terça-feira, 23 de junho de 2020

LummeN - Ao Vivo no Rio Jazz Club (1999)


O rock progressivo brasileiro é de uma vasta riqueza. E estamos identificando, observando e constatando com um trabalho de extrema dedicação, interesse e um intenso garimpo com um grande aliado: a internet e disseminação de tais conteúdos sonoros e suas bandas, por verdadeiros guerreiros amantes do rock progressivo, verdadeiros abnegados que não esmorecem e compartilham o que há de bom na música brasileira de qualidade que está escondido nos porões escuros do prog rock. 

Eu não conhecia essa banda e fiquei curioso pela sua música, sobretudo após as descrições destas em leituras de resenhas e matérias. Uma banda que sempre militou em nossos domínios territoriais, mas que por desconhecimento ou quaisquer outros motivos que não saberia narrar, não conhecia e que, após um breve hiato de um ano, retorna aos palcos para um momento de comemorações e celebrações de sua história. Falo da banda LummeN.

LummeN em 1999

O significado do nome “Lummen” foi retirado da fábula “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien, que na língua dos Altos Elfos significa "luminoso", "brilhante", "estelar". Lummen surgiu da criação e idealização do multi-instrumentista, compositor e ator Marco Aurêh e fez a sua estreia no dia 15 de setembro de 1995 na Concha Acústica do Museu Imperial na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro, cidade de origem da banda, com o show “Na Corte do Rei”.

Marco Aurêh

Pelo título que ostenta neste show, torna-se perceptível ou pelo menos nos dá uma pista, de sua proposta sonora que, entre outros aspectos, nos revela elementos do período medieval e renascentista em uma fusão erudita e contemporânea. 

A banda, por ter um ator como frontman também explora elementos teatrais com um interessante trabalho estético, com os seus integrantes trajados com indumentárias da época a qual propuseram a sua sonoridade, como bobos da corte, nobres, etc. Os arranjos e os instrumentos usados para produzir a sua música seguem, é claro, tal proposta, mostrando grande multiplicidade, uma rica variedade e improvável aos ouvidos mais incrédulos que vai dos óbvios instrumentos de sopro como flauta a outros mais eruditos como violino, bandolim, viola de 10, a instrumentos de viés progressivos como teclado, violão e instrumentos mais viscerais do rock n’ roll como guitarra. 


Essa mescla garante muita inspiração, liberdade criativa, cênica e visual. É o conceito entre o clássico e o moderno, o antigo e a tecnologia. Uma resposta a esse conceito são os telões nos shows projetando imagens medievais, mostrando a tecnologia a serviço do medieval, do passado. 

As influências do LummeN vai de Renaissance, principalmente pelo cerne de sua proposta, ao Jethro Tull pela sua sonoridade carregada de uma efusiva flauta. A banda, após várias apresentações na capital e interior do Rio, realizou, em fevereiro de 1997, três shows no Rio Jazz Club, conhecida casa situada no Rio de Janeiro e que não existe mais. Tais shows resultaram no primeiro lançamento do LummeN, em 1999, chamado “Ao Vivo no Rio Jazz Club”, pelo selo Som Interior, minha dica da banda, tendo repercussão na cena nacional e internacional. 


A banda, na época do lançamento do álbum, tinha a seguinte formação: Marco Aurêh no vocal, flauta, violão e teclado, André Henriques no violino, bandolim, violão e backing vocal, Celso Schopen na guitarra, Fred Mendonça no baixo e backing vocal e Marcelo Ksesky na bateria. O álbum abre com a faixa “Mansão” que já mostra todo o cenário sonoro medieval com o uso de flautas e violinos.

"Mansão" ao vivo em Petrópolis (2013)

Segue com “Vulcão”, uma linda música, uma balada meio folk, com um belo violão acústico e uma harmonia linda, irretocável. “Destino Imaginário” é uma das melhores faixas do álbum e te proporciona uma viagem agradável tendo o destaque do violino e acordes simples, mas necessários de guitarra com solos bem executados também, me remete alguns momentos de experimentalismo e viagem lisérgica também. 

