sábado, 8 de fevereiro de 2025

Plebb - Yes It Isn’t It (1979)

 

O rock sueco definitivamente não está no mainstream, sobretudo as bandas dos anos 1970. Atualmente algumas bandas gozam de algum sucesso, elevando, diria homenageando, as bandas antigas, como por exemplo o Ghost que hoje conseguiu a proeza de levar para grandes arenas e eventos comerciais da música, o occult rock.

Não sei, confesso, o motivo pelo qual o rock sueco não tenha se destacado, sob o aspecto comercial, ao longo dessas décadas, mas talvez seja pelo fato de trazer a cultura de seu país, a questão folclórica aliado ao prog rock, ao hard rock entre outras vertentes. E quando a cultura é arraigada seja difícil realizar uma espécie de intercâmbio.

Mas é inegável, principalmente para os apreciadores do rock underground e obscuro, como eu, que há uma profusão de bandas suecas admiráveis que até hoje precisam ser desbravadas e descobertas. Graças aos recursos tecnológicos que nos conceberam algumas ferramentas de comunicação, muitas bandas têm surgido e vem nos encantando mesmo que tenham feito músicas que tenha mais de quarenta ou até cinquenta anos de existência.

É incrível que bandas como essas, oriundas da Suécia, ainda consigam trazer algo arrojado e espetacular e são capazes de absorver as músicas britânicas e americanas e fundir com aspectos peculiares de sua cultura, fazendo de sua arte algo espetacular e com um inigualável frescor.

E a banda que falarei hoje eu descobri recentemente, nessas incursões pelo obscuro, pelo desconhecido, pela selva intocável e selvagem que é o rock n’ roll e quando a ouvi, fui arrebatado de tal forma que me estimulou a escrever essas linhas que você, estimado leitor, lê agora. Falo da banda PLEBB.

Não sei se vocês já ouviram falar do Plebb, não sei se já ouviram essa banda, mas se a conhece, felicitarei, pois trata-se de mais uma banda rara, obscura que não ganhou o mundo e limitou-se a sua terra natal, se tornando, como tantas, aquelas bandas locais que as redes sociais se encarregam, como este simples e humilde blog, de difundir. Para a nossa sorte, para a nossa alegria.

E já que falei de bandas locais, falemos um pouco dos primórdios do Plebb, bem, tentarei, afinal, como tantas outras bandas esquecidas, não possuem tantas referências sobre a suas histórias, apenas a sua potente música, mas tentaremos falar dela, valorizando-a e ajudando a edificar um legado para as outras gerações, afinal sua música é de fazer reverência aos fãs, principalmente dos fãs do bom e velho hard rock dos anos 1970.

O Plebb foi fundado em 1976, em uma época em que o hard rock estava em declínio sob o aspecto comercial, afinal, bandas gigantes como Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple, por exemplo, ou estava finalizando a sua trajetória, ou tinha integrantes se afundando nas drogas e álbuns gravados aquém do que se esperava. O punk estava seguindo para o apogeu.

Mas o Plebb foi construído, em uma cidade, no sudeste da Suécia, chamada Mönsterås, que sequer tinha tradição para o rock, apenas com algumas poucas bandas. Nos seus primeiros anos a banda consistia em Ronnie “Balder” Nilsson (bateria), Leif Bergqvist (guitarra), Per-Martin “Pemce” Petersson (guitarra) e Tommy Gustavsson (baixo). No verão de 1977 Leif Bergqvist teve que deixar a banda devido a uma doença e Peter Martinsson o substituiria na guitarra. Leif apareceria, mais tarde, na banda “Ictus”.

E como curiosidade a origem do nome da banda, “PLEBB”, vem das iniciais de seus músicos: O "P" de "Pemce", de Per-Martin Petersson, "LeB" para "Leif Bergqvist" e o último "b" para "Balder".

Com a entrada de Peter o Plebb começou a se desenvolver e a escrever as suas próprias músicas, pois, nos seus primórdios, como tantas bandas, o Plebb tocava, para se apresentar nas casas de shows, covers de seus ídolos. Mas antes de se apresentar, ensaiaram muito e os locais escolhidos eram os mais inusitados possíveis. Outra curiosidade: a música “First Day In Roxy” é em homenagem a um local, um pouco melhor em termos de estrutura, que eles escolheram, o cinema Roxy, em Mönsterås.

Em 1978 uma fita foi gravada, em circunstâncias, diria, primitivas, sem o mínimo de estrutura e recurso, sendo gravada pelos próprios músicos que eram muito jovens, alguns deles estavam na adolescência, entre 16 e 18 anos de idade, com poucas músicas e apenas 40 cópias foram produzidas, sendo distribuídas na sua cidade natal a poucos fãs que também haviam recentemente conhecido a banda.

Não é que deu certo? Conseguiram uma boa base de fãs que, ávidos por mais e mais músicas de sua banda favorita, clamavam por um álbum novo, com mais músicas e que motivasse uma turnê de divulgação, de shows, então eles precisavam retornar ao estúdio para gravar um novo álbum.

E assim na virada do ano novo de 1978 para 1979, mais especificamente em 1979, nasceria o seu primeiro e único trabalho chamado “Yes It Isn’t It” e que foi gravado nas mesmas condições que a sua fita, sem nenhuma estrutura e condições, com aparelhagens simples, sem nenhum orçamento. E detalhe: não foi um estúdio, foi algo improvisado e foram dois locais escolhidos: o sótão de um clube de motociclistas local e uma escola, em Blomstermåla.

