sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Quantum - Quantum (1983)

 


No Brasil definitivamente temos músicos teimosos, resistentes! A arte, pura e genuína, em nosso país, por si só é um ato de resistência. Em um país em que não existe a cultura da leitura, o senso crítico caiu no senso comum, na vala do simplismo mórbido.

Mas ainda há, repito, os resistentes, aqueles que, bravamente, difundem a sua música, a sua arte, contra um status quo que privilegia a letargia, a inércia da estupidez.

E no caso dos músicos brasileiros, voltemos a eles, sobretudo aqueles que não se contentam com a coisa pasteurizada que trafega pelo mainstream, lutam em uma luta hercúlea e, para muitos, injusta, mas resistem e para o nosso deleite, pois, mesmo em tempos tão frívolos ainda podemos, temos a chance de ouvir músicas que nos impactam positivamente.

Mas há aqueles que sucumbem e, para ter o seu trabalho minimamente exposto, visto, optam por ir para a Europa, para cenas que propiciem um pouco de estrutura para materializar a sua música. Talvez não seja a palavra correta, a de sucumbir, mas cansaço.

Contudo voltando-se para os que, bravamente, ficam, há uma banda que realmente deslocou-se do tempo em que existiu. Sabe aquele caso em que você é muito descolado? É o caso dessa banda de hoje.

O QUANTUM, banda formada em 1982, no Rio de Janeiro, é um exemplo fiel de resistência e de que não “adequou-se” ao período em que foi concebida. É sabido que o rock dos anos 1980 foi dominado pelo pós-punk, pela new wave e, por algum tempo, o heavy metal, a “New Wave of British Heavy Metal” e o Quantum entregou o rock progressivo.

Logo o rock progressivo que, para muitos, estava em baixa, derrotado, esquecido, pouco criativo. Evidente que a cena não estava em alta, mas sob o aspecto comercial e muitas bandas gigantescas do estilo pereceram exatamente por conta desse triste fenômeno mercadológico e outras lotaram arenas pelo simples fato de se adequar ao modismo sonoro da época.

Não com o Quantum. Eu não aprecio as comparações entre as bandas, mas no caso do Quantum vem a calhar para ilustrar a sua situação nos anos 1980: a banda, com o seu primeiro trabalho, que completou 40 anos, lançado em 1983, traz influências da cena britânica de Canterbury personificado no som do Camel, principalmente, com elementos de jazz que proporcionou um balanço interessante ao som sinfônico em geral.

Mas a essa influência britânica da banda de Andrew Latimer e companhia você acrescenta um art rock instrumental com uma abordagem lírico-romântica bem instigante e original, típico das bandas brasileiras do gênero e até mesmo das bandas sul americanas no geral.

O Quantum, com seu debut mostrou-se digno sucessores dos trabalhos das grandes bandas que lá nos anos 1970 construíram tão brilhantemente um estilo, um conceito, uma cena, isso em plenos anos 1980 que alguns maldosos teimam em dizer que o prog rock deixou de existir. Como um som híbrido, o rock e seus gêneros, só se manifestam de forma diferente, é isso!

O álbum, “homônimo”, nasceu, para variar, de forma independente, na base da luta e resistência, por um selo chamado “Café”, mas pasmem, vendeu cerca de 6.000 cópias o que é um número deveras alto para uma música relegada ao descaso, ao esquecimento.

Claro que a produção deixa um pouco a desejar, mas o trabalho é inspirador, repleto de entonações fabulosas. O componente composicional, bem como a classe de desempenho são excelentes. Não podemos negligenciar também as linhas gêmeas de guitarra que dão o tom para a maioria das faixas, com solos arrojados, floreios acústicos contemplativos, sutis que nos faz viajar.

A formação clássica do Quantum, neste trabalho de 1983, contou com: Marcos G. Rosset (Gringo) na guitarra e violão, Reynado Rana Junior (Dinho) na guitarra e violão de 12 cordas, Fernanda Costa nos teclados e guitarra na faixa “Chuva”, Segis C. Rodrigues no baixo e Paulo Eduardo Naddeo na bateria e percussão. Fecha com a ilustre participação do icônico baterista brasileiro Rolando Castello Junior participando com as suas baquetas na faixa “Inter Vivos”. E por falar em faixas, vamos a elas, dissecando-as.

O álbum é inaugurado com a faixa “Tema Etéreo” que já começa avassaladora, uma incomparável aula de como se deve fundir com habilidade e maestria o jazz rock e o progressivo. São pouco mais de nove minutos de inspiração, complexidade e qualidade técnica de todos os seus músicos. Não podemos esquecer do equilíbrio suave dos teclados e o frenesi do jazz rock da seção rítmica.

