia mais pesada que
estava nascendo, se consolidando quando descobriram o Deep Purple,
estabelecendo entre si que tocariam, em definitivo, hard rock.
Eles, com essa
decisão, estavam traçando um capítulo histórico no rock espanhol como uma das
pioneiras bandas de rock pesado daquele país. Mas os tempos eram difíceis. A
falta de estrutura e pouco apoio eram evidentes e a precariedade os acompanhava
em seus primeiros shows.
A cena local, de Sevilha, estava em baixa, as bandas
estavam se desfazendo pelos problemas de dinheiro e de infraestrutura. Mas o
Los Tormentos decide seguir, a base de muitos sacrifícios. Fizeram alguns shows
em uma discoteca em Torremolinos chamada “Barbarella” e agradaram. Eles são
contratados para tocar em outro lugar, em Palma de Mallorca, mas o gerente do
local não gostou muito do nome, dizendo que soava meio flamenco.
Então sugere
que mudem seu nome para “The Storm”, a versão inglesa para “Los Tormentos”,
afinal soa mais forte e é em inglês, quem sabe poderiam alçar voos mais altos,
como o mercado internacional, viajar para outros países.
Parece que o nome deu
alguma sorte, diante de um cenário musical que desmoronava em Sevilha, quando
conhecem um empresário de entretenimento de León, chamado Luis Fernández de
Córdoba, assumindo a condição de gerente da banda, trazendo uma luz no fim do túnel
para os garotos do The Storm.
Em 1974 lançam, pela BASF, seu álbum de estreia, “The
Storm”, um misto explosivo de hard rock com pitadas generosas de teclados
alucinantes, um álbum repleto de vivacidade e energia. A formação da banda que
gravou “The Storm” tinha: Luis Genil nos teclados e vocais, Angel Ruiz na
guitarra e vocal, Diego Ruiz na bateria e vocal, José Torres no baixo.
O álbum já começa esmurrando
a porta com ”I've Gotta Tell You Mama”, um petardo animado e solar com riffs
pegajosos e pesados, com bateria marcada e forte, com teclados em frenesi,
diria uma pegada meio década de 1950, bem dançante.
"I've Gotta Tell You Mama" (Live)
“I Am Busy” já entrega
aquele típico riff introdutório de guitarra, um proto metal que se mistura ao
teclado tocado a notas altíssimas com
vocais melódicos e rasgados, ao mesmo tempo, um senhor hardão setentista na sua
mais perfeita concepção.
“Un Señor llamado Fernández de Córdoba”, em uma clara
homenagem ao seu empresário, tem a predominância dos teclados trazendo uma
atmosfera mais progressiva, com um riff de guitarra mais “funkeado” que ganha
mais peso com um solo lindo de guitarra.
"Un Senor llamado Fernández de Córdoba", live track in Studio, 1974-1975
“Woman Mine” começa
cadenciada, bateria marcada, com solos lembrando Ian Paice do Deep Purple, riff
de guitarra dando peso, um vocal rouco, mas escamba para o já característico
hardão que abrilhanta o álbum. “It's All Right” traz o blues rock com uma cara
meio comercial, um som mais acessível, com excelente trabalho vocal.
"It's All Right", Live at Sevilha Television Local
“I Don't Know” me remete a
um punk rock meio raivoso no início, mas que se mescla ao peso do hard rock,
com passagens excelentes de teclado, dando uma camada mais “soft” a música.
"I Don't Know", live 1974-1975
“Crazy Machine” sem sombra
de dúvida é uma das melhores faixas do álbum. Bateria ao extremo, guitarras
distorcidas, solos avassaladores, baixo pulsante, viradas rítmicas invejáveis, uma
pegada jazzística...É o ápice do heavy prog!
"Crazy Machine", Live 1974-1975
E o álbum dá adeus com a “Experiencia
Sin Órgano” seguindo na mesma proposta, um primor do poderio bélico instrumental,
bateria cheia de virada, riffs de guitarra em profusão, baixão pesado,
inacreditável! Uma loucura sonora.
The Storm lançaria outro álbum em 1979
chamado “El Dia De La Tormenta”, mas bem diferente do hard rock intenso do
debut, carregando uma proposta mais comercial e radiofônica, com algumas
pitadas de prog rock.
"El Dia de la Tormenta" (1979)
A banda finalizaria as suas atividades nesse mesmo ano,
logo após o lançamento do álbum. Porém, depois de algum tempo em hibernação a banda retorna e atualmente continua destilando sua potência sonora nos palcos de onde não deveria ter saído nunca. O The Storm definitivamente se tornou uma das mais importantes bandas espanholas de hard rock,
sendo uma desbravadora do estilo em seu país. Pérola recomendada!
