sábado, 4 de abril de 2026

Grit - Grit (1972)

 

Hornsey, Inglaterra, segunda metade dos anos 1960. Das cinzas da banda Merlyn, nasceria a banda GRIT. O Grit trazia, em sua formação, Frank Martinez, na guitarra solo e vocais, Paul Christodoulou no baixo e vocais, Tom Kelly, na bateria e vocais e Jeff Ball, o vocalista principal.

A origem do nome “Grit” veio, como todas as ideias, de lampejos, de “surtos” criativos. Michael, um antigo membro da banda, estava, juntamente com Frank Martinez, andando pelas ruas de Londres e avistaram uma lixeira, onde é armazenada areia que é usada em estradas geladas, com neve e a partir daí veio o estalo: “Grit”! No dia 20 de outubro de 1970 foram ao cartório para registrar o nome.

As origens dos membros do Grit vieram, claro, de outras bandas. O baterista Tom Kelly veio de uma banda chamada “Connexion” e Paul Christodoulou tocou no Merlyn juntamente com Frank, essa trazia a espinha dorsal do Grit. Além de Paul e Frank, a formação do Merlyn trazia George Panteli, na guitarra, John Stevens, nos teclados.

A formação definitiva do Grit nasceu quando Frank e Paul convenceram Tom Kelly a se juntar a eles. Foi difícil, no início, mas ele cedeu quando assistiram a um show da banda escocesa Nazareth. O vocalista Jeff foi o último a se juntar à banda quando esta colocou um anúncio na Melody Maker.

Grit

Diferente do que muitos pensavam à época o Grit não era um “power trio”. De fato, a banda, efetivamente, estava em três músicos, pois Jeff Ball, o vocalista principal, foi o último a entrar. Mas não se podia negligenciar a importância dos irmãos Russell para o Grit. John era um ótimo apoiador da banda, embora não tocasse nenhum instrumento, sempre ajudou no que fosse possível. Porém teve de se afastar quando se casou. Jimmy, seu irmão, assumiu o lugar de John, tornando-se roadie e técnico do Grit.

Agora com essa formação o próximo passo da banda seria, como todas as outras, ensaiar, compor material próprio e gravar um álbum para divulgar e viver da sua arte, da sua música. Cabe aqui uma curiosidade acerca do guitarrista Frank Martinez, já que mencionei sobre viver de música: Martinez estudou eletrônica no Southgate Technical College e trabalhou na Nolan Amps e construiu um amplificador PA de 100W (chamado de Spider PA) e duas pilhas de alto-falantes, que mais tarde se tornariam parte do equipamento do Grit.

A gravação foi feita na hora, sem ensaios, apenas configurada e pronta, afinal, a banda não tinha grana para pagar por um longo tempo no estúdio. Eles fizeram isso pouco antes do natal, talvez véspera de natal e o engenheiro de som, no ritmo das festas natalinas, não se aplicou bem ao trabalho e reza a lenda que estava bêbado. Resumo: além do pouco tempo que o Grit tinha, praticamente concebeu o álbum sem amparo técnico.

Nos LP's, a banda conseguiu encaixar todas as músicas de um lado, o engenheiro reduziu o nível do baixo. As fitas estavam de acordo. As músicas foram escritas pela banda, exceto "Mineshaft" (Tom), "Child and the Drifter" (Paul), "What do you see in my Eyes" (Frank) e "I wish I was" (Paul). Outra faixa escrita por Tom foi "Surrounded by Four Grey Walls" (não gravada).

“Grit”, o álbum, basicamente traz um envenenado hard rock, aquele típico, mas inconfundível, hard rock dos anos 1970, porém com reminiscências do rock psicodélico, com guitarras lisérgicas e pesadas, com uma bateria furiosa, baixo pulsante e um vocal forte e direto. Um álbum do seu tempo, mas ainda assim não deixa de entregar grandes surpresas. Um álbum pesado, forte, volumoso, cheio de vida que nasceu e não ganhou o mundo, como tantos outros que, sem nenhum suporte, perece, não vinga. A falta de estrutura, de uma produção adequada, apenas realçou a volúpia de seu som, mostrando-se cru, arrogante e pesado.

O álbum é introduzido com a matadora faixa de “Mineshaft” que, como um trovão, começa com riffs pegajosos e pesados de guitarra que me remete a um heavy metal, um proto metal poderoso, com um vocal alto, gritado, em alguns momentos e até rouco. Bateria em uma batida forte, intensa, baixo pulsante, galopante. Os solos de guitarra se mostra psicodélico, ácido, mas logo se apura, fica mais alto e límpido trazendo aos tempos do hard rock dos anos 1970. Não há como ficar parado a essa hecatombe sonora.

