Kingston Upon Hull, cidade
portuária em East Riding of Yorkshire, Inglaterra, segunda metade dos anos
1960. A cena rock não era muito proeminente na região, apesar de ter revelado
alguns músicos para o mundo, tais como Mick Ronson e Robert Palmer, porém
tiveram que sair de Hull para edificar a sua carreira. Mas as bandas surgiam,
afinal os anos 1960 e 1970 foram prolíficos para o rock n’ roll em termos de
cena e surgimento de bandas, independente de termos cenários undergrounds e de
glamour, de bandas famosas.
E de Hull surgiu uma banda
chamada “The Combine”, que trazia, em sua formação o guitarrista Richard
“Richie” Foster, o baterista Ron Newlove e Dave George na guitarra rítmica.
Richie e Ron haviam emigrado de uma banda, no início dos anos 1960, chamada “The
Mariners”, que a certa altura apresentava um jovem Mick Ronson que, à época,
estava conciliando um emprego diurno com jardineiro e de, claro, guitarrista
promissor.
The Combine, apesar de gozar
de certa popularidade em sua cidade natal, por tocar um beat, que estava
em voga nos anos 1960, decidiu mudar seu direcionamento sonoro. Então, a banda
decidiu se juntar ao baixista Brian Harrison, em idos de 1968 e concretizaram
as suas mudanças, a começar pelo nome. Assim nasceria o BARE SOLE.
As mudanças sonoras seriam
evidentes e radicais, diria, saindo de um psicodélico, ao estilo beat e “flower
power” para uma pancada proto metal e hard rock sujo, direto e despretensioso,
calcado no psych e blues rock. A sonoridade, principalmente o blues rock,
estava em evidência, sendo fomentado, na Inglaterra, por bandas como Cream, Led
Zeppelin e Are You Experienced, de Jimi Hendrix, além dos pesos pesados do
proto hard como Black Sabbath e Deep Purple, que ainda flertava com o
psicodélico em seus primórdios.
Apesar da mudança radical e
ousada, que requer certa coragem, o Bare Sole teve um apoio substancial de um
empresário local, que injetou dinheiro aos jovens e promissores músicos,
dando-lhes tudo que eles precisavam, inclusive um fluxo constante de shows,
fazendo-os participar de shows e atrações com nomes de peso, como The Move,
Status Quo, Family e Small Faces que, à época, trazia Rod Stewart em seu
line-up.
Locais como “The Bridlington Spa” e o “Skyline Ballroom” mostraram e provaram ser uma plataforma valiosa para mostrar as grandes e famosas bandas visitantes o que Hull poderia oferecer, apesar de a cena rock no local não ser tão grande e conhecia.
A confiança entre o Bare Sole e seu novo empresário crescia depois de vários retornos das bandas famosas à Hull e o tempo de estúdio acabou sendo arranjado nos estúdios Fairview. Tudo caminhava muito bem para o Bare Sole: mudaram seu direcionamento sonoro que, apesar de não ser unânime no mercado fonográfico, em virtude do auge da psicodelia e do embrionário rock progressivo que tomava de assalto a Inglaterra, tinha o financiamento de carreira e uma gestão eficiente e já tinha a estrutura de estúdio para finalmente gravar seu novo trabalho.
O empresário até descolou um
compositor jamaicano, de nome Ira George Green, que tinha talentos de
composição para ajudar a banda nesta etapa que, acabou por compor uma faixa, a
“Woman a Come”. E até conseguiram popularidade com a música, tanto que rendeu
uma segunda versão, com Keith Herd, que aplicou um apoio de órgão dominante,
como faria também com outra faixa, a “Is Not Nobory Here”. Mas logo, meus
estimados leitores, falarei, com requintes de detalhes de cada faixa que o Bare
Sole produziria.
As seções, que aconteceram nos
estúdios Fairview, trairiam, o que seria, o primeiro álbum do Bare Sole, gravado
em 1969, mas, lamentavelmente, este não seria oficialmente lançado, o que
também, muito em breve contarei por aqui, caro leitor. Mas essa história, ainda
assim, registrada da banda, seria marcada por um desprezo indulgente desses
jovens músicos por qualquer coisa relacionado ao rock psicodélico e o rock
progressivo. Para muitos tais impulsos poderia ser perdoado por entusiasmo
juvenil, mas não era somente por isso, mas por conta de uma cena mais pesada
que também florescia na Inglaterra.
Esse trabalho foi calcado no
peso, que era diluído no psych, no blues. Uma sonoridade pouco sofisticada, sem
experimentalismos, com uma sujeira garageira, um tempero underground. O hard
rock ditou os caminhos sonoros desse álbum que não foi lançado na época em que
fora concebido, como tantos outros obscuros e vilipendiados pelos fãs e mercado
fonográfico.
O álbum, que não possuía um
nome, quando foi gravado, lá pelo ano de 1969, começa com a faixa “Flash” que
começa com um peso lisérgico e ácido de guitarra, riffs de guitarra bem sujos e
despretensiosos, com uma bateria pesada, um baixo pulsante mostrando uma seção
rítmica agressiva e sem sofisticação, o que traz o “charme” a este álbum. Mas
logo vem o solo de guitarra que mantém a sua chama pesada e repleta de lisergia
e psicodelia, mas com o “tempero” hard.
