domingo, 9 de janeiro de 2022

Electric Sandwich - Electric Sandwich (1972)

 


Eu confesso que não sei dizer como e por quais caminhos a gente garimpa algumas bandas. Não tenho também um método. Sigo a pesquisar pela grande rede alguma banda que me excite no aspecto primordial da imagem. Uma capa interessante, chamativa, apelativa, tenebrosa (gosto disso), um nome instigante, um país, um subgênero em especial etc. 

Enfim não há um padrão, uma metodologia de pesquisa de bandas e, convenhamos, o material é infindável de bandas velhas novas para o grande público, sobretudo, claro, as obscuras, as undergrounds.

Quando estava em minha “caça” por algo que me cativasse, que me chamasse a atenção parei em uma com um nome no mínimo inusitado. Achei que fosse alguma sátira, paródia, algo pastelão, sem muita credibilidade, por um instante decidi sequer acessar o link que te encaminhava à audição do álbum, mas que se dane, estava em um tédio tremendo no dia que qualquer bobagem seria o evento do ano. Acessei o link e comecei a ouvir o álbum! Uau! Mas era simplesmente arrebatador! Uma loucura sonora! Aquilo me cativara desde os primeiros segundos, os primeiros acordes!

Eu estava totalmente envolvido naquele som! Embora não fosse algo revolucionário, era envolvente, lisérgico, tenso, pesado, contemplativo, ao mesmo tempo. Coisas que só a Alemanha nos tempos do velho Krautrock poderia proporcionar.

Como eu poderia esperar algo de bom em uma banda chamada ELECTRIC SANDWICH? Ah meus bons amigos leitores e amantes do velho rock n’ roll, não se enganem com nomes imponentes e capas bonitinhas, não julguem o livro pela capa e pelo nome. Essa banda senhores é avassaladora e deixa a sua mente louca e revirada!

A julgar pela capa! Mas o que significa isso? Seria literal esse nome? Pelo que pude entender, captar é um sanduíche eletrificado, mas será que é isso mesmo a mensagem a ser transmitida? É como fica o seu cérebro quando ouve essa germânica banda: com ele revirado, agitado, desorientado! É o que a banda procurou transmitir em seu único álbum lançado em 1972, homônimo.

Mas antes de disseca-lo, vamos aos primórdios do Electric Sandwich. A banda foi formada em 1969 na cidade de Bonn, por quatro estudantes dessa cidade, jovens e que aspiravam ganhar o mundo com a sua música. Todos já gozavam de alguma experiência tocando em outras bandas locais pouquíssimos conhecidas. 

O baixista Klaus Lormann tocava com "Chaotic Trust”, o guitarrista Jorg Ohlert tocava no "Slaves of Fire"; o baterista Wolf Fabian, o fundador da banda, estava em turnê com uma banda chamada "Muli and the Misfits", e o vocalista Jochen "Archie" Carthaus cantou com os "Flashbacks".

Electric Sandwich

A cena Krautrock, a base do rock alemão estava apenas iniciando os seus passos no final da década de 1960, mas quando surgiu o famoso selo alternativo Brain em 1971, uma subsidiária da Metronome, algumas incertezas que permeavam as vidas das bandas, no que tange ao seu futuro, poderia ter uma norte, uma sequência. A Brain tinha como objetivo promover, patrocinar as bandas novas e vanguardistas que estavam surgindo naquela época e o Electric Sandwich estava no caminho dos executivos da Brain.

E foi o gerente de produto da Brain, Gunther Korber, que descobriu o Electric Sandwich em um festival de talentos de âmbito nacional organizado pela revista alemã e guia de TV "Hor Zu", que aconteceu em Niedersachsenhalle, em Hannover. Mas a banda não conseguiu chegar às finais do concurso e mesmo sem ter ensaiado eles encararam o festival, convencendo os organizadores e abocanhou o segundo lugar.

Naquela mesma noite, Ohlert, Fabian, Lormann e Carthaus assinaram um contrato com o Brain para uma sessão de gravação experimental. E foi com essa proposta que esses quatro jovens se reuniram: deixar de tocar covers e fazer algo próprio, deles e coisas arrojadas: tocar despretensiosamente, se deixar levar pela música, sem padrões ou estereótipos.

O pessoal da Brain e Metronome estava tão excitados com o som do Electric Sandwich que em 1972 a banda finalmente assinou contrato com Rudolf Slezak Musikverlag, de Hamburgo (que detinha os direitos das músicas de Jane e Epitaph, por exemplo), seguindo para o Dieter Dirks-Studio em Stommeln para gravar seu primeiro álbum com sete faixas.