"Tema Etéreo" (Ao vivo na TV Cultura)

A sequência temos a faixa “Chuva”, mas simples e direta, entrega guitarras dedilhadas, contemplativa, viajante, ao estilo mais voltado para o prog rock que mais parece ser uma introdução para a faixa seguinte, “Acapulco” que me remete ao progressivo sinfônico aliado a pegada mais pesadas, diria, de hard rock. É contundente, é complexo, o jazz se revela pelos teclados, pela seção rítimica. Excelente!

"Acapulco"

Chega “Inter Vivos” e a guitarra e a bateria trazem uma beleza que positivamente destoa do álbum, com um hard rock mais vivo, mais pesado, com solos ao estilo Camel, que traz à tona o brilho, a competência de cada músico, é simplesmente emocional, intenso, vívido e pleno. E, mais uma vez, cabe uma menção a Castello Junior que se tornou notório no hard rock, deixou sua marca e se aventurou perfeitamente no rock progressivo.

"Inter Vivos"

A faixa seguinte é “Sonata”, outra joia desse excelente álbum, uma das mais lindas e belas composições que tive a alegria e o privilégio de ouvir. Com sua vibe suave é profunda, intensa e emocionante.

"Sonata"

E fecha com a faixa título, “Quantum” que poderia ser considerada uma “micro-suite”, mas é o que menos importa, o mais importante e enaltecedor é que é repleta de uma beleza que, inicialmente se revela incontida que se desdobra sutilmente nos dois primeiros minutos, para logo depois revelar-se explosiva, catastrófica, linda, intensa, tensa, com temas cativantes, geniais.

"Quantum"

Dez anos depois dois integrantes da banda, os principais compositores, Fernando Costa e Reynaldo Rana Junior, com o apoio de músicos convidados, gravaram o segundo álbum da banda, o “Quantum II”, um ano depois, de 1994 que deixa um pouco a desejar do primeiro álbum, trazendo um pouco a artificialidade de um neo-prog dos teclados e uma difícil ausência de guitarras, não satisfazendo os fãs que apreciaram o Quantum da década de 1980.

E o resultado foi o inevitável: o fim. Os líderes do projeto, desse triste retorno tomaram a decisão de se dissolverem. Infelizmente algumas comparações acontecem e o fim se tornaria talvez a melhor maneira para não continuar com decisões equivocadas.

Mas ainda em 1993, algo bom aconteceu, pois, o debut do Quantum, de 1983, foi relançado com uma faixa bônus, “Presságio”, compilada durante os trabalhos de material para o segundo álbum, “Quantum II”, em 1994.

“Quantum” é exemplar, fantástico e merecedor de grande destaque, sendo indispensável na cabeceira qualquer apreciador do jazz rock e progressivo, dada as devidas proporções de predileções, evidente. O fato é que os caras do Quantum são verdadeiros abnegados da música progressiva em tempos que essa sonoridade foi rejeitada clamorosamente pela indústria fonográfica.




A banda:

Marcos G Rosset (Gringo) na guitarra e violão (baixo em "Inter Vivos")

Reynaldo Rana Jr. (Dinho) na guitarra e violão de 12 cordas

Fernando Costa nos teclados (guitarra em "Chuva")

Segis C. Rodrigues no baixo

Paulo Eduardo Naddeo na bateria e percussão

 

Participação:

Rolando Castelo Jr.: bateria em "Inter Vivos"

Felipe Carvalho: baixo em "Presságio"

 

Faixas:

1 - Tema Etéreo

2 - Chuva

3 - Acapulco

4 - Inter Vivos

5 - Sonata

6 – Quantum

 

Faixa bônus de relançamento de 1993:

 

7 - Presságio


"Quantum" (1983)















 




sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Il Rovescio Della Medaglia - Io Come Io (1972)

 


Toda banda tem o seu lado “dark side”, tem parte ou toda história relegada, esquecida pelo tempo, jogada ao mais puro e total ostracismo. Muitos podem ser os motivos, talvez não seja tão prudente elenca-los por aqui, mas o fato é que se o blog em que você, caro e estimado leitor, está lendo, enaltece o fracasso, as bandas e seus trabalhos vilipendiados.

E a banda que falaremos aqui tem a sua importância que não é, creio, devidamente creditada, dentro da cena har e prog da Itália com lançamentos verdadeiramente icônicos, podendo citar álbuns do naipe de “La Bibbia”, debut de 1971, e o terceiro trabalho de 1973, “Contaminazione”, que completou este ano de 2023, cinquenta anos de lançamento.

O primeiro é um avassalador hard rock com pitadas progressivas que figura, sem sombra de dúvidas, como um dos pioneiros do estilo na Itália e o segundo álbum mencionado é um excelente álbum de progressivo sinfônico que está nos anais da vertente no “País da Bota”.