"Destino Imaginário" ao vivo em Petrópolis (2013)

“Tempo Imóvel” começa com uma bateria meio tribal, percussiva e soa em seguida os primeiros acordes de flauta, uma viagem sonora, com tons psicodélicos com desconcertantes solos de guitarra.

"Tempo Imóvel" ao vivo no Neblina Rock em 2019

“O bobo da corte” traz aquele clima medieval de novo, uma música bem teatralizada, afinal você consegue visualizar a cena, de acordo com o andamento da faixa. E fecha com a espetacular “Relembrando” com destaque, mais uma vez para o violino e acordes excepcionais de guitarra que lembra muito King Crimson em seus primórdios. Um som progressivo de tirar o fôlego.

"Relembrando", ao vivo na Concha Acústica do Museu Imperial

A banda teve muitas formações ao longo da década de 1990 até encerrar as atividades em 2001 e remontada em 2013, sendo realizados vários shows até 2015. Em 2017 a banda retornou com o show “Medieval Contemporâneo” que contou com todos os ingredientes que fez do Lummen conhecido entre os fãs puristas de prog rock e que teve a participação  de uma cantora soprano e uma edição de pinturas do pintor e músico do Quaterna Réquiem e Vitral, Cláudio Dantas, e o surrealista belga Renné Magritte. A banda está na ativa até hoje com Marco Aurêh na sua concepção visual e conceitual. Álbum essencial de uma banda genuinamente brasileira.




A banda:

Marco Aurêh no vocal, flauta, violão e teclado
André Henriques no violino, bandolim, violão e backing vocal
Celso Schopen na guitarra
Fred Mendonça no baixo e backing vocal
Marcelo Ksesky na bateria


Faixas:

1 - Mansão
2 - Vulcão
3 - Destino Imaginário
4 - Tempo imóvel
5 - O bobo da corte
6 - Relembrando



"Ao Vivo no Rio Jazz Club" (1999)




sábado, 20 de junho de 2020

Maxophone - Maxophone (1975)


É inquestionável que a cena progressiva italiana é rica e brilhante. Não se tem a questão quantitativa apenas, mas a qualitativa também e que se equivale nos brindando com diversidade cultural que impacta positivamente a sua música, fazendo dela o nome que a define: progressiva, progressista, porque é de vanguarda, arrojada, sofisticada sim, mas por muitas vezes marginal e urgente, pois encarnam os conceitos primordiais do rock n’ roll: contestador, transgressor por natureza. 

Bandas como o MAXOPHONE sintetizam, com extrema fidelidade, tais quesitos mencionados. A banda foi resultado, na sua gênese, dessa miscelânea cultural, enfatizada fortemente na sua música. Resultado este inovador, revolucionário e que até hoje serve de referência para a história contemporânea do rock progressivo italiano que, a plenos pulmões e com muita força, segue florescendo com o frescor da novidade, relevante.


A sua atemporalidade personifica a cena e, mesmo que obscura e com uma pequena carreira discográfica, marcou época. O vilipêndio da indústria fonográfica e das agitações político-ideológica na Itália nos longínquos anos 1970 quase pôs tudo a perder, colocando o Maxophone em uma condição total de ostracismo, mas a força de abnegados, como os apreciadores da música e profissionais incansáveis que representam pequenas e undergrounds gravadoras disseminaram, lançaram e multiplicaram para o mundo a música seminal desta banda.

Graças também ao advento de tecnologias da informação, das redes sociais o trabalho dessas grandes bandas e, claro, a persistência dessas, a qual o Maxophone faz parte, a obra assume uma espécie de legado.

O Maxophone foi formado na cidade de Milão, na região da Lombardia, no final do ano de 1972 por jovens músicos que tinham estilos diversificados e peculiares sendo que metade foi formada em conservatórios italianos e a outra metade pertencia a uma base mais pesada, mais entusiasta da música como o “classic rock” e o jazz rock, por exemplo. 

E esses jovens eram: Roberto Giuliani (vocal, piano e guitarra), Alberto Ravasini (vocal, baixo, violão e flauta) e Sandro Lorenzetti (bateria), conhecido no meio jazzístico da Lombardia. A eles se uniram Sergio Lattuada (Hammond e teclados), Maurizio Bianchini (trompa, vibrafone, percussão e voz) e Leonardo Schiavone (clarineta, flauta e saxofone).