Faixas essas compostas pelo mais puro heavy rock, hard rock e psicodélico e prog rock com pitadas generosas de jazz rock e blues rock. Percebeu a miscelânea sonora e o motivo pelo qual eu disse que esse álbum é arrebatador?

O álbum é inaugurado com a faixa “China” com aquele solo meio psych, meio pesicodélico sessentista com uma batida discreta e obscura, algo meio introspectivo e arrastado e explode com riffs de guitarra o estilo hardão setentista e órgão barulhento e, ao longo do tempo vai ficando mais visceral, intenso e no fundo vêm as congas, com em uma viagem latina, entrelaçado com uma guitarra dissonante e perigosamente pesada. Um primor!

“Devil's Dream” me parece algo mais “comportadinho”, convencional, mas o que se destaca é o vocal, imperioso, com uma atmosfera densa e ameaçadora, sendo muito bem executado. Mas aí vem o saxofone, que torna tudo mais dançante e lisérgico, traz um pouco da loucura sonora dos primórdios do krautrock e fecha com uma levada meio bluesy.

"Devil's Dream" live

Segue com “Nervous Creek” que tem uma história por trás e fala de um rio que deságua no mar, trata da vida de um simples morador da cidade. Esse era um canal de comunicação que os caras da banda tinham com o seu público, o viés intelectual para atrair aquele público que minimamente entende inglês, compreenda a mensagem. Ela traz um riff bem dançante, bem motown, mas desbanca em um peso visceral de hard rock com alguma velocidade que faria qualquer banda de heavy metal dos anos oitenta pirar! Vocal gritado, alto, todos os ingredientes de um proto metal e vai alternando com a calmaria de um dedilhar de guitarra e assim a música segue o seu curso.

 "Nervous Creek"

“It's No Use to Run” tem uma vibe meio commercial, algo sessentista, das bandas britânicas, com um riff simples dando a camada principal, entrando uma gaita para corroborar a influência. 

“I Want You” começa ao estilo baladinha com um riff meloso, delicado até, um vocal sussurrado, fechado, mas logo vai ganhando corpo com instrumentos de sopro ganhando protagonismo e logo vai ficando alto e mais alto e logo se constrói um som mais pesado e depois volta a balada e assim permanece até o seu final. Excelente!

Em “Archie's Blues” o som que impera o blues rock! O vocal assume um tom dramático, gritado, o alcance vai à estratosfera, o blues se mescla ao lisérgico do krautrock e se torna experimental e único. Não há a sofisticação, mas o arrojo de algo diferente e atípico. Excepcional!

“Material Darkness” a pegada kraut paira com o saxofone e a viagem psicodélica e progressiva dá o tom, o vocal contemplativo ganha espaço, um som mais complexo e sofisticado se revela nessa belíssima faixa, que conta ainda com algumas “pitadas” de jazz rock.

E para fechar com chave de ouro temos a “On My Mind” que assume um caráter “arroz de festa”, um som mais solar mais ainda calcada no psicodelismo dos anos sessenta, aspirando a algo mais voltado para o hard rock.

Após o lançamento do “Electric Sandwich” a banda saiu em turnê pela Alemanha. Apresentou-se em programas de rádio, gravou apresentações para programas de televisão, enfim estavam trabalhando, dentro do possível, a divulgação do seu novo trabalho e ganhando alguma experiência ao vivo. Ralf Kroczek, organista e líder do coro da faculdade de música de Colônia, entrou na banda e abriu shows do Uriah Heep, inclusive. Seria o ápice?

No final de 1973 começou a trabalhar em seu álbum seguinte, mas disputas internas impediram que o segundo álbum fosse concluído. Jorg Ohlert queria que a banda se tornasse mais voltada para o jazz e Wolf Fabian queria algo mais focado na bateria e o seu desejo de terminar seus vários cursos voltados para a música motivou o precoce fim da banda.

Atualmente o baterista Wolf Fabian dirige uma empresa e um estúdio de gravação em Bonn e trabalha como professor. Jochen Carthaus tem uma fazenda na Eiffel onde cria cavalos. O baixista Klaus Lormann é um oficial do governo em Colônia, o guitarrista Jorg Ohlert é um consultor sênior que mora perto do Lago de Constança e o organista Ralf Kroczek ainda trabalha como professor de música. Mas para a nossa alegria a banda retornou aos palcos e canta e encanta a novas gerações com a sua música forte e atemporal.


