domingo, 18 de setembro de 2022

Spektar - Spektar (1974)

 

Sabe aquelas bandas, de caráter e reputação regional, que, quando descobrimos e ouvimos nos orgulhamos de gostar dessa música extraordinária que é o rock n’ roll? O que, para muitos, pode parecer algo deveras ortodoxo e muito linear, o rock n’ roll é híbrido e tem as suas bases em diversos estilos, como gospel, rockabilly, jazz, blues, música tribal africana, entre outros.

E por que falo de orgulho? Exatamente por isso! Pela inevitabilidade do rock! Sim, caros amigos leitores! Ainda há, sempre teve, na realidade, bandas que nunca se renderam aos clichês do estilo e dos rótulos que muitas almejam para ganhar um lugar ao sol no reino fantástico da indústria fonográfica e o descartável e irreal sucesso.

E o caráter regional não é demérito para banda alguma! Claro que, sob o aspecto comercial da coisa, a banda perece, não foi competente, fracassou! Mas neste reles e humilde blog, as bandas “fracassadas” reinam absolutas. Amamos o fracasso! Aqui as bandas exprimem as suas verdades!

E a banda de hoje vem de longe, de uma região que sempre ganhou as manchetes pelas suas guerras, pelos conflitos locais, pelo ódio e a intolerância que esses eventos ocorrem, sobretudo pela questão perversa política e econômica: da Croácia, a ex-Iugoslávia.

Pois é, nobres leitores, da Croácia! Fujamos um pouco das regiões centrais do rock n’ roll, para provarmos, definitivamente, de que há vida, há rock em outros cantos desse planeta e de boa qualidade!

E essa banda eu descobri, como sempre, em minhas incursões pela grande rede que, nesse aspecto, nos salva, graças aos abnegados que a usa para difundir a música de que amamos e achei a capa um tanto quanto indulgente, com os rostos dos integrantes em uma arte que os coloca em um plano um quanto divino, mas me interessou!

A música também se consome com os olhos! Quando comecei a ouvir foi uma espécie de deslocamento da vida cotidiana que me alçou para um plano melhor, de puro e genuíno prazer. Que sonoridade pouco atípica, mas que se identifica, mesmo caindo nos clichês do rótulo. Uma miscelânea improvável, mas que se encaixou divinamente.

Por isso que a minha saga pelo mundo perdido da obscuridade do progressivo continua e me coloco em um panorama viciante e saudável nos confins da música relegada ao vilipêndio, ao ostracismo, das bandas obscuras, vítimas, sim, das circunstâncias mercadológicas, do acaso ou do que quer que seja.

Mas sem mais delongas vamos às apresentações da croata SPEKTAR. Conhecem? Pois é, mais uma raridade que merece a luz. A banda veio, mais precisamente da cidade de Zagreb e se tornou muito conhecida naquela região, graças às suas apresentações ao vivo.

Spektar

O Spektar foi formado no início de 1974 pelo compositor, tecladista e percussionista Enco Lesić que havia acabado de sair de uma banda chamada Indexi. O Indexi foi formado em Sarajevo, atual capital da Bósnia e Herzegovina, em 1962, e tocava beat psicodélico com viés popular que lançou vários compactos e EPs com covers e composições próprias, alcançando sucesso por vários países do leste europeu.

Indexi

Lançaram apenas três álbuns, o primeiro em 1972, com uma música, chamada "Sve ove Godine" que lhes rendeu sucesso naquele mesmo ano. O segundo lançado em 1978 e o último em 1999. Apesar de continuar em atividade nas décadas de 1980 e 1990, o Indexi gravou muito pouco até se desfazer definitivamente em 2001.

Indexi - "Sve Ove Godine"

O nome da banda, voltando para o Spektar, foi inspirado em uma música do primeiro álbum do exímio baterista panamenho Billy Cobham, de nome “Spectrum”, lançado em 1973, e também uma faixa, na realidade uma sub-faixa, um fragmento da música “Searching For The Right Door / Spectrum”. Spectrum significa espectro, em inglês que, por sua vez, em croata, significa “spektar”.

Billy Cobham - "Spectrum" (1973)

O Spektar, quando lançou seu único álbum, em 1974, tinha a seguinte formação: Davor Rocco no baixo, Dragan Brčić na bateria, Neven Frangeš no piano e Enco Lesić nos teclados, sintetizadores, mellotron e vocal. Frangeš logo saiu ao lançamento do álbum, homônimo, para se dedicar a sua carreira acadêmica e no jazz, mas, de alguma forma, continuou a colaborar com a banda no palco. Davor, além do baixo, também produziu o trabalho do Spektar. Lesić, além dos teclados e vocais, dedicou-se as composições das músicas do álbum.

Mas antes de lançar esse trabalho o Spektar teve um caminho um tanto quanto, digamos, árduo, precisando fazer alguns shows, provar a sua qualidade nos palcos para enfim chamar a atenção de alguns empresários de gravadoras para finalmente documentar as suas composições. E isso, de certa forma, aconteceu.

A recém-formada gravadora “Suzy”, também conhecida pelo rico catálogo de licenças de estrelas do rock internacional (selos como CBS e WEA) que eles lançaram na Iugoslávia, obviamente queria promover uma banda de rock nacional sem muitos critérios de seleção. Enco Lesić, que já havia deixado o Indexi depois de escrever seu primeiro single de sucesso "Sve ove godine", provavelmente estava por perto e com alguma reputação por conta do sucesso da música, definiram que ele estava adequado para o “perfil” que procuravam, além da nova banda que ele havia formado. E assim finalmente o debut fora lançado.