O álbum foi produzido pelo baixista Tommy Gustavsson e apenas 485 cópias foram prensadas na própria gravadora da banda chamada de “Plebb Records” e vendidas localmente para amigos e fãs mais próximos e ardorosos. Pois é, caros amigos leitores, os tempos eram outros e não tinham redes sociais e a internet para difundir a sua música. Tiveram também algumas poucas lojas de músicas para divulgar e vender seus álbuns.

O processo de gravação, como disse, bem rudimentar, era uma tecnologia que chamada “som sobre som” (“Sound on Sound”), o que significa que o fundo foi registrado pela primeira vez e a música e os preenchimentos de guitarra foram adicionados reproduzindo o plano de fundo e gravando as novas partes juntos com o fundo na outra fita gravadora.

“Yes It Isn’t It” é predominantemente um álbum do mais puro, genuíno e volumoso hard rock, com passagens espetaculares instrumentais mostrando que, apesar da pouca idade dos músicos, já entregavam muito talento e capacidade técnica, aliada a uma sonoridade orgânica. Ouso dizer ainda que, mesmo que o Plebb não tenha alçado grandes voos, a banda apresentou em sua sonoridade, o heavy metal que florescia no mundo e que teve o epicentro na Inglaterra, com a sua “New Wave of British Heavy Metal”.

Ainda em seu álbum percebe-se uma veia blues rock, com algumas passagens mais lentas, mais leves, discretas, mostrando uma banda cheia de recursos e muito, como disse, talentosa e que certamente era muito promissora. Outro detalhe importante e que convém ressaltar foi o trabalho de guitarra na banda, um trabalho impecável de “guitarras gêmeas”, que foi difundida por bandas como Wishbone Ash no início dos anos 1970 e que foi popularizada pelo Iron Maiden.

O álbum é inaugurado pela faixa “Reaggie II B” que, por mais que o álbum seja predominantemente de hard rock, tem uma introdução de reggae, daquele jeito, bem dançante, animado, porém vai encorpando, a pegada hard vem, aos poucos, aflorando, graças a riffs e solos mais pesados de guitarra, com a bateria marcada e igualmente pesada. Os solos de guitarra vão ficando mais alongados, pesados, bateria mais pesada também, quando, definitivamente, a música se revela um típico hard rock um pouco mais cadenciado. Depois volta ao ponto inicial, com a veia mais reggae. Começa bem e arrojado!

"Reaggie II B"

“Push Box” já, logo de imediato, esmurra a porta com um riff carregado, pesado de guitarra com uma “cozinha” empenhada em manter o peso mesclado a um groove incrível. Baixo pesado e galopante, bateria marcada e pesada. Alternâncias rítmicas são perceptíveis com momentos mais tranquilos, mas que logo se entregam ao peso. Ouso dizer que há momentos mais velozes, caracterizando em uma pegada mais heavy metal, afinal, o ano de 1979 traziam os primórdios da “New Wave of British Heavy Metal”, então, para uma banda pesada como a Plebb, não seria surpreende perceber tais elementos em sua música. Excelente faixa!

"Push Box"

“Rockaria” me remete ao que o Scorpions fazia nos anos 1970 com Uli Jon Roth nas guitarras. Não se pode negligenciar o trabalho de guitarra nessa faixa, com uma destreza incrível, além do trabalho da bateria também, um misto de peso e técnica, com peso e groove. Temos momentos mais dilacerantes e leves, discretos e nessa alternância a música entrega um instrumental extremamente arrojado. Uma pegada heavy rock também é percebida.

"Rockaria"

“Tankar Om Natten” começa solar, animada, tem um viés mais comercial, diria AOR, radiofônico mesmo. Mas a potência da guitarra é o grande atrativo da faixa. Em alguns momentos percebe-se uma pegada de speed metal, com destaque, mais uma vez, para seção rítmica da banda, valorizando, ainda mais, a capacidade instrumental da banda.

"Tankar Om Natten"

“Förflutet” começa quase acústica, com delicados dedilhados de guitarra, algo um tanto quanto soturno, mas, aos poucos vai se revelando uma sonoridade viajante. Uma linda balada rock com a bateria tirando o pé do freio e um baixo tocado de forma simples, mas competente. A música vai encorpando, ficando um pouco mais pesada, mas a característica se mantém firme, intacta, como uma balada. No desfecho o solo de guitarra é lindo, a música ganha o contorno típico de hard rock que povoa o álbum.

"Forflutet"

Segue com “Psst ...” que inicia com um violão acústico, algo meio latino e assim vai seguindo, leve, discreta, quebrando a predominância do hard, blues rock do álbum, corroborando, mais uma vez, o talento instrumental de seus músicos, mas sem deixar de ser orgânicos.

"Psst..."

O álbum fecha com “Fresh Fish” e, mais uma vez o trabalho de guitarra inaugura a música, trazendo reminiscências do Scorpions dos anos 1970. Uma guitarra tocada de forma competente, passional. As passagens de blues rock dão um “tempero” especial à faixa, com um vocal falado, em alguns momentos. Hard rock, blues rock e até mesmo uma pegada meio “sulista” norte americana se percebe principalmente nos vocais.

