A influência do britânico
Emerson, Lake & Palmer para o rock progressivo italiano é notório! Não falo
de plágio ou que a Itália progressiva se deita na fama sonora do ELP para
construir o seu som. É perceptível! Mas ainda assim a Itália, mesmo com a forte
influência, e assim devemos chamar, soube edificar a sua sonoridade com
qualidade e originalidade.
Os teclados, as texturas
sinfônicas baseadas na música clássica serviram e ainda servem de sustentáculo
para o prog italiano. A maioria das bandas clássicas da Itália traz essas
nuances de forma latente, viva. As bandas progressivas italianas, principalmente
aquelas que atingiram o status de pioneirismo, foram movidas pelo teclado,
pelas notas sinfônicas, com um forte toque de dramaticidade tipicamente italiano.
E a banda que falarei hoje
indica a forte influência do Emerson, Lake & Palmer, mas, claro, assume
também uma história calcada no mistério e na escassez de informações. Assim
deve ser, afinal, essa é a razão de ser deste humilde e reles blog que você,
estimado leitor, lê. A banda se chama TRIADE.
O Triade era é uma banda que
foi concebida na cidade de Florença, na Itália, no início dos anos 1970 e, como
o ELP, era um trio que, por décadas, não se sabia seus nomes. Sim, já começa
por aqui! No seu único álbum, lançado em 1973, de nome “1998: La Storia di
Sabazio”, o selo de Milão, Derby, não creditou seus nomes no vinil. Na
realidade apenas seus sobrenomes apareciam como créditos na arte gráfica do
álbum. E isso fomentou a aura sombria que pairava na história da banda.
Mas de certa forma isso era comum entre os jovens músicos italianos de rock progressivo na década de 1970 onde se usava nomes “fantasmas” ou pseudônimos para evitar problemas legais, pois a maioria não eram membros da Siae, a italiana Riaa.
Somente anos mais tarde, por
intermédio de um árduo trabalho, o historiador de Rock Progressivo Italiano,
Augusto Croce e o músico Enrico Rosa descobriram o mistério e a história foi
revelada. O tecladista Vincenzo Coccimiglio (que tinha apenas 18 anos na época)
conheceu o baixista Agostino "Tino" Nobile em um clube de Rock. Os
dois se deram bem e cada um escreveu um lado do material no álbum. Demorou
algum tempo, mas eles finalmente encontraram um baterista bom o suficiente para
lidar com o que eles escreveram: Giorgio Sorano.
As origens do Triade, no início dos anos 1970, surgiram a partir da banda “Noi Ter”, onde Agostino tocou com Franco Falsini, do Sensations Fix e Paolo Tofani, do I Califfi e, posteriormente, do Area. Ele trabalhou então no Space Electronic, em Florença, onde conheceu Vicenzo. Começaram a tocar juntos e, como disse, compuseram cada um deles, um lado do álbum e com a adição de Sorano formaram finalmente o Triade.
Eles foram contratados pelo
produtor Elio Gariboldi (um famoso produtor italiano, mais conhecido por ter
feito parte da banda italiano “Squallor”) e também contratado, de forma
imediata, pelo selo Derby. Em 1973 “1998: La Storia di Sabazio” foi gravado no
Rossi Studio, em Milão, e teve a arte, bem interessante e enigmática, desenhada
pela esposa de Sorano. Convém lembrar que o selo Derby já havia produzido
muitos álbuns de Toquinho ou Gianni Bella, uma gravadora que nada tinha a ver
com rock progressivo.
“1998: La Storia di Sabazio”
apresentava uma obra conceitual, pequenas “peças” progressivas de no máximo
dois ou três minutos cada, explorando diferentes progressões e arranjos
instrumentais, tendo o teclado como ponto central de sua música. Tal construção
me remete e muito o estilo “Tarkus”, clássico do Emerson, Lake & Palmer”,
com os teclados em destaque, sobretudo na primeira faixa, “Sabazio”, que é
dividida em quatro partes instrumentais.
