domingo, 1 de maio de 2022

Guru Guru - Live Essen (1970)

 

O ano era 1968, Alemanha Ocidental. A cena contracultural alemã conhecida como “Krautrock”, que antes da música eram grupos de hippies insatisfeitos com a sociedade germânica conservadora no pós guerra e seus comportamentos e que logo buscaram na cultura musical minimalista a sua forma de comunicar-se e traduzir as suas mensagens começava a se manifestar.

Bandas começaram a surgir dessas comunidades, a cena era um embrião. Bandas como Kraftwerk, Can e Amon Duul II eram os expoentes, os precursores, com as suas músicas experimentais, psicodélicas, lisérgicas e de difícil digestão para uma sociedade que ouvia basicamente os enlatados pop dos Estados Unidos.

Mas o miolo de outra grande banda que representaria, com maestria, a cena krautrock na Alemanha viria com a reunião de dois amigos, o baterista Mani Neumeier e o baixista Uli Trepte que se conheceram em 1963 e se juntaram a uma banda de jazz que se chamava Irene Schweizer Trio, da pianista suíça Irene Schweizer.


Irene Schweizer Trio com o álbum "Jazz Meet India", de 1967

Em 1968 quando Irene seguiu seu próprio caminho e o Trepte mudou para o baixo o “Guru Guru Groove” foi formado calcado nas experimentações e improvisações jazzísticas que aprenderam no passado com a banda da pianista suíça Irene Schweizer mais o vigor e o peso do rock n’ roll e algumas pirotecnias oriundo da energia do baterista Mani e o talento de Tepte.

Com o conceito formatado e algumas mudanças na formação eles se juntaram ao ex-guitarrista do Agitation Free, Ax Genrich e definiram que essa era a formação ideal para um tipo de apresentação ao vivo pautado na energia no palco e que Genrich correspondia plenamente e o nome da banda foi encurtado para GURU GURU.

Guru Guru

Seu primeiro contrato com uma gravadora já, claro, com o intuito de registrar o seu primeiro trabalho foi com a gravadora Ohr que à época era conhecida por recrutar bandas e músicos com uma sonoridade de vanguarda, entrando aí a cena krautrock.

E foi assim que surgiu o debut do Guru Guru chamado “UFO”, de 1970. O nome do álbum é uma clara alusão a sonoridade incomum da banda que trazia uma sonoridade selvagem, forte, eloquente, calcada na guitarra com efeitos eletrônicos arrojados, como pedais de wah wah, tendo a psicodelia como ponto forte e um hard rock intenso para a época, além da inventividade de Neumeier e do baixista Trepte.

Guru Guru - "UFO", de 1970

As apresentações eram intensas e indulgentes, beirando a agressividade, a potência e a energia de seus integrantes e tido como uma aberração entre até mesmo entre os colegas de outras bandas, sem contar que tinha manifestações políticas e filosóficas, típicos da cena kraut, pois os músicos faziam parte da União Socialista Alemã de Estudantes e fizeram muitos shows nas universidades, divulgando bem “UFO”.

E diante desses vários shows em universidades, em faculdades e também em eventos estudantis, o álbum do Guru Guru, o “UFO”, alçou voos, com o perdão da analogia, ganhando alguma credibilidade e visibilidade. Esse reconhecimento se deu com um convite que a banda recebeu para tocar no 3º Pop & Blues Festival de Gruga-Halle, realizado em Essen, na Alemanha, entre os dias 22 e 25 de outubro de 1970. O Guru Guru tocaria no último dia do festival, 25 de outubro.

Festival de Essen, Alemanha, de 1970

Certamente esse foi o primeiro e mais representativo show do jovem Guru Guru e que traria muita publicidade para os meninos da banda que tocaria nada menos com bandas do naipe de Taste, Fotheringay, East Of Eden e Tyrannosaurus Rex no palco principal, no mesmo dia, mas não no mesmo palco, mas tocaria, em um palco pequeno lateral, com as bandas alemãs como Frumpy, Embryo. Já era muito! 

E essa apresentação teve um registro e que foi lançada apenas em 2003 pela abnegada gravadora Garden of Delights com o título de “Guru Guru – Live at Essen 1970” e é esse álbum que será alvo de resenha hoje. Vale dizer também que a criação da Garden of Delights foi feita com a reincidência de alguns executivos da Ohr que havia gravado o primeiro álbum de estúdio do Guru Guru. Nem tudo é coincidência ou destino!

A qualidade sonora de “Live Essen” é muito boa, pois, como reza a lenda que as músicas, a apresentação foi gravada diretamente da mesa de som do show, sendo o álbum gravado e registrado por intermédio dessa gravação.

A Garden of Delights tem um histórico de gravar shows e/ou pequenas apresentações das bandas alemãs e esse show do Guru Guru em especial traz um caráter de bootleg, mas que, de alguma forma, entrega toda uma estrutura técnica de gravação e de lançamento oficial, sobretudo nos dias de hoje que muitas bandas estão lançando seus materiais antigos para fugir das piratarias.

“Live Essen” é histórico por ter sido um dos primeiros shows do Guru Guru com a formação original, que gravou o seu primeiro álbum, “UFO”, o que torna esse registro memorável e importante, uma das primeiras aparições ao vivo de uma das mais emblemáticas bandas da cena kraut, do rock alemão, o Guru Guru.