"Fresh Fish"

Pouco tempo depois a banda mudaria de nome, passando a se chamar “Purple Haze” e, diante desse nome, não precisamos nos esforçar muito para perceber de onde veio a inspiração. O Purple Haze gravaria um álbum chamado “Det Är Så Man Undrar...”, no ano de 1981. Na formação teria Tommy Gustavsson, no baixo, Leif Bergqvist e Peter Martinsson na guitarra e na bateria teria Ulf "Mini" Svensson. O único álbum com a banda neste novo nome teria lançamento pelo selo da banda, a Plebb Records. Mas não vingou, finalizando as suas atividades logo em seguida. Depois de alguns anos a banda voltaria a se reunir.

Poucos músicos do Plebb dariam sequência as suas carreiras musicais e aquele que conseguiu ser mais produtivo e assertivo foi o guitarrista Peter Martinsson. Ele formaria, em 2011, o “Peter Martinsson Group”. Um projeto dirigido, conduzido pelo próprio Peter, claro, e pelo baterista Ulf Becker. A música da banda é predominantemente instrumental e teve seu primeiro trabalho oficial lançado em 2012 chamado “Guitar State of Mind”, lançado pelo selo norte americano Grooveyard Records e que pode ser ouvido aqui.

Em 2014 o Peter Martinsson Group lançaria seu segundo álbum, porém no formato CD, que viria a se chamar “No Grey”. Foi lançada por uma editora privada com um número de cópias bem limitada. Os álbuns da banda estão sendo relançados pelo selo Plebb Records em mídia digital com a intenção de atingir o maior número de pessoas possíveis e de uma forma mais rápida.

Em 2014 o Peter Martinsson Group lançaria seu segundo álbum, porém no formato CD, que viria a se chamar “No Grey” e depois uma série de álbuns de estúdio lançaria na segunda metade da segunda década dos anos 2000, além de algumas coletâneas. Foi lançada por uma editora privada com um número de cópias bem limitada. Os álbuns da banda estão sendo relançados pelo selo Plebb Records em mídia digital com a intenção de atingir o maior número de pessoas possíveis e de uma forma mais rápida.

"Yes It Isn't It", do Plebb seria relançado pelo famoso selo Guerssen e pela gravadora Sommor, em 2021 no formato LP. Uma oportunidade em tanto para os apreciadores e amantes do mais visceral e passional hard rock dos anos 1970. Definitivamente esse trabalho do Plebb é uma pérola do estilo no fim dos anos 1970, em um período em que a disco music e o punk rock reinavam absolutos no mercado da música. O Plebb, mesmo não tendo uma sequência em sua história, mostrou que qualidade não está intimamente ligada a sucesso comercial e mostrou um talento inacreditável em um período que o hard rock estava em baixa no mercado fonográfico.

 

A banda:

Ronnie “Balder” Nilsson na bateria

Leif Bergqvist na guitarra

Per-Martin “Pemce” Petersson na guitarra

Tommy Gustavsson no baixo

 

Faixas:

1 - Reaggie II B

2 - Push Box

3 – Rockaria

4 - Tankar Om Natten

5 – Förflutet

6 - Psst ...

7 - Fresh Fish



"Yes It Isn't It" (1979)








 



 











 





sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Comus - First Utterance (1971)

 

Muitas foram as bandas de folk rock que surgiram nos anos dourados da psicodelia. E tingidos de música “flower power” eram edificantes, esotéricas, mas não era como a seminal banda inglesa COMUS. O Comus era diferente! Era sim uma banda de folk psicodélico e de proto prog, mas era sombria, soturna.

O embrião do Comus começou com o encontro de Roger Wootton e Glenn Goring, ambos, muito jovens, com 17 anos de idade, no Ravensbourne College of Art em Bromley, Kent, em 1967. Os dois tocavam guitarra e compartilhavam também o mesmo gosto pelo trabalho de John Renbourn e Bert Jansch, que estavam formando o Pentagle naquela época e o Velvet Underground.

Glenn e Roger logo, claro, se identificaram e formaram uma forte amizade em torno das suas preferências musicais e começaram, com isso, a tocar em clubes folclóricos locais, fazendo covers de Velvet Underground, que à época não foram muito bem recebidos e, em uma visita ao clube local em Beckenham, o “Arts Lab”, se tornaram amigos do organizador, um certo David Bowie.

Isso era agosto de 1969, mais precisamente em um 16 de agosto, que também foi o segundo dia do épico festival de Woodstock, nos Estados Unidos, com apresentações igualmente épicas do naipe de Santana, Sly and the Family Stone, The Who etc, o “Arts Lab” contava com uma estrutura e músicos mais tímidos, simples como Bridget St. John, Keith Christas e Toni Visconti, além do próprio Bowie que estava começando sua carreira e imortalizou tal evento com a música chamada “Memory of a Free Festival”.

Mas não foram apenas essas as bandas que tocaram no “Arts Lab”, uma se apresentou por lá e que, embora poucos se lembram, os rapazes, que viriam a ser a espinha dorsal do Comus, também se apresentou, porém, no dia seguinte em um pub chamado “Three Tuns”. E os poucos testemunhos dão conta de que eles soavam como nenhuma outra banda no mundo! Bem isso realmente é verdade! Em virtude dessa incomum sonoridade que apresentavam os caras passaram a tocar com regularidade no “Arts Lab”.

