domingo, 13 de março de 2022

Eela Craig - Eela Craig (1971)

 


Pós-guerra, anos 1950, próximo a Salzburg, Áustria. Crescia um menino que se chamava Harald Zuschrader. Ainda nesta década, em 1950, ele se muda, com seus pais, para Leonding, perto de Linz. Lá ele aprende a tocar o seu primeiro instrumento, o acordeão. Os pais também tocavam instrumentos musicais e eram bons cantores.

Como toda típica história de jovens e crianças que tem o seu primeiro contato com a música, o começo sempre vem com muito entusiasmo, euforia, alguns contratempos, claro, frustrações, medos, inseguranças, mas sempre carregados de esperança para alçar grandes voos, fazendo shows, se apresentando em vários palcos pelo mundo.

E com o jovem Harald não foi diferente. Ele foi aprendiz de orquestra, tocou em grupos de dance music, quando em 1970, auge do “flower power”, do Woodstock, e de uma embrionária cena progressiva, ele formou a banda EELA CRAIG. 

Em 1974 começou seus estudos musicais: flauta, violão, composição, além de formação pedagógica para a docência. A música na sua personificação didática ajudou e muito a Harald se tornar um grande instrumentista.

Harald Zuschader

Mas os primórdios do Eela Craig estava nas raízes do funk rock! Sim! Pode parecer improvável levando em consideração que seus trabalhos mais contundentes versam pelo progressivo sinfônico, mas, além do funk, algumas vertentes clássicas já fluíam e a partir dessa premissa o som do Eela Craig moldou, cada vez mais, o som da banda, tendendo também para o classic rock, sendo bombardeada também pelo som da época, marcada majoritariamente pelo rock psicodélico e também pela música experimental, lisérgica.

E a partir dessas inspirações, do modismo sonoro do rock n’ roll, que ganhava alguma credibilidade, graças a alguns festivais de grandes proporções, as bandas tinham a intenção de se apresentar, apresentar suas composições e gerar impacto a um público ávido por novidades no caráter de revolução.

O Eela Craig surgiu na escola e formada por jovens e isso já soava como revolução. O nome da banda surgiu nos pátios da escola e dois dos colegas de banda de Harald, Gerhard Englisch e Heinz Gerstmair que trouxeram o nome “Eela Craig” e é uma composição de palavras pura. Sempre pensaram que o nome da banda deve soar bem e ter certa mística, causar certo mistério em torno de seu nome e claro, deu certo.

Devido ao estilo sonoro do Eela Craig uma agência de música clássica chamada de “Konzertdirektion Schlote”, tomou conhecimento de sua existência, trabalhando com sucesso com esta agência por muitos anos fazendo shows pela Alemanha, Suíça, Itália, Turquia e, claro, a própria Áustria.

A influência que marcou o pontapé inicial da história do Eela Craig trazia na música experimental, eletrônica, tendo como base o sintetizador Moog, o órgão Hammond, tendo como referência a cena Krautrock alemã, além de bandas como King Crimson, ELP, Pink Floyd etc.

E foi com base nessas referências e instrumentos sonoros que se edificou o som do Eela Craig e do seu primeiro álbum lançado em 1971, o homônimo, alvo da resenha de hoje.

“Eela Craig” é um álbum obscuro, pouco conhecido, mas relevante para aquele pequeno país que nunca foi considerado o polo do rock progressivo mundial, mas que revelou para o mundo, apesar de não ter tido o devido crédito, um álbum de extrema importância para a formação de uma cena progressiva que, à época, era embrionária.

Ele foi gravado em um pequeno, modesto estúdio, na cidade de Linz, na Áustria, por um pequeno selo chamado Pro-Disc e foram prensadas apenas 1000 cópias do álbum. Ele foi produzido por um técnico de hobby da Universidade de Linz por 14 dias, afinal, os jovens músicos não tinham dinheiro para alugar um estúdio por muito tempo. O álbum foi relançado, no formato CD, pelo selo underground, mas emblemático alemão Garden of Delights.

Raro e extremamente belo, excepcional nota-se que, dada a sua qualidade experimental e viajante, é um álbum recheado de psicodelia, música progressiva e uma forte veia clássica, graças a história musical de um de seus fundadores. 

A banda possuía três tecladistas o que atenua a sua formação clássica e voltada para um rock mais experimental, mas complexo, de textura mais estruturada. E ainda contava com um pianista, além da flauta e do saxofone. A formação do Eela Criag neste álbum era: Horst Waber na bateria, Harald Zuschrader no órgão, flauta, guitarra e sax, Hubert Bognermayer nos teclados, Gerhard English no baixo, Heinz Gerstenmair na guitarra, órgão e vocal e Will Orthofer no sax e vocal.

Eela Craig

Comecemos a falar da faixa “New Born Child (Part 1 & 2)” cujo órgão é tocado de forma introspectiva, obscura que rompem em gritos agudos e aterrorizantes que logo suaviza com um piano e uma flauta, em uma balada linda e viajante, com temperos psicodélicos. Essa música é repleta de passagens desconcertantes, logo descamba para um baixo cadenciado e um jazz fusion lindo com um sax frenético e um sol de guitarra simples, mas finaliza a música magistralmente. Excelente faixa!