Essa mistura, essa “salada sonora”, proporcionou à música da banda algo novo, gratas novidades, pouco corriqueiras até então na cena progressiva à época como trompa, trompete, clarineta e vibrafone, além dos habituais instrumentos do cotidiano progressivo incluindo um maravilhoso sax e um hammond de presença marcante. 

Pronto! O caráter sonoro do Maxophone estava delineado! Uma banda diversificada, eclética, versátil, muito particular e extremamente interessante, que ia do progressivo sinfônico, música clássica, jazz rock, rock, folk etc. E é nessa estrutura que o debut do Maxophone foi edificado e lançado em 1975, homônimo, que será alvo de meu texto hoje.

Maxophone ao vivo

Com algumas relevantes apresentações ao vivo, o Maxophone passou a atrair a atenção do público. Tanto que a banda conseguiu lançar o seu primeiro 45 rotações: "C'è un paese al mondo/Al mancato compleanno di una farfalla". 

A banda se apresentou em vários festivais, excursionando inclusive em uma turnê de razoável porte com a banda Area, em 1976. Neste mesmo ano a banda se apresentou no importante e icônico Festival de Montreaux, na Suíça, e logo depois gravou uma participação na emissora de televisão italiana, RAI, sendo lançado em 2018 comercialmente, com muitos materiais raros e valiosos. Mas antes, em 1975, a banda lançou o seu emblemático álbum, “Maxophone”, pelo selo "Produttori Associati", tanto na versão original, cantado em italiano, como na versão inglesa.


Em meados da década de 1970 algumas bandas aderiram ao formato inglês para alçar mercado norte-americano e também todo o mundo, resultado do sucesso internacional de bandas como Premiata Forneria Marconi e Le Orme. 

A banda que gravou este álbum, era formada por Sergio Lattuada no piano, órgão, piano elétrico, vocal, Roberto Giuliani na guitarra, piano, vocal, Leonardo Schiavone no clarinete, sax, flauta, Maurizio Bianchini na corneta, trompete, vibrafone, percussão, vocal, Alberto Ravasini no vocal, baixo, violão e Sandro Lorenzetti na bateria com Paolo Rizzi no baixo acústico, Eleonora de Rossi no violino, Susanna Pedrazzini no violino, Giovanna Correnti no cello e Tiziana Botticini na harpa. 

“Maxophone” é um álbum técnico, mas emocional e orgânico, com uma dramaticidade em sua sonoridade, bem peculiar em se tratando do progressivo italiano. É pesado, progressivo, clássico com jazz rock, sinfônico e passagens agradáveis de folk. 

A faixa inaugural é “C'È Un Paese Al Mondo” que abre com um linda linha de piano agradável que irrompe em um peso protagonizado por guitarra e bateria, cadenciando com passagens suaves, mostrando o casamento perfeito entre o clássico e o rock.

"C'É Un Paese Al Mondo", live at RAI 1976

“Fase” começa com o peso da guitarra, dando o tom mais pesado da música, um legítimo hardão setentista, um protagonismo dos instrumentos, com passagens interessantes de jazz.

"Fase", live at RAi 1976

“Al Mancato Compleanno Di Una Farfalla” tem a introdução de uma guitarra clássica em uma atmosfera contemplativa e onírica, mostrando um pouco de folk, música celta, a música tradicional e regional italiana se faz presente, mas da suavidade a música fica mais enérgica, mostrando ótimas passagens de ritmo com linhas de hammond excelentes.

 "Al Mancato Compleanno Di Una Farfalla", live at RAI 1976

“Elzeviro” tem a introdução excepcional do vocal, poderoso e dramático, pois a letra enaltece em seu teor questões políticas e sociais, como em todo o álbum, muito comum entre as bandas progressivas italianas da época. Destaque nesta música fica para o riffs de guitarra, vocal nos momentos mais “calmos” e para órgão dando a camada sonora necessária para a sequência da música.

"Elzeviro", live at Tokyo 2014

“Mercanti Di Pazzie” traz a introdução da harpa tirada da obra “Sonata per arpa” gravada originalmente por Paul Hindemith em 1939. É uma música viajante, uma sensação de paz e tranquilidade, de transcendência da alma.

