Alguns tesouros demoram a se
revelar. As pérolas ficam escondidas sempre disponíveis para garimpo e este
reles e humilde blog está aqui para fazer esse árduo, porém prazeroso trabalho,
de descobrir as pepitas de ouro do rock n’ roll. E a Inglaterra, como um dos
gigantes produtores de rock e, mais especificamente da música pesada, traz
bandas em profusão, das mais famosas e, claro, as obscuras.
E de lá surgiu um power trio
extremamente raro e underground chamado CHARGE que gravou uma demo, com apenas,
pasmem, 99 cópias no início de 1973, porém não culminou em fama, fortuna e todo
tipo de excesso típico das estrelas de rock. O álbum foi ignorado por várias
gravadoras para quem as cópias foram enviadas. Reza a lenda que teve, não 99
cópias, mas apenas uma cópia! Isso mesmo que você, meu bom amigo leitor, leu! O
que reforça, ainda mais, o conceito de raridade desta banda e seu único rebento
sonoro.
Mas antes de entrar nos
pormenores do álbum e suas faixas, convém falar um pouco da história da banda,
que também não traz tanta informação por razões óbvias. O Charge evoluiu a
partir do “Baby Bertha, uma banda de hard rock psicodélico, formada pelos idos
de 1971 por membros de outra banda da Costa Sul chamada “Relative” que surgiu
para o mundo em 1969 fundada por Dave Ellis. Em 1972 o Baby Bertha era formado
pelo vocalista e guitarrista Dave Ellis, o guitarrista Roger “Proff” Perry, o
baixista Ian McLaughlin e o baterista Des Law.
O Relative, como um nome
inspirado em “Family” (que havia sido disfarçado de Relative no notório romance
groupie de Jenny Fabian, foi concebido quando Ellis retornou do exterior, onde
havia servido para o exército britânico, sendo membro ativo do mesmo e isso
explica e muito a sonoridade, tanto do Relative quanto do Baby Bertha e
futuramente do Charge, com faixas conceituais sobre guerras entre outros
eventos e comportamentos ligados ao belicismo. Eram tempos de guerra e de
agitação social muito grande.
A banda foi produto do “boom”
do blues rock britânico, mesclado a uma lisergia pesada e ácida, trazendo o
embrião do que viria a se convencionar de hard rock, mas também com pitadas do
também embrionário rock progressivo com suas temáticas conceituais, sobretudo.
As mudanças de formação, tanto no Relative quanto no Baby Bertha, foram
constantes tendo na figura de Ellis, a criatividade sonora dessas bandas. Isso
mudou quando chegou Ian MaLaughlin, onde os dois criaram relação pessoal e
musical muito azeitada e perdurando uma amizade até os dias de hoje.
Creio firmemente, nobres
leitores, que o Baby Bertha é o pai do Charge não apenas pelo fato de trazer
grande parte dos seus músicos, mas também pelo aspecto sonoro da coisa. As
músicas gravadas, lá no SRT Studios, sediada em Luton, para o único álbum da primeira
banda, flerta e muito com os anseios da cena blues rock da Inglaterra, tão
vívida e latente por bandas do naipe do Cream e Jimi Hendrix. Da versão dura e
pesada de “Looking for Somebody”, do Fleetwood Mac, acompanhada por uma versão
mais solar de “Blueberry Hill”, do Fats Domino, percebe-se, nas faixas
compostas por Ellis, uma orientação do Baby Bertha para o blues pesado,
corroborando a mesma condição para o Charge.
E agora o álbum! “Charge” é um
álbum de hard rock com pitadas generosas de blues rock e garage prog muito bem
executados, com reminiscências de psych rock com guitarras lisérgicas e um
tempero experimental. A banda, com seu único álbum, não se rotula e revela uma
versatilidade mostrando-se aberta às sonoridades que estavam em voga na
primeira metade dos anos 1970.
É uma sonoridade tipicamente
underground, porque não assume estereótipos, é cru, é latente, um som vivo é
singular, seja em seus feitos ou em suas deficiências de produção e tudo mais.
É um álbum artesanalmente concebido, sem arestas, é como ele é: autêntico!
O álbum é inaugurado com a
faixa “Glory Boy From Whipsnade”, abreviada, em algumas reedições não
autorizadas, que traz uma encapsulação perfeita do som da banda: um turbilhão
de hard rock com riffs pesados de guitarra, ao estilo Hendrix, com aquela
pitada generosa de blues rock ácido. Aqui é lisergia pura! Mas ainda é
perceptível algo sombrio nessa música que a torna arrastada e por vezes
introspectivas. Os solos de guitarra não ficam atrás, corroborando a psicodelia
ainda viva e latente, mesmo que tenha sido concebida em 1973.
E falando em sombrio, espere
até ouvir a próxima faixa: “To My Friends”. Um vocal grave, soturno e
melancólico introduz a faixa com certa austeridade e dramaticidade. Um
dedilhado de guitarra, que continua lisérgica, mas dá sustentação a esse tom
sombrio e ameaçador, que, por vezes, me remete a algo contemplativo. O destaque
fica também para baixo que, embora discreto, traz algo denso e a tão
perceptível atmosfera sombria, com a bateria cadenciada. Aqui a “cozinha” se
faz presente e com talento.