O EMBRYO é uma das mais
importantes bandas do rock alemão. Talvez seja um sacrilégio dizer isso,
levando-se em conta o domínio global do Scorpions que representa, claro, com
dignidade e qualidade o nome do rock n’ roll germânico a todos os cantos do
planeta, mas o Embryo acompanhou, vivenciou e foi referência em todas as cenas
que as gerações e a juventude alemã, ávidas por mudanças, sendo militante em
todas elas, atuante mesmo.
Ajudou, em seu obscuro silêncio, sem holofotes, a edifica-las,
cada uma delas, sendo uma espécie de camaleão, ajustando-se às tendências
musicais, ao longo do tempo, sendo pioneira, sendo a pedra fundamental,
juntamente com bandas do naipe do Can, Amon Duul II, Xhol Caravan, entre outras,
do krautrock, ditando não só pioneirismo em uma música experimental, arrojada,
que dava um tapa na cara da sociedade conservadora alemã, mas sendo
protagonista de um movimento contra cultural na Alemanha pós guerra, ainda
perdida em escombros comportamentais, sem identidade cultural.
O Embryo foi fundado em 1969, na cidade de Munique, por Christian Burchard e Edgar Hoffman em 1969. Burchard passou a sua juventude em Hof, onde seu melhor amigo na escola era Dieter Serfas, isso em 1956. Na época se divertiam muito tocando "música grátis", como jazz, rhythm & blues, mas também era influenciados por música contemporânea.
Em Hof tinham muitos americanos, soldados dos Estados Unidos, porque a cidade ficava perto da fronteira com a Alemanha Oriental e a Tchecoslováquia, e não era um exército profissional então se arriscavam como músicos, especialmente negros e que tocaram com Serfas e Burchard. Inclusive tiveram um baixista de Nova Iorque que sabia improvisar todas as músicas de Chuck Jackson. Também tinha uma banda local que tocava jazz que deu um vibrafone a Burchard que apenas se aventurava nom piano. O "embrião" estava ali.
Em 1964 Dieter Serfas, Edgar Hofmann e Christian Burchard formaram um trio de música contemporânea que ganhou alguma notoriedade, porém nada gravou oficialmente, mas em 1966 Burchard conheceu Chris Karrer e Peter Leopold que viriam a fundar Amon Duul e fez alguns vibrafones no primeiro álbum da até então nova formação da banda, o Amon Duul II, "Phallus Dei", de 1969.
Amon Duul II - "Phallus Dei" (1969)
Mas Burchard, desde 1967, fazia parte de uma banda chamada Mas Waldron Quartet e algumas gravações feitas com a banda foi aproveitada e lançada como uma obra do Embryo no álbum "For Eva". Muito mais importante que essa movimentação, talvez comercial, foi a influência essencial que Burchard carregou consigo, bem como a sua passagem pelo Amon Duul II. Foi principalmente com o Amon Duul II que Burchard explorou a música experimental e psicodélica, porém queriam fazer de forma diferente, explorando improvisações com novas estruturas rítmicas e harmônicas.
As primeiras seções do que viria a ser o Embryo tiveram músicos de diferentes cenas como Peter Michael Hamel (Mais tarde ele formaria a banda Between), que estava se comunicando com John Cage, Steve Reich e a cena musical contemporânea. Hofmann conhecia toda a cena free jazz ou John Kelly, oriundo da cena rock inglesa, porque ele havia tocado com Alvin Lee, do Ten Years After, em uma banda chamada Manchester United. E como Dieter Serfas era membro efetivo do Amon Duul II, Burchard tinha que tocar bateria, porque todos os músicos que escolhiam eram muito parecidos com o estilo do Amon Duul II.
E assim nascia o Embryo. Claro que chocou essa mistura extremamente improvável, mas a banda no início teve um apoio dos jovens estudantes e quando rolava alguma manifestação, por exemplo, o Embryo era sempre chamado para tocar.
Embryo em 1970
O Embryo flertou
em várias vertentes que ia do já conhecido krautrock, como jazz rock, rock
psicodélico, classic rock, música étnica, adicionando tais elementos a sua
música, avant garde etc. Foi descrita por muitos especialistas e críticos como “a
mais eclética das bandas de krautrock”. Foi fundada na cidade de Munique em
1967, pelos multi instrumentistas Christian Burchard (bateria, vibrafone,
santur e teclado) e Edgar Hoffmann (saxofone, flauta e violino).
Um indício do
ecletismo da banda é o número de músicos que por ela passou. Estipula-se que
pelo Embryo passaram mais de 400 músicos ao longo de mais de 50 anos de história!
E a prova contundente dessa “inquietude sonora”, desse poço sem fundo de
criatividade, é claro, está na sua discografia, mas nada sintetizou tanto essa
característica marcante do Embryo do que um registro ao vivo que não fez tanto
alarde e que seria tão somente apenas uma apresentação ao vivo da banda, mas é
algo que eu descreveria como avassalador, um verdadeiro arrasa quarteirão, algo
surpreendente para até então discografia curta, mas já bem delineada no que
tange ao estilo, no longínquo ano de 1971.
