sábado, 27 de junho de 2020

Museo Rosenbach - Live 72 (1992)


Uma banda é o que é nos palcos. No palco a banda exerce a sua divindade, revela a sua essência, interagindo com o público e a comunicação é a música, atrelado a sentimentos de pura catarse que se torna difícil elencar, afinal são múltiplas as reações, mas que comungam da mesma intenção: a ode à música. 

Bandas como a italiana MUSEO ROSENBACH, nascida nos longínquos anos 1970, desenharam, de forma magistral, a sua história nos palcos. E tem sido de uma forma tão arrebatadora, tão visceral, que a sua concepção sonora vai além da frieza e da perfeição exacerbada dos estúdios. 

O Museo Rosenbach é uma das poucas bandas italianas que não se rendeu a zona de conforto do estereótipo, flertou com várias vertentes, tais como rock progressivo, hard rock e soube, como poucos, trilhar uma história de vanguarda na cena rock italiana que, no início dos anos 1970, se definia, se delineava, absorvendo influências que vinha da Inglaterra como, por exemplo, a nova música virtuosa e progressista, da juventude transviada, ávida por novidades e que os músicos, também jovens, compartilhavam daquele frescor dos novos tempos. 

E assim os jovens músicos do Museo Rosenbach se inspiraram para edificar a sua música. E a gênese da banda remonta no ano de 1971 e se chamava inicialmente "Inaugurazione Museo Rosenbach", a partir da fusão de duas bandas do final dos anos 1960 de Sanremo que se chamavam La Quinta Strada e Il Sistema, este última chegou a lançar um álbum pelo selo Mellow Records, entre os anos de 1991 e 1992 e o La Quinta Strada era apenas uma banda cover. 

Il Sistema - "Il Viaggio Senza Andata" (1969-1971)

A propósito, essa nova banda tocava covers de Cream, Jimi Hendrix, The Animals, Steppenwolf, entre outras bandas pesadas que estavam em voga na transição das décadas, moldando o que, em um futuro bem próximo, seria o Museo Rosenbach e que entregaria aos rockers italianos um esboço do que seria conhecido, anos depois, como metal progressivo. 

A primeira formação da banda contava com o futuro integrante da obscura banda italiana Celeste, Leonardo Lagorio no saxofone e flauta e o cantor Walter Franco. Mas foi com a formação que tinha Enzo Merogno na guitarra, Alberto Moreno no baixo, Giancarlo Golzi na bateria, Pit Corradi no melotron, órgão de hammond e piano, Stefano "Lupo" Galifi no vocal e Leonardo Lagorio no sax e flauta que seria responsável pelo primeiro registro discográfico do já Museo Rosenbach, com o nome alterado, de 1972, um show gravado no Park Hotel em Bordighera no verão daquele ano e que é a cidade natal da banda, uma cidade que fica no oeste da Ligúria. Falo do "Live 72".

Museo Rosenbach

Porém este material, obscuro e raro, só ganhou a luz, só foi lançado, vinte anos depois, no ano de 1992, quando a gravadora Mellow Records desengavetou essa pérola sonora que mostra uma banda poderosa, virtuosa, intensa, de personalidade, mostrando toda a sua força nos palcos, mostrando o quão era competente ao vivo, embora as condições em que fora captado esse show não tenha sido as melhores.

Foi sim concebido em condições precárias, mas ainda assim o Museo Rosenbach mostrou a que veio naquele imemorial ano de 1972, antes de ter lançado seu clássico absoluto, em 1973, o emblemático "Zarathustra", mas que neste registro ao vivo algumas músicas que figurariam no primeiro de estúdio da banda seriam executadas, provavelmente pela primeira vez para um seleto e agraciado público. 

