domingo, 13 de fevereiro de 2022

Primevil - Smokin' Bats at Campton's (1974)

 


Histórias que caíram no ostracismo. Bandas vilipendiadas em detrimento do sucesso avassalador de outras tantas que bebendo das suas vitórias se tornaram pioneiras, as primeiras, aquelas que criaram um conceito sonoro, uma moda, ditaram comportamentos, formaram opiniões.

E as bandas que pereceram que fracassaram? Fracassaram? O que é fracasso para você, ouvinte de roco n’ roll? O fracasso comercial incorre em uma pretensa falta de qualidade sonora? Será que as bandas obscuras, esquecidas, que não tiveram sucesso comercial não podem ser consideradas como pioneiras?

São perguntas que me faço desde que “construí” este blog que publica as bandas “fracassadas” e seus trabalhos esquecidos. Muitas dessas bandas que, abnegadas, ajudaram, inclusive simultaneamente com as bandas de sucesso, a construir uma cena, um núcleo sonoro, mas que por quaisquer infortúnios não seguiram em frente, mas que, de certa forma, foram os embriões de uma história qualquer.

Essa banda que falarei agora, eu achei em minhas incursões pela grande rede e confesso que o que me atraiu foi o aspecto visual. A capa, embora pouco arrojada graficamente falando chama a atenção com um morcego tenebroso e bizarro que parece mesmerizar, hipnotizar quem o olha com requintes de detalhes.

Claro coloquei os fones de ouvido, lembro-me bem, com a ansiedade de uma criança que ganha o seu primeiro brinquedinho e os acordes se fizeram ouvir, adentrando os ouvidos e impactando, de forma avassaladora, diria arrebatadora, o coração, a alma. Um hard rock poderoso, envolvente, cru, seco, o famoso “direto ao ponto”. A banda se chama PRIMEVIL, baseada na cidade de Indiana, EUA, e o álbum, único da banda, chama-se “Smokin' bats at Campton's”, gravado em 1974.

Mas como muitas bandas obscuras e sem nenhum apoio não conseguiu lançar à época esse trabalho, sendo engavetado, talvez pelo fato do álbum não ter sido bem digerido pelas gravadoras que, com medo de uma sociedade conservadora, bem como alguma parcela dos “tais amantes do rock n’ roll” também são, decidiram não lançar o material. Pois é leitores amigos, vai saber o motivo!

“Smokin' bats at Campton's” é um album poderoso, pesadão, um legitimo hard rock setentista, mas se percebe uma “sopa sonora” que adiciona rock psicodélico, algumas viagens de teclados, músicas acústicas e agressivas convivendo em um trabalho arrojado e revolucionário.

Por que digo revolucionário? Respondo: o álbum foi relançado anos depois, mais precisamente em 2006, no formato CD pelo selo Outer Limits Of Sound e uma frase estava ligada a esse álbum ou quando ele é mencionado por fãs garimpadores dessa pepita de ouro que, na realidade, tem um caráter de afirmação: “A Touchstone of Stoner Rock”. A pedra fundamental do stoner rock! Será? A cena stoner, tão em evidência atualmente, com tantas bandas na ativa teria, mesmo que inconcientemente, bebido da água do Primevil? Seria o Primevil a pedra fundamental do stoner rock?

É sempre muito difícil pontuar uma situação dessas, levando em consideração o surgimento, antes, inclusive, de várias outras bandas com a mesma pegada do Primevil, mas ouvindo “Smokin' Bats at Campton's” reconheci, falo por mim, essa sonoridade em um caráter embrionário! Sem sombra de dúvida encaro esse trabalho como um proto stoner!

Mas tentemos falar um pouco do álbum antes dos comentários “faixa a faixa”. E comecemos com uma curiosidade que, no mínimo vai contra os conceitos conservadores. O título do álbum faz referência ao consumo de maconha na casa do vocalista do Primevil, Dave Campton. Pois é sempre as bandas fazendo referências as drogas e as tendo como inspiração para as suas composições, entre outras coisas, sendo destrutivo ou não.

Ah já que falamos do vocalista da banda, Dave Campton, façamos a escalação do resto da banda que gravou esse único registro de estúdio: Mel Cuppa na bateria, Larry Lucas na guitarra, violão e vocal, Mark Sipe no baixo e Jay Wilfong na guitarra e sintetizador (teclados).


