A segunda metade dos anos 1970
a música instrumental estava passando por uma série de mudanças mercadológicas
e estéticas, principalmente diante de um cenário em que o punk, a música
“disco” e a new wave começava a ganhar tendência entre os jovens e que logo se
revelaria em uma onda modista que ganharia o cerne das atenções.
Mas no Brasil estava começando
uma abertura por intermédio de lançamentos independentes. Na Europa existia um
movimento em torno da gravadora ECM Records, que lançava álbuns de jazz com uma
estética própria. Nos Estados Unidos existiam várias tendências, desde o
radicalismo tradicionalista até o experimentalismo eletrônico que se desdobrava
em vários novos “formatos” sonoros. E nesse contexto que, apesar do sucesso
comercial do punk, da “disco” e da “new wave”, que a música instrumental estava
ganhando novas roupagens.
E a banda brasileira chamada
GRUPO UM surgiria exatamente nessa efervescência. A banda nasceria,
embrionariamente, em 1976, período em que Zé Eduardo Nazário, bateria e
percussão, Lelo Nazário, pianos e teclados e Zeca Assumpção formava a banda
“Cozinha Paulista”, de Hermeto Pascoal. Durante os períodos em que Hermeto se
ausentava para algum trabalho fora do Brasil ou quando não tinha shows
agendados, o trio se reunia na casa de Zé Nazário, na Rua Teodoro Sampaio, no
bairro de Pinheiros, em São Paulo, para ensaiar, para tocar.
Em julho de 1976, ao lado de
Luiz Roberto Oliveira, dos irmãos Nazário (Zé e Lelo), o Grupo Um realizou o
seu primeiro show e com um sintetizador eletrônico, um ARP 2600), um dos
primeiros que se tinha notícia no Brasil à época. A instrumentação contava com
piano acústico e elétrico, fita pré-gravada (lançada a partir de um gravador),
bateria e percussão, o que incluía, entre outras coisas, objetos diversos que
eram quebrados dentro de uma enorme bacia, constatando uma incrível capacidade
de improvisação, experimentalismo e minimalismo musical. No show teve até a
pausa para o café!
Nesse período o grupo Um
gravou trilhas sonoras para filmes (longas-metragens e científicos) e até mesmo
música para balé, como o “Transformations”, do coreógrafo japonês Takao Kusuno.
Em 1977, quando a banda deixou efetivamente de seguir com os shows com Hermeto
Pascoal, o Grupo Um fez a sua primeira sessão de estúdio, no “Vice-Versa B”,
que pertencia ao maestro Rogério Duprat, já contando com a participação de
Roberto Sion, no sax soprano e Carlinhos Gonçalves, na percussão.
A gravação era feita em poucas
tomadas, com todos tocando juntos e em um espaço bastante limitado,
simultaneamente, sem “play back”, como manda a tradição. A banda gostou muito
do resultado e o próximo passo era levar o material gravado para às gravadoras.
Os músicos perderam meses, recebendo sempre respostas negativas. Mas seguiram
com seus ensaios e realizando algumas apresentações.
O trabalho com Egberto
Gismonti, que se iniciou em 1977, obrigou o Zé Eduardo Nazário a abandonar o
projeto do Grupo Um por algum tempo, muito em função das viagens, ensaios e
gravações. Ao retornar da turnê “Tropical Jazz Rock”, em maio de 1979, se
desligou finalmente do “Academia de Danças” e voltou a trabalhar com Lelo e
Zeca no Grupo Um, organizando nova sessão de gravação no mesmo estúdio
“Vice-Versa B”, pequeno e sem a estrutura adequada, afinal era tudo que o
dinheiro dos músicos podia pagar.
Mauro Senise, saxofonista, foi
convidado, Carlinhos Gonçalves, percussionista, foi mantido e dessa sessão,
entre 26 e 27 de setembro de 1979, registrada quase que efetivamente “ao vivo”.
Assim surgia o primeiro álbum, lançado oficialmente, naquele mesmo ano “Marcha
Sobre a Cidade”, conhecido como o primeiro trabalho de música instrumental
independente no Brasil que se tenha notícia, em uma tiragem de 1.000 cópias.
Vale como registro histórico que o lado “A” inteiro foi gravado em uma única
tomada, afinal, não tinha estrutura e dinheiro para longas e longas sessões.
A estreia do novo trabalho foi no Teatro Lira Paulistana, a “meca” das bandas independentes, fazendo história no Brasil durante os anos 1980. “Marcha Sobre a Cidade” recebeu ótimas críticas, vide os recortes de jornais e revistas que foram publicadas à época e foi apresentado ao público em várias regiões brasileiras, nas suas principais capitais.
O reconhecimento foi
considerável a ponto de ganhar terras europeias e em 1983 o álbum foi lançado
na França, pelo selo Syracuse, com uma capa bem diferente do original. O Grupo
Um realizou uma turnê naquele país e visitando também a Suíça, tendo participado
do Festival de Jazz de Grenoble e nas cidades de Toulose, Montpellier e Pari,
onde gravou um show no “Studio 106”, da Raio France e se apresentou na
conhecida casa de jazz “New Morning”, além de ter gravado com o cantor e
compositor francês Frederic Pagés o álbum “Chansons Mètisses”, finalizando a
turnê em Genebra. A banda estava no seu auge!