O álbum abre, com a faixa, que apareceria em “Zarathustra” chamada “Intro / Dell’eterno Ritorno” que já entrega as credenciais do grande Museo: peso, virtuosismo e uma entrega instrumental impressionante de seus músicos, com passagens rítmicas inacreditáveis, com destaque para o vocal de grande alcance de Galifi, além da “cozinha” bem afiada, mostrando uma incrível sintonia entre o baixo de Moreno e a bateria de Golzi, com o teclado de Corradi trazendo uma camada progressiva a faixa. Um típico proto metal italiano!

“Dopo” é mais cadenciada, que alterna, com maestria, os teclados e a guitarra em um salutar duelo entre os instrumentos, com solos de tirar o fôlego, além de um baixo pulsante e uma bateria marcada com queda para o jazz rock.

Na sequência vem “Season Of The Witch / It’s A Man’s Man’s Man’s World” uma exuberante suíte de quase quinze minutos que inicia com um solo de guitarra viajante e inebriante com uma levada meio bluesy, ao som doce e mesmerizante do piano contrastando com o vocal rasgado de Galifi, poderoso, sendo seguido pelo “esquadrão bélico instrumental”, mas que logo voltava para a suavidade capitaneada pelo piano e alternando com uma pegada mais dançante, diria algo até meio latinizado. E nessas alternâncias rítmicas e ousadas a música tem a sua sequência com o destaque do piano, vocal, riffs sujos de guitarra, o baixo seguindo o ritmo e a bateria investindo em vertentes que vai do blues ao hard rock. 

A apresentação fecha com outra música que apareceria no álbum “Zarathustra”, de 1973, “Della Natura” que traz a indefectível introdução de teclado “rivalizando” com solos pesados e diretos de guitarra que se silenciam para o vocal limpo e dramático assumir o protagonismo da música, mas que logo se junta ao trovão sonoro gerado pelos instrumentistas de mão cheia. Nela se percebe, ou melhor, se ouve, um hard progressivo muito vigoroso e bem executado.

No mesmo ano deste show de 1972, as faixas de “Zarathustra” já estavam prontas e o selo Ricordi ofereceu  um contrato de gravação para o Museo Rosenbach, ganhando então a luz do dia o clássico do hard prog italiano e mundial, em abril de 1973. 

"Zarathustra" (1973)

Mas após o lançamento do álbum a banda desaparece do cenário musical, talvez pelo fato de seus posicionamentos políticos e ideológicos, o que era comum na época, na década de 1970, entre as bandas de rock italianas, era uma época de belicismo político. 

O Museo Rosenbach fora acusado de ter inclinações de direita pela imagem do ditador Benito Mussolini na capa de seu debut e pelas letras inspiradas em Nietzsche, certamente isso fortaleceu para o seu precoce fim.

Mas a banda ressurge nos anos 2000 com dois dos seus músicos históricos, Alberto Moreno e Giancarlo Golzi, lançando o álbum “Exit”, em 2000 e logo depois, em 2012, o "Zarathustra Live in Studio", contando com o ilustre vocal de Galifi. 

"Exit" (2000)

Então finalmente vem ao mundo o terceiro álbum de estúdio do Museo Rosenbach, o excelente “Barbarica”, de 2013. O selo Mellow Records ainda agrupou uma série de raridades da banda nos seus primórdios chamada “Rare and Unreleased”. 

"Barbarica" (2013)

A banda está forte na ativa e brinda o seu público o seu calibre poderoso nos palcos e o “Live 72” foi o pontapé inicial da corroboração de seus feitos ao vivo. E que tenha vida longa!




A banda:

Enzo Merogno na guitarra
Alberto Moreno no baixo
Giancarlo Golzi na bateria
Pit Corradi no melotron, órgão de Hammond e piano
Stefano "Lupo" Galifi no vocal
Leonardo Lagorio no sax e flauta


Faixas:

1 - Intro / Dell’eterno Ritorno
2 - Dopo
3 - Season of the Witch / It’s A Man’s Man’s Man’s World
4 - Della Natura




Museo Rosenbach - "Live" (1972)



terça-feira, 23 de junho de 2020

LummeN - Ao Vivo no Rio Jazz Club (1999)


O rock progressivo brasileiro é de uma vasta riqueza. E estamos identificando, observando e constatando com um trabalho de extrema dedicação, interesse e um intenso garimpo com um grande aliado: a internet e disseminação de tais conteúdos sonoros e suas bandas, por verdadeiros guerreiros amantes do rock progressivo, verdadeiros abnegados que não esmorecem e compartilham o que há de bom na música brasileira de qualidade que está escondido nos porões escuros do prog rock. 