Enquanto estavam em Ravensbourne Glenn e Roger conheceram um tal Chris Youle, que mais tarde se tornaria empresário do Comus e o violinista e estudante de mídia Coli Pearson, o primeiro recrutado para uma nova banda que nascia, além dos já citados Glenn e Roger.

Youle sugeriu o nome “Comus”. Na mitologia grega “Comus” é um deus que representa a anarquia e o caos. É também um poema escrito em 1643, por John Milton, celebrando a virtude da castidade ao desenrolar a história de uma senhora que se perde na floresta e é tentada pelo tortuoso personagem de “Comus” a se envolver em todos os tipos de pecados terrenos. Apesar de estar presa em seu palácio e enfrentar feitiços mágicos, a senhora defende sua posição moral e acaba sendo libertada por seus irmãos.

Comus, o deus grego

A obra literária

Quando Chris Youle sugeriu o nome, este caiu como uma luva, afinal um grupo de estudantes de arte com ideias semelhantes estava formando uma banda folk, dando a banda que nascia uma identidade.

E falando em grupo, o baixista Andy Hellaby foi a próxima pessoa a ingressar na banda, após uma abordagem de Glenn e Roger no Beckenham Arts Lab, onde Hellaby tocava em outra banda. Pouco depois a cantora e percussionista Bobbie Watson, de apenas 16 anos, também foi convidada a participar, depois de ser ouvida harmonizando algumas músicas durante uma visita à casa em Perth Road, Beckenham, onde Roger, Glenn, Andy e Chris moravam.

O sexto e último membro da banda original foi o flautista Michael Bammi Rose, que respondeu a um anúncio colocado pelo Comus no “Melody Maker”. Ele vinha ensaiar na casa de Beckenham, acompanhado por um contingente rastafári jamaicano de Brixton, que já incluía o já lendário trombonista Rico.

O tempo de Mike com a banda foi bastante curto e, ao sair, ele foi substituído por um amigo de Colin e Bobbie chamado Rob Young. Embora o primeiro instrumento de Rob tenha sido o piano, ele aprendeu flauta, oboé e bongô sozinho para tocar com Comus. 

Então no início dos anos 1970 a formação clássica do Comus trazia Roger, Glenn, Colin, Andy, Bobbie e Rob. A residência no Beckenham Arts Lab continuou dando ao Comus tempo para se desenvolverem como banda e aprimorar seu “set” ao vivo. Daí o embrião do primeiro álbum da banda, que seria lançado no ano seguinte, começou a ser formado, o “First Utterance”, alvo da resenha de hoje.


Comus, a banda

Chris Youle começou, já como empresário da banda, a trabalhar agendando shows, turnês e promoções em todo a Inglaterra. E graças a esse trabalho o público rapidamente reconheceu a paixão, a originalidade e a qualidade musical do Comus e a banda logo se tornaria uma das favoritas do circuito universitário.

Nessa mesma época o Comus fez um teste, aproveitando a popularidade que crescia, para a diretora canadense Lindsay Shonteff para escrever a trilha sonora de seu filme chamado “Permissive”. Lindsay ficou impressionada tanto com a música quanto com a maneira como Roger tocava e cantava, mesmo tendo cortado o dedo nas cordas de seu violão, respingando sangue de verdade enquanto tocava “Drip Drip”! Louco, não?

Em junho de 1970 Chris Youle garantiu um contrato de gravação com o selo “Pye/Dawn” depois que o Comus fez um show incrível no Purcell Rooms, parte do complexo Royal Festival Hall na South Bank, de Londres, apoiando, inclusive David Bowie que, na época estava gozando do sucesso de seu primeiro hit “Space Oddity”. E finalmente, em fevereiro de 1971, “First Utterance” foi lançado, precedido pelo single “Diana”, com capa original de Roger e Glenn.


Esse período a música folk e progressiva era procurada pelas grandes gravadoras. Achando difícil lidar com essas bandas como parte de suas agendas comerciais, as gravadoras criaram selos menores que se concentravam nas periferias. A “Pye” fundou o selo “Dawn”. O Comus assinou com a Dawn em outubro de 1970, sendo uma das primeiras do cast.

No início do ano de 1971, como dito, a banda entrou em estúdio. No entanto O Comus percebeu que, embora a gravadora estivesse feliz em contratá-los, eles não tinham nenhum entendimento da música e nenhum conhecimento de como gravá-los. O que não surpreende em se tratando de uma música extremamente vanguardista para o seu tempo.

O produtor que recebeu a missão de produzi-los foi Barry Murray, que até então se especializou em música pop e para a TV e trabalhou com Mungo Jerry, a banda de sucesso da gravadora. O Comus não era uma banda fácil de gravar e as técnicas tradicionais de sobreposição de faixas de ritmo e melodia não são boas nesse caso. Tudo de “First Utterance” teve de ser gravado ao vivo.

Se a música era de difícil assimilação para os fãs e para a indústria fonográfica a arte gráfica sintetizava essa estranheza no som. O desenho, à caneta, foi criado por Roger Wootton, que enquanto esteve na escola de artes foi fortemente influenciado pelos desenhos de Gerald Scarfe e MC Esher.

