Sabe aqueles países totalmente
inusitados para a cena rock n’ roll? Pois é, é para eles que eu venho mirando
as minhas intenções para desbravar e, não se enganem, caríssimos leitores, há
muito a encontrar por aí. As cenas podem ser incipientes em quesitos
quantitativos, mas qualitativamente falando a situação muda! Há muito material
de altíssima qualidade nos países pouco comentados e esquecidos pelo rock!
Então vale e muito o esforço
em desbravar e conhecer tais bandas e álbuns e hoje eu pousei na Bélgica e
encontrei um espetacular álbum e banda que merece a sua atenção, caro leitor.
Como ela se chama? JENGHIZ KHAN! Mas são aquelas bandas que, como verdadeiros
cometas, surgem, como uma força da natureza, gerando impacto, mas que, de forma
efêmera, sucumbem, desaparecem.
O Jenghiz Khan surgiu, em
1970, no sul da Bélgica, a partir das cinzas do "The Tim Brean Group"
e do "Les Partisans". A formação da banda consistia nos seguintes
músicos: Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais, “Big” Frisma nas
guitarras base, acústica e solo e vocais, Christian “Chris Tick” Servranckx na
bateria, percussão e vocal e Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais.
Rapsat foi o último músico a
integrar o Jenghiz Khan. Ele veio de uma banda que acabara de lançar um álbum,
de nome “Laurelie”. Nos anos 1960, Pierre havia feito parte da orquestra de
dança chamado “Les Ducs”, porém em sua banda seguinte, a “Tenderfoot Kids”,
onde tocou em quatro singles, revelou ser um excelente compositor.
O nome “Jenghiz Khan” foi
escolhido pelo terror associado ao líder mongol e, de fato, essa banda de músicos
furiosos, liderado por Friswa, teve impacto no público e incendiou as placas
dos festivais onde se apresentavam.
Como todas as faixas do primeiro e único álbum do Jenghiz Khan, “Well Cut”, de 1971, já estava praticamente pronta, Rapsat ficou responsável apenas em tocar o seu instrumento, o baixo. Todos os membros da banda eram compositores, então não teve espaço para Pierre demostrar seus dotes de letrista. Mas se mostrou competente empunhando o baixo, trazendo a sonoridade da banda, algo muito atual.
Além dos músicos serem
compositores o seu empresário, o conhecido jornalista de rock, da revista
“Telemoustic” ou “TéléMoustique”, Pierre “Piero” Kenroll, ajudou a escrever
todas as letras e uma música completa.
A capa deste único trabalho do
Jenghiz Khan foi desenhada por Jamic, cartunista da TéléMoustique, apresentava
as cabeças dos 4 músicos decapitados brandidas por um gigante e alcançou as
melhores vendas belgas, algo que nenhuma banda local conseguia fazer há muito
tempo.
E diante desse cenário, “Well
Cut” foi lançado até rapidamente, pelo selo “Barclay”, com um som
majoritariamente pesado, porém cheio de dinâmica, ou seja, vertentes
progressivas, conferindo-lhe complexidade, mas com a capacidade única de ser
orgânico, mostrando músicos competentes e técnicos, mas dando tudo de si de
forma corporal!
Não sou muito afeito às
comparações, mas o Jenghiz Khan, reflete muito a música de seu tempo, embora
traga uma sonoridade bem atemporal, rasgando as gerações com muita destreza. Ao
ouvir “Well Cut” percebe-se a sonoridade de bandas, das mais famosas, claro,
como Uriah Heep, Vanilla Fudgie e Iron Butterfly. Mas como coloca-la em
condições de inspirada, se esta surgiu praticamente ao mesmo tempo que as
mencionadas? O sucesso de algumas diz muito sobre isso, mas não quero falar
sobre isso, e sim do quão importante esse tipo de sonoridade foi nas transições
das décadas de 1960 e 1970.
