sexta-feira, 7 de junho de 2024

Legend - Fröm The Fjörds (1979)

 

Final dos anos 1970. O rock n’ roll passava por um forte período de ebulição, de transição, de mudanças. O rock progressivo se tornava cada vez mais indulgente, o punk ganhava o seu auge comercial, o ‘faça você mesmo” traria os primórdios do rock e a cena hard rock, com as suas bandas mais emblemáticas, perderia espaço por conta de seus músicos imergidos no mundo das drogas ou em litígio com os seus companheiros de banda.

Os anos 1980 foi inaugurado com a erupção do peso, da velocidade no rock n’ roll, tendo como protagonista a cena inglesa chamada “New Wave of the British Heavy Metal”, espalhando-se em vários cantos do mundo.

O heavy metal ganhava espaço porque ganhava em atitude, rebeldia e agressividade nos comportamentos das bandas e de seu público, encaminhando todos esses novos elementos às letras e conceitos dos seus álbuns, apresentando características peculiares, de acordo com as manifestações culturais de suas regiões e/ou países.

Evidente que essa cena bebeu da fonte dos clássicos setentistas como Led Zeppelin, Deep Purple e principalmente os primeiros trabalhos sombrios do Black Sabbath. As arestas começaram a ser pavimentadas nos longínquos anos 1970, não esquecendo daquela banda que levantou e criou o estilo, não apenas pelo aspecto sonoro, mas também estético: o Judas Priest.

E longe do embrião dessa cena pesada, mais precisamente em uma região chamada New Haven, em Connecticut, nos Estados Unidos, surgiria uma banda que caiu no mais profundo e genuíno ostracismo, trafegando pelas sombras marginais do rock n’ roll, um power trio chamado LEGEND, em 1978, que, nos seus primórdios, se chamava “Judge”.

A tradução livre, “lenda”, talvez não se adeque a triste realidade e fim precoce desta banda que tingiu a sua música de uma forma tão peculiar e especial que sempre me faz surgir aquela maldita pergunta que parece me perturbar a cada momento: Por que essa banda não conquistou o mundo? Por que essa banda não atingiu o sucesso?

Legend

E para aqueles que consideram a música pesada, em todas as suas vertentes, algo ruim, sem qualidade, se torna urgente a audição do único trabalho da banda, lançado em 1979 chamado “Fröm The Fjörds”, lançado pelo selo “Empire Records”, uma divisão da “Colussus Enterprises”, com uma tiragem mais do que limitada, cerca de 500 cópias apenas e vendidas rapidamente e hoje atingindo o status de banda “cult”, seus LPs e relançamentos são disputados a tapas mesmo que os valores muito altos.

Porém antes, em 1978, foi lançado uma demo chamada de “Before The Fjords”, que continha cinco faixas que logo seriam agregadas ao seu álbum lançado um ano depois, que seria relançado em CD, em 2019, com a reedição do álbum “Fröm The Fjörds”, quarenta anos após seu lançamento original.

"Before the Fjords" (1978)

“Fröm The Fjörds” traz elementos do já citado jovem, à época, do heavy metal, mas também de rock progressivo dos anos 1970, além de variações que apresentam o jazz, o folk, country music, o hard rock e o classic rock. Parte de seus músicos, mais precisamente o baterista Raymond Frigon, trafegou em influências progressivas antes de constituir a banda. Era o que o cara ouvia: Yes, Emerson, Lake & Palmer, bandas jazz fusion como um todo e certamente essa predileção “contaminou” a música do Legend.

Mas Fred Melillo, baixista e Kevin Nugent, guitarrista e vocalista, também, de certa forma, compartilhavam da mesma paixão pela música de Ray e tornar-se até improvável uma banda como Legend ser uma referência do heavy metal estadunidense.

É uma sonoridade diversificada e por mais que possa aparentar, como disse, algo improvável, atípico, se mostra sinérgico e poderoso e o trinômio peso/velocidade/agressividade se junta a complexidade, porém entrega uma música extremamente orgânica, cheia de vida e traz a luz o tema, até então pouco usual naqueles tempos na música pesada: deuses, vikings, magos, batalhas épicas e tudo o mais, afinal o título de seu álbum sugere esse tema. Bandas de hard rock como Rainbow, provavelmente trouxe pioneirismo a esse estilo de música, comumente chamado de “power rock” ou “epic rock”, “viking metal”, são tantas nomenclaturas...

Em algumas entrevistas, o baterista Ray Frigon conta que a inspiração em mitos e lendas, usadas para a construção do álbum, sejam elas históricas ou fabricadas, foram concebidas nas suas influências pessoais, bem como a de Kevin e Fred. Dizia também que as suas batidas de bateria foram baseadas mais em Gentle Giant, por exemplo, do que qualquer coisa relacionada ao heavy metal.

Já que estamos esmiuçando a história do Legend, cabe aqui uma curiosidade: “fiorde”, palavra que compõe o nome do álbum da banda, do norueguês fjord, é uma grande entrada de mar entre altas montanhas rochosas, originada por erosão causada pelo gelo de antigo glaciar. Os fiordes situam-se principalmente nas costas da Noruega, Groelândia, Chile e Nova Zelândia, onde são um dos elementos geomorfológicos mais emblemáticos da paisagem.

Kevin e Fred se conheceram no Centro Educacional de Artes em New Haven. Eles assistiam a poucas aulas por dia, afinal a intenção, o ideal dos moleques eram tocar, a música corria no sangue deles. Tanto que nas poucas aulas que assistiam, quando dela saiam, pegavam o ônibus e passariam o resto do dia tocando música.

Eles tocavam em uma banda cover chamada “Edge” e que tocava em todo o Nordeste, gozavam de alguma popularidade nos pequenos “clubs” e pubs espalhados por essas regiões no entorno de Connecticut. E nessas andanças, de show em show, conheceram Ray Frigon e o baixista John Judge. Logo se identificaram e daí surgiu a necessidade de criar uma banda e tocar música autoral.

Mas as coisas não deram muito certo com John e Fred Melillo foi convocado para a formação que seria a criadora de “Fröm The Fjörds” que, para muitos especialistas em música pesada, é o precursor do heavy metal norte americano apesar da sua obscuridade.