Primevil

E pelas imagens da banda à época se percebe que eram jovens, muito jovens, eles ainda estavam na adolescência, não podiam sequer sair da cidade sem a autorização dos seus pais, seus responsáveis. E é incrível que, ao ouvir seu álbum, mostra um Primevil forte, poderoso e visceral, faziam um som de gente grande.


Smokin' bats at Campton's é complexo, mas cru, traz momentos de Black Sabbath, com o peso, de Led Zeppelin com o viés prsicodélico, solos de guitarra de tirar o fôlego, bateria funkeada e marcada, baixo pulsante e um vocal alto, gritado, as vezes. Um álbum a frente de seu tempo, certamente.

A faixa de abertura, “Leavin’” começa com uma passagem acústica, vocais suaves, violão dedilhado ao fundo, mas não espera uma faixa inteiramente lenta, porque explode com riffs desconcertantes de guitarra sendo acompanhado por uma batida forte de bateria e um baixo frenético. Os solos de guitarra vão e voltam, o hard rock irrompe de forma desbundante.

"Leavin'"

“Progress” já começa com o pé na porta! O baixo meio “funky”, bem dançante, a bateria, forte, segue no mesmo compasso, a guitarra ao fundo disparando seus riffs e solos desconcertantes, talvez uma guitarra gêmea à la Wishbone Ash se percebe nessa excelente faixa.

"Progress"

A faixa seguinte “Fantasies” começa discreta, suave, lenta, com um doce instrumental capitaneado pelo violão, trazendo referências de country, de música sulista, mas que vem com a guitarra ácida e psicodélica dando uma textura sonora mais complexa, sim, essa é a faixa mais complexa do álbum. Vai ao longo do tempo ficando mais pesada graças aos solos de guitarra. Grande música!

"Fantasies"

“Pretty Woman” é dançante até o osso! Não há como ficar parado ao ouví-la! Impressionante a qualidade musical desses moleques, uma introdução meio “jazzy”, mesclado a um funky, colocando tudo isso no caldeirão do hard rock com o tempero dos solos de guitarra de tirar o fôlego, com vocais competentes e sóbrios.

"Pretty Woman"

“Tell Me If You Can” traz o vocal rouco e potente como destaque, bem como riffs sujos de guitarra remetendo a um heavy rock, a um proto metal de vanguarda, com velocidade e muito, muito peso.

"Tell Me If You Can"

“High Steppin' Stomper” traz o classic e necessário hardão setentista ao álbum, mas com aquela levada funkeada de novo, o peso, mais uma vez, aliado ao fator dançante que faz desse álbum algo carismático aos ouvidos e alma. Destaque, mais uma vez, para os vocais muito competente, gritados e de grande alcance.

"High Steppin' Stomper"

Na sequência tem "Hey, Lover" que já começa com o pé na porta, com bateria pesada, bem marcada, riffs pegajosos, mas poderosos, agressivos e um vocal incrivelmente rasgado que poderia se adequar sem medo de ser feliz aos pesados anos 1980 na cena thrash metal. Uma faixa curta, direta e avassaladora.

"Hey, Lover"

E a derradeira faixa que fecha este excepcional mostra mais uma faceta dos gratos de Indiana: o blues! Um blues rock de altíssima qualidade, mostrando que a banda tinha recursos! Algo meio lamentoso tem nessa música, trazendo a essência do estilo que logo descamba para um solo de guitarra extremamente competente e dedicado. A “cozinha” em total sinergia com a atmosfera da música, tudo conspirou a favor nessa faixa. É a verdadeira “música de banda”, onde todos participam de forma intensa e incondicional.

"Your Blues"

“Smokin' Bats at Campton's” é uma relíquia, um petardo sonoro que trouxe hard rock, rock psicodélico, blues e protos toner de bandeja para os aficionados pelos estilos. Mais algumas curiosidades acerca do álbum: foi gravado durante a noite, acreditem, no New Palestine Studio, de propriedade de Moe Whittemore.

E reza a lenda de que as pouquíssimas cópias geradas, cerca de 1.000, dessa gravação circularam, de forma irregular e não oficial em alguns poucos pontos de Indianápolis, mas que um brechó local ganhou alguma reputação por ser o local que abrigou varias cópias dessa gravação, mas que não gerou muito rebuliço. Hoje materiais como esse poderiam ser disputados a tapa por colecionadores ávidos por aí espalhados nesse mundão.

