quarta-feira, 27 de maio de 2020

The Devil and the Almighty Blues - The Devil and the Almighty Blues (2015)


Sou um entusiasta dessa nova (nem tanto mais) cena de bandas de stoner rock, doom metal, rock psych que vem crescendo nos últimos 20 anos, desde o início da década de 2000 e ainda mais na segunda década de 2010. 

Vem crescendo tanto que já está saturada e, como costuma acontecer nesses casos algumas bandas se tornam um tanto quanto repetitivas, uma redundância sonora inconveniente, mas ainda assim, formada por bandas, em sua maioria, consistentes e que estão resgatando as origens do rock n’ roll, genuíno, aquele que se faz com o colhão, da forma mais visceral e despretensiosa possível, sem amarras, no seu formato mais marginal, como em tempos gloriosos de outrora. 

Conhecidos como “rock retrô”, talvez de forma pejorativa, pois trazem, além da sonoridade característica da década de 1970, tem um apelo estético muito evidente daquela época. Mas não se enganem, caros amigos leitores, pois apesar de tudo isso, da saturação e tudo mais, ela traz consigo um frescor, um odor de novidade, um toque de contemporâneo, diante de grandes entressafras criativas que costumamos ver e ouvir na cena maisntream. 

Tenho dada a devida atenção a essa cena, a essas bandas que fazem um som orgânico, real, sem máquinas eletrônicas que precisam apenas de botões para emitir sons desconexos para dar o título de músicos a charlatões que pregam uma pseudo revolução da música. 

Mas confesso que quando conheci o THE DEVIL AND THE ALMIGHTY BLUES, uma banda que veio da Noruega, mais precisamente da cidade de Oslo e li as suas influências musicais, tais como: doom metal, hard rock e blues, fiquei relutante e confesso que subestimei os caras. 

The Devil and The Almighty Blues

Afinal, essas referências vem de bandas como Black Sabbath e essa cena está repleta de bandas com influência do Sabbath. Pensei: Ah, mais uma que soa como o Black Sabbath! Dei uma chance e decidi ouvi-la. Uau! Como pude ter tido uma visão tão pré-concebida? 

Uma banda tão vigorosa, arrogantemente poderosa, com uma sonoridade tão crua, direta, mas dotada de tanto virtuosismo, ao mesmo tempo. Pois é, a terra do black metal pode te entregar algo além e de muito peso também e que, claro, traz influências das bandas sujas e pesadas dos anos longínquos da década de 1970, mas com o arrojo de mesclar o hard rock, o blues, o doom metal e o stoner rock, em uma sopa contemporânea, o frescor dos novos tempos com o pé no passado sem soar datado. 

A banda foi formada foi em 2015 e logo neste mesmo ano lançou o álbum, que ouvi e será alvo desta resenha, o homônimo “The Devil and the Almighty Blues” e contava com a seguinte formação: Arnt O. Andersen, nos vocais, Petter Svee e Torgeir W. Engen nas guitarras, Kim Skaug no baixo e Kenneth Simonsen na bateria. 


Um álbum impossível de ficar parado, porque é poderoso e vivaz e que começa soturno, arrastado, com o riff característico do doom metal e um baixo pulsante e marcado de "The Ghosts of Charlie Barracuda", mas que logo irrompe em um hardão alto com vocal gritado e frenético e aquele tempero bluesy para dar o sabor a comida sonora. 

"The Ghosts of Charlie Barracuda", live at Sonic Blast Moledo

“Distance” já começa dando um murro na porta, com um hard rock direto e cru, com solos de guitarra bem elaborados, um som que te remete aos anos 1970. “Storm Coming Down” começa com um riff de guitarra, algo repetitivo, mas os outros instrumentos como o baixo e uma bateria mais marcada e forte vêm sendo adicionada, uma a uma compondo uma sonoridade agressiva e pesada, aqui o doom e o stoner ganham destaque. 