A banda é o IL ROVESCIO DELLA MEDAGLIA. Tenho um especial carinho por esta banda, algo emocional mesmo, pois quando me apresentaram o “La Bibbia”, cuja resenha pode ser lida aqui, fui envolto por uma catarse inexplicável e foi graças a ele que a cena rock italiana descortinou-se diante de minhas retinas.

Il Rovescio della Medaglia

E a partir daí passei, de forma compulsiva, a buscar, ler, escrever e ouvir tudo do velho Il Rovescio della Medaglia e a cada nova audição era um estupendo momento de êxtase. Sou fã? Sim! Talvez tudo que eu vir a escrever sobre a banda neste humilde blog, soe como algo questionador, pelo fato de ser um apreciador da banda, mas que nada! A banda definitivamente é fantástica.

E, seguindo nessa discussão, eu vou falar de um álbum que não é tão comentado e que é, por muitos apreciadores do estilo, completamente dispensável e quiçá pelos próprios músicos que foram parte da concepção deste trabalho. Falo do segundo álbum da banda, o “Io Come Io”, de 1972, lançado pelo selo RCA.

Para muitos é um “álbum menor”, que para muitos poderia ser excluído do catálogo da banda, da sua discografia, mas quando o ouvi, pela primeira vez, seguindo aquelas audições quando conheci o RDM, me desafiou, me instigou a entende-lo, a vê-lo de outras formas, que não as convencionais no que tange as percepções da qualidade sonora dos álbuns.

Mas ele é marcante sem sua forma desafiadoramente, digamos, “sem importância”. “Io Come Io” tem trinta minutos apenas de um complexo “garage-prog” extremamente envolvente. Não sei se criaram esse termo “garage-prog”, mas foi o que encontrei para definir, inicialmente, o segundo trabalho do Il Rovescio della Medaglia.

Estamos tão acostumados com o progressivo associado à sofisticação, a músicas complexas, com melodias intricadas, que quando se ouve a produção insipiente de “Io Come Io”, gera a famosa rejeição de imediato.

Não se engane, caro leitor, “Io Come Io” tem, a meu ver, todos os elementos que edificam o prog rock, mas é sujo, é denso, intenso, pesado, beirando, em alguns momentos, algo despretensioso, por isso o percebo como “garage rock”.

Há algo irônico e desapegado neste trabalho do Rovescio. Embora seja modesto, sob o aspecto da produção e tudo o mais, ele se mostrou, a meu ver, inteiramente vanguardista trazendo um viés novo, naquela época, do progressivo, servindo, ouso dizer, como referência para o hard prog e até mesmo o metal progressivo, dado a aspereza e peso de seu som.

“Io Come Io” é um álbum repleto de energia e, por mais que seja sombrio, é solar por esse fator, por ser um trabalho frenético, apesar de apresentar gravações apressadas, o que impactou na produção, mas os músicos são tão grandiosos que, o que se percebe é a destreza dos seus instrumentos.

E falando em músicos a formação do Il Rovescio della Medaglia em “Io Come Io”, foi a mesma que gravou seu antecessor, “La Bibbia” e que permaneceria até o ano de 1973 e que gravaria seu álbum mais conhecido, “Contaminazione”. São eles: Pino Ballarini vocais e flauta, Enzo Vita na guitarra, Stefano Urso no baixo e Gino Campoli na bateria.

Não se sabe ao certo, mas “Io Come Io” é um álbum conceitual e no encarte do LP original são citados alguns versos do filósofo alemão Hegel, que diz:

“Na filosofia, as determinações do conhecimento são consideradas não unilateralmente, apenas como determinações das coisas, mas juntamente com o conhecimento a que se referem...”

Ou seja, a “busca de si mesmo em um mundo cheio de contradições”. “Io Come Io” é composta por quatro partes principais, das quais as partes são divididas em movimentos. É claramente estruturado com sua própria lógica lírica e instrumental, com as partes mais dinâmicas colocadas no início e no final, e as mais “técnicas” concentradas nos grooves. É um som áspero, cinzelado, mas que realça a dinâmica de cada instrumento.

 Antes de dissecar o álbum com as suas músicas, acho extremamente conveniente expor um pouco da história, dos primórdios do Il Rovescio della Medaglia, mesmo que brevemente.

A banda foi formada em Roma no final de 1970 e se chamava “Il Lombrichi”, mudando o nome para “Rovescio Della Medaglia” com a entrada do vocalista Pino Ballarini, o terceiro, na sucessão. A banda foi formada por Enzo Vita, guitarrista, pelo baixista Stefano Urso e pelo baterista Gino Campoli.

O primeiro vocalista foi Gianni Mereu, depois assumiu Sandro Falbo, da banda “Le Rivelazioni e logo depois Pino Ballarini, que se mudou para Roma, vindo da região de Pescara, onde tocou em bandas como “Nassa” e “Poema”. E a chegada de Ballarini trouxe também a sorte, pois imediatamente a banda assinaria contrato com o selo RCA, isso em 1970, para gravar um novo álbum, que viria a ser o grande “La Bibbia”, um ano depois, em 1971.