Eu não conhecia essa banda e fiquei curioso pela sua música, sobretudo após as descrições destas em leituras de resenhas e matérias. Uma banda que sempre militou em nossos domínios territoriais, mas que por desconhecimento ou quaisquer outros motivos que não saberia narrar, não conhecia e que, após um breve hiato de um ano, retorna aos palcos para um momento de comemorações e celebrações de sua história. Falo da banda LummeN.

LummeN em 1999

O significado do nome “Lummen” foi retirado da fábula “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien, que na língua dos Altos Elfos significa "luminoso", "brilhante", "estelar". Lummen surgiu da criação e idealização do multi-instrumentista, compositor e ator Marco Aurêh e fez a sua estreia no dia 15 de setembro de 1995 na Concha Acústica do Museu Imperial na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro, cidade de origem da banda, com o show “Na Corte do Rei”.

Marco Aurêh

Pelo título que ostenta neste show, torna-se perceptível ou pelo menos nos dá uma pista, de sua proposta sonora que, entre outros aspectos, nos revela elementos do período medieval e renascentista em uma fusão erudita e contemporânea. 

A banda, por ter um ator como frontman também explora elementos teatrais com um interessante trabalho estético, com os seus integrantes trajados com indumentárias da época a qual propuseram a sua sonoridade, como bobos da corte, nobres, etc. Os arranjos e os instrumentos usados para produzir a sua música seguem, é claro, tal proposta, mostrando grande multiplicidade, uma rica variedade e improvável aos ouvidos mais incrédulos que vai dos óbvios instrumentos de sopro como flauta a outros mais eruditos como violino, bandolim, viola de 10, a instrumentos de viés progressivos como teclado, violão e instrumentos mais viscerais do rock n’ roll como guitarra. 


Essa mescla garante muita inspiração, liberdade criativa, cênica e visual. É o conceito entre o clássico e o moderno, o antigo e a tecnologia. Uma resposta a esse conceito são os telões nos shows projetando imagens medievais, mostrando a tecnologia a serviço do medieval, do passado. 

As influências do LummeN vai de Renaissance, principalmente pelo cerne de sua proposta, ao Jethro Tull pela sua sonoridade carregada de uma efusiva flauta. A banda, após várias apresentações na capital e interior do Rio, realizou, em fevereiro de 1997, três shows no Rio Jazz Club, conhecida casa situada no Rio de Janeiro e que não existe mais. Tais shows resultaram no primeiro lançamento do LummeN, em 1999, chamado “Ao Vivo no Rio Jazz Club”, pelo selo Som Interior, minha dica da banda, tendo repercussão na cena nacional e internacional. 


A banda, na época do lançamento do álbum, tinha a seguinte formação: Marco Aurêh no vocal, flauta, violão e teclado, André Henriques no violino, bandolim, violão e backing vocal, Celso Schopen na guitarra, Fred Mendonça no baixo e backing vocal e Marcelo Ksesky na bateria. O álbum abre com a faixa “Mansão” que já mostra todo o cenário sonoro medieval com o uso de flautas e violinos.

"Mansão" ao vivo em Petrópolis (2013)

Segue com “Vulcão”, uma linda música, uma balada meio folk, com um belo violão acústico e uma harmonia linda, irretocável. “Destino Imaginário” é uma das melhores faixas do álbum e te proporciona uma viagem agradável tendo o destaque do violino e acordes simples, mas necessários de guitarra com solos bem executados também, me remete alguns momentos de experimentalismo e viagem lisérgica também. 

