quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Dragon - Dragon (1976)

 

Nada como fugir um pouco do óbvio, sair um pouco dos grandes centros do rock n’ roll, tais como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha etc. Há sim vida pulsante sonora em outros cantos do mundo e não se enganem, estimados leitores, há grandes pérolas obscuras nos mais improváveis recantos esquecidos do planeta.

Há países, no entanto, que há uma cena pulsando, uma boa quantidade de bandas, com muita qualidade, mas vilipendiada pelo grande público e pela indústria fonográfica que só visualiza diante dos seus olhos o lucro que os países mais conhecidos e badalados podem proporcionar.

E graças a esse blog que, a cada dia, vem me estimulando a garimpar mais e mais o que há de melhor espalhado por esse mundo e me mostrando o que, confesso, há alguns anos atrás eu não percebia: que existem bandas fora do eixo Inglaterra-EUA e grandes bandas!

A viagem tem sido intensa e proveitosa. Os textos explodem em história, as sonoridades surpreendem pela sonoridade arrojada, complexa, orgânica e que não fica em nada atrás dos grandes clássicos, a única diferença é a falta de oportunidade para que essas bandas catapultem a sua arte.

A banda de hoje vem da Bélgica! Sim, a Bélgica! As improbabilidades existem e excitam por ser tão plenas e vivas. A pungência dessa banda surpreende e nos faz chegar a óbvia confirmação de que as fronteiras não deveriam existir para a música, os muros da desconfiança e do preconceito, a cada audição, estão ruindo. E essa banda traz essa grata sensação!

O nome dela é DRAGON! Não se enganem, não se trata de uma HQ, um personagem de desenho animado ou coisa que o valha, mas a síntese do que há de mais genuíno do rock progressivo bem tocado, bem elaborado, complexo, mas orgânico, porque é vivo e sincero a sua música. E a descoberta se deu de uma forma totalmente ocasional, mas sempre planejada, pois quando nos permitimos a garimpar a intenção é sempre achar algo.

Originalmente chamado de Burning Light, esta banda da região de Ath foi formada em 1970 pelos irmãos Georges e Jea Vanaise, tendo dois vocalistas, além do multi-instrumentista Jean-Pierre Houx.

Inicialmente o Dragon teve muitas aparições em festivais, fazendo alguns shows locais e com isso foi ganhando alguma repercussão. Eles costumavam, no seu início, a tocar usando máscaras, maquiagens e máquinas de fumaça nos palcos, elevando a qualidade visual e teatral nas suas apresentações.

Em 1976 o Dragon se juntou ao tecladista e saxofonista Christian Duponcheel, que havia tocado no Lagger Blues Machine e finalmente gravaram seu primeiro álbum, auto-intitulado nos estúdios Acorn, alvo desta resenha de hoje. A banda também contou, na guitarra, com Bernard Callaert.

São poucas as informações sobre a gravação de “Dragon”, em 1976. Reza a lenda que ele foi gravado no Reino Unido, mas, como muitos casos, fora engavetado, esquecido pela indústria, até que, em 1989, o selo Muséa Records o tirou dos escombros do esquecimento e o lançou em um formato CD.

Por outro lado, há informações de que a banda teria lançado, de uma forma totalmente alternativa, pelo selo Gamma Records, uma quantidade baixíssima de cópias, cerca de 1.500, uma prensa privada distribuída principalmente pela banda e pelo referido selo. Mais alternativa do que isso não há!

A arte gráfica denuncia esse trabalho quase que artesanal e manufatureiro do Dragon com o seu primeiro trabalho, embora bonito, parece ter sido desenhado a mão, tornando-o obscuro, pouco conhecido. O Dragon era o tipo de banda para quem a palavra “obscura” foi definitivamente inventada.

“Dragon” revela um som “descolado” do seu tempo, afinal eles entraram em estúdio em 1976, pois combina uma dinâmica arrojada, com mellotron em profusão em uma levada extremamente jazzística e em algum momento entrega estranhos e intrigante sonoridade solar e repletos de humor surreal, com alguma impetuosidade, algum peso e ambições que levam o álbum a uma complexidade que nos remetem aos primórdios do rock progressivo.

Por isso que fiz questão de enaltecer a situação de estar “descolado” no tempo, afinal 1976, apesar do prog rock ainda estivesse em alguma evidência, já não gozava de tanta popularidade, como na realidade, convenhamos, nunca esteve.

Você percebe, neste debut do Dragon, um som complexo e arrojado, mas por outro lado, é genuíno por ser deveras orgânico, intenso e vivo. A sua sonoridade definitivamente é, diria, ingênua! Como? Explico: é encantador, é envolvente, pois não se preocuparam com tendências, não se entregando a elas, envolvendo-se com a sua verdade musical, independente das urgências do tempo em que o álbum fora concebido.