A faixa de abertura é “Io” começa com um som de gongo, anunciando a bateria e guitarra que criam uma atmosfera densa, soturna e perigosa. A música e a letra evocam visões estranhas, deliciosamente estranhas. Coisas e pessoas, lugares e sentimentos parecem atravessar a névoa do tempo, algumas memórias de experiências passadas, sombras, segredos da vida, o conceito entre velho e novo. O protagonista se vê desafiado pela vida e morte. E a música parece imprimir esse conceito, pois traz peso, complexidade, vivacidade, mas envolto em sombras.

"Você diz que tudo que eu que te disse é verdade / Mas tenho medo quando você diz que não sabe como é bom morrer!"...

"Io"

“Fenomeno é uma longa faixa dividida em duas partes, “Proiezione” e “Rappresentazione”. Começa um padrão dedilhado de violão que são quebrados por riffs pesados e poderosos de guitarra. A música e letra evocam a imagem do protagonista perdido em uma estrada misteriosa, vagando sem a menor ideia tentando, de forma desespera, entender o que é falso e verdadeiro. 

"O mundo em sua volta é vazio, sem vida, de manhã não há sol, a noite não há lua. O protagonista pode ver uma luz e alguém o chama, uma porta se abre para ele." 

E com isso a música acalma, mas de repente o ritmo intensifica, aumenta, vai ficando mais frenético. 

"Fenomeno"

A excelente e catártica “Non Io” começa com um delicado arpejo de violão e notas crescentes de flauta. A atmosfera é pacífica, viajante, contemplativa. A música e a letra retratam a nova consciência do protagonista, que pode ver seus últimos dias se desenrolando atrás dele. Ele passa a odiar as coisas materiais e reflete os verdadeiros da vida. Nus, descalços, os protagonistas querem ir onde o céu termina e o mar começa em busca de ideais que não podem desaparecer com o tempo como a beleza ou a riqueza.

"Ainda quero seguir o meu caminho, onde o céu se junta o mar / Deixando sozinho atrás de mim aquele homem que não tem verdade...".

"Non Io"

A última e derradeira faixa é “Io Come Io” e é dividida em duas partes intituladas “Divenire” e “Logica” e marca a conquista da jornada interior do protagonista, encontrando finalmente a luz, que arde nele como um sol que nunca morrerá. É uma faixa enérgica, solar, que personifica o momento do personagem. Hammond, riffs de guitarra, seção rítmica poderosa, faz dessa faixa algo intenso, sob o aspecto instrumental.

"Io Come Io"

“Io Come Io” teve vários relançamentos, onde a primeira foi em 1994 com 2.000 cópias, outra em 1999, também pela RCA com apenas 500 cópias. Em 2004 foi a vez da BMG, em 2008 pela Sony/BMG e mais tarde, em 2019, pelo selo RCA/Mondadori.

“Io Come Io” definitivamente vem do mesmo galho que “La Bibbia”, porém aumenta o quociente progressivo, mas com uma roupagem um tanto quanto “garage”, algo alternativo, underground, completamente em uma aversão ao mainstream progressivo, se é que é possível dizer isso. Um hard rock psicodélico com aquele drama típico do rock progressivo italiano!


A banda:

Pino Ballarini na voz, flauta

Enzo Vita na guitarra

Stefano Urso nobaixo

Gino Campoli na bateria

 

Faixas

1 - Io

2 - Fenomeno

a) Proiezione

b) Rappresentazione

3 - Non Io

4 - Io come Io

a) Divenire

b) Logica


Il Rovescio della Medaglia - "Io Come Io" (1972)












 











sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Exponent - Upside Down (1974 - 2014)

 

A minha afeição pelo rock n’ roll alemão é mais do que justificada, levando em consideração a “selva” ainda inexplorada que é a cena germânica. Há muito a se desbravar, há muito a se ouvir de bom. São pérolas obscuras, esquecidas e que, de forma abnegada, são revisitadas, trazidas à vida por selos igualmente underground.

Não vou aqui tecer comentários detalhados do motivo pelo qual tais bandas caem no ostracismo ou ainda sequer tem seus materiais lançados de forma oficial, o mais importante é exatamente dar luz ao rock obscuro, trazê-las à vida de novo e reparar, em muitos casos, tais equívocos, sobretudo pela sonoridade complexa e de qualidade da esmagadora maioria das bandas.

E mais uma banda cativou-me, inicialmente pelo fator visual. A capa, de imediato, me chamou a atenção e, por mais que possa ser simples, nada de novo ou avassalador, eu precisava ouvir o conteúdo, após, claro, as minhas investidas em busca de novas “velhas” pérolas obscuras disponíveis pela grande rede.