“Marcha Sobre a Cidade” é
calcado primordialmente no jazz, no jazz fusion, com experimentações e
improvisações rítmicas e melódicas incríveis, estimulantes e até mesmo
intrigantes, com construções que trazem referências do rock n’ roll, a música
brasileira e música africana, graças ao seu trabalho ousado na percussão. O
debut do Grupo Um definitivamente é para quem aprecia um som ousado e pouco
usual, que entrega um minimalismo ao extremo, que lembra o krautrock germânico,
com texturas experimentais e variações e desafios sonoros.
O primeiro álbum do Grupo Um
estava longe de ser maçante, por conta das inúmeras improvisações e
experimentalismos. Ele dispunha de uma estimulante pulsação, porque trazia o
conceito regional muito acentuado, texturas tipicamente brasileiras e
africanas, um genuíno “beat” brasileiro, um legítimo e solar free jazz
brasileiro.
O álbum é inaugurado com a
faixa “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]” que já começa com o excelente
trabalho de percussão ao estilo música brasileira, a brasilidade mesclada a
jazz rock, com um trabalho, igualmente excelente, do sax, melódico e dançante.
Assim é a faixa: dançante, cheia de energia, animada. Entre solos rápidos de
bateria e de sax, a música vai ficando mais encorpada, um jazz fusion com a
cara do Brasil, o balanço do baixo, o frenesi dos teclados. Uma música
incendiária para abrir o álbum.
Segue com “Sangue De Negro”
que traz um caráter, uma textura mais experimental, com solos de bateria,
trazendo um jazz mais “root”, mas por outro lado percebe-se algo mais
minimalista, que me remete a um krautrock, com pitadas psicodélicas. Porém, ao
longo da música, vai ganhando mais corpo com a bateria mais pesada, um fusion
novamente, mas logo retoma o experimentalismo kraut.
A faixa título, “Marcha Sobre
A Cidade”, se revela mais a cara do álbum, um jazz contemporâneo, com a pegada
fusion, a pitada mais pesada. Por vezes contemplativa e viajante, graças a
linda execução do sax. É progressiva, cheia de viradas rítmicas, é psicodélica,
é lisérgica, é experimental, é viva, é latente. Se mostra complexa, versátil.
Aqui a banda está em nível criativo e de improvisação únicos. Sem dúvida uma
das melhores faixas do álbum.
“A Porta do ”Sem Nexo” mescla
o free jazz, com a sonoridade experimental bem evidente, trazendo uma versão
mais kraut, experimental, com ruídos, sons mais introspectivos, diria algo
soturno, sombrio. Flautas, percussão, teclados, tudo trazendo texturas
minimalistas e ousadas para a sua época. Definitivamente “Marcha Sobre a
Cidade” é um álbum à frente do seu tempo.
“54754-P(4)-D(3)-0” segue com
um jazz fusion mais puro e genuíno. Aqui é a música mais nervosa, um sax mais
frenético e cheio de energia e até mesmo desconcertante, poderoso. A bateria
segue batendo forte também, em um “duelo” mais do salutar com o sax. As teclas
não ficam atrás, cheio de energia!
E fecha com “Dala” que linda,
viajante e contemplativa, segue, reinando absoluta durante toda a música, com
um piano ao fundo que, em uma textura acústica, estica o tapete vermelho para o
protagonismo do sax.
“Marcha Sobre a Cidade”, mesmo
sendo um dos primeiros ou o primeiro álbum de música instrumental concebido de
forma independente no Brasil, atingiu, de forma inacreditável, um sucesso que
parecia, diante desse cenário, inimaginável. Era como se tivesse passado pelo
buraco de uma agulha, trazia luz a um caminho escuro e completamente tortuoso
que era do jazz fusion, da música experimental e instrumental em um país, em um
mundo onde reinava o punk, a “disco music” e a new wave.
Era a possibilidade de abrir
um caminho, com a sua luz, sendo um farol para tantas outras bandas que
quisessem seguir a trilha, uma nova estrada para lograr um objetivo maior. Este
lugar, ainda não explorado, situava-se além da fronteira do permitido, que era
fortemente guardada pelos “baluartes” e “arautos” do colonialismo provinciano,
que só abriam as portas para os que chegassem do exterior, mesmo que tivessem
saído daqui, voltando depois com o selo de “importado”, para que pudessem ser
“legalizados” e aceitos no meio artístico e no show business, principalmente em
se tratando de música instrumental.
Os anos 1980 entraram e foram
frutíferos para o Grupo Um. Foram gratificantes porque os músicos mostraram
suas caras com seus próprios nomes, sem a tutela de quem quer que fosse, sendo
músico, empresário ou produtor. Eles estavam conseguindo mostrar a sua música
“louca” para o máximo de pessoas possível, mesmo que trafegando na zona underground.