O registro ao vivo conta com apenas três músicas, mas músicas com aquele estilo que fez do Guru Guru importante na cena, com muita improvisação instrumental, com faixas longas e uma energia incomum para as bandas da época que pautavam na introspecção do experimentalismo. O Guru Guru era intenso, era forte e trouxe ao kraut o prog com viés hard e “Live Essen” entregava definitivamente.

O álbum é inaugurado com a faixa do álbum “UFO”, “Stone In” que já começa lisérgica aliado a um peso calcado na bateria firme de Mani Neumeier e a guitarra dilacerante de Genrich com uma textura distorcida e perturbadora. É o momento em que a banda está solta para liberar seu processo produtivo e criativo, estavam no auge e essa faixa diz tudo. Repleta de viradas sensacionais e momentos rítmicos pesados e leves. Incrível!

Guru Guru - "Stone In", Live Essen 1970

Na sequência tem a clássica, também do álbum “UFO”, “Der LSD-Marsch”. Ela começa obscura, intimista, ameaçadora. Um exemplar típico de psicodelia totalmente experimental e minimalista que remete, com fidelidade sonora, ao conceito do krautrock. Pode-se notar também “pitadas” generosas de space rock dado as grandes doses dos efeitos da guitarra, mas que, gradativamente vai ficando pesada, intensa e agressiva graças a, mais uma vez, a bateria de Mani e os solos e riffs de guitarra de Genrich.

Guru Guru - "Der LSD Marsch", Live Essen 1970

E fecha com a até então faixa nova, que seria lançada um ano depois desse show, em 1971, com o clássico segundo álbum do Guru Guru, a fantástica e animada “Bo Diddley”, do excelente “Hinten”, cuja resenha pode ser lida aqui. Essa começa com a porradaria na bateria de Neumeier e também aquela dose de humor sarcástico que notabilizou na Alemanha o Guru Guru. E entra o baixo pulsante fazendo da “cozinha” uma sinergia sonora perfeita, dando o tempero com a guitarra rosnando em riffs poderosos e agressivos. Definitivamente um exemplar de proto metal, dada a intensidade em que a música foi executada ao vivo, ganhando vida maior.

Guru Guru - "Bo Diddley", Live Essen 1970

“Live Essen” corrobora, em minha humilde opinião a melhor fase do Guru Guru, o power trio que era caracterizado por Tepte, Genrich e Neumeier, a formação que construiu a “era” gloriosa da banda, mais calcada no peso lisérgico, no hard progressivo, aliado a despretensão, a energia, a atmosfera agressiva e por vezes experimental, com o space rock protagonizando. Foi nessa fase que o Guru Guru construiu a sua discografia mais representativa, com “UFO”, “Hinten” e, mais tarde, o excepcional “Kanguru”, lançado em 1972. 

“Live Essen” é a personificação dos anos dourados do Guru Guru, o ápice da representatividade do krautrock menos ortodoxo e extremamente versátil e diverso. Há quem diga que a última faixa, “Bo Diddley” foi cortada, talvez por algum problema técnico ou de ordem organizacional do festival, mas o fato que isso não influencia negativamente em nada o registro mágico de uma banda espetacular ao vivo em pouco menos de 40 minutos. Altamente recomendado!



A banda:

Ax Genrich na guitarra

Mani Neumeier na bateria e vocal

Uli Trepte nos vocais e baixo


Faixas:

1 - Stone In

2 - Der LSD-Marsch

3 - Bo Diddley

 

























sexta-feira, 22 de abril de 2022

Alamo - Alamo (1971)

 

Definitivamente o hard rock estadunidense ainda tem a capacidade de nos revelar grandes pérolas obscuras. Verdadeiras pepitas sonoras que ainda sequer foram descobertas, inalcançadas, prontas para serem reveladas em garimpagens para lá de fantásticas e encontradas no mais belo estado bruto do mais puro e genuíno rock.

Não se enganem que o hard rock americano se limita a bandas manjadas, conhecidas como Van Halen, temos um universo a se desbravar que estão, empoeiradas, nos baú do rock.

Lembro-me que esta banda que será abrilhantada nesta humilde resenha eu descobri, claro, em minhas garimpagens pela grande rede e quase que despretensiosamente eu encontrei uma banda com um nome um tanto que inusitado, pelo menos para mim, e nela me aventurei, confesso que sem muitas expectativas acerca de sua qualidade sonora.

Comecei a ouvir! O “play” me revelou uma pérola, literalmente um primor sonoro que sempre me pergunto o motivo pelo qual essa banda não atingiu êxito em sua história.

O fato é que essa pergunta suscita vários questionamentos e muitas possíveis respostas e que talvez, nos dias de hoje, não seja mais relevante comentar sobre essas questões, sobretudo pelo fato que muitas dessas bandas estão, graças ao advento da internet, redes sociais e pessoas abnegadas, ávidas, como esse que vos fala, pelo novo, faça que essas bandas, esses álbuns ganhem a luz.

Então sem mais delongas vamos às apresentações! O nome da banda é ALAMO e, como disse, foi formada nos Estados Unidos, mais precisamente na região do Menphis, Tenessee. Área boa, área dominada pelas bandas de country rock, de blues, aquelas bandas “caipiras” com sons bem peculiares, característicos da música popular americana.