Quando dei o “play” a magia se fez, a magia sonora eclodiu de forma catártica! Que banda! Que sonoridade! Mas antes de destrinchar faixa a faixa, claro, sem mais delongas, vou apresentar a banda: EXPONENT!

O Exponent foi formado, em 1971, em uma cidade, na Alemanha, chamada Wuppertal, Dusseldorf, mesma região que outra banda seminal e um pouco mais conhecida surgiu, a Hölderlin. Inclusive o Exponent, entre 1971 e 1974, fez uma série de shows em circuitos alemães abrindo para bandas do porte de Novalis e o próprio Hölderlin, entre tantas outras.

E já que mencionamos algumas grandes bandas germânicas o Exponent foi formado a partir do mesmo line up de outra banda, também pouco conhecida, a “Cannabis India” que lançou, em 1973, um álbum chamado “SWF Session”.

Cannabis India - "SWF Session" (1974)

A formação que participou de “SWF Session” e do único trabalho do Exponent, “Upside Down”, de 1974, trazia: Dirk Fleck no baixo e Rüdiger Braune na bateria. Completou ainda a formação do Exponent Frank Martin nos teclados, flauta e vocal e Martin Köhmstedt na guitarra. Esses dois últimos, claro, não tocaram no Cannabis India.

Observa-se nessas movimentações dos músicos que são bandas surgidas sob o aspecto de projetos, dando a entender que não seriam duradouros, principalmente o Cannabis India.

“Upside Down” foi originalmente gravado no “Tonstudio Baue” em 1974, porém nunca foi lançado, caindo no mais puro e genuíno ostracismo por décadas e décadas até ganhar vida em um lançamento do selo underground chamado “Kosukuro Records”, no formato LP, em 2014, quarenta anos depois de sua gravação e, ano seguinte, saindo em CD, pelo valoroso selo alemão "Garden of Delights”.

O fato é que as gravações de “Upside Down” não interessaram a nenhuma gravadora e a banda viria a se separar dois anos depois, em 1976. Mas obstáculos à parte o Exponent entregou neste trabalho harmonias pensadas para levar a melodias dotadas de caráter emocional que fazem desse álbum uma ode ao rock progressivo sinfônico, com pegadas experimentais remetendo ao krautrock em seus primórdios e ousadas passagens de blues e até mesmo algo mais pesado do hard rock.

Instrumentos como o moog e mellotron dão toda a textura para a edificação do som do Exponent, com passagens viajantes de guitarra e uma seção rítmica extremamente competente e orgânica.

Embora a capa, excelente, sugira algo voltado para o heavy metal ou black metal, o som de “Upside Down” é dominado pelo prog rock, sinfônico, jazz e nuances bluseiras com uma textura experimental remetendo o krautrock.

O álbum é inaugurado pela faixa “Duplicate” e o que de imediato ganha destaque é o vocal de Frank Martin que, de forma dramática, mostra o quão sua entonação é límpida e cristalina. Mas logo entra a bateria puxando uma levada mais jazzy e os teclados impondo uma roupagem mais sinfônica. A guitarra, com riffs e solos mais diretos, rasga a atmosfera sombria, trazendo um pouco mais de peso à faixa com uma pegada mais veloz, inclusive. A típica faixa progressiva com viradas rítmicas excelentes.

"Duplicate"

“Last Spring” é introduzida pelo órgão dando-a uma atmosfera soturna, sombria, com lindos e viajantes solos de guitarra, um tanto quanto viajante, contemplativos. O vocal logo entra e envolve, mais ainda, toda a “estrutura sonora” com propostas sombrias. O baixo segue o ritmo pulsante, mas vagaroso. Mas logo irrompe em uma explosão pesada do hard rock com solos de guitarra vibrantes e uma bateria marcada e pesada. E assim “Last Spring” segue, com viradas rítmicas interessantíssimas.

"Last Spring"

Na sequência a faixa “Thoughts” surge com uma viagem psicodélica remetendo aos tempos ácidos de Pink Floyd de Sid Barrett, mas os teclados logo anunciam a veia sinfônico que permeou todo o álbum. O vocal, sempre límpido e cristalino, entonam a sonoridade psych prog da faixa. 

"Thoughts"

E finalmente é finalizado com a faixa mais longa, cerca de vinte minutos, do álbum: “Dream”. E definitivamente se trata de uma verdadeira jam section, uma seção de improvisações que vai do krautrock ao hard rock, passando por passagens psicodélicas e progressivas, com o destaque, nessa construção, para os teclados e riffs de guitarra que sustentam os momentos mais pesados da faixa. E claro que os componentes mais complexos se fazem presentes, mas dominados pela criatividade que só as improvisações são capazes de proporcionar. Excelente música!