Embryo em 1971
Foi uma apresentação no ginásio da
escola Leibnizplatz para o programa de rádio de Bremen e que foi transmitida na
série “Jazz Live” e que se chamou “Live Bremen”, de 1971 e que promovia o
lançamento do terceiro álbum de estúdio da banda, o “Embryo’s Rache”, também de
1971. A Rádio Bremen gravou tudo e disponibilizou as fitas máster para o
emblemático e alternativo selo “Garden of Delights” originando este excelente
álbum.
A formação do Embryo neste registro ao vivo contava com: Hansi Fischer na
flauta, Christian Burchard na bateria, percussão e vocal, Al Jones na guitarra
e vocal, Edgar Hofmann no saxofone e Ralph Fischer no baixo.
“Live Bremen” conta com uma
seção de improvisações jazzísticas, com muito experimentalismo e rock psych,
mas que conta também com um incrível e avassalador hard rock, com muito peso e
diria até agressividade instrumental, é definitivamente de tirar o fôlego!
Então vamos, sem mais
delongas às faixas. A primeira é “Try To Be” que começa com um timbre de baixo
forte e bem pesadão e que segue com um solo frenético e lindo de violino e a
bateria dando o tom pesado e agressivo da música com um belo trabalho vocal,
além da flauta, frenética e aguda.
"Try to Be" - Live Bremen (1971)
“You Can´t Wait - Evas Nuvola” continua, no
mesmo ritmo, com as improvisações e aquela sensação nítida de liberdade
criativa e o saxofone come solto num frenesi sonoro impressionante, com a
bateria, pesada, em uma levada meio jazzística e o baixo seguindo em uma
sinergia incrível, se juntando a flauta em uma apoteose sonora.
"You Can't Wait - Evas Nuvola" - Live Bremen (1971)
“Tausendfüssler”
tem o destaque da flauta e uma poderosa linha de baixo arrasa quarteirão, tão
pulsante que parece que o coração segue o mesmo ritmo, a mesma batida, um
groove louco, se juntando a essa loucura experimental vem o saxofone novamente,
excelente faixa!
"Tausendfussler" - Live in Bremen (1971)
“Spain Yes, Franco Finished”
fecha o show com seus potentes e vastos 26 minutos de duração. Como o título
sugere, o Embryo presta uma homenagem a tradição musical espanhola, atacando ferozmente
a sua situação política. Como consequência disso, a banda não pôde tocar na
Espanha durante muito tempo.
"Spain Yes, Franco Finished" - Live Bremen (1971)
"Live Bremen" apesar de ter sido gravado em 1971 foi lançado apenas em 2003 graças ao abnegado trabalho de garimpo e recuperação do selo "Garden of Delights" e trouxe um Embryo arrojado, irreverente, pesado, mas com muita improvisação, uma marca indelével da banda desde sempre.
Um "time" da pesada, com instrumental poderoso, envolvente, intenso, que disparam baterias cadenciadas, pesadas, jazzísticas, com baixo pulsante, igualmente pesadão, com riffs indulgentes de guitarra, com solos avassaladores, vocais altos e até mesmo gritados em alguns momentos, enfim, uma verdadeira hecatombe sonora!
O poder se fez presente em Bremen em 1971, um furacão sonoro que varreu tudo que pôde, uma banda que esteve a frente de seu tempo, que não se revelou dessa forma ao longo de sua posterior discografia. Que seção rítmica! Uma loucura! Então vale e muito a pena se deixar levar por essa potência, por essa viagem sonora!
Não se enganem o Brasil não
é somente a terra do samba, da mulata e futebol. Aqui também tem rock n’ roll e
de deixar os gringos de queixo caído sim! Pena que, apesar de produzir grandes
bandas, não conta com uma sólida base de suporte, sobretudo por parte da mídia
de massa e da indústria fonográfica para que as mesmas tenham a projeção
necessária para disseminarem as suas obras, a sua música.
Historicamente o rock
progressivo, por exemplo, sempre sofreu com esse vilipêndio por parte das
gravadoras e dos grandes veículos de comunicação, sofrendo com precárias
estruturas na produção de seus álbuns, logísticas perigosas para se deslocar de
cidade em cidade para realizar shows, quando tem, sendo relegada a condição de
banda obscura, esquecida, marginalizada por quem deveria dar o apoio.
Mas ainda
há alguns bravos abnegados que disseminam as histórias dessas bandas, os fãs e
apreciadores da boa música, somando aos hercúleos esforços dos músicos que,
além de fazer o seu papel de tocar seus instrumentos, acumulam funções de
empresário, roadies, de marketing e tantas outras atribuições.