"Distance"

“Root To Root” se apresenta com um doom sujo, com um riff pesadão de guitarra, um contexto instrumental ameaçador e sombrio, com o blues inserido de uma forma dilacerada e inusitadamente homenageado, assim segue a faixa seguinte, “Never Darken my Door”, mais com um pouco de groove, um pouco dançante, animada e cadenciada.

"Root to Root, live at Desertfest, Berlim, 2019

E fecha com “Tired Old Dog” com a característica introdução de um riff pesado e sujo de guitarra e com a apresentação gradativa dos outros instrumentos formando uma camada densa e soturna em uma combinação explosiva entre hard e blues em um duelo salutar em prol da música. 

"Tired Old Dog"

O The Devil and the Almighty Blues, que vem da fria Noruega, apresenta, em seu debut, o calor borbulhante do rock autêntico e sujo, que parece ter minado das profundezas do inferno fazendo jus ao seu nome. Uma pérola bruta mais do que recomendada.





A banda:

Arnt O. Andersen no vocal
Petter Svee na guitarra
Torgeir W. Engen na guitarra
Kim Skaug no baixo
Kenneth Simonsen na bateria


Faixas:

1 - The Ghosts of Charlie Barracuda
2 – Distance
3 - Storm Coming Down
4 - Root to Root
5 - Never Darken My Door
6 - Tired Old Dog




"The Devil and the Almighty Blues" (2015)


Versão do álbum para Bandcamp acesse aqui


Biglietto Per L'Inferno - Live 1974 (2005)


O verdadeiro rock n’ roll é orgânico, a intensidade de uma banda se mensura em um palco, ao vivo, com músicos doando toda a sua capacidade de interação com o público por intermédio de sua música, esta última precisa ser simbiótica com todo este cenário, conspirar a favor, ser um veículo da sinergia entre a banda e o público. Assim o foi no registro de um dos inúmeros shows, apesar de pouco tempo de vida, do Biglietto Per L’Inferno com o seu “Live 1974”. Não há como negligenciar a força, a potência sonora do Biglietto Per L’Inferno e já no seu álbum de estúdio, apesar das “formalidades” de um processo de gravação em estúdio, “homônimo”, do mesmo ano, a banda mostrara suas credenciais. E essa força se deu pela sua, já dita, intensa atividade ao vivo, aliado a proposta hard rock e progressiva da banda, revelando uma combinação explosiva, o que, para a época, meados da década de 1970, era pouco usual, com bandas majoritariamente sinfônicas, melódicas e psicodélicas. 

"Live 1974"

O Biglietto Per L’Inferno, com o seu “Live 1974”, era o oposto: peso, temas de composições densos, atmosfera obscura, todos os aditivos para um show diferente e avassalador para uma época de sofisticação progressiva. Esse show antológico fora gravado na sua cidade natal, Lecco, situada na região da Lombardia e, apesar da baixa qualidade na gravação deste, o que lamentavelmente era a tônica na Itália, não apaga a já presença poderosa do Biglietto Per L’Inferno como um track list que contemplaria as músicas do seu até então primeiro álbum, de 1975 e com uma música nova que entraria no seu segundo trabalho que não seria oficialmente lançado à época que se chamava “Il Tempo Della Semina”. O Biglietto Per L’Inferno já tinha gravado as faixas, com a produção de Eugenio Finardi e ainda tinha um contato forte com o músico Klaus Schulze para impulsionar o seu lançamento caso necessitasse, mas com a falência do selo "Trident", o projeto fora deixado para trás, tendo uma limitada distribuição, em formato de fita cassete, recebendo finalmente, por intermédio da Mellow Records, no ano de 1992, um lançamento oficial com o nome “Il Tempo Della Semina”. O fim da gravadora também ocasionou o fim das atividades da banda, sem total apoio para seguir em frente. A formação do Biglietto Per L’Inferno, no álbum “Live 1974” era: Claudio Canali no vocal e flauta, Giuseppe "Baffo" Banfi  no órgão e moog, Giuseppe Cossa no piano e moog, Marco Mainetti na guitarra, Fausto Brachini no baixo e Mauro Gnecchi  na bateria. 

