terça-feira, 25 de julho de 2023

Vôo Livre - Vôo Livre (1981)

 

Sabe aquelas percepções que você tem e que parece não fazer sentido nenhum dentro de um contexto, digamos, real, racional? Algo que percebe no universo da música e que não ter a mínima sustentação?

Tudo bem caríssimos leitores, eu explico, eu explico! Eu sempre tive a percepção de que bandas e músicos, embora não sejam conhecidos, não tenha conquistado status de algo dentro de sua cena, a desbravou de alguma forma, fez parte da sua história, de sua construção e, inclusive, a ajudou a se popularizar ou minimamente se fazer possível servindo de referência para outras bandas surgirem.

Mas como atribuir tal façanha a bandas que sequer conquistou sucesso e fama? A história, a história contada que sacramenta, que corrobora a sua importância, a sua colaboração para o rock n’ roll! E não se enganem, a sua importância não se mensura apenas para fama e os milhões de álbuns vendidos somente.

Fracasso e sucesso não se mensura pelo aspecto comercial apenas. Sucesso também é entendido e percebido quando uma banda subverte o tempo, ousa com sua música vanguardista e arrojada para o seu tempo e edifica um conceito que servirá de inspiração para o surgimento de outras tantas bandas posteriormente.

E uma banda brasileira, mais precisamente da cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, creio se adequar a esses quesitos, mesmo não sendo famosa, muito pelo contrário, extremamente obscura, rara, mas que praticamente se tornou pioneira no rock n’ roll gaúcho tão respeitado nos dias de hoje. Falo do VÔO LIVRE.

O Vôo Livre, quando ainda a palavra “vôo” era acentuada, foi formada já no final dos anos 1970, mais precisamente em 1979, em um período em que algumas vertentes do rock n’ roll estavam em declínio comercial, tais como o hard rock e o rock progressivo, dando lugar para o punk rock em uma abordagem mais suja e direta, entre outras músicas mais pasteurizadas e “animadas” que não flertavam com o rock.

O cenário não era nem um pouco favorável para o Vôo Livre que construiu a sua sonoridade com base exatamente no hard e prog rock! Mais um entrave que fez com que a banda não atingisse o sucesso comercial, caindo em um profundo ostracismo.

Mas falemos dos seus primórdios, antes de dissecar o seu único álbum lançado em 1981, homônimo. O Vôo Livre teve início a partir da reunião entre o guitarrista Luís Bento e o baterista Luís Vieira. Os caras estavam entusiasmados para fazer algo novo, queriam ousar para variar e formam a banda “Palha Mágica”, em 1979.

Mas precisavam, claro, como toda banda em seu início, de compor material para quem sabe gravar um álbum e cair na estrada para divulgar a sua arte. Pouco tempo depois o baixista Chico Castro se junto à banda, completando a formação clássica de power trio.

Os ensaios se intensificaram e com isso foram se entrosando cada vez mais e as suas influências musicais se fizeram presentes, moldando a sonoridade da banda, construindo uma identidade e que variava do Deep Purple ao Genesis, Rush e até mesmo o King Crimson. 

A banda flertava em várias vertentes dentro do rock deixando a sua criatividade aflorar sem amarras, o que lamentavelmente se torna um fator determinante para se tornar uma banda pouco conhecida, pois costumam não se adequar aos modismos da indústria fonográfica.

Eram vertentes que não estavam mais na “moda”. O punk e o heavy metal oitentista, a década está batendo na porta, estavam aflorando como as novas propostas sonoras do rock, mas os jovens músicos decidem seguir as suas verdades na música, contra tudo e todos.

Após alguns shows mais restritos, modestos no circuito universitário de Pelotas e de regiões no entorno, os caras resolvem partir para algo mais “ousado”. Ambicionavam tocar na capital Porto Alegre. E aí decidem mudar o nome da banda, talvez inspirados pelo novo momento: passaria a se chamar “Vôo Livre”. Afinal a banda estava alçando novos e altos voos para conseguir um lugar ao sol no cenário rock gaúcho, ainda embrionário.

Mas faltava grana para esse voo alto. Luis Bento, o guitarrista, bancou praticamente sozinho com todos os custos de seu sonho e dos seus companheiros de banda. Todos os seus recursos, sem pestanejar foram investidos para esse momento importante do Vôo Livre.

No ano seguinte, em meados de 1980, o Vôo Livre atrai rapidamente a atenção do público local mais ligados às correntes de rock progressivo e fusion, bem como do hard rock, que, mesmo diante de um cenário adverso, ainda mantinha interesse em composições mais ousadas e de textura sonora mais trabalhada. A banda se ancorou nesse público que a aceitou, certamente porque não tinha uma cena encorpada desse estilo na capital gaúcha. Entendem o que falei no início desse texto?

Desde sua primeira aparição o Vôo Livre apresentou uma bela estrutura profissional de alto nível, com equipamentos modernos, P.A. próprio e, até mesmo, uma equipe de produção. Mas eles não queriam ficar apenas nos shows, precisavam logo gravar um álbum.

E diante dessa nova etapa, o Vôo Livre estabelece uma parceria com o recém-criado selo independente “Pialo”, do guitarrista Fernando Bohrer, e começam a trabalhar no disco, que viria a ser lançado em agosto de 1981. A formação, além do power trio que formou a banda, trazia, como participação especial, o tecladista Paulo Dorfman que tocou na faixa “Pôr do Sol”.

Acompanhado de muitas apresentações e até mesmo uma pequena excursão de lançamento, o novo álbum, o seu debut “Vôo Livre”, surpreendeu tanto o público quanto a crítica, tomando o rock gaúcho de assalto, elevando-o. Esse trabalho do Vôo Livre é considerado por muitos o primeiro no gênero totalmente gravado e produzido em Porto Alegre.

O álbum também é considerado pioneiro também nos novos formatos de gravação, com a introdução de técnicas de estúdio modernas e inovadoras para a época, com excelentes recursos de gravação, efeitos e percussões eletrônicas.

“Vôo Livre” entrega elementos de música progressiva, com mudanças rítmicas evidentes e o peso do hard rock, com algumas “nuances” de rock experimental, se configurando como um álbum extremamente ousado e versátil para a sua época no Brasil, que tinha no “Rock Brasil” como algo mais interessante e que estava florescendo nessa época em Brasília e no Rio de Janeiro, por exemplo com viés da new wave britânica.