"New Born Child" (Part 1 & 2)

“Self Made Trip” começa também suave ao som discreto de um violão acústico e desabrocha em um solo lindo de guitarra e uma “cozinha” só fazendo aquela camada para dar o tempero ao som lindamente tocado e produzido nessa música. E assim permanece com uma levada até surgir o solo de flauta, espetacular! Outro grande destaque.

"Self Made Trip"

“A New Way” é outra linda balada com uma levada meio jazz, com ótima performance vocal e mais uma vez da flauta que conduz toda a música em sua questão harmônica. “Indra Elegy” fecha o álbum com uma introdução caótica de órgão, teclados e hammonds, uma faixa com uma veia bem sinfônica que lembra e muito o Emerson, Lake & Palmer. A música vai tomando corpo e substância com solos de guitarra assume uma cara mais hard. É impressionante a progressão da música e com uma passagem rítmica de invejar fica suave com um piano que descamba para um solo de guitarra arrepiante, algo meio Floyd, sabe? E quando entra o vocal, pronto! A viagem é garantida! Uma das mais lindas músicas de prog rock que já ouvi, até então, ouso dizer isso.

"Indra Elegy"

Era uma época de experimentações, de manifestações artísticas à flor da pele, a criatividade era o carro chefe, independentemente de como ela surgia, emanava e o Eela Craig a deixou dominar as intenções dos seus músicos, sem estereótipos, sem rótulos e foi com essa pretensão que a banda fez uma intensa turnê em 1972, ganhando alguma credibilidade em países como Itália, Alemanha e, claro, em seu país natal.



Garantiu, com isso, um contrato com uma grande gravadora, a Virgin Records, tendo, a partir daí, assumido uma nova vertente sonora em seus álbuns posteriores, ganhando um viés mais sinfônico e mais solar às suas músicas, mas isso já é outra história.



A banda:

Horst Waber na bateria

Harald Zuschrader no órgão, flauta, guitarra e saxofone

Hubert Bognermayer nos teclados

Gerhard English no baixo

Heinz Gerstenmair na guitarra, órgão e vocal

Will Orthofer no vocal e saxofone


Faixas:

1 - New Born Child

2 - Self Made Trip

3 - A New Way

4 - Indra Elegy

1st Movement: From Nowhere

2nd Movement: Burning

3rd Movement: Elegy

4th Movement: To Nowhere


 












 




sábado, 5 de março de 2022

Wicked Lady - Psychotic Overkill (1972-1994)

 


As origens primitivas, o big bang! O início que começa do nada! A história que não diz por ela só, devido a regras “documentais” acaba por não dar existência a quem merece dado a certos “infortúnios” no caminho tortuoso e difícil. Um álbum não lançado, o vilipêndio da indústria fonográfica, a fraqueza psicotrópica dos músicos. Tudo irrompe no ostracismo, na obscuridade do rock n’ roll. Isso faz com que o pioneirismo não seja credenciado a determinadas bandas?

Infelizmente essa se torna uma pergunta recorrente, talvez seja pela falta de consistência dela, algo que não se deve levar em consideração, pois o início sempre é questionável, muito por conta da riqueza da sonoridade e da cena e de algumas situações hipotéticas e relativas referente a concepção da música para cada ouvinte.

Mas algumas bandas que não gozam da pedra fundamental da origem da música pesada, por exemplo, precisa ser lembrado, serem colocadas no seu devido lugar, independente das agruras que sofrera no passado ou se essas redundaram em seu fracasso comercial.

Bandas britânicas, polo da música pesada nos anos 1960, 1970 e 1980, como The Who, The Yardbirds, Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Iron Maiden, Saxon, cada qual em sua geração ditaram moda no hard rock, imprimiram o seu modo de tocar e inspiraram cenas, comportamentos, tudo relacionado a música pesada em todas as sua encarnações, mas o que dizer das bandas obscuras que são contemporâneas aos figurões? Devem ser apagadas da história por motivos comerciais?

Claro que as bandas conhecidas são dignas de seu status, mas são aquelas à margem, as undergrounds que pereceram pelo simples fato de ter “existido” comercialmente falando. Estamos falando de música ou negócios?

E diante dessa discussão um tanto quanto existencial, surge da escuridão, na efervescente Inglaterra no final da década de 1960, mais precisamente em 1968, o WICKED LADY, que já é underground e provocador já no nome, que navegou no obscuro da cena, ainda embrionária da música pesada, na cidade de Northampton.

A banda era a personificação da cena contracultural da época, e aquela máxima, muito em voga em 1968, de “paz e amor” do hipismo definitivamente não era a vibe dos moleques do Wicked Lady. A música era pesada, crua, direta, arrogante, totalmente indulgente, um tapa na cara das músicas experimentais, chapantes do movimento hippista.

A banda era formada por Martin Weaver (vocal/guitarra), “Mad” Dick Smith (bateria) e Bob “Motorist” Jeffries (baixo) e como muitos jovens músicos começaram a tocar em pubs sujos e altamente perigosos, de pessoas que eram verdadeiras bombas relógio, sempre interessadas em brigar, tocando músicas dos outros. 

A primeira banda de Weaver, por exemplo, era cover, e que logo foi demitido pelo empresário com a alegação de que não se encaixava no som e que o baterista Dick e o baixista Bob também faziam parte dessa banda, mas que logo saíram e a formação, o embrião do Wicked Lady fora formado.