A banda:

Jörg Ohlert naa guitarra, orgão e teclados

Klaus Lormann no baixo

Jochen Carthaus no saxophone e harmônica

Wolf Fabian na bateria


Faixas:

1 - China

2 - Devil's Dream

3 - Nervous Creek

4 - It's No Use to Run

5 - I Want You 

6 - Archie's Blues

7 - Material Darkness

8 - On My Mind




 








 


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Spettri - Spettri (1972/2011)

 


O rock progressivo italiano é singular. Embora essa afirmação seja óbvia para muitos, ela se faz presente e renova a cada dia quando se descobre bandas obscuras daquele país. Bandas antigas que ganham a luz do dia graças a velocidade das informações protagonizadas pelas redes sociais e a internet que encurta o caminho entre o ouvinte, ávido por explorar novas possibilidades sonoras, e algumas abnegadas gravadoras que redescobrem algumas bandas e promovem o renascimento de suas sonoridades sempre ricas e com peculiaridades avassaladoras, transgressoras e repleto de vanguardismo.

E o pilar do vanguardismo transgressor das bandas obscuras está no teor dos temas que abordam. Temas estes que pouco palatáveis para a sociedade conservadora, para o status quo. As mazelas humanas são expostas, as feridas precisam continuar abertas, mostrando as entranhas de uma sociedade, cuja gênese guarda o que há de mais violento e odioso personificado nos seus instintos mais primitivos.

As bandas obscuras são obscuras porque são marginais, não venderam seus princípios, não corromperam sua arte que, por mais marginal que seja, culmina com a identidade de muitos ouvintes que tem no seu DNA a inquietude da sua indignação com o mundo que vivemos. A obscuridade progressiva italiana traz uma homérica riqueza qualitativa e quantitativa e mostra o quão ainda é inexplorado.

E não podemos deixar de falar da história do SPETTRI. Apesar de ser uma banda pouco conhecida da Itália progressiva, o Spettri sintetiza com veemência a história do rock progressivo desde o início dos tempos, porém com pontos incomuns em sua sonoridade que faz com que seja diferente, maravilhosamente diferente.

A banda foi formada na cidade de Florença no longínquo ano de 1964, pelos irmãos Ugo e Raffaele Ponticiello, vocal e guitarra, respectivamente, Stefano Melani nos teclados e hammond, Giorgio Di Ruvo na bateria e o outro mais jovem do clã dos Ponticiello, Vincenzo, no baixo.


Era praticamente um trabalho em família. A banda, quando fora formada, em meados da década de 1960 praticava o beat, muito comum naquela época na Itália, baseada na música psicodélica norte americana e britânica, mas com um viés pop, comercial e acessível e lançou alguns EP´s e, a título de curiosidade, passou pelo Spettri o baterista Mauro Sarti que, em 1968, sairia dando lugar a Di Ruvo. Sarti tocaria em outra obscura banda chamada Campo di Marte.

Outra mudança fora no baixo, onde Guiseppe Nenci ficou em curto período de tempo, dando lugar ao irmão mais novo de Ugo e Raffaele, Vincenzo, isso em 1971. As muitas mudanças na sua formação foi a tônica da banda, bem como na sua sonoridade também.

No início da década de 1970 a banda sai do beat e direciona o seu som para uma proposta mais pesada, com uma atmosfera densa lembrando Black Sabbath, com um destaque para os riffs poderosos de guitarra e hammond da pesada remetendo a bandas como Deep Purple e Uriah Heep.

É nesse período que a banda muito produz, tendo material suficiente para gravar um álbum. Em 1972 a banda produz o seu álbum, o “Spettri”, porém, como em muitos casos em que as bandas como uma sonoridade pouco ortodoxa ou ainda sem nenhum patrocínio, esse trabalho não foi lançado oficialmente naquele ano, tendo a luz, saindo da poeira do baú do esquecimento do rock apenas em 2011 graças ao abnegado trabalho do selo Black Widow Records.


O álbum traz o peso e a agressividade primitiva e toscamente mal produzido que traz todo o charme da banda. Neste álbum torna-se perceptível aos ouvidos influências experimentais de bandas como King Crimson e Collosseum, dando-lhe um caráter mais progressivo.