O álbum é inaugurado com a faixa “Hey” e tem na estrutura sonora uma “cozinha” extremamente entrosada, com baixo pulsante e pesado e bateria bem marcada, com a veia hard rock sendo representada por riffs de guitarra com alguma distorção e um vocal bem melodioso e de bom alcance. A faixa tem a predominância do hard rock sendo mais direta.

"Hey"

A sequência traz a faixa “Visão” que já traz a proposta mais progressiva lembrando bandas icônicas como O Terço, por exemplo. A introdução traz uma atmosfera mais branda, com teclados mais viajantes e guitarras mais contemplativas. O vocal é mais dramático, diria até melancólico em alguns momentos, embora a letra traga algo solar em sua mensagem. Um belo prog rock em pleno anos 1980.

"Visão"

E falando em temas e vibes mais viajantes, a próxima faixa se chama “Viagem”, mas já traz uma abordagem mais pesada, com o baixo mais pulsante e vibrante, com solos incendiários de guitarra. A música é instrumental e tem no hard rock a sua ideia central, com algumas mudanças rítmicas bem arrojadas trazendo algo como metal progressivo, dada a velocidade da faixa. Fantástico!

"Viagem"

Segue com a faixa “Chuva Forte” que já inicia com solos de guitarra mais diretos que logo abre alas para riffs mais pesados e um baixo pulsante e poderoso com uma pegada hard predominando novamente, com algo bem heavy rock dada a velocidade que é imprimida na faixa. Hard n’ heavy de excelente qualidade!

"Chuva Forte"

“PZ4429” começa meio jazzy com alguns recursos jazzísticos tendendo para algo um tanto quanto para as improvisações, ao estilo “Jam Sections”. Logo descamba para o blues rock, corroborando a sua condição de improvisação, com a criatividade e talento aflorados.

"PZ4429"

E fecha com a faixa “Pôr do Sol” que já entrega uma abordagem mais comercial, uma pegada mais radiofônica, mas que não deprecia a sua estrutura sonora. Guitarra mais dançante, vocal mais melodioso, letras mais edificantes e hippies.

"Pôr do Sol"

Depois dessa extensa, tensa e cansativa turnê, com muito trabalho para promover o seu primeiro álbum, os músicos da banda começaram a sentir o desgaste. O ritmo intenso acaba pesando no aspecto emocional e alguns desentendimentos afloraram. Resolveram interromper as atividades justamente logo após o show comemorativo chamado “Um Ano na Estrada”.

Mas não parecia ser um fim, tudo indicava que eles precisavam de um tempo de descanso, depois dessa intensa maratona de shows. Tanto que o Vôo Livre voltaria a se reunir em 1985 para a gravação de um novo álbum e a intenção era buscar uma sonoridade ainda mais progressiva.

O álbum seria chamado de “Memórias”, teria material de arquivo registrado entre maio e agosto de 1981, com novas composições, trazendo propostas mais modernas e algumas influências eletrônicas e experimentais, tendo como base, como alicerce o rock progressivo.

Mas o mercado fonográfico não estava dando a mínima para o rock progressivo e outras vertentes mais experimentais (na realidade nunca apoiou) e o projeto do Vôo Livre com o seu segundo álbum, “Memórias”, com o perdão da famigerada analogia, não alçou voo.

As gravações sequer chegaram a ser finalizadas. Reza a lenda de que as faixas só existem as bases, e mesmo as músicas em estágio mais avançado carecem de uma mixagem adequada, fazendo com que não haja condições de se lançar hoje esse registro na íntegra, na forma de um álbum inédito e completo.

O que nos restar é esperar que a banda se reúna e consiga algum selo para bancar esse lançamento, caso ainda exista. Haja vista que atualmente temos alguns bons relançamentos que estavam perdidos no fundo do baú do rock.

Mesmo com a boa receptividade da imprensa especializada e dos pequenos, mas ávido público com o debut “Vôo Livre”, além de alguns boatos sobre reuniões, a separação do trio se revelou definitiva e seus integrantes parecem ter seguido caminhos bem distintos, dispersando-se em diferentes cidades. Tudo indica não terem mais contato entre si.

Em 2011 o raro álbum homônimo da banda, foi relançado, transcritas das fitas masters originais e cuidadosamente restauradas e remasterizadas no formato digital por Lelo Nazario, trazendo três bônus especiais: duas faixas inéditas que são “Vôo Livre” e “Chamada a Cobrar”, resgatadas e selecionadas dentre as fitas das gravações inacabadas de “Memórias”, mais uma faixa que se chama “Tempo Futuro”.

A faixa “Tempo Futuro” foi incluída originalmente na eclética coletânea de nome “Porto Alegre/Rock”, que foi lançada em 1985 pela parceria dos selos Musi’sul/Pialo e que reunia músicos e bandas remanescentes dos anos 1970, como a banda Byzarro e o exímio e saudoso cantor Fughetti Luz da grande banda Bixo da Seda e do pioneiro Liverpool a novas bandas, até então, do rock gaúcho.

Um clássico obscuro, perdido no tempo, mas que resiste bravamente, por ser, mesmo diante de entraves comerciais e modistas, uma referência para a história do rock n’ roll gaúcho tão enaltecido nos dias de hoje, por ser um centro desta vertente em todo o Brasil. Altamente recomendado!


A banda:

Chico Castro no baixo, teclados e vocal

Luís Vieira na bateria, sindrum e vocal

Luís Bento na guitarra, efeitos e vocal

 

Com participação especial:

Paulo Dorfman nos teclados na faixa “Pôr do Sol”

 

Faixas:

1 - Hey

2 - Visão

3 - Viagem

4 - Chuva Forte

5 - PZ4429

6 - Pôr Do Sol 




 















 





sábado, 15 de julho de 2023

Kaleidon - Free Love (1973)

 

Final da década de 1960. A psicodelia estava em seu ápice e claro na Itália não era muito diferente, o beat italiano tomava conta das rádios e proliferava em todos os cantos do país. Algumas bandas gozavam de popularidade e algumas eram promissoras, tinham um futuro pela frente, a desbravar. Era o caso da banda Free Love.