“Upside Down”, do Exponent é mais do que adequado para aqueles que querem sair da famigerada “zona de conforto” e ouvir coisas novas, mesmo que sejam antigas. Mais adequado ainda para aqueles que curtem rock progressivo sinfônico, com toneladas de moog e mellotron, mas extremamente integrado a bons e pesados riffs de guitarra, flertando com o hard rock.

Exponent, apesar de sua curta passagem pela cena germânica do rock, deixou um pequeno, mas significativo legado de um belo exemplar de música progressiva sinfônica aliada às improvisações e experimentalismos que pautou o momento áureo do krautrock na transição das décadas de 1960 e 1970. Altamente recomendado!


A banda:

Frank Martin nos teclados, flauta e vocal

Dirk Fleck no baixo

Rüdiger Braune na bateria

Martin Köhmstedt na guitarra

 

Faixas:

1 - Duplicate

2 - Last Spring

3 - Thoughts

4 - Dream 


Exponent - "Upside Down" (1974)




Download do álbum aqui!


 













 



quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Kaamos - Deeds and Talks (1977)

 

Este reles e humilde blog tem me revelado, juntamente com os meus garimpos, o que hoje tem sido óbvio, muito óbvio: de que o rock n’ roll é universal, diversificado e ainda selvagem, intocável em alguns rincões do planeta.

É pensar em demasia limitado achar que países como Inglaterra, Estados Unidos, Itália e Alemanha, por exemplo, sejam o centro desta música de que tanto amamos e em nenhum outro lugar existir nada que possa ser devidamente valorizado pela sua qualidade sonora.

São tantas bandas esquecidas, raras, com seus álbuns por alguns subjugados pelo simples fato de não se adequarem à importantes mercados consumidores da música ou a “formatos” sonoros “fora de moda”.

“Fora de moda”, descolados do tempo é outro tema difícil dentro do “show business”. Essa eterna questão de o tempo “julgar” a música e de que precisamos nos adequar às novas tendências de música é outra conversa perigosa construída pelo marketing perverso da indústria fonográfica. Por que aquela música que você se identifica não pode estar presente em seus dias?

E a banda de hoje se desloca de um tempo em que o rock progressivo não estava mais em alta, mas, ainda assim, valorizando as suas verdades sonoras, decidiu, a duras penas, seguir e gravar um álbum no fim da década de 1970 na fria Finlândia. Vejam o cenário totalmente adverso: gravar um álbum de prog rock no final dos anos 1970, na Finlândia.

Era o punk em voga, música rápida e simples, de poucos acordes, era a época da disco music, da música das pistas de dança, animadinhas. Não tinha mais espaço para as músicas trabalhadas, conceituais e tudo que o valha. Mas convenhamos, o prog rock sempre foi marginalizado com exceção de alguns figurões que conseguiram se transformar em “bandas de arena” elevando um pouco o nome da cena.

Mas voltando a Finlândia, a banda KAAMOS foi formada em Turku, sudoeste da Finlândia, pelo guitarrista Peter Strelmann e o tecladista e organista Ilkka Poijärvi. O nome “kaamos”, de origem finlandesa, significa “a noite polar quando o sol nunca nasce”, algo extremamente comum naquele país escandinavo.

Os membros originais consistiam na formação de quatro músicos: além do guitarrista Strelmann e o tecladista Poijärvi, trazia Eero Valkonen, na bateria, Eero Muntarkarma no baixo e o vocalista americano Jimmy Lewman. O organista Ilkka Pojärvi logo abandonaria a banda, bem como Lewman que sairia no ano seguinte à formação da banda, em 1974.

Este último foi substituído pelo guitarrista Ilpo Murtojarvi e pelo cantor/baterista Johnny Gustafsson. O verão de 1975 vê a saída de Strelmann, que se juntou ao Exército, e foi substituído pelo tecladista Kyosti Laihi.

O tecladista Kyösti Laihi, que era membro do “Pepe & Paradise” e também da banda Hellmann's Youth Society, quando chegou no Kaamos defendeu ardorosamente que a banda deveria tocar rock progressivo ao estilo Camel, Yes e Genesis, afinal, no início da década de 1970, quando o Kaamos foi formado, era o auge do estilo e também trazia a experiência por ser um músico que havia tocado em várias bandas locais.

Mas a banda sofreu muito com as intensas e constantes mudanças em seu line up, era um entra e sai direto de músicos e isso quase desintegrou o Kaamos, principalmente após a saída de um de seus membros fundadores, o guitarrista Peter Strelmann. Então Laihi, que parece ter assumido o comando da banda, recrutou Ilpo Murtojärvi, que foi guitarrista e compositor por um tempo da banda “Karma”. Pediu a ele que escrevesse uma música para a banda. 