O guitarrista e vocalista Martin Weaver

Mas e o nome? Por que Wicked Lady? Diz a história de que os caras estavam em um pub bebendo muito, tentando pensar em um nome, porque tinham já um show marcado e o promotor do evento queria o nome para anunciar o show. 

O nome não saía, estavam bêbados e pouco inspirados, mas, sem querer, em um olhar despretensioso para um papel que anunciava uma cerveja que estava sendo lançada chamada “Wicked Lady” e que estava ali sobre a mesa. O guitarrista Marti Weaver pegou o papel e disse: “Que tal o nosso nome?” Os demais estavam tão chapados e cansados de pensar que decidiram aceitar sem contestar.

Os shows eram explosivos! A banda queria ser a mais barulhenta e pesada da cena e isso causava problemas nos pubs e casas de shows da região. A banda costumava deixar o feedback da guitarra quando terminavam uma música, enquanto “Mad Dick” quebrava a bateria e jogava seus destroços para a plateia e fazia isso antes do show acabar o que fazia, claro, que o precoce fim se materializasse deixando os donos das casas de show irritados e os promotores também, perdendo dinheiro.

O Wicked Lady tinha muito seguidores de motoqueiros que causavam problemas e os shows terminavam em um verdadeiro inferno, brigavam com a polícia nas ruas, os moradores reclamavam da música alta e chamavam a polícia e muitos dos pubs pelos quais o Wicked Lady passava deixava sua marca destruidora, pois, por conta desses “distúrbios” perdiam sua licença e eram impedidos de colocar música. Dá para notar que a reputação da banda não era das melhores.

Reza a lenda que a banda gravou os seus primeiros materiais, as suas primeiras composições em um porão, não tinham recursos para alugar um estúdio decente para compor seus riffs, arranjos e letras. O guitarrista Martin Weaver, em algumas entrevistas que concedeu, disse que as faixas, gravadas entre 1968 e 1972, foram gravadas durante alguns ensaios em um revox de quatro faixas e dizia ainda que as faixas foram colocadas para que pudéssemos lembrar como foram as músicas, não com a intenção de lançá-las. Em nossas mentes, éramos apenas uma banda ao vivo; a música gravada sempre parecia fraca e estéril em comparação com o som ao vivo.

Daí chega-se a conclusão, apesar da baixa qualidade na forma em que tais faixas foram produzidas, que a verdade, a crueza, a sujeira da música do Wicked Lady é evidente e notável, a grandeza do seu som é evidenciada pela sua decadência, pela sua adversidade e total falta de estrutura.

E esses registros sonoros traduziram em dois álbuns chamados “The Axeman Cometh” e “Psychotic Overkill” e o último será tema dessa aventura, dessa resenha. Mas por que o “Psychotic Overkill”? Porque traz a banda como ela foi, o auge, o ápice de sua condição, com todos os entraves técnicos e sonoros, trafegando do rock de garagem, na música pesada, no proto metal, no punk de vanguarda, no anti “paz e amor” da cena psicodélica, mas que, em algum momento, gozava de alguns “temperos lisérgicos” mesclados a hoje conhecida cena stoner rock das décadas de 2000. Esse álbum é concepção de tudo que conhecemos e entendemos de rock n’ roll, com clichês à parte.

"The Axeman Cometh"


O material de “Psychotic Overkill”, bem como também de “The Axeman Cometh” não foram lançados à época, sendo redescobertos e lançados em CD pelo selo “Kissing Spell” na década de 1990, sendo o primeiro lançado mais precisamente em 1994 e mais recentemente lançados no formato em vinil pelo selo “Guerssen”.

Mas voltando aos primórdios, devido às dificuldades impostas pelo atual cenário a qual o Wicked Lady estava inserido o fim da banda foi iminente, acontecendo, precocemente, em 1970, mas Smith e Weaver logo se reagruparam com o novo baixista, Del “German Head” Morley e a partir daí retomaram as suas gravações em caráter, como dizia Weaver, mais desleixado e sem nenhum interesse em registrar formalmente e assim surgiu a estrutura ideal para o “Psychotic Overkill”, segunda leva de materiais gravados, que consistia em uma seção intensa de riffs de guitarra, com alguns wah wah ao estilo Jimi Hendrix Experience, peso aliados à lisergia, a famosa crueza, sujeira, agressividade e um quê de dançante em alguns momentos.


“I'm a Freak” inaugura o álbum em uma espécie de petardo sonoro, um proto metal de encher os olhos e acalentar a alma, além de fomentar o desejo ato de headbangear. É pesado, é direto, é agressivo, é veloz e já começa com riffs pegajosos, com o vocal gritado de Weaver, a bateria batendo forte e agressiva com um baixo pulsante. É a ode ao peso em uníssono! A uma participação intensa e magistral de toda a banda nessa excelente faixa.

"I'm a Freak"

“Tell the Truth” corrobora, na sequência, o que foi inaugurado em “I’m Freak”: o riff sujo e pegajoso, algo meio doom metal, mas em uma “voltagem” mais lenta, mas não menos pesada. Uma vibe pesada, um hard agressivo e arrogante, mas em um tom mais obscuro, escuro, perigoso. Percebe-se também um pouco mais de complexidade, estrutura nos solos de guitarra, mais bem elaborados.