Depois de um relançamento em 2006, o álbum teve novo relançamento, em 2007 pelo selo Radioactive Records. Você pode ler uma entrevista da banda para a “Psychedelic Baby Magazine” neste link: Primevil | Interview | “Hard rock monster from Midwest”Altamente recomendado!






A banda:

Dave Campton nos vocais, percussão

Mel Cuppa na bateria

Larry Lucas na guitarra, violão, vocais

Mark Sipe no baixo

Jay Wilfong na guitarra, sintetizador


Faixas:

1 - Leavin'

2 - Progress

3 - Fantasies

4 - Pretty Woman

5 - Tell Me If You Can

6 - Hey, Lover

7 - High Steppin' Stomper

8 - Your Blues



"Smokin' Bats at Campton's" (1974)






 









 






quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Suck - Time to Suck (1970)

 


Sabe aquelas bandas de efêmera vida, mas que chega e causa um grande alvoroço? Aquelas bandas que fazem, em pouco tempo de vida e uma curta discografia mais do que muita banda em décadas de existência? Como se fora um cometa, um fenômeno da natureza que vem sem avisar destrói tudo e desaparece como que por um encanto? São esses eventos que acometem a maioria das bandas obscuras que ouvimos e que resenhamos neste humilde blog.

E a história de hoje vem de um país que não é tido, considerado como centro, como polo do rock n’ roll, mas que entregou aos aficionados pela música obscura uma banda que durou, pasmem, 8 meses, entre 1970 e 1971, mas que deixou uma verdadeira obra selvagem, pesada e muito, muito ousada para aqueles tempos de guerra, de intolerância de cor da pele, de um profundo conservadorismo que deixa, até hoje, marcas de segregação e subjugação.

Falo da África do Sul, falo da banda SUCK! O espírito contestador e debochado já começa com o nome, com o nome de seu único álbum lançado em 1970 chamado “Time to Suck”. Apesar de um país pouco tradicional na cena rock existia uma cena, embora tímida, discreta, por conta da falta de apoio, claro, como sempre, era rica em quantitativo de bandas e até na qualidade. 

E a confirmação era uma compilação que fora lançada em formato LP em 1972, cujo título escolhido foi um termo cunhado à época para essa discreta cena chamado “Big Heavies”.

E o Suck era a banda mais agressiva, mais selvagem! O que poderia faltar em sofisticação e um trabalho mais bem apurado no que tange a produção do seu álbum sobrou em peso, poder sonoro e hard, muito hard. O termo “Big Heavies” caiu como uma luva para o Suck. 


A banda foi formada na cidade de Joanesburgo no início de 1970. O baixista Louis Joseph “Moose” Forer, que já havia trabalhado com Peanut Butter Conspiracy em Salisbury na então Rodésia, quando a apropriação de terras não era a moda, assim como com a banda baseada em Joanesburgo Grup 66 e Billy Forrest, conheceu o guitarrista Steve “Gil” Gilroy, que tinha acabado de chegar de Londres, onde trabalhava em um desses clubes e pubs. Gilroy havia trabalho com o icônico guitarrista original do Jethro Tull Mick Abrahams e fundador do Blodwyn Pig.

Eles logo se tornaram parceiros de bebidas e para a música foi um pulo, logo se identificaram. O baterista, nascido na Itália, Saverio “Savvy” Grande, que tocou em uma banda chamada Elephant e também trabalhou na banda Oompah e foi influenciado por bandas de percussão latino-americanas, conheceu Gil e Moose em um clube em Hillbrow, em Joanesburgo, a caminho de Bulawayo, Rodésia. 

O vocalista, guitarrista e flautista de Port Elizabeth, Andrew Ionnides, anteriormente com Meenads, Blind Lemon Jefferson e October Country, recentemente se baseou em Joanesburgo e conheceu o resto dos músicos e assim o Suck nasceu.

Eles alcançaram o objetivo sendo uma das bandas mais viscerais no palco. Seus shows ao vivo eram pesados, avassaladores. Eles quebravam os instrumentos, tocava alto, a bateria levitava, sobras das guitarras e baixos voavam para o público e se tornavam parte teatral de suas apresentações. Rolava inclusive um manequim que era alvo da fúria dos caras do Suck onde eram cortados por machados e facas.