Biglietto Per L'Inferno

No registro ao vivo não há espaço para muitas improvisações, segue quase que fielmente a estrutura gravada no seu álbum de estúdio, mas revela toda a força e identidade arrasa quarteirão do velho Biglietto. Começa com “Il Tempo Della Semina”, faixa título do álbum que sucederia o debut “Biglietto Per L’Inferno”, de 1974 que fora gravado em 1975, mas somente lançado em 1992. Começa com um poderoso hard rock e um desfile de moogs e teclados e instrumentos de sopro, como o saxofone, entoados de forma caótica, que logo abre caminho para riffs e solos de guitarra que confirmam o peso e agressividade da faixa.

Biglietto Per L'Inferno - Il Tempo Della Semina" (Live 1974

“Ansia’, do primeiro álbum, traz à tona a flauta que alterna em ritmos suaves, lentos e mais agitados, assim seguindo a música, alternando em camadas introspectivas e mais pesadas com o vocal teatral e dramático de Cláudio Canali, um belo progressivo sinfônico com pitadas generosas de hard rock. 

Biglietto Per L'Inferno - "Ansia" (Live 1974)

“Confessione” explode com riffs pegajosos e raivosos do mais puro e genuíno hard rock com solos envolventes de guitarra de Mainetti e um vocal rasgado de Canali, é um petardo sonoro. “Una Strana Regina” começa com um vocal abafado, meio sombrio de Canali, mas que irrompe em explosões de riffs e solos de guitarra de Mainetti que culminam com teclados viajantes e sinfônicos, com a flauta suavizando o caos. 

Biglietto Per L'Inferno - "Confessione" (Live 1974)

“Il Nevare” é o ponto alto do show, ao vivo ela ganhou ainda mais peso, agressividade e vivacidade, uma música orgânica, a camada instrumental garante a sua condição plena de um autêntico hard rock. Fecha com a obscura, sombria “L’Amico Suicida” que, com o vocal cênico de Canali com camadas tenebrosas de teclado interpretam a mensagem da letra e que ao vivo ganhou em sua expansão dramática. Cláudio Canali com seu vocal é o destaque, sem sombra de dúvida. 

Biglietto Per L'Inferno - "Il Nevare" (Live 1974)

O “Live 1974” não fora lançado na época em que a apresentação ocorreu, sendo lançado em uma caixa comemorativa do trigésimo aniversário do primeiro álbum de estúdio, com versões remasterizadas em CD dos dois álbuns oficiais, além, é claro, do “Live de 1974”, além de um DVD contendo vídeos dos músicos e entrevistas e ainda um livro com fotos, letras de músicas e entrevistas. O “Live 1974” também fora lançado separadamente, em 2005, com uma capa mini-LP. Uma curiosidade: Este show do Biglietto Per L’Inferno teve a participação de outra grande banda de hard rock, o UFO, onde na realidade o Biglietto abriu para a banda inglesa. O “Live 1974”, apesar de não ser um registro ao vivo conhecido mundialmente mostra um Biglietto Per L’Inferno no auge de sua força e entrosamento.





A banda:

Claudio Canali no vocal e flauta
Giuseppe "Baffo" Banfi  no órgão e moog
Giuseppe Cossa no piano e moog
Marco Mainetti na guitarra
Fausto Brachini no baixo
Mauro Gnecchi na bateria

Faixas:

1 - Il Tempo Della Semina
2 - Ansia
3 –Confessione
4 - Una Strana Regina
5 - Il Nevare
6 - L’Amico Suicida





segunda-feira, 25 de maio de 2020

Circus 2000 - An Escape From A Box (1972)


A Itália progressiva sempre descortinou grandes surpresas sonoras. Infelizmente algumas bandas não tiveram o devido reconhecimento, sobretudo nos dias de hoje pelo que desbravou no passado, em épocas de experimentação, de riscos em apostar em aquilo que sempre defendeu como algo essencial na sua estrutura musical. 

