Como apenas duas músicas
conseguiram ser responsáveis para a construção de uma cena musical inteira em
um país? Um single, mesmo que sem alarde, trouxe o pioneirismo para a música
pesada da Argentina, um país latino americano que respirava e ainda respira o
rock n’ roll com tamanha passionalidade!
Essa foi a banda, formada em
Rosario, em 1972, chamada CADENAS. Apesar da banda não gozar de tamanha fama na
Argentina, ostenta, nos dias de hoje, o status de banda cult, sendo considerada
uma das primeiras bandas de hard rock da história daquele país, juntamente com
outra, mais emblemática e famosa, o El Reloj.
O Cadenas tocou ao lado de
grandes bandas, como Pappo’s Blues, Pescado Rabioso, entre tantas outras.
Apesar de não atingir êxito comercial fizeram parte da lendária programação do
B.A. Rock Festival, em 1972. O B.A. Rock Festival foi um festival ao ar livre,
que tentou emular o Woodstock, mas sem aqueles grandes artistas e bandas.
O Cadenas fez parte da edição
de 1972. A banda tocou com grandes bandas argentinas de hard rock como Color
Humano, Pappo’s Blues, La Pesada, Piel de Pueblo e muitas outras. Revistas
famosas, que cobriram o festival, deram algum destaque ao Cadenas,
considerando-a como uma das pioneiras do hard e heavy rock.
Mas também tocou para pequenos
públicos e em lugares bem modestos, afinal, era uma banda nova e que trafegava
no underground, realizando, inclusive shows auto organizados e se encontraram
com outras bandas clássicas e importantes da cena pesada argentina, como Beethoven
de Orion e Materia Gris.
O Cadenas foi produto de sua
época e foi, claro, influenciada pelas famosas e globais bandas que eram
referência na psicodelia e no peso do hard rock, ainda embrionário, como Jimi
Hendrix, Led Zeppelin, Cream, Black Sabbath, Deep Purple etc. Mas trazia um DNA
próprio cantando em seu idioma, cantando em espanhol, trazendo peculiaridades
que só o rock argentino é capaz de oferecer.
Como disse, o Cadenas foi
formado, em 1972, em Rosario, mas estabeleceu-se em Buenos Aires, como muitas
bandas que aspiravam sucesso e reconhecimento. Não seria a primeira vez que uma
banda do interior, como o Cadenas, iria para Buenos Aires com a intenção de
desenvolver seu trabalho na cidade grande. Como a banda Los Gatos, que
conseguiu triunfar (vieram da cidade de Santa Fé), várias outras bandas
tentaram imitar, pelo menos, a rota pioneira de bandas como Cadenas e Los
Gatos.
E a banda, formada por Juan
Carlos Tubaro e o icônico baixista Alberto Arbizu, que tocaria baixo no Pappo’s
Blues, construiu, edificou a sonoridade pesada do Cadenas. Mas devido a vários
desentendimentos dentro da banda fizeram com que Arbizu e Tubaro deixassem o
Cadenas.
Mas antes desse desentendimento um produtor havia convidado José Luis Colzani e o guitarrista Marcelo Requena para fazer parte da banda, o que de fato viria a acontecer, mas não chegaram a tocar juntos com Alberto Arbizu e Juan Carlos Tubaro, exatamente por conta dessa série de desentendimentos que motivou a saída desses últimos músicos.
Osvaldo Vitale era amigo de
Juan Carlos e Vitale quem convidou Colzani para se juntar à banda, faciltando
tabém, claro, a entrada de Juan Carlos Tubaro para o Cadenas. A banda estava
procurando outro guitarrista e foi aí que Requena entrou para a banda, até
porque Colzani era amigo de Marcelo Requena, o que facilitou e muito a sua
entrada.
Foi com essa formação que o Cadenas gravaria o seu single, de 1973, que trariam as músicas: “Rock para Janis” e “Niño Solitario”. Osvaldo tinha contatos com algumas pessoas que trabalhavam no selo Microfon, então ele conseguiu uma entrevista com eles para a banda, que decidiram dar a tão esperada oportunidade para o Cadenas de gravar o single. Foram cerca de 500 cópias prensadas que foram distribuídas em algumas rádios, para promover as músicas, entre alguns mais ardorosos fãs e amigos próximos da banda. As gravações foram realizadas nos famosos estúdios ION, em Buenos Aires.
“Rock para Janis” e “Niño
Solitario” foram compostas por Arbizu e Juan Carlos, mas quando Colzani e
Requena entraram para o Cadenas deram um toque próprio às faixas com arranjos e
solos, dando o “tempero” mais pesado. Foram gravadas em apenas uma tomada,
adicionando a voz de Arbizu em uma segunda tomada. Foi gravado em um carretel
de oito faixas.
“Rock para Janis” começa com
um riff de guitarra pesado e grudento e logo explode com uma bateria que parece
levitar, batida dura e pesada, com um vocal alto, potente, quase gritado, mas
com algo melódico que me remete ao heavy metal dos anos 1980. A seção rítmica
precisa ser enaltecida nessa faixa, o baixo tem um groove invejável. Aqui é uma
música de banda, onde todos se destacam. Heavy rock, hard rock e proto metal
são o tripé fundamental, com a psicodelia dando o toque, a cereja do bolo.
“Niño Solitario” começa mais
cadenciada, mais arrastada, porém o peso continua lá! Riffs sujos de guitarra,
bateria pesada, com batidas que soam como um trovão, baixo galopante e o vocal
orquestrando tudo isso corroborando o peso, entregando o suprassumo do hard
rock, com gritos e um alcance vocal invejável. Solos de guitarras incríveis e
arrebatadores encaminham a música para um final catártico.
Infelizmente essa é a única,
pelo que se tem notícia, a única gravação da banda lançada, digamos, de forma
oficial, porque a ligação da banda com a Microfon acabou, devido algumas
divergências entre seus gerentes, e nenhuma outra gravadora estava interessada
no Cadenas naquela época. E a banda tinha músicas suficientes para um álbum,
mas o contrato com o selo havia acabado. Quem sabe esse material vem à tona e
ganhe luz algum dia. Talvez seja sonhar demais?
Quase cinquenta anos depois do
lançamento do single de 1973, a Yunque Records faria um trabalho incrível com a
reedição em vinil. Foi um esforço comunal do selo trazendo à tona esse
material, esquecido no tempo, para novas audições. Triste Alberto Arbizu e Juan
Carlos Tubaro não ter visto esse relançamento, pois faleceram, mas certamente
ficariam muito felizes com esse momento de redescoberta do Cadenas para novos
públicos que, graças ao advento das redes sociais, catapultaram a sonoridade da
banda para o máximo de interessados possível.
É como se o passado apresentasse ao futuro os pequenos feitos do Cadenas, trazendo à memória avassaladores shows que fizeram no Teatro Olimpia, em Buenos Aires ou apresentações memoráveis no Teatro Astral, onde muitas bandas importantes da Argentina se apresentaram, e também no Teatro El Circuito de Rosario, em Santa Fé. É como se essas músicas executadas nesses espaços ganhassem novos fôlegos com um novo público ávido pelas sombras do obscuro.
A banda:
José Luis Colzani
Marcelo Requena (Guitarra)
Alberto Arbizu (Baixo)
Juan Carlos Tubaro
Faixas:
1 - Rock para Janis
2 - Niño Solitario