A banda trazia em seu line up músicos jovens, mas que já tinham alguma bagagem ou até reputação na cena psicodélica italiana. As coisas realmente iam muito bem para o Free Love nos idos de 1970, tanto que em outubro daquele ano os caras são convidados para tocar no primeiro festival pop de Caravala e inclusive conseguiram um contrato com a gravadora “Vedette” que editou seus primeiros 45 rpm, “Sandy” e “Il Tempo di Pietra", ambos lançados ainda em 1970.

Free Love - "Sandy" (1970)

A formação original do Free Love apresentava os irmãos norte-americanos Carl e Steve Stogel, baixo e guitarra, respectivamente, Stefano Sabatini, nos teclados, Gianni Caia na bateria e o vocalista Tony Gizzarelli. Com essa formação a banda gravou os seus primeiros singles. Mais tarde, no final de 1969, o Free Love foi acompanhado pelo violinista canadense John Picard e, por apenas a alguns meses, pelo cantor e percussionista Ricky Cellini.

Free Love em 1972

A banda, em seus primórdios, lembrava um pouco os primeiros trabalhos do New Trolls, tanto que os seus singles chamam a atenção do maestro Piero Umiliano que recruta o Free Love para interpretar a trilha sonora de seu filme, “Roy Colt & Winchester Jack”, um “faroeste espaguete”, que foi imortalizado em 45 rpm para Cinevox, com as músicas “Roy Colt” e “Dove”, ambos de 1970.

Ainda em 1970, após a saída de Gizzarelli e Cellini, fizeram vários shows no norte da Itália, Suíça e Sardenha. Tudo ia muito bem para o Free Love, eram shows, contrato, participação em trilha sonora de filme, tanto que eles iriam participar de outra edição do festival em Caracalla em maio de 1971, ao lado de bandas como New Trolls, Osanna, Delirium e The Trip.

Mas a banda se separaria lá pelo final do ano 1971, Fábio Cammarata substituiria Stefano Sabatini e Picard sairia após o verão, mudando-se para a França. Caia e Steve Stogel, juntamente com o baixista Mauro Montaldo, se reuniriam com Sabatini para uma turnê como banda de apoio de Mia Martini. E aí a tragédia aconteceria.

Foi em fevereiro de 1972, quando regressavam de um show na Sicília, que o carro dos músicos se envolveu em um grave acidente matando Gianni Caia e Steve Stogel, enquanto Sabatini e Montaldo ficaram gravemente feridos, mas sobreviveram. Um show, quando Sabatini e Montaldo se recuperaram, foi realizado no Piper para lembrar os músicos que morreram e para arrecadar fundos para as suas famílias.

O reencontro, nessas circunstâncias, não foi fácil, foi dolorido, mas com muita coragem e esmero em prol do amor à música, Sabatini e Carl Stogel reconstruíram uma nova banda para participar do festival de Caracalla, no outono de 1972, com o baterista Giovanni Liberti e o Saxofonista Massimo Balla que substituiu Stefano Cesaroni. Nesse momento se decreta o fim do Free Love. 

Em 1973, desta formação que se apresentou no outono de 1972 no festival Caracalla, após a substituição de Carl Stogel pelo estreante baixista Franco Tallarita, nascia a banda KALEIDON, alvo de minha resenha de hoje, sendo fortemente influenciado pelo jazz rock e algumas passagens bem temperadas pelo rock progressivo, gravando apenas um álbum, pela “Fonit Records” que se intitula “Free Love”. A intenção era homenagear a sua antiga banda e os seus companheiros que perderam a vida no fatídico acidente.

Kaleidon

O título do álbum, além de uma clara homenagem a banda anterior e ao seu sonho artístico bruscamente interrompido, trata-se também de uma jóia instrumental do mais puro e genuíno jazz rock de absoluta cristalinidade ao estilo “canterburiana”, com uma “contaminação” para o jazz.

O álbum, inteiramente instrumental e gravado em um tempo recorde, em apenas três dias, de 28 a 30 de agosto de 1973), como disse, enquadra-se na veia jazz rock, ousaria dizer que mais jazz do que rock e soa fluído e compacto, livre de borrões e algo demasiadamente carregado o que logo se nota nos primeiros acordes da primeira faixa, mostrando um ótimo trabalho de equipe, de banda coesa com texturas tecidas com o protagonismo do piano e saxofone.

O álbum, como muitas vezes acontecia naquele período, não teve muita sorte sob o aspecto comercial, porém no “Ciao 2001”, de 21 de abril de 1974, Giorgio Rivieccio falou do Kaleidon como uma banda que demonstrou e desenvolveu um discurso jazzístico próprio e altamente original. 

E continuou dizendo que “Free Love” surpreendeu muito do ponto de vista técnico e estilístico e que é tanto mais apreciável quanto é o resultado de uma pesquisa pessoal intransigente de um álbum natural que para muitos são encarregados de clareza expressiva e o sentimento desta banda brota das notas de cada um dos instrumentos, envolvendo totalmente o ouvinte e conseguindo quebrar o biombo que se cria entre ele e o intérprete, para estabelecer com ele uma comunicação mais direta. Termina dizendo que cada nota, cada pausa ganha o devido valor e o justo equilíbrio até nas improvisações que, apesar disso, conservam todo o seu frescor e espontaneidade.

As impressões de Rivieccio incrivelmente convergem com a minha acerca deste trabalho do Kaleidon, com o uso carregado de piano elétrico e os efeitos psicodélicos e jazzísticos de Sabatini, o trabalho de saxofone quase que escaldante de Massimo Balla fazem a diferença, definitivamente. 

Outro detalhe importante a se ressaltar é a ausência da guitarra, o que pode reforçar a hipótese de que o Kaleidon tende mais para o jazz do que o rock n’ roll, mas o rock está lá, principalmente pelas “pitadas” progressivas e algumas doses de peso. Se fosse tentar “rotular” o som do Kaleidon em “Free Love” eu arriscaria em uma espécie de “stoner jazz”! Picardias à parte a música neste álbum transcende.

A faixa de abertura, “Kaleidon”, começa com o evidente jazz bem atmosférico que vai aumentando gradualmente até se estabelecer em uma batida bem legal de bateria, acompanhada de groove de baixo, pulsante e vivo. Saxofone misturado com teclados traz todo o acabamento da música, até que a música muda de andamento, como em uma virada prog rock e a interferência do jazz rock lisérgico continua de forma muito agradável e solar.