E já que falei em Jimi Hendrix Experience por aqui há sim um cover, relembrando o passado dos músicos, da icônica banda de Hendrix, o clássico “Voodoo Chile (Slight Return)”. Nessa excelente versão a original, tomada por uma levada mais blueseira, é esquecida pelo Wicked Lady, mas o wah wah, marcante identidade na forma que Hendrix tocava com a sua guitarra, foi copiada, mas o hardão comeu solto com a versão de Wicked Lady, menos sofisticada, mas desleixada e poderosa, e isso não se pode negar. Uma versão arrojada, arriscada e que não ficou no básico da cópia, na arriscada zona de conforto, muito pelo contrário. A música ganhou uma cara, um DNA todo especial do Wicked Lady. 

"Voodoo Chile (Slight Return)"

“Why Don't You Let Me Try” segue com a mesma proposta do album, riffs pesados e marcantes, mas traz uma pegada mais dançante e diria até mais acessível aos ouvidos, podendo cativar a todos os ouvidos e espectadores possíveis. A bateria traz o cerne dessa percepção sonora, dando certo groove, com o baixo confirmando tudo isso e dando a textura necessária ao som.

Na sequência tem, a meu ver, uma das melhores faixas do álbum: “Sin City” e segue aquele vibe mais “solar” da faixa anterior, bem dançante, os riffs ainda vivazes e presentes, com solos lindos de guitarra que faz você viajar e que provoca arrepios. Baixos e riffs de guitarra me remeteram ao heavy metal que, uma década depois se notabilizou com o Iron Maiden, aquele meio “cavalgado”. Excelente faixa!

"Sin City"

“Passion” já surge tirando o fôlego! Pesada, intensa, com bateria arrebentando com tudo, riffs de guitarra acompanhando, com um vocal mais trabalhado, mais melódico. Outra ótima faixa que é bem mais direta e perigosa que as faixas anteriores talvez.

Mas o épico do álbum é guardado para o fim, para fechar com chave de ouro: “Ship of Ghosts”, com os seus 22 minutos de duração, que antes dos comentários acerca da música, vale aqui uma curiosidade da sua origem: nos pubs e casas de shows que a banda tocava essa música, eles a tocavam repetidamente, improvisava, até para “alongar” a duração dos shows porque não tinham repertório para tocar, a ponto de serem retirados do palco pelo dono do local ou serem ameaçados pelo público que não aguentavam mais. 

Não esperem, pelo tempo de duração, que “Ship of Ghosts” é uma suíte, uma viagem progressiva, apesar de suas variância de som, mas sempre privilegiando o peso, a agressividade, mas com certa dosagem de complexidade e arrojo na composição, embora, em algumas entrevistas, o guitarrista Martin Weaver discordar de que as músicas do Wicked Lady tenham sido submetidas a um processo de composição e arranjos ou coisa que o valha, mas apenas como ele disse: “riffs e palavras”.

"Ship of Ghosts"

Riffs e palavras que traria um eldorado para a história da música pesada, um caminho que foi desbravado para muitos seguirem e construírem a música pesada a partir do pilar deixado pelo Wicked Lady. 

O passado pode não ter sido favorável, sob o aspecto comercial, para a banda, mas a música fala por si só e entrega ao mundo, cedo ou tarde, a capacidade de desbravar de uma banda que deixou registrado não apenas músicas, mas as suas verdades e que resistiu ao tempo, às intempéries causadas pelo cenário adverso de conservadores medrosos, de uma indústria fonográfica míope e ávidas apenas por dinheiro que esquecem, marginalizam as grandes obscuras bandas. 

Wicked Lady é uma daquelas bandas cuja história às vezes pode ofuscar sua própria música, mas não evita a sua importância que, graças aos abnegados gestores de selos alternativos trouxe à luz o rock obscuro do Wicked Lady. 

E falando em vilipêndio da indústria fonográfica cabe aqui mais uma curiosidade: Weaver, em uma de suas entrevistas, disse que quase conseguiu um contrato de gravação na época, mas havia batido na cara do executivo da gravadora A&R porque ele insultou a sua namorada. É isso, são histórias pitorescas que definem o seu curso.

Martin Weaver, quando o Wicked Lady finalizou pela segunda vez, se juntou ao Dark e participou da gravação do álbum “Round The Edges” que fora gravado em uma semana no estúdio SIS em Northampton, Inglaterra, sendo feitas cerca de 80 cópias entregues nas mãos dos músicos para serem repassados às pessoas mais próximas.

"Round The Edges" (1972)

Weaver formou uma banda chamada "Radar" nos anos 1980 e depois se concentrou na música solo tocando sintetizadores e guitarra. Dark se reformou nos anos 1990 e ele ajudou a gravar o álbum "The Anonymous Days”. Fizeram um show beneficente em 2011. 

O Wicked Lady esteve nos escombros do rock inglês na transição dos anos 1960 e 1970, mas, graças a abnegados do mundo da música e fãs interessados em desbravar as obscuridades o material que produziu à época ganhou luz, vindo à tona para corroborar a sua importância para a música pesada nos seus primórdios.