"Mineshaft"

Segue com “The Child and the Drifter” que inicia mais discreta, com dedilhados de guitarra, mas foi por pouco tempo, a bateria anuncia mais uma força da natureza que varre tudo que está em sua frente. Ela é pesada, marcada, mas cheia de agressividade que encorpa a música, a deixando poderosa, pesada e totalmente despretensiosa. E tudo isso é confirmado pelos riffs de guitarra. Os vocais aqui estão mais contidos, mais discretos, mais apurados. Solos de guitarra variam entre o peso do hard rock e a lisergia do psicodélico. O que dizer do final? Pesada, um doce caos!

"The Child and The Drifter"

“What Do You See in my Eyes/I Wish I Was” começa atípica para o que se ouviu nas duas faixas iniciais. Guitarras dedilhadas, lembrando The Doors, vocais doces e baixos. Ao ouvi-la me remete imediatamente aos tempos do “flower power” dos anos 1960, com uma pegada meio folk, inclusive. Mas não se enganem, caros leitores, porque, logo irrompe em uma explosão de hard rock, mais uma vez, com destaque para a bateria pesada. A proposta da música é trazer variâncias rítmicas, pois, logo se ouve um belíssimo solo de guitarra com uma vibe mais blues, curto, mas viajante e lindo, mostrando que a banda é sim competente. O final é vibrante, intenso, revelando, ainda mais, a competência instrumental de seus músicos. O hard rock é o protagonista no derradeiro e espetacular final dessa faixa.

"What Do I See in My Eyes / I Wish, I Was"

“1000 Miles” começa pesada, a bateria é forte, intensa e caótica. A música, quando ganha velocidade, ganha corpo, peso, se mostra, se revela um verdadeiro proto metal. As arestas da heavy metal estão nas arestas sonoras, na melodia, na dramaticidade de seus instrumentos. Vocais gritados corroboram tal condição. Em determinados momentos ela se torna arrastada, agora percebe-se o proto doom, a sujeira do som. Espetacular!

"1000 Miles"

Segue com “Across the Windowsill” que é a faixa bônus do álbum, em virtude do seu relançamento. Essa faixa foi concebida quando a banda se chamava Merlyn e traz uma pegada mais garageira, com “pitadas” evidentes de uma psicodelia ácida e pesada, com riffs grudentos, mas pesados de guitarra, que confirmam a lisergia. Na sequência do relançamento do álbum traz a já citada por aqui, “What Do You See In My Eyes/ I Wish I Was” e fecha com a pesadíssima, e também já citada faixa que inaugura o álbum original, “Mineshaft”, aqui chamada de “Down in the Mine”. Para registro histórico vale e muito a pena a audição, sobretudo da avassaladora “Mineshaft”.

"Across The Windwsill"

O Grit, munido de seus acetatos, de seu disco em mãos, visitou alguns agentes musicais e selos em Londres, para tentar lançar seu material e partir para a turnê em divulgação de sua música, mas ninguém se interessou. Contudo enquanto procurava, um gerente, eles encontraram uma empresa que lhes garantiu uma turnê pela Grécia. Era a chance que precisavam, diante de um cenário de total descaso com a sua música. Eles tinham anunciado o seu álbum na famosa “Melody Maker” e essa empresa grega viu e decidiu entrar em contato.

Era a Mantas Production, do grego Kon Mantas! A banda aceitou a oferta e seguiu viagem para a Grécia em 23 de abril de 1973. Foi uma verdadeira aventura e a chance de que o Grit precisava para deslanchar a sua música. E a aventura já se deu na viagem! Cruzaram boa parte da Europa dentro de uma van e, claro, os problemas mecânicos com o carro apareceriam. Se perderiam também no caminho, mas, enfim chegaram.



Em Atenas a banda finalmente conhece Kon Mantas. Era um cara legal, mas não tinha tanta experiência como empresário ou nenhuma experiência. Colocou a banda em um apartamento. Ficaram bem instalados, mas não demorou muito para entrar em atrito com os moradores do prédio, por conta dos ensaios, e logo foram visitados pela polícia e intimados a sair do local. Mantas decidiu, diante disso, instalá-los em um hotel.