Fazer rock
progressivo no Brasil é uma aventura difícil, árdua e que requer paciência e
muito amor pela música, pelo conceito, afinal, uma música intrincada, complexa
em um país como o nosso, que privilegia a música pasteurizada e perecível,
claro que o velho prog rock ficaria em quinto plano.
Mas, como disse, há aqueles
incansáveis que insistem, que perseveram e gravam alguns álbuns e conseguem,
com muito custo, construir uma história, outros somem, desparecem pelo caminho,
lançam um ou dois álbuns e não vingam e temos um exemplo de uma banda fundada
na cidade de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, que gravou apenas um álbum e
sumiu do mapa, pouco se sabe sobre os seus integrantes.
Falo da banda LOCH NESS que lançou o seu “Prologue”, em 1991 pelo pequeno selo Som Interior Produções
Artísticas, localizado na histórica cidade de Petrópolis em edição única, em
disco de vinil, em uma limitadíssima quantidade de 1.000 cópias, sendo um
artigo raro para colecionadores. Cabe ressaltar, como curiosidade e fato histórico que o álbum foi produzido e concebido, em sua arte gráfica, pelo fotógrafo e agitador cultural da cena progressiva do Rio de Janeiro, Carlos Vaz Ferreira.
“Prologue” foi gravado no Sonoviso Estúdio, no
Rio de Janeiro, entre 19 de janeiro e 6 de julho de 1988. O nome da banda foi
retirado do folclore escocês referente ao mítico monstro (uma espécie de dragão
marinho ou criatura pré histórica) que habitava o lago lock ness, na região de
Highland, na Escócia.
A banda era formada por: Roberto
Reese na guitarra e vocal, Alexandre "Caph" no piano de cauda, órgão
Hammond, sintetizadores e vocais, Claudio Cotia Barreto no baixo e Ailton Sgon na
bateria e percussão.
“Prologue” é basicamente um álbum de rock progressivo
sinfônico com fortes influências do Pink Floyd, Triumvirat, com muita
vivacidade, dramaticidade e dinamismo e que de fato merece atenção e audiência
dos apreciadores do estilo.
O álbum, todo cantado em inglês, é inaugurado com a
faixa “Prologue (The Gipsy Gull)” com predominância dos sintetizadores, das
teclas de Alexandre Caph, a evidência do progressivo sinfônico é grande, com passagens
viajantes lembrando um space rock ao estilo da banda alemã Eloy.
"Prologue (The Gipsy Gull)"
A faixa instrumental “Hallowe'em”
segue a mesma proposta, sinfônica e viajante, a banda entrega bons arranjos,
apesar de ser uma música curta. “The Third Eye” tem uma forte influência do
Pink Floyd setentista, com uma pegada mais hard rock com bons riffs de guitarra
que irrompe em um competente solo e alternâncias rítmicas de tirar o fôlego.
"The Third Eye"
“To
Breathe One's Last” começa com uma linda "batalha" entre o piano e a guitarra,
uma perfeita sinergia entre a leveza, a delicadeza e a aspereza da guitarra e,
assim a música segue com contornos mais pesados e leves com o vocal dramático e
limpo que dá o tom a canção.
"To Breathe One's Last"
“Satan's Ville” é uma epopeia sonora que, no auge
de seus quase 14 minutos, é dividida em 4 episódios: “The Ens (Instrumental)”, “Delirium
Tremens”, “The Entity” e “Vanishing Point (Instrumental)”, sendo que o terceiro
episódio, “The Entity” é dedicado ao David Gilmour, guitarrista e vocalista do
Pink Floyd. Um grande e genuíno exemplo de faixa com riquezas instrumentais
calcadas no rock progressivo sinfônico, uma música solar, agradável com pitadas
generosas de hard rock.
"Satan's Ville Parte 1"
"Satan's Ville Parte 2"
E fecha com “Death”, que inicia pesada, com avassalador
solo de guitarra com uma “cozinha” afiada, bateria marcada e pesada e o baixo
pulsante e alto, com passagens jazzísticas, fechando com chave de ouro.
"Death"
“Prologue”
não conta com uma qualidade especial no tocante ao seu processo de gravação,
resultado do pouco apoio e das estruturas precárias da época, mas a banda soube
imprimir, de maneira indelével, o seu DNA sonoro, se tornando uma peça rara e
essencial para o rock progressivo brasileiro que é cultuado pelos amantes da
música progressiva espalhada pelo mundo. Atualmente esse álbum está fora de
catálogo e ainda não possui lançamento oficial no formato digital. Que possamos
dar luz ao rock obscuro do grande Loch Ness. Segue link para download do álbum do Loch Ness, "Prologue". Não é necessário senha: Lock Ness - "Prologue" (1991)