Alamo

Mas não se enganem com o Alamo! Você foi enganado pelas circunstâncias do esteriótipo. O Alamo traz elementos de blues sim, em algumas faixas do seu único álbum, homônimo, lançado em 1971, mas também entrega um hard rock vigoroso, com “pitadas” generosas de rock psicodélico, em voga no início dos anos 1970, tendo a condução magistral de um belo órgão, belos teclados, dando uma textura bem interessante ao contexto sonoro da banda.

Os primórdios, o embrião do Alamo começa em 1965 com o guitarrista Larry Raspberry, que tocou com a banda Gentrys, atingindo as paradas de sucesso com a música “Keep On Dancing”.

Gentrys - "Keep On Dancing" (1965)

Adicionando, junto com a guitarra de Raspberry, o teclado excepcional e poderoso do tecladista Ken Woodley que fora membro da banda Cosmos. Esse foi o “miolo”, a “espinha dorsal” do que viria a ser a nova banda do pedaço em Tenessee, o Alamo.

Juntando-se a Woodley e Raspberry Larry Davis escalado para tocar no baixo e fechando o time entraria Richard Rosebrough assumindo a bateria. Pronto! A banda estava formada!

O álbum “Alamo” foi finalmente lançado em 1971 pelo famoso selo “Altantic Records” e foi vendida à imprensa especializada como uma espécie de novo “Led Zeppelin”. Lamentável! Lamentável que, mais uma vez, os formadores de opinião influencia negativamente no futuro das bandas antes ainda de seu nascimento. Talvez esse tenha sido o início do fim da banda que precisava ser associada a uma banda de sucesso à época, como o Led Zeppelin, para ganhar alguma publicidade e gerar algum lucro à indústria fonográfica.

Já que o Led Zeppelin foi mencionado vale, como curiosidade, ressaltar que o Alamo e o próprio Zeppelin tocaram em um festival importante da época chamado Atlanta Pop Festival em 1969, antes mesmo do Alamo lançar seu único álbum auto-intitulado.

Atlanta Pop Festival (1969)

Então dissequemos este belíssimo álbum, porque afinal é de música que precisamos, é da importância desta que faz da nossa vida, algo mais alegre, por mais efêmero que possa ser, levando em consideração que este foi o único trabalho dessa incrível banda. Um volumoso hard rock calcado em riffs e solos de guitarra e de teclado do mais puro rock sulista.

O álbum é inaugurado com a faixa “Got To Find Another Way” que já tem a introdução do poder avassalador do riff da guitarra e da bateria marcada e de forte pegada com aquele vocal rouco, alto e rasgadão. Aquele exemplar de um típico hardão setentista.

"Got To Find Another Way"

“Soft And Gentle” segue um pouco mais desacelerado, o esforço da banda em trazer uma balada fundamentada em solos mais intensos e fortes de guitarra e de fato conseguem sucesso, pois traz também uma atmosfera bem interessante com as linhas de teclado.

A sequência com “The World We Seek” tem o destaque sensacional das teclas de Woodley e o baixo potente e cheio de groove dá o tempero necessário para que esse faixa seja super dançante e muito solar.

"The World We Seek"

E eis que surge nada menos que uma das melhores faixas do álbum, “Question Raised” que, sem dúvida, é uma das mais pesadas também. Começa veloz, pesada, intensa, frenética. Cheia de energia tem uma simbiose maravilhosa entre a guitarra e o teclado em uma espécie de disputa saudável fazendo da faixa um trovão sonoro.

"Question Raised"

“Bensome Changes” inicia com um breve solo de bateria e irrompe em um blues rock volumoso, mesclado a um hard rock e um vocal excepcional que remete a uma espécie de protos toner, dado o seu peso.

Segue com “All New People” com novamente o protagonismo do órgão e da guitarra com uma sonoridade mais simples, porém direta, cheia de dinamismo e intensidade.

"Bensome Changes"

“Get the Feelin'” já inaugura com baixo e guitarra dominando a área, com uma bateria cheia de gingado, a típica música sulista, enaltecendo a pureza da música popular norte americana. Talvez seja a faixa mais complexa do álbum com algumas mudanças de ritmo, de ambiente, variando muito, mostrando a destreza instrumental dos músicos.

E fecha, com chave de ouro, com a faixa “Happiness Is Free” que também é desacelerada, com uma pegada bem comercial, mais radiofônica, mas com muita qualidade tendo o vocal mais limpo, límpido, discreto talvez, e riffs ocasionais de guitarra e alguns solos simples, mas bem executados.

"Get the Feelin'"

O tempo de vida do Alamo foi curto, logo pereceu, mas a maioria dos músicos que nela fez parte seguiu as suas vidas e carreiras musicais em outras bandas e projetos.

Larry Raspberry seguiu em carreira solo por algum tempo e logo depois formou a banda Larry Raspberry & the Highsteppers cuja vocalista, Carol Ferrante, ex-miss Tenessee, uma celebridade local, que também tentara o concurso de Miss America. Richard Rosenbrough se juntou a Lee Baker & The Agitators. E os demais integrantes passaram a tocar em bandas como Hot Dogs e Big Star. O álbum “Alamo” foi relançado em 2008.