Bandas como o CIRCUS 2000 esteve na vanguarda da música progressiva na Itália e ajudou a construir uma cena que ainda estava embrionária, em formação, quando ainda muitas das outras bandas que, na década de 1970, se tornariam influentes, estavam nas ondas do beat italiano, uma música, embora em voga entre os jovens descolados italianos, mas que tinha um viés acessível e diria que ingênuo aos ouvidos mais exigentes. 

Circus 2000

O Circus 2000 foi formado em 1969 na cidade de Turim e lançou, pelo selo RiFi, o seu primeiro álbum, homônimo, em 1970, com uma proposta psicodélica, viajante, lisérgica, com pitadas generosas de folk rock. Tinha uma forte influência do psicodélico norte americano com uma camada sonora bem estruturada que também lembrava e muito o hipismo britânico. 

"Circus 2000", de 1970

Não era nada experimental, com aquela sonoridade pouco palatável e minimalista da Alemanha krautrock, era um som limpo, solar, direto, delicado, mas forte no seu direcionamento. Foi uma das poucas bandas, juntamente com o The Trip, que tinham músicos ingleses que se radicaram na Itália, que vislumbraram o pioneirismo, construindo o conceito do que viria a se convencionar rock progressivo, que eclodiria na Itália em 1972, aproximadamente, apesar de o clima político ter sido tempestuoso e violento, não ofertando tantos shows a essas bandas que sofreram, inclusive por se posicionar assumindo seus lados nessa “guerra”. 


O Circus 2000, na sua gênese, na sua cidade natal, Turim, tocava jazz no “Swing Club”, o que definitivamente corroborava na sua, embora jovem caminhada, uma maturidade, de músicos jovens e decididos no que queriam fazer: música avant-garde, era a música italiana em um nível de progressão.

Nessa época a banda era formada pela vocalista Silvana Aliotta, Marcello "Spooky" Quartarone na guitarra, Gianni Bianco no baixo e Roberto Betti na bateria. A banda foi comparada ao Jefferson Airplane da vocalista Grace Slick, dada a sua proposta psicodélica, mas o Circus 2000 gozava de maior talento e precisão nos seus instrumentos, era um som imperioso. 


Uma curiosidade: o lançamento do primeiro álbum da banda, cantado em inglês, não tinha os nomes dos músicos estampados na capa do disco, o que levou muita gente a achar que a banda era americana, tamanha era a novidade dessa música no país da bota. Isso pode ser mensurado e entendido como um capítulo pioneiro no rock italiano sem sombra de dúvida. 

O álbum, como disse, não era de rock progressivo, mas se notava o quão era especial o Circus 2000. Tanto que no seu segundo trabalho chamado “An Escape from a Box”, de 1972, é perceptível uma sonoridade mais complexa, evolutiva, mais elaborada da banda, era o auge do prog rock na Itália. 

Esse será o álbum que falaremos por aqui. Era a prova contundente de que o Circus 2000 não era a banda psicodélica italiana que copiou o que se fazia na América, como se pensava. A banda trouxe um som rico, elaborado, fincado, além do progressivo, como no jazz rock, com generosas doses de hard rock, um álbum, apesar de curto, versátil e dono de muita, mas muita personalidade, mas sem deixar totalmente de lado as suas influências psicodélicas. 


No lugar do baterista original Roberto Betti entra Franco "Dede" Lo Previte “encorpando” ainda mais o som da banda, tendo ainda Silvana nos vocais, Marcello Quartarone na guitarra e vocal e Gianni Bianco no baixo e vocal. O álbum é inaugurado com “Hey Man” que ainda trazia os resquícios do primeiro álbum, com uma pegada meio folk, com lindos dedilhados de guitarra, uma música a se cantar como se fosse um hino, dada a sua a proposta mais comercial, mas sem soar pasteurizada.

"Hey Man" (Live)

“You Aren't Listening” começa com um solo viajante e introspectivo de guitarra com o vocal mais abafado, seguindo a mesma proposta, mas que vai ganhando força, crescendo com viradas lindas de bateria e assim vai se alternando, em uma beleza meticulosamente rítmica. Linda música! 