Ray nunca tinha se envolvido em um projeto musical antes do Legend, bem como os demais caras que fundaram a banda, como John e Fred. Ray chegou a participar de algumas audições, testes para tocar em outras bandas, mas não deu certo e continuou a tocar bateria, que muito gostava, em sua casa.

Conheceu John por intermédio de um anúncio de jornal que Ray respondeu. John foi a casa de Ray e o viu tocar e logo se entusiasmou em formar uma banda. John conhecia um tecladista e queria fazer algo que se alinhasse ao Emerson, Lake & Palmer. Esse tecladista não gostou muito e não voltou mais para as audições, foi quando John levou Kevin até a casa de Ray e a partir dessa primeira reunião que o embrião do Legend surgiu.

Kevin Nugent

Ray logo escreveu todas as letras e o que o incentivou foi a obra de Frank Frazetta. Comprou seus livros e olhava fixamente as suas ilustrações e inventava uma letra ou história sobre o que via. Raymond levava a linha melódica para Kevin, que organizava suas partes e a peça em torna dessa linha básica. Ensaiavam na casa, mais precisamente no porão, de Ray. Nessa época John ainda estava na banda. Era os primórdios do Legend.

Os jovens músicos tocaram apenas 4 vezes antes de gravar “Fröm The Fjörds”: duas vezes em um clube e duas vezes outro. A receptividade do público foi boa, os clubes ficaram razoavelmente cheios, a ponto de, em alguns momentos Ray e Kevin ter tido discussões acaloradas por conta da desanimação de encontrar nesses clubes, pouca gente, pensando até em acabar com o Legend, mas, entre uma briga e outra, os shows aconteceram e o Legend seguiu até as gravações de seu álbum.

“Fröm The Fjörds” foi gravado graças a um empréstimo feito pelos pais de Ray, para financiar as gravações do trabalho dos jovens músicos. O álbum foi feito por US$ 6.000,00. Kevin conhecia um estúdio de 8 pistas em New Haven e lá foram. Era a primeira experiência de gravação desses três garotos. Claro que os entraves aconteceram no processo de gravação, mas seguiram fortes. A maioria das músicas demorou apenas uma ou duas tomadas, afinal não tinham tanta grana para os custos do estúdio, precisavam fazer logo tudo.

O conceito da capa foi dado pelo Ray Frigon a um jovem artista grego de nome Ioannis. Ele conseguiu realizar o trabalho e após alguns ajustes enviou a sua arte final, não sendo, segundo o Legend, uma boa representação do original. Os detalhes nítidos não foram, segundo a banda, capturados, ficando ainda em preto e branco para sobrar mais dinheiro para imprimir o maior número possível de cópias do álbum, conseguindo cerca de 500 cópias. O artista que concebeu a capa tinha feito uma versão colorida, mas, por conta da decisão da banda em investir mais dinheiro na prensagem do álbum, guardou a arte. Talvez quando a banda assinasse com alguma grande gravadora, pudesse usar a versão em cores.

O álbum é inaugurado pela faixa “The Destroyer” e o peso desemboca em ótimos riffs de guitarra, com vocais fortes, limpos, de grande alcance. Mas a seção rítmica também dá o tom, corroborando o peso, algo cadenciado, é verdade, mas pleno, intenso.

"The Destroyer"

“The Wizard's Vengeance” traz a introdução de riffs frenéticos de guitarra que entrega algo mais dançante, apesar do evidente peso da música. Mais uma vez a “cozinha” dá a textura rítmica, conduzindo a uma veia mais hard rock setentista a faixa. Mas a guitarra definitivamente dá o tom heavy rock.

"The Wizard's Vengeance"

“The Golden Bell” muda o ambiente do álbum, algo sombrio, folclórico, pagão toma conta da música. Uma faixa mais complexa, com veias mais progressivas, com algumas viradas rítmicas e arrisco em dizer que discretas e rápidas pegadas jazzísticas na bateria. Vale ressaltar que, mais uma vez, a sinergia entre baixo e bateria se faz presente.

"The Golden Bell"

“The Confrontation” retoma ao hard rock e entrega algo mais comercial, radiofônico, diria. Talvez essa faixa se encacharia em qualquer álbum do Van Halen, por exemplo. É uma faixa instrumental muito bem elaborada, mostrando uma sinergia de seus músicos.

"The Confrontation"

“R.A.R.Z”, que significa “'rock and roll zole” (“Zole” é uma gíria britânica para “buraco”), começa meio bluesy, mas apenas começa, porque logo irrompe em um bélico heavy metal capitaneado pela bateria pesada e marcada, logo endossado pela guitarra e seus riffs pegajosos.

"R.A.R.Z"

Segue com “Against the Gods” que traz o hard rock com sustentáculo da faixa, cadenciada entre peso e uma viagem meio psicodélica, lisérgica, com solos limpos e avassaladores de guitarra.

"Against the Gods"

“The Iron Horse” é talvez uma das mais complexas faixas a começar pela introdução jazzística da bateria, mostrando destreza do instrumento, aliás a faixa é predominantemente instrumental e vai revelando as mudanças de ritmo, tendo o destaque da bateria e as suas viradas sensacionais, sem contar com o solo com mais de três minutos, o que é incomum.

"The Iron Horse"

E fecha dignamente com a faixa título, “From the Fjords” repleto de viradas de tempo, de ritmo, caracterizando um perfeito e poderoso hard prog. O destaque fica para os riffs de guitarra e a bateria explodindo em peso e competência. No terceiro minuto a música abranda e ganha uma textura psicodélica e sombria, algo até com improvisações, com a “cozinha” ganhando destaque. Mas logo explode em intensidade de som com o característico peso da banda.

From The Fjords"

Reza a lenda que o Legend tinha material para gravar cerca de cinco ou seis álbuns, afinal os shows eram muito longos, durando cerca de duas horas ou até duas horas e meia e, com músicos, apesar de jovens, esbanjavam competência e tudo fluía e eram muitos shows. E diante desse turbilhão criativo, Ray chegou a pensar na possibilidade de ter, simultaneamente, três bandas para trabalhar esse material: uma banda de rock progressivo, outra de jazz fusion e, claro, o Legend. Todas bandas gravariam esse material e faria shows.