“First Utterance” trata de temas perturbadores como estupro, assassinato e doença mental e não se trata de um álbum majoritariamente de rock progressivo, mas de um trabalho calcado no folk rock, com nuances extremamente sombrias, um occult rock folk com um frisson de erotismo ou sadismo, fundamentado em violão, violino e a flauta. E apesar de ser encarado como um folk rock, logo algo solar e gentil, deixe suas visões pré-concebidas de lado, é algo lindamente aterrorizante, tenso e soturno.

 

O álbum é inaugurado pela faixa “Diana” que já se destaca pelo vocal melodioso de Wootton que logo são encorpados com os seus instrumentos de percussão tribais estranhos com o apoio etéreo de Bobbie Watson e o violão e violino pagão de Pearson. O tema bacanal da letra é evidente no tom da melodio e na entrega da faixa.

"Diana"

“The Herald” tem o mesmo tipo de sensação assustadora de “Diana”, com harpa sobre violão e flauta, mas logo se transforma em uma melodia calma e até agradável com o violino e o vocal agudo de Watson em total sinergia corroborando a condição da música, dando-lhe a textura necessária. O violão, a viola, o oboé e a flauta soam agradáveis e bem convergentes. Os vocais femininos me trazem a sensação de algo pop, meio sessentista, diria, mas de ótimo gosto.

"The Herald"

“Drip Drip” começa com um violão vibrante. O canto, meio perturbado de Wootton, se agita também nessa música e os bongôs também segue nessa toada, com toda a energia possível sendo a base, o sustentáculo para toda a proposta da música. A percussão nesta faixa me remete, mais uma vez, a algo tribal, algo africano e juntamente com o violão e o violão trazem algo meio feroz a música dando “adeus” a alegria e até sofisticação do folk praticado por outras bandas, digamos, mais ortodoxas do estilo.

"Drip Drip"

Segue com “Song to Comus” que começa com um belo violão e flauta repetitivos, com vocais lindamente bizarros interpretados por Wootton que lembra, em alguns momentos, com o Jethro Tull. A música segue uma linearidade, algo igual, mas novamente o violino e os bongôs são agradáveis e traz um caráter mais ousado à faixa. A letra corrobora a sua condição aterrorizante. Eis um trecho:

“Hymen caçador, mãos de aço, abra você e sua carne vermelha descasque, Procurador de dor, olhos de fogo perfuram seu ventre e empurram ainda mais alto, Comus estupro, Comus quebra, a virtude da doce jovem virgem toma, Carne nua, cabelos esvoaçantes, seus gritos de terror cortam o ar”.

"Song to Comus"

“The Bite” novamente usa vocais masculinos bem estranhos com os vocais femininos gorjeando ao fundo. Vocais bem executados, apesar de uma música mais curta e a letra é mórbida, falando sobre um mártir sendo enforcado.

"The Bite"

“Bitten” é um instrumental curto e atmosférico com linda execução de violino e talvez violoncelo e se torna uma espécie de passagem para a última e excelente faixa chamada “The Prisoner”, que fala, na primeira pessoa, sobre um esquizofrênico paranoico. É sombria, perturbadora e como sempre, em destaque, o violão e o violino, inicia a faixa, mas começa discreta, ao fundo e em seguida se torna mais otimista e até agradável por um tempo, mas a melodia diminui. O dedilhar de violão e do violino são novamente a base da música, como todo o álbum.

"The Prisoner"

Uma combinação de circunstâncias fez com que “First Utterance”, que teve a prensagem de 10.000 cópias, não conseguisse sucesso comercial e, embora o Comus continuasse em turnê pela Inglaterra, pelo Reino Unido, inclusive, parecia que o ímpeto da banda começou a diminuir.

Rob Young foi o primeiro a sair em julho de 1971 e, embora tenha sido substituído à altura por Lindsay Cooper, o Comus se separou em 1972, quando Chris Youle foi para a Polydor Records na Alemanha. Porém poucas semanas antes de deixar a Inglaterra e ir para a Alemanha, Chris Youle tentou garantir um segundo contrato de álbum para o Comus com o selo “Pye” para gravar o lendário, mas lamentavelmente nunca gravado “Malgaard Suite”.

Três dos membros originais da banda, Roger, Andy e Bobbie, no entanto, decidiram se reunir novamente em 1974, a pedido do até então recém-formado selo “Virgin” para finalmente gravar o seu segundo álbum, “To Keep From Crying”. Mais uma vez o sucesso comercial não veio e o Comus se desfez. Após o fim do Comus, os membros da banda fizeram várias trilhas para filmes subsequentes para Shonteff, como “Zapper's Blade of Vengeance” em 1973 e “Spy Story”, em 1975.

"To Keep From Crying" (1975)

Em 1995, “First Utterance” foi relançado no Reino Unido no formato CD e outros lançamentos se seguiram na Itália e no Japão, culminando no lançamento de um CD duplo em 2005 com os dois álbuns de estúdio e algumas outras faixas. Na verdade, tudo que o Comus gravou nos anos 1970 foi reunido nestes CDs. Em comemoração a esse lançamento o empresário Chris Youle conseguiu reunir todos os membros originais do Comus no final daquele verão. Alguns não se viam há mais de trinta anos!

A internet e alguns veículos de comunicação disponíveis na grande rede ajudou e muito a disseminar a história do Comus e muito ajudada também pelo guitarrista e vocalista sueco Mikael Åkerfeldt, com sua muito respeitada banda de metal Opeth, que frequentemente fazia referências e dedicatórias ao Comus nos shows do Opeth. Mikael era obcecado pela banda há muitos anos, chegando a nomear um dos álbuns do Opeth como “My Arms, Your Hearse”, uma citação da letra da música “Drip Drip” do Comus.