"You Aren't Listening"

“Our Father” traz a banda mais pesada nesse álbum, com riffs de guitarra mais eloquentes e um vocal, em determinados momentos, mais rasgados, com levadas jazzísticas excelentes. Uma das melhores faixas do álbum, sem dúvida. 

"Our Father"

“Need” é a faixa mais progressiva do álbum, cheia de alternâncias rítmicas, riffs poderosos de guitarra, seguidos de solos mais diretos e competentes. Apoteótica faixa! 

"Need"

O álbum finaliza com “When The Sun Refuses To Shine” com uma viagem psicodélica, meio sombria, experimental diria, mas momentos mais enérgicos protagonizados pela bateria vivaz e altiva. 

"When The Sun Refuses To Shine"

Embora a banda tenha capturado mais atenção neste excelente segundo trabalho, ganhando competições musicais em Roma, como o "Festival d'Avenguardia" e também o "Nuove Tendenze", dividindo a vitória com o Banco del Mutuo Soccorso, não ganhou muitos olhares de interesse. Com um novo baterista, Louis Atzori, o Circus 2000 começou a gravar algumas músicas para um novo álbum, mas o selo queria que fosse mais inspirado no rock e a banda decide se separar. 

As únicas faixas dessas gravações mostrou uma música menos agressiva do que no passado. Então a gravadora RiFi ofereceu a Silvana um contrato solo, como “Silvana dei Circus 2000”, com os próprios músicos do Circus 2000 como banda de apoio, mas não deu certo. 

Aliotta colaborou como cantora e percussionista com alguns artistas italianos mais populares, entre eles Mina, Edoardo Bennato, Adriano Celentano, formando o trio Le Streghe, depois se dedicando à atividade de professora de canto. 

O baterista original, Betti, fundou o pequeno selo Shirak e formou o Living Life com o guitarrista Quartarone. O outro baterista da banda, Franco Lo Previte, tocou com Duello Madre, Nova e Kim & The Cadillacs, falecendo em 2014. 

Uma banda que fez música de vanguarda e que esteve a frente do seu tempo e que não se condicionou ao óbvio e que merece o crédito por seu feito importante para a história do rock progressivo italiano.




A banda:

Silvana Aliotta no vocal e percussão
Marcello Quartarone na guitarra e vocal
Gianni Bianco no baixo e vocal
Franco Lo Previte na bateria



Faixas:

1 - Hey Man
2 - You Aren't Listening
3 - Our Father
4 - Need
5 - When The Sun Refuses To Shine 




"An A Escape From a Box" (1972)


sábado, 23 de maio de 2020

Jumbo - DNA (1972)


Gosto do “inusitado” nas bandas de rock. A década de 1970 foi um “tubo de ensaio” para essas bandas, no tocante a sonoridade, definitivamente desbravadoras de vertentes que hoje dispõe de uma horda de apreciadores espalhados pelo mundo. Essas bandas trabalharam muito para edifica-los. Mas algumas bandas transcendem tal quesito e faz do inusitado seu sustentáculo, sua filosofia para todo sempre. O flerte de vários estilos, os ingredientes que, quando se misturam, explodem em manifestações criativas e músicas, como disse, atípicas, vanguardistas, únicas, por muitas vezes, incompreendidas. Uma dessas bandas, vem da Itália e se chamava Jumbo e o seu segundo álbum de estúdio chamado “DNA”, de 1972, retrata fielmente essa música sem amarras, sem padrões.

Jumbo

E como não podemos deixar de falar de história, o Jumbo foi formado em 1969 na cidade de Milão tendo o vocalista Alvaro Fella, como figura central, tanto que o nome da banda vem de seu apelido, Álvaro “Jumbo” Fella. Fella era baixista de uma banda de pouco nome quando foi notado por produtores de uma gravadora, assinando contrato em 1970. Gravou uma música chamada “Due Righe Da Te” e dois covers. No primeiro single tocou com gente do naipe de Franz Di Cioccio e Flavio Premoli, ainda componentes do Quelli, depois passando a se chamar Premiata Forneria Marconi, e Mario Lavezzi, mais tarde tocando no Il Volo. 