"Kaleidon"

A faixa “Inverno ‘43” começa com uma leve bateria tribal, acompanhada por piano e baixo flutuando suavemente sobre tudo. O sax se junta, animando um pouco, mas essa música é muito suave e espacial. É uma música fervente, taciturna, com sax e baixo enamorando-se em uma sinergia incrível, com a discreta participação de uma guitarra.

"Inverno '43"

“Dopo La Festa” segue, abrindo com uma batida de bateria, então alguma improvisação de psych-jazz. Isso eventualmente se resolve em uma boa jam de jazz sobre uma batida envolvente e mais um excelente trabalho de baixo.

"Dopo la Festa"

 A quarta música, "Polvere" começa com uma linha de baixo repetida, que logo será acompanhada pelo resto da banda, e a jam de jazz começa novamente, com pontes ocasionais conectando cada seção da jam.

"Polvere"

A próxima faixa, "Oceano", a flauta ganha protagonismo, tocada por Balla, e é uma mudança de ritmo bem-vinda, acrescentando à tapeçaria que está sendo tecida enquanto você ouve o álbum. A música é outra excelente jam de jazz rock com muita interação de todos os membros da banda.

A faixa que encerra o álbum é "Free Love", a faixa título, sendo uma música de jazz puro, com um trabalho estelar de piano de Sabatini complementado com belos solos de saxofone de Balla. Um final agradável, solar e maravilhoso de um espécime de jazz rock da melhor qualidade.

"Oceano" e "Free Love"

No dia seguinte à sua participação no terceiro festival d’Avanguardia de Nápoles, em 1973, há um importante rearranjo na formação do Kaleidon com a entrada de Francesco Bruno, um talento guitarrista, para cobrir a necessidade de maior expansão e o casal Francesco Froggio Francica e Gianni Colaiacomo para substituir o baterista Liberti (forçado a sair por motivos familiares) e o baixista Tallarita que sairia para tentar novos caminhos, novos projetos musicais, tocando em banda chamada “UT”.





A nova ala rítmica é claramente mais voltada para o rock n’ roll e o novo Kaleidon, que gira em torno do tecladista Sabatini, parecia abrir-se a novos horizontes musicais: com um guitarrista nada convencional e, ainda por cima, experimentação com outros instrumentos, como violino, vibrafone e percussão. E essa mudança se apresentou de forma latente em ensaios e festivais que a banda esteve, como em Carpineto Romano e Villa Pamphili.

Brigas internas no Kaleidon, a pouca receptividade na indústria fonográfica para com a sua sonoridade, bem como as rádios, a banda decretou seu fim em 1974. As experiências posteriores dos músicos do Kaleidon não foram de tão ruim assim. Gianni Colaiacomo entraria no Banco del Mutuo Soccorso, Stefano Sabatini fará parte do projeto Samadhi, tocaria também na banda de Tony Esposito e Form The Mediterraneo, enquanto Francesco Bruno viria a produzir vários projetos musicais.

“Free Love” do Kaleidon não é a obra-prima do jazz rock, mas sem dúvida alguma se trata de um exemplo esplêndido desta música maravilhosa que surgiu no início dos anos 1970 que poucas pessoas ouviram e as que ouviu, a sua maioria, rejeitou, inclusive a indústria fonográfica. “Free Love” é uma dose pesada e chapante de jazz rock psicodélico, um álbum e tanto que conceberam dentro de sua vertente sonora e deveriam ter sido reconhecidos por isso.

O álbum foi relançado, no formato CD, pelo selo Mellow Records e ainda assim se tornaram raros e caros e em 2014 a gravadora italiana BTF relançou “Free Love” no formato LP e as suas cópias parecem estar prontamente disponíveis em sites especializados de venda. Definitivamente uma pérola subestimada à época, mas altamente recomendada em todos os tempos.



A banda:

Stefano Sabatini nos teclados

Massimo Balla no saxophone e flauta

Franco Tallarita no baixo

Giovanni Liberti na bateria

 

Faixas:

1 - Kaleidon

2 - Inverno '43

3 - Dopo La Festa

4 - Polvere

5 - Oceano

6 - Free Love


 

"Free Love" (1973)


































sexta-feira, 30 de junho de 2023

Lightshine - Feeling (1976)

 

O que eu verdadeiramente aprecio no krautrock é a beleza de suas múltiplas sonoridades. Nem tudo é minimalista somente, mas complexo, poderoso, agressivo, contemplativo. Aos que se prendem em estereótipos achando que o kraut germânico traz apenas uma vertente, enganam-se.

A cada audição, a cada descoberta, a cada garimpagem, tenho a nítida impressão de que ela não tem fim, transborda desrespeitando qualquer questão ligada a cronologia, porque as descobertas ultrapassam barreiras do tempo, porque até hoje, conhecemos novas coisas velhas.

E eu, em mais uma dessas buscas incessantes por algo novo, nessas garimpagens pela poeira do esquecido, tenha feito descobertas no status de pérolas, pepitas cada vez mais valiosas que pereceram, que fracassaram e foram esquecidas no canto do tempo.

E em um acaso premeditado descobri uma banda espetacular, de sonoridade extremamente diversa, múltipla, que traz sim vertentes kraut, mas com uma complexidade incrível, que envolve lisergia, peso, mudanças de “humor”, com pitadas progressivas, devido, claro, a essas mudanças rítmicas, com solos de guitarra e baixo enérgicos, mas com vocais assombrosos, de atmosfera densa.

A impressão que tenho dessa banda é que tudo soa polido, no seu lugar, mas que traz uma verdade, a verdade de uma banda que não se prendia a rótulos, não se encaixava em nenhum “estilo” pré-determinado e que estava “descolado” do seu tempo.

É definitivamente uma sonoridade difícil de definir, que não se prende a rótulos, denotando que o rock alemão é diverso, cheio, repleto de belezas sonoras, que vai da complexidade ao minimalismo, do simples e orgânico a intensidade contemplativa de seus instrumentos. Falo da banda LIGHTSHINE.

Lightshine

A banda foi formada por quatro jovens estudantes no ano de 1974, na cidade de Emmerich, no baixo Reno, na Alemanha. Jovens aspirantes a músicos que só tinha o interesse de se tornarem músicos grandiosos e de viver da sua arte, de sua música. 