Isso torna “Dragon” original, charmoso corroborando a sua atemporalidade, atribuindo-lhes uma originalidade, uma veracidade de sua arte. A ingenuidade a qual me refiro traz a sua verdade, sem amarras, por isso que a banda sucumbiu sob o aspecto comercial, sendo sequer apoiada pela oportunista indústria fonográfica.

Resumidamente “Dragon” evoca o progressivo sinfônico britânico com algum tempero psicodélico e muita vivacidade, atingindo tal plenitude com um pouco de peso, sintetizado em belos riffs de guitarra e bateria marcada. 

A formação da banda, quando gravou “Dragon”, tinha: Bernard Callaert na guitarra e backing vocals, Christian Duponcheel nos teclados, sintetizadores e mellotron, Jean-Pierre Houx no baixo, sintetizadores, trombone, paino e backing vocals, Georges Venaise na bateria e flauta e Jean Venaise nos vocais e guitarra.

O álbum é inaugurado com a faixa “Introduction” (Insects) com um órgão meio espacial, menos circense, mais introspectivo, algo místico, diria, que me remete a linhas de Pink Floyd e Novalis com um hammond provendo um ritmo de textura simples, mas eficiente com uma melodia sinuosa de guitarra que tece seu caminho dando fomento a esse redemoinho cósmico, de space rock. E um adorável piano ao fim.

"Introduction (Insects)"

“Lucifer” é um verdadeiro passeio selvagem, frenético e poderoso, uma verdadeira força da natureza. Com uma introdução descontraída e contemplativa de pássaros e oceanos, uma guitarra limpa ao estilo blueseiro se faz aparecer com baixo pulsante e pesado com vocais estridentes, despretensiosos quase humorísticos, com solos de guitarra trazendo o contexto, em uma camada hard. Mas as variâncias rítmicas, claro, se fazem presente e, diante dessa parte mais pesada e animada, surge um trecho instrumental calcado no space rock com espessa nuvem de sintetizadores e flautas.

"Lucifer"

“Leave Me With Tears” tem letras sombrias, mas emocionantes, com um adorável Mellotron choroso e um expressivo solo de guitarra apoiado por um piano de cauda no final. É uma música emocional, com um nível alto de dramaticidade.

"Leave Me With Tears"

“Gone In The Wind” traz uma faixa bem rock com trabalho matador de guitarra e uma melodia extremamente cativante, mas com uma levada pop, diria comercial e radiofônica com rajadas absurdas de mellotron no refrão da música. Trata-se de uma música cheia de vida e cheia de vida!

"Gone In The Wind"

“In The Blue” começa com alguns efeitos eletrônicos que remetem, em algum momento, com a cena minimalista germânica krautrock, com uma atmosfera sombria com algumas experimentações, trazendo interessantes e intrigantes solos de guitarras viajantes e teclados cintilantes e agradáveis que te faz voar ao ouvir, com inclusive as trompas, o bom trompete azeitando todas as instrumentações. Uma faixa muito bem construída com prolongados solos de guitarras e teclados que evoca o psicodelismo dos anos 1960.

"In The Blue"

E fecha com “Crystal Ball” basicamente traz a mesma proposta da faixa anterior, quase, diria, uma continuação dela com um vocal mais lento, discreto, introspectivo, algo caótico, atormentado, com golpes pesados e intensos do órgão e guitarra e os sintetizadores se revelando espaciais, uma levada space rock. As paredes sonoras do mellotron e riffs de guitarra termina a música de forma sombria.

"Crystal Ball"

O Dragon viria gravar, em 1977, o seu segundo trabalho chamado “Kalahen” nas mesmas condições que seu debut, "Dragon”, sem apoio e sem gravadora. Em 1992 o selo Mellow Records o trouxe a luz em um formato CD. “Dragon” também ganhou um novo lançamento, em 2012, em formato LP com belo e arrojado encarte, pelo selo Golden Pavillion.

"Kalahen (1977)"

Por mais que o Dragon tenha se descolado do tempo em que concebeu os seus álbuns, suas composições, dando-lhe o caráter de banda ingênua e até mesmo amadora, traz ideias sonoras inventivas e interessantes, algo extremamente instigante que realmente impressionam. E o que chama a atenção é o contraste de momentos sombrios e soturnos com momentos alegres, edificantes e solares. O que fascina e enaltece a cena progressiva, são essas nuances rítmicas que faz do som complexo e fascinante, ao mesmo tempo.

O Dragon mostrou potencial, mostrando ter sido uma grande banda de rock progressivo, digna e excitante, em alguns momentos. Uma pena não terem produzido mais, ter tido uma longevidade discográfica e terem saído de cena. 