Alvaro "Jumbo" Fella

Já em outra gravadora, de mais renome, a Phillips, gravou em 1971 o primeiro álbum com a ajuda dos músicos que teriam constituído a primeira formação da banda, tais como: Daniele Bianchini na guitarra, Sergio Conte nos teclados e vocais, Dario Guidotti na flauta, violão, gaita e percussão, Vito Balzano na bateria e percussão e o baixista Alberto Agazzi, mas sendo substituído logo por Aldo Gargano. O seu debut, de nome “Jumbo”, lançado em 1972 também, é um belo álbum, muito influenciado pelo blues, um pouco acústica na sua concepção, com muito instrumento de sopro e percussão e o destaque fica com o vocal de Fella, excepcional, potente, de grande alcance, um rosnado ameaçador, sem dúvida um dos melhores vocalistas que eu vi e ouvi até o momento. 

"Jumbo" (Primeiro álbum, de 1972)

Trata-se de um belo álbum, com uma bela produção, mas a grande mudança do Jumbo e a mais significativa, pois levaria como identidade até o fim, seria no álbum “DNA” também de mesmo ano. Mudança essa que se daria devido a um trabalho simbiótico e de grande parceria entre os seus integrantes. É o que disse em uma entrevista que o guitarrista Daniele "Pupo" Bianchini concedeu a um veículo de comunicação na Itália: "Eu diria que uma mudança quase natural: afinal de contas entre o primeiro e o segundo LP passou quase um ano. O tempo que passamos juntos e o trabalho duro feito por todos os membros do grupo criam as condições para se conhecerem melhor. Compreensão e confiança são coisas que precisam de tempo para amadurecer, ele se materializou em um trabalho de grupo cada vez mais unida." 


“DNA” foi realmente uma busca a uma nova identidade, mostrando uma vertente totalmente progressiva da banda, combinando um hard prog, com folk e blues, lembrando e muito o Jethro Tull, mas sem soar plágio, pelo contrário, uma banda que tem no vocal de Alvaro Fella a síntese de obscuridade e experimentalismo viajante do Jumbo. O álbum começa com a suíte de mais de vinte minutos de nome “Suite Per Il Sig. K” que combina um heavy progressivo e um blues rock com referências clássicas, com instrumentais acústicos com piano, violão e flautas para poderosos riffs de guitarra e ótimos vocais de Fella.

Jumbo - suite per il sig K, live 1995

“Miss Rand” segue com aquele "mescla sonora" que entrega um folk prog, com uma curiosa levada country que "destoa" com solos de guitarra que intensifica, encorpa a música.

Jumbo - "Miss Rand"

“È Brutto Sentirsi Vecchi” é uma faixa mais sombria, introspectiva, beirando a viagens experimentais, assinando o nível estratosférico de criatividade desta banda.

Jumbo - "É Brutto Sentirsi Vecchi", live (2017)

“DNA” fecha com a música “Hai Visto...” mostra muita delicadeza, uma bela música acústica depois ficando um pouco mais frenético. “DNA” mostra uma banda amadurecida, o marco zero de sua nova jornada progressiva que infelizmente durou até o término da década de 1970. 

Jumbo - "Hai Visto", live (2017)

O Jumbo merecia uma melhor sorte e ser reconhecido com uma grande banda do celeiro de grandes nomes do rock progressivo italiano, mas hoje é só uma pérola perdida da cena.