“Spektar” trazia um rock progressivo com elementos de jazz, funk e música clássica. Um som complexo, versátil, beirando o sofisticado, mas muito acessível graças ao rock n’ roll, cerne da sonoridade da banda. Outra peculiaridade, pelo menos para nós, do Ocidente e acostumados a ouvir bandas em inglês, do Spektar é que a banda canta em seu idioma natal.

O álbum abre com a música “Spektar I”, que tem uma levada funk bem dançante, que vale conferir, bem como a faixa que fecha o disco, “Spektar II” e “Vrisak Mora”, são certamente destaques do álbum.

"I"

Na sequência temos “Pjesmom Bih Htio Da Kazem” que começa em clima bem introspectivo sustentado pelo piano e um vocal bem obscuro.

"Pjesmom Bih Htio Da kazem"

“Ona Se Igra” tem uma levada bem radiofônica, bem comercial. “Dobri Kapetan” tem uma levada meio jazzística e bom desempenho vocal, que desemboca em um hard rock vigoroso que me remete ao Atomic Rooster, grande faixa.

"Ona Se Igra"

“Mora” também traz o destaque do vocal com um belo alcance e potência, uma música viajante, com uma base de teclado excepcional. “Žene, Žene” segue a mesma linha de “Ona Se Igra”, bem pop e comercial.

"Mora"

“Spektar II” fecha o álbum como começou com a predominância de teclas nervosas, bem dançantes e potentes com uma levada jazzística ao estilo bem “roots”.

O Spektar, logo após o lançamento do álbum, se desfez devido ao pouco sucesso e a baixa vendagem de seu álbum. Brčić e Rocco tentaram reformular a banda meses depois sob o mesmo nome e se unindo a outro tecladista, de formação clássica, Neven Franges. Esta formação do Spektar pode ser ouvida no álbum de 1976 chamado "Rođenje", quando se juntaram ao cantor e compositor Drago Mlinarec, além dos álbuns subsequentes, "Negdje Postoji Netko" e "Sve Je u Redu", todos esses obtendo um aclamado sucesso.

"Rodenje" (1976)

Enco Lesić construiu uma das carreiras de produtor mais bem-sucedidas em negócios musicais na ex-Iugoslávia, mas faleceu, com 63 anos de idade, em 30 de julho de 2013. Ele foi muito importante para a cena rock na Croácia e ponto culminante dessa importância, além de suas bandas obscuras dos anos 1970 foi quando, na década de 1980, abriu o estúdio “Druga Maca”, em Belgrado, na Sérvia, antiga ex-Iugoslávia.

Enco Lesic

Foi, por exemplo, neste estúdio que foi gravado o álbum "Package Arrangement", que incluía Idols, Electric Orgasm e Šarlo the Acrobat. Enco Lesić também foi o produtor do álbum. Outras bandas que produziram em seu estúdio, bem conhecidas na Sérvia, foram Ekaterina Velika e U Skripcu.

O fato é que, bandas como Spektar, merece a luz e mostrar ao mundo verdadeiras pérolas do rock progressivo que parecem, para nossa sorte, minar e que pedem para se mostrar e, mesmo que, cronologicamente antigas, traz o frescor da novidade e da perpetuação da música de que tanto amamos.



A banda:

Enco Lesić nos vocais, piano, Hammond, sintetizadores.

Davor Rocco no baixo, guitarra e percussão

Dragan Brčić na bateria e percussão

Convidados:

Nada Zgur nos backing vocals

Simona Sterle nos backing vocals

Zvezdana Sterle nos backing vocals

Palmira Klobas nos backing vocals

Alenka Felicijan nos backing vocals

Zeljen Klasterka na guitarra (Faixa 5)

Milan Ferlez na guitarra (Nas faixas 3 e 6)

 

Faixas:

1 - Spektar I

2 - Pjesmom bih htio da kazem

3 - Ona se igra

4 - Vrisak mora

5 - Dobri kapetan

6 - Mora

7 - Zene, zene

8 - Spektar II


 

"Spektar" (1974)

 










 



 


 


 









 


 


sábado, 10 de setembro de 2022

Bulbous Creation - You Won't Remembering Dying (1969/1970 - 1994)

 

A gente precisa ter muito cuidado para pontuar pioneirismos a determinadas bandas! Embora pareça contraproducente falar, abordar sobre esse tema, haja vista que, dependendo da década ou do período que seja pauta de tal discussão, com a profusão de bandas que surgem, é um assunto interessante de se discutir, pois nos faz entender, compreender a música de que ouvimos.

E a década de 1970 surgiu com uma cena prolífica, grandiosa com uma infinidade de bandas com uma qualidade incomparável, se tornando, a meu ver, como o período mais rico da história do rock n’ roll!

Foram bandas que flertaram, experimentaram inúmeros estilos que, embrionários que eram, foram construídos, passo a passo, forjados diante da escuridão do começo, o big bang da criação sonora. E cada estilo que se formatavam se alimentavam uns dos outros, se interdependiam, nos ensinando que o rótulo não poderia ser seguido a ferro e fogo, apesar da nossa extrema necessidade de pertencimento a um grupo social, neste caso por intermédio da música. As cenas eram, assim, criadas.

E com o pioneirismo vêm os fatos cronológicos! Quem surgiu primeiro? Quem criou determinado estilo de música? Quem foi o responsável por ouvirmos hoje, 20, 30, 40, 50 anos depois a música que amamos tanto, que é o nosso oxigênio? Parece ser cada vez mais difícil darmos um marco, pontuarmos uma pedra fundamental para a nossa música.

