Os álbuns concebidos e
lançados, na transição das melhores décadas do rock n’ roll, décadas de 1960 e
1970, gozam de uma peculiaridade especial: você percebe o beat, o
experimentalismo do rock psicodélico e as nuances pesadas embrionárias do hard
rock dos anos 1970. É pitoresco as bandas que se aventuram em sonoridades
novas, experimentais, deixando simplesmente a criatividade e a liberdade
musical falar mais alto.
Mas pagavam, com isso, um
preço alto pela “audácia” sonora, fugindo das tendências e modas construído por
um mercado fonográfico que decididamente está contra a arte manifestada como
ela deve ser: pura, genuína e desprendida de estereótipos.
Claro que neste reles e humilde blog, marginal e independente, essas bandas surgem e em profusão, mostrando um lado esquecido e empoeirado do rock n’ roll que até mesmo os apreciadores do estilo desconhecem e arrisco em dizer que rejeitam. Aqui essas bandas ganham vida e tem as suas histórias contadas, por mais que elas sejam escassas de informações.
E todo esse texto
introdutório, do jeito que eu gosto, é para anunciar ou melhor escrever sobre
mais uma banda esquecida, engavetada pelos burocratas da música que torceram o
nariz para o seu pequeno, mas significativo material lançado ou diria que não foi
oficialmente lançado. Falo da banda THE LYD ou LYD.
The Lyd ou Lyd (denominado assim nos relançamentos) foi formada em Los Angeles, a meca da psicodelia e contracultura norte americana e mundial, no final dos anos 1960, mais precisamente no ápice do rock psicodélico norte americano, em 1969. A banda era formada por: Jack Linerly na guitarra e vocais, Frank Tag na guitarra, piano e vocais, Rob Weisenberg no baixo e vocais e Chet Desmark na bateria, percussão e vocais.
Reza a lenda que o The Lyd ou
Lyd não era necessariamente uma banda, mas um grupo de músicos que,
eventualmente eram reunidos em estúdios para gravar uma música e outra e só
entrava sob efeito de alguma substância, algum psicotrópico, mais precisamente
um LSD, o famoso ácido lisérgico.
E por falar em estúdios, nada
da banda foi lançado, de forma oficial, àquela época, mas quando entraram no
estúdio de Pat Boone, em Hollywood, Califórnia, chamado Sunset Recording
Studios, algumas músicas foram concebidas, algumas músicas foram gravadas, mas
apenas isso. Sim! Não passou de algumas cópias de acetatos, que totalizaram
apenas 21 minutos de duração, apenas um lado utilizado, sem capas, sem arte
gráfica, até mesmo os nomes das músicas não foram escritos nesses acetatos,
estava apenas descrito como “faixa número um”, “faixa número dois” etc. Era
como se tudo estivesse ainda em estado puro, ainda por lapidar, no início do
projeto, talvez.
O ano era 1970! Outra lenda
que circula é de que apenas uma cópia original desse acetato, com um total de seis
músicas, foi concebida. Outras escassas fontes dão conta de que três ou quatro
cópias desse material foram feitas. E, para não dizer que não havia capas ou
uma arte gráfica minimamente feitas, o que teria sido feito ou melhor produzido
naquela época, em 1970, era uma capa, em preto e branco, com a ilustração,
adivinhem, de um cara fumando maconha no centro. O verso era completamente
branco. No selo dizia: “Sunset Recording Studios, Inc 5539, Sunset Boulevard,
Hollywood, Califórnia, The Lyd Side 1. Essa é a comprovação cabal de que era um
trabalho ainda bruto, a ser lapidado e em processo de feitura e que, por algum
motivo, não foi dada sequência.
Outra informação que circula,
acerca do único trabalho produzido do The Lyd ou Lyd, os tais acetatos teriam
saído ou roubados dos arquivos dos estúdios e ganhado o mundo, sendo pirateados
e assim, dessa forma, lançados, mas falemos disso depois, porque precisamos
falar dessa pepita de ouro no seu estado puro e brutal. Assim eu, de imediato,
descreveria o álbum ou acetato do The Lyd, homônimo: sujo, brutal, selvagem
para os parâmetros da época, o que, claro, me deixou entusiasmado quando fiz a
primeira audição.
“The Lyd” trazia a estética dos
anos 1960 em transição para a década de 1970: Um poderoso álbum, de 21 minutos,
de hard psych, sujo, selvagem, um rock de garagem sensacional. Acredito que aquelas
substâncias utilizadas possam ter tido, claro, além da criatividade e talento
de seus músicos, influência sobre essa música tão pesada, lisérgica e poderosa
do The Lyd. Aqui a atmosfera intensa, típica de porão úmido e escuro, com
guitarras crocantes e pesadas, cheias de distorção, com longas excursões de
fuzz é a tônica deste trabalho.