A banda:

Alvaro "Jumbo" Fella no vocal e guitarra acústiva
Daniele "Pupo" Bianchini na guitarra
Sergio "Samuel" Conte no órgão e teclados
Dario Guidotti na flauta e guitarra acústica
Aldo Gargano no baixo
Vito "Juarak" Balzano na bateria

Faixas:

1 - Suite Per Il Sig. K
- Sta Accadendo Qualcosa Dentro Me
- Ed Ora Corri
- Dio E'
2 - Miss Rand
3 - E' Brutto Sentirsi Vecchi
4 - Hai Visto...






quinta-feira, 21 de maio de 2020

Atomic Rooster - Live At The Marquee (1980)


O ano era 1973. A banda britânica Atomic Rooster gravava o seu último álbum de estúdio, “Nice ‘n’ Greasy”, que tinha na formação a espinha dorsal da banda e seu único fundador, o tecladista Vincent Crane, e o versátil e grandioso vocalista Chris Farlowe. 

Nesse período, considerada a de ouro da banda, entre 1970 e 1973, o "Galo Atômico" contou com muitas idas e vindas de músicos, um verdadeiro rodízio que, de certa forma, foi interessante para essa curta, mas significativa história discográfica do Atomic Rooster, pois produziu álbuns que flertou do hard rock, prog rock ao soul e blues. 

Porém, nesse período, do lançamento do “Nice ‘n’ Greasy”, a banda estava um tanto quanto cansada, descaracterizada, inclusive este último trabalho, apesar de razoável, não estava à altura dos álbuns anteriores, embora esta mesma formação tenha sido responsável pela criação do muito bom “Made in England”, de 1972, com exceção do baterista Ric Parnell que participou de “Nice ‘n’ Greasy”. Tanto que a banda parou, finalizou as suas atividades para retornar em 1980, quando Du Cann, o guitarrista, e Vicent Crane, o tecladista, decidem reestruturar a banda, após um hiato de longos sete anos. Convoca o experiente baterista Preston Heyman e grava o sexto álbum de estúdio com o nome “Atomic Rooster”, em 1980. 


Entrando na nova onda do heavy metal britânico, a New Wave of a British Heavy Metal, a banda decide tocar ainda mais pesado, com mais agressividade, mais um ponto de reinvenção da banda, capitaneado por Crane e sem sombra de dúvida o guitarrista John du Cann que traz, em seu DNA, o peso do hard rock e que provou isso no próprio Atomic Rooster, no segundo trabalho da banda: "Death Walks Behind You", de 1970.

Atomic Rooster em 1970

Claro que tais propostas sempre foi o cerne do Atomic Rooster, mas, mais uma vez, em sua inquietude criativa, Crane e Cann não se ancoraram em estereótipos, embora o ano, 1980, tenha caracterizado o "boom" do heavy metal, sobretudo londrino e o trabalho do Atomic Rooster seja fortemente inspirado no peso do heavy metal. 

O álbum também não foi tão bem recebido pela crítica e pelos fãs mais conservadores da banda, mas sim, é um grande e subestimado álbum. Contudo, essa “nova” vertente da banda não se limitou ao estúdio. O Atomic Rooster sempre, apesar dos rodízios, contou com músicos de excelente qualidade e que gozava de grande virtuosidade em suas exibições ao vivo, reproduzindo neles, a proposta concebida no estúdio quando gravou “Atomic Rooster”. 

Ainda em 1980, a banda se apresentou no lendário Marquee Club, em Londres e nele se percebe a agressividade, a nova vertente do Atomic Rooster, com clássicos setentistas de sua áurea fase sendo executada de uma forma avassaladora, poderosa e visceral. Esse registro ao vivo, alvo dessa resenha, definitivamente é um obscuro trabalho da banda e surpreende pela intensidade e força do Atomic Rooster que voltaria a todo o vapor. 

Mas nessa apresentação, como de costume, tem uma nova (velha) formação. O baterista, Preston Heyman, que participou da gravação do até então novo álbum de estúdio, sai da banda e dá lugar ao velho dono do posto, o excelente Paul Hammond. 

Talvez a intenção de Crane era voltar as origens, trazer as raízes clássicas do Atomic Rooster e que foram responsáveis por entregar ao mundo uma pérola da história do heavy rock chamada “Death Walks Behind You”, de 1970, por exemplo. Claro que com Hammond esse registro ganhou em brilhantismo. 