E com o hard rock, o heavy rock, a música pesada, como um todo, se descortina uma missão que parece ser impossível de identificar. E, convenhamos, que bom que é difícil pontuar o primeiro, se é complicado é porque temos uma infinidade de bandas que, mesmo antiga, nos traz grandes novidades.

Eu conheci, há certo tempo atrás, uma banda, oriunda de Kansas/Missouri, nos Estados Unidos, que sintetiza bem esse exemplo que cito, de bandas antigas, esquecidas, obscuras que, mesmo em tempos atuais, suscita discussões com relação a pioneirismo de determinados estilos dentro do rock n’ roll.

Eu não me recordo em que circunstâncias a conheci, mas uma coisa eu tenho certeza: trata-se de uma banda de hard psych norte americano! Ah como adoro essa cena obscura pesada do início dos anos 1970 dos Estados Unidos! Embora creditemos o pioneirismo a bandas britânicas como Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath, da música pesada, não podemos negligenciar a história e importância de bandas como Coven, Blue Oyster Cult, por exemplo, nesse período tão importante do hard rock.

E como colocar no mesmo rol de Sabbath, Purple e Zeppelin, as bandas obscuras, que tiveram uma curta discografia, que não vingaram? Parece difícil falar sobre pioneirismo nesses casos. Mas temos que levar em consideração que o fracasso comercial não invalida a importância dessas bandas que caíram, por algum motivo, no ostracismo, por isso que esse blog existe!

E o que dizer de bandas que gravaram em um determinado ano, mas o material sequer foi lançado, sendo esquecido, engavetado? Mais difícil ainda reivindicar a sua importância, diante dessa “distorção cronológica”!

A banda que eu falo é o BULBOUS CREATION! Rara, obscura, pouco conhecida, poucas referências sobre a sua história... Como dar a devida importância a sua obra? Difícil, não é?

Mas quando você dá o “play”, não importa a mídia em que você o ouvirá, logo atestará a sua importância e o quão o som é importante, levando em consideração o ano em que fora concebido: final de 1969, início de 1970. Um período transitório em que se respirava o movimento hippie, o “flower power” e a banda nos traz uma sonoridade vanguardista, nova, arrojada.

Se esse álbum tivesse sido lançado em 1969 seria, sem sombra de dúvida, tão importante quanto o primeiro do Black Sabbath que, apenas para constar, era oriundo do blues, do hard e do psicodélico, por exemplo. Seria tão grande e disso, ao ouvir o seu único álbum lançado, eu não tenho dúvida. Talvez esteja sendo, para muitos que está lendo essas linhas, leviano em comparar o Bulbous Creation com o grande Black Sabbath, mas o farei sem hesitar e logo provarei quando dissecar, faixa a faixa, o seu único rebento, o “You Won’t Remember Dying”.

Um psicodélico que chuta a porta e vai entrando, invadindo sem dó e piedade, com aquela típica guitarra ácida, lisérgica, poderosa, distorcida, um proto metal revolucionário, que, sem sombras de dúvidas faria escola para muitas bandas medalhonas que surgiriam depois, mesmo que seu álbum tenha sido engavetado, jogado para escanteio pela indústria fonográfica. Assim é “You Won’t Remembering Dying”!

E esse álbum psicodélico pesado e raro, extremamente obscuro traz também uma capa soberba, alojado em um pioneirismo até na arte gráfica, se tivesse sido lançado na época em que fora concebido. Por ter sido lançado décadas depois de sua gravação, não se sabe ao certo se essa era de fato a capa que tinha sido produzida para o seu lançamento nos longínquos anos 1960/1970, mas a caveira pensativa ao estilo Auguste Rodin, artista francês, com a sua obra proeminente, “O Pensador”, é definitivamente impagável e o título, com a tradução livre “Você não vai se lembrar de morrer”, sintetiza bem o nome do álbum e reproduz muito bem também o teor das suas letras, com tons ocultistas, satânicos e pesados para o seu tempo. 

Mas olhando com mais detalhes, nota-se uma agulha, talvez denunciando o uso da heroína, tão comum naqueles tempos, o que pode explicar que o uso indiscriminado do psicotrópico pode fazer com que a pessoa sequer lembre de que morrerá.

A banda é, em todas as suas características, uma revolução ambulante ao proto metal, ao hard rock! O Bulbous Creation, quando da concepção de “You Won’t Remembering Dying” era formado por: Paul Parkinson nos vocais e guitarra, Jim "Bugs" Wine no baixo, Alan Lewis na guitarra principal e Chuck Horstmann na bateria.

E esses caras de Kansas, para variar, sem nenhum apoio, gastaram as suas escassas economias e alugou um estúdio, o “Cavern Sound Studios”, em Missouri, e gravou oito faixas, ao vivo, em um dia! Pasme o tempo curto de gravação, algo que atualmente é impossível de ser feito.

O Bulbous Creation era tão pesado e barulhento quanto o Black Sabbath, quanto o Coven, quanto O Deep Purple, mas não teve a sorte de ter o seu trabalho lançado naquela época e sabe-se lá o motivo pelo qual não ganhou a luz naquela época. Uma obra de heavy psych que merece a atenção, merece a reverência de quem aprecia o estilo. E hoje podemos ver um pouco do Bulbous Creation em várias bandas de stoner rock que alia o hard rock com uma sonoridade mais voltada para o rock psicodélico. Era o que o Bulbous Creation fez com “You Won’t Remembering Dying”.