A banda:

Richard Rosebrough na bateria

Ken Woodley nos teclados

Larry Raspberry na guitarra e vocal          

Larry Davis no baixo


Faixas:

1 - Got To Find Another Way

2 - Soft And Gentle

3 - The World We Seek

4 - Question Raised

5 - Bensome Changes

6 - All New People

7 - Get The Feelin'

8 - Happiness Is Free




"Alamo" (1971)



Download aqui
















 






domingo, 17 de abril de 2022

Gift - Gift (1972)

 

A cena krautrock germânica, em sua gênese, sempre nos reservou grandes surpresas, principalmente pelo fato de sua diversidade sonora. Sim, amigos leitores, pela sua diversidade sonora! Sempre tive a impressão de que a cena kraut era vista, interpretada com rejeição pelos fãs de música por ser simplesmente, unicamente experimental, com ruídos estranhos, aquele som minimalista e introspectivo.

Não! A cena é rica, multifacetada, grandiosa! Temos de tudo: bandas que flertavam com o psicodélico típico da segunda metade da década de 1960, no auge, sobretudo nos Estados Unidos e Inglaterra, algumas navegaram pelo jazz fusion, algumas até por músicas mais cativantes e com viés mais comercial e aquelas fundiram, majestosamente, o psych sessentista com o hard rock setentista.

A banda alvo da resenha de hoje entregou, com maestria, a última opção e criou uma proposta muito interessante do que viria a ser chamada de heavy metal dez anos mais tarde, já nos anos 1980. Era um som agressivo, pesado, intenso, com volume alto, pouco corriqueiro para época, não pela escassez das bandas, mas pelo pouco ortodoxo que essa banda praticava à época.

A banda se chamava GIFT. Era um som totalmente despretensioso, sujo, pesado e fugia um pouco ao conceito experimental e progressivo, mais comum na cena krautrock, mas que hoje atingiu o status “cult”. Mas em virtude de estar inserido em uma época que predominava o progressivo, era perceptível, em algumas nuances da música do Gift algumas viagens progressivas, mais complexas, porém sempre com o peso, o hard protagonizando a sua estrutura sonora.

O Gift nasceu na escola em 1969, em Augsburg, e o seu primeiro nome era “Phallus Dei”, certamente uma livre inspiração ao legendário debut do Amon Duul II de nome “Phallus Dei”, lançado em 1969, mudando para Gift nos anos seguintes. O nome Gift não tem muito a ver com a palavra “presente”, tradução literal para o português, mas uma palavra alemã que significa “veneno”, muito apropriado para a sua sonoridade.

Amon Duul II - "Phallus Dei" (1969)

Após alguns anos ensaiando, gravando algumas composições e esporádicos shows em lugares pequenos e de péssima estrutura, além de algumas saídas de músicos, a formação apresentada no lançamento da banda, em 1972, o homônimo, que será a estrela dessa resenha, foi: Uwe Patzke (baixo, vocal), Helmut Treichel (vocal), Rainer Baur (guitarra) e Hermann Lanze (bateria, percussão). Nick Woodland foi listado nos créditos, mas na verdade saiu da banda antes do início da gravação.

Gift

Eles foram descobertos por um produtor de Munique chamado Otto Hartmann, que assinou com a banda para o selo “Telefunken”. O Gift não gozou de muita popularidade na cena krautrock, talvez pelos motivos expostos a sua sonoridade, mas ganhou alguns fiéis adoradores, como este que vos fala ou melhor escreve, pois adotou, sobretudo, claro, neste álbum, o “Gift”, um fluxo agressivo, pesado, com viés progressivo e uma lisergia típica daquele período, na transição das décadas de 1960 e 1970.

“Gift” traz versões de hard, heavy, prog e psicodélico com extremo talento, mas mantendo uma veste despretensiosa, ao mesmo tempo. É complexo porque é orgânico, é despretensioso porque é uma música de vanguarda, revolucionária para a época. Traz seções rítmicas que apresentam mudanças de tempo, variações são vistas, o que reforça a sua “queda” pelo progressivo, com reviravoltas sonoras incríveis sem sacrificar a base, a célula personificada no seu debut: o peso, a agressividade.

O álbum é inaugurado com a faixa “Drugs” já botando o pé da porta com riffs poderosos de guitarra, baixo pulsante, bateria marcada! Excelente faixa tipicamente hard.

"Drugs"

Na sequência tem “You’ll Never Be Accepted” tem uma introdução vocal suave, melódica e logo com um riff meio meloso de guitarra com um viés bem comercial, bem radiofônico. Cadenciado, traz algumas mudanças rítmicas que me remete aos hard prog da década de 1970.

“Groupie” foge um pouco do “padrão” do álbum iniciando com a flauta dando um tom mais soturno, introspectivo e contemplativo à faixa com uma pegada um tanto quanto sessentista, das bandas britânicas dessa época.

"Groupie"

“Time Machine” abre com o já habitual riff de guitarra dando o tom e o movimento à música que logo irrompe em um hardão pesado, solar e intenso. Destaque para o vocal lisérgico e também para as mudanças de andamento trazendo uma vibe progressiva.

“Game Of Skill” começa distorcido, despretensioso, mas logo traz a retomada ao hard rock com uma proposta mais agressiva, trazendo uma versão heavy rock bem poderosa, diria um proto metal, com muita lisergia, muita psicodelia.

