Hornsey, Inglaterra, segunda
metade dos anos 1960. Das cinzas da banda Merlyn, nasceria a banda GRIT. O Grit
trazia, em sua formação, Frank Martinez, na guitarra solo e vocais, Paul
Christodoulou no baixo e vocais, Tom Kelly, na bateria e vocais e Jeff Ball, o
vocalista principal.
A origem do nome “Grit” veio,
como todas as ideias, de lampejos, de “surtos” criativos. Michael, um antigo
membro da banda, estava, juntamente com Frank Martinez, andando pelas ruas de
Londres e avistaram uma lixeira, onde é armazenada areia que é usada em
estradas geladas, com neve e a partir daí veio o estalo: “Grit”! No dia 20 de
outubro de 1970 foram ao cartório para registrar o nome.
As origens dos membros do Grit
vieram, claro, de outras bandas. O baterista Tom Kelly veio de uma banda
chamada “Connexion” e Paul Christodoulou tocou no Merlyn juntamente com Frank,
essa trazia a espinha dorsal do Grit. Além de Paul e Frank, a formação do
Merlyn trazia George Panteli, na guitarra, John Stevens, nos teclados.
A formação definitiva do Grit
nasceu quando Frank e Paul convenceram Tom Kelly a se juntar a eles. Foi
difícil, no início, mas ele cedeu quando assistiram a um show da banda escocesa
Nazareth. O vocalista Jeff foi o último a se juntar à banda quando esta colocou
um anúncio na Melody Maker.
Diferente do que muitos
pensavam à época o Grit não era um “power trio”. De fato, a banda,
efetivamente, estava em três músicos, pois Jeff Ball, o vocalista principal,
foi o último a entrar. Mas não se podia negligenciar a importância dos irmãos
Russell para o Grit. John era um ótimo apoiador da banda, embora não tocasse
nenhum instrumento, sempre ajudou no que fosse possível. Porém teve de se
afastar quando se casou. Jimmy, seu irmão, assumiu o lugar de John, tornando-se
roadie e técnico do Grit.
Agora com essa formação o
próximo passo da banda seria, como todas as outras, ensaiar, compor material
próprio e gravar um álbum para divulgar e viver da sua arte, da sua música. Cabe
aqui uma curiosidade acerca do guitarrista Frank Martinez, já que mencionei
sobre viver de música: Martinez estudou eletrônica no Southgate Technical
College e trabalhou na Nolan Amps e construiu um amplificador PA de 100W
(chamado de Spider PA) e duas pilhas de alto-falantes, que mais tarde se
tornariam parte do equipamento do Grit.
A gravação foi feita na hora,
sem ensaios, apenas configurada e pronta, afinal, a banda não tinha grana para
pagar por um longo tempo no estúdio. Eles fizeram isso pouco antes do natal,
talvez véspera de natal e o engenheiro de som, no ritmo das festas natalinas,
não se aplicou bem ao trabalho e reza a lenda que estava bêbado. Resumo: além
do pouco tempo que o Grit tinha, praticamente concebeu o álbum sem amparo
técnico.
Nos LP's, a banda conseguiu
encaixar todas as músicas de um lado, o engenheiro reduziu o nível do baixo. As
fitas estavam de acordo. As músicas foram escritas pela banda, exceto
"Mineshaft" (Tom), "Child and the Drifter" (Paul),
"What do you see in my Eyes" (Frank) e "I wish I was"
(Paul). Outra faixa escrita por Tom foi "Surrounded by Four Grey
Walls" (não gravada).
“Grit”, o álbum, basicamente
traz um envenenado hard rock, aquele típico, mas inconfundível, hard rock dos
anos 1970, porém com reminiscências do rock psicodélico, com guitarras
lisérgicas e pesadas, com uma bateria furiosa, baixo pulsante e um vocal forte
e direto. Um álbum do seu tempo, mas ainda assim não deixa de entregar grandes
surpresas. Um álbum pesado, forte, volumoso, cheio de vida que nasceu e não
ganhou o mundo, como tantos outros que, sem nenhum suporte, perece, não vinga. A
falta de estrutura, de uma produção adequada, apenas realçou a volúpia de seu
som, mostrando-se cru, arrogante e pesado.
O álbum é introduzido com a
matadora faixa de “Mineshaft” que, como um trovão, começa com riffs pegajosos e
pesados de guitarra que me remete a um heavy metal, um proto metal poderoso,
com um vocal alto, gritado, em alguns momentos e até rouco. Bateria em uma
batida forte, intensa, baixo pulsante, galopante. Os solos de guitarra se
mostra psicodélico, ácido, mas logo se apura, fica mais alto e límpido trazendo
aos tempos do hard rock dos anos 1970. Não há como ficar parado a essa
hecatombe sonora.