Então sem mais delongas vamos disseca-lo e reproduzir todas as percepções acerca deste excelente álbum. O álbum é inaugurado com a faixa “End Of The Page” que, meio que contrariando essas percepções, vem com uma balada, com uma guitarra dedilhada a estilo The Doors e um vocal soturno, sombrio, mas limpo e viajante. Assim é a música em toda a sua execução: contemplativa e viajante.

"End of The Page"

Mas com “Having a Good Time” a situação muda de figura totalmente! Um cover de Ten Years After vem como um furacão, varrendo tudo com riffs pesados e pegajosos e vocais altos, de grande alcance e gritados e uma bateria marcada e pesada tendo o baixo dando o ritmo e balanço necessário para torna-la dançante e solar.

"Having a Good Time"

Na sequência “Satan” já inicia com um solo de guitarra que virou a referência para muitas bandas de hard rock e heavy metal nos anos que se seguiram, com peso e indulgência e assim a música segue, com peso e agressividade, mas com cadência dando ênfase a letra sombria e com tonalidades ocultistas. E o que dizer do solo de guitarra? Fantástico! Simples, mas fantástico!

"Satan"

“Fever Machine Man” segue com o mesmo conceito sonoro da faixa anterior: guitarras pesadas, riffs pesados e vocal despretensioso, gritado, com um baixão pulsante que parece seguir fielmente as características vocais que descamba para solos sujos e arrogantes, fugindo do básico virtuosístico de alguns figurões do instrumento daquela época.

"Fever Machine Man"

“Let's Go To The Sea” é a mais longa e complexa do álbum! A entrada da bateria já denuncia o seu destaque nessa faixa e traz uma versão mais arrastada, graças aos riffs sujos de guitarra, mas que, ao mesmo tempo, entregam solos bem elaborados que se mostra em uma incrível sinergia com a “cozinha” da banda, com bateria marcada e baixo pulsante. O vocal, mais uma vez, tem destaque, com qualidade e limpidez.

"Let's Go To The Sea"

“Hooked” inicia ao estilo hardão com riffs pegajosos e pesados, lembrando um doom metal, cadenciado, arrastado, mais agressivo, que é envolto em solos simples de guitarra bem interessantes.

"Hooked"

“Under The Black Sun” é a mais pesada, sem sombra de dúvidas, do álbum. Ela começa voraz, agressiva, veloz, entregando um heavy metal de vanguarda, com a bateria dando o tom e materializando esse peso de uma forma veemente.

"Under The Black Sun"

E fecha com “Stormy Monday” que começa introspectiva, com aquela guitarra dedilhada, com um vocal mais grave, austero, envolto em uma capa de blues rock repleto de lisergia, aquela guitarra ácida, mas que, ao mesmo tempo, é executada com qualidade e decência.

"Stormy Monday"

Como disse “You Won’t Remembering Dying” não foi lançado oficialmente na época de sua gravação, em 1969/1970 e só foi ganhar a luz quase vinte e cinco depois, em 1994, pelo selo “Rockadelic. 

Reza a lenda que os executivos da gravadora, quando descobriram o material, decidiram procurar a banda, quem sabe para, além de lançar o álbum, que foi o que aconteceu promover a banda, quem sabe financiar uma turnê, shows, mas não encontrou o paradeiro de nenhum integrante do Bulbous Creation, o que faz deste álbum, desta banda, extremamente raro, extremamente obscuro.

Em 2011 foi relançado pelo sub-selo “O-Music”, sob o antigo selo alemão “Green Tree Records”, mas traz uma capa totalmente diferente da versão anterior e quem sabe a que poderia ter sido lançada em 1969/1970 e, convenhamos, está longe de ser a melhor capa.



O híbrido underground de Bulbous Creation, com o seu “You Won’t Remembering Dying” faz da banda, embora a cronologia do tempo não o favoreça no que tange ao pioneirismo da sonoridade, uma banda arrojada, revolucionária e a frente do seu tempo e que bom que tal máxima é corroborada pelo seu tardio lançamento oficial que corrobora a materialização da sua importância para o heavy rock, o hard psych etc. Não importa a nomenclatura, mas a sua referência para as bandas de hoje e sempre.




A banda:

Paul Parkinson nos vocais e guitarra

Jim "Bugs" Wine no baixo

Alan Lewis na guitarra principal

Chuck Horstmann na bateria


Com:

Linny Wener nos teclados (Em algumas faixas)

 

Faixas:

1 - End Of The Page

2 - Having A Good Time

3 - Satan

4 - Fever Machine Man

5 - Let's Go To The Sea

6 - Hooked

7 - Under The Black Sun

8 - Stormy Monday

 

 

"You Won't Remembering Dying" (1969/1970 - 1994)

















 















 


quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Light - The Story of Moses (1972)

 

Quando você fala do rock progressivo holandês quais as bandas que vem à cabeça? Essa é uma resposta fácil e curta e grossa: Focus! Não há como negligenciar a história desta banda para o rock holandês e que ganhou o mundo com a sua música e a sua vasta e rica discografia que, anos após anos ganha frutos consistentes e de grande relevância.

E posso dizer isso com a certeza de ter visto essa banda tocar no Rio de Janeiro há alguns anos atrás e, apesar de não ter a formação clássica que gravou os grandes álbuns setentistas ela continua com a mesma chama e a mesma força dos tempos de outrora. Sem contar que o Brasil sem sombra de dúvida é um dos fãs mais ardorosos do Focus.