"Mercanti Di Pazzie", live at Tokyo, 2014

O álbum fecha com “Antiche Conclusioni Negre”, a mais longa faixa do álbum, e começa enérgica, animada, uma faixa solar, sinfônica, tendo instrumentos de sopro como destaque, alternando momentos mais serenos. Não podemos negligenciar a bela participação de linhas de baixo e teclado também, uma música de banda, todos participando intensamente e com destaque nesta faixa.

"Antiche Conclusioni Negre", live at RAI 1976

Em 1977 o Maxophone produziu material para um segundo álbum, mas a gravadora faliu e o projeto foi engavetado vendo a luz somente em 2006 em uma caixa com CD e DVD de nome “From Cocoon To Butterfly”, incluindo algumas gravações inéditas em um período que compreende entre os anos de 1973 e 1975, além de alguns vídeos raros do show que fizeram no estúdio da RAI em Turim. 

"From Cocoon to Butterfly" (2006)

Porém anos antes, nos anos 1990, graças ao ressurgimento do rock progressivo italiano com novas bandas, em 1993, o álbum de estreia, “Maxophone” foi reeditado pelo selo Mellow e em 1997, também foi relançado a versão italiana pela mesma gravadora. 

Em 2001 o selo Akarma republicou o álbum em vinil com a adição de algumas músicas que saíram somente nos 45 rotações. Um álbum essencial, um tesouro que a terra progressiva nos brindou, que o Maxophone nos entregou para deleite eterno. 





A banda:

Sergio Lattuada no piano, órgão, piano elétrico, vocal.
Roberto Giuliani na guitarra, piano, vocal.
Leonardo Schiavone no clarinete, sax, flauta.
Maurizio Bianchini na corneta, trompete, vibrafone, percussão, vocal.
Alberto Ravasini no vocal, baixo, violão.
Sandro Lorenzetti na bateria


Com:

Paolo Rizzi no baixo acústico.
Eleonora De Rossi no violino.
Susanna Pedrazzini no violino.
Giovanna Correnti no cello.
Tiziana Botticini na harpa.


Faixas:

1 - C'e Un Paese Al Mondo
2 - Fase
3 - Al Mancato Compleanno Di Una Farfalla
4 - Elzeviro
5 - Mercanti Di Pazzie
6 - Antiche Conclusioni Negre




"Maxophone" - Versão em italiano


"Maxophone" - Versão em inglês



terça-feira, 16 de junho de 2020

Osanna - L'Uomo (1971)


O vasto e rico rock progressivo italiano merece ser explorado de forma latente e visceral. A cada voo alçado na velha bota uma velha nova história é descoberta e a banda que falarei hoje foge um pouco o convencionalismo sinfônico que permeia a cena italiana progressiva. Como Il Balletto Di Bronzo, temos outros grandes nomes do hard progressivo dignos do peso que ostentam em sua música. Mas do peso das guitarras, dos riffs poderosos, de solos agressivos, fluía também a natureza plena e altiva da complexidade do rock progressivo e do folclore italiano e uma dose sombria de música pagã, marginal como deve ser o rock na sua mais genuína expressão. Falo de uma das mais emblemáticas bandas da cena progressiva italiana de todos os tempos: Osanna. A dica é o seu debut chamado “L’Uomo”, de 1971. 

"L'Uomo"