A banda:

Del "German Head" Morley no baixo

Dick Smith na bateria

Martin Weaver na guitarra, vocais


Faixas:

1 - I'm A Freak

2 - Tell The Truth

3 - Passion

4 - Voodoo Chile ( Jimi Hendrix )

5 - Why Don't You Let Me Try

6 - Sin City

7 - Ship Of Ghosts


 

"Psychotic Overkill" (1962-1994)

 

 












 











 

 


domingo, 20 de fevereiro de 2022

Jumbo - "Vietato Ai Minori di 18 Anni?" (1973)


Sempre percebi, sempre observei que o rock n’ roll tinha e ainda tem, oportunismos mercadológicos à parte, um papel social e comportamental, de contestação, de abalar o status quo. É claro que há vertentes de composições, de letras voltadas para vários assuntos: festa, sexo, hedonismos em geral, mas sempre apreciei e me identifiquei com o rock protesto, aquele que coloca o dedo na ferida mesmo.

E sempre se atribuiu a isso ao punk rock, aos moleques que, como diz a letra de um exímio exemplar da cena, Richard Hell, com o seu “Blank Generation” que, na década de 70 para a de 80 se viram perdidos, sem perspectivas de uma vida digna ou coisa que o valha, mas não somente. Temos exemplos vívidos e plenos no rock progressivo! Rock progressivo? Que só fala de temas exotéricos, sobrenaturais? Não!

Encontramos bandas, poucas, é bem verdade que abordaram temas palpáveis, inquietos e difíceis. Verdadeiros tabus que nunca encontraram barreiras ou eras cronológicas para existirem, mas apenas o medo, a ojeriza daqueles conservadores em tratar sobre determinados assuntos ou aqueles que sempre tiveram medo de “comprar” a ideia de que tais temas fossem personificados, materializados, manifestados, artisticamente falando.

Que tal falar sobre sexo, masturbação, estupro, prostituição, drogas, religião e alienação social? Vilipêndio? Na certa! Tema nojento para se falar na mesa de uma “família perfeita”? Claro! Não se pode falar de temas como esse para não expor os puritanos que se escondem em um domo de ilibado estado de “acima do bem e do mal” e que certamente esconde seus lados mais podres.

E surgiu uma banda na Itália que teve a coragem de expor esses temas em 1973, sim, amigos leitores, há 49 anos, 1973, surgida na cidade de Milão, na Itália, tendo como o seu referencial o vocalista Álvaro “Jumbo” Fella, que se chamava JUMBO com o seu álbum, notoriamente, mais arrojado, de sua curta, mas significativa carreira discográfica, o “Vietato Ai Minori Di 18 Anni?” ou em tradução livre: “Vetado para menores de 18 anos?” Até o título do álbum, mesmo para quem não o conhece, traz aquela curiosidade, mas que deixa, meio que explícito temas desconcertantes para os conservadores de plantão.

Antes de falar sobre o terceiro e mais arrojado álbum, não só pelos temas abordados, mas também pelo fator sonoro, embarquemos na história do grande e obscuro Jumbo. A banda foi formada em 1969 e tinha no vocalista Álvaro Fella, a figura central, tanto que o nome da banda vem de seu apelido, Álvaro “Jumbo” Fella. Fella era baixista de uma banda de pouco nome quando foi notado por produtores de uma gravadora, assinando contrato em 1970.

Álvaro "Jumbo" Fella

Gravou uma música chamada “Due Righe Da Te” e dois covers. No primeiro single tocou com gente do naipe de Franz Di Cioccio e Flavio Premoli, ainda componentes do Quelli, depois passando a se chamar Premiata Forneria Marconi, e Mario Lavezzi, mais tarde tocando no Il Volo.

Já em outra gravadora, de mais renome, a Phillips, gravou em 1972 o primeiro álbum com a ajuda dos músicos que teriam constituído a primeira formação da banda, tais como: Daniele Bianchini na guitarra, Sergio Conte nos teclados e vocais, Dario Guidotti na flauta, violão, gaita e percussão, Vito Balzano na bateria e percussão e o baixista Alberto Agazzi, mas sendo substituído logo por Aldo Gargano. 

Um belo álbum, muito influenciado pelo blues, um pouco acústica na sua concepção, com muito instrumento de sopro e percussão e o destaque fica com o vocal de Fella, excepcional, potente, de grande alcance, um rosnado ameaçador, sem dúvida um dos melhores vocalistas que eu vi e ouvi até o momento. Mas a grande mudança do Jumbo e a mais significativa, pois levaria como identidade até o fim, seria no álbum “DNA” também lançado em 1972. Mudança essa que se daria devido a um trabalho simbiótico e de grande parceria entre os seus integrantes. A resenha deste clássico obscuro pode ser lida aqui.

"Jumbo" (1972)

"DNA" (1972)

Mas em 1973 veio ao mundo o álbum “Vietato ai minori di 18 anni?” com os seus temas fortes, expondo, trazendo à tona a podridão de uma sociedade hipócrita e pseudo moralista e que são traduzidas em oito monumentais faixas, umas de texturas sonoras mais complexas, outras mais raivosas, diretas. Assim é basicamente o álbum: intenso, agudo, visceral, mas com os seus temas meticulosamente conectados em uma estrutura conceitual bem definida e tratados de forma veemente, sem metáfora e alegorias. Temas abertos e sem filtros.

O Jumbo sofreu com a censura e foi excluído das rádios, dos programas de televisão da época. A banda teve sérias dificuldades de divulgar o seu trabalho e não é para menos: a natureza humana sendo escancarada a plenos pulmões de Álvaro Fella. 