"Game of Skill"

“Don’t Hurry” continua com o hard rock como destaque e excelente trabalho vocal com a “cozinha” a todo vapor em extrema sinergia. “Your Life” segue com a mesma proposta anterior, pesada, intensa, agressiva, com um trabalho excepcional de guitarra e um vocal lisérgico, gritado, em alguns momentos.

O álbum fecha, com chave de ouro, com a faixa “Bad Vibrations” onde a banda, como um todo, tem destaque, mostrando uma sinergia instrumental incrível, os solos de guitarra são mais elaborados, a bateria, marcada, segue fielmente a composição vocal.

"Bad Vibrations"

A estreia do Gift é uma excelente exibição de um hard rock totalmente desleixados, intencionalmente, com melodias habilmente trabalhadas, com uma excelente seção rítmica com mudanças de tempo com ênfase na guitarra, na bateria, mas também por que não dizer no baixo?

Enfim é um trabalho excelente de uma banda extremamente coesa e plena no que fazia. Esteve longe das bandas psicodélicas e experimentais dos primórdios do Krautrock e também da complexidade de algumas bandas de hard rock inglesas, americanas e até mesmo da Alemanha, mas deixou um legado importante na história de seu país, como uma das bandas emblemáticas do heavy psych. Altamente recomendado!


A banda:

Helmut Treichel nos vocais

Rainer Baur na guitarra

Nick Woodland na guitarra e vocais (creditado, mas saiu da banda no período de gravação do álbum)

Uwe Patzke no baixo e vocal

Hermann "Mandy" Lange na bateria e percussão

 

Faixas:

1. Drugs

2. You'll Never Be Accepted

3. Groupie

4. Time Machine

5. Game Of Skill

6. Don't Hurry

7. Your Life

8. Bad Vibrations







 

 

 





 















quinta-feira, 7 de abril de 2022

Goblin - Live 1978 (1978)

 


Eu não apreciava o rock progressivo italiano, eu não gostava e não me interessava pelo rock italiano. Não sei dizer o motivo, algo relacionado a uma pré-concebida percepção de que o rock não tinha absolutamente nada a ver com a Itália, apenas as massas, vinhos e o futebol, esses sim aprecio muito.

Mas como tudo na vida, como tudo na vida pode mudar e deve mudar, os meus primeiros contatos mais, digamos, assíduos com o rock da Itália, foram em eventos regados a música rock e muita cerveja e vinho com alguns amigos mais próximos que, de forma preocupada e carinhosa, que a minha introdução ao rock progressivo italiano se deu de uma forma mais intensa, ostensiva. Traçaram uma missão em me revelar as pérolas do país da bota.

Eu, de peito aberto e coração mais acalentado, me rendi a isso tudo, até por respeito e consideração aos meus amigos, inicialmente. O que, neste início, era algo protocolar, foi, aos poucos se tornando algo sentimental, uma espécie de amor, de sentimento foi construindo e o muro do preconceito, aos poucos, ruindo.

E o pilar desse momento importante foi uma banda de Roma chamada GOBLIN. Quando eu ouvi o som de textura complexa, com jazz rock, rock progressivo, doses experimentais e psicodélicas e o hard rock, foi me arrebatando, foi me tomando de assalto e me deixei levar a cada música, a cada álbum ouvido. As audições se tornava um prazer!

E quando comecei a ler a sua história e a parceria da banda com o cineasta italiano Dario Argento e que seus álbuns basicamente serviram de base sonora para os seus filmes de suspense e terror, se fechou o amor que irrompeu com a frenética audição de sua rica discografia.

O Goblin foi criado em 1972 por Claudio Simonetti e Massimo Morante, tecladista e guitarrista, respectivamente. Em 1973 Claudio Simonetti e Massimo Morante gravaram várias músicas e cantadas, com seu amigo/empresário Giancarlo Sorbello partiram para Londres onde contataram o engenheiro de som/produtor Eddie Offord famoso por ter gravado muitos discos do Yes, Gentle Giant e Emerson Lake & Palmer que, depois de ouvi-las, decidiu produzir a banda.

Goblin em 1975

Em 1974 entram na banda Fabio Pignatelli no baixo e Carlo Bordini na bateria, o nome escolhido para a banda é "Oliver" e eles voltam para Londres onde gravam novas músicas com a adição do cantor americano Clive Haynes, conhecido meses antes em uma estação do metrô londrino, juntos eles fazem vários shows por Londres.

No entanto Eddie Offord sai em turnê com o Yes e não tem mais tempo para seguir e produzir a banda, que volta para a Itália e mais tarde graças ao pai de Claudio, Enrico Simonetti, eles conseguem um contrato com a Cinevox Record.

A banda começa a gravar um álbum (que seria lançado mais tarde sob o nome de “Cherry Five”), e durante a gravação os propõe a Dario Argento que está procurando uma banda de rock para seu novo filme (Profondo Rosso).

"Cherry Five" (1974)

Depois de ouvi-los, o diretor imediatamente decide que eles gravem a trilha sonora de “Profondo Rosso” como intérpretes e arranjadores, mesmo que inicialmente a mesma trilha tenha sido confiada ao famoso jazzista Giorgio Gaslini que já havia começado a trabalhar no filme com a orquestra. 