E por ser uma banda descolada do seu tempo, o Lightshine sofreu para encontrar alguma gravadora que “comprasse” a sua ideia. Algumas negociações com a Sky e a Vertigo não deram em nada, eles não se encaixavam com os “novos” sons progressivos mais “suaves” e diretos da segunda metade dos anos 1970.

Então, diante das adversidades sofridas, decidiram gravar seu primeiro álbum praticamente por conta própria, com o apoio de um pequeno selo chamado “Trefiton”. E assim nasceu seu primeiro e único trabalho chamado “Feeling”, em 1976.

O Lightshine era formado por Joe na guitarra e vocal, Ulli também na guitarra, flauta e vocal, Olli no sintetizador e teclados, Wolfgang no baixo e Egon na bateria. Sim, não há sobrenomes, os caras se apresentaram à época apenas pelos seus primeiros nomes. O lançamento, em long play, de “Feeling”, trazia uma pequena quantidade de cópias, cerca de 500, outras fontes informam que foram 1.000 cópias. Independentemente do número, trata-se de uma tiragem bem limitada.

O álbum é inaugurado com "Sword In The Sky" apresentando uma mescla, como já era de se esperar em se tratar de uma banda que não se ligava à estereótipos, de hard rock, progressivo e emocionantes levadas de flauta. Começa com alguns solos de guitarra e assim fica por três minutos. Os vocais entram seguidos da flauta e piano, conforme o clima muda. Tem um clímax excelente e vibrante!

"Sword in the Sky"

“Lory” tem uma guitarra poderosa e agressiva, apresenta um riff que lembra “In The Hall of Mountain King”, do compositor norueguês Edvard Grieg, que mistura algo de clássico e um volumoso hard rock, além de um baixo proeminente, com bateria marcada e vocal extremamente teatral.

"Lory"

Já em “Nightmare” o clima muda para o psicodélico com sintetizadores oscilantes, um arpejo de guitarra de construção lenta e um vocal denso e de atmosfera soturna. O space rock, mais lento, aumenta aos poucos em intensidade conforme a segunda faixa mais longa do álbum, com dez minutos e meio, desliza para frente e para trás entre vocais falados e licks de guitarra ao estilo Pink Floyd. A faixa alterna com uma edificação ardente de rock com teclados matadores!

"Nightmare"

A faixa mais longa, "King and Queen", com quase quatorze minutos, começa com um teclado doido, meio incomum que, uma vez “resolvida”, se transforma em uma vibe de rock espacial com um groove de baixo melódico pronunciado e mais passagens de guitarra floydianas que lembram algumas das varreduras de guitarra mais modernas em neoprog, algo bem de vanguarda. Muito emotivo e instantaneamente viciante, é por isso que algumas das faixas deste álbum foram tocadas em estações de rádio locais. Esta é provavelmente também a faixa mais folclórica do álbum, mas termina em um blues rock e um frenesi flamenco com vocais de estilo folk selvagem.

"King and Queen"

E o álbum fecha com a faixa título, “Felling”, que se aventura em um território onírico, com guitarras dissonantes, fora da ordem, com estranhos elementos que me remete ao krautrock nos seus primórdios. E por conta disso traz uma faixa extremamente psicodélica, bem lisérgica mesmo, ao estilo “Yeti” do Amon Duul II, com bateria tribal e viagem flutuante cheio de improvisações, sem aquelas guitarras mais vibrantes percebia em faixas anteriores. Os tons de guitarra são limpos enquanto os sons de teclado fervilham. Os vocais entregam algo de folk rock britânico.

"Feeling"

Após o lançamento de “Feeling” o Lightshine fez cerca de 200 shows, excursionando por toda a Alemanha em turnês com Jane, Scorpions e Colosseum II. A grande chance de seguir com a sua carreira e a produzir novos trabalhos caiu por terra devido a desentendimentos internos se separando um ano após o lançamento de seu grande álbum, em 1977.

“Feeling” é interessante e complexo, principalmente em meados dos anos 1970 em que o progressivo, sob o aspecto comercial, estava em declínio. É um álbum psicodélico, lírico e intenso, tendo muitas vezes uma aura cósmica. O álbum teve várias reedições e relançamentos, quase todos sempre feitos pelo emblemático selo “Garden of Delights”.

 



A banda:

Joe na guitarra, vocal

Ulli na guitarra, flauta, vocal

Olli no sintetizador e teclados

Wolfgang no baixo

Egon na bateria

 

Faixas:

1 - Sword in the Sky

2 - Lory

3 - Nightmare

4 - King and Queen

5 - Feeling 



Lightshine - "Feeling" (1976)















 




sexta-feira, 16 de junho de 2023

Magia Nera - Montecristo (2020)

 

Há alguns trabalhos que subvertem o tempo. O tempo e as suas modas, fases e conveniências que somos obrigados a seguir para se adequar, para se sentir parte dos grupos sociais. E quando testemunhamos alguns abnegados, os marginais que defendem, a todo custo, a verdade da sua música e quando há um grupo que compra a ideia, faz com que nunca saia da moda, haja vista que modismos traz consigo a imposição e arte, quando bem construída e revolucionária, não tem idade, não sucumbe ao tempo, a sua cronologia, pelo contrário, se renova a cada dia, tornando-se contundente para a vida de quem a consome, de quem se identifica com a sua manifestação.

E o rock n’ roll que, para alguns, está morto, revela-se vivo, pleno e altivo quando vemos que aqueles que subvertem a ordem ainda conseguem trazer verdadeiras personificações do estilo sem soar datado ou piegas, aquele clichê travestido de cópias. Algumas bandas que atravessam o tempo, mesmo com todas as adversidades que se materializam no seu caminho, conseguem se reerguer, se fortalecer, sobreviver, viver por intermédio de sua obra, que impactam decisivamente nas vidas de quem ouve seus álbuns.

O álbum conceitual que parecia ter sucumbido ao tempo e sido enterrado nos áureos tempos do rock progressivo dos anos 1970 é um exemplo de que a sua proposta torna eloquente o viés cultural e que esmurra o status quo de forma impiedosa, nos fazendo refletir, entender e agir diante de cenários tão opressores e pasteurizados que vivemos em dias atuais.