Bem pelo menos é o que parece ser, pois pouco se tem de informação sobre o paradeiro de seus integrantes e que destino teriam rumado dentro da música. O fato é que, como um cometa, deixou alguma marca pela sua verdade sonora registrado em seus álbuns simples, mas significativos. Recomendado!



A banda:

Bernard Callaert na guitarra e backing vocals

Christian Duponcheel nos teclados, sintetizadores, mellotron

Jean-Pierre Houx no baixo, piano, sintetizadores, trombone e backing vocals

Georges Venaise na bateria e flauta

Jean Venaise nos vocais e guitarra

 

Faixas:

1 - Introduction (Insects)

2 - Lucifer

3 - Leave Me with Tears

4 - Gone In the Wind

5 - In the Blue

6 - Crystal Ball

 

 

"Dragon" (1976)























quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Necronomicon - Tips Zum Selbstmord (1972)

 

Rock n’ roll é celebração, é festa, é o estado de êxtase corpóreo e mental, mas também é capaz de nos entregar a agonia da reflexão de tempos sombrios de ontem, hoje e sempre. Bandas e álbuns sintetizam, contam e catapultam, por intermédio de sua arte, para o mundo, as nossas fraquezas enquanto sociedade, enquanto civilização e, por vezes, é combatido e ridicularizado por esta mesma sociedade, pois esta tem medo de vislumbrar as suas vulnerabilidades.

Há rock para todos os tipos e percepções, como costumo dizer, o universo é vasto e inexplorado, não apenas no quantitativo das bandas espalhadas por este mundo, mas também pelos temas por estas propostas em seus trabalhos.

E como o rock n’ roll é a antítese, a contra mão de tudo que preconiza essa sociedade podre, doente e extremamente conservadora, os cenários são melancólicos, pessimista, mas real, duro, perigoso.

Expulsar a raiva, abraçar a dor, seguir por caminhos tortuosos e documentar as tribulações da humanidade e apresentar por contornos de uma arte marginal e dura parece ser uma característica de bandas oriundas de uma estrutura e realidade periférica, de músicos que padeceram para construir não apenas a sua carreira musical, mas seguir a sua vida sob o aspecto social, econômico etc. Essa é a sua inspiração, tão concreta, real e próxima.

E não se enganem que na cena Krautrock, na Alemanha, no fim dos anos 1960, essa era a realidade que estava impregnada, intrínseca na base de seus músicos e da realidade que os cercava. Uma realidade de uma Alemanha destroçada em um pós-guerra, com um país mergulhado em um caos econômico, social e político, sendo fatiado por blocos de sistemas políticos que se duelavam.

Jovens sem perspectivas, tendo que viver em uma sociedade com baixa autoestima, sem referências culturais, ofuscadas e absorvidas por enlatados dos países que o fatiou. Esse era o panorama naqueles sombrios tempos na Alemanha nos anos 1960/1970 e foi com esse triste panorama que foi concebido o krautrock: um amontoado de moleques hippies, que queriam mudar o mundo ou pelo menos a Alemanha e a música não era o cerne da causa desses jovens, mas que foi surgindo aos poucos até se constituir como uma cena sólida.

De alguns sons minimalistas e pouco ortodoxos e sonoridades pesadas, densas, de atmosfera carregada. Todas as expressões sonoras, diante de tanta diferença e num quadro pintado com tantas tintas e contornos, convergiam independente de letra ou ausência desta, para um fim: subverter o status quo. É isso que, pelo menos para mim, atrai no rock alemão daquela época. Sonoridade diversificada com um único fim: se colocar em uma posição marginalizada.

E uma banda merece uma menção, pois se adequa a esse cenário dos anos 1970 e que, construiu a sua obscura e precoce história discográfica com base nessas perspectivas sociais e comportamentais. Falo da banda NECRONOMICON. Talvez o seu nome não figure entre os grandes e conhecidos nomes do rock germânico, tem um status de banda cult, mas sempre trafegou na obscuridade e o seu nome e teor das letras, bem como a sua peculiar e estranha sonoridade parece corroborar a sua condição de outrora.

Necronomicon

O Necronomicon se formou em Aachen e foi uma das poucas bandas em sua época, lá para o ano de 1970, quando foi concebida, que ousou tocar músicas em sua língua nativa, em alemão. Walter Sturm (vocal, guitarra), Norbert Breuer (vocal, guitarra) e Gerd Libber (baixo) se juntaram no verão de 1970. O baterista Harald Bernhard logo se juntou ao grupo, assim como Fistus Dickmann um pouco mais tarde no teclado. Detlev Hakenbeck assumiu o baixo em 1971 e passou para Bernhard Hocks em 1972.