Mas a banda estava fadada a ter um fim precoce. O legend não ia bem, apesar dos shows, do lançamento do álbum. Ray estava infeliz e também estava se convertendo ao cristianismo. Ele estava se sentindo só, a fase de gravação do álbum o estava afetando, sugando suas energias. E antes mesmo da concepção do álbum Ray já estava extremamente infeliz. A banda estava sofrendo com o sofrimento de Ray. Kevin e Fred não entendia o que acontecia, principalmente Kevin que se preocupava com seu melhor amigo.

E não demorou muito para Ray chamar Kevin para comunicar-lhe que estaria fora da banda, dizendo da sua conversão aos estudos bíblicos e seguiu. Claro Kevin foi pego de surpresa, tentou convencê-lo do contrário, mas foi inútil. Sem Ray seria complicado seguir. Mas Kevin acabou, dentro das suas possibilidades, promovendo a distribuição de “From the Fjords”. Tentaram colocar outro baterista no lugar, mas não durou muito tempo e o término precoce da banda se deu em 1979 ou 1980, mais ou menos.

Mas os problemas não findaram juntamente com o Legend. O empréstimo do álbum precisava ser pago e foi nesse momento que a tensão se fez entre Ray e Kevin. Ray foi obrigado a vender sua bateria e teve que trabalhar lavando louças em restaurantes para pagar integralmente o empréstimo. Kevin Nugent tocou em um punhado de bandas, mas morreria em 1983 enquanto dormia. Fred Melillo ainda toca, mas dedica-se a ensinar música e Ray Frigon, o baterista, ainda segue no mundo da música também.

Eles não queriam estrelado, glamour e fama. Queriam apenas tocar, nada mais do que isso. Queriam apenas trazer um pouco de conforto para os seus pais e tocar a sua música, extremamente arrojada e pouco classificável para o seu público.

Muitos pedidos surgiram para o relançamento do álbum em vinil e CD. Mas a banda se mostrou relutante quanto a isso e reza a lenda que as fitas do álbum ficou com o irmão de Kevin, Al. Muitas gravadoras queriam lançar esse trabalho, mas o paradeiro das fitas era incerto. Mas não teve lançamento oficial, mas as versões piratas inundam o mercado, são muitos e vendidos por US$ 100 ou até mais. E não terá lançamento oficial, pois, apesar das especulações de onde as fitas másters estejam, o fato é que não foram encontradas.

Mas para a alegria de todos nós, fãs da banda, “Fröm The Fjörds” foi resgatado pelo selo grego “Cult Rock Classic”, em 2019, quando o álbum completou quarenta anos de lançamento, sendo remasterizado e recebendo edições de luxo em LP e CD, ou seja, finalmente sendo reverenciado pela sua qualidade sonora e relevância histórica.




A banda:

Kevin Nugent na guitarra e vocal principal

Raymond E. Frigon na bateria

Fred Melillo no baixo

 

Faixas:

1 - The Destroyer

2 - The Wizard's Vengeance

3 - The Golden Bell

4 - The Confrontation

5 - R.A.R.Z.

6 - Against the Gods

7 - The Iron Horse

8 - From the Fjords 



"From The Fjords" (1979)





 






























 



quinta-feira, 23 de maio de 2024

Ocean - Sunrise (1982)

 

Afirmo, de forma categórica e até mesmo entusiasmada, que não sou eclético, que apenas aprecio o bom e velho rock n’ roll! Apenas? Sim, apenas tudo isso! Evidente que os amantes e quase unânimes apreciadores do ecletismo musical combatem duramente contra a minha máxima de amor incondicional ao rock simplesmente, mas que espécie de motivação tenho para gostar de outras músicas se o universo do rock é amplo e cheio de possibilidades?

Quando comecei a desbravar as matas selvagens e quase intocáveis do rock obscuro, a “tese” de que tanto defendo começou a ganhar contornos mais fortes, ganhando vida. Percebi que, com as inúmeras bandas, esquecidas, jogadas em um profundo ostracismo, também traziam vertentes, até conhecidas pelo grande público, porém pouco “exploradas” e até pouco compreendidas.

Não quero cair na teia do estereótipo e me prender a estilos, mas sim a música, mas as nuances sonoras de cada banda e álbum nos faz entender um pouco a proposta e história de cada banda e seus trabalhos e de história, amigos leitores, como podem perceber, aprecio e muito.

E assim foi com o “jazz fusion”. Por ser uma música híbrida do famoso jazz com a pegada mais forte do rock e muito apreciada entre os apreciadores do rock progressivo, eu pude ter acesso graças a uma profusão de bandas do estilo que flertam com as bandas progressivas que, claro, absorveu fortemente o jazz e outras músicas eruditas, diria ser oriunda do jazz.

E assim foi! Os primeiros contatos, como tudo que é novo, gera incertezas, algumas rejeições, mas a sonoridade arrojada foi, aos poucos me cativando: um som complexo, mas, ao mesmo tempo solar, pesado, energético. Claro que muito antes de qualquer banda de rock experimentar o jazz temos os movimentos culturais musicais e músicos engajados que se tornaram pioneiros, como  Dizzy Gillespie, Miles Davis, o jazz afro cubano e tantos outros, precisam ser enaltecidos, mas o jazz rock elevou o nível.

E eu não poderia negligenciar hoje essa ramificação da frondosa árvore do rock progressivo com uma banda que seja e, nas minhas infindáveis e saborosas incursões pela grande rede, ouvindo um já satisfatório número de bandas, gostaria de destacar uma banda norte americana que ouvi quase que aleatoriamente, sem intenção prévia, sem roteiros, sem absolutamente nada e simplesmente me arrebatou: a banda se chama OCEAN.

Depois de uma árdua e obcecada busca por referências a respeito de sua história foi muito difícil encontrar algo sobre a banda, apenas algumas linhas sobre a sua trajetória e pouco replicada em sites especializados, mas é, dada as devidas proporções, normal, levando em consideração que o Ocean, por exemplo, gravou sem único álbum, de jazz rock, no início dos anos 1980, em uma década dominada pelo pós punk, pela new wave e o heavy metal, quando o prog rock estava em declínio, sob o aspecto comercial.