O álbum, conceitual, fala da busca de um homem pelo auto entendimento por intermédio de introspecções metafísicas e também fala sobre o egoísmo e a hipocrisia da sociedade e a destruição existencial da humanidade e a faixa inaugural, “Introduzione”, revela isso, com a fala deste homem.

Na sequência vem a faixa “Prima Parte: Stare Solo” o rock explode com riffs poderosos e hammonds em profusão, uma verdadeira paulada hard prog.

"Prima Parte: Stare Solo" - Live in Firenze (2013)

“Seconda Parte: Medium” arromba a porta com um senhor hard rock com passagens rítmicas de tirar o fôlego, mostrando as raízes do hard prog na Itália. 

“Terza Parte: Essere” começa atipicamente lenta, com dedilhados em violão, introspectiva, trazendo referências de um longínquo King Crimson psicodélico, mas é por pouco tempo, pois a música vai ganhando corpo, com riffs esmagadores e hammond frenético, a música ganha peso, com destaque para o vocal, tenso e altivo.

O álbum fecha com “Quarta Parte: Incubo”, segue o peso com a cozinha poderosa, com linhas de hammond excelentes e passagens entre o peso e calmarias que se conectam perfeitamente a atmosfera deste clássico álbum esquecido.

O Spettri fez grandes shows com bandas influentes do estilo até se desfazer em 1975 que, segundo seus integrantes o motivo fora a indiferença pública em relação a sua proposta sonora. Um álbum cru, tosco, marginal, poderoso, avassalador, transgressor, um diamante bruto que foi lapidado nos dias atuais.


A banda:

Ugo Ponticiello no vocal

Raffaele Ponticiello na guitarra acústica e elétrica

Stefano Melani no Hammond L100

Vincenzo Ponticiello no baixo

Giorgio Di Ruvo na bacteria

Faixas:

1 - Introduzione

2 - Prima Parte: Stare Solo

3 - Seconda Parte: Medium

4 - Terza Parte: Essere

5 - Quarta Parte: Incubo




 

 






 





sábado, 1 de janeiro de 2022

Novalis - Banished Bridge (1973)

 


Meus amigos amantes da música progressiva sou um grande fã do rock progressivo alemão e quando descobri o NOVALIS atingi um nirvana sonoro e um arrepio de felicidade dada a emoção da audição e isso se descreve com fidelidade progressiva no seu debut chamado “Banished Bridge”, de 1973. 

O Novalis, oriundo da cidade de Hamburgo, foi formado em 1971, a partir de um anuncio em jornal convocando músicos para complementar o grupo, por iniciativa de Heino Schünzel e Jürgen Wentzel, baixista e vocalista respectivamente. 


O Novalis, em seu início, não se adequava ao estilo krautrock ou experimental, mas em um progressivo sinfônico com harmonias luxuosas, passagens excepcionais tendo no órgão, nos teclados o seu grande cerne sonoro, a espinha dorsal de sua música. 

São camadas melódicas fantásticas que te faz viajar, músicas belas e majestosas que faz do Novalis e seu primeiro álbum, “Banished Bridge”, um dos pioneiros do rock sinfônico na Alemanha e que teve seu ponto alto em meados da década de 1970.  

Convém falar das origens do nome da banda: Novalis. Muitas das letras da banda foram baseadas na poesia do poeta do século 16 Friedrich Freiherr von Hardenberg, onde “Novalis” era seu pseudônimo. O poeta Novalis era muito conceituado em sua época. Era um homem romântico e sofreu muito pela perda de sua amada. Como em muitos casos não enlouqueceu pela tal perda, mas sofreu de tristeza e morreu apenas com 28 anos de idade.

O poeta Novalis

Colaboraram neste álbum os seguintes músicos, Jürgen Wentzel nos vocais, Heino Schünzel no baixo, Lutz Rahn nos teclados, Hartwig Biereichel na bateria e Carlo Karges nas guitarras, sendo o único álbum gravado em inglês, passando a produzir os trabalhos seguintes em alemão e tendo alguma repercussão comercial. 

Novalis

O álbum abre com a faixa título, com uma atmosfera viajante, transcendental com órgãos tocados com suavidade, um violão acústico dando toda uma atmosfera linda e delicada, uma suíte fantástica, criativa, que me remete o Pink Floyd em épocas remotas, com passagens fantásticas de um rock sinfônico tocado com competência e carregada de emoção. 

"Banished Brisge"

"High Evolution" é uma faixa mais direta, com um excelente órgão de igreja, com um toque também sinfônico, de melodia limpa e forte.