Segue com “The Child and the
Drifter” que inicia mais discreta, com dedilhados de guitarra, mas foi por
pouco tempo, a bateria anuncia mais uma força da natureza que varre tudo que
está em sua frente. Ela é pesada, marcada, mas cheia de agressividade que
encorpa a música, a deixando poderosa, pesada e totalmente despretensiosa. E
tudo isso é confirmado pelos riffs de guitarra. Os vocais aqui estão mais
contidos, mais discretos, mais apurados. Solos de guitarra variam entre o peso
do hard rock e a lisergia do psicodélico. O que dizer do final? Pesada, um doce
caos!
“What Do You See in my Eyes/I
Wish I Was” começa atípica para o que se ouviu nas duas faixas iniciais.
Guitarras dedilhadas, lembrando The Doors, vocais doces e baixos. Ao ouvi-la me
remete imediatamente aos tempos do “flower power” dos anos 1960, com uma pegada
meio folk, inclusive. Mas não se enganem, caros leitores, porque, logo irrompe
em uma explosão de hard rock, mais uma vez, com destaque para a bateria pesada.
A proposta da música é trazer variâncias rítmicas, pois, logo se ouve um
belíssimo solo de guitarra com uma vibe mais blues, curto, mas viajante e
lindo, mostrando que a banda é sim competente. O final é vibrante, intenso,
revelando, ainda mais, a competência instrumental de seus músicos. O hard rock
é o protagonista no derradeiro e espetacular final dessa faixa.
“1000 Miles” começa pesada, a
bateria é forte, intensa e caótica. A música, quando ganha velocidade, ganha
corpo, peso, se mostra, se revela um verdadeiro proto metal. As arestas da
heavy metal estão nas arestas sonoras, na melodia, na dramaticidade de seus
instrumentos. Vocais gritados corroboram tal condição. Em determinados momentos
ela se torna arrastada, agora percebe-se o proto doom, a sujeira do som.
Espetacular!
Segue com “Across the
Windowsill” que é a faixa bônus do álbum, em virtude do seu relançamento. Essa
faixa foi concebida quando a banda se chamava Merlyn e traz uma pegada mais
garageira, com “pitadas” evidentes de uma psicodelia ácida e pesada, com riffs
grudentos, mas pesados de guitarra, que confirmam a lisergia.
O Grit, munido de seus
acetatos, de seu disco em mãos, visitou alguns agentes musicais e selos em
Londres, para tentar lançar seu material e partir para a turnê em divulgação de
sua música, mas ninguém se interessou. Contudo enquanto procurava, um gerente,
eles encontraram uma empresa que lhes garantiu uma turnê pela Grécia. Era a
chance que precisavam, diante de um cenário de total descaso com a sua música.
Eles tinham anunciado o seu álbum na famosa “Melody Maker” e essa empresa grega
viu e decidiu entrar em contato.
Era a Mantas Production, do
grego Kon Mantas! A banda aceitou a oferta e seguiu viagem para a Grécia em 23
de abril de 1973. Foi uma verdadeira aventura e a chance de que o Grit
precisava para deslanchar a sua música. E a aventura já se deu na viagem!
Cruzaram boa parte da Europa dentro de uma van e, claro, os problemas mecânicos
com o carro apareceriam. Se perderiam também no caminho, mas, enfim chegaram.
Em Atenas a banda finalmente
conhece Kon Mantas. Era um cara legal, mas não tinha tanta experiência como
empresário ou nenhuma experiência. Colocou a banda em um apartamento. Ficaram
bem instalados, mas não demorou muito para entrar em atrito com os moradores do
prédio, por conta dos ensaios, e logo foram visitados pela polícia e intimados
a sair do local. Mantas decidiu, diante disso, instalá-los em um hotel.
Sem muito trabalho, Kon Mantas
começou a buscar outras alternativas para trazer um mínimo de renda para si e
também para manter o Grit no hotel, pagando as suas diárias. A banda,
consequentemente estava com dificuldades de descolar alguns shows. Mas não
deixaram de se esforçar na incessante busca de shows, de apresentações e
conseguiu alguns shows com as principais bandas de psych rock da Grécia, como
Sócrates e Peloma Mpoklou em grandes festivais. Tocaram em um show pop diante
de três mil pessoas. Era o auge para o Grit. Tocaram também em um show, ao ar
livre, no Palais des Sports Festival, Thessalonica. Eram sete mil pessoas.