Após algumas discussões com Argento, Gaslini deixa o filme e o diretor pede aos meninos, aos jovens músicos, que completem o trabalho e componham as peças principais. Com Walter Martino na bateria (no lugar de Carlo Bordini), a banda muda seu nome para “Goblin” e grava a trilha sonora do filme compondo as principais músicas: Profondo Rosso, Death Dies e Mad Puppet.

Na primavera de 1975 e depois oficialmente e contratualmente em 1976, Maurizio Guarini nos teclados e Agostino Marangolo na bateria se juntaram ao grupo, o Goblin produz o álbum “Roller” cujas canções foram posteriormente usadas como trilha sonora do filme “Wampir”, de George Romero em 1977. 

A formação em a época do “Roller” foi a seguinte: Maurizio Guarini, Agostino Marangolo, Massimo Morante, Fabio Pignatelli, Claudio Simonetti, a mesma formação com a qual a banda se apresentou ao vivo entre 1975 e 1976. Em 1977 o Goblin voltou ao caminho da composição de trilhas sonoras e em 1977 fez a música para o filme “Suspiria” de Dario Argento, certamente o álbum mais experimental da banda. Guarini deixa a banda enquanto trabalhava em estúdio para a concepção de “Suspiria”.

Em 1978 o Goblin volta ao sucesso fazendo a trilha sonora do filme “Zombi”, de Gorge Romero, o álbum tem ótima repercussão, vendendo principalmente na Europa, Japão e EUA. No mesmo ano a banda lançou “Il Fantastico Viaggio del Bagarozzo Mark”, um álbum conceitual progressivo sobre o tema das drogas e a primeira ópera da banda com canções cantadas por Massimo Morante. O álbum, mesmo estando entre os mais bem sucedidos de toda a carreira, não obtém o merecido sucesso e só com o passar dos anos é reavaliado pelo público e crítica, tornando-se cult.

E a partir dessa cronologia envolvendo os melhores álbuns do Goblin, a melhor “era” da banda, os anos 1970, falarei de um registro ao vivo obscuro à época, de um show que a banda realizou na cidade de Sanremo, de um festival conhecido naquela cidade em 25 de maio de 1978, divulgando o até então novo álbum de estúdio, o “Il Fantastico Viaggio del Bagarozzo Mark” e também por ocasião do MIMS.

E no track list o que prevalece são as faixas do “Bagarozzo Mark”, com algumas faixas dos outros trabalhos do Goblin, distribuídos em um show com quase 50 minutos de duração. O show foi lançado pela Cinevox em 2000 no CD duplo "The fantastic journey in the best of Goblin Vol. 1" , mas o encarte  indicava incorretamente que era uma gravação anônima de 1979. O álbum sai pela AMS/Cinevox e teve um nascimento muito conturbado com várias segundas intenções por parte da editora romana que acabou por impor algumas escolhas.

O “Live 78” foi o penúltimo show com a formação clássica e mais bem sucedida da banda, com Massimo Morante (guitarra, vocais), Claudio Simonetti (teclados), Fabio Pignatelli (baixo), Agostino Marangolo (Bateria), com o músico convidado Antônio Marangolo no saxofone. Maurizio Guarini, um segundo tecladista que entrou na banda para tocar em "Roller”, já havia deixado a banda no final de 1976.

O que torna essa apresentação rara e importante é o fato, entre outros, da banda, embora fazendo sucesso com suas trilhas sonoras para filmes de terror e suspense e álbuns de sucesso, eram as condições e os locais que a banda vinha fazendo seus poucos shows, em lugares de péssima infraestrutura, pequenos, como em boates, bares, etc. Então, o Goblin decidiu, por um tempo, não se apresentar ao vivo. Como curiosidade, na turnê do álbum “Suspiria”, a banda não fez mais do que um show promovendo o seu hoje clássico disco.

 O local foi em Turim, em 1977, a convite da TV italiana RAI em seus estúdios. Depois do referido show de 1977, o Goblin, a convite da Cinevox Records, tocou no início do ano de 1978 e somente em maio, surgiu um novo convite, o registro do qual versa essa resenha, do MIMS (Mercato Internazionale Musica e Spettacolo), em Sanremo, um evento de 7 dias feito para músicos e empresários de música.

O set list do show, curto e com duração de pouco mais de 48 minutos, conta com músicos dos álbuns “Roller”, “Profondo Rosso” e do até então, novo álbum, o clássico “Il Fantastico Viaggio del Bagarozzo Mark”, com 5 músicas no show.

O show começa com “Aquaman”, do álbum “Roller”, com um sinistro gotejamento e um belíssimo sax que descortina, logo depois, um trovão sonoro com toda a banda em seus respectivos instrumentos. Um belo trabalho desta grande música ao vivo.

Na sequência temos outra música do disco “Roller” chamada “Snip Snap” com uma introdução de teclado que descamba para um sinfônico bem obscuro e depois para improvisação bem jazzy. Demais!

“Profondo Rosso”, do disco de mesmo nome de 1975, uma grande música que certamente funciona ao vivo com aquela introdução inconfundível da guitarra e toda aquela atmosfera densa, ameaçadora e obscura como o bem sabe praticar o Goblin.