"Destino Imaginário" ao vivo em Petrópolis (2013)

“Tempo Imóvel” começa com uma bateria meio tribal, percussiva e soa em seguida os primeiros acordes de flauta, uma viagem sonora, com tons psicodélicos com desconcertantes solos de guitarra.

"Tempo Imóvel" ao vivo no Neblina Rock em 2019

“O bobo da corte” traz aquele clima medieval de novo, uma música bem teatralizada, afinal você consegue visualizar a cena, de acordo com o andamento da faixa. E fecha com a espetacular “Relembrando” com destaque, mais uma vez para o violino e acordes excepcionais de guitarra que lembra muito King Crimson em seus primórdios. Um som progressivo de tirar o fôlego.

"Relembrando", ao vivo na Concha Acústica do Museu Imperial

A banda teve muitas formações ao longo da década de 1990 até encerrar as atividades em 2001 e remontada em 2013, sendo realizados vários shows até 2015. Em 2017 a banda retornou com o show “Medieval Contemporâneo” que contou com todos os ingredientes que fez do Lummen conhecido entre os fãs puristas de prog rock e que teve a participação  de uma cantora soprano e uma edição de pinturas do pintor e músico do Quaterna Réquiem e Vitral, Cláudio Dantas, e o surrealista belga Renné Magritte. A banda está na ativa até hoje com Marco Aurêh na sua concepção visual e conceitual. Álbum essencial de uma banda genuinamente brasileira.




A banda:

Marco Aurêh no vocal, flauta, violão e teclado
André Henriques no violino, bandolim, violão e backing vocal
Celso Schopen na guitarra
Fred Mendonça no baixo e backing vocal
Marcelo Ksesky na bateria


Faixas:

1 - Mansão
2 - Vulcão
3 - Destino Imaginário
4 - Tempo imóvel
5 - O bobo da corte
6 - Relembrando



"Ao Vivo no Rio Jazz Club" (1999)




sábado, 20 de junho de 2020

Maxophone - Maxophone (1975)


É inquestionável que a cena progressiva italiana é rica e brilhante. Não se tem a questão quantitativa apenas, mas a qualitativa também e que se equivale nos brindando com diversidade cultural que impacta positivamente a sua música, fazendo dela o nome que a define: progressiva, progressista, porque é de vanguarda, arrojada, sofisticada sim, mas por muitas vezes marginal e urgente, pois encarnam os conceitos primordiais do rock n’ roll: contestador, transgressor por natureza. 

Bandas como o MAXOPHONE sintetizam, com extrema fidelidade, tais quesitos mencionados. A banda foi resultado, na sua gênese, dessa miscelânea cultural, enfatizada fortemente na sua música. Resultado este inovador, revolucionário e que até hoje serve de referência para a história contemporânea do rock progressivo italiano que, a plenos pulmões e com muita força, segue florescendo com o frescor da novidade, relevante.


A sua atemporalidade personifica a cena e, mesmo que obscura e com uma pequena carreira discográfica, marcou época. O vilipêndio da indústria fonográfica e das agitações político-ideológica na Itália nos longínquos anos 1970 quase pôs tudo a perder, colocando o Maxophone em uma condição total de ostracismo, mas a força de abnegados, como os apreciadores da música e profissionais incansáveis que representam pequenas e undergrounds gravadoras disseminaram, lançaram e multiplicaram para o mundo a música seminal desta banda.

Graças também ao advento de tecnologias da informação, das redes sociais o trabalho dessas grandes bandas e, claro, a persistência dessas, a qual o Maxophone faz parte, a obra assume uma espécie de legado.

O Maxophone foi formado na cidade de Milão, na região da Lombardia, no final do ano de 1972 por jovens músicos que tinham estilos diversificados e peculiares sendo que metade foi formada em conservatórios italianos e a outra metade pertencia a uma base mais pesada, mais entusiasta da música como o “classic rock” e o jazz rock, por exemplo. 