No final eles se estabeleceram em um quarteto, como no início, formado por Kösti Laihi, nos teclados, Ilpo Murtojärvi, na guitarra e Jonny Gustafsson na bateria e vocal e Jakke Leivo, no baixo, ambos ex-integrantes de uma banda de orientação “pop” chamado “The Islanders.Ing”.

Neste momento do Kaamos já não tinha nenhum membro da formação original, o que era um desafio e tanto manter as arestas sonoras da banda, sem uma referência de sua história. Então decidiram cair na estrada para se apresentar, divulgar a sua música.

De Turku, a cidade natal do Kaamos, até a capital, Helsinque, tocaram em clubes, apresentaram suas músicas autorais que adicionavam blues, funk e folk à música clássica, era o prog rock e a sua capacidade de se híbrido, como o rock na sua gênese.

Em 1975 o Kaamos gravou uma fita demo e negociou com várias gravadoras para gravar um álbum oficialmente, mas era meados dos anos 1970, o rock progressivo não estava na crista da onda, afinal o punk e a new wave, entre outras músicas de cunho mais radiofônico e comercial eram as pepitas de ouro da indústria fonográfica, então as portas se fechavam. Mas a luz no fim do túnel se fez e veio da sua terra natal, Turku.

A M&T Productions, gravadora fundada em 1975 pelos irmãos Matti e Teppo Ruohonen, descobriram o Kaamos que era da mesma região. Uniram o útil e o agradável, já que a jovem gravadora estava precisando de novas bandas ao seu cast e o Kaamos estava precisando de gravadora, a banda então assinou contrato em 1976 gravando o seu primeiro e único trabalho, no início de 1977, chamado “Deeds and Talks”.

"Deeds and Talks (1977)

“Deeds and Talks” é um álbum majoritariamente de rock progressivo, com forte viés sinfônico, baseado em várias texturas de teclados e guitarras líricas, solos bem trabalhados de guitarra, até em demasia, o que, pelo menos para este que vos fala, é muito prazeroso, o que o torna um álbum especial, incluindo ainda lindas passagens de sintetizadores de movimentos interessantes, bem agitados, em uma mescla bem interessante entre o progressivo britânico com nuances do típico folk rock escandinavo, outro fator extremamente interessante para mim.

É percebido no debut do Kaamos uma guitarra bluesy, mas suaves, que nos traz à lembrança de bandas como Camel, com melodias enérgicas que me lembra Wigmam tardio, diria. Embora “Deeds and Talks” não seja um álbum inovador, ele merece uma audição pelo fato de entregar exatamente essa miscelânea de vertentes sonoras que construíram o hibridismo progressivo no fim dos anos 1960 e que se constatou em seu apogeu entre 1971 e 1974, mais ou menos.

O álbum é inaugurado com a faixa “Strife” que é centrada em guitarras de blues, com solos diretos, porém bem trabalhados, límpidos e bem executados, com teclados que traz uma textura graciosa e com uma bela performance de flauta. Essa performance meio blues e o vocal do baterista, embora não seja um primor, me fez lembrar os primeiros tempos do Bad Company meio “nórdico”! Loucura, não?

"Strife", live at Wimma, Turku, 2010

“Are You Turning” segue cheia de senso melódico que tece notas de teclados bem nostálgica, algo viajante e contemplativo, diria. A guitarra é potente, enérgica, solar, com solos diretos, mas empolgantes. Os vocais, dessa vez, são bem agradáveis, bem melodiosos, algo típico dos países escandinavos, sabe? Não saberia dizer sob o aspecto técnico e/ou comportamental, mas é algo que me parece óbvio.

"Are You Turning", live at Wimma, Turku, 2010

A próxima faixa, “Delightful” é especial pois tem uma participação efetiva e competente, sob o aspecto instrumental, de todos os músicos, com destaque para uma bateria delicada, bem executada, no auge de sua simplicidade, e teclados contemplativos. Há alguns compassos deliciosamente estranhos e casuais, com elementos evidentes de jazz rock e vocais ao estilo Ian Anderson, do Jethro Tull. Bela música!

"Delightful", live at Helsinki, 2012

“Barocchi” traz também uma faixa instrumental muito bem executada, com uma pegada clássica, com um groove brilhante e bem contagiante, com o pleno uso do Moog. Na segunda metade o solo de guitarra se desenvolve muito bem, em uma versão rock, bem como do órgão.

"Barokki", live at Finland, 2012

“Isabelle Dandelion” é uma balada bem melancólica, dramática, diria soturna, ao som de violão e piano em plena e total sinergia sonora e os vocais pungentes de Gustafson são verdadeiramente emocionantes.

"Isabelle Dandelion", live at Wimma, Turku, 2010

Segue com “Moment (Now)” que imprime uma pegada mais jazz rock com teclados lindos e solares com guitarras mais poderosas, elásticas e até pesadas. As harmonias vocais e, mais uma vez, o todo instrumental são fantásticos. As guitarras se mostram afiadas, os teclados flutuantes, com o fusion protagonizando.