E o álbum, gravado mais precisamente em 1982, com o nome de “Sunrise”, foi o único de sua meteórica passagem por este mundo, o que também é, digamos, normal, diante do cenário de rejeição mercadológica ao estilo em pleno anos 1980. Diante da escassez de informações do Ocean, muito pode se especular, encarando essa banda, como um mero projeto de estúdio, desses que se reúne músicos, geralmente de estúdio, grave-se um álbum e por lá finaliza a sua trajetória, algo com início e fim, mas se há um álbum e músicos, pode-se considerar uma banda na sua real acepção da palavra.

"Sunrise" (1982)

O pouco que se tem a respeito do Ocean é de que a banda foi formada no início dos anos 1980 em Cincinnati, em Ohio, nos Estados Unidos e que gravou um álbum, o “Sunrise”, que trazem teclados totalmente analógicos, uma bela guitarra “fuzzy”, o que mais me cativou neste trabalho, com composições inegavelmente originais, diria arrojadas. Não querendo tornar “Sunrise” datado, sua sonoridade me remete aos anos 1970 e traz a sensação de que estava descolado do seu tempo.

Mas prefiro dizer que os músicos simplesmente deixaram a sua criatividade e a sua verdade pela música simplesmente aflorar, sem amarras e preocupações com tendências e modismos ditados pelo mercado fonográfico, não é à toa, claro, que caiu no ostracismo, se tornando deveras obscura. E ainda no campo das especulações, “Sunrise” foi gravado por um selo de nome, adivinhem, Ocean Sounds Records, levando a crer que seja um produto, um projeto de curta duração e de estúdio, sem pretensões de “ganhar o mundo” com turnês ou coisas que o valha.

E falando também em músicos, a banda era formada por Bruce Fox, guitarrista e produtor do álbum, Rick Snyder (Dennis DeYoung) nos teclados e sintetizadores, Michael Sharfe no baixo e baixo acústico e Chris Erickson, na bateria e percussão. Com a participação de Curt Ramm, no trompete (Chic, They Might Be Giants, Levon Helm, Jon Batiste, William Shatner, Bruce Springsteen).

Músicos perfilados, vamos dissecar as suas faixas! O álbum é inaugurado com a música “Hickey” que já começa enérgica, intensa, vívida, a bateria jazzística, trompete dita o ritmo. A faixa é extremamente dançante e os solos de guitarra traz um “tempero” muito atípico e arrojado, tornando a música mais pesada e solar.

Segue com “Of Birdland Fame” e a introdução fica mais introspectiva com os teclados, a bateria, mais contida, entra anunciando uma levada mais prog rock, o trompete traz uma textura mais contemplativa. O teclado domina as atenções e deixa a faixa mais dançante. Mas na metade da música o que era contemplativo fica mais animado graças ao próprio trompete, o jazz fusion ganha destaque. A bateria muito bem executada, ganha corpo até a música retornar a sua vibe mais contemplativa. Complexa, cheia de viradas rítmicas. Excelente faixa!

“The Bubble” já entrega algo mais pesado! Bateria marcada e mais pesada e um solo mais direto de guitarra destaca um hard rock inicial, mas que logo fica cadenciada, com baixo pulsante com algum groove e solos de guitarra ao fundo e que, aos poucos, ganham destaque, mas que vai finalizando meio experimental. Definitivamente é a faixa mais “rock n’ roll” do álbum.

“Tidal Wave” tem uma pegada meio comercial, pop, mas muito bem executada e capitaneada pelo trompete. Traz uma “latinidade” muito dançante e que nos remete a música brasileira. A guitarra dedilhada é um “tempero” a mais a energia da música.

“Just One of Those Little Things” começa com o som de mar, os pássaros, sintetizando a estética e nome da banda e álbum e o trompete continua ditando as regras sonoras dessa faixa, mas os solos de guitarra são mais elaborados e longos, dando um caráter mais pesado à música e nesse interlúdio tem a bateria trazendo a pegada mais latina a faixa. Mais uma faixa complexa e cheia de viradas rítmicas.

E fecha com “Ocean Sunrise (Sara’s Elegy) traz de volta a versão mais contemplativa, com um violão acústico ditando o ritmo, com um baixo meio groovado e o trompete “rivalizando” com o piano traz uma harmonização perfeita à faixa.

“Sunrise” pode não ser nada inovador entre as bandas de jazz fusion, para muitos pode soar até manjado ou algo pior, como plágio, por exemplo, tema tão em voga para se polemizar, mas não podemos negligenciar que o Ocean foi, primeiramente ousado em produzir um material esquecido em pleno anos 1980 de jazz rock e prog rock e segundo trata-se de um álbum arrojado sim, embora não seja nada novo. A pegada jazzística com riffs e solos de guitarra mais pesado definitivamente caiu muito bem aos meus ouvidos. Altamente recomendada!


A banda:

Bruce Fox na guitarra e produção do álbum

Rick Snyder nos teclados e sintetizadores

Michael Sharfe no baixo e baixo acústico

Chris Erickson na bateria e percussão

Com

Curt Ramm no trompete

 

Faixas:

1 - Hickey

2 - Of Birdland Fame

3 - The Bubble

4 - Tidal Wave 5:52

5 - Just One of Those Little Things

6 - Ocean Sunrise (Sara's Elegy)



"Sunrise" (1982)


 







quinta-feira, 16 de maio de 2024

Action - Action (1972)

 

A década de 1970 no rock n’ roll foi caracterizada, além da qualidade de suas bandas, pela profusão de materiais produzidos e que não foram oficialmente lançados. Apesar de ter certa fama nos dias de hoje, graças ao advento das redes sociais e da tecnologia que as circunda, não tinham, naquela longínqua década, tantas possibilidades de gravar um álbum.

E as razões podem ser muitas: estrutura, o descaso das gravadoras, até mesmo a má sorte que gira em torno desses fatos mencionados. O fato é que muitas bandas pereceram de forma precoce por não ter conseguido emplacar seus trabalhos, apesar de muitas delas terem a persistência em tocar, quando tinha ofertas para tal, para tentar, ao menos divulgar o nome da banda etc.