Necronomicon em 1970

Aachen tinha uma forte efervescência musical, com uma grande cena jovem, em clubes que, pode parecer louco, eram dirigidos pelas igrejas locais, mas muito abertos para as manifestações culturais da juventude. Alguns músicos, que viriam a formar o Necronomicon, tinham algum sucesso com as suas primeiras bandas e o exemplo era Walter Sturm que tinha uma banda chamada “The Crickets” (adaptado da banda Buddy Holly), enquanto Norbert e Gerd com a banda “Love of Tune”. Em 1971, por exemplo, Aachen abrigou um festival ao ar livre com Deep Purple, Pink Floyd etc.

A origem do nome, claro, vem das obras do escritor seminal HP Lovecraft e em seus primeiros dias a banda se fixou em tocar covers de bandas conhecidas e estabelecidas como John Mayall, Pink Floyd, Ten Years After, Black Sabbath, Uriah Heep e Deep Purple. A banda, embora tenha gravado seus poucos álbuns em alemão e tenha sido consequentemente, uma das poucas bandas a gravar em alemão, começou a cantar em inglês, gravando material, inclusive, para a “History of a Planet”, mas depois decidiu mudar para textos em alemão, escritos por Norbert Breuer, que escreveu sobre destruição ambiental impensada, superpopulação, exploração, injustiça e violência.

A decisão pelo nome da banda, Necronomicon, veio com Walter Sturm, logo no nascimento da banda, em fevereiro de 1970, mais precisamente nos primeiros ensaios que começaram no verão daquele ano. Sturm, até então estudante de psicologia, se deparou com as histórias sombrias de HP Lovecraft e a sua invenção do livro proibido dos mortos, “Necronomicon”, propondo ao resto da banda tal nome. Os demais não estavam muito interessados em histórias de terror e depois de algum tempo tocando covers, Norbert Breuer veio com algumas composições que havia feito com a ideia de criar uma obra sobre a “História de um Planeta (“History of a Planet”).

Isso foi altamente influenciado pelas ideias então vindouras (e agora ainda mais importantes) da humanidade destruindo seu próprio planeta pela poluição, guerras, exploração e superpopulação. Deve de ter apresentado este novo material aos amigos mais próximos, decidiu-se fazer as letras em alemão (antes estava em inglês) para levar a mensagem ao público. 

Em 1971 o Necronomicon foi convidado como banda de apoio para um grande show da banda holandesa Livin' Blues. Para este show alugaram uma torre de guitarra de 100 Watts London City que fez uma mudança de 100% no som da banda. Este concerto foi muito bem sucedido e de alguma forma serviu como um avanço para o desenvolvimento musical da banda. Nesse show a banda pela primeira vez tocou algumas dessas músicas para um público maior e o público correspondeu bem. Depois disso, decidiu-se publicar algumas das novas músicas em vinil. E assim nascia “'Tips zum Selbstmord”, ou melhor, seis faixas desse projeto, o “The History of a Planet”, foram escolhidas para compor este álbum.

Na primavera de 1972, o Necronomicon gravou essas seis músicas para “Tips zum Selbstmord” em um pequeno estúdio em Kerkrade, na Holanda, mas gerido por dois alemães, das quais tiveram 500 cópias produzidas por Carl Lindström, em Colônia. A decisão por este estúdio se deu devido ao custo baixo, onde a banda poderia pagar.

Demorou cerca de cinco dias para gravar o álbum e foi mais ou menos ao vivo por causa do equipamento técnico um tanto quanto limitado. Se a banda não tivesse um “patrocinador” (Hubert Herwartz, um amigo de Norbert com um pai “rico”… e um fã do Necronomicon desde o início) não seria possível a produção do álbum, afinal todos os integrantes da banda eram estudantes.

O título não tem nada a ver com suicídio, que, traduzindo significa (“Instruções para o suicídio”), mas se refere à devastação ambiental, do planeta Terra, da devastação da sociedade, da humanidade, com relação aos seus destrutivos costumes. Não te soa algo atual? Uma pena!

E aqui vale uma curiosidade com o lançamento do álbum, no que tange a sua estética gráfica: ela pode ser dobrada de cinco maneiras, ou seja, é composta por seis superfícies quadradas que ao serem abertas formam uma cruz. O conceito holístico do nome da banda, a sua música, letras alemãs e o título do LP, realizado pela primeira vez em 1972, encontrou sua conclusão artística no design da capa de Harald Bernhard. Bernhard estudou gráficos no politécnico de design em Aachen e trabalhou muitos anos como professor de artes em uma escola secundária em Colônia. A contribuição de Harald Bernhard para a arte gráfica de “Tips zum Selbstmord”' foi grande.