Mas é claro que essa é a deixa para dizer que não é só do Focus que é feito o rock n’ roll holandês, sobretudo a do bom e velho rock progressivo. Eu me lembrei do Focus também porque a banda que falarei agora eu descobri e, lembro muito bem disso, poucos dias depois desse inesquecível show do Focus que assisti no emblemático e histórico Teatro Rival, no Rio de Janeiro.

Eu pensei: Poxa, conheço pouquíssimas bandas de prog rock holandês e gostaria de sanar esse “problema” conhecendo e ouvindo um pouco mais das bandas existentes nesse país. Então quando se quer conhecer um pouco mais sobre algo, você tem que ir para o garimpo, para a pesquisa e, meio que aleatoriamente, com algumas palavras chaves nos sites de busca me pus a pesquisar.

E algumas bandas foram aparecendo diante dos meus olhos e logo fiz algumas seleções e não demorei muito a começar a ouvir algumas bandas e álbuns, na maioria, claro, obscuras, pouco conhecidas. Algumas eu gostei muito, outras nem tanto, descartando das minhas pretensões de audições futuras, outras me arrebataram de uma forma que eu não poderia ficar apenas nas audições e escrever, buscar mais informações, conhecer a sua história.

Nessa época eu não tinha o blog, mas escrevia em alguns grupos temáticos nas redes sociais e escrevi sobre a banda holandesa de hoje. E atualmente detentor de um blog eu precisava reeditar esse texto, que eu havia arquivado dando, claro, a devida recauchutada para compartilhar com os amigos leitores.

Então sem mais delongas vamos às apresentações! Falo da banda LIGHT com o seu único álbum lançado, há cinquenta anos, em 1972, chamado “The Story of Moses”. E ouvindo esse álbum não tem como não fazer aquele comentário que eu sempre faço e, apesar de ser redundante, de que por mais que conhecemos, por mais que o nosso leque de opções aumenta, descobrimos que ainda estamos no ponto de partida, pois quase nada sabemos. O universo é vasto e pouco explorado.

O Light foi formado na cidade de Gouda, uma cidade neerlandesa que fica na província da Holanda do Sul e se chamava inicialmente de “Light Formation” no final da década de 1960 e tinha na formação os seguintes músicos: Joop Slootjes (baixo), Adrie Vergeer (teclados), Sjaco van der Speld (bateria) e Gerard Steenbergen (guitarra). Em seguida, o nome foi reduzido para Light e adicionado Hans de Bruin (saxofone, flauta) e o baterista Sjako van der Speld (da banda Avalanche).

E como muitas bandas que recebem quase pouco ou nada de apoio da indústria fonográfica e dos seus empresários, sofreu em sua caminhada até o lançamento do seu primeiro álbum que só veio em 1972.

“The Story of Moses” ou na tradução livre, “A história de Moisés”, esse mesmo, o personagem bíblico que libertou os israelitas da escravidão do Egito e os guiou para a terra prometida, Canaã. Parecia que na virada dos anos 1960 para os anos 1970 era um tanto quanto moda se produzir peças conceituais com temas da bíblia. 

Temos o "Jesus Christ Superstar" ou "666" da excelente banda grega Aphrodite Child ou o disco do Rovescio dela Medaglia, de 1971, o “La Bibbia”, cuja resenha pode ser lida aqui, entre outros álbuns, filmes e peças teatrais que, de forma arrojada e pouco convencional, contaram algumas passagens da bíblia e de alguns personagens que compõe o livro sagrado.

O único rebento do Light é de fato a síntese do que é o rock progressivo: um rock conceitual, calcado no mellotron, dos teclados e nas letras que reforçam veemente o tema proposto. E esse trabalho começou a ser cunhado no final de 1970 com o pianista e compositor holandês Adri Vergeer que, além de ter sido o fundador da banda, também foi a espinha dorsal para a peça conceitual baseada nos feitos de Moisés e, seguindo o exemplo de E. Lloyd Webber decidiu contar a história do Êxodo do Egito percorrendo, com requintes de detalhes os seus episódios-chave.

No final do ano de 1971, o épico de quase quarenta minutos foi concebido pela banda, contando também com alguns vocalistas e músicos convidados. E agora precisava de uma gravadora e de uma boa estrutura de estúdio para materializar em música o seu álbum. Essa é a parte mais difícil sempre, sobretudo em se tratando de temas complexos e intricados, mas o tema poderia ajudar a atiçar a curiosidade de um figurão da indústria.

Por sugestão do caçador de talentos e chefe da Barclay Records Eddie Barkley, o Light chamou a atenção do produtor de som Bert Schouten. Este último estudou cuidadosamente o trabalho dos músicos e acabou assinando um contrato com eles. Então faltava muito pouco para incorporar a história de Moisés nas condições de estúdio. Em 1972, “The Story of Moses”, foi gravado no Phonogram Studio em Hilversun.

A formação do Light quando “The Story of Moses” foi gravado tinha: Adri Vergeer no paino, órgão, mellotron e vocal, o Light, quando concebeu “The Story of Moses”, era formado por Gerard Steenbergen na guitarra acústica, Joop Slootjes no baixo, Hans de Bruin no saxofone e flauta e Sjaco Van Der Speld na bateria e vocal. Contou como convidados o guitarrista Hans Hollestelle (que mais tarde tocou na banda Spin) e do baixista Guus Willemse, excelente banda Solution e Marian Schatteleyn e Robbie Dale nos vocais.

“The Story of Moses” mostra um rock progressivo sinfônico muito bem executado tendo um grande destaque na parte instrumental, sobretudo nos teclados, como todo e qualquer álbum de prog sinfônico. Tendo destaque também na guitarra acústica, baixo, saxofone, flauta compondo um complexo álbum de rock progressivo. Tem uma levada jazzística e erudita, inspirada em música clássica e o peso do hard rock.