Como muitas bandas italianas surgidas entre o fim dos anos 60 e o início da década de 70, o Osanna mostra um beat cheio de psicodelia, música pop, classic rock e um progressivo ainda em processo embrionário enquanto música, cena e cultura. Mas o Osanna, além das características citadas, mostra uma força sonora, calcado no hard rock cru, mesclado com a flauta em nuances de suavidade e caos, saxofones frenéticos, cheios de corpo e substância, com um pouco de um jazz fusion e música clássica também. O que poderia soar algo desconexo, tudo se encaixa fantasticamente bem. Uma das poucas bandas de sua época que tiveram a capacidade de criar um estilo inovador e memorável. “L’Uomo” trazia o frescor da nova música que nascia na Itália, é a pedra fundamental de sons que se flertavam, se retroalimentavam, como o prog rock, o hard rock, o folk rock, era uma sinergia que se personificava também em um aspecto teatral, cênico, com os seus músicos com máscaras, com vestimentas coloridas, talvez resquícios do hipismo, aliado ao peso e a agressividade de uma música intrincada e complexa A história do Osanna começa na cidade de Nápoles no final da década de 60, surgido das sombras do Monte Vesúvio, em uma região chamada Vomero, entre becos lotados, onde o medo, a violência, a pobreza era evidente nos olhos e na pele. Foi nesse ambiente que a música do Osanna foi edificada. O Osanna foi construído a partir da banda local I Volti Di Pietra com Lino Vairetti no vocal, Carlo Fagiani na bateria, Enzo Petrone no baixo e Lino Ajello na guitarra. O nome mudou para Cittá Frontale, nome retirado de um livro do escultor abstrato da Sicília Pietro Consagra. Desde 1969 a banda vinha sofrendo com os intensos rodízios de músicos mas que, a partir dessas intensas mudanças a formação umbilical do Osanna estava nascendo. Fagiani é substituído por Massimo Guarino, Petrone também abandona a banda dando lugar a Lello Brandi e Lino Ajello também decide sair indo para o Il Balletto Di Bronzo, dando lugar a Danilo Rustici. O saxofonista Elio d’Anna, que era de outra banda local, de Nápoles, Showmen, estabilizaria a formação do jovem Osanna.

Osanna

A banda atraiu muita publicidade e atenção ao subir nos palcos com vestimentas romanas e os rostos pintados, mostrando seus dotes artísticos não apenas pela música, mas pela parte visual, teatral e estética, tanto que alguns grupos de teatro colaboraram com a banda neste quesito estético transformando seus shows em verdadeiras performances cênicas o que era totalmente novo e revolucionário naquela época na Itália. O Osanna ganhou alguma fama e foi considerada como uma das melhores bandas no Festival Pop de Caracalla. Nessa época o Gênesis se apresentou na Itália e o Osanna os acompanhou abrindo seus shows o que facilitou a vida da banda para atingir certa visibilidade. A formação do Osanna em “L’Uomo” tinha: Lino Vairetti no vocal, harmônica, hammond, sintetizador e guitarra, Danilo Rustici na guitarra, Elio D'anna  na flauta e saxofone, Lello Brandi no baixo e Massimo Guarino na bateria e percussão.

Osanna com seus rostos pintados

O álbum é inaugurado com a sugestiva faixa “Introduzione" com um violão suave, sintetizadores em uma atmosfera contemplativa, depois surge o baixo, bateria, guitarra e gaita em uma crescente agressiva, pesada, o hard rock de braços com o progressivo em uma mescla mais do que perfeita.

Osanna - "Introduzione"

“Introduzione” leva a faixa título, “L’Uomo” que, diante de uma apresentação de guitarras acústicas, uma balada inicial com o vocal limpo e dramático de Lino Vairetti, irrompe em frenéticas notas de saxofone com interlúdios de flauta e gritos de “Hosana”! Uma letra que fala de criação, de vida. Seus versos iniciais dizem por si só: "O homem, a terra, o céu e o mar / Criar, criar, criar em todos os lugares / O sol, a luz, o frio e o calor / O amor, o amor, o amor em todos os lugares."

Osanna - "L'Uomo"

A fusão de música clássica, de hard rock é perceptível em faixas como “Mirror Train” que nos mostra um hardão nos riffs de guitarra, com uma mistura de jazz rock e folk com uma flauta a la Ian Anderson cheio de energia e força. E como toda grande banda de rock italiana dos anos 1970 tem de ser politizada e se posicionar de forma corajosa. A música termina com as notas do hino comunista "Bandiera Rossa", com uma guitarra distorcida e raivosa, lembrando Jimi Hendrix, uma das referências do Osanna que dizia: "Mente para onde você está indo / Se você quiser fazer / Nunca olhe para trás”.

Osanna - "Mirror Train", Live at Napoles (2012)

“Non Sei Vissuto Mai” vem poderosa, varrendo tudo que vem pela frente, um típico e poderoso hard rock, cadenciada por doces flautas, em uma pegada mais psicodélica e folk, mas que logo se encorpa com o peso dissonante das guitarras de Danilo Rustici e o vocal rasgado de Vairetti.