E quando uma gravadora traz à luz essas bandas nos dias atuais e quando as ouvimos e gostamos delas, sempre vem à tona aquela pergunta que não quer calar: Como uma banda com essa sonoridade tão avassaladora, tão ousada, não conseguiu o sucesso tão almejado naqueles dias?

Talvez pelo simples fato de serem avassaladoras e ousadas tais bandas não tenham conseguido o empurrão necessário para emplacar as suas músicas, mas o empurrão para o ostracismo.

E uma banda alemã creio se enquadrar fielmente nesse triste cenário que se construiu nos anos 1970. Falo do ACTION. O nome da banda que, na tradução livre significa “Ação”, faz verdadeiramente jus ao nome graças a sua tão intensa e incrível sonoridade, oriunda de um hard rock com uma veia bem resolvida para o rock progressivo em uma multifacetada e arrojada música.

Action

A Alemanha realmente é um celeiro de bandas que nasceram praticamente mortas que gravaram seus materiais e esses, de forma impiedosa e até inexplicável, como o do Action, caem na poeira infalível do ostracismo.

A origem do Action está na cidade de Zweibrücken, na Alemanha. Em 1966 um grupo de jovens decidiu formar uma banda com o que conseguiram juntar de dinheiro com os seus empregos de verão.

A princípio tentaram emular sons dos ídolos da época, como Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix etc. Eles participaram de diversos concursos e em alguns deles garantindo o primeiro lugar.

Muitas mudanças na formação ocorrem e com isso suas vertentes sonoras vai se modificando juntamente, caminhando mais para uma roupagem mais voltada para o hard rock, psicodelia e na experimentação, com pitadas generosas de rock progressivo que nascia para o mundo na transição das décadas de 1960 e 1970. Percebe-se, inclusive, uma pegada mais soul music, mostrando que os músicos eram competentes.

Mas o Action foi sendo submetido a novos caminhos, mergulhando em estilos mais voltados para o hard rock semelhantes ao Deep Purple e Uriah Heep, fugindo um pouco das longas jams sections que caracterizavam a banda em seus primórdios, mas não fugiu tanto assim, absorvendo um pouco de rock progressivo que já estava em voga no início dos anos 1970.

A banda entra, em 1972, nos estúdios da Kerston Records e gravam o seu debut, chamado simplesmente de “Action”, mas infelizmente nunca foi lançado oficialmente caindo nos escombros obscuros do esquecimento. E já que falei dos fatores que implicam para projetos musicais serem engavetados, lá vai uma em relação ao Action, em especial: por ter apenas quatro faixas, reza a lenda que não seria um álbum, mas um demo, tanto que a quarta faixa é uma música ao vivo o que reforçaria essa tese.

A banda que gravou esse trabalho era formada por: Wolfgang Benki nos vocais, Charly Fottner na guitarra, Otto Nunold nos teclados e órgão, Harald Schindler no baixo e Ernest Cadet na bateria.

“Action” é um poderoso álbum de hard rock com nuances bem evidentes de rock progressivo e entornos de lisergia e experimentações bem estabelecidas que beiram improvisações bem elaboradas. Um trabalho extremamente versátil sintetizando perfeitamente a época em que foi concebido.

O álbum é inaugurado com a faixa “Miscarriage Of Human Thinking (Part I)” e traz nuances viajantes de Pink Floyd, uma balada rock que mostra uma linda simbiose entre o dedilhar das guitarras com um teclado de textura suave e psicodélica. O vocal segue basicamente a proposta da melodia da banda, límpido e leve.

"Miscarriage of Human Thinking (Part I)"

Segue com “Miscarriage of Human Thinking (Part II)”, como sequência da faixa anterior é introduzida com guitarras dedilhadas, teclados contemplativos, sendo um complemento, uma parte dos discretos riffs de guitarra. A bateria, marcada, vai encorpando a música, vai ficando alta, mais pesada e intensa, com vocais mais altos. A guitarra apresenta riffs mais pesados e grudentos, o hard rock passa a protagonizar. Com os seus pouco mais de 13 minutos de duração possibilita essas viradas rítmicas excelentes.

"Miscarriage of Human Thinking (Part II)"

“Hell Track” muda totalmente o humor do álbum entregando mais peso, mais intensidade e emoção. Um hard rock com guitarras mais dissonantes, pesadas, mas que não esmorece quando se trata de viradas rítmicas e a seção rítmica, a “cozinha” vai ditando tal regra, mostrando ritmo com um baixo pulsante e uma bateria mais cadenciada. Uma bela espécime de um hard prog com pitadas bem generosas de psych.

"Hell Track"

E fecha com a faixa ao vivo “You are the Lady” que ganha mais força e evidencia o hard rock com riffs poderosos e ultrajantes de guitarra que faz lembrar o heavy rock dos anos 1980 em sua fase transitória de décadas. Uma faixa mais direta, sem “firulas” e bem pesada, com vocais mais altos e por vezes mais rasgados.

"You Are The Lady"

“Action” não foi lançado em 1972, no período em que foi gravado, caindo no mais profundo ostracismo, sendo engavetado. Apesar das inúmeras apresentações ao vivo da banda àquela época, as dificuldades surgiram e foram obrigados a se separarem em 1973. Eles tentaram gravar um álbum, chegaram a se reunir em estúdio, já que estavam com o selo Kerston Records, mas não deu certo quando o guitarrista Charly Fottner saiu.

Mas foi em 1995, reza a lenda, que os caras se reencontraram e decidiram reunir as gravações das faixas que tinham de 1972 para lança-los o que finalmente ocorreu dois anos mais tarde, em 1997 pelo selo “Very Good Records” no formato LP. Ernest Cadet, o baterista, teria enviado as fitas que juntaram das antigas gravações do Action para Thomas Eicken, da Very Good Records, gerando o que deveria ser o único lançamento da banda finalmente.

Em 2009, a abnegada “Garden of Delights”, selo alemão conhecido por lançar pérolas undergrounds, relançou o material do Action, na versão CD. Um ano antes, em novembro de 2008, o Action, aproveitando esse momento de relançamentos de seu material, se apresentou em “Festhalle Zwelbrucken” tocando as músicas “Hell Track”, “Miscarriage of Human Thinking” e “You are the Lady”. Tais registros estão no relançamento da Garden of Delights”.