Segue com “Woman a Come” que, logo no início, traz uma peculiaridade, com uma voz, bem discreta, ao fundo, anunciando a faixa, como se fora um “take”, mostrando o caráter “artesanal” da produção deste álbum! Mais um “charme”! Começa animada, dançante. As origens do beat estão na introdução da música. Baixo cheio de groove, bateria marcada. Uma faixa solar! Mas o peso vem chegando, vagaroso, com solos de guitarra na lisergia, na pegada psych.
O blues chega com a faixa
“Soul Blues”. O nome denuncia a sua veia blues rock com pegada mais hard, mas
também traz nuances das raízes do velho e bom blues. A guitarra dedilhada
esconde das pretensões do guitarrista a lisergia, mostrando a sua
versatilidade, apesar do som primitivo e sujo que permeia no álbum. O solo de
guitarra é de tirar o fôlego e que fecha maravilhosamente a música.
“Let’s Communicate”, feita
apenas em um “take”, conforme informado na gravação, chega pesada e ameaçadora.
Riffs sujos, grudentos e pesados de guitarra mete, agressivamente, o pé na
porta e vem, como uma força da natureza, impiedosa, varrendo tudo o que vê pela
frente. Os gritos do vocalista dão o tempero ao hard psych que se apresenta na
faixa. Solos de guitarra corroboram o peso e faz com que o ouvinte que,
minimamente se deixa levar pela emoção que a música pode proporcionar, bata
cabeça compulsoriamente. Espetacular!
“Jungle Beat”, foi concebida no take 2, e começa com um baixo galopante e pulsante, fazendo jus ao nome da música, mas não se engane, prezado leitor, de que o beat reina absoluta na faixa. O hard rock, mesclado ao psych também tem seu protagonismo, por intermédio de seus instrumentais tocados de forma sublime e suja. Solos de bateria te faz dançar e, sem firulas, traz uma pitada um tanto quanto tribal.
“Woman a Come”, em sua versão dois, não traz muitas modificações sonoras em relação a primeira versão, a não ser com uns toques de teclados.
O empresário do Bare Sole se
esforçou e muito para catapultar a banda para o sucesso, para garantir um
contrato de gravação e consequentemente sair em turnê para divulgar seu
primeiro trabalho, enviando a fita demo para a Decca Records, em Londres. Mas a
banda teve negada uma audição, em 1970, e o motivo, tosco, diga-se de passagem,
é que não estava disposta a investir em uma banda que claramente não tinha
intenções de acompanhar as mudanças na moda musical da Londres progressiva.
Bare Sole apresentava um som
cru e primitivo demais para os estúdios chiques da Decca, em West Hampstead ou
de De Lane Lea. Imediatamente antes de sua fita demo ser devolvida, a banda
estava fazendo as malas para uma turnê pelas bases aéreas americanas na
Alemanha Ocidental.
Mas o problema não viria
apenas com uma fita demo rejeitada pela Decca Records. O baterista Ron Newlove
estava prestes a se casar com sua namorada de longa data, o que acabou levando
à sua decisão de deixar o Bare Sole durante a turnê. Newlove e a banda voltaram
consternados, frustrados, após uma breve e infrutífera existência do Bare Sole,
com um baterista recém recrutado. Inevitavelmente a banda se separaria, dando
fim, precoce, às suas atividades, voltando, os seus integrantes, aos seus
empregos diários, em meados dos anos 1970.
Embora o Bare Sole tenha
durado pouco mais de um ano, com esta formação e concepção sonora, ouso dizer,
por mais que não tenha lançado, de forma oficial, seu álbum e ter caído nas
sombras da obscuridade, que deixou uma marca importante na história da música
pesada na Inglaterra, mostrando, apesar de seu álbum sujo e despretensioso, uma
versatilidade sonora arrojada, aliando o peso ao beat e ao psych, que estava em
voga na sua época.
Mas nem tudo estava perdido e
mesmo que o tempo pudesse ser implacável, 43 anos depois da gravação dos
estúdios Fairview, em 2012, o ex-baterista do Bare Sole, Ron Newlove, juntamente
com Keith Herd, que tocou teclados em uma das faixas do álbum, recuperaram as
fitas originais e conseguiram salvar a maioria delas de uma deterioração de pouco
mais de quatro décadas!
Em 2015 a valorosa gravadora Guerssen Records, juntamente com o selo Sommor, na Espanha, lançariam, finalmente, de forma oficial, nos formatos LP e CD, o álbum dando-lhe o nome de “Flash”. Além desse lançamento oficial, depois de 46 anos, o Bare Sole teria sua história e serviço sacramentados no site “British Music Archive” conforme pode ser acessado aqui.
Além desse holofote importante
para o lançamento oficial do único álbum do Bare Sole, também apareceu em
“Front Room Masters”, um conjunto de arquivos de CD duplo, com um total de 42
faixas gravadas nos estúdios Fairview, de 1966 a 1973. Sua representatividade e
importância musical para o rock inglês na transição das décadas de 1960 e 1970,
foi finalmente eternizada, após quase cinquenta anos, provando que, por mais
que o tempo possa ser implacável, a música continua inoxidável, influente e
relevante para gerações que surgiram e que certamente surgirão perpetuando o
rock n’ roll. Se você quiser fazer o download do álbum clique aqui.
A banda:
Richard, “Richie”, Foster no
vocal e guitarra rítmica
Dave George na guitarra
Brian Harrison no baixo
Ron Newlove na bateria
Com:
Keith Herd nos teclados
Faixas:
1 - Flash
2 - Woman a Come
3 - Soul Blues
4 - Let’s Communicate
5 - Jungle Beat
6 - Woman A Come (Version Two)
7 - Ain’t Nobody Here
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