"Moment (Now)", live at Helsinki, 2012

“When Shall We Know” entrega uma atmosfera mais funky, algo dançante, em uma miscelânea com o blues e, claro, o rock progressivo, sendo soberbamente introduzido, sem soar “deslocado”. O piano é tanto quanto enérgico e o conjunto da obra tem um sentido de AOR.

"When Shall We Know", live at Wimma, Turku, 2010

O álbum é excelentemente encerrado com a faixa “Suit-Case” que, como o nome já sugere, trata-se de uma grande e instigante “peça” de rock progressivo que dura mais de oito minutos e tem um lindo e potente arranjo de teclado que me remeteu aos grandes e interessantes momentos do Greenslade, banda a que tenho adoração. Ele se torna, em alguns momentos, experimental, com “quedas” para improvisações, apresentando elementos de complexidade e cheio de emoções.

"Suit-Case", live at Wimma, Turku, 2010

“Deeds and Talks” é assim: um rock progressivo com forte viés sinfônico com um senso de melodia nórdica, tendo como alicerce teclados do rock progressivo britânico e guitarras incandescentes de blues e funk, com viagens jazzísticas. Ou seja, traz a plenitude da versatilidade.

O álbum ganhou alguma notoriedade, algum elogio por parte dos críticos musicais da Finlândia, sendo considerado como o melhor momento do rock progressivo daquele país desde a fundação do Wigwam, inclusive, porém a resposta do mercado foi tímida, morna, provavelmente por ter sido concebido por um selo pequeno e que ainda estava engatinhando, além das novas predileções da indústria fonográfica pelo punk rock e new wave, sendo as vendas decepcionantes.

Mas apesar de todos esses entraves o Kaamos continuou a se apresentar localmente, em sua terra natal, Turku, mas não resistiu a esses reveses e se separou em 1980. Sentiram falta, em decorrência desse cenário totalmente contra, de um público interessado e substancial para assisti-los também nas apresentações.

O tecladista Kyösti Laihi formou o Boulevard com Erki Korhonen. Em 1989 sofreu uma esclerose múltipla, mas que não o impediu de continuar ativo nesta mesma banda até os anos 2000. Como compositor escreveu várias músicas para vários cantores e, em 2002, gravou a música "Eteenpäin" com a Seitzema Seinaflua Bergesta Band.

O baterista e vocalista Johnny Gustafson se juntou a um grupo de dança “Bogart Company”, que se tornou sucesso e a mais tarde se reuniu a banda Bluebird. Depois disso, ele seguiu uma carreira solo, mas morreu em 9 de outubro de 2021.

O baixista Jakke Leivo se tornou um pioneiro no ensino do baixo na Finlândia e desde então tem sido professor titular do instrumento no no Helsinki Conservatory of Pop and Jazz, no Departamento de Educação Musical da Sibelius Academy e no Helsinki University of Applied Sciences Stadia.

O guitarrista Ilpo Murtojärvi formou o grupo new wave Pasi & Mishin no início dos anos 1980, tocando com os renomados guitarristas Anna Hansky, Aneli Thurliston e Joel Harikainen. Mais tarde, ele se tornou músico de estúdio e atuou como professor de guitarra pop e jazz no Conservatório de Turku. Em 2015, ele foi indicado como o melhor artista pela Turku Jazz Association em reconhecimento às suas realizações na composição e ensino de jazz.

Com um movimento de ressurgimento do rock na Finlândia “Deeds And Talks” foi “reavaliado” e entendido como um clássico do rock progressivo obscuro, ganhando uma reedição, limitada em vinil, em janeiro de 2016 pelo selo “Rocket Company”. Mas antes, em 2010, este álbum foi relançado em CD pela mesma gravadora.

“Deeds and Talks”, do Kaamos, apesar do seu infortúnio, se revela grandioso, mesmo não trazendo nenhum elemento de vanguardismo em seu som, mas feito com sinceridade, competência, sem se deixar rotular por uma vertente ou estilo. A prova contundente da qualidade do trabalho foi a carreira dos seus músicos pós Kaamos, extremamente prolífica, bem-sucedida, corroborando a importância deste álbum para a história do rock n’ roll finlandês e quiçá europeu, onde o prog rock reina absoluto.



A banda:

Johnny Gustafsson nos vocais, bateria e percussão

Kyösti Laihi nos teclados, moog e sintetizadores e backing vocals.

Ilpo Murtojärvi na guitarra e backing vocasl

Jakke Leivo no baixo

 

Faixas:

1 - Strife

2 - Are You Turning

3 - Delightful

4 - Barokki

5 - Isabelle Dandelion

6 - Moment (Now)

7 - When Shall We Know

8 - Suit-Case 



"Deeds and Talks" (1977)