A música do Necronomicon, em “Tips zum Selbstmord”, atraiu aqueles que dificilmente ou nunca lidaram com os fatos da guerra, queixas sociais e ameaças socioambientais, por isso que combinaram sua música com textos em alemão, para criar nitidamente um estilo sonoro e que este se adequasse ao tema, muito denso e complicado de se tratar, ou seja, o estilo musical do Necronomicon é característico do Necronomicon. Assim é o primeiro álbum da banda: música clássica, jazz, folclore e rock, com hard rock, har psych e prog rock. O canto polifônico é usado como um importante elemento sonoro. Tem sido mostrado em muitos shows que a música da banda atraiu um grande público.

A concepção de “Tips zum Selbstmord”, ou seja, das letras, claro, veio, em sua maioria de Norbert Breuer, que vinha com a ideia e as letras e o resto da banda começava a trabalhar nela, adicionando partes de guitarras, teclados, baixo etc. No álbum quatro das seis faixas foram ideias de Breuer, já as outras duas músicas iniciadas por Sturm e Hocks. Portanto a formação do Necronomicon que gravou “Tips Zum Selbstmord” trazia: Walter Sturm na guitarra e vocal, Norbert Breuer na guitarra e vocal, Fistus Dickmann no órgão, sintetizadores e vocais, Bernhard Hocks no baixo e vocal e Harald Bernhard na bateria.


“Prolog” começa com um vocal a cantarolar e rindo, ao mesmo tempo, mas de repente entra a guitarra, poderosa, imitando uma linha que o vocalista acabou de cantar e assim segue com as guitarras sujas, arrogantes, logo depois entra na “briga” o órgão no mesmo compasso com altivez, com uma bateria marcada e forte, com solos empolgantes de guitarra e um baixo pulsante e intenso. A mensagem da música aborda um aviso para não ser descuidado com o planeta.

"Prolog"

"Requiem Der Natur" tem uma introdução meio space rock, meio assustadora, a guitarra se junta, suavemente a essa proposta meio contemplativa, pastoral, bem como o vocal, o órgão e o baixo. Mas depois de algum tempo a bateria e guitarra se unem em um frenesi fantástico, em uma massa agressiva e poderosa. Agora a guitarra, bateria e baixo assumem o controle e logo depois os teclados. Uma levada meio jazzy também se faz evidente e traz um coro de igreja na parte final. A letra trata de memórias de um mundo intacto com pássaros voando por florestas ainda verdes, ar não poluído, lindas flores crescendo por toda parte.

"Requiem Der Natur"

"Tips Zum Selbstmord" abre com poderosos solos de guitarra enquanto a bateria entra. Os vocais chegam quase que gritando, estridente. A bateria soa poderosamente, enquanto a guitarra rasga na mesma toada! A faixa acusa a humanidade de ser descuidada, sem consideração e responsabilidade para salvar o ambiente de sua própria vida.

"Tips Zum Selbstmord"

"Die Stadt" abre suavemente com vocais frágeis e uma guitarra tranquila, mas, para variar, o peso retorna, enquanto o vocal cuspia as palavras com uma guitarra mais pesada também. A letra fala de cidades impessoais com pessoas que não se conhecem, morando em apartamentos pequenos, mas caros, interessados apenas no lucro, no lucro pessoal.

"Die Stadt"

“In Memoriam” abre mais pesada, direta ao ponto! Mas logo fica mais suave com vocais mais discretos. Um contraste interessante característico do álbum, da banda. A música traz reflexões sobre um mundo com distribuição injusta dos mais ricos, comida, espaço para viver, superpopulação.

"In Memoriam"

"Requiem Vom Ende" abre com uma ótima sonoridade de guitarra que é substituída por melodias vocais rápidas e órgão. De volta à guitarra enquanto a bateria segue forte, consistente. Os vocais trocam com alguns solos de guitarra repetidas vezes, sem contar com excelentes linhas de baixo bem pulsantes. A letra traz a visão de um mundo após a autodestruição. É Fim da “História de um Planeta”.

"Requiem Vom Ende"

O estilo complexo do Necronomicon sempre foi motivo de debate e críticas dentro e fora do Necronomicon e isso, claro, suscitou algumas saídas. Fistus Dickmann saiu em 1973, um ano após o lançamento do debut da banda, entrando Dieter Ose, um belo tecladista que, graças ao seu estilo pouco ortodoxo de tocar se adequou à proposta da banda, bem como comungava das ideias sociais do Necronomicon. No início daquele ano Ose e Norbert começaram a fazer novas composições ainda mais complexas do que “Tips zum Selbstmord”.