A vida na estrada era difícil, o que não é novidade para muitas bandas obscuras, que não tem a estrutura a seu favor, ia pelo amor a música, por tocar seus instrumentos. Falta de boas gestões, pela gravadora e a inexperiência de jovens músicos, a falta de grana, as proibições, as restrições governamentais e a repressão, o que já era comum na África do Sul eram os entraves a sobrevivência dessas bandas que faziam um rock n’ roll pesado e alto e com isso vinha a frustração, as desilusões por não vislumbrar uma luz no fim do escuro túnel das incertezas.

E para variar o Suck queria escrever suas próprias músicas, gravar seu próprio material, mas nunca tiveram chances de fazê-lo, não se sabe exatamente o motivo, mas na verdade deixou em seu curto tempo de vida uma música apenas chamada “The Whip”. O seu único trabalho, “Time to Suck”, foi gravado nos estúdios da EMI em Joanesburgo por apenas seis horas! 

Era o tempo que tinha para pagar para usar a estrutura do estúdio, talvez por isso a produção deixasse um pouco a desejar, mas a força, o talento, o peso, a selvageria não foi oprimida, muito pelo contrário, diante dos covers que tocou de algumas bandas que estavam despontando á época foram executadas com maestria.

Então falemos de “Time to Suck”! É um álbum majoritariamente marcado por um vigoroso e desleixado hard rock que nascia no início da década de 1970, que ainda era embrionário. Certamente o incluiria entre os pioneiros da música pesada juntamente com os figurões Black Sabbath, Deep Purple, Grand Funk Railroad etc.

A propósito alguns clássicos dessas bandas desfilaram no disco do Suck e o álbum é inaugurado com a faixa “Aimless Lady” do Gran Funk. Um petardo, sujo, arrastado, aquele hard rock típico, mas selvagem e potente. 

"Aimless Lady"

Segue com o clássico do heavy prog do King Crimson, de 1969, “21st Century Schizoid Man” que, a meu ver, figura como a melhor versão neste álbum. Não tem os teclados, não tem aquela sofisticação do Crimson, tem o hard rock puro, genuíno, a marca registrada da banda, do Suck sendo impressa nesta música. Uma ótima versão!

"21st Century Schizoid Man"

“Season of the Witch”, de Donovan, surpreende também pela versão arrojada que flerta, claro, com o hardão, mas também com a psicodelia, típica ainda daqueles tempos e a junção do peso e da viagem percebia um Suck mais bem apurado prezando pela versatilidade nas harmonias. 

"Season of the Witch"

Outra música do Grand Funk Railroad, escrita por Mark Farner, “Sin's A Good Man's Brother” também estava no track list deste álbum e o poder da música original é impressa de forma fiel pelo Suck, mas daquela forma despojada, intencionalmente despojada com um som de guitarras distorcidas, uma cozinha bem conectada, sinérgica e o resultado é: tome hard rock!

"Sin's a Good Man's Brother"

“I’ll Be Creeping”, clássico do Free, o Suck quis reproduzir um trabalho mais voltado para o blues rock e mostrar essa veia que estava ganhando alguma evidência à época como bandas do naipe do Steppenwolf, mas sem deixar de lado a veia hard tão evidente neste álbum. 

"I'll be Creeping"

E agora eis que surge a criação da própria banda, a composição da banda, única no álbum, “The Whip” que mostra toda a selvageria tão característica dessa banda: riffs de guitarra, solos de tirar o fôlego, bateria forte e marcada, baixo pulsante, um verdadeiro trabalho de banda! Uma pena não termos visto e ouvido mais materiais dessa banda com grande potencial.

"The Whip"

E segue com um clássico do Deep Purple, “Into the Fire”! Que seguiu basicamente como a original que representa fielmente o que o Suck era. Arrasa quarteirão, gritos altos e rasgados do vocalista, uma batida de proto metal, o heavy metal de vanguarda se faz presente! Outra faixa que merece atenção! A sequência vem com “Elegy”, música do Colosseum. Outra faixa muito bem descaracterizada pelo Suck e adivinhem como ela foi interpretada? Com muito peso, com muito hard rock.

"Into the Fire"

E fecha dignamente com outro clássico, dessa vez do Black Sabbath: “War Pigs”. Uma música pertinente para aqueles tempos de contestação e que o Suck se identificava. O peso se fez presente na versão dos caras, mas aquela levada jazzística na bateria tão percebida em Bill Ward não foi tão seguida pelo batera do Suck, ele arrebentou tudo levando o DNA do Suck às alturas, com um vocal alto, gritado até a estratosfera.