"High Evolution"

"Laughing" mostra um lado frenético do Novalis, de mais energia, mas ainda tendo os teclados de Lutz Rahn como a parte mais importante, mais edificadora do álbum e da banda. Conta com grandes passagens e uma seção rítmica excepcional.

"Laughing"

“Inside of Me (Inside of You)” também tem uma linha mais rock, mais pesada, com teclados e riffs de guitarra poderosos e frenéticos, mas que descamba para o sinfônico que é a marca registrada deste grande álbum, fechando-o com maestria e qualidade.

"Insiste of Me (Insiste of You)"

O Novalis é assim, músicas intricadas, complexas e lindas, uma banda que soube seguir sua diretriz com muita ousadia, arrojo e dedicação e “Banished Bridge” foi o grande pontapé inicial para uma carreira de grandes álbuns.

Não há neste álbum o experimentalismo, o minimalismo do krautrock dos primórdios, não há o peso e a agressividade de riffs de guitarra, não há o space rock, há sim, uma sofisticação, mas, ao mesmo tempo inteiramente acessível aos ouvidos que vai direto à alma, ao coração e que nos arrebata de forma indelével.

Um clássico obscuro que desmistifica de uma vez por todas que o rock alemão é só psicodelia do krautrock e o peso do hard rock. Novalis com “Banished Bridge” nos entrega um rock alemão diversificado, competente e muito pouco estereotipado.

Os álbuns seguintes não teria essas camadas sonoras tão sofisticadas, tendo uma vertente, inclusive, mais comercial, talvez seja por isso que o debut do Novalis entrega algo singular para a história criativa da banda e também para a música alemã.





A banda:

Jürgen Wenzel vocais e guitarra acústica

Lutz Rahn  no órgão, Mellotron, piano e sintetizador

Heino Schünzel no baixo

Hartwig Biereichel na bateria


Faixas:

1 - Banished Bridge

2 - High Evolution

3 - Laughing

4 - Inside of Me (Inside of You)



"Banished Brisge" (1973)
 












terça-feira, 28 de dezembro de 2021

The Trip - Caronte (1971)

 


Mais uma vez a Itália se revela majestosa e prolífica quando se fala em rock progressivo. Sua história é irretocável, baseado no primor e na galhardia de suas bandas que escreveram e ainda escrevem, pois grande parte delas ainda está a pleno vigor de suas forças e criatividades, histórias espetaculares e que ainda faz deste país um dos grandes representantes da cena que a cada dia se faz presente e forte com as clássicas bandas e as novas safras que certamente perpetuarão o rock progressivo da velha Itália. 

E a minha dica de hoje é conhecida de todos os apreciadores da boa música progressiva e que com sua sonoridade atemporal e arrojada honrou o clássico e que serve de referência para os tempos contemporâneos. Falo do THE TRIP e seu álbum mais conhecido, o seu melhor trabalho para muitos: “Caronte”, de 1971.

The Trip com “Caronte” flerta com os primórdios do rock progressivo na Itália e ao mesmo tempo se faz perceber a sua sonoridade na nova safra de bandas progressivas na Itália, sobretudo aquelas que primam pelo peso e qualidade na melodia e harmonia. Sim, é possível aliar peso, agressividade e melodia e harmonia com sensibilidade.


Assim é o The Trip com o seu espetacular “Caronte”. E como não posso deixar de falar de um pouco de história para acrescentar ao tempero sonoro, vamos a ela. The Trip foi uma das primeiras bandas italianas de rock progressivo, embora tenha se formado na Inglaterra. Na verdade, se tratavam de músicos ingleses que foram tentar a sorte na Itália em uma época em que beat italiano estava em franca ascendência. 

Isso era meados da década de 1960. Era a psicodelia, era o beat pop que estava em voga na Itália e lá foram eles em busca do sucesso. O The Trip viajou para a Itália e logo serviu de banda de apoio para um cantor de beat-pop chamado Ricky Maiocchi.

Nessa época o guitarrista era um rapaz novo e desconhecido, um tal de Ritchie Blackmore. Blackmore, em 1966, foi para a Itália tentar ganhar a vida como músico, dada também a efervescência daquele país, juntamente com o Maiocchi, que era vocalista de uma banda chamada The Chameleons e lá ficou por poucos meses, entre setembro e dezembro.