Mikael Åkerfeldt

E foi assim que, na primavera de 2007, Glenn Goring recebeu um e-mail do grande amigo e promotor de shows de Mikael, Stefan Dimle, outro fã dedicado do Comus da Suécia. A formação clássica de “First Utterance” foi persuadida e entusiasmada de volta a uma reformulação totalmente inesperada, diante de todas essas movimentações, embora Rob Young tenha decidido não prosseguir para a fase de ensaio.

O marido de Bobbie Watson, Jon Seagroatt, foi convocado para ocupar o lugar de Rob Young e, em um curioso eco da introdução do próprio Rob no Comus, Jon aprendeu sozinho a tocar flauta e percussão especialmente para acompanhar a banda. Chris Youle e o gerente de turnê original da banda, Will Wittingham, também retornaram para ocupar seus cargos anteriores na Comus.

O Comus tocou ao vivo novamente pela primeira vez em trinta e quatro anos no Melloboat Festival de Stefan Dimle, em 9 de março de 2008 gerando um DVD registrando sua atuação eletrizante no festival. Você pode ouvir o álbum, lançado naquele mesmo ano de 2008, aqui pelo site do "bandcamp".

Em 2012, mais de quarenta anos depois do lançamento de “First Utterance”, o Comus lançaria o seu terceiro álbum de estúdio, “Out of the Coma” e que pode ser ouvida aqui. E neste álbum foi incluída a faixa histórica e esquecida da banda, “The Maalgard Suite”, uma versão ao vivo registrada em 1972. Um clássico do folk obscuro que, por ser uma música marginalizada, será sempre lembrada por ser arrojada e um soco na cara daqueles fãs de rock conservadores. 



A banda:

Roger Wootton nos vocais e guitarra acústica

Glenn Göring nos slides, guitarra acústica, guitarra elétrica, vocais e “hand drums”

Colin Pearson no violino e viola

Rob Young na flauta, oboe e “hand drums”

Andy Hellaby no baixo, “slide bass” e vocais

Bobbie Watson na percussão e vocais

 

Com:

Gordon Caxon na bateria (faixas 8 e 10)

 

Faixas:

1 - Diana

2 - The Herald

3 - Drip Drip

4 - Song to Comus

5 - The Bite

6 - Bitten

7 - The Prisoner 






"First Utterance" (1971











 




































sábado, 25 de janeiro de 2025

Alma da Terra - Alma da Terra (1982)

 

Anos 1980, Brasil. A cena “Brock” começava a despontar. Bandas como Paralamas do Sucesso, Titãs e músicos como Lobão e Lulu Santos, ambos ex- Vimana, despontava com suas músicas ao estilo new wave e pós punk se tornando uma febre da música no Brasil e deve-se muito a rádios como a Fluminense, sediada no Rio de Janeiro, mais precisamente na minha cidade, Niterói, que, de forma abnegada, divulgava seus trabalhos inaugurais que ganhava repercussão, tendo o carinho e interesse de alguns críticos musicais, programas de TV como do apresentador Raul Gil, por exemplo.

O mercado, ávido por “novidades” absorvia, sugava ao máximo essas bandas que, com a notoriedade faziam shows e mais shows tendo, como palco emblemático, o Circo Voador, também no Rio de Janeiro. Mas o mercado segmenta, é perverso, colocando a música em último lugar, afinal o rock brasileiro não se resumia a essa cena, apenas.

Muitas bandas que seguiam propostas menos ortodoxas à época, ou seja, aquelas que não executavam a tão falada new wave e pós punk, seguiam vilipendiadas, esquecidas, marginalizadas, perecendo sem quaisquer apoios, vivendo apenas da sua criatividade e persistência, um amor à sua música.

O que dizer do rock progressivo dos anos 1970 no Brasil? O que dizer do hard rock, do psicodélico? Não gozaram de credibilidade, caíram no mais escuro ostracismo, vivendo, como disse, da sua verdade e criatividade. O rock Brasil dos anos 1980 atingiu o êxito de um pseudo pioneirismo, de uma falácia ufanista, esquecendo de um período que desbravou o rock na sua gênese, inclusive. E nada ganhou, não teve sequer um reconhecimento até hoje!

O discurso pode parecer de vitimismo, mas é histórico. Estruturas de gravação aquém do esperado, obscuridade era a tônica. Mas convenhamos a influência de uma indústria fonográfica perversa e manipuladora poderia envenenar essas bandas e a ausência de apoio, por pior e mais inusitado que seja, foi bom, sob o aspecto criativo, mas comercialmente foi alarmante.

E eu não posso deixar de citar, já que mencionei a minha cidade, de Niterói, de uma banda oriunda dessa cidade que duvido que muitos apreciadores de rock n’ roll dessa cidade, que tanto colaborou e ainda colabora para o estilo, conheçam. Falo do ALMA DA TERRA.

Alma da Terra

Em breve vou tecer comentários mais detalhados do seu único álbum, homônimo, lançado em 1982, mas a banda certamente esteve deslocada do seu tempo, pois, predominantemente seu trabalho é calcado no hard rock setentista, com pitadas psicodélicas e de um belo blues rock. Como que uma banda, em pleno ano de 1982, ápice da new wave no mundo inteiro, inclusive, claro, no Brasil, vingasse? Culpa da banda? Culpa da cena? Culpa da indústria fonográfica? Tudo isso? 