As sombras da arte de tais álbuns conceituais nos trazem a luz necessária para enxergar quem somos, o que nos tornamos e para onde vamos e para quem acha ou associa o rock a apenas festas regadas a drogas e bebidas, não, o rock nos incita a pensar, a romper tabus que ainda insistem em nos deixar de joelhos inoperantes e vulneráveis.

E uma banda que, em minhas viagens garimpais, descobri quase que de forma ocasional, retornara a cena rock com um álbum ousado, magnífico e que se volta para o passado para refletir o presente, projetando um futuro, um futuro menos tóxico e destrutivo da alma e do corpo. Uma banda que superou todas as adversidades de uma indústria fonográfica que deveria enaltecer, mas que marginaliza, que corrompe e é corrompida e décadas depois, como a fênix, ressurge das cinzas e protagoniza a sua qualidade sonora de forma contundente, décadas e décadas depois.

As dificuldades, as agruras, o precoce fim pelos infortúnios do ostracismo fez com que essa banda se tornasse forte, invencível e mesmo que aquém ao glamour que deforma, sobreviveu e vive divinamente por intermédio de sua arte, da forma mais genuína e pura que se pode esperar ao observar a proposta que defende no seu estilo de música que, para muitos que tem dificuldade de entender a sua dimensão, rejeita veementemente.

O hard rock, o dark prog tão solenemente executado pela excelente banda italiana MAGIA NERA retornou com um audacioso trabalho, o seu segundo rebento, o seu segundo filho, concebido de uma forma tão delicada e complexa, mas ao mesmo tempo tão orgânico, imponente e cheio de si. Falo de “Montecristo”, de 2020. O título denuncia que o álbum é baseado na obra icônica do igualmente icônico escritor Alexandre Dumas, o “Conde de Montecristo”.

Magia Nera em 1972

“Conde de Montecristo” é um romance de aventura francês que foi concluído, por Dumas, em colaboração com Auguste Maquet, em 1844. Inicialmente publicado como folhetim, de 1844 a 1846 e foi baseada na vida de Pierre Picaud onde o marinheiro Edmond Dantès é preso injustamente. Na prisão tem amizade com um abade, que lhe indica uma misteriosa fortuna, iniciando assim uma trajetória de vingança.

É considerado, juntamente com “Os Três Mosqueteiros”, uma das mais populares obras de Dumas, e é frequentemente incluída nas listas de livros mais vendidos de todos os tempos. O nome do romance surgiu quando Dumas a caminho da Ilha Monte-Cristo, com o sobrinho de Napoleão, disse que usaria a ilha como cenário de um romance.

Voltando ao Magia Nera e a sua jovem discografia que nasce, resultado de um hiato de quase cinquenta anos, o segundo álbum geralmente traz à tona ou prova a qualidade da banda ou a ausência de tais predicados o que geralmente acontece, mas percebemos visíveis nuances de um crescimento, de uma maturidade sonora.

A banda se afasta declaradamente do hard rock mais incisivo que marcou o seu debut, “L'ultima danza di Ophelia”, lançado em 2017, revelando um álbum com tendências progressivas mais evidentes reforçadas no tema que circunda a proposta deste belo trabalho. “Montecristo” exorciza aqueles temíveis medos das bandas de sucumbir, perecer aos seus primeiros trabalhos, quando lançam seu segundo trabalho. 

Com o Magia Nera não há o que temer, há apenas espaço para dimensionar o seu trabalho, a sua discografia sob um aspecto amplo, versátil, visando apenas e simplesmente a sua criatividade que, definitivamente tem se expandido, comparando os dois álbuns inaugurais da banda.

“Montecristo” é audacioso, mas nem um pouco pretensioso e indulgente. Traz elementos tradicionais do rock progressivo dos anos 1970, com pitadas discretas de hard rock, mas que goza linhas modernas, melodias cativantes e arranjos que embora apresente estruturas simples, mas que quando seus fragmentos se conectam para narrar a história do Conde de Montecristo entrega uma complexidade de sons que extrapolam a qualidade e a irreverência desta banda que, mesmo calcada em períodos longínquos, dita linguagens sonoras arrojadas e contemporâneas.

E falando em longínqua história, cabe aqui tecer um pouco da história de perseverança do Magia Nera que traduz, em tempos atuais, por intermédio de seus trabalhos, a força motriz necessária para a capacidade incrível de resistência e amor à música que praticam.

O Magia Nera (Magia Negra, em italiano), surgiu na província de La Spezia, na região de Ligúria, Foi formada no ano de 1969 e tinha o nome de La Nuova Esperienza, mudando, no mesmo ano o nome para Magia Nera, inspirada em um nicho dentro do rock n’ roll que tinha uma proposta no oculto, no sombrio e em filmes e personagens de terror e, claro, em bandas como Black Sabbath, Coven, Uriah Heep etc.

La Nuova Esperienza

Começou a tocar covers, caminho natural que toda banda costuma seguir e depois começou a compor material próprio. Em 1970 a banda começou a despertar o interesse do público, da cena local, em sua região que, apesar de pequena, trazia a banda à expectativa de seguir com a sua história e gravar um material novo. Participou, com algum sucesso, de alguns festivais de música, como o Free Festival Pop de Bottagna.

Matéria de jornal sobre o Free Festival Pop de Bottagna

A gravadora Magma Records demonstrou um grande interesse em colocar o Magia Nera em estúdio, mas surgiu um infortúnio, a precariedade, a dificuldade de se fazer turnê, as dificuldades da estrada trouxeram um revés a banda, onde a sua van pegou fogo com todas as suas fitas, com todas as suas músicas gravadas para o seu álbum de estreia, tudo virou cinza. A banda ficou muito desanimada porque eles não teriam tempo hábil para regravar as músicas a tempo e entregar a gravadora para lançar o álbum. O Magia Nera, em 1973, decide se separar, dando fim a banda.

Em 2017, 44 anos depois, o Magia Nera, com quase todos os seus membros originais decide se reunir para trazer à tona as suas músicas levadas pelo fogo, graças também ao selo independente Akarma Records, distribuído pela Black Widow Records.

Emilio Farro (vocais), Pino Fontana (bateria), Lionello Accardo (baixo) e Bruno Cencetti (guitarra), além de Andrea Foce (teclados), que substituiu Orazio Colotto lançaram “L'ultima danza di Ophelia”, em 2017.