O álbum é inaugurado com a faixa linda “The Water” cuja introdução tem uma bela orquestração, regida por um teclado tocado de forma simples com muita emoção e qualidade e um vocal que segue em um timbre que complementa a atmosfera da faixa, sem contar com o solo de guitarra meio jazzística.

“The Blackberry Bushes” tem uma levada latina, com percussões que me remete a Santana nos áureos momentos em uma mescla com teclados tocados freneticamente, uma bela combinação. Destaques também para o vocal e a bateria bem jazzística.

Em “White Turns Into Black” prevalece o teclado dando a tônica da faixa, bem como segue em todas as músicas do álbum com teclas bem energéticas mas com muita qualidade sonora, mas trazendo uma mescla mais pesada assemelhando-se a um hard rock cadenciado.

“The Nuisances” tem a introdução mais leve do teclado, ao estilo psicodélico, meio beat, com passagens mais acessíveis, mais comerciais, com vocais melosos e bem entrosados. Lembra e muito os primeiros álbuns, mais lisérgicos, mas mais comerciais, do Iron Butterfly.

“The Desert” começa com os teclados mais distorcidos, traduzindo em uma atmosfera mais densa e pesada, mas os vocais protagonizam uma virada mais leve na condução da música, tornando-a mais contemplativa e intimista, dando aquele caráter mais psicodélico também como na faixa anterior e os instrumentos de sopro trazendo todo o ambiente que versa a letra e o álbum, como um todo.

E fecha com “The Red Sea” que se anuncia com os teclados bem sombrios e introspectivos e com uma pegada hard com uma bateria um pouco mais forte e marcada, com algumas passagens jazzísticas e um baixo mais pulsante.

Poucas são as informações que circulam na grande rede sobre o Light e o seu único álbum, o “The Story of Moses”, mas o que pude apurar com o trabalho de pesquisa para ajudar a construir este texto que o amigo leitor está apreciando é de que o álbum, apesar de ter sido gravado na Holanda, não foi lançado por um selo daquele país, mas por um selo francês e alemão em 1972, “Barclay” e “Brain”, respectivamente.

Somente em 1993, vinte e um anos depois de seu lançamento o álbum foi lançado, no formato CD, por um selo holandês, o “15HKK” e em 2006, também em CD por uma gravadora espanhola chamada “Estrella Roquera”. Outras fontes dão conta de que sequer o álbum fora lançado em 1972 e que a fita máster que continha as músicas foi encontrada por um selo espanhol que finalmente a lançou.

O fato é que a música do Light, embora não traga nada de inovador à época, foi capaz de criar as suas próprias composições, diferente de bandas como Ekseption, por exemplo, outro clássico do prog rock holandês. 

Não há como negar que a infinidade de teclados utilizados, violão, baixo, saxofones, flauta e bateria, que a música desta banda trouxe complexidade para que construísse com êxito um álbum conceitual cujo tema era extremamente exigente. Trata-se de um álbum obscuro, mas clássico quando se trata da concepção mais evidente e veemente do que se convenciona como rock progressivo.


A banda:

Adrie Vergeer no piano, órgão, mellotron, teclados e vocais.

Gerard Steenbergen na guitarra acústica

Joop Slootjes no baixo

Hans de Bruin no saxophone e na flauta

Sjaco van der Speld na bateria e vocais

Músicos convidados:

Guus Willemse no baixo

Hans Hollestelle na guitarra elétrica

Marian Schatteleyn no vocais

Robbie Dale nos vocais


Faixas:

1 - The Water

2 - The Blackberry Bushes

3 - White Turns Into Black

4 - The Nuisances

5 - The Desert

6 - The Red Sea


Light - The Story of Moses (1972)

 




 








 


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Fraction - Moon Blood (1971)

 

Segunda metade dos anos 1960. O mundo estava agitado, intenso e, diria, em alguns momentos, tenso. A Guerra do Vietnã era um engodo democrático da polícia do mundo! O mundo protestava contra a polícia do mundo! A contracultura florescia e protestava e, por intermédio de várias manifestações artísticas deixavam os seus registros, a sua revolta perante o status quo ultraconservador.

A música, claro, deixou a sua marca, sobretudo a cena psicodélica de Los Angeles, com uma profusão de grandes bandas que deixaram clássicos para todo o sempre com a sua atemporalidade e nessa toada podemos destacar The Doors, Janis Joplin e tantos outros que ajudaram a construir a cena rock, não apenas local, mas de todos os Estados Unidos e que, claro, foi exportado para o mundo inteiro, servindo de inspiração para o surgimento de tantas outras bandas.

Mas é claro que a cena também teve o seu lado obscuro e esquecido, de bandas que caíram no ostracismo ou aquelas que simplesmente nasceram fadadas à morte. Digo à morte comercial, até porque precisamos, de uma vez por todas, diferenciar ou dissecar as faces do sucesso e do fracasso, o que é oriundo de oportunidade ou da falta da mesma ou da falta de talento.

A cena obscura norte americana de hard rock e psicodélico é definitivamente grandiosa em termos quantitativos e qualitativos e que, sem sombra de dúvida, viveu ou sobreviveu em paralelo ao glamour e reconhecimento de público e crítica das grandes bandas que, com algum merecimento, sim, ostentou o status de pioneiras em diversos segmentos do rock n’ roll.