Sem muito trabalho, Kon Mantas começou a buscar outras alternativas para trazer um mínimo de renda para si e também para manter o Grit no hotel, pagando as suas diárias. A banda, consequentemente estava com dificuldades de descolar alguns shows. Mas não deixaram de se esforçar na incessante busca de shows, de apresentações e conseguiu alguns shows com as principais bandas de psych rock da Grécia, como Sócrates e Peloma Mpoklou em grandes festivais. Tocaram em um show pop diante de três mil pessoas. Era o auge para o Grit. Tocaram também em um show, ao ar livre, no Palais des Sports Festival, Thessalonica. Eram sete mil pessoas. Estava indo bem, apesar de que, neste último show, o promotor não tenha feito o pagamento do cachê à banda. Mas pelo menos conseguiram se apresentar e mostrar a banda a uma multidão.

Apareceram na TV desta vez, no “Top of the Pops”. Um programa famoso e que muitas bandas emergentes tocaram. Os diretores pediram ao Grit para se posicionarem devidamente no palco, era um programa em que as bandas faziam “playback”, mas o Grit não obedeceu e pularam por todo o lugar. Tiveram alguma publicidade na revista “Fantasia”. Apareceram em outro programa de TV chamado “Golden Shot”, onde também tocaram “playback”. Foram quatro aparições na TV do Grit, no total.

Mas tudo tem um fim! O guitarrista e vocalista Frank Martinez recebeu a notícia, de sua mãe, que o seu pai estava gravemente doente. Ele precisava deixar a Grécia para voltar para Londres, mas a banda precisava conversar sobre isso e como no momento não estavam fazendo shows e consequentemente estavam sem dinheiro para se manter na Grécia. Então decidiu retornar à Inglaterra e os demais da banda retornariam duas semanas depois. A aventura durou de maio a julho de 1973. E no final de julho daquele mesmo ano o Grit optou por se separar. Esse era o fim da banda!

Frank Martinez

Martinez deixaria a música em 1974. Mudou-se para a Espanha e decidiu dedicar-se à eletrônica, no que estudou no passado, como autônomo, e com essa profissão aposentou-se. Ao se aposentar voltou a tocar novamente. O baterista Tom Kelly e o baixista Paul Cristodoulou, que tocaram juntos no Merlyn, formaram a banda “Kelly” e depois fizeram uma pausa e, nos anos 1980, Tom se juntaria à banda de heavy metal “Mean Machine”.

Tom se mudaria para Bournemouth e se concentrou na pintura. Ele ainda tem uma bateria em seu estúdio e toca praticamente todos os dias. Paul está atualmente no Chipre tocando com a banda “Reggae Rockers”. O vocalista Jeff continua sua carreira em Benidorm em uma banda de tributo aos Bee Gees.

As gravações e fitas do único álbum do Grit, de 1972, estavam prontas para serem descartadas pela família de Frank Martinez. Ninguém realmente queria aquelas coisas antigas ocupando espaço. Mas antes que isso acontecesse Frank mostrou seu LP, em 2019, para um amigo, fanático por rock e vinis, e ele recomendou que publicasse uma foto e as gravações no Facebook e na internet. O fez de forma totalmente despretensiosa, gostou de compartilhá-lo nas redes sociais, ferramenta esta que não era tão próximo.

E para a sua surpresa veio o primeiro contato da Alemanha comentando que havia comprado um dos acetatos do Grit em um mercado de pulgas e perguntou se poderia usar o material. Martinez não hesitou e autorizou que os usasse. Algum tempo depois um representante da gravadora Guerssen entrou em contato interessado em relançar o álbum. Dessa vez de forma oficial, depois de quase cinquenta anos de sua gravação. Que sorte Martinez não ter descartado as gravações! Então esta foi cedida para o selo que o relançou em 2020. A outra cópia do acetato original, pode ser encontrada em “7001 Record Collector Dreams”, de Hans Pokora, com um ponto máximo dado por raridade. Afinal havia apenas duas cópias pressionadas!

Uma história cheia de aventuras, repleta de obstáculos e muito amor à música, digna de cinema e que mostra uma música forte, intensa, pesada. Uma joia escondida do rock n’ roll que depois de quase meio século na mais pura e genuína obscuridade ganha luz para deleite daqueles que desbravam o lado underground da música de que tanto amamos.





A banda:

Frank Martinez na guitarra e vocal

Paul Christodoulou no baixo e vocal

Tom Kelly na bateria e vocal

Jeff Ball no vocal

 

Faixas:

1 – Mineshaft

2 – The Child and The Drifter

3 – What Do You See In My Eyes / I Wish I Was

4 – 1000 Miles

5 – Across The Windowsill (Merlyn) – Bonus Track

6 - What Do You See In My Eyes / I Wish I Was – Bonus Track

7 – Down In The Mine (Mineshaft) – Bonus Track




"The Grit" (1972)





 




































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