O "novo" Magia Nera

O som da banda, em “L'ultima danza di Ophelia”, traz aquela camada soturna, sombria, aliado ao peso, uma “cadência” assustadora, ameaçadora, perigosa. Um hard rock clássico, vintage, mas novo, rejuvenescido, embora tenham regravado todo o material como eram nos anos 1970.

"L'Ultima Danza di Ophelia" (2017)

Avançando no tempo e retornando ao seu segundo álbum, “Montecristo”, é inacreditavelmente audacioso, ambicioso. E embora seja uma missão quase que impossível, pelo menos para mim, de comentar com maestria e competência técnica, obras clássicas literárias que são transpostas para a música, nota-se com as variâncias rítmicas que o seu principal compositor, o guitarrista Bruno Cencetti, queria e conseguiu traduzir com a ajuda do rock progressivo, os momentos mais importantes do romance de Dumas, da forma como ele, Bruno Cencetti, desejava. 

Bruno Cencetti

Cada peça, cada fragmento, cada momento da história de Dumas, foi retratado, traduzido com um aura diferente e que harmonizou fantasticamente com cada momento, em uma simbiose excepcional entre som e a projeção de uma imagem daqueles ouvintes que leram ou viram as adaptações desta obra para o cinema, para aqueles que tem minimamente a capacidade de imaginar, de deixar, de permitir a imaginação fluir.

Mas não se enganem que toda essa engrenagem, essa força motriz que conduz a obra literária em um formato musical pareça indulgente ou arrogante. Mesmo que complexo, versátil, poderoso, é orgânico, simples e que vai direto ao assunto. Embora orgânico tem a incrível capacidade de destacar sensações, emoções que nos transporta para a França no século XIX.

”Montecristo”, por Magia Nera, não foi concebido de uma forma engessada, em uma dinâmica perfeitamente igual à do clássico literário, até por se tratar de um álbum de rock, de uma manifestação musical, Cencetti, o homem por trás da composição, do conceito sonoro, foi hábil, diria astuto e competente na adaptação e incrivelmente bem dividida, em formato de narrativa, em cada faixa, em cada música, nos transportando, à sua moda, com um formato arrojado e extremamente contemporâneo.

A primeira parte, a parte inaugural do romance, a que “constrói” a figura do Conde de Montecristo tem a prioridade do Magia Nera neste álbum-conceito, a parte mais obscura, dolorosa, mas poderosa que os outros fragmentos da história que, em até alguns momentos chega a ser solar e divertido, mostrando, claro, a arquitetura da vingança, mas também o glamour de Edmond Dantes e os frutos da riqueza que herdara.

E analisando a obra sob o aspecto sonoro, instrumental, “Montecristo” é sólido, vivaz, moderno, mesmo trazendo um álbum conceito pouco em voga em períodos onde a música se tornou pasteurizada e rasa, além de extremamente marcante e cativante.

Trata-se basicamente de um álbum de hard progressivo clássico, mas com nuances bem delineadas de frescor, de contemporaneidade, com muita técnica, habilidade e virtude de seus instrumentistas com o vocal especial, dando contorno a toda essa atmosfera. Mas não deixa de soar orgânico, afinal, são uma banda, quatro homens produzindo música!

E falando neles, a formação que concebeu “Montecristo” tinha: Emilio Farro nos vocais, Pino Fontana na bateria, Fabio D'Andrea no baixo, hammond e guitarra e Bruno Cencetti na guitarra e composição das letras das músicas. E voltando na estrutura sonora de “Montecristo”, ele traz quatro capítulos, com três partes cada, mostrando um trabalho sólido e conectado, sendo forte e intenso nas situações mais necessárias da história e na sua narrativa e não muito solene em outras situações em outras, mas vamos às faixas dissecadas!

O “primeiro capítulo” é composto por três faixas: “Il Tradimento”, “Mercedes” e “Il Primo Giorno di Prigionia”. “Il Tradimento” fala basicamente do cerne da história, do coração de todos os eventos subsequentes, da traição que Dantes sofre de seu amigo Danglars, que desejava o posto de capitão do navio que Dantès recebera por mérito, do Juiz de Villefort, filho do destinatário da carta de Napoleão, que, mesmo atestando sua inocência, quis silenciá-lo e de Fernand Mondego, catalão interessado em Mercédès, noiva de Dantès, que o invejava por ser o alvo de seu amor, tornando-se, quando Edmond foi preso, o futuro marido da catalã. A música começa decididamente tensa, em uma atmosfera sombria, “dark”, com uma fala, uma narrativa de Emilio Farro com um timbre muito ameaçador, denso, grave e que logo evolui para riffs poderosos de guitarra, tudo envolto em um ritmo envolvente que parece sintetizar a raiva de Dantès ao ser traído e preso injustamente. Um exemplo de hard prog contundente.

"Il Tradimento"

“Mercedes” é dedicado à mulher que Edmond Dantès amava e que voltara a se casar da última viagem no navio da companhia comercial para o leste em que ele estava embarcado, mas no caminho de volta o comandante adoeceu subitamente ao extremo. Antes de sua morte, no entanto, ele havia confiado o comando da embarcação a esse jovem por quem tinha grande estima e confiança e ao mesmo tempo lhe havia confiado uma tarefa arriscada, a extensão e o impacto subsequente em sua vida, Edmond certamente não podia imaginar, mas qual foi o pretexto para que seus inimigos o incriminassem. A faixa traz uma guitarra meio latina, raízes espanholas, afinal Mercèdés era catalã, com instrumentos de percussão, um bongô, em uma sonoridade sonhadora e contemplativa.

"Mercedes"

“Il Primo Giorno di Prigionia” ou “O Primeiro dia do Cativeiro” expressa o ódio pela injusta prisão de Edmond Dantès, onde por um lado representa a expressão do sentimento malévolo dirigido contra Edmond por seus inimigos e, por outro, alimenta esse mesmo veneno que está se desenvolvendo dentro dele, em vez de uma reação legítima à dor mais moral do que física que ele está sofrendo, tendo perdido não só o benefício da liberdade, dentro da prisão de segurança máxima da ilha de If, na costa de Marselha, mas também a possibilidade nada óbvia de contemplar a beleza das estrelas à noite, fora daquelas estreitas paredes da prisão, além de seu grande amor distante. E para sintetizar isso musicalmente, vem a guitarra pesada, com seus riffs baseados em um poderoso heavy rock de Cencetti, com o vocal igualmente poderoso de Farro, cantado alto e grave, quase que corroborando com o peso da guitarra, juntamente com o Hammond de D’Andrea, tocado freneticamente, sustentado por um som envolvente.