E falando nos vocais de Fella, não há como negligenciá-lo neste trabalho do Jumbo. Sua voz, apesar de peculiar, esteve mais dramática neste álbum, mais cênica para expor a verdade dos temas nele proposto, mais poderosa, rasgada, somando a uma camada mais intensa dos instrumentos, com riffs de guitarra mais dilacerantes, teclados nervosos, um rock progressivo sinfônico complexo, mais denso, mais urgente.

Em “Vietato ai minori di 18 anni?” a banda soa mais forte, um pouco mais pesada. O grau de sofisticação se faz presente também, como nos seus trabalhos anteriores, a pitada blues rock progressivo também, mas se faz mais sofisticado pela energia aumentada com um trabalho instrumental mais diversificado: mellotron e sintetizadores são adicionados, com a participação especial de Franco Battiato, junto com o sixtro, um instrumento de cordas renascentista e algumas percussões traz um caldeirão de temperos sonoros.

E por falar em participações especiais, vamos elencar o time que entregou ao mundo esse petardo sonoro necessário: Alvaro "Jumbo" Fella nos vocais, piano, órgão e saxofone, Daniele "Pupo" Bianchini na guitarra, Sergio "Samuel" Conte nos teclados, Dario Guidotti na flauta, harpa, guitarra acústica, sixtro e vocais, Aldo Gargano no baixo, Mellotron e sixtro e Tullio Granatello na bateria, entrando no lugar de Vito "Juarak" Balzano. Além das ilustres participações de: Lino "Fats" Gallo na guitarra slide, Franco Battiato no sintetizador VCS3, Angelo Vaggi no sintetizador Minimoog e Lino "Capra" Vaccina na percussão.

Jumbo

O álbum é inaugurado com a excelente faixa “Specchio” já com o vocal rasgado de Álvaro Fella, já botando o pé na porta, cantado de forma áspera e urgente, sombria. Tem várias mudanças de compasso, entre pianos nervosos e riffs de guitarra, cobrindo e corroborando o “ódio” vocal de Fella, mas que, em dados momentos traz a suavidade da flauta, e vai mudando para solos de guitarra e delicados toques de violinos. Complexo!

"Specchio"

"Come Vorrei Essere Uguale A Te" começa meio acústica, baixa, despretensiosa, até o vocal de Fella aparecer. Solos de guitarras meio lisérgicas dão o ar da graça, algo meio Jethro Tull em seu início meio blues, o blues tão evidente nos primeiros álbuns do Jumbo também. O vocal de Fella vai ficando mais alto, os instrumentos seguem a proposta, vão aparecendo. Irrompe em uma explosão instrumental com bateria marcada, meio jazzy, solos desconcertantes de guitarra, a música atinge uma velocidade considerável, vai ficando mais dramática e intensa. Instrumentos de sopro aparecem, uma orquestra se faz presente, mas a mudança de compasso sonoro muda novamente, piano e um vocal mais melódico de Álvaro é ouvido. Lindo!

"Come Vorrei Essere Uguale a Te"

“Il Ritorno Del Signor K” traz algo meio de jam section, de improvisações, meio acústica, meio folk, me fez lembrar um pouco de Gentle Giant. “Via Larga” me fez lembrar os álbuns anteriores do Jumbo, trazendo a voz peculiar de Fella e um discreto instrumental trazendo um violão acústico de fundo e uma camada de teclado entregando uma atmosfera sombria, tendo eventuais solos curtos de guitarra, imprimindo relativo peso à música que logo se revela com o vocal rasgado de Fella e fechando como começou. Agrupa belos elementos sinfônicos italianos misturados com porções bonitas e transgressoras, mas o início experimental é bastante desafiador.

"Via Larga"

“Gil” tem uma levada mais psicodélica e progressiva, um experimentalismo chapante que destoa um pouco do álbum, mas não se torna nem um pouco ruim, pelo contrário. Tem o destaque de Franco Battiato com o seu sintetizador VC-3, que traz toda a aura lisérgica dessa faixa. A música gira em torno de sintetizador, violão, voz de Fella, percussão e Mellotron.

"Gil"

"Vangelo?" tem uma atmosfera misteriosa, mas linda liricamente, uma melodia espetacular com guitarras viajantes e vocais limpos. A flauta enreda todo o clima contemplativo da música, mas as variâncias rítmicas traz também o atrativo da faixa, dando um caráter mais jazzístico graças a sua bateria.

"Vangelo?"

“40 Gradi” na sua introdução soa um pouco folk, um pouco acústica, mas logo revela a face destruidora capitaneada pelo vocal de Fella, com uma veia mais hard, mais pesada. Mostra um Jumbo mais rico instrumentalmente falando, mais cheio de recursos.

"40 Gradi"

E fecha com “No!” seguindo basicamente a proposta da faixa anterior: peso e suavidade sendo tratada na medida. Uma música curta conduzida por flauta, com Mellotron, e há algumas risadas de Fella bem tenebrosas.

"No!"

O Jumbo em “Vietato ai minori di 18 anni?” trabalhou como uma unidade bem oleada: as partes de teclado bem definidas de Conte, a multifuncionalidade de Guidotti (flauta, violão, gaita) e o sólido trabalho de baixo de Gargano estabelecem um forte esquema para a música de Jumbo, dando espaço para a guitarra elétrica de Guidotti. 