Osanna - "Non Sei Vissuto Mai", Live (1973)

Temos a avassaladora “Vado Verso Una Meta” com um riff pegajoso, mas muito competente de guitarra e uma cozinha de tirar o fôlego, certamente a mais hard do álbum. 

Osanna - "Vado Verso Una Meta"

“In Un Vecchio Cieco” começa com um solo de bateria que descortina uma sonoridade bem folk e suave ao som de um violão acústico, uma balada bem viajante, mas depois nos mostra o poder sonoro e caótico de um saxofone louco e o riff de guitarra que combina com essa loucura toda me remete ao King Crimson dos primórdios.

Osanna - "In Un Vecchio Cieco"

Temos a poderosa balada chamada “L'amore Vincerà Di Nuovo” com destaque expressivo da flauta de Elio D'anna, com dedilhados de guitarra que, entre riffs mais pesados traz todo o clima intenso de um clássico, de um hino, com o vocal poderoso de Vairetti.

Osanna - "L'amore Vincerà Di Nuovo"

“Everybody's Gonna See You Die” é a faixa mais solar do álbum, animada começa com riffs de guitarra pesados, uma faixa cantada em inglês, com uma intensa velocidade com um excelente desempenho vocal. Um hardão setentista com direito a solos de guitarra e flauta tocada mais freneticamente.

Osanna - "Everybody's Gonna See You Die"

E para fechar o álbum “Lady Power” dando sequência a faixa anterior que também é cantada em inglês. Um verdadeiro petardo, uma catarse sonora com solos criativos e pesados de Rustici, flautas arrebatadoras de Elio D’Anna, cozinha bem afiada e sinérgica com um baixo pulsante de Lello Brandi e uma bateria forte e marcada de Massimo Guarini. Uma hecatombe instrumental!

Osanna - "Lady Power"

Não se pode falar da história do hard rock e do progressivo italiano sem passear pelas notas, arranjos e melodia de “L’Uomo”. Já neste álbum torna-se perceptível um Osanna já maduro e com uma identidade musical plenamente definida que viria a se consagrar em “Palepoli”, por exemplo. Um grande álbum que representa com maestria o gênese do progressivo italiano pelo seu compromisso visual, criativo e social e claro, sonoro.



A banda:

Lino Vairetti no vocal, 12-string guitar, harmonica, Hammond  e sintetizadores
Danilo Rustici na guitarra e pipe organ
Elio D'anna na flauta e saxofone
Lello Brandi no baixo
Massimo Guarino na bateria e percussão

Faixas:

1 - Introduzione
2 - L'uomo
3 - Mirror Train
4 - Non Sei Vissuto Mai
5 - Vado Verso Una Meta
6 - In Un Vecchio Cieco
7 - L'amore Vincerà di Nuovo
8 - Everybody's Gonna See You Die
9 - Lady Power 













sábado, 13 de junho de 2020

The Trip - The Trip (1970)


Sou abertamente um fã da banda italiana THE TRIP e sem dúvida é uma das mais importantes e essenciais da Itália e de todo o mundo. Essa banda deve e merece ser reverenciada e ser colocada em uma espécie de pedestal de referência no estilo. O The Trip, como muitas bandas na Itália na virada da década de 1960 para a de 1970 ainda respiravam o beat italiano, a sua versão para a música dançante psicodélica, lisérgica. 

O The Trip, no seu gênese, contava com músicos ingleses e, com o beat italiano em alta, a cena psicodélica daquele país, os membros fundadores Arvid "Wegg" Andersen, baixista e vocalista, Billy Gray, vocalista e guitarrista, além do baterista Ian Broad, partiram para a Itália para garantir um lugar ao sol. Foi também um jovem e promissor guitarrista, um cara chamado Ritchie Blackmore, isso em 1966. Essa história por aqui é tabu, beirando a lenda. 

The Trip

Em conversa com o grande Pino Sinnone, baterista italiano que viria a se integrar à banda quando a mesma se instalou em terras italianas, confirmou ao "Luz ao Rock Obscuro" que Ritchie fez parte da banda e fora com os demais músicos para a Itália, juntamente com Riki Maiocchi, que era vocalista do The Chameleons em 1966, e lá ficou por alguns meses, entre setembro e dezembro daquele ano. 