Eu poderia citar inúmeras bandas americanas de hard psych obscuras, afinal sou um apreciador do estilo e da cena obscura estadunidense e a cada dia parece renascer com cada descoberta por mim feita. 

Para a minha alegria o rock n’ roll é um universo vasto, inexplorado e logo selvagem. Um mundo intocável que de posse precisa ser lapidado, registrado por textos, vídeos por seres abnegados para que ela, de alguma forma, se perpetue.

Como diante disso torna-se inviável elencar cada banda, vou citar uma rara, mas especial e não é especial tão somente por ser rara, mas pela sua sonoridade arrojada para a época. Falo da banda FRACTION e do seu único trabalho, lançado em 1971, chamado “Moon Blood”.

E já que comecei esse texto a falar da cena psicodélica que reinou absoluta em Los Angeles, cidade onde o Fraction foi concebido, e em todos os Estados Unidos, o ano de 1971 foi o início do pós-hippie. 

Hendrix, Joplin, Morrison, representantes da cena já estavam mortos, Manson, com a sua carnificina, praticamente enterrou o movimento “flower power” e algumas bandas, oriundas da cena tiveram que rever sua sonoridade, trazendo algo mais pesado e o grande representante desse momento foi o Iron Butterfly, por exemplo. Podemos exaltar tantas outras como Blue Cheer, Blue Oyster Cult...

O Fraction trouxe esse momento da música, sendo um representante fiel, com uma sonoridade densa envoltas em uma atmosfera mística e nebulosa, quase que oculta e sombria, pautado em letras cristãs meio que apocalípticas que me remete a italiana Il Rovescio della Medaglia em seus primórdios. São letras abstratas, algo pouco palpável para um entendimento “padrão” e visível incitando o ouvinte a pensar, refletir e a construir inúmeras interpretações, dependendo da experiência de vida de cada um.

Mas o som do Fraction ainda carrega alguns “resquícios” de um passado não muito distante da lisergia sessentista, com guitarras ácidas, com sons mesmerizantes e que induz a ouvir, a ouvir e a ouvir compulsivamente. Um verdadeiro espécime da transição das décadas.

Uma sonoridade dramática, comovente, por vezes grave, urgente e reconfortante, agradável e contemplativa, mas que descamba, para o frenesi do peso, da loucura que dilacera a alma com peso e até agressividade.

A banda era formada por trabalhadores normais! Sim! Operários, representantes comuns da classe trabalhadora e músicos diurnos. Eram músicos pela manhã ou durante a madrugada, pois durante o dia, dedicavam-se nos seus trabalhos formais. A banda era formada por Jim Beach nos vocais, Don Swanson na guitarra principal, Curt Swanson na bateria, Victor Hemme no baixo e Robert Meinel na guitarra rítmica.

Eles se conheceram nos anos 1960, por intermédio de vários outros conhecidos que tinham em Los Angeles. Tiveram, como muitos músicos estado em outras bandas antes e formaram no final daquela década o Fraction. Eles precisavam de algo novo, de algo que não estivesse associado à “finada” psicodelia sessentista e por querer trazer algo novo tinham, apesar das dificuldades de conciliar o trabalho regular, praticar e praticar.

O Fraction tinha um pequeno estúdio em um complexo industrial em North Hollywood e começavam a praticar às vezes, às 4h30 da madrugada! As sessões de gravação do álbum foram gravadas de forma semelhante e em tempo real. Foram apenas três horas em um “take”, nem overdubbing ou quaisquer efeitos sonoros adicionais adicionados. Foi aquela famosa gravação “old school”. É incrível o resultado e o impacto à música, ao rock à época e para a posteridade, haja vista que o estilo é tido como o precursor do stoner rock tão em voga atualmente em uma cena já saturada, inclusive.

A gravação de “Moon Blood” aconteceu no Whitney's Studio em Glendale, na Califórnia, no início de 1971. Com um orçamento baixo, restrito foram lançadas apenas com 200 cópias! 200 pessoas privilegiadas que tiveram a primeira prensagem dessa pepita sonora! Foi lançado por um pequeno selo de música cristã chamado “Angelus”.

As letras, mencionadas como abstratas e complexas, são do vocalista Jim Beach que cita, como inspiração para a sua música bandas de proto punk como Love e o The Doors como sua favorita na cena vasta de Los Angeles. Inclusive tinha uma lenda que reinava naquelas bandas à época de que “Moon Blood” era o álbum que o The Doors gostaria de ter gravado. Bem se isso é verdade eu não sei mas nota-se influência da banda de Morrison & Cia no trabalho do Fraction. 

Diria mais: embora a questão cronológica dá conta de que o The Doors surgira antes do Fraction, não deixam de ser músicos contemporâneos, com o segundo, ouso dizer, mais arrojado flertando com um hard rock ainda embrionário. Além do Love Beach sempre se inspirou em Bob Dylan, sobretudo pela forma como escrevia as letras das músicas e em bandas de hard psych como The Yardbirds.

Letras de "Moon Blood"

Mas não podemos deixar de enaltecer o trabalho do guitarrista Don Swanson! O homem foi o responsável ou um dos responsáveis, apesar da obscuridade de sua banda, diante do glamour da cena de LA, de implementar uma modelo para o que é agora comumente conhecido como “Stoner Rock” ou “Acid Punk” com solos avassaladores com muito “wah-wah” com amplificadores elevados ao limite!

A guitarra de Swanson sempre foi a força motriz por traz da criatividade inquieta e pouco convencional de Beach na concepção das letras das músicas, definitivamente uma dupla dinâmica e poderosa que, de forma arrojada, criou um conceito, um som novo, mas sem padrões e com um leque incrível, cheio de versatilidade.