"War Pigs"

Um clássico obscuro, contundente e que serve de deleite aos apreciadores da música pesada. Um cometa que passou, destruiu tudo e deixou sua indelével marca na música pesada.

Moose Forer permaneceu na música após o fim do Suck, e continua até hoje. Trabalhou em sessões com nomes como Trevor Rabin e Cedric Samson e com PACT em shows como Chicago e Joseph's Amazing Technicolor Dreamcoat, ele também participou do Rat e apoiou artistas internacionais como Rufus Thomas. 

Ele também tocou em uma banda no corpo de entretenimento militar sob George Hayden. Sua banda atual, Sounds Like Thunder, tem sido frequentadora do famoso Blues Room de Joanesburgo nos últimos três anos.

Savvy Grande, um dos melhores bateristas de rock do país na época, também permaneceu na indústria da música, se apresentando com bandas e artistas conhecidos como Omega Ltd, Stagecoach, Jack & the Beanstalk, Lesley Rae Dowling, Shag, Razzle, David Kramer e Jonathan Butler. 

Ele se mudou para a Cidade do Cabo, onde viveu por vários anos, e no início dos anos 1990, tornou-se professor de bateria infantil na faculdade de bateria de Merton Barrow, The Jazz Workshop. Casado e com um filho, ele agora é dono de uma garagem e é apaixonado por Motorcross. Sua última banda foi o Late Final, embora ele tenha saído da cena musical alguns anos atrás.

Andy Ionnides, também conhecido mais tarde como Andy Dean, teve uma curta passagem pelo Anonymous de Hedgehopper na Rodésia (eles fizeram sucesso com "Hey!") e também esteve envolvido com Rat por um tempo, assim como com Rainbow (Não é a banda de Ritchie Blackmore) e Faggott. 

Ele se mudou para East London (aquele da África do Sul, não da Inglaterra!) e se juntou a seu outro irmão, Reno, em uma locadora. Ele formou e liderou uma banda gospel muito promissora, embora nenhuma gravação oficial seja conhecida. Ele então se mudou para Port Elizabeth e ficou com seu irmão, George. 

Ele também estava envolvido no negócio de lavagem a seco e tentou a sorte no comércio de restaurantes. Casado e com dois filhos, Andy viveu no limite durante grande parte de sua vida, arriscando-se em todos os lugares por onde passou, mas foi apenas durante seus últimos anos que ele se tornou muito bem-sucedido, administrando um próspero bar de piscina no leste de Londres.




A banda:

Stephen Gilroy na guitarra

Saverio "Savvy" Grande na bateria

Louis Joseph "Moose" Forer no baixo

Andrew Ionnides na flauta, guitarra e vocais


Faixas:

1 - Aimless Lady

2 - 21st Century Schizoid Man

3 - Season Of The Witch

4 - Sin's A Good Man's Brother

5 - I'll Be Creeping

6 - The Whip

7 - Into The Fire

8 - Elegy

9 - War Pigs (Bônus Track)



"Time to Suck" (1970)










segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Purson - The Circle and the Blue Door (2013)

 


É muito difícil falar de rock progressivo e suas vertentes sem mencionar as grandes bandas do passado e que se consagraram graças aos seus álbuns seminais. São eternas e precisamos enaltecê-las sob todas as formas, afinal reverenciar para eternizar a sua música tão importante para a edificação da cena. Contudo, de uns anos para cá, estamos testemunhando o surgimento de novas propostas e cenas de prog rock nas suas mais diversificadas vertentes que precisam e merecem todo o apoio dos fãs. 

São bandas como essas que revigoram e traz uma reciclagem a essa rica música, o sentido da progressão é evidente com as bandas contemporâneas. Umas seguem a cartilha do passado sem soar datado, outras trazem novos elementos, mas respeitam e se resguardam com o passado glorioso e intocável das grandes bandas setentistas que amamos e que colocamos no pedestal de nossas predileções e necessidades sonoras.