Cabe aqui uma contextualização do cenário do rock àquela época, mas não é de meu desejo falar disso, mas dedicar tempo e linhas a essa seminal e rara banda brasileira e niteroiense. Até porque, até aqui, expus, de forma pessoal, as minhas opiniões acerca da new wave brasileira e do comportamento da indústria fonográfica, haja vista que se fez sucesso é porque tinha um mercado que consumiu essa música.

Mas voltando ao Alma da Terra a banda, quando foi formada, também gozou de alguma repercussão, pasmem, quando a “Maldita FM”, como também era conhecida a Rádio Fluminense, sediada em Niterói, no Rio de Janeiro chegou a divulgar seu álbum. O ponto positivo da rádio, inteiramente independente, era que tocava, sem maiores preconceitos, muitos álbuns e demos que eram entregues à rádio e assim o foi com outras bandas que não executavam a new wave, como o seminal Bacamarte, por exemplo, que, ao lançar seu debut, “Depois do Fim”, de 1983, que foi gravado em 1977, ganhou repercussão graças a rádio.

Contudo por mais que tenha sido independente, a Rádio Fluminense FM, acabou, instintivamente, segmentando seu som de acordo com os anseios de consumo do seu público dando destaque às bandas dessa new wave que culminou, com a participação de algumas delas em um novo festival, cuja primeira edição aconteceu em 1985, chamado “Rock in Rio”, dando alguma projeção, primeiramente às bandas participantes e as demais que beberam do momento.

O álbum “Alma da Terra” foi gravado e mixado no Estúdio da Sono-Viso do Brasil, no Rio de Janeiro entre os meses de dezembro de 1981 e janeiro de 1982, lançado em 1982 pelo selo Vento de Raio Produção Artística Ltda, com a produção de Toninho Barbosa e da própria banda, tendo também a banda no comando da direção musical e arranjos, mostrando que os jovens músicos à época já mostravam talento e competência e isso pode ser confirmado no álbum, na sua sonoridade.

A prensagem do LP ficou à cargo de Ivan Lisnik, da Polygram e a arte da capa ficou sob responsabilidade de Raul Varady, tendo ainda Sônia Regina no projeto gráfico e fotos da banda que figuraram no encarte do álbum. A banda trazia na sua formação Fábio Mattos Agra (vocal, guitarra, violão), Paulo Fernandes Martins (vocal, baixo) e Antônio Augusto Ventura (bateria). Das dez faixas compostas para esse único trabalho do Alma da Terra trazia a predominância da composição o vocalista e guitarrista Agra e o baterista Ventura, com Paulo Fernandes tendo uma tímida apresentação no processo de criação deste álbum.

O álbum transita entre o hard rock, a psicodelia, bebendo da fonte dos anos 1970, mas trazendo uma roupagem mais básica, diria até “moderna”. Pode parecer um tanto quanto contraditório, mas sim, é um rock n’ roll básico, porém vigoroso, cujo instrumental é direto e bem executado, ao mesmo tempo, mostrando uma incrível versatilidade e mesmo que esteja descolado do seu tempo, a banda conseguiu produzir um álbum que, de alguma forma, poderia atingir um público mais jovem e que não se aproximasse do hard rock setentista ou da sofisticação do rock progressivo.

E já que falei do instrumental, não podemos negligenciar os riffs de guitarra de Agra, com solos marcantes, acompanhado pela bela “cozinha”, com alguns momentos acústicos que nos remete, inclusive, ao folk rock. As letras são todas em português e bem elaboradoras trazendo temas sociais e comportamentais da época, mas que podem ser conduzidas a uma atemporalidade assombrosa. Outro ponto determinante pelo Alma da Terra ter figurado pouco nas FMs brasileiras pode ter sido exatamente o teor de suas letras, trazendo à tona temas poucos confortáveis para uma sociedade conservadora e podre.

O álbum é inaugurado pela faixa “Solto no Ar” que traz a “cozinha” como destaque, baixo pulsante e bateria pesada e marcada, com riffs que, pasmem, lembra um pouco o pós punk e a new wave. Mas o contexto é pesado e tem no hard rock como sustentáculo. Na metade da faixa corrobora isso, pois é pesada, chegando a ser agressiva, capitaneada também pela pegada áspera e dura da bateria. Os solos de guitarra de Agra surgem, logo em seguida, irrompendo no típico “hardão”.

"Solto no Ar"

Segue com “Vivença” que começa como um trovão, com destaque para um duelo arrepiante de baixo, cheio de peso e groove, e a guitarra com riffs pegajosos e pesados. A bateria segue marcada, mas discreta. Mas ela, ao longo de sua execução, vai ficando mais pesada, mais arrastada. O hard rock é o rei nesta faixa. Solos de guitarra trazem mais sofisticação e complexidade à música.

"Vivença"

“Prá John” inicia meio intimista, soturna, a guitarra com dedilhados vagos e estranhos. Irrompem em uma pegada mais discreta, mais leve, uma balada melódica e dramática. A letra melancólica corrobora a condição, mas a bateria, pesada e agressiva, dá um tom mais pesado, fazendo com que a música tenha algumas mudanças de tempo e assim alterna entre momentos súbitos de peso e de uma linda e sombria balada.