As apresentações da reunião da banda apenas confirmaram que o Action, embora tenha sido uma, na incontável história de bandas altamente talentosas que mereciam aclamação nos dias de hoje, mas por algum motivo, igualmente obscuro como a banda, ficaram de fora.

São histórias que caem nas especulações e que enredam várias versões e motivos. O fato é que a banda se mostrou poderosa, incrivelmente competente ao vivo, revelando a sua faceta mais pesada e direta. O frescor e entusiasmo era nítido, mas o tempo foi implacável com o Action, mas não escondeu, mesmo que por um curto período, o seu talento.




A banda:

Otto Nunold nos teclados

Charly Fottner na guitarra

Wolfgang Benki nos vocais

Harald Schindler no baixo

Ernest Cadet na bateria

 

Faixas:

1 - Miscarriage of Human Thinking (Part. I)

2 - Miscarriage of Human Thinking (Part. II)

3 - Hell Track

4 - You are the Lady (Ao vivo)


 




 











 





quarta-feira, 8 de maio de 2024

Wolmari - Wolmari (2019)

 

Há quem diga que um projeto de músicos não consiste em uma banda formada. Talvez tal argumento encontre força no fato de alguns “projetos” não ganharem a estrada, sem turnês ou até mesmo uma divulgação de seus trabalhos, limitando-se apenas às paredes frias dos estúdios.

Provavelmente essa discussão não mereça qualquer tipo de debate, mas o que me preocupa, caros leitores, é a consequência que pretensa afirmação pode gerar no que tange às audições, porque, independentemente de qualquer coisa a música precisa ser colocada em um patamar maior de importância.

As temíveis posturas conservadoras que teimam em pairar no rock n’ roll parece agir como uma cegueira nessa questão de bandas “devidamente formadas” ou projetos que reúnem músicos de outras bandas, as vezes com vibes distintas nas vertentes sonoras.

O fato é que a música precisa ser colocada em prioridade, penso, e encarar projetos, que podem trazer algo de audacioso, até mesmo de músicos estabelecidos, podem também oxigenar a cena, o rock. E é aí que as rejeições podem surgir, levando em consideração que temos cenas cada vez mais estagnadas que ouvem ou figurões ou as bandas e álbuns que flertam com o mainstream.

Sou um entusiasta dos projetos, principalmente que envolvam músicos já experientes que fogem do lugar comum ou da zona de conforto de suas bandas, trazendo, nos brindando com algo novo e arrojado para a sua carreira e consequentemente para a cena que, seja ela do heavy metal, do rock progressivo, precisa se perpetuar com o novo.

E eu, em uma das minhas inúmeras incursões pela grande rede, encontrei um álbum que, logo no aspecto visual me chamou a atenção, com a sua arte gráfica e também por ser finlandesa, acredito que isso já é um convite à audição. Falo da banda WOLMARI.

O Wolmari é um projeto de três músicos da Finlândia que tinha suas vocações musicais para o rock progressivo. São músicos estabelecidos e com longa carreira em seu país natal, tocando ou em várias bandas ou com carreiras solos bem construídos. São eles: o vocalista e tecladista Matti Kervinen que tocou em bandas como Kataya, Pax Romana e Sunhillow. O tecladista Pasi Koivu e o baixista Petri “Lemmy” Lindström que tocaram em bandas como Corvus Stone, além de seus próprios trabalhos solos que variam da música pesada e até o eletrônico.

E como todo bom projeto traz também uma grande quantidade de músicos que colaboraram para a construção de seu único álbum, lançado em 2019, chamado “Wolmari”, pelo selo Presence Records da Running Moose Production, que são: Anssi Nykänen (bateria, percussão), Samu Wuori (guitarra elétrica), Timo Rautiainen (vocal), Hannu Leidén (vocal), Esa Kotilainen (acordeão), Sonja Tiiro (saxofone alto), Anu Wuori (backing vocals) e Teijo Tikkanen (teclados).


“Wolmari” é predominantemente construído com forte atitude no rock progressivo tendo nuances bem evidentes de folk rock e cantado em finlandês. Uma música tipicamente da Finlândia: progressiva e com toques bem generosos de paganismo!

O álbum é inaugurado com a faixa “Wolmari I” traz um caráter literalmente de introdução ao álbum e entrega um instrumental melancólico, sombrio, diria, profundamente atmosférico em que todos os três membros do Wolmari tocam apenas o teclado.

"Wolmari I"

Segue com a faixa “Sarastus” que é a mais longa do álbum, com pouco mais de onze minutos e meio e é cantada em finlandês por Timo Rautiainen, bem conhecido na cena do metal melódico finlandês, com backing vocals femininos. A faixa traz um ritmo lento, contemplativo e lembra, em alguns momentos, o Pink Floyd, especialmente na guitarra de Wuori, com uma linda atmosfera melancólica típica do rock progressivo escandinavo. Não podemos negligenciar as nuances um tanto quanto experimentais nessa excelente faixa.

"Sarastus"

“Jään Tähän” (“Eu Fico Aqui”, em português), mais curta, mas não menos excepcional, com um estilo melódico e viajante, com um instrumental “temperado” por uma abordagem mais pesada com a excelente participação do saxofone e do acordeão que traz um caráter mais exótico a faixa.

"Jaan Tahan"

“Syvä Jää” traz uma introdução calcada nos sintetizadores, algo meio sombrio e soturno, com o baixo seguindo o ritmo, logo entra o piano que entrega uma atmosfera oculta, estranha, mas logo vem a bateria, marcada e pesada, e solos igualmente pesados, de guitarra, que muda o “temperamento” da música. É inegável a influência de bandas italianas como Goblin e até mesmo Antonius Rex. Sax, acordeão apenas incrementa a faixa, dando um caráter de diversidade sonora.

"Syva Jaa"

“Syksy” (“Outono, em português) traz uma “virada” na sua sonoridade, com uma pegada mais pesada e até mesmo agressiva com um vocal indulgente, rouco de Hannu Leiden, outra ilustre participação. Uma faixa de espírito forte que definitivamente deve ser apreciado, porque mostra o caráter totalmente diversificado de “Wolmari”.