O fato é que a nova cena da música progressiva seja aliado ao heavy rock, heavy metal, melódico, stoner rock, doom metal e outros gêneros precisa ser respeitada pela competência, originalidade e qualidade. Uma dessas bandas é o PURSON. Falo de seu debut chamado “The Circle and the Blue Door”, de 2013. O Purson nasceu na Inglaterra em 2011 e é impressionante o quanto a banda dialoga bem com o passado estética e claro sonoramente, mas sem esquecer que está no século XXI com as suas tendências.

Purson

Ao buscar as minhas fontes para a construção dessa resenha, observei que a banda recebeu, com este álbum, todas as honrarias, todos os reconhecimentos possíveis e imagináveis da crítica especializada e dos adoradores da boa música. Recebeu prêmios da Metal Hammer, como um dos melhores álbuns de metal daquele ano, caiu nas graças dos exigentes puristas apreciadores de sons já esquecidos do passado, o flerte entre o passado e o futuro não mensura cronologias, o tempo parece ser irrelevante quando se ouve “The Circle and the Blue Door”.

E de fato, essas são as minhas palavras ao ouvi-lo, é um primor de qualidade o que me surpreende pelo tempo e juventude dos seus músicos e da formação enquanto banda vejam como o tempo parece ser irrelevante quando a música é boa?

O Purson com o seu “The Circle and the Blue Door” apresenta um rock n’ roll muito bem pincelado com um psicodélico ácido, com uma melodia delicada, bem produzida, uma levada hard e heavy, beirando o doom e stoner em alguns momentos, um belo progressivo obscuro com uma atmosfera densa, mas que soa acessível, comercial, mas de qualidade, quase beirando um pop rock.


Mas antes de falar, faixa a faixa, do álbum “The Circle and the Blue Door” o Purson lançou alguns EPs, onde se destacam “Rocking Horse”, de 2012, “Learning On a Bear”, de 2013 e “The Contract/Blueprint Of The Dream”, de 2013. Graças a esses materiais, a essas prévias o Purson começou a fazer alguns shows em Londres, construindo alguma reputação e trazendo algum deleite aos puritanos do occult rock e também aos mais jovens que tiveram o seu primeiro contato com esse nicho do rock.

A formação da banda neste álbum era: Rosalie Cunningham no vocal e guitarra, George Hudson na guitarra, Samuel Shove no órgão e mellotron, Barnaby Maddick no baixo e Jack Hobbs na bateria. 

O álbum começa com “Wake Up Sleepy Head” com uma sonoridade hipnotizante, uma beleza sublime, com uma boa linha de baixo. The Contract” conta com muito peso e tem uma linha de doom bem interessante, as vezes psicodélica com destaque também para o baixo e uma levada meio cigana, diria, bem interessante.

"The Contract"

A faixa seguinte, “Spiderwood Farm”, conta com esses elementos de música cigana, com um excelente trabalho de percussão e passagens progressivas, mas com muito peso e alternâncias entre o suave e o peso.

“Sailor's Wife's Lament” tem uma pegada psicodélica, ácida. Na sequência temos “Learning on a Bear” com uma pegada hard rock setentista ao estilo Uriah Heep e Deep Purple em seus respectivos inícios.

"Learning on a Bear"

Já “Tempest and the Tide” é uma faixa lenta, acústica e bem sofisticada, com arranjos elaborados. Mas com “Mavericks and Mystics” a porradaria hard retorna. Segue com “Well Spoiled Machine” recheada de psicodelia e progressivo com riffs de guitarra ácidos e seco, com teclados viajantes.

Segue com “Well Spoiled Machine” recheada de psicodelia e progressivo com riffs de guitarra ácidos e seco, com teclados viajantes. “Sapphire Ward” segue a mesma proposta da faixa anterior com lisergia e muitas influências do fim da década de 60 para o início da de 1970.

“Rocking Horse” é uma faixa excelente com uma atmosfera densa e transcendental. E para fechar o álbum, temos uma das melhores faixas chamada “Tragic Catastrophe” com uma camada melancólica, belíssimos arranjos, ela é épica, progressiva, excelente.

"Tragic Catastrophe" live at Cambridge 2016

Tudo estava lá, com o lançamento de “The Circle and the Blue Door”: a sonoridade obscura, psicodélica, pesada, com temáticas ocultistas, o apelo estético da banda que te remete aos anos 1960, 1970. A banda que não plagiou, mas homenageou uma cena, que enalteceu abnegados músicos que pereceram pelo conservadorismo no rock e na indústria fonográfica. O Purson trouxe à luz a cena obscura e mostrou que ela está cada vez mais aquecida e forte.