"Il Primo Giorno di Prigionia"

O “segundo capítulo” inicia com a faixa “Ricordi” ou “Memórias” que traz um transborde de emoções que Dantès sofre na prisão, o ódio fomentado pela vingança, a sua privação de liberdade, embora traga alguma boa recordação, porque representa o seu último contato com o mundo exterior que logo rivaliza com a sua atual realidade de prisão, injustiça e dor. A guitarra limpa de viajante de Cencetti retrata esses momentos e lembranças de Dantès que logo irrompe em peso com a “cozinha” em plena sinergia, baixo pulsante e bateria marcada, para personificar o sentimento de vingança e raiva de Edmond.

"Ricordi"

“Tempo” denuncia o momento emocional de Dantès resgatando, até com certa ternura, os seus bons momentos com a sua amada e o seu trabalho à borda de seu navio, comandando toda a sua dinâmica pelo mar, mas também é carregado por um tom de melancolia, sobretudo quando lembra que ainda está preso e o tempo parece não passar. E o acordeão que introduz a música traz esse momento de melancolia e lembrança, alimenta a imaginação da condição do nosso herói, e quando sugere algum peso na sonoridade, ela se desenvolve de forma simples, mas nem um pouco banal, soando bela, contemplativa, mas ainda assim soa também um tanto quanto “dark”, definitivamente melancólica.

"Tempo"

Mas o rock n’ roll mais pesado e intenso volta com “Voci Nella Mente” ou “Vozes na mente” que, com uma sonoridade pesada e agressiva, sintetiza a loucura e irracionalidade em que Dantès vem sofrendo na prisão. O vocal incrivelmente entrega essa condição mental do protagonista, quase paranoica e doentia, diria. A segunda parte da faixa traz a evidência do hammond e violão, alternando entre o peso pulsante.

"Voci Nella Mente"

O “Terceiro Capítulo” (“La Fuga”) chega com “La Galleria” com uma sinergia incrível entre o hammond e a guitarra com riffs fortes, bem trabalhados e altivos. Mas quando o vocal de Cencetti entra traz mais peso, mais força e de uma textura mais arrojada e até delicada nos instrumentos irrompe em um hard rock poderoso e até, por vezes, agressivo.

"La Galleria"

“Requiem Per L’abate Faria” personifica a amizade mais forte e desenvolvida entre Dantes e o abade devido aos longos anos de clausura e dessa amizade forte será fonte da fuga de Dantès e também “sofrerá” uma forte carga cultural que o elevaria do ponto de vista moral e intelectual. A introdução traz um riff de guitarra sombrio, soturno, mas contemplativo.

"Requiem Per L'Abate Faria"

“Il Salto Nel Sacco” conta a ousada e arriscada fuga de Edmond Dantès da prisão. Começa com uma guitarra cativante e baixo encorpado, pulsante e, em um hard rock cadenciado e de tendências pop, a música segue em sua levada dançante e narra, em música, a fuga para um horizonte vazio de mar que o conduz para a liberdade.

"Il Salto Nel Sacco"

O quarto e último capítulo inicia com a faixa título, “Montecristo”, trazendo uma clara ambientação clássica, com um viés evidente do flerte do rock com o progressivo. Mas de um abre alas clássico e austero, irrompe em uma poderosa guitarra anunciando um hard rock potente e visceral e a partir daí é revelado uma música “coletiva” com uma intensa e competente participação de todos os integrantes da banda. O momento que Dantès “Encorpora” Montecristo e, diante de si, ergue-se a “Ilha de Montecristo”, a sua mãe segura e generosa.

"Montecristo"

“Il Duello” traz o momento em que Dantes, o Conde de Montecristo, começa a arquitetar o seu desejo de vingança e a libertação de um pesadelo que durou 15 longos anos. A música é introduzida com um belo, cativante e hábil riff de guitarra, com um baixo pulsante e percussivo, com um hammond que dá uma textura interessante a toda a música.

"Il Duello"

E encerra, finalmente, o álbum com “La Fine” que entrega uma sonoridade totalmente reconfortante, branda e tranquila com o dedilhar de um violão que logo se encontra com um lindo e limpo solo de guitarra. O que certamente denota o fim de uma “guerra”, a vingança de Dantès está completa, mas, como toda guerra, deixa sequelas, algum estrago, algumas feridas que, às vezes, é difícil de cicatrizar. Mas encontra a paz ao lado de sua amada, Mercedes, que por um momento achava que não conseguiria mais amar.

"La Fine"

“Montecristo” não é apenas mais um álbum conceitual, mas o grande álbum conceitual que, em tempos de músicas descartáveis e pobres, aquelas pasteurizadas, mostra que ainda há esperança de proporcionar, além do prazer, mas também cultura resgatando um clássico da literatura mundial.

É inacreditável a convergência narrativa do clássico de Dumas com a música que o Magia Nera construiu e por mais que tenha trazido construções óbvias com base no livro e na sonoridade o fez com estilo, com personalidade, aliando o classic rock, o hard rock e o prog rock, na dosagem certa, sem sobrepor os estilos, mostrando versatilidade e teatralidade.

“Montecristo” é um álbum que foi costurado, manufaturado, com requintes de detalhes, em um artesanato sonoro que há muito tempo não se via, não se ouvia no rock n’ roll na gama de seus clássicos conceituais. “Montecristo” sem dúvida pode ser considerado como um “novo clássico”.



A banda:

Bruno Cencetti na guitarra elétrica

Fabio D'Andrea no baixo e teclados

Emílio Farro no vocal

Pino Fontana na bateria

 

Faixas:          

1 - Il Tradimento

2 - Mercedes

3 - Il Primo Giorno di Prigionia

4 - Ricordi

5 - Tempo

6 - Voci nella mente

7 - La Galleria

8 - Requiem per l'abate Faria

9 - Il Salto Nel Sacco

10 - Montecristo

11 - Il Duello

12 - La Fine




"Monte Cristo" (2020)