Sturm também fora assediado para sair da banda recebendo uma proposta para tocar em outra grande banda obscura oriunda de Aachen, o Rufus Zuphall. O Rufus sempre foi o principal concorrente do Necronomicon na cena rock de Aachen. Em 1973, Günther Krause, o frontman e guitarrista de Rufus Zuphall deixou a banda e Udo Dahmen e Manfred Spangenberg (baterista e baixista de Rufus Zuphall) contatou Walter Sturm para entrar na banda e a ideia do Rufus Zuphall era levar mais peso a banda com a entrada de Sturm. E diante da crise instaurada no Necronomicon Sturm saiu da banda para respirar novos ares, isso ainda em 1973.

Mas depois de uma passagem até que bem-sucedida no Rufus Zuphall Walter Sturm retorna ao Necronomicon encontrando um panorama sonora completamente novo, com músicas mais complexas que duravam cerca de 30 minutos, inclusive.

Necronomicon em 1976

O Necronomicon não chegou a realizar shows e turnês com “Tips zum Selbstmord”, tinham pequenos grupos de amigos bem leais a sua música, não sendo, claro, muito fácil divulgar seu trabalho, até porque também sua música estava muito a frente do seu tempo e demorou cerca de 15 anos após o seu lançamento para que a banda ganhasse alguma visibilidade, custando a dissolução de sua formação original. Em 1974 a banda chegou a fazer alguns shows, mas o público foi ficando cada vez menor.

“Tips zum Selbstmord” teve alguns relançamentos, seja em CD e LP, em 1996, 2004 e 2008. Reza as boas informações de que a banda estaria disposta em relançar oficialmente de 'Tips zum Selbstmord' em qualidade de som original retirada das fitas originais e um “Live LP” de gravações feitas em um show em 2019.

Diante desses reveses a banda findou as suas atividades em 1976, retornando apenas em 2012, mas com ensaios em 2010, gravando um álbum de estúdio chamado “Haifische” e mais tarde o álbum “Verwundete Stadt”, em 2017. A expectativa é de que em um futuro próximo possamos ter novos trabalhos dessa obscura e gigante banda germânica setentista.




A banda:

Walter Sturm na guitarra solo, vocais

Norbert Breuer na guitarra, vocais

Fistus Dickmann no órgão, sintetizador, vocais

Bernhard Hocks no baixo, vocais

Harald Bernhard na bateria

Com:

Annegret Finken, Irmgard Lambertz, Maria Wirtz, Sophie Finken no alto vocal

Michael Breuer, Wilhelm Busacker no baixo vocal

Elisabeth Schlingmann, Maria Gartmann no soprano vocal

Karl Lenz, Manfred Wirtz, Rudolf Schlingmann, Willi Mertens no tenor vocal


Faixas:

1 - Prolog

2 - Requiem Der Natur

3 - Dicas Zum Selbstmord

4 - Die Stadt

5 - In Memoriam

6 - Requiem Vom Ende



 "Tips Zum Selbstmord" (1972)

 


 









































quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Ritual - Widow (1983)

 

A história da indústria da música está repleta de pitorescos e incomuns momentos que definitivamente vale a pena ser contada. Por isso a existência deste humilde e reles blog, porque aqui bons amigos leitores a história também tem o seu lugar de protagonismo, bem como, claro, a música, afinal, convenhamos que ambos se complementam.

E muitas dessas histórias, desses momentos são daquelas bandas, inúmeras, diga-se de passagem, que não chegaram ao estrelato, que não atingiram o status de banda conhecida, não pelo fato de serem ruins, uma porcaria, mas o sucesso é sob o aspecto comercial da coisa e esse sim é no mínimo “digno” de questionamentos no que tange a qualidade sonora.

Mas este reles e humilde blog que o nobre leitor lê é uma ode ao fracasso! Nós amamos o fracasso, porque nele reinam absolutas as bandas obscuras, esquecidas, vilipendiadas pela história da indústria fonográfica. O fracasso é extremamente rico e rende histórias e momentos únicos.

Talvez esse tal fracasso possa ser dissecado, entendido de várias formas: a banda estar na hora e lugar errado, a tal da sorte, como se qualidade dependesse de sorte e afins, mas como falamos em mercado, em uma indústria orquestrada, geralmente, por um sistema destrutivo e paternalista, muitos sucumbem para poucas “oligarquias” prosperarem e sucesso se torna algo totalmente raso.

E essa banda que vos apresento neste texto sintetiza com fidelidade esse panorama que, por se tratar de um sistema, perdura desde os seus primórdios, com algumas mudanças de “aperfeiçoamento” nos dias atuais com alguns adventos tecnológicos, por exemplo. Falo da banda britânica RITUAL.