O Purson lançou um novo trabalho chamado “Desire’s Magic Theatre”, em 2016. Mas em 2017 Rosalie Cunnigham anuncia o seu primeiro trabalho solo, chamado “Chocolate Money”, dando fim, consequentemente ao Purson no mesmo ano.

"Desire's Magic Theatre" (2016)

A esperança é um revival e que se reúnam novamente para alguns shows e quem sabe um novo trabalho. Bandas como o Purson merece sempre estar em evidência, na ativa, mesmo que não seja um som palatável no mainstream.



A banda:

Rosalie Cunningham no vocal, guitarra, orgão, mellotron, percussão

William Cunningham no saxofone

Ed Turner no baixo, guitarra e percussão

Raphael Mura na bateria


Faixas:

1 - Wake Up Sleepy Head

2 - The Contract

3 - Spiderwood Farm

4 - Sailor's Wife's Lament

5 - Leaning on a Bear

6 - Tempest and the Tide

7 - Mavericks and Mystics

8 - Well Spoiled Machine

9 - Sapphire Ward

10 - Rocking Horse

11 - Tragic Catastrophe

 

Purson - "The Circle and the Blue Door"

 

 

 

 







 





domingo, 30 de janeiro de 2022

Duello Madre - Duello Madre (1973)

 


Seguindo nas entranhas do rock progressivo italiano, no lado obscuro da cena progressiva, esquecida e vilipendiada torna-se necessário, urgente dar luz as suas obscuridades, as bandas "empoeiradas", esquecidas no fundo do baú do rock n' roll, deixadas de lado pelos infortúnios mais variados. 

Torna-se vital tirá-las da hibernação do ostracismo, fazê-las renascer e mostrar todas as suas abundâncias sonoras, suas riquezas e assim tentarei fazer com uma banda que, ao ouvir, me fez voltar a um tempo em que não vivi tão prolífico de grandes bandas, grandes flertes musicais. Falo da banda DUELLO MADRE.

A banda foi formada na cidade de Gênova e os seus integrantes pertenciam a bandas, é claro, pouco conhecidas da cena progressiva italiana e contava com: Pippo Trentin, no saxofone e flauta, Marco Zoccheddu no violão elétrico e acústico, Bob Callero no baixo e Dede Lo Previte na bateria. 

O guitarrista Marco Zoccheddu foi da banda Nuova Idea e da banda de heavy metal Osage Tribe, Callero do Il Volo e também do Osage Tribe e Dede Lo Previte membro da Circus 2000 e Nova. Tratava-se de músicos relativamente experientes, rodados na cena progressiva que estava nascendo na Itália e com certa profusão e também da cena hard e heavy.

Duello Madre

Decidiram se juntar para um novo projeto, ousado e que era pouco corriqueiro e usual na Itália em termos de sonoridade, fazer jazz rock com grandes viagens improvisadas, verdadeiras jams sections, logo uma incrível permissão a criatividade sem amarras, livre de qualquer coisa que podasse o músico em seu momento sagrado: a de fazer música a seu bel prazer. E foi assim que o seu único álbum foi lançado, no ano de 1973, chamado simplesmente de “Duello Madre”.  

E foi exatamente com essa proposta que a banda se apegou e quando conceberam esse projeto, precisavam deixar para trás todas as coisas que os tinha inibido, desmantelando todas as estruturas musicais e humanas que se acumularam, inconscientemente ou não, em experiências anteriores com outras bandas.  

E realmente queriam fazer algo novo, haja vista que alguns músicos fizeram parte de bandas psicodélicas e até de heavy metal, o que, em tese, seria algo improvável, tocar para frente o projeto jazzístico do Duello Madre.

Quando se fala em desvencilhar, é pelo fato de que a antiga banda de Zoccheddu e Callero, o Osage Tribe, fazia um hard e heavy metal e o seu novo projeto, o Duello Madre, partiria para o jazz rock. Era uma guinada radical! 

Esse foi Duello Madre com seu álbum arrojado, revolucionário para a época em um país que, apesar das dificuldades vividas em um caldeirão político, respirava bons progressivos com bandas que nascia para a consagração. 