As músicas, como estavam
descritas, nos seus acetatos originais, estavam apenas numeradas, os nomes
destas podem ter sido alterados de acordo com os tais relançamentos, então
vamos a elas! O trabalho é inaugurado pela faixa “The Time Of Hate And Struggle”
ou “Part One” que inicia viajante, psicodélica, guitarras mais dedilhadas. Os
vocais são dramáticos, de atmosfera sombria, seguindo a proposta sonora, mas
não demora muito para se ouvir um riff mais pesado e denso e assim alterna,
entre o peso e o sombrio. Uma faixa estranha, lisérgica e pesada, mostrando o
melhor das décadas de 1960 e 1970.
“Need You” ou “Part Two” já
começa animada, solar, com riffs pesados e grudentos de guitarra, solos simples
e diretos faz da música algo sujo, despretensioso e garageiro. Os vocais
assumem um belo alcance, algo mais alto e limpo, seguindo a tônica mais
enérgica da música. Aqui o hard rock parece ganhar vida e ter certo
protagonismo. Mas aquela pegada dançante, típica dos anos 1960, ainda está lá.
“Stay High / Fly Away Is Still
Ok” ou “Part Three” me remeteu a algo como The Stooges, por exemplo. Aqui a
sonoridade é mais suja e pesada e traz reminiscências do proto punk e do heavy
metal. A bateria tem uma pegada mais dura e pesada e o baixo é evidentemente
galopante. As nuances do heavy e punk estão aqui como se fosse uma maquete do
que ganharia vida na segunda metade dos anos 1970 e início dos anos 1980.
“Double Dare” ou “Part Four” é uma faixa de tiro curto e vem com um vocal meio falado (seria os primórdios do hip hop?), mas forjado com um hard rock típico, com bateria dura, marcada e pesada e riffs e solos de guitarra de tirar o fôlego. “Think It Over Twice” ou “Part Five” começa estrondosa, com riffs poderosos de guitarra, solos grudentos e sujos e variavelmente com alternâncias de uma sonoridade, que vai do hard para uma música mais sulista, no mínimo intrigante e interessante. Mas aqui o peso e a audácia são protagonistas. Vocais gritados, solos bem elaborados de guitarra, em alguns momentos. Aqui o hard rock ganha vivacidade e não há sequer sinal da psicodelia. Nesta música o The Lyd mostra o seu lado mais arrojado e complexo.
E fecha com “Trash Pad” ou “Part
Six” que traz à tona novamente o lado psicodélico do álbum. Nessa faixa há a
percepção do psych underground, mais com uma pegada mais dançante, porém os
riffs de guitarra fazem questão de mostrar que o peso típico da banda ainda
estava lá. Vocal meloso e mais limpo são os destaques da faixa.
Muitos apreciadores e
colecionistas de vinis atribuem ao selo Akarma o lançamento oficial do álbum do
The Lyd ou Lyd, em 2000, na Itália. Mas, de acordo com algumas escassas
referências que há na web, o primeiro relançamento foi feito selo belga Fanny,
também conhecida como Fanny Records, em 1992, especializada em lançamentos de
álbuns raros, nem sempre oficiais, com capa diferente dos relançamentos
posteriores. Entre 2000 e 2012 outros relançamentos aconteceram, a maioria na
Itália, também, claro, outros relançamentos foram piratas.
“The Lyd” pode ser encarado
como um trabalho original? Diria que não! Um marco na história do rock? Talvez.
Mas não estou aqui a decidir isso, tão pouco estipular ou definir quaisquer
coisas a esse respeito! Mas é inegável dizer que bandas como The Lyd trouxe ao
rock o frescor da novidade, como tantas outras, que caíram no ostracismo, que
trouxeram uma música arrojada, perigosamente underground e viva, latente aos
ouvidos e ao coração daqueles que sempre buscaram e buscam algo novo para as
suas audições.
A banda:
Jack Linerly na guitarra e
vocal
Frank Tag na guitarra, piano e
vocal
Rob Weisenberg no baixo e
vocal
Chet Desmark na bateria
Faixas:
1 - The Time Of Hate And
Struggle
2 - Need You
3 - Stay High / Fly Away Is
Still Ok
4 - Double Dare
5 - Think It Over Twice
6 - Trash Pad












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