O pouco tempo que ficou se deu por conta das incertezas com o seu futuro, pois o show que fazia com o The Trip não estava rendendo dinheiro, o público parecia não apreciar o som da banda, voltado para o psicodélico mais experimental, e os proprietários das casas de shows pagavam muito mal, gerando o retorno precoce do futuro fundador do Deep Purple à Inglaterra. 

Mas em 1969, quando Joe Vescovi foi recrutado, logo assumiu a liderança da banda e começou a trabalhar com a influência de bandas como Vanilla Fudgie, ou seja, um psicodélico, com um progressivo de vanguarda com pitadas de hard rock. Em 1970 gravou seu primeiro álbum, “The Trip” e aqui você pode ler a resenha que fiz sobre este belo álbum, com essa proposta, uma abordagem psicodélica, um acid rock, com um progressivo ainda pouco executado, embrionário.

"The Trip", de 1970

Mas em 1971, veio “Caronte”. Um misto de hard rock elétrico e vigoroso com um progressivo com levadas clássicas com influências de Emerson, Lake & Palmer, como muitas bandas italianas que surgiam no início da década de 70, mas com aquela pegada ao estilo Vanilla Fudge, graças ao grande Vescovi. 

Foi uma guinada espetacular na história do The Trip. “Caronte” foi inspiração do personagem “Charon, o barqueiro do inferno”, de Dante Alighieri, da “Divina Compédia” e constrói uma espécie de metáfora ao conformismo, a uma sociedade conformista, baseada em estruturas frívolas e destrutivas na consumo, na autodestruição, entre outros. Inclusive há faixas mencionando músicos como Janis Joplin e Jimi Hendrix, que, ao olhar da banda, retrata esse conceito de “Caronte”.

Charon, o barqueiro do inferno

A banda, quando produziu ‘Caronte”, tinha a seguinte formação: Joe Vescovi  nos teclados, órgão, mellotron, hammond, William Gray  na guitarra, vocal, Arvid "Wegg" Andersen no baixo e vocal e Pino Sinnone na bateria.


O álbum começa com “Caronte (Pt. 1)” um espetáculo de hard poderoso com uma linha de teclados frenéticos, solos viscerais de guitarra, riffs na mesma escala, uma sonora pedrada. 

"Caronte (Pt. 1)

“Two Brothers” tem mais a cara de um progressivo clássico, com passagens rítmicas, teclados em destaque, uma viagem progressiva em grande estilo, um espetáculo instrumental e um vocal de grande alcance faz dessa faixa um clássico.

"Two Brothers" (Live)

“Little Janie” remete a um The Trip mais psicodélico, uma abordagem mais comercial e acessível que leva a banda aos tempos sessentistas, uma faixa viajante e linda.

"Little Janie", live in Torino 2018

"L'Ultima ora e Ode a Jimi Hendrix” é uma das faixas mais poderosas do álbum. Nesta música o The Trip esbanja em sensibilidade, harmonia, lirismo, uma faixa criativa e que engloba toda a versatilidade da banda: psicodelismo, progressivo, hard rock, tudo se observa nesta música excelente.

"L'Ultima ora e Ode a Jimi Hendrix", live 2011

“Caronte (Pt. 2)” é o desfecho que segue a linha da faixa inaugural, muito peso e tecladeira avassaladora e passional. Assim é “Caronte”, um álbum que abriu as portas do heavy prog na Itália, que foi pioneiro no progressivo pouco voltado para o sinfônico e mais para a agressividade do hard rock e a sensibilidade do rock progressivo.

"Caronte (Pt. 2)

Disco atemporal e necessário para entendermos o que se faz de novo no rock progressivo atualmente na Itália e no mundo, sobretudo com o que conhecemos hoje como metal progressivo tão em evidência nos dias de hoje. A linda capa do álbum é uma representação da ilustração original de Gustave Doré, concebida para somar beleza à fantástica Divina Comédia de Dante Alighieri. 

Em 2021 o The Trip lançou “Caronte 50 Years Later”, em comemoração aos 50 anos de lançamento do espetacular e original “Caronte”, mas isso é uma outra história...



A banda:

William Gray: guitarra elétrica e acústica e vocais

Joe Vescovi: órgão Hammond, piano, órgão sacro, mellotron, arranjos e vocais

 Arvid "WEGG" Andersen: baixo e vocais principais

 Pino Sinnone: bateria


Faixas:

1 - Caronte pt 1

2 - Two Brothers

3 - Little Janie

4 - L'Ultima Ora e Ode a J. Hendrix

5 - Caronte pt 2



"Caronte" (1971)