O motivo de Blackmore ter ficado pouco tempo e ter deixado o The Trip foi, segundo Sinnone, que o público não apreciava a música da banda à época e os proprietários das casas de shows não pagavam bem nas suas apresentações, então ele retornou à Inglaterra. Mas ainda segundo o baterista Pino Sinnone, Ritchie e os demais integrantes ingleses da banda adoravam espaguetes e ele, Pino, dava a comida para saciar a fome dos jovens músicos. Essa é que eu chamo de uma história pitoresca e interessante que vale registrar por aqui.


Andy "Weeg" Andersen, Ritchie Blackmore (meio) e Jim Evans

Mas logo o "tempero" italiano se juntou ao The Trip e a história começou a mudar, para melhor, para banda. Entra Joe Vescovi, residente de Savona, um exímio tecladista que seria representativo para a estrutura sonora da banda e a saída de Ian Broad da bateria para a entrada substancial de Pino Sinnone. A formação com Sinnone, Vescovi, Andy Wegg e Gray seria a primeira e histórica formação que gravaria o primeiro e grande álbum de 1970 do The Trip, simplesmente chamado "The Trip", alvo da minha resenha de hoje.



Bandas já surgiam aos montes na Itália e a maioria dessas que se consagraram e ajudaram a edificar o rock progressivo como Le Orme, Premiata Forneria Marconi, Banco del Mutuo Soccorso, entre outros, que gravaram seus primeiros álbuns ainda sobre as vestes da psicodelia e da música popular italiana e o progressivo ainda era uma música que prometia e que estava engatinhando. 

O The Trip também seguiu nessa onda, as cores do hipismo ainda era a tônica na Itália, tendo em seu debut, uma representatividade por trazer a psicodelia "Made in Inglaterra" com a sonoridade característica da música italiana, colocando este álbum em uma posição vanguardista para o rock progressivo italiano.

The Trip em uma apresentação nos seus primórdios 

Embora seja uma banda relativamente conhecida entre os amantes mais passionais do rock progressivo o primeiro álbum da banda é o menos conhecido e cultuado pelos seus fãs, deixando para os clássicos “Caronte” e “Atlantide” o protagonismo de sua história sonora. Contudo fui fisgado pelo underground progressista da sua estréia e me pus a ouvi-lo e consequentemente a escrever sobre ele. A catarse é garantida! 

Um álbum esquecido do The Trip, mas que proporciona satisfação e prazer ao ouvir pelo simples fato da qualidade e corroboração histórica que faço questão de enaltecer: O rock psicodélico é um dos pais do rock progressivo e o The Trip mostra com maestria essa passagem histórica assumindo a paternidade do movimento junto com outras tantas bandas consagradas como Pink Floyd, por exemplo, que com Syd Barrett mostrou o seu  lado lisérgico. 

Um disco transitório, o embrião do rock progressivo que nasceu e deu filhos robustos e saudáveis que  deleitamos como “Caronte” e “Atlantide”, por exemplo. Torna-se essencial a audição deste primeiro álbum do The Trip para conhecermos a história do rock progressivo no seu primórdio e, sobretudo a história da banda. A formação da banda em “The Trip” tinha: Billy Gray na guitarra e vocal, Joe Vescovi no órgão, vocais e arranjos, Arvid “Wegg” Andersen no baixo e vocal e Pino Sinnone na bateria e percussão, onde assinaram um contrato com a RCA em 1970 lançando seu tão esperado trabalho.

The Trip em estúdio (1970)

A faixa inaugural, “Prologo”, mostra um lado bem obscuro e experimentalista e muito lisérgico do The Trip com a predominância do bom e velho órgão, do teclado, do hammond, um símbolo do prog-psicodelismo. Uma bela música instrumental que floresce em uma explosão lisérgica, um acid rock com pitadas proto progressivas.

"Prologo"

“Incubi” mostra um vocal bem executado e competente que seria a tônica para os discos seguintes com destaque para o teclado e batida bem dançante e envolvente e solos viajantes de guitarra.

"Incubi"

“Visioni Dell'aldilа