"Syksy"

“Onkapannu” é um belíssimo instrumental com lindas camadas de sintetizadores, com uma atmosfera quase de catedral. “Jos Annat Aamun Tulla” é uma faixa também cantada por Timo Rautiainen, é uma música mais comercial, mais acessível para ouvintes que não apreciam tanto rock progressivo, que traz um refrão repetido que “gruda” na mente. Se isso é bom ou ruim dependerá de você, caro leitor e ouvinte. Sem contar com o belo solo de sintetizador, fechando com um belo instrumental.

"Onkapannu"

"Jos Annat Aamun Tilla"

E fecha com “Kaivon Silmä” e, mais uma vez, a introdução fica a cargo dos teclados, agora em uma pegada mais sinfônica, mais contemplativa, logo entra o piano, e assim fica, com esse “jogo” de teclas, em uma viagem intimista e, por vezes, sombria.

"Kaivon Silma"

Nada como projetos na música que vise a estimular o lado criativo e ousado dos músicos e por mais que possa parecer algo efêmero é sim o Wolmari uma banda excepcional que flerta maravilhosamente com várias vertentes do rock, que vai do grego Vangelis, a músicas com uma veia mais acessível e até radiofônica, do progressivo ao hard e heavy rock.

E por mais que o Wolmari exponha as suas inspirações para seu único rebento, mostra que tem um caráter próprio, pois traz à tona uma música contemporânea, com um frescor dos novos e bons tempos do rock. Se você, estimado leitor, aprecia prog rock, hard rock, space rock, folk, sintetizadores introspectivos e atmosferas sombrias e profundas, você terá no Wolmari a audição mais de que perfeita e adequada aos seus ouvidos. Um álbum “charmoso” e altamente recomendado.




A banda:

Petri "Lemmy" Lindström no baixo, guitarras

Matti Kervinen nos teclados, vozes, violões

Pasi Koivu nos teclados

 

Com:

Anssi Nykänen na bateria, percussão

Samu Wuori na guitarra

Timo Rautiainen nos vocais

Hannu Leidén nos vocais

Sonja Tiiro no saxofone alto

Anu Wuori nas vozes de apoio

Teijo Tikkanen nos teclados


Faixas:

1 - Wolmari I

2 - Sarastus

3 - Jään Tähän

4 - Syvä Jää

5 - Syksy

6 - Onkapannu 

























sexta-feira, 26 de abril de 2024

Finch - Glory of the Inner Force (1975)

 

A cena progressiva holandesa é definitivamente prolífica! Embora pareça uma afirmação tola eu estou descobrindo-a a cada banda que tenho conhecido nesses últimos meses, anos.

Não há como se estabelecer na vasta e brilhante discografia do gigante Focus. Lamentavelmente grande parte das bandas não atingiram o êxito comercial do Focus, sendo difícil destas chegarem aos ouvidos dos fãs.

A não ser que os fãs sejam ávidos por desbravar, por conhecer bandas obscuras, que trafegam na escuridão do underground e que difundem, por intermédio dos mais variados veículos de comunicação, tais bandas, fazendo com que estas saiam do mais profundo ostracismo.

E a banda de hoje se enquadraria no grupo dos subestimados, não sendo apenas uma banda obscura, alternativa, pouco conhecida. Parece que um complementa o outro. Se é esquecida, logo incorre no risco de ser ruim, porque ainda aliam a falta de sucesso a qualidade sonora da banda.

Falo do FINCH. O nome, confesso, me parece ser bem, digamos, atípico. Em tradução livre significa “passarinho”. Não sei se os caras do Finch eram ornitólogos ou tinham algum apreço especial pelos pássaros, mas o fato é que a banda foi batizada com esse nome. Reza a lenda que o baixista fundador da banda, Peter Vink, alegou que a tradução de seu sobrenome, em inglês, era “Finch” e assim batizou o nome da banda.


Finch

Além de Peter Vink, no baixo, a banda contou, na sua formação inaugural com o forte apoio do virtuoso guitarrista Joop Van Nimwegen, Paul Vink, nos teclados e Beer Klaassena bateria. O Finch teve uma vida curta, saindo precocemente da cena progressiva sem deixar rastros, gravando também pouquíssimos álbuns, com três trabalhos, lançados entre 1975 e 1977, sendo formada em 1974. O álbum que falarei é o seu debut: “Glory of the Inner Force”, de 1975.

Mas antes de falar nesse petardo cheio de energia e entusiasmo instrumental, falemos no embrião do Finch que, como muitas outras bandas, surgiu das cinzas de outras bandas e geralmente com “pequenas tragédias”.

A banda se chamava Q65. O Q65 estava estabelecido na cidade de Haia Het Paard. Peter Vink era o baixista e Klaassen Beer era o baterista. Quando a banda acabou, ambos os músicos decidiram ficar juntos e criar em novo projeto chamado KJOE. Além deles ingressou o vocalista Johnny Fredericks e o guitarrista Frank Nyuyens. O último não ficou por muito tempo porque na época quebrou o braço e foi substituído Ronnie Mayer.

O KJOE tocou em vários clubes durante as noites, as madrugadas. Claro que bandas novas era sempre mais difícil conquistar espaços maiores, públicos e o caminho foi muito tortuoso, até que Ronnie Fredericks abandonaram a banda para tocar em bandas já estabelecidas.

O prejuízo aumentou. O KJOE precisava de recrutar novos músicos. Audições foram feitas com vários músicos, até que Vink e Beer descobriram um garoto de 19 anos chamado Joop Van Breukelen Nimvegen, tido atualmente como um dos mais influentes guitarristas da Holanda, que adorava jazz, blues e art-rock.

Joop Van Breukelen Nimvegen

Muito técnico e rápido o jovem logo ocupou o cargo de guitarrista da banda. O KJOE passou a ensaiar como um trio, quando Clem Determeijer assume a vaga de tecladista da banda. Convém ressaltar que Clem substituiu Paul Vink nos teclados, antes do lançamento do primeiro álbum já com o nome “Finch”.