“Mark Il Bagarozzo”, do disco “Il Fantastico...”, de 1978, com destaque do vocal e uma bela performance ao vivo, bem pesada. Ainda do mesmo disco temos “Notte” com um vocal com um sussurro amedrontador é a síntese do Goblin.

“Opera Magnifica” é um hino do Goblin, grande versão ao vivo com o vocal altivo e poderoso fazendo da música uma das melhores escolhidas para o show.

E para fechar a animada “Un Ragazzo D'Argento” bem new wave, antes da new wave, bem dançante e eletrônica, uma bela música para fechar um show.

Embora o Goblin não seja uma banda tão rara e obscura, tema central deste humilde blog, esse show é uma síntese, a personificação do mesmo, pois fora gravado pela Cinevox, porém nunca lançado, até que em 2000 trouxe à luz, à tona essa preciosidade, esse show que entrega um Goblin em seu melhor momento. Altamente recomendado!

A banda:

Claudio Simonetti nos teclados

Massimo Morante na guitarra

Agostino Marangolo na bateria

Fabio Pignatelli no baixo

Guest: Antonio Marangolo no saxofone


Faixas:

1 - Aquaman

2 - Snip Snap

3 - Profondo Rosso

4 - Mark il bagarazzo

5 - Notte

6 - Opera Magnifica

7 - Le cascade di viridiana

8 - Un ragazzo d’argenta

 

Goblin Live at Sanremo (1978)




 





 


quinta-feira, 31 de março de 2022

Blue Phantom - Distortions (1971)

 


A banda que abrilhantará esta resenha faz jus ao conceito deste relés e humilde blog. Uma banda obscura, que pouco se sabe a respeito que sequer tem imagens, fotos ou registro histórico de seus músicos.

É só mesmo a Itália para proporcionar esse momento único de enaltecer a cena obscura do rock n’ roll que geralmente produzem verdadeiras pérolas indispensáveis para a audição de apreciadores do estilo.

Parece que a cena italiana é interminável. Grandiosa não só na dimensão qualitativa, mas quantitativa também. Por mais que sejam antigas trazem a novidade para o nosso rol, para a nossa história de bandas que conhecemos, é o velho novo.

Então como disse essa banda é obscura e talvez não possa ser considerada como uma banda que aspirasse a intenção de ter ou seguir uma carreira, construir uma história discográfica, mas um projeto que foi concebido, estudado e que teria fim quando atingisse seu êxito que era, evidente, da gravação dessas músicas.

A banda se chamava BLUE PHANTOM com o lançamento de seu único trabalho chamado “Distortions”, de 1971. Trata-se de um álbum que fora concebido por um compositor chamado Armando Sciascia que assinava seus trabalhos com um pseudônimo: “H. Tical”.

Sciascia, além de compositor, era produtor e editor de filmes italianos nos anos 1960 e também foi fundador do selo, da gravadora “Vedette Records”, onde o álbum foi gravado. Na tiragem original, em LP, consta que “Distortions” foi gravado pela subsidiária da Vedette Records, a “Spider Records”.

Armando Sciacia (H. Tical)

E aqui cabe uma breve história de Armando Sciascia e da sua gravadora e que muito pode explicar a razão de ser do Blue Phantom. Após turnês bem sucedidas pela Europa com a sua orquestra e uma série impressionante de gravações com a Fonit Cetra, então a grande gravadora da Itália na década de 1960, H.Tical formou a “Vedette Records” com sede em Milão, que acabou se tornando um importante selo que abrigou música clássica, jazz e repertório étnico em vários selos que logo foram distribuídos mundialmente.

A Vedette tornou-se a primeira gravadroa para, entre outros, The Equipe 84, the Pooh, Inti-Illimani, e depois incluindo Giorgio Gaber e o distribuidor italiano para toda a Elektra, gravadora norte americana, incluindo The Doors.

Os estúdios de gravação de Vedette também serviram como laboratórios de música experimental não apenas para música eletrônica, mas onde alguns dos melhores músicos de jazz e estúdio da Itália frequentemente se reuniam para sessões improvisadas ou gravações ao vivo.



E acredita-se que, como base na filosofia da Vedette Records pode se delinear a proposta do Blue Phantom e o motivo pelo qual os músicos responsáveis pela concepção de “Distortions” não serem creditados, pois provavelmente se tratavam de músicos de estúdio que passeavam, transitavam pela gravadora fazendo trabalhos de improvisação, de jazz rock, progressivo e psicodelia, música para jovens, de vanguarda à época.

Foi a partir dessas músicas improvisadas e espontâneas que o Blue Phantom nasceu, surgiu e podemos descrevê-la como uma das primeiras gravações, dos primeiros registros bem sucedidos do que se convencionou chamar de “heavy rock psicodélico” na Itália e o nome “Distortions” talvez explique o cerne da música dessa banda. É um som de pura distorção, lisérgico, experimental, com o peso dos riffs de guitarra, bateria pesada, o free jazz dava o tom para a construção dessa música.

E mesmo com a infinidade de aparelhos eletrônicos de hoje, a distorção do som já é uma prática normal e até comum, mas nos anos 1970, os músicos não tinham tal tecnologia à disposição, tudo ainda era muito rudimentar e ainda que o moog fosse um experimento e o digital algo distante e talvez inimaginável, o Blue Phantom produziu algo, diria, revolucionário e importante para a história da música. E os músicos sabiam o que estavam fazendo e sabiam também que a sua música seria discutida até os dias atuais, afinal música atemporal e de vanguarda é isso.