“Duello Madre” está calcado em um audacioso jazz rock que predominam faixas instrumentais com apenas uma cantada, tendo uma musicalidade incrível com seções rítmicas notáveis e passagens incríveis. As referências são de bandas como King Crimson, Soft Machine e até Zappa, levando em consideração lampejos de experimentalismo. 

O jazz rock do Duelo Madre foi marcado pela visceralidade, pela força de seu som, fugindo um pouco da sofisticação que estava se projetando, se configurando como bandas do naipe do Area e Arti & Mestieri, por exemplo. Uma sonoridade direta, tendo a sua base em guitarras distorcidas e um saxofone nervoso em um “duelo” extremamente salutar e revolucionário. 

Não há como negligenciar a importância dessa banda para o jazz rock italiano, mas com traços poderosos e arrojados e, talvez por conta disso, a banda ganhou o ostracismo, o esquecimento de sua história, por conta da incompreensão de sua música vanguardista, marginal.

Em um encarte dessas reedições do álbum há um relato, diria forte, de alguns membros da banda onde diziam que estavam “tentando escapar da decadência do panorama progressivo da Itália”. Talvez tenham exagerado, mas era a intenção, custe o que custasse, de fazer algo novo, que abalasse as estruturas da música progressiva do país da bota.

O álbum é inaugurado com “Aquile Blu”, com uma misteriosa introdução, um tanto quanto sombria, que explode com um sax poderoso, presente e uma “cozinha” forte, com linhas de baixo excelente e a bateria seguindo ritmicamente. Não podemos nos esquecer da seminal guitarra e o vocal. Música completa, um exemplo lindo de free jazz.

"Aquile Blu"

“Momento” segue como se fora uma continuação da música anterior, com destaque para a linha monstro de bateria. O sax e a guitarra trabalhando em conjunto é outra maravilha à parte, mas com destaque para o momento acústico, mais introspectivo, com belíssimas melodias com flautas e violões bem dedilhados, voltando ao ponto inicial com o sax e a guitarra trabalhando em sinergia.

"Momento"

“Otto” começa com o conjunto baixo e bateria em excelente evidência, uma bateria dançante com percussão seminal, baixo hipnótico, a unidade se faz presente nesta faixa, não desmerecendo o casamento sonoro entre guitarra e saxofone. Música menos agitada, mas forte em qualidade, com muita complexidade, porém orgânica.

"Otto"

“Madre” segue com estruturas musicais bem parecidas com relação a faixa anterior, com aquele jazz fusion típico e enérgico, irrompe com o saxofone e guitarra improvisada e depois segue calmo, viajante, agradável. Temos solos de guitarra, saxofone, uma suíte alegre com muitos improvisos, momento de criatividade única da banda.

"Madre"

Fecha com “Duello” que tem uma linha de baixo espetacular e uma bateria muito técnica e um sax estridente, intenso e tenso, em muitos momentos. Baixo e bateria seguem em frente, enquanto a guitarra tem espaço suficiente para ser virtuosa e o sax abençoando tudo freneticamente.

"Duello"

Um jazz rock com pitadas generosas de progressivo de muito respeito e que contou com a produção de um nome importante da época, de Gian Piero Reverberi, que trouxe ao trabalho uma versão totalmente brilhante e especial e que, além disso, participou tocando teclados em algumas poucas faixas, em alguns poucos momentos desse álbum. 

Outro ponto peculiar também foi o pouco uso de teclado, instrumento tão marcante naquele momento do rock italiano e também a ausência de vocal privilegiando um instrumental, tendo a guitarra, o baixo, a bateria e o sax se desdobrando em força e relevância para suprir a lacuna planejada, em sua maior parte, das teclas, tendo também a participação de Mario Lamberti na percussão. A banda durou apenas um ano, de 1973 a 1974.

“Duello Madre” foi lançado, em vinil, em 1973 pelo selo Produttori Associati e relançado em 2010 pela Vinyl Magic. Em CD foi lançado em 1993 pela Mellow Records e em 2008 pela Vinyl Magic. Altamente recomendado!




A banda:

Pippo Trentin na flauta e saxofone

Marco Zoccheddu na guitarra

Bob Callero no baixo

Dede Lo Previte na bateria


Com:

Mario Lamberti na percussão

Gian Piero Reverberi nos teclados


Faixas:

1 - Aquile Blu

2 - Momento

3 - Otto

4 - Madre

5 - Duello



"Duello Madre" (1973)