O conteúdo instrumental foi tão bom, os ensaios surtiram um efeito tão positivo que decidiram ficar sem vocalista. Essa decisão não foi aleatória, mas tinham a intenção de focar, aprimorar a sua estrutura instrumental. Eis o embrião do Finch. Em 1974 a banda decide mudar de nome trazendo “Finch”.

A EMI holandesa estava disposta a investir em bandas novas de rock progressivo, afinal, era meados dos anos 1970 e o estilo estava um tanto quanto em alta e repassou recursos para o selo local, a “Negram” e a nova banda Finch estava à disposição para ser reparada e conseguiu, assinando contrato em 1975.

As gravações foram realizadas em apenas três dias, afinal custava caro bandas novas ficar muito tempo em estúdio, no “Intertone Studios”, em Heemstead, mixando e masterizando nesse período, com a produção de Roy Beltman e engenharia de Pierre Geoffroy Chateu. Assim nasceu “Glory of the Inner Force”.

Há apenas quatro faixas, mas o suficiente para impor virtuosismo, intensidade e muita energia. São composições dignamente empolgantes, com interações incríveis entre os músicos e seus instrumentos, tendo como sustentáculo os teclados e riffs e solos catárticos de guitarra, em uma espécie de salutar duelo entregando um progressivo sinfônico carregado de complexidade, mas muito orgânico.

São realmente performances bombásticas onde arrisco dizer que há peso nas composições, com um Finch calcado no hard rock. Algo um tanto quanto atípico ver, ou melhor ouvir, um progressivo sinfônico com tamanha originalidade tendo no peso e na energia o seu viés sonoro.

Enquanto algumas bandas holandesas flertavam com a improvisão o Finch trazia elementos mais complexos, técnicos ao seu som. Em “Glory of the Inner Force” tudo parece estar meticulosamente no lugar, mas ainda assim não soa mecânico ou sem vida, muito pelo contrário, é uma música cheia de vivacidade, de um virtuosismo orgânico.

Adicione ao combo prog sinfônico e pitadas de hard rock, a pegada jazzística, jazz rock e fusion, em um caldeirão improvável e fantástico de um rock n’ roll enérgico e poderoso. É definitivamente algo solar neste trabalho inaugural do Finch.

E sem mais delongas vamos destrinchar faixa a faixa e não se enganem, caros e estimados leitores, são longas faixas que, diante dessa energia instrumental, não se torna nem um pouco enfadonha.

E começa com “Register Magister”! Aqui a composição, além de intensa, vívida e bombástica, traz muita inspiração, com o fogo do hard rock com a sofisticação do jazz rock, com riffs de guitarra, solos mais diretos, porém atraentes e inspiradores. Outro detalhe e que detalhe navega nas intensas variações e reviravoltas sonoras que definitivamente é e tirar o fôlego. É incrível o humor e o ritmo impresso na sonoridade dessa faixa. Ah não podemos negligenciar o prog sinfônico presente, com linhas cavalares de baixo. A “cozinha” nessa faixa é magistral.

"Register Magister"

Segue com “Parodoxical Moods” já te cativa com um mellotron assustador, avassalador que propicia as “travessuras” de guitarra de Joop. Aquele clima salutar de duelo tão presente em todo o álbum. Mas o melhor estaria de por vir, com um solo incrível de órgão com a cortesia de Determeyer. São compassos rápidos e loucos, algo atípico demais para um prog rock sinfônico que alternam em seções lentas, por vezes temperamentais que saltam sem forçar para os momentos mais animados. Não preciso dizer, com isso, das lindas alternâncias rítmicas.

"Paradoxical Moods"

E agora vem a majestosa “Pisces”, que pega um pouco mais leve nos andamentos, mas não foge muito à proposta estrutural do álbum. Aqui se, evidentemente, o frenesi das teclas com solos mais longos e a guitarra apenas dando uma textura, com o trabalho mais eloquentes da “cozinha” com uma levada mais jazz rock.

"Pisces"

E encerra com “A Bridge to Alice” que inicia mais soturno, sombrio, com um baixo mais pesado e bateria marcada. Riffs de guitarra são ouvidos e corroboram o peso da faixa. O peso “rivaliza” com passagens mais jazzísticas constatando as já percebidas, em todo álbum, variações rítmicas.

"A Bridge to Alice"

“Glory of the Inner Force” teve alguma repercussão pela imprensa local, não apenas pelos veículos especializados, mas pela mídia holandesa ampla, sendo, alguns meses depois sendo lançado nos Estados Unidos pela ATCO Records (subsidiária da Atlantic), onde impressões positivas também pipocaram, afinal, não era para menos, tratava-se de um excelente e arrojado álbum. Em 1994 o álbum foi relançado, sendo remasterizado por Peter Vink com a inclusão de duas faixas bônus: “Colossus Part I” e “Colossus Part II”.

O Finch lançou o seu segundo álbum, em 1976, chamado “Beyond Expression” e no ano seguinte traria ao mundo seu terceiro e último álbum de estúdio o “Galleons of Passion”, de 1977. A banda encerrou as suas atividades, precocemente, em 1978 sem deixar rastros.

"Beyond Expression" (1976)

"Galleons of Passion" (1977)

O Finch traz uma sonoridade complexa, com temas inspirados e arrojados e de extremo bom gosto, mas sem deixar de lado a presença humana, orgânica de seus músicos. “Glory of the Inner Force” traz quatro faixas que são primordialmente músicas de um hard prog sinfônico. São músicas densas, fortes e técnicas, sobretudo.

A conclusão que se tira desse excelente trabalho do Finch é de um trabalho múltiplo de vertentes do rock n’ roll recheadas de surpresas mais do que agradáveis, com evoluções técnicas e orgânicas que faz dessa obra, apesar de alternativa, uma das mais importantes da Holanda. Definitivamente trata-se de uma pérola mais do que recomendada!



A banda:

Joop Van Nimwegen nas guitarras elétricas e acústicas

Cleem Determeijer no piano de cauda, ​​piano honky tonk, piano elétrico, órgão Hammond, Mellotron, sintetizador Arp Pro-Soloist

Peter Vink no baixo, pedais de baixo

Beer Klaasse na bateria

 

Faixas:

1 - Register Magister

2 - Parodoxical Moods

3 - Pisces

4. A Bridge to Alice


"Glory of the Inner Force" (1975)