E esses jovens eram: Roberto Giuliani (vocal, piano e guitarra), Alberto Ravasini (vocal, baixo, violão e flauta) e Sandro Lorenzetti (bateria), conhecido no meio jazzístico da Lombardia. A eles se uniram Sergio Lattuada (Hammond e teclados), Maurizio Bianchini (trompa, vibrafone, percussão e voz) e Leonardo Schiavone (clarineta, flauta e saxofone).


Essa mistura, essa “salada sonora”, proporcionou à música da banda algo novo, gratas novidades, pouco corriqueiras até então na cena progressiva à época como trompa, trompete, clarineta e vibrafone, além dos habituais instrumentos do cotidiano progressivo incluindo um maravilhoso sax e um hammond de presença marcante. 

Pronto! O caráter sonoro do Maxophone estava delineado! Uma banda diversificada, eclética, versátil, muito particular e extremamente interessante, que ia do progressivo sinfônico, música clássica, jazz rock, rock, folk etc. E é nessa estrutura que o debut do Maxophone foi edificado e lançado em 1975, homônimo, que será alvo de meu texto hoje.

Maxophone ao vivo

Com algumas relevantes apresentações ao vivo, o Maxophone passou a atrair a atenção do público. Tanto que a banda conseguiu lançar o seu primeiro 45 rotações: "C'è un paese al mondo/Al mancato compleanno di una farfalla". 

A banda se apresentou em vários festivais, excursionando inclusive em uma turnê de razoável porte com a banda Area, em 1976. Neste mesmo ano a banda se apresentou no importante e icônico Festival de Montreaux, na Suíça, e logo depois gravou uma participação na emissora de televisão italiana, RAI, sendo lançado em 2018 comercialmente, com muitos materiais raros e valiosos. Mas antes, em 1975, a banda lançou o seu emblemático álbum, “Maxophone”, pelo selo "Produttori Associati", tanto na versão original, cantado em italiano, como na versão inglesa.


Em meados da década de 1970 algumas bandas aderiram ao formato inglês para alçar mercado norte-americano e também todo o mundo, resultado do sucesso internacional de bandas como Premiata Forneria Marconi e Le Orme. 

A banda que gravou este álbum, era formada por Sergio Lattuada no piano, órgão, piano elétrico, vocal, Roberto Giuliani na guitarra, piano, vocal, Leonardo Schiavone no clarinete, sax, flauta, Maurizio Bianchini na corneta, trompete, vibrafone, percussão, vocal, Alberto Ravasini no vocal, baixo, violão e Sandro Lorenzetti na bateria com Paolo Rizzi no baixo acústico, Eleonora de Rossi no violino, Susanna Pedrazzini no violino, Giovanna Correnti no cello e Tiziana Botticini na harpa. 

“Maxophone” é um álbum técnico, mas emocional e orgânico, com uma dramaticidade em sua sonoridade, bem peculiar em se tratando do progressivo italiano. É pesado, progressivo, clássico com jazz rock, sinfônico e passagens agradáveis de folk. 

A faixa inaugural é “C'È Un Paese Al Mondo” que abre com um linda linha de piano agradável que irrompe em um peso protagonizado por guitarra e bateria, cadenciando com passagens suaves, mostrando o casamento perfeito entre o clássico e o rock.

"C'É Un Paese Al Mondo", live at RAI 1976

“Fase” começa com o peso da guitarra, dando o tom mais pesado da música, um legítimo hardão setentista, um protagonismo dos instrumentos, com passagens interessantes de jazz.

"Fase", live at RAi 1976

“Al Mancato Compleanno Di Una Farfalla” tem a introdução de uma guitarra clássica em uma atmosfera contemplativa e onírica, mostrando um pouco de folk, música celta, a música tradicional e regional italiana se faz presente, mas da suavidade a música fica mais enérgica, mostrando ótimas passagens de ritmo com linhas de hammond excelentes.