O único álbum do Triade é,
como disse, fortemente influenciado por Emerson, Lake & Palmer, isso é
inevitável, mas não se pode afirmar plágio ou cópia, mas a forte influência
britânica na música progressiva italiana. Assim como suas inspirações inglesas,
a música do Triade focava em um jogo intenso entre teclados, claro, e seções
rítmicas marcadas. E assim se percebia no primeiro lado do álbum, composto por Vincenzo
Coccimiglio. Um som instrumental, curtas faixas, influências clássicas, prog
com psych em várias partes, um som suave nada intrincado, mas com o toque
requintado das teclas de Vincenzo, mostrando virtuosidade.
O segundo lado do álbum,
continua no rock progressivo, mas com forte viés melódico e sinfônico, onde
Agostino Nobile, compositor das faixas, surge com violão acústico, em vez do
baixo, acompanhando os teclados. Aqui, neste lado, traz à memória o Le Orme,
mas também traz toques evidentes do ELP, mesclando partes instrumentais,
acústicas e vocais, intercaladas com teclados e sintetizadores, sempre dentro
da linha progressiva um pouco mais melódica e sinfônica. E o violão lembra os
sets de Greg Lake quando esteve à frente do Emerson, Lake & Palmer. Essas
nuances, um tanto quanto distintas, entre os lados do álbum ganhou críticas não
muito agradáveis, por conta dessas abordagens sonoras, mas penso ser
exageradas, pois, apesar de contarem com compositores únicos e diferentes,
percebe-se, apesar de tudo, uma base calcada no prog italiano que se praticava
na primeira metade dos anos 1970.
O álbum começa com a suíte
“Sabazio” que é dividida por quatro partes, com pouco mais de três minutos
cada, são elas: 1- “Nascita”, 2- “Il Viaggio”, 3- “Il Sogno” e 4- “Vita Nuova”.
A parte 1 traz um som mais suave, mais pastoral e viajante, quase contemplativo,
com um órgão flutuante. A parte 2 já traz um órgão mais pulsante, com a seção
rítmica mais enérgica, o baixo e bateria em uma sinergia interessante. A parte
3 apresenta tambores, algo mais percussivo, órgão também pulsante e latente,
com energia, além da inclusão de violoncelo. Ao longo da música vai ficando
mais poderosa, um pouco mais pesado. A parte 4 traz a predominância de teclados
duplos, a prog rock aqui é mais evidente. “Sabazio” é o sonho para qualquer
amante de música clássica e progressiva, graças ao órgão, ao piano, violoncelo,
com elementos de rock como o baixo e a bateria. Uma sonoridade, embora simples,
se revela atraente e elegante o que é incrível para músicos tão jovens à época.
Segue para o outro lado do
álbum com a faixa “Il Circo” que traz uma batida mais voltada para o rock, com
uma pegada mais hard, pesada, com um órgão igualmente pesado e enérgico. Aqui
as teclas se destaca, com a bateria, marcada e pesada, também protagoniza.
“Espressione” soa mais como um
típico rock progressivo italiano com sintetizadores, acústico, com pianos doces
e vocais calorosos e agradáveis. Aqui percebe-se, de forma nítida, o lado mais
suave e romântico da Itália progressiva. Um ótimo trabalho de piano e acústico
agradável. Traz um pouco de sinfônico com sintetizadores já para o final da
música.
“Caro Fratello” é parecido com
Il Circo, por ser um rock mais acelerado com órgão, mas se expande por incluir
mellotron, violão acústico e vocais mais suaves. O destaque fica logo no começo
com órgão, bateria e baixo em uma ótima jam, extremamente animado, solar. Aqui
também traz, claro, destaque para o órgão, que divide momentos mais animados e
enérgicos, com momentos mais intimistas e dramáticos.
E fecha com “1998
(Millenovecentonovantotto)” começa com uma onda de dedilhados acústicos, com
vocais suaves e melódicos, com um baixo bem tocado. A bateria surge dando
“corpo” a faixa. Fica mais edificante com sintetizadores alegres e vibrantes,
sobretudo em seus momentos finais. As seções acústicas, bem tocadas, se
misturam com bons teclados. Se revela uma música com boas camadas e animada.