As contribuições dos outros caras não devem ser subestimadas. O baterista Curt Swanson mantém as coisas em constante ebulição, tudo ferve na sua bateria pesada e marcada, fazendo a engrenagem sonora do Fraction levitar, tendo também no baixista Victor Hemme o parceiro ideal. A “cozinha” fervilha!

Embora eu não seja um entusiasta de comparações e os riscos que se incorre quando, de forma patológica, se compara o tempo todo, bem como o seu único rebento, “Moon Blood”, traz à tona bandas como The Stooges e MC5, mas não tão agudos, diria, com um pouco da lisergia perdida nos anos 1960. As bandas marginais que, sem nenhum tipo de apoio e sem nenhuma perspectiva digna de vida que influencia diretamente na sonoridade da banda.

O Fraction tem como base sonora o rock cristão (Christian Rock), mas com um viés sombrio, perigoso e perturbador, fazendo da banda obscura e esquecida nos porões empoeirados e sujos do rock n’ roll! Naquela época parecia se ter certa demanda cristã narrada de uma forma, diria, pouco ortodoxa, seja no cinema, com os clássicos bíblicos, no teatro e na música não foi diferente, produzindo, de alguma forma, bandas como o Fraction.

E para não fugir do assunto “cristão” o nome do álbum, claro, é baseado em uma passagem bíblica de Joel (2:31) que diz:

“"O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor."

Então sem mais delongas vamos ao que interessa: ao álbum, faixa por faixa! Este é inaugurado por “Sanc-Divided” que traz guitarras bem despojadas, potentes, cheia de recursos definindo um clima intenso, forte, mas sombrio e intimista, ao mesmo tempo. A música cresce, ganha corpo e depois vem um turbilhão de fuzz impiedoso, mas reduz o ritmo. Uma música cheia de alternância rítmicas.

"Sanc-Divided"

“Come Out of Her” traz o destaque vocal de Beach bem rosnante, perigoso e indulgente com um extrema competência e alcance. E que logo é incrementado com um solo linfo de wah-wah que leva o ouvinte a uma onda psicodélica até o fim da música!

"Come Out of Her"

Na sequência tem "Eye Of The Hurricane” que é, sem sombras de dúvidas, o ápice do álbum, mágica do seu início ao fim, com os seus nove minutos de duração. Traz uma jam pós-apocalíptica com um excelente trabalho de guitarra com complexidade, mas orgânica e de muita, mas muita intensidade.

"Eye Of The Hurricane"

“Sons Come to Birth” é a balada do álbum que tem toda a dinâmica perfeitamente definida. Os tons psicodélicos aparecem em cada riff de guitarra, mesclado a uma pegada mais ácida, lisérgica. O baixo conduz a um groove que prepara a música para algumas boas e inspiradas improvisações.

"Sons Come to Birth"

E fecha com “This Bird (Sky High) traz uma seção de poesia meio que falada ao estilo, adivinhem, Jim Morrison, do The Doors, mas que culmina com uma explosão de rock n’ roll de altos decibéis, envoltos em riffs de guitarra e solos de guitarra com força total, com vocais lamentosos e roucos.

"This Bird (Sky High)"

Com o lançamento do álbum “Moon Blood”, em 1971, o sucesso e o reconhecimento pelo excelente trabalho não foram devidos, decretando o fim do Fraction. A banda se separou logo em seguida, voltando os músicos as suas rotinas de trabalhadores comuns e formais.

Mas depois de vários bootlegs ao longo dos anos, em 1999, “Moon Blood” ganhou uma reedição no formato CD pela primeira vez e apresentou três faixas bônus inéditas: “Prisms”, “Dawning Light” e “Intercessor’s Blues” ganhando uma reverberação da força já atestada nos primórdios da história do lançamento do álbum há quase quarenta anos atrás.

Em 2010 ganha mais uma reedição, pelo selo “Mexican Summer”, mas dessa vez no formato LP e também em CD, sendo que o primeiro teve, em sua linha de montagem, na sua produção, feito à mão, um a um, dando, ainda mais, importância para esse momento de resgate de uma banda vilipendiada e esquecida pela indústria fonográfica.


Essa reedição traz de volta à luz o Fraction que, certamente, no seu surgimento no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970 sequer vingou quando da concepção de “Monn Blood”. 

Não tenha dúvida que, com essas reedições e com o advento da tecnologia da informação, com sites e redes sociais, encurtando a comunicação, sem dúvida colocou a música da banda de Los Angeles um pouco mais em evidência, o que não acontecera em sua época e ao longo de mais de quarenta anos, fazendo desses álbuns um centro de verdadeira disputa entre colecionadores que estariam dispostos a pagar a bagatela de até US$ 2.000,00 por um exemplar.

Um exemplo de uma banda que, apesar de ostracismo, do esquecimento, e do tempo implacável, mostrou-se resistente e relevante pelo seu pioneirismo diante do tamanho de uma sonoridade que insiste em não envelhecer, mostrando-se cristalina, poderosa e vital aos que amam, de forma incondicional, o rock n’ roll. Infelizmente, o guitarrista Don Swanson faleceu em maio de 2013.



A banda:

Vic Hemme no baixo

Bob Meinel na guitarra base

Don Swanson na guitarra principal

Curt Swanson na bateria

Jim Beach nos vocais          

 

Faixas:

1 - Sanc-Divided

2 - Come Out Of Her

3 - Eye Of The Hurricane

4 - Sons Come To Birth

5 - This Bird (Sky High)




"Moon Blood" (1971)