 "Al Mancato Compleanno Di Una Farfalla", live at RAI 1976

“Elzeviro” tem a introdução excepcional do vocal, poderoso e dramático, pois a letra enaltece em seu teor questões políticas e sociais, como em todo o álbum, muito comum entre as bandas progressivas italianas da época. Destaque nesta música fica para o riffs de guitarra, vocal nos momentos mais “calmos” e para órgão dando a camada sonora necessária para a sequência da música.

"Elzeviro", live at Tokyo 2014

“Mercanti Di Pazzie” traz a introdução da harpa tirada da obra “Sonata per arpa” gravada originalmente por Paul Hindemith em 1939. É uma música viajante, uma sensação de paz e tranquilidade, de transcendência da alma.

"Mercanti Di Pazzie", live at Tokyo, 2014

O álbum fecha com “Antiche Conclusioni Negre”, a mais longa faixa do álbum, e começa enérgica, animada, uma faixa solar, sinfônica, tendo instrumentos de sopro como destaque, alternando momentos mais serenos. Não podemos negligenciar a bela participação de linhas de baixo e teclado também, uma música de banda, todos participando intensamente e com destaque nesta faixa.

"Antiche Conclusioni Negre", live at RAI 1976

Em 1977 o Maxophone produziu material para um segundo álbum, mas a gravadora faliu e o projeto foi engavetado vendo a luz somente em 2006 em uma caixa com CD e DVD de nome “From Cocoon To Butterfly”, incluindo algumas gravações inéditas em um período que compreende entre os anos de 1973 e 1975, além de alguns vídeos raros do show que fizeram no estúdio da RAI em Turim. 

"From Cocoon to Butterfly" (2006)

Porém anos antes, nos anos 1990, graças ao ressurgimento do rock progressivo italiano com novas bandas, em 1993, o álbum de estreia, “Maxophone” foi reeditado pelo selo Mellow e em 1997, também foi relançado a versão italiana pela mesma gravadora. 

Em 2001 o selo Akarma republicou o álbum em vinil com a adição de algumas músicas que saíram somente nos 45 rotações. Um álbum essencial, um tesouro que a terra progressiva nos brindou, que o Maxophone nos entregou para deleite eterno. 





A banda:

Sergio Lattuada no piano, órgão, piano elétrico, vocal.
Roberto Giuliani na guitarra, piano, vocal.
Leonardo Schiavone no clarinete, sax, flauta.
Maurizio Bianchini na corneta, trompete, vibrafone, percussão, vocal.
Alberto Ravasini no vocal, baixo, violão.
Sandro Lorenzetti na bateria


Com:

Paolo Rizzi no baixo acústico.
Eleonora De Rossi no violino.
Susanna Pedrazzini no violino.
Giovanna Correnti no cello.
Tiziana Botticini na harpa.


Faixas:

1 - C'e Un Paese Al Mondo
2 - Fase
3 - Al Mancato Compleanno Di Una Farfalla
4 - Elzeviro
5 - Mercanti Di Pazzie
6 - Antiche Conclusioni Negre




"Maxophone" - Versão em italiano


"Maxophone" - Versão em inglês



terça-feira, 16 de junho de 2020

Osanna - L'Uomo (1971)


O vasto e rico rock progressivo italiano merece ser explorado de forma latente e visceral. A cada voo alçado na velha bota uma velha nova história é descoberta e a banda que falarei hoje foge um pouco o convencionalismo sinfônico que permeia a cena italiana progressiva. Como Il Balletto Di Bronzo, temos outros grandes nomes do hard progressivo dignos do peso que ostentam em sua música. Mas do peso das guitarras, dos riffs poderosos, de solos agressivos, fluía também a natureza plena e altiva da complexidade do rock progressivo e do folclore italiano e uma dose sombria de música pagã, marginal como deve ser o rock na sua mais genuína expressão. Falo de uma das mais emblemáticas bandas da cena progressiva italiana de todos os tempos: Osanna. A dica é o seu debut chamado “L’Uomo”, de 1971. 