E aqui também cabe uma curiosidade: apesar de o álbum ser considerado obscuro e raro, “Distortions” foi distribuído não apenas na Itália, mas também no Reino Unido e na França. E com esse histórico profissional de Sciascia de ser editor e produtor de filmes italianos, grande parte das músicas de “Distortions” foram usadas como trilha sonora de um filme, de 1973, chamado “Sinner: Diary of a Nymphomaniac”, de Jess Franco, um pouco antes de bandas que ficou conhecida por gravar trilhas sonoras para filmes na Itália como o Goblin, por exemplo.

Quanto ao uso de “Distortions” no filme de Franco essa foi a decisão de seu editor na época, Gerard Kikoine. Muitos dos filmes de Franco que usaram a música de "Distortions", "Trafic Pop" e "Harlem Pop Trotters" foram produzidos por Robert de Nesle. Franco enviaria impressões silenciosas em preto e branco para Kikoine para trabalhar. A música foi sua escolha, pois ele tinha acesso a todas as gravações na época.

Reza a lenda que o nome da banda ou diria do projeto “Blue Phantom” foi cunhado, construído para dar mais visibilidade nas lojas de discos, principalmente por ser tratar de um álbum que raramente fora lançado para o público em geral.

O álbum é inaugurado por “Diodo” e começa em grande estilo para quem curte peso e muitos riffs de guitarra, porque essa faixa entrega exatamente isso: tudo isso envolto com uma textura frenética de teclados, com a bateria marcada e um baixo pulsante. Fantástica faixa!

"Diodo"

“Metamorphosis” baixa um pouco o tom pesadão da faixa anterior e segue para um caminho mais jazzístico, mas os riffs de guitarra continuam a temperar o contexto sonoro desta faixa, e variando entre o jazz e o hard rock, aparecendo, de forma gradativa, na música. Muito experimentalismo e improvisação têm nessa faixa.

"Metamorphosis"

“Microchaos” abre com o peso do rock em evidência com um viés caótico, tenso, frenético, com destaque para os riffs de guitarra e a bateria quebrando tudo sem perdão, com os teclados seguindo a mesma toada.

“Compression” traz algo de experimental, algo de progressivo de vanguarda, algo lisérgico, psicodélico, percebendo-se um pouco de Pink Floyd da era psicodélica, mesclado a tudo isso uma levada jazzy com a bateria seguindo essa tendência.

"Compression"

Segue com “Equilibrium” basicamente com a proposta da faixa anterior: lisérgica, ácida, experimental, em dados momentos, tendo o destaque para as teclas, para o moog e alguns ruídos eletrônicos que corroboram a sua condição experimental.

“Dipnoi” traz de volta o peso, a agressividade do hard rock, com uma curiosa velocidade digna de bandas de heavy metal oitentistas, uma base proto metal extremamente representativa, com alguns solos simples e diretos de guitarra, mas interessantes que lembram The Doors, inclusive.

"Dipnoi"

“Distillation” mantém o peso e a sua introdução nos remete ao peso da guitarra de bandas como Black Sabbath, por exemplo. Um riff obscuro, tenso, intenso e poderoso, mas aquela bateria com uma pegada jazzística, meio que envolta em muito peso, se faz perceber lindamente.

"Distillation"

“Violence” é inaugurado com uns ruídos estranhos e débeis, mas depois, gradativamente, a bateria aparece em destaque com riffs alucinados de guitarra e o frenesi se faz a partir daí. Peso, denso e poderosa são características dessa faixa.

Na sequência vem “Equivalence” com solos viajantes de guitarra ao estilo David Gilmour, curtos, mas bem executados, trazendo um clima psicodélico a música e bem contemplativa também. 

"Equivalence"

O álbum fecha com a faixa mais ácida de todas: “Psycho-Nebulous”. A guitarra torna-se uma das protagonistas dessa faixa com uma camada obscura e intrigante dos teclados, trazendo algum experimentalismo e algo relacionado a um prog rock bem interessante.

"Psycho-Nebulous"

“Distortions” de fato é um álbum, além de obscuro, sombrio, estranho, em grande parte do seu momento e isso pode se explicar pelo fato do mesmo ter sido concebido para ser uma trilha sonora para um filme de drama e isso não soa tão estranho olhando para esse prisma, afinal significa que toda a música evoca cenas ou situações, dentro do filme, estranhas e sombrias. 

“Distortions” levou muito tempo para ser relançado, tendo conquistado isso apenas em 2008. Um clássico obscuro extremamente versátil, complexo, tenso, intenso, frenético e de suma importância para a história do rock progressivo italiano, bem como outras vertentes que vai do jazz rock ao hard rock daquele país. É música de vanguarda, revolucionária e altamente recomendado.


A banda:

Não creditada.

Apenas com a composição e produtor de H. Tical (Armando Sciascia)

Faixas:

1 - Diodo

2 - Metamorphosis

3 - Microchaos

4 - Compression

5 - Equilibrium

6 - Dipnoi

7 - Distillation

8 - Violence

9 - Equivalence

10 - Psycho-Nebulous 


Blue Phantom - "Distortions" (1971)