segunda-feira, 18 de julho de 2022

Armaggedon - Armaggedon (1970)

 

Estamos em um período de escassez criativa! Essa talvez seja a minha única crítica, a minha única preocupação no rock n’ roll. Eu tentei, em dado momento ou em vários momentos, refletir o que tem acontecido com a cena rock. Talvez seja a forma como ouvimos a música ou como buscamos por ela. Contextualizei a possibilidade de que estivesse garimpando erradamente, buscando as mesmices do mainstream que traz, em sua maioria, bandas sem alma e vendidas a um anseio vazio de um mercado ávido por música pasteurizada e que evita a reflexão ou coisa que o valha.

O que dizer da cena stoner e doom metal, que há pouco mais de 20 anos, aproximadamente, vem crescendo, principalmente em termos quantitativo, chegando ao patamar de saturação? Será que estaria enganado quanto a tal escassez criativa? Talvez! Afinal as bandas são excepcionais, ou pelo menos a esmagadora maioria, mas hoje vejo cópias surgindo, o famoso e temível “mais do mesmo” e nada além, nada que de fato arrebatasse o ouvinte, transformando-se em uma espécie de amontoado de bandas e álbuns.

Nada se assemelhará aos incríveis anos 1970 que, claro, como toda cena, surgiram também os oportunismos e a falta de originalidade, mas foi a época em que as bandas, em todo o planeta, experimentaram, trouxeram elementos peculiares à sua música trazendo conceitos sonoros arrojados e que não se renderam aos estereótipos da qual somos escravos e vítimas atualmente.

E já que estou falando do arrojo sonoro, da música, não há como deixar de mencionar a cena rock alemã de meados dos anos 1960 e todos os anos 1970, tendo o krautrock como o seu pilar e a sua referência. Apesar de ser um nome pejorativo, em tom de galhofa por parte da imprensa britânica, o kraut trouxe novidades a uma Alemanha pós-guerra, sem auto estima cultural e bandas que, nos primórdios, eram tidos como grupos de hippies que queriam peitar o status quo, trazendo  uma nova perspectiva cultural, comportamental e política para a Alemanha, aventuraram-se na música psicodélica, lisérgica, buscando a referência no movimento contracultural norte americana, sobretudo, claro, no rock psicodélico.

E uma banda, voltando à Alemanha, por mais rara e obscura que tenha sido, foi de suma importância para um movimento musical do rock que ostentava o minimalismo, o experimentalismo, a introspecção, a viagem psicodélica repleta de ruídos, barulhos eletrônicos. Essa banda colocou em um caldeirão o rock psicodélico, o blues rock e o hard rock, em pleno início de 1970, onde o krautrock, principalmente em bandas mais emblemáticas como Kraftwerk, Amon Duul II e Can, se ouvia a viagem experimental. Falo do ARMAGGEDON!

Mas não se enganem com o Armageddon britânico formado pelo icônico guitarrista e vocalista Keith Relf, que inclusive a sua resenha pode ser lida aqui, ou ainda da banda norte americana Armaggedon, mas da banda alemã, talvez a menos conhecida das suas “irmãs” de mesmo nome.

A palavra “Armagedão” ou “Armageddon” é atribuída ao livro de São João, ao Apocalipse de São João, o último livro da Bíblia e, diante, desses conceitos e visões apocalípticas que esse livro traz, entrega também a inspiração para batizar bandas de rock, afinal, tem tudo a ver, não acham? Essa necessidade premente de chocar, de trazer o impacto a sociedade pseudo conservadora também foi uma tônica no rock germânico dos anos 1960 e 1970 e por que não dizer dos dias atuais naquele país?

O Armaggedon alemão surgiu da mente de um brilhante guitarrista chamado Frank Diez que começou a sua carreira em 1960 e sempre à frente do seu tempo, começando a tocar blues rock e tinha como inspiração musical, claro, o blues americano, bem como o folk rock, muito típico nos anos 1960. Em seu site (frankdiez.de), ao ler a sua biografia, diz que ele foi o único guitarrista alemão que teria tocado com Jimi Hendrix, Chuck Berry e Little Richard. Uau! Que escola! Se de fato esses momentos acontecerão, é totalmente compreensível essa veia bluseira pesada, intensa.

Frank Diez

E assim o foi quando formou o Armaggedon! Tinha como base o blues, o blues rock que surgia na Inglaterra com o Jeff Beck, o Cream, no Canadá com o Steppenwolf e tiveram nessas bandas o pioneirismo no estilo, na fusão do rock com o blues em um acabamento mais pesado, mais agressivo, fugindo e muito do que fazia o Rolling Stones, na sua gênese. E ousaria dizer que o Armaggedon criou esse conceito na Alemanha. E as vezes me pergunto: Como que essa banda é pouco conhecida? Como que essa banda não ganhou o reconhecimento naquela época?

O Armaggedon era formado, além pelo guitarrista e vocalista Frank Diez, o tecladista Manfred Galaktik, o baixista Michael Nurnberg e o baterista Jurgen Lorenzen. Hoje esses nomes podem não dizer nada, mas graças a abnegados que trabalham positivamente com as redes sociais que difundiram sua música e que nos faz chegar a conclusão de sua importância para à época, trazendo uma inspiração sonora anglo-americana com uma cara totalmente germânica, com o peso e a agressividade que o rock naquele país produziu.