"Prá John"

“Tente mais uma Vez” é mais animada, dançante e solar. Remete ao rockabilly dos anos 1950 e algo como The Rolling Stones nos seus primórdios. Os riffs de guitarra se afastam do peso do hard rock setentista e estimula a qualquer um afastar o sofá e dançar e dançar e dançar sem parar. Baixo e bateria trazem a textura rítmica dos anos 1950, mas os solos de guitarra de Agra revelam um lado pesadão e a bateria segue a proposta com uma batida mais aguda e pesada também.

"Tente Mais uma Vez"

“Natural” começa meio contemplativa e pastoral, mas por pouco tempo porque o peso da seção rítmica apavora com um baixo pesado, tocado com raiva, bateria igualmente pesada, mas o vocal nos remete ao rock psicodélico, algo como uma tropicália eletrificada, um psych rock ácido e lisérgico. Música cheia de momentos e que pode cativar a todos os gostos!

"Natural"

“Cante Comigo” começa com a mesma proposta da faixa anterior, uma balada, com lindos dedilhados de guitarra em solos mais diretos, porém interessantes. E assim se mantém, linear durante grande parte da faixa, com a bateria em uma pegada mais leve, baixo acompanhando o ritmo. Mas o destaque ficaria guardado para o solo de guitarra de tirar o fôlego que fecha a música. Excelente!

"Cante Comigo"

“Cabeça Feita” traz de volta aquela pegada de rock dos anos 1960, lembrando The Rolling Stones, é dançante e animada. Uma faixa solar que tem um viés comercial e radiofônico bem evidente. Sem dúvida foi composta com a intenção de ser a música para divulgar o álbum. Os solos são igualmente animados que faz qualquer um dançar.

"Cabeça Feita"

Segue com “Anjos de Cristal” que volta com o peso e a agressividade do hard rock! Riffs pegajosos de guitarra, baixo pulsante e bateria marcada, mas com uma batida pesada. A “cozinha” ganha destaque nessa faixa. Vocal cheio de melodias, melancólico, sombrio, ancorados por um instrumental invejável. Eu costumo dizer que, músicas como essa, são de banda, porque todos participam e tem um protagonismo importante. Mas não podemos negligenciar, claro, o solo de guitarra. Uma das melhores faixas do álbum, sem dúvida!

"Anjos de Cristal"

A faixa título, “Alma da Terra”, vem com uma pegada bluesy, um blues rock volumoso, com uma pegada de rock psych, lisérgico, ácido que me remete a bandas da transição dos anos 1960 para o 1970, como Cream, Steppenwolf e o peso do Blue Cheer. O blues com o rock, com o hard rock. A bateria agressiva, o baixo com aquele groove, riffs de guitarra que pedem solos excelentes.

"Alma da Terra"

E fecha com a música “Não Morra de Susto” que entrega, logo de cara, um riff duro, áspero, sujo, de guitarra que irrompe em uma faixa veloz, pesada e agressiva que me fez lembrar de um belo heavy metal. A bateria, mais uma vez, ganha em destaque, pela batida pesada e agressiva. Baixo pulsante e guitarra com solos diretos, curtos e grossos. O heavy rock é a tônica dessa faixa. Intensa e arrastada, em alguns momentos, mostra o lado mais pesado do Alma da Terra nesse álbum.

"Não Morra de Susto"

Reza a lenda que o Alma da Terra já teria novas músicas compostas já para um segundo álbum e que, por algum motivo obscuro, o projeto do segundo trabalho não teria vingado. Mas a realidade nós sabemos o motivo pelo qual esse segundo álbum não teria sido lançado. O fato é que a banda produzia uma música totalmente marginal e que não seguia os interesses da demanda de mercado animada com a new wave oitentista.

Se de fato esse material novo existe claro que aos apreciadores do velho hard rock estariam ávidos por ouvir esse material. Mas infelizmente pouco se sabe também do paradeiro dos músicos e se eles ainda estão na ativa, trabalhando com música. Esse fator também seria determinante, além, claro, do interesse de alguma gravadora para registrar oficialmente esse novo e perdido trabalho. É preciso, também, saber onde estariam essas fitas para trazer à tona um novo trabalho do Alma da Terra.

Uma pérola perdida e que teria um potencial enorme para se ter uma longevidade na história do rock brasileiro. Um representante, mesmo que obscuro, fiel de uma cidade que sempre respirou o que sempre teve de melhor no período marginal do rock brasileiro, sobretudo dos anos 1970 e que até os dias de hoje, luta contra as “novidades” e modismos dos dias atuais. Alma da Terra, com seu álbum de 1982, mostra, com arrojo e personalidade, um tempo que foi vilipendiado com o que havia de verdadeiramente melhor da nossa música. Você pode fazer o download de "Alma da Terra" aqui. Ou se você quiser ouví-lo pelo YouTube clique aqui.


A banda:

Fabio Mattos Agra na guitarra, violão e vocal

Paulo Fernando Martins no baixo e vocal

Antônio Augusto Ventura na bateria

 

Faixas:

1 - Solto no Ar

2 - Vivença

3 - Pra John

4 - Tente Mais Uma Vez

5 - Natural

6 - Cante Comigo

7 - Cabeça Feita

8 - Anjos de Cristal

9 - Alma da Terra

10 - Não Morra de Susto