Ritual

Já começa pelo nome, digamos pouco ortodoxo. Não chega a ser algo agressivo, indulgente, mas que suscita algumas interpretações ameaçadoras que foge do maldito status quo de uma sociedade podre e pseudo conservadora. Mas para os pagãos da música, atrai, no mínimo, atenção e foi o que aconteceu basicamente comigo. Quando se lê um nome desses, é como se fosse mesmerizado.

E quanto a banda, foi formada em 1973 e por anos e anos trafegou por circuitos de clubes sombrios é fétido, na incessante e, às vezes, inglória busca por um mísero contrato para gravar a sua arte, mas absolutamente nada vinha, nenhum convite.

E assim o foi por quase 10 anos! A persistência é um dos pontos positivos dessas bandas obscuras, a defesa de suas verdades sonoras é o maior e mais relevante patrimônio de tais bandas! Seu single saiu em 1981 e o seu primeiro álbum lançado em 1983 pelo selo “Legend Records”.

Era o auge da famosa “New Wave of British Heavy Metal”, a nova cena do heavy metal britânico e ainda assim o Ritual não conseguiu se “encaixar” na cena assumindo certo protagonismo comercial como bandas do naipe de Iron Maiden, Def Leppard entre outras.

O seu álbum “Widow” trazia uma miscelânea do hard rock e do heavy metal, este último no auge, haja vista que a banda trafegara nessas duas cenas, é oriunda do hard setentista e teve seu álbum lançado nos anos de ouro do heavy metal que era, de fato, a “onda” do momento.

“Widow” corrobora definitivamente de que o hard construiu as arestas para o heavy metal reinar nos anos 1980, mas ainda assim o álbum, como disse, não se “encaixou” aos anseios do “mercado”, ou melhor, da cena da época, composta basicamente por jovens que foram moldados a gostarem do heavy metal.

O Ritual, com seu recém-lançado trabalho, foi, diante disso, incompreendido, mal divulgado pela gravadora, não foi tocado nas rádios mais populares e ficou à margem do gradativo sucesso da NWOBHM e das suas principais bandas. A banda caiu no mais puro e triste ostracismo, aquém do sucesso estrondoso e do bem-sucedido heavy metal que também logo cairia em segundo plano, dando lugar ao “metal farofa” surgida na “animada” Los Angeles.

“Widow”, quando lançado à época, no formato LP teve, foi concebido quase que, diria “artesanalmente”, com apenas 2.000 cópias, então aos que adquiriram essa pepita é digna de edição de colecionador.

O resultado de “Widow” foi tão desastroso para o Ritual que, em virtude dessa mínima visibilidade e também da arte gráfica do álbum, o nome da banda foi confundida com “Widow” e não “Ritual”. Inclusive o nome “Widow” está listado em alguns sites importantes de rock e heavy metal, causando confusão e dúvida até entre os fãs do estilo.

E ainda sobre a arte gráfica reza a lenda de que a imagem da mulher ajoelhada e nua se trate de uma bruxa sendo crucificada ou em uma espécie de ritual dando uma razão de ser ao nome da banda, mas isso nada mais é do que uma licença poética de quem vos fala.

Assim se desenha o debut do Ritual: Resquícios evidentes do hard rock oculto com contornos do novo heavy metal que figurava nos primeiros anos da década de 1980. E ouvindo esse belo trabalho “old school” percebe-se, pelo menos para este que vos fala, uma evidência dos primeiros do occult rock, sobretudo pelo teor das suas letras, mas, em algumas entrevistas, o guitarrista e vocalista Re Bethe, sempre tentou minimizar tal afirmativa, mas é até razoável pensar se tratar de um álbum de occult rock, pois traz ecos da assombrosa abordagem do início dos anos 1970 e sua pequena vertente do rock oculto.

A formação do Ritual na construção de “Widow” trazia além de Re Bethe, na guitarra e vocal, tinha Phil Mason no baixo e Rex Duvall na bateria. E voltando às apresentações de “Widow” a sua atmosfera segue com faixas pouco convencionais trazendo uma aura sombria, soturna, entregando, em alguns momentos, algo arrastado, lamacento, lembrando um doom metal, na sua gênese.

A faixa inaugural do álbum, a música título, “Widow” carrega consigo a firme vertente hard obscura do início dos anos 1970 que lembra, em alguns momentos, os primeiros trabalhos do Black Sabbath, com riffs cativantes de guitarra, bateria marcada, cadenciada e baixo pulsante ditando o ritmo. O vocal, soturno, limpo, melódico, melancólico abrange a toda essa textura sonora entregando uma sonoridade extremamente emocional e sombria.

