sábado, 18 de abril de 2026

Mount Rushmore - High On (1968)

 

São Francisco, na Califórnia, definitivamente foi o epicentro da contracultura norte americana e, arrisco dizer, mundial, na segunda metade dos anos 1960. O movimento hippie e sua proposta de paz e amor ecoava em cada canto daquelas ruas e tinha, como principal difusor, a música e as suas inúmeras bandas que ganharam o mundo com os seus hinos beat e dançantes. E aqui podemos destacar, de imediato, bandas do naipe de Big Brother and The Holding Company, Janis Joplin, The Grateful Dead, The Doors, e tantas outras.

A sonoridade lisérgica, por vezes experimental, dançante e até mesmo minimalista, era o cerne da cena que pulsava em shows e personificava em protestos anti-guerra e contra um conservadorismo imposto pelo status-quo. Mas a música lisérgica, psicodélica, com um viés criativo calcado na revolução jovem, também tinha nas drogas a possibilidade da expansão da mente e da liberdade tão ardentemente propagada.

Mas as revoluções não eram apenas ditadas no comportamento, mas se revelava também na sonoridade das músicas ouvidas àquela época, e não tão apenas naquela que a cena entregou para o mundo com as suas bandas famosas, com o beat dançante, experimental, e sim às músicas ditas “garageiras”, comumente consideradas como mais pesadas, distorcidas, eletrificadas, com um proto hard rock que destoava do que se fazia em profusão naquela terra.

E não podemos negligenciar o blues eletrificado do grande Blue Cheer, que foi o grande representante de “peso”, literalmente falando, daquela época, na terra do Tio Sam. E, ouvir o seu debut “Vincebus Eruptum”, de 1968, ápice da psicodelia paz e amor, é como ouvir uma bomba poderosa e devastadora de blues elétrico que definitivamente não se adequava ao som massivamente propagado em sua época. Não foi à toa que o Blue Cheer, com seu trabalho, não só inaugural, mas discográfico, não viu a luz do sucesso e trafegou pelo underground.

Blue Cheer - "Vincebus Eruptum" (1968)

Essa “revolução” sonora me agrada imensamente e tem me colocado em uma posição de garimpo incessante e eis que descubro uma pérola que lamentavelmente não ganhou a luz do glamour e o sucesso de pertencimento de uma cena tão proeminente como a de São Francisco nos idos dos anos 1960. Falo do MOUNT RUSHMORE.

O blues rock pesado é a espinha dorsal de sua sonoridade, claro, que a atmosfera psicodélica teria de ser inerente, afinal, inserida em um contexto sonoro tão forte e latente como esse, torna-se inevitável, mas o hard rock, ainda um tubo de ensaio no rock, estava definitivamente delineado, desenhado e vivo em sua sonoridade. Um som cru, direto, sem firulas, se via, ou melhor, ouvia no som do Mount Rushmore.

Mas acalmem-se, estimados leitores, não falemos ainda de sua música e de seu debut, de 1968, centro do texto de hoje, chamado “High On’, mas tentarei contar um pouco dos primórdios da banda que talvez possa corroborar ou ainda incrementar o status de banda cult e, diria, sem medo, revolucionária que estava totalmente dissociada de seu tempo. Dizem por aí que o tempo é relativo, o que dizer da música daquela época, capitaneada por bandas esquecidas e obscuras como o Mount Rushmore?

A banda se formou no final de 1966, na 1915 Oak Street, uma grande pensão vitoriana no distrito de Haight-Ashbury. Em junho e julho de 1967, eles apareceram em cartazes de shows, no Avalon Ballroom, com outras, incluindo o Quicksilver Messenger Service e Big Brother and The Holding Company. Não precisa dizer que a banda ganhou certa atenção devido a sua sonoridade sendo potencializada em performances ao vivo. Assim ganhou certa reputação ou no mínimo atenção entre os ouvintes e conhecida, naquela época, como uma banda ao vivo.

E no período entre a sua fundação e a gravação do seu debut, em 1968, a banda teve muita movimentação em sua formação, até se constituir nos seguintes músicos que gravariam “High On”: Mike Bolan (“Bull”) nas guitarras, Glenn Smith “Smitty” nos vocais e guitarras, Travis Fullerton na bateria e percussão e Tery Kimball no baixo.

Esse certo destaque na cena local graças ao seu som um tanto quanto deslocado que se fazia na segunda metade dos anos 1960, lhe rendeu um contrato com a Dot Records, de onde saiu o já mencionado debut, “High On”, de 1968. E esse som garageiro, tão evidente na sonoridade blues eletrificado deste álbum, traz a sensação de que o seu acabamento está mais adequado para uma demo do que para um álbum convencionalmente finalizado.

Porém, como não estou muito preocupado com sonoridades convencionais e ortodoxas, muito me fascina, ou pelo menos tem me fascinado nos últimos anos, e sim, me pautará pelos próximos mil anos (risos)! Mas creio que essa deliciosa sensação se explique pelo fato da sua produção, afinal, uma banda pouco conhecida, com uma sonoridade pouco, digamos, arrojada, não se espera que tenha um financiamento alto para a produção de seu álbum. Essa produção dá o charme ao som do Mount Rushmore, definitivamente harmoniza e catapulta o seu som metálico, com habilidades mais simples, diretas e orgânicas, com riffs de guitarras carregados e pesados, com uma “cozinha” igualmente pesada e cheia de groove.