Solos e a bateria guiada pelo jazz de Granatello. A fundação de uma unidade estilística em todo o repertório mostra-se eficaz e adequada, já que este é na verdade um álbum conceitual que gira em torno de alguns dos tabus mais urgentes e por isso atemporais, que são escancarados sem máscaras que não deveria ser impedido de vir à tona, sendo discutido com vista a efetivamente do tombamento das aflições e frustrações humanas, pois fazem parte do seu arquétipo físico e comportamental e o Jumbo fez a sua parte com o viés e a manifestação artísticas de tais assuntos.

A banda se desfez em 1976 e não se sabe ao certo se esse álbum acarretou o seu fim, sobretudo pelos aspectos comerciais, mas o fato é que com “Vietato ai minori di 18 anni?” o Jumbo deixou uma marca indelével para a história do rock progressivo italiano e mundial, mesmo que poucos o reconheçam como tal.




A banda:

Alvaro "Jumbo" Fella nos vocais, piano elétrico, órgão e saxofone

Daniele "Pupo" Bianchini na guitarra

Sergio "Samuel" Conte nos teclados

Dario Guidotti na flauta, harpa, violão, sixtro e vocal

Aldo Gargano no baixo, Mellotron, sinos e sixtro

Tullio Granatello na bateria


Com:

Lino "Fats" Gallo na guitarra slide

Franco Battiato no sintetizador VCS3

Angelo Vaggi no sintetizador Minimoog

Lino "Capra" Vaccina na percussão


Faixas:

1 - Specchio

2 - Come Vorrei Essere Uguale A Te

3 - Il Ritorno Del Signor K

4 - Via Larga

5 - Gil

6 - Vangelo?

7 - 40 Gradi

8 - No!



 

"Vietato Ai Minori di 18 Anni?"

 

 

 

 





























 




 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Novalis - Konzerte (1977)

 


Costuma-se dizer que determinadas bandas assume uma personalidade sonora em estúdio e outra ao vivo, nos palcos. Algumas se sobressaem primorosamente ao vivo, no palco, mostrando nuances de improviso, mais peso, mais substância, outros se mascaram na tecnologia do estúdio e se mostra incipiente nos palcos, entre outras particularidades.

A banda germânica NOVALIS mostra-se grandiosa em estúdio e principalmente ao vivo, é o que revela o excepcional registro ao vivo chamado “Konzerte” gravado em abril de 1977. A banda havia passado por várias modificações desde o lançamento de seu debut “Banished Bridge”, de 1973, sofreram as tormentas de mares revoltos da incerteza, não obtiveram êxito comercial nos seus álbuns de estúdio lançados em um passado não muito distante.

"Banished Brisge" (1973)

A banda esteve a ponto de findar suas atividades. Mas, a partir de seu segundo álbum, “Novalis”, de 1975, a banda começou a se situar musicalmente falando, com uma temática sinfônica que passaria a se tornar popular na Alemanha em meados da década de 1970, passando a cantar na sua língua mãe, o alemão, mas não obteve aquele êxito comercial que se esperava, de que eles, enquanto banda aspirava, mas ganhou certa credibilidade em sua terra, na Alemanha, embora alguns ditos “formadores de opinião”, alguns pseudos especialistas digam que a banda não impactou na cena musical local.

Mas foi sim, graças ao Novalis que essa cena frutificou, sendo o Novalis um pioneiro no estilo naquele país. A mudança interna, que poderia trazer certa insegurança e gerar descaracterizações, não ocorreu, a banda encorpou, encontrou-se com a sua identidade, adquiriu personalidade sonora, amadureceu, o mérito criativo chegou com o esforço e o empenho, juntamente com o risco de que não tinham nada a perder e o resultado está estampado em “Konzerte”, onde a banda, em seu estágio natural, vívido, apresenta clássicos de seus álbuns anteriores, de suas grandes obras, sem sujar a sua história, a sua essência.

O álbum “Konzerte” sinaliza a vocação progressiva do Novalis, nos brindando com músicas do calibre de “Sommerabend”, uma linda suíte de quase dezenove minutos; as viajantes e instrumentais, “Es Färbt Sich Die Wiese Grün” e "Impressionen" e “Wunderschätze”. Verdadeiras pérolas do progressivo sinfônico, do clássico e reverenciado Novalis que merece uma parte na história da música progressiva. Os heróis dessa façanha sonora foram: Fred Mühlböck nos vocais, guitarra acústica e elétrica e flauta, Detlef Job na guitarra elétrica e vocais, Lutz Rahn nos teclados, hammond, moog, piano e clavinet, Heino Schünzel no baixo e Hartwig Biereichel na bateria.

Novalis

E esse registro ao vivo do Novalis contara com estreia do vocalista austríaco Fred Mühlböck. E ele de fato tinha uma presença vocal, foi uma grande aquisição para o Novalis à época. Ele traz dramaticidade às músicas, sem soar chato e histriônico demais, dando peso e força a banda e também é um multi-instrumentista, tocando guitarra e flauta em algumas faixas de “Konzerte”.

Analisando esse registro como um disco, um vinil, o primeiro lado de “Konzerte” traz 70% do grande álbum “Novalis”, de 1975 e o outro lado entregam 70% do álbum que deu alguma visibilidade a banda: “Sommerabend”. 