Armaggedon

O Armaggedon assinou contrato com o lendário selo “Kuckuck”, em 1970 e as gravações para o seu debut começaram na virada de julho para agosto daquele mesmo ano. Os caras ficaram, pasmem, apenas nove dias em estúdio! Em menos de duas semanas a banda foi capaz de fazer história, mesmo que não reconhecida em 1970, no rock alemão. O suficiente para que hoje seu álbum seja objeto de suspiro e de loucura para todos os amantes de rock, e acredito que, diante do ostracismo em 1970, há quem tinha se deixado arrebatar para este álbum no seu primórdio.

O álbum, homônimo, lançado em 1970, além da notável e brilhante referência do blues rock, com pitadas psicodélicas, trazia algumas inspirações progressivas, tudo isso envolto em uma chama pesada do hard rock. Eram os anos 1970 e eram perceptível bandas flertarem com tantos estilos que ainda eram meio que embrionários, estavam em formação.

O álbum é inaugurado com a música “Round” e já começa com o pé na porta. Um senhor petardo, um voluptuoso hardão setentista com riffs pesados, arrogantes e pegajosos. Diria que essa faixa pode ser considerada como um proto metal, pois traz o peso e a agressividade necessária para se chegar a essa conclusão. Não podemos negligenciar o vocal indulgente de Diez e as viradas rítmicas tendo uma textura primorosa dos teclados, dando o contraponto ao peso da guitarra. Fabulosa faixa!

"Round"

Na sequência temos uma virada na proposta do álbum, mas que sintetiza a sua versatilidade, com a música “Open”. Traz uma viagem mais lisérgica, psicodélica e contemplativa, diria, sem medo de errar, que se trata de um space rock ao estilo Pink Floyd em seu clássico “Meddle” e não podemos deixar de dar os créditos nas viradas de bateria e da guitarra dando o clima necessário à proposta sonora. Um conceito prog/space rock de excelente qualidade.

"Open"

“Oh Man” volta ao estágio inicial: hard rock e blues rock da melhor qualidade! E aquele riff típico de um hardão, meio desleixado e sujo, abre a música e o vocal rouco e despretensioso é o destaque com riffs atrás de riffs de guitarra que dá o tom pesado a faixa, mas que traz algo meio dançante e a bateria dá esse groove saboroso.

O primeiro cover da banda, em um total de dois, vem com o clássico exuberante da banda Jeff Beck Group, “Rice Pudding”. Mas não se enganem que seria uma versão idêntica da banda do grande Jeff Beck! Pelo contrário! Traz a versão blues, com pitadas generosas de hard rock, mas com uma pegada bem lisérgica também. Espetacular!

"Rice Pudding"

“People Talking” entrega também uma pegada mais dançante, menos pesada, até, diria, mais comercial, radiofônica, mas que ganha substância com os solos de guitarra que, embora simples, encorpa a música, além de um baixo pulsante e vibrante que segue em uma salutar disputa com a guitarra de Diez.

E fecha com outro cover chamado "Better By You, Better Than Me", um clássico da banda Spooky Tooth. E confessarei que não sei qual versão gosto mais, se é a original ou a versão do Armaggedon! Poderia dizer do Armageddon? Olha hein! E que maravilha ficou essa versão! O vocal mais limpo, mas potente, altivo, os riffs de guitarra que entoam potência que rivalizam com uma atmosfera mais soturna, psicodélica. Solos simples de guitarra nos faz dançar, entrar em transe! Fantástico!

"Better By You, Better Than Me"

Este álbum é um excelente exemplo da excelente cena do Krautrock progressivo alemão no início dos anos 1970, mas que trouxera à época uma grata novidade: a junção do blues, do classic rock, do hard rock, do prog rock e do psych. Tudo em um só álbum! Um álbum que deveria ser incluído em toda coleção de discos que se preze!

O álbum do Armageddon disparou de preço nos últimos anos, devido ao crescente interesse, graças ao advento das redes sociais e de abnegados que garimpam e disseminam tais pérolas esquecidas e obscurecidas pelo ostracismo no universo do rocn n’ roll. Mas no entanto a demanda pela banda foi muito baixa, em 1970 e o Armaggedon logo se separou após o lançamento de seu único álbum.

Mas o que também fez com o interesse pelo Armaggedon e seu álbum tenha crescido nesses últimos anos foi também pelo relançamento de “Armaggedon” em 1991 com um som mais limpo e nítido, com um ótimo trabalho de remasterização digital, com uma edição limitada de apenas 1.000 cópias numeradas.

Após o fim do Armaggedon Frank Diez tocou jazz rock com a banda Emergency e mais tarde com Randy Pie, Karthago, Ihre Kinder e Atlantis, Snowball e Eric Burdon's Fire Department. Fundou a Peter Maffay Band que durou, com a sua liderança, por 30 anos. As suas habilidades afloraram também como produtor: Miller Anderson, Telecats, Blues Company e por último, mas não menos importante, sua produção solo melancólica e bela "Stranded on Fantasy Island" são apenas alguns exemplos.

Mesmo que diante do pouco caso pela qual o Armaggedon sofreu em sua gênese, e seu álbum ficando em segundo plano, caindo no ostracismo, no esquecimento, o tempo, mesmo que demasiadamente longo, se encarregou de coloca-lo no seu devido lugar de importância, de pioneirismo. Um arrojado trabalho que conferiu o título, a honraria de um álbum relevante, consiste de blues rock germânico. Altamente recomendado!



A banda:

Frank Diez na guitarra e vocal

Manfred Galatik  nos teclados

Michael Nürnberg no baixo e guitarra rítmica

Jürgen Lorenzen na bateria

  

Faixas:

1 - Round

2 - Open

3 - Oh Man

4 - Rice Pudding

5 - People Talking

6 - Better By You, Better Than Me       


"Armaggedon" (1970)    

 

 

 

 

 









 








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