"L'Uomo"

Como muitas bandas italianas surgidas entre o fim dos anos 60 e o início da década de 70, o Osanna mostra um beat cheio de psicodelia, música pop, classic rock e um progressivo ainda em processo embrionário enquanto música, cena e cultura. Mas o Osanna, além das características citadas, mostra uma força sonora, calcado no hard rock cru, mesclado com a flauta em nuances de suavidade e caos, saxofones frenéticos, cheios de corpo e substância, com um pouco de um jazz fusion e música clássica também. O que poderia soar algo desconexo, tudo se encaixa fantasticamente bem. Uma das poucas bandas de sua época que tiveram a capacidade de criar um estilo inovador e memorável. “L’Uomo” trazia o frescor da nova música que nascia na Itália, é a pedra fundamental de sons que se flertavam, se retroalimentavam, como o prog rock, o hard rock, o folk rock, era uma sinergia que se personificava também em um aspecto teatral, cênico, com os seus músicos com máscaras, com vestimentas coloridas, talvez resquícios do hipismo, aliado ao peso e a agressividade de uma música intrincada e complexa A história do Osanna começa na cidade de Nápoles no final da década de 60, surgido das sombras do Monte Vesúvio, em uma região chamada Vomero, entre becos lotados, onde o medo, a violência, a pobreza era evidente nos olhos e na pele. Foi nesse ambiente que a música do Osanna foi edificada. O Osanna foi construído a partir da banda local I Volti Di Pietra com Lino Vairetti no vocal, Carlo Fagiani na bateria, Enzo Petrone no baixo e Lino Ajello na guitarra. O nome mudou para Cittá Frontale, nome retirado de um livro do escultor abstrato da Sicília Pietro Consagra. Desde 1969 a banda vinha sofrendo com os intensos rodízios de músicos mas que, a partir dessas intensas mudanças a formação umbilical do Osanna estava nascendo. Fagiani é substituído por Massimo Guarino, Petrone também abandona a banda dando lugar a Lello Brandi e Lino Ajello também decide sair indo para o Il Balletto Di Bronzo, dando lugar a Danilo Rustici. O saxofonista Elio d’Anna, que era de outra banda local, de Nápoles, Showmen, estabilizaria a formação do jovem Osanna.

Osanna

A banda atraiu muita publicidade e atenção ao subir nos palcos com vestimentas romanas e os rostos pintados, mostrando seus dotes artísticos não apenas pela música, mas pela parte visual, teatral e estética, tanto que alguns grupos de teatro colaboraram com a banda neste quesito estético transformando seus shows em verdadeiras performances cênicas o que era totalmente novo e revolucionário naquela época na Itália. O Osanna ganhou alguma fama e foi considerada como uma das melhores bandas no Festival Pop de Caracalla. Nessa época o Gênesis se apresentou na Itália e o Osanna os acompanhou abrindo seus shows o que facilitou a vida da banda para atingir certa visibilidade. A formação do Osanna em “L’Uomo” tinha: Lino Vairetti no vocal, harmônica, hammond, sintetizador e guitarra, Danilo Rustici na guitarra, Elio D'anna  na flauta e saxofone, Lello Brandi no baixo e Massimo Guarino na bateria e percussão.

Osanna com seus rostos pintados

O álbum é inaugurado com a sugestiva faixa “Introduzione" com um violão suave, sintetizadores em uma atmosfera contemplativa, depois surge o baixo, bateria, guitarra e gaita em uma crescente agressiva, pesada, o hard rock de braços com o progressivo em uma mescla mais do que perfeita.

Osanna - "Introduzione"

“Introduzione” leva a faixa título, “L’Uomo” que, diante de uma apresentação de guitarras acústicas, uma balada inicial com o vocal limpo e dramático de Lino Vairetti, irrompe em frenéticas notas de saxofone com interlúdios de flauta e gritos de “Hosana”! Uma letra que fala de criação, de vida. Seus versos iniciais dizem por si só: "O homem, a terra, o céu e o mar / Criar, criar, criar em todos os lugares / O sol, a luz, o frio e o calor / O amor, o amor, o amor em todos os lugares."

Osanna - "L'Uomo"

A fusão de música clássica, de hard rock é perceptível em faixas como “Mirror Train” que nos mostra um hardão nos riffs de guitarra, com uma mistura de jazz rock e folk com uma flauta a la Ian Anderson cheio de energia e força. E como toda grande banda de rock italiana dos anos 1970 tem de ser politizada e se posicionar de forma corajosa. A música termina com as notas do hino comunista "Bandiera Rossa", com uma guitarra distorcida e raivosa, lembrando Jimi Hendrix, uma das referências do Osanna que dizia: "Mente para onde você está indo / Se você quiser fazer / Nunca olhe para trás”.

Osanna - "Mirror Train", Live at Napoles (2012)

“Non Sei Vissuto Mai” vem poderosa, varrendo tudo que vem pela frente, um típico e poderoso hard rock, cadenciada por doces flautas, em uma pegada mais psicodélica e folk, mas que logo se encorpa com o peso dissonante das guitarras de Danilo Rustici e o vocal rasgado de Vairetti.

Osanna - "Non Sei Vissuto Mai", Live (1973)

Temos a avassaladora “Vado Verso Una Meta” com um riff pegajoso, mas muito competente de guitarra e uma cozinha de tirar o fôlego, certamente a mais hard do álbum. 

Osanna - "Vado Verso Una Meta"

“In Un Vecchio Cieco” começa com um solo de bateria que descortina uma sonoridade bem folk e suave ao som de um violão acústico, uma balada bem viajante, mas depois nos mostra o poder sonoro e caótico de um saxofone louco e o riff de guitarra que combina com essa loucura toda me remete ao King Crimson dos primórdios.

Osanna - "In Un Vecchio Cieco"

Temos a poderosa balada chamada “L'amore Vincerà Di Nuovo” com destaque expressivo da flauta de Elio D'anna, com dedilhados de guitarra que, entre riffs mais pesados traz todo o clima intenso de um clássico, de um hino, com o vocal poderoso de Vairetti.

Osanna - "L'amore Vincerà Di Nuovo"

“Everybody's Gonna See You Die” é a faixa mais solar do álbum, animada começa com riffs de guitarra pesados, uma faixa cantada em inglês, com uma intensa velocidade com um excelente desempenho vocal. Um hardão setentista com direito a solos de guitarra e flauta tocada mais freneticamente.

Osanna - "Everybody's Gonna See You Die"

E para fechar o álbum “Lady Power” dando sequência a faixa anterior que também é cantada em inglês. Um verdadeiro petardo, uma catarse sonora com solos criativos e pesados de Rustici, flautas arrebatadoras de Elio D’Anna, cozinha bem afiada e sinérgica com um baixo pulsante de Lello Brandi e uma bateria forte e marcada de Massimo Guarini. Uma hecatombe instrumental!

Osanna - "Lady Power"

Não se pode falar da história do hard rock e do progressivo italiano sem passear pelas notas, arranjos e melodia de “L’Uomo”. Já neste álbum torna-se perceptível um Osanna já maduro e com uma identidade musical plenamente definida que viria a se consagrar em “Palepoli”, por exemplo. Um grande álbum que representa com maestria o gênese do progressivo italiano pelo seu compromisso visual, criativo e social e claro, sonoro.



A banda:

Lino Vairetti no vocal, 12-string guitar, harmonica, Hammond  e sintetizadores
Danilo Rustici na guitarra e pipe organ
Elio D'anna na flauta e saxofone
Lello Brandi no baixo
Massimo Guarino na bateria e percussão

Faixas:

1 - Introduzione
2 - L'uomo
3 - Mirror Train
4 - Non Sei Vissuto Mai
5 - Vado Verso Una Meta
6 - In Un Vecchio Cieco
7 - L'amore Vincerà di Nuovo
8 - Everybody's Gonna See You Die
9 - Lady Power