Estava indo bem, apesar de que, neste último show, o promotor não tenha feito o
pagamento do cachê à banda. Mas pelo menos conseguiram se apresentar e mostrar
a banda a uma multidão.
Apareceram na TV desta vez, no
“Top of the Pops”. Um programa famoso e que muitas bandas emergentes tocaram.
Os diretores pediram ao Grit para se posicionarem devidamente no palco, era um
programa em que as bandas faziam “playback”, mas o Grit não obedeceu e pularam
por todo o lugar. Tiveram alguma publicidade na revista “Fantasia”. Apareceram
em outro programa de TV chamado “Golden Shot”, onde também tocaram “playback”.
Foram quatro aparições na TV do Grit, no total.
Mas tudo tem um fim! O
guitarrista e vocalista Frank Martinez recebeu a notícia, de sua mãe, que o seu
pai estava gravemente doente. Ele precisava deixar a Grécia para voltar para
Londres, mas a banda precisava conversar sobre isso e como no momento não estavam
fazendo shows e consequentemente estavam sem dinheiro para se manter na Grécia.
Então decidiu retornar à Inglaterra e os demais da banda retornariam duas
semanas depois. A aventura durou de maio a julho de 1973. E no final de julho
daquele mesmo ano o Grit optou por se separar. Esse era o fim da banda!
Martinez deixaria a música em
1974. Mudou-se para a Espanha e decidiu dedicar-se à eletrônica, no que estudou
no passado, como autônomo, e com essa profissão aposentou-se. Ao se aposentar
voltou a tocar novamente. O baterista Tom Kelly e o baixista Paul Cristodoulou,
que tocaram juntos no Merlyn, formaram a banda “Kelly” e depois fizeram uma
pausa e, nos anos 1980, Tom se juntaria à banda de heavy metal “Mean Machine”.
Tom se mudaria para
Bournemouth e se concentrou na pintura. Ele ainda tem uma bateria em seu
estúdio e toca praticamente todos os dias. Paul está atualmente no Chipre tocando
com a banda “Reggae Rockers”. O vocalista Jeff continua sua carreira em
Benidorm em uma banda de tributo aos Bee Gees.
As gravações e fitas do único
álbum do Grit, de 1972, estavam prontas para serem descartadas pela família de
Frank Martinez. Ninguém realmente queria aquelas coisas antigas ocupando
espaço. Mas antes que isso acontecesse Frank mostrou seu LP, em 2019, para um
amigo, fanático por rock e vinis, e ele recomendou que publicasse uma foto e as
gravações no Facebook e na internet. O fez de forma totalmente despretensiosa,
gostou de compartilhá-lo nas redes sociais, ferramenta esta que não era tão
próximo.
E para a sua surpresa veio o primeiro contato da Alemanha comentando que havia comprado um dos acetatos do Grit em um mercado de pulgas e perguntou se poderia usar o material. Martinez não hesitou e autorizou que os usasse. Algum tempo depois um representante da gravadora Guerssen entrou em contato interessado em relançar o álbum. Dessa vez de forma oficial, depois de quase cinquenta anos de sua gravação. Que sorte Martinez não ter descartado as gravações! Então esta foi cedida para o selo que o relançou em 2020. A outra cópia do acetato original, pode ser encontrada em “7001 Record Collector Dreams”, de Hans Pokora, com um ponto máximo dado por raridade. Afinal havia apenas duas cópias pressionadas!
Uma história cheia de
aventuras, repleta de obstáculos e muito amor à música, digna de cinema e que
mostra uma música forte, intensa, pesada. Uma joia escondida do rock n’ roll
que depois de quase meio século na mais pura e genuína obscuridade ganha luz para
deleite daqueles que desbravam o lado underground da música de que tanto
amamos.
A banda:
Frank Martinez na guitarra e
vocal
Paul Christodoulou no baixo e
vocal
Tom Kelly na bateria e vocal
Jeff Ball no vocal
Faixas:
1 – Mineshaft
2 – The Child and The Drifter
3 – What Do You See In My Eyes
/ I Wish I Was
4 – 1000 Miles
5 – Across The Windowsill
(Merlyn) – Bonus Track
6 - What Do You See In My Eyes
/ I Wish I Was – Bonus Track
7 – Down In The Mine
(Mineshaft) – Bonus Track
















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