Talvez pudesse ser incluído algo de “Banished Bridge”, debut da banda de 1973, que fiz, inclusive, uma resenha que pode ser lida aqui, mas talvez quisessem se desvencilhar dessa curta fase de sua história pelo simples fato de cantar as músicas em inglês, mas as faixas escolhidas caíram como uma luva para versões ao vivo.

E o grande destaque fica para os momentos de improvisação, trazendo novos olhares e sentimentos aos ouvintes da música, sendo também impactadas pelas novas formações musicais dos novos integrantes da banda fazendo com que o Novalis trouxesse em sua textura sonora, além do já característico progressivo sinfônico, umas pitadas generosas, diria, de hard rock tudo envolto em uma camada complexa e linda de som.

“Konzerte” sinaliza um Novalis progressivo, fincado nos teclados, tendo a guitarra a função de trazer a harmonia e o corpo às músicas, a força e o peso de hard rock sofisticado, bem delineado no que tange às melodias.

Mas a improvisação, como destaque de “Konzerte” traz um Novalis mais cru, mais direto e revelam músicas mais arrojadas, com um caráter mais irreverente e poderoso.

Depois de uma introdução que é uma amostra do bolero de Ravel a banda começa com a curta, porém significativa instrumental “Dronsz” que tem como destaque um riff intenso e pesado de órgão com a guitarra dando a sustentação necessária criando uma salutar “rivalidade”.

E aí depois desse “pequeno aperitivo” começam os verdadeiros exemplos de épicos sinfônicos personificados em faixas como “Es färbt sich die Wiese grün” com aquela introdução de teclado obscura, contemplativa, introspectiva com o vocal quase que em evidência, que depois irrompe em uma explosão sonora de guitarras em solos curtos mas envolventes e bateria marcada e baixo pulsante.

"Es Farbt Sich Die Wiese Grun"

Segue com “Impressionen” que remete ao krautrock mais viajante, psicodélico, algo de Pink Floyd, aliando a lisergia a complexidade do progressivo, com algo solar, poderoso, pesado que vai crescendo, se manifestando de forma espetacular, o solo da guitarra é forte e evidente, entre solos de flautas e uma bateria meio jazzy. Que faixa caros leitores!

“Wer Schmetterlinge lachen hört” traz o seu inconfundível teclado introdutório muito típico da discografia do Novalis e o vocal alto, potente e dramático aparece em destaque e que ganha, mais uma vez peso, com a guitarra em solos curtos e diretos, mas cheios de vida. Psicodelia e prog rock em perfeita sinergia aparecem novamente.

"Wer Schmetterlinge Lachen Hort"

“Wunderschätze” tem, mais uma vez nas teclas, o seu destaque. Aquela atmosfera contemplativa e viajante enche de satisfação os ouvidos e alma de qualquer ouvinte. Uma balada linda, com dedilhados de guitarra que faz te tirar os pés do chão involuntariamente, de faz viajar de forma plena e delicada. Uma sonoridade delicada sim, mas traz a força e o corpo sonoro de uma banda infalível para a história do rock alemão. Uma performance arrepiante!

E eis que finaliza com “Sommerabend”, o clássico da banda tocada na sua plenitude, cada nota executada integralmente, tudo estava ali diante dos ouvidos e olhos daqueles que estiveram neste show, alvo de minhas linhas neste blog, e para aqueles que ouviram e ouvem até hoje nos formatos de lançamento de “Konzerte”. Um épico, um desfile de como se tocar rock progressivo na sua mais fiel essência: dramaticidade, complexidade, um som encorpado, delicado, poderoso, cheio de variâncias rítmicas, vocal de excelente alcance, guitarras explodindo em solos elaborados, teclados complexos, tudo conspirou a favor dessa faixa em sua versão ao vivo. Que clássico obscuro!

"Sommerabend"

“Konzerte nos brindou com a vocação progressiva do Novalis, mas com o arrojo de uma banda que soube usar, de forma incrível, o seu repertório sonoro, com jam sections, com improvisações dignas de um show ao vivo que deve sim entregar uma banda competente, visceral, passional, técnica e cheia de vida. O Novalis estava na plenitude, no ápice de suas condições sonoras, criativas, mostrando que, apesar de não ter tido êxito comercial, mas ter entrado para a história do rock alemão pela sua incrível capacidade melódica e harmônica.

As músicas do Novalis definitivamente te fazem levitar e te deixar em total estado de êxtase. Talvez “Konzerte” tenha sido o último grande lançamento discográfico do Novalis, o trabalho que fecha a história honrosa de uma banda que sempre soube defender a sua verdade sonora sem amarras de indústria fonográfica e de estereótipos que escravizam músicos e bandas.



A banda:

Hartwig Biereichel na bateria

Detlef Job na guitarra e vocais

Fred Mühlböck nos vocais, guitarra e flauta

Lutz Rahn - Hammond H100 organ, PPG synth, Mellotron, piano e clavinet.

Heino Schünzel no baixo e vocal


Faixas:

1 - Bolero (Ravel)

2 - Dronsz

3 - Es färbt sich die Wiese grün

4 - Impressionen

5 - Wer Schmetterlinge lachen hört

6 - Wunderschätze

7 – Sommerabend

...a) Wetterleuchten

...b) Am Strand

...c) Der Traum

...d) Ein neuer Tag

...e) Ins Licht



"Konzerte" (1977)