Estavam ganhando visibilidade, tanto que Carlinhos Gonçalves recebeu um convite
para tocar na Austrália, sendo sucesso por muitos anos. Zeca Assumpção optou
por mudar-se para o rio de Janeiro, em vistas das boas propostas de trabalho
que surgiram. Em seu lugar ficou seu melhor aluno, que acompanhava de perto as
apresentações do Grupo Um, esse era Rodolfo Stroeter que permaneceu na banda
até a sua dissolução, em 1984.
Outro que se juntaria ao Grupo
Um era Felix Wagner, nascido na Alemanha e vivendo, desde adolescente no
Brasil. Paralelamente ele integrou com Lelo e Rodolfo o “Symmetric Ensemble”,
uma banda composta por dois pianos e um baixo!
Em 1981 o Symmetric Ensemble
faria uma turnê importante para a Europa cabendo a Zé Eduardo Nazário continuar
com o Grupo Um. Além de Mauro Senise, participaram o pianista Nelson Ayres e os
baixistas Evaldo Guedes em algumas oportunidades e Paulinho Soveral em outras,
mantendo a banda em atividade, fazendo alguns shows.
Quando o resto da banda
retornou dessa viagem à Europa, decidiram se reunir para iniciar o trabalho do
segundo álbum, com novas composições que que Lelo vinha desenvolvendo. Assim
nasceria para o mundo “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, lançado em 1981, nos
estúdios JV, dos músicos Vicente Sálvia e Edgard Gianullo, em São Paulo, que
tinha um bom equipamento e contava com um excelente técnico, Sérgio Kenji Okuda
(Shao-Lin), jovem, mas com bastante experiência e atento às nossas necessidades
para colher o melhor resultado possível. O álbum foi considerado pela revista
Manchete um dos dez melhores de 1981, além de conquistar elogios em resenhas
dos mais conceituados críticos de música da época, colocando a produção
independente no mais destacado patamar até então atingido por qualquer músico
ou banda instrumental no Brasil.
Em 1982 iniciaria a fase mais
“colorida” do trabalho da banda, a começar pela capa do terceiro álbum do Grupo
Um, “A Flor de Plástico Incinerada”. Esse LP foi gravado em outubro, época que
marcou o início de uma transição nas carreiras dos jovens e talentosos músicos,
sendo a eles oferecido o custeio da gravação e da produção gráfica do novo
disco pelo selo “Lira Instrumental”, criado por um acordo entre o Teatro Lira
Paulistana em parceria com a gravadora Continental e artistas que vinham
apresentando trabalhos com regularidade na programação do teatro localizado à
Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo.
Isso se devia ao notável
crescimento das bandas de música instrumental, que passaram a ser vistos como
um “filão” comercialmente explorável. Nesse mesmo pacote foi oferecido a zé
Eduardo Nazário também o custeio da gravação e produção gráfica de seu primeiro
álbum solo, “Poema da Gota Serena”, que foi realizada no mesmo estúdio (J.V.) e
no mesmo período em que foram feitas as gravações de “A Flor de Plástico
Incinerada”. Além disso, foram oferecidas também as passagens para a turnê
europeia do Grupo Um, onde seria lançada a versão francesa do LP “Marcha sobre
a Cidade” pela gravadora parisiense “Syracuse”.
A banda faria uma pausa em
1984 e que se tornaria um hiato por mais de trinta anos quando decidem retornar
em 2015, gravando um registro ao vivo chamado “Uma Lenda ao Vivo”, em 2016. O
show, gravado no dia 20 de agosto de 2015, no Teatro Sec Pompeia, foi diante de
uma plateia atenta e afetuosa e é um registro da noite memorável que marcou a
volta do Grupo Um aos palcos e que assinalaria outro fato marcante: os 40 anos
da fundação da banda.
As incursões pelo free jazz;
pelo primitivismo étnico; pelo abstracionismo da música impressionista; pela
fragmentação da música minimalista; pelos ruídos pelas células harmônicas e
melódicas da música contemporânea; bem como pelas harmonias complexas da música
brasileira; além das inúmeras experiências atonais do jazz contemporâneo,
projetam o Grupo Um para além do música plástica e careta e muito próximo do
experimentalismo e das improvisações livres de qualquer coisa modista e sempre
“escravo” da criatividade sem arestas. “Marcha Sobre a Cidade” lançado de forma
independente em 1979, com segunda edição pelo selo Lira Paulistana. Lançado na
França pelo selo Syracuse em 1983. Reeditado em CD pela Editio Princeps em
2002.
A banda:
Zé Eduardo Nazario na bateria
e percussão
Zeca Assumpção no baixo (Piano
na Faixa 6)
Lelo Nazário no piano
Carlinhos Gonçalves na
percussão
Com:
Roberto Sion no sax soprano
(Faixa 8 – Bônus track)
Mauro Senise na flauta, sax
alto e soprano (Faixas de 1 a 7, esta última Bônus Track)
Faixas:
1 - [B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]
2 - Sangue De Negro
3 - Marcha Sobre A Cidade
4 - A Porta Do ''Sem Nexo''
5 - 54754-P(4)-D(3)-0
6 – Dala
Bônus Tracks:
7 - N'daê
8.1 - Festa Dos Pássaros
8.2 - C(2)/9-0.74-K.76
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