“Well Cut” imprime uma
sonoridade que é calcada no riff pesado de guitarra e o bom e velho hammond,
que muito me agrada e cativa, um heavy progressivo com pitadas psicodélicas
generosas, que vai do sofisticado, complexo, sujo, primitivo e áspero. Uma
música que se fazia em profusão no início dos anos 1970, mas com competência,
criatividade e muita ousadia, pois não se rendiam as bandas ao estereótipo,
afinal, era, diria, uma sonoridade que se descobria, se abrochava em
experimentalismos e o Jenghiz Khan não fugia à regra. Era uma desbravadora de
seu país, pouco conhecido na cena rock, mas que tinha um radar para o mundo.
O álbum começa com a faixa
“Pain” que, um vocal, à capela, dá a introdução para a “cozinha” impor seu
ritmo pesado, bateria marcada, agressiva, batida poderosa, baixo pulsante,
hammond cheio de vivacidade, riffs de guitarra psicodélicos, mas que dá lugar
ao violão e a uma balada. Seus quase oito minutos de duração entrega uma
sonoridade repleta de mudanças rítmicas, mostrando o heavy prog muito bem
executado. Na metade da música os riffs são mais agressivos e sujos, talvez o
momento mais pesado da faixa, que logo se sucedem com solos mais pesados ainda.
Música de tirar o fôlego!
Segue com a curta “Campus A”,
mas que anima pela pegada meio bluesy, um blues rock bem solar com um vocal
cadenciado e, por vezes, um pouco rasgado. É tão somente a guitarra e voz.
Simples! Para dar entrada para a próxima faixa, “The Moderate” que inicia com
um hammond um tanto quanto sombrio, mas que irrompe em um belicoso som de
guitarra e bateria bem agressiva. O baixo dá o groove, o balanço e a cadência.
Essa música mostra um Jenghiz Khan mais sofisticado, mas não menos pesado e
arrogantemente agressivo. Aqui o vocal é mais potente e gritado e conduz a
faixa ao que realmente entrega: peso, mas um peso aliado ao balanço, beira o
dançante. Faixa animada!
Segue com “Campus B” que,
entregando a continuação de “Campus A” traz o blues mais eletrificado, com uma
pegada mais gospel evocando os primórdios do rock na sua versão mais primitiva.
Não podemos negligenciar, claro, a veia blues rock. “The Lighter” começa
acústica, dedilhados de violão torna algo mais pastoral, viajante, dando lugar
ao hammond e uma bateria mais vagarosa. Eis uma balada com uma característica
inteiramente psicodélica, mostrando um produto de seu tempo, verdadeiramente. O
trabalho de vocalização me remete ao Uriah Heep nos seus primórdios e também o
Vanilla Fudgie. E finaliza com o lindo e direto solo de guitarra!
“Hard Working Man” introduz
com um solo de bateria e que já denunciaria o peso que viria pela frente! Um
solo de guitarra flamejante, mas que logo cadencia, continuando a bateria como
profundo destaque. Aqui nesta faixa o hard rock dá o tom, é o carro chefe.
Direta, poderosa, intensa, riffs de guitarra se misturam ao toque cavalar como
o baixo é conduzido. Traz a “cama” para a sonoridade acontecer, ser tão
evidentemente característica.
Segue com “Mad Lover” que,
mais uma vez, inicia, em uma pegada meio flamenca, acústica, meio folk. Aqui
percebo que a banda volta aos anos 1960 com um beat psicodélico. O trabalho de
vocalização se faz presente e é bem feito. A guitarra, já no fim da faixa, traz
uma sonoridade estranha e experimental.
E fecha com a épica “Trip to
Paradise” que começa, mais uma vez, com o belo trabalho de vocalização e uma
camada soturna de teclados que traz as lembranças psicodélicas. Mas logo
termina, porque a explosão do hard rock se faz vivo e latente! Bateria com a já
famosa batida pesada, o baixo com aquele groove arrebatador, galopante, por
vezes, sem contar com o hammond que me lembrou algo mais sinfônico. Nessa
faixa, no auge de seus mais dez minutos, traz de volta o heavy prog, e se
mostra capaz de atrair o ouvinte com as inúmeras mudanças de andamento. É no
mínimo catártico ouvir essa música. Hard rock, psicodélico e progressivo em um
caldeirão de ingredientes misturados, sem nenhuma cerimônia em se rotular. A
criatividade ditou as regras que, sem dúvida, faz dessa faixa uma das melhores
do álbum! O final, com o solo de guitarra, é simplesmente de tirar o fôlego!