Com a mudança do produtor
Gariboldi para Munique, na Alemanha, o novo produtor, de nome Lombroso, assume
a produção do Triade. A primeira exigência dele foi que a banda voltasse ao
estúdio e gravar um álbum mais comercial. A banda imediatamente recusou a
proposta. Aqui seria o começo do fim do Triade. Mas não foi apenas a
discordância entre produtor e banda, com relação às novas tendências sonoras,
que fez com que o Triade findasse, tão precocemente, a sua trajetória.
A crítica também não foi muito
gentil com a banda. Os acusou de serem pouco originais, principalmente por não
enfatizar tanto, segundo os críticos, a essência do rock progressivo italiano,
absorvendo sonoridades britânicas, principalmente do Emerson, Lake &
Palmer. Evidente que o único álbum do Triade não soa original e traz
influências do ELP, afinal, penso que as raízes progressivas italianas vêm dos
britânicos, principalmente do Emerson, Lake & Palmer e nota-se, de forma
evidente, a meu ver, uma sonoridade simples, quase inocente, sim, mas muito
talhado para o rock progressivo italiano.
“1998: La Storia di Sabazio”
talvez não represente totalmente a pureza do rock progressivo italiano que foi
se construindo ao longo dos anos 1970, mas é um resultado, como todas bandas
que surgiriam no cenário italiano, das influências daquele país, absorvendo
ainda as características marcantes da sua sonoridade, as suas peculiaridades.
Após a formação da Triade,
quando o baterista Giorgio Sorano entrou por último na banda, surgiu a chance,
e foi tudo muito rápido, de se reunir com o produtor Elio Gariboldi. E deve-se
a ele por ajudar os jovens músicos à época, a lapidar seu som, produzindo
resultados lucrativos, sob o aspecto sonoro, com “1998: La Storia di Sabazio”,
que incluíam equipamentos, instrumentos de ponta, como mellotron e um gonue
gigante, além de um tempo considerável em um estúdio com um engenheiro de som.
E assim surgiu o único álbum do Triade.
“1998: La Storia di Sabazio”
entrou na cena prog italiana com um grande destaque, devido às performances ao
vivo enérgicas e até extravagantes da banda. Os garotos do Tríade estavam no
auge da criatividade e físico e o mundo parecia ser o limite. Logo abriram
shows para as grandes bandas da época, como Banco, Premiata Forneria Marconi e
Franco Battiato e até conseguiram alguns shows como atração principal, mas
apesar da exposição que a banda vinha conquistando, o álbum não emplacava, não
correspondendo às expectativas de vendas.
A corrida do ouro do
progressivo italiano, nos anos 1970, para muitos virou simplesmente um latão
desvalorizado e frustrante e com o Triade não foi diferente. As baixas vendas
de seu álbum e o tímido apoio da gravadora fez com a banda cessasse as suas
atividades precocemente, como tantas outras que seguiram sua trajetória na mais
profunda obscuridade e ostracismo.
“1998: La Storia di Sabazio”
teve alguns relançamentos. Em 1974, um ano após seu lançamento, o selo Derby o
relançou na Itália, no formato LP e cassete. Em 1993 foi lançado no Japão pelos
selos Nexus International e King Records no formato LP. Em 1987 novo
relançamento no Japão no formato CD, pelo selo Nexus e outro relançamento, em
1993, também em CD, pelo selo CGD. Em 1993 foi a Coréia do Sul. Entre 1994 e
2020 foram vários relançamentos, em CD e LP, alternando entre a Itália e o
Japão.
A banda:
Vincenzo Coccimiglio nos
teclados
Agostino Nobile no baixo,
violão e vocal
Giorgio Sorano na bateria
Faixas:
1 - Sabazio: Nascita
2 - Sabazio: Il Viaggio
3 - Sabazio: Il Sogno
4 - Sabazio: Vita Nuova
5 - Il Circo
6 - Espressione








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