John du Cann, John Hammond e Vincent Crane

Uma curiosidade sobre esse show é que não existiam gravações conhecidas da mesa de som ao vivo da linha de 1980, as fitas cassetes faziam parte dos arquivos pessoais de John du Cann e foi, de certa forma, com o lançamento, em um formato quase que em bootleg, dado a algumas imperfeições na qualidade da produção, responsável pelo retorno do Paul Hammond. 

E pasmem, amigos leitores, o show foi gravado por intermédio de um único microfone no palco! Inacreditável como conseguiu captar tanta energia de uma banda como o Atomic Rooster. Essas gravações foram as últimas ao vivo dessa formação clássica, com Du Cann, Crane e Hammond feitas no Marquee Club, onde tocavam regularmente. 

Era um Atomic Rooster puro, genuíno, sem filtros, energética, a versão power trio de outrora, com a roupagem heavy metal que faria, facilmente, qualquer headbanger balançar incessantemente a cabeça. Era o tecladista Vincent Crane, era o guitarrista John du Cann e o baterista Paul Hammond, afinal de contas. 

O line up trazia músicas dos primeiros trabalhos da banda e outras mais recentes à época. A começar com “They Took Control Of You” que é um verdadeiro petardo que faria qualquer banda heavy metal dizer “amém”, peso e agressividade são as palavras que definem. 

"They Took Control Of You", do álbum "Atomic Rooster", de 1980

Na sequência tem o hino “Death Walks Behind You” que, além de manter aquele clima sombrio, é encorpada por uma tensão sonora pesada e ameaçadora, mais rápida e veloz também. “Watch Out!” traz de volta a pegada heavy rock, com muita velocidade e intensidade, um show à parte no quesito instrumental. “Tomorrow Night” surge na sequência, o clássico da banda, bem viva e rejuvenescida, mas com aquela inevitável vontade de dançar.

 "Death Walks Behind You" - "Live at The Marquee", de 1980

“Seven Lonely Streets” ressuscita o Atomic Rooster setentista, um poderoso hardão. “Gershatzer” traz uma eficácia ao set, carismática e poderosa, cativa aos fãs apreciadores do estilo mais hard n’ heavy. “I Can’t Take No More”, outra clássica, segue a mesma proposta da faixa anterior, é excelente ao vivo, ganha mais força e peso, em qualquer época.


 "I Can't Take No More", live at Beat Club, 1971

“In The Shadows” é igualmente avassalador, um heavy metal vanguardista e que podemos dizer ter sido a pedra fundamental para o estilo, sem sombra de dúvida. Outro clássico que ganhou uma bela roupagem foi “Devil’s Answer” com guitarras estridentes, vocais rasgados e teclados ao nível patológico do frenesi. 

"Devil's Answer", live at Top of the Pops, 1971

Fecha com “Do You Know Who’s Looking For You?” que já entrega com um riff pesado no início e diria, sem medo, que tem uma levada punk, suja e despretensiosa. 

"Do You Know Who's Looking for You?", do registro ao vivo "Live at The Marquee"

Assim é “Live at Marquee Club”, um Atomic Rooster sujo, rasgado, agressivo, poderoso, uma, até então, nova faceta, que revelava o que sempre foi o Velho Atômico. Pesado e arrogante!

“A banda consumiu tanta energia que, imediatamente ao sair do palco, eles entraram em colapso, e que o pensamento de um bis era incapacitante”.

John du Cann




A banda:

Vincent Crane nos teclados
John du Cann na guitarra e vocal
Paul Hammond na bateria e percussão

Faixas:

1 - They Took Control Of You
2 - Death Walks Behind You
3 - Watch Out!
4 - Tomorrow Night
5 - Seven Lonely Streets
6 - Gershatzer
7 - I Can’t Take No More
8 - In The Shadows
9 - Devil’s Answer
10 - Do You Know Who’s Looking For You?