"Rock My Soul" começa
com um balanço, uma pegada soul graças a guitarra, mas com uma marca ao estilo
“beat”, algo dançante que gradativamente vem assumindo um tom mais pesado, com
a guitarra assumindo uma levada mais psicodélica, os riffs lisérgicos vão
ficando mais estridentes e pesados. Aqui a seção rítmica é mais pesada, o baixo
é espetacularmente galopante remetendo ao heavy metal dos anos 1980. A bateria
é pesada, marcada, intensa.
E fecha com a impressionante e
incrível “Child of Nations” que traz um vocal mais rouco, mais dramático de
Ellis, com um dedilhado ao fundo de guitarra contemplativo e que nos entrega
solos curtos e viajantes. Aqui é o rock progressivo que se mostra relevante! A
música vai ganhando, gradativamente, corpo, o vocal, antes abafado, vai
ganhando alcance, os solos de guitarra, entre a lisergia e o contemplativo,
mostra o salutar duelo entre o prog rock e o rock psicodélico. E como todo bom
prog rock tem as mudanças rítmicas e se mostra, em uma segunda etapa (a música
é fragmentada em subfaixas como: “Soldiers”, “Battles” e “Child Of Nations”)
mais pesada e experimental, lembrando, inclusive um krautrock alemão: pesado e
cheio de ruídos. Depois irrompe em um típico hard rock. Uma faixa que agrada a
todos os gostos, extremamente complexa e versátil.
As 99 cópias que foram feitas
do álbum foram distribuídas entre os familiares dos músicos da banda, amigos
próximos e as cópias que restaram foram entregues às gravadoras que,
lamentavelmente, não demonstraram interesse em distribuir e consequentemente divulgar
o som do Charge mundo afora. É o preço que se paga por fazer música arrojada e
que não se “encaixa” a nenhuma tendência de mercado.
A tentativa vã de um contrato
de gravação, segundo a banda, pode ter sido também por conta da forma breve de
seu álbum, com cerca apenas de trinta minutos de duração e também por terem
sido fabricados sem nenhuma capa externa, aquele formato extremamente artesanal
onde a banda não tinha nenhum recurso financeiro. Foi pensado, para enriquecer
o LP regravar algumas músicas do Baby Bertha, a banda que encarnou no Charge,
mas, no fim das contas, os caras não optaram por isso.
Mas apesar das dificuldades de
se conseguir um contrato com gravadoras o Charge construiu, com algum êxito,
uma boa reputação com as suas apresentações ao vivo e abocanhou uns bons fãs
com shows bombásticos na Costa Sul nos dois ou três anos em que continuaram
ativos, até serem atingidos por uma tragédia.
Em meados de 1975, o baterista
Pete Gibbons, ainda com apenas 25 anos de idade à época, sofrei um terrível
ataque fatal de asma, morrendo precocemente. Dave e Ian, seus amigos de banda,
arrasados, sequer poderiam considerar continuar a banda sem ele e, diante da
morte de Pete e da frustração de não ter conseguido um contrato de gravação
para divulgar a sua grande música, decidiram pôr fim a trajetória, também de
forma precoce, do Charge.
Apesar do álbum demo que
gravaram na juventude, lá em 1973, já estar à venda em vinil e CD, com as
reedições, os membros sobreviventes do Charge, Ian MacLaughlin e Dave Ellis,
permaneceram, pasmem, completamente alheios a tudo isso. Até que, um dia, no ano
de 2010, Ian decidiu, por impulso, visitar uma dessas feiras de discos pela
primeira vez.
E folheando distraidamente os
estandes de vinil, ele ficou surpreso ao encontrar um álbum de uma banda que
compartilhava o mesmo nome de sua antiga banda. Aquilo o deixou no mínimo
intrigado, não é para menos. Ele ficou ainda mais surpreso ao virar a capa e
descobrir, pelos títulos das músicas, que na realidade era o álbum que ele,
Dave e Pete haviam gravado lá no estúdio em Luton quase quarenta anos atrás. E
mesmo isso não se comparou à surpresa que tece quando, ao contar ao dono da
banca que era membro da banda que o gravou, descobrindo que custaria £15 para
comprar uma prensagem pirata do próprio álbum! Uma loucura!
Mas parece que tudo acontece
por um motivo, dizem que é destino, algo está escrito para acontecer, não sei
dizer sobre essas questões sobrenaturais, mas o fato é que, creio eu, que essa
história precisou ser contada ou melhor ter acontecido para que, mais de
quarenta anos depois do lançamento do álbum único do Charge, em 1973, ter sido
relançado agora de forma oficial e como bônus foi incluída as músicas que
compuseram na época do Baby Bertha. Um genuíno presente para os alucinados pela
música obscura e esquecida nos porões empoeirados do bom e famigerado rock n’
roll.
Dave e Ian seguiram suas
trajetórias na música em várias outras bandas, mas deixaram a história do
Charge por aí que, do extremo anonimato de sua curta carreira, no início dos
anos 1970, ganhou luz quando Ian descobriu que estavam comercializando seus álbuns
de forma não autorizada. Que bom que aconteceu, não importa a forma, para que
todos nós pudéssemos ter acesso a essa pérola bruta devidamente lapidada para
deleitar nossos ouvidos e corações de uma música real, criativa e atemporal. Afinal,
música tão boa realmente merece alcançar o maior número possível de pessoas.
A banda:
Dave Ellis na guitarra e vocal
Ian MacLaughin no baixo e
vocal
Pete Gibbons na bateria
Faixas:
1 - Glory Boy From Whipsnade
2 - To My Friends
3 - Rock My Soul
4 - Child of Nations
a. Soldiers
b. Battles
c. Child Of Nations


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