"Widow"

“Come to the Ritual” muda a “chavinha” literalmente! Traz o heavy metal em voga naquela época, com mais velocidade, elétrico, frenético, riffs de guitarras mais pesado e poderoso. O vocal mantém a chama melancólica, porém um pouco mais indulgente e sedutor, algo ameaçador que sintetiza a letra e mensagem da música. Outro ponto interessante da faixa é a mudança rítmica seguindo uma proposta mais progressiva, como na faixa anterior, diria, dando arestas para o que convencionaria mais no futuro como metal progressivo.

"Come to the Ritual"

“Rebecca” é mais “urgente” no que diz respeito ao heavy metal. O protótipo perfeito da vertente repaginada dos primórdios setentistas do hard rock. Mas o peso contrasta com uma cadência que me remete ao doom metal em sua gênese. Mas não desperdiçam nos solos de guitarra, embora diretos e simples. O vocal, mais imponente, não deixa de valorizar a sua limpidez e dramaticidade.

"Rebecca"

“Never for Devil” traz, em sua introdução, a chuva, os trovões eternizados pelo Black Sabbath em seu clássico de mesmo nome, mas que irrompe em um galopante solo de bateria e um pulsante e intenso baixo, a “cozinha” da banda não faz feio e dá abertura para um poderoso e frenético heavy rock que flerta, cronologicamente e instrumentalmente falando, com os anos 1970 e 1980, trazendo o peso de um e a velocidade do outro, respectivamente. Não há como deixar de bater cabeça e dançar nesta faixa.

Morning Star” segue a mesma proposta da faixa anterior, mas um tanto quanto introspectiva e até, por vezes, contemplativa. O peso, personificado pelos riffs pegajosos de guitarra, se contrastam com o vocal melódico que “obriga” os instrumentos a recuarem no peso, em um momento mais suave, tendo apenas o baixo marcado ditando o ritmo.

"Morning Star"

“Journey” te transporta inteiramente aos anos 1970! O peso “bate de frente” com a cadência, trazendo um pouco mais de qualidade ao som, mostrando que a banda pode sim, trabalhar um pouco mais a sua perspicácia instrumental, com guitarras com solos mais limpos e me trabalhados, apesar de diretos e bateria bem trabalhada, sem contar com o vocal repetidamente sendo executado de forma limpa e competente.

E fecha com a faixa “Burning” que me remete aos anos 1970, porém com uma pitada generosa de occult rock e suas bandas de gueto, esquecidas, ao estilo Coven e primeiros álbuns do Blue Oyster Cult. O Ritual nessa faixa tira um pouco o pé do freio, com uma pegada mais “sedutora”, pop, por vezes, atraente como todo bom e velho occult rock.

"Burning"

Mesmo com a nítida produção de baixo orçamento a banda conseguiu sintetizar, sonoramente, a sua proposta e revelando as suas raízes que o tempo não se encarregou de esvair. Embora o álbum tenha trazido as novidades do período em que fora concebido corrobora as suas verdades calcadas na gênese dos anos 1970. O flerte com as vertentes nada mais é do que essa confirmação, de que a gestação do heavy metal se deu com o pai hard rock no início dos anos 1970, ganhando corpo nos anos 1980, ganhando a sua independência nos dourados anos 1980.

Tudo em “Widow” é úmido, endurecido, pesado, sombrio e que mostra, personifica uma dura jornada de uma banda que, por muitos e muitos anos, em uma invejável persistência conseguiu superar os reveses impostos pela paternalista e conservadora indústria fonográfica e gravou seu álbum que, embora não tenha tido a audiência necessária revela a importância de vertentes de duas décadas importantes para o heavy rock.

Depois de algum tempo, não muito, do lançamento de “Widow” o Ritual mergulhou em um hiato tirando-o de cena, certamente motivado pelo insucesso de seu álbum, sob o aspecto comercial e o baixo apoio da sua gravadora e das rádios, mas retornando, dez anos depois, com o seu segundo álbum, chamado “Valley of The Kings”, de 1993.

Diante do tamanho da importância e da influência que o Ritual e o seu debut, “Widow”, representou para a música e os músicos, era inevitável que ele fosse revisitado, revisado e relançado, ganhando uma nova e convincente arte gráfica em 2008 pelo selo Shadow Kingdom Records com faixas bônus.

"Widow" em reedição de 2008

O Ritual, mesmo que nos escombros escuros do rock n’ roll ditou regras, serviu de referência para as principais vertentes da música pesada, trafegou por elas, se tornando necessário, urgente e poderoso! E assim o é com seu álbum, “Widow”, que parece resistir ao tempo.



A banda:

Phil Mason no baixo

Re Bethe nos vocais e guitarra   

Rex Duvall na bateria

 

Faixas:

1 - Widow     

2 - Come to the Ritual       

3 - Rebecca 

4 - Never for Evil     

5 - Morning Star      

6 - Journey  

7 - Burning  

 

 

"Widow" (1983)