Em sua história relativamente
curta, o Jenghiz Khan construiu uma boa reputação de banda ao vivo, tocando em
muitos festivais e shows. Podemos destacar, como os mais importantes quando
dividiram o palco com: "Wallace Collection" (Puzzle P em junho de
1970), "Black Sabbath" (Rock Bilzen em agosto de 1970),
"Yes" (Pop Hot Show Huy em 5 de setembro de 1970), "Stray"
(Festival de Ghent em 28 de novembro de 1970), "The Tremelous" (Grand
Place Ciney em 11 de julho de 1971) e "Genesis" no Festival de
Jemelle em 8 de agosto de 1971.
Um segundo álbum estava sendo
escrito, mas problemas surgiriam para a banda, culpa de uma cena belga muito
restrita, que não permitia que seus músicos ganhassem vida com sua música, bem
como também da onda “glam” que varreu o mundo, com furacões como David Bowie,
T-Rex, Salde, Sweet entre outros. E o inevitável aconteceu: o fim do Jenghiz
Khan, em 1972. Se há resquícios de composição musical que possa ser gravado em
um futuro próximo, não sabemos. O fato é que precisamos esperar uma grande
novidade a esse respeito! Quem sabe...?
O baixista Pierre Rapsat
lançou uma bem-sucedida carreira solo, em 1973. Ele gravou vários álbuns de
ouro e platina, transitando entre o rock e a chanson, mas a maioria de suas
músicas era cantada em sua língua nativa, o francês. Rapsat faleceu em 21 de
abril de 2002, precocemente aos 53 anos de idade.
O vocalista e tecladista Tim
Brean juntou-se a banda “The Pebbles”, tocando teclado com eles de 1974 a 1976,
enquanto compunha muitas músicas a pedido do selo “Barclay”. Mais tarde tentou
a sorte com uma carreira solo sob o nome de “Tim Turcksin”, mas conseguiu
lançar apenas algumas músicas em álbuns de compilação.
O guitarrista e vocalista “Big”
Frisma juntou-se a banda “Wallace Collection”, fazendo sucesso, posteriormente,
com uma banda pop chamada “Two Man Sound”, lançando também dois singles solo. O
primeiro, em especial, onde trabalhou novamente Pierre “Piero” Kenroll, recebeu
boas críticas. O lado B, chamado “Big Friswa” era uma ótima faixa de rock. Se
suicidou em 1988.
O Jenghiz Khan, com seu único
trabalho, lançado em 1971, “Well Cut” traz nas raízes, bem como, claro, no teor
de suas letras, temas históricos e belicosos, assim como tantas outras bandas
de proto metal de sua época. Sim, Jenghiz Khan emulou o som que se fazia em sua
época, lá pelos idos dos anos 1970, mas refletiu, com galhardia e competência,
aquele rock n’ roll que, das transições das décadas de 1960 e 1970, mostrou-se
criativo e catártico.
“Well Cut” teve alguns
relançamentos. Além de seu lançamento original, pelo selo Barclay, em 1971,
teve lançamento, pelo mesmo selo e ano, no Canadá e na França. Em 1994, teve um
relançamento na Coréia do Sul, pelo selo Won-Sin Music Company, outro, dez anos
depois, em 2004, pela gravadora Second Life, na Rússia. Mais dois
relançamentos, em 2011, na Bélgica, pelo selo Philmarie, um novo relançamento
na Coréia do Sul, pela Won-Sin Music Company e vários outros relançamentos por
alguns selos europeus.
A banda:
Tim Brean no piano, órgão,
teclados e vocais
“Big” Frisma nas guitarras
base, acústica e solo e vocais
Christian “Chris Tick”
Servranckx na bateria, percussão e vocal
Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat
no baixo e vocais
Com:
Pierre “Piero” Kenroll nas
composições
Faixas:
1 - Pain
2 - Campus A
3 - The Moderate
4 - Campus B
5 - The Lighter
6 - Hard Working Man
7 - Mad Lover
8 - Trip To Paradise








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