O álbum é inaugurado pela faixa “Stone Free”, clássico do Jimi Hendrix, que aqui soa mais animada, mais comercial, diria, com uma pegada mais hard e menos bluesy, mas, ainda assim, se percebe que a banda estava estabelecendo o território que queria explorar, sonoramente falando, haja vista que Hendrix, com suas músicas, também ajudou a pavimentar o blues rock pesado nos Estados Unidos e no mundo! Sim foi ousado pela parte do Mount Rushmore, mas mostrou personalidade ao “descaracterizar”, o clássico de Hendrix. Os riffs pegajosos e pesados de guitarra ornamentam o conceito fundido de hard rock, a bateria pesada e marcada, o baixo dançante e galopante. O vocal alto, por vezes é gritado. É inegável perceber que é uma versão solar e extremamente dançante.

"Stone Free"

Segue com “Without No Smog” que já traz, sem sua sonoridade, a pegada blues rock mais vívida. A guitarra “chora” em solos curtos, a seção rítmica acompanha, dando um tempero mais hard rock, à faixa. O vocal segue os dedilhados da guitarra e se revela mais melódico e dramático. Na metade da música a lisergia devolve a banda ao seu tempo, a guitarra, ácida, destila peso indulgentemente. Experimentalismo mostra uma banda mais sombria na segunda metade da música.

"Without No Smog"

“Ocean” continua na mesma pegada que a faixa anterior, mas aqui o hard rock puro e genuíno se mostra mais vivo, com requintes de detalhes no vocal rasgado, nos riffs sujos de guitarra e na bateria com batida forte e pesada. E tudo fica mais perigoso e dançante com a percussão, algo tribal invade o rock n’ roll direto da música.

"Ocean"

“I Don’t Believe in Statues” tem uma pegada mais beat, psicodélica, mas com o sabor do peso, com riffs de guitarra carregados e gordurosos, é aquela aspereza típica do álbum, sem nenhum refinamento, ainda bem. Aqui torna-se mais perceptível uma camada, embora sútil, mas bem significativo, do teclado, do órgão, dando-lhe um direcionamento para o psicodélico, para a acidez e lisergia.

"I Don't Believe in Statues"

“Looking Back” chega, no auge dos seus quase dez minutos de duração como uma louca e deliciosa epopeia calcada em um colapso de jam bruta, áspera, pautada na lisergia de riffs encarnados de guitarra, com uma bateria mais cadenciada e um baixo que, apesar do caos sonoro desorientado, se mostra fiel a batida da percussão. Momentos de experimentalismo e viagem sonora são percebidas dentro desse contexto, tornando tudo ainda mais caótico e estranho. Uma batida surge mais dançante que, loucamente, me remeteu a uma bossa nova, se não estou insano em perceber isso! Mas a música é insana e pouco rotulável ou nada estereotipada. Uma música espetacular!

"Looking Back"

“('Cause) She's So Good to Me” vem animada, com alguma velocidade, onde ouso dizer que me remete a um heavy metal, antes do heavy metal. Bateria arrogantemente pesada, os pratos parecem que vão explodir, os riffs de guitarra continuam a ser sujos, quase indecentes aos ouvidos e bom senso pretencioso dos ortodoxos do rock. Os gritos vocais abraçam ou corroboram o peso da música e anarquicamente encaram o status quo com desdém e arrogância. Espetacular!

"('Cause) She's So Good to Me"

A derradeira faixa é um “medley” das faixas “Fanny Mae” e “Dope Song” e tudo indica ter sido captada em uma dessas pequenas e fedorentas casas de shows, mas a vibração de um pequeno público pode ter sido colocada mecanicamente em estúdio, enfim...O fato é que nessas faixas o que impera é o blues rock. A essência da banda saí pelos poros dessa música. Peso cadenciado, animado, solar se faz presente em cada riff e melodia. Aqui o som me parece ser mais polido, a banda se “esforça” para ser mais técnica e prudente. Ainda assim são faixas especiais e que fecham brilhantemente esse belíssimo álbum.

"Fanny Mae / Dope Song"

Há breves notas do encarte do álbum “High On” que diz que a banda se autoproclama os “rapazes do interior” que adoram levar seu caminhão cinza e funky para a estrada, se encarando como “caipiras”, cheios de confiança e arrogância, mas com apenas habilidades mais simples. E não me parece nem um pouco arrogante essa percepção, muito pelo contrário. Assim é “High On”, assim é o Mount Rushmore. Perigoso, pesado, diferente em sua sonoridade em um universo do beat e do “flower power”.

"Mount Rushmore '69 (1969)

E essa linhagem sonora traria um custo muito adverso para o Mount Rushmore. Após o lançamento de “Mount Rushmore 69”, a banda não teve a adesão comercial de muito dos seus contemporâneos e, no mesmo ano de lançamento, do segundo álbum, 1969, a banda sucumbe e finaliza as suas atividades. É o preço que se paga por serem aventureiros, os “rapazes do interior, no ápice de sua ingênua arrogância, onde se renderam à criatividade.

Não consegui apurar, com devida precisão, se “High On” teve outros relançamentos. O que se sabe é que há um relançamento importante, talvez no formato CD, dos dois álbuns juntos pelo selo Lizard Records em tiragem bem limitada.

Pouco se sabe sobre o paradeiro dos músicos, o que lamentavelmente se torna mais do que normal, levando em consideração o que produziram com seus dois únicos álbuns, apenas se soube do “paradeiro” do baterista Travis Fullerton que alcançou um reativo sucesso posteriormente como membro do Sylvester And The Hot Band.




A banda:

Mike Bolan (“Bull”) nas guitarras

Glenn Smith “Smitty” nos vocais e guitarras

Travis Fullerton na bateria e percussão

Tery Kimball no baixo

 

Faixas:

1 - Stone Free

2 - Without No Smog

3 - Ocean

4 - I Don’t Believe In Statues

5 - Looking Back

6 - (‘Cause) - She’s So Good To Me

7 - Medley: Fanny Mae / Dope Song 




"High On" (1968)


























Nenhum comentário:

Postar um comentário