sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Cadenas - Niño Solitario/Rock para Janis (1973)

 

Como apenas duas músicas conseguiram ser responsáveis para a construção de uma cena musical inteira em um país? Um single, mesmo que sem alarde, trouxe o pioneirismo para a música pesada da Argentina, um país latino americano que respirava e ainda respira o rock n’ roll com tamanha passionalidade!

Essa foi a banda, formada em Rosario, em 1972, chamada CADENAS. Apesar da banda não gozar de tamanha fama na Argentina, ostenta, nos dias de hoje, o status de banda cult, sendo considerada uma das primeiras bandas de hard rock da história daquele país, juntamente com outra, mais emblemática e famosa, o El Reloj.

O Cadenas tocou ao lado de grandes bandas, como Pappo’s Blues, Pescado Rabioso, entre tantas outras. Apesar de não atingir êxito comercial fizeram parte da lendária programação do B.A. Rock Festival, em 1972. O B.A. Rock Festival foi um festival ao ar livre, que tentou emular o Woodstock, mas sem aqueles grandes artistas e bandas.

O Cadenas fez parte da edição de 1972. A banda tocou com grandes bandas argentinas de hard rock como Color Humano, Pappo’s Blues, La Pesada, Piel de Pueblo e muitas outras. Revistas famosas, que cobriram o festival, deram algum destaque ao Cadenas, considerando-a como uma das pioneiras do hard e heavy rock.

Mas também tocou para pequenos públicos e em lugares bem modestos, afinal, era uma banda nova e que trafegava no underground, realizando, inclusive shows auto organizados e se encontraram com outras bandas clássicas e importantes da cena pesada argentina, como Beethoven de Orion e Materia Gris.

Cadenas no B.A, Festival, em 1972

O Cadenas foi produto de sua época e foi, claro, influenciada pelas famosas e globais bandas que eram referência na psicodelia e no peso do hard rock, ainda embrionário, como Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Cream, Black Sabbath, Deep Purple etc. Mas trazia um DNA próprio cantando em seu idioma, cantando em espanhol, trazendo peculiaridades que só o rock argentino é capaz de oferecer.

Como disse, o Cadenas foi formado, em 1972, em Rosario, mas estabeleceu-se em Buenos Aires, como muitas bandas que aspiravam sucesso e reconhecimento. Não seria a primeira vez que uma banda do interior, como o Cadenas, iria para Buenos Aires com a intenção de desenvolver seu trabalho na cidade grande. Como a banda Los Gatos, que conseguiu triunfar (vieram da cidade de Santa Fé), várias outras bandas tentaram imitar, pelo menos, a rota pioneira de bandas como Cadenas e Los Gatos.

E a banda, formada por Juan Carlos Tubaro e o icônico baixista Alberto Arbizu, que tocaria baixo no Pappo’s Blues, construiu, edificou a sonoridade pesada do Cadenas. Mas devido a vários desentendimentos dentro da banda fizeram com que Arbizu e Tubaro deixassem o Cadenas.

Mas antes desse desentendimento um produtor havia convidado José Luis Colzani e o guitarrista Marcelo Requena para fazer parte da banda, o que de fato viria a acontecer, mas não chegaram a tocar juntos com Alberto Arbizu e Juan Carlos Tubaro, exatamente por conta dessa série de desentendimentos que motivou a saída desses últimos músicos.

Osvaldo Vitale era amigo de Juan Carlos e Vitale quem convidou Colzani para se juntar à banda, faciltando tabém, claro, a entrada de Juan Carlos Tubaro para o Cadenas. A banda estava procurando outro guitarrista e foi aí que Requena entrou para a banda, até porque Colzani era amigo de Marcelo Requena, o que facilitou e muito a sua entrada.

Foi com essa formação que o Cadenas gravaria o seu single, de 1973, que trariam as músicas: “Rock para Janis” e “Niño Solitario”. Osvaldo tinha contatos com algumas pessoas que trabalhavam no selo Microfon, então ele conseguiu uma entrevista com eles para a banda, que decidiram dar a tão esperada oportunidade para o Cadenas de gravar o single. Foram cerca de 500 cópias prensadas que foram distribuídas em algumas rádios, para promover as músicas, entre alguns mais ardorosos fãs e amigos próximos da banda. As gravações foram realizadas nos famosos estúdios ION, em Buenos Aires.

“Rock para Janis” e “Niño Solitario” foram compostas por Arbizu e Juan Carlos, mas quando Colzani e Requena entraram para o Cadenas deram um toque próprio às faixas com arranjos e solos, dando o “tempero” mais pesado. Foram gravadas em apenas uma tomada, adicionando a voz de Arbizu em uma segunda tomada. Foi gravado em um carretel de oito faixas.

“Rock para Janis” começa com um riff de guitarra pesado e grudento e logo explode com uma bateria que parece levitar, batida dura e pesada, com um vocal alto, potente, quase gritado, mas com algo melódico que me remete ao heavy metal dos anos 1980. A seção rítmica precisa ser enaltecida nessa faixa, o baixo tem um groove invejável. Aqui é uma música de banda, onde todos se destacam. Heavy rock, hard rock e proto metal são o tripé fundamental, com a psicodelia dando o toque, a cereja do bolo.

"Rock para Janis"

“Niño Solitario” começa mais cadenciada, mais arrastada, porém o peso continua lá! Riffs sujos de guitarra, bateria pesada, com batidas que soam como um trovão, baixo galopante e o vocal orquestrando tudo isso corroborando o peso, entregando o suprassumo do hard rock, com gritos e um alcance vocal invejável. Solos de guitarras incríveis e arrebatadores encaminham a música para um final catártico.

"Niño Solitario"

Infelizmente essa é a única, pelo que se tem notícia, a única gravação da banda lançada, digamos, de forma oficial, porque a ligação da banda com a Microfon acabou, devido algumas divergências entre seus gerentes, e nenhuma outra gravadora estava interessada no Cadenas naquela época. E a banda tinha músicas suficientes para um álbum, mas o contrato com o selo havia acabado. Quem sabe esse material vem à tona e ganhe luz algum dia. Talvez seja sonhar demais?

Quase cinquenta anos depois do lançamento do single de 1973, a Yunque Records faria um trabalho incrível com a reedição em vinil. Foi um esforço comunal do selo trazendo à tona esse material, esquecido no tempo, para novas audições. Triste Alberto Arbizu e Juan Carlos Tubaro não ter visto esse relançamento, pois faleceram, mas certamente ficariam muito felizes com esse momento de redescoberta do Cadenas para novos públicos que, graças ao advento das redes sociais, catapultaram a sonoridade da banda para o máximo de interessados possível.

É como se o passado apresentasse ao futuro os pequenos feitos do Cadenas, trazendo à memória avassaladores shows que fizeram no Teatro Olimpia, em Buenos Aires ou apresentações memoráveis no Teatro Astral, onde muitas bandas importantes da Argentina se apresentaram, e também no Teatro El Circuito de Rosario, em Santa Fé. É como se essas músicas executadas nesses espaços ganhassem novos fôlegos com um novo público ávido pelas sombras do obscuro.







A banda:

José Luis Colzani

Marcelo Requena (Guitarra)

Alberto Arbizu (Baixo)

Juan Carlos Tubaro

 

Faixas:

1 - Rock para Janis

2 - Niño Solitario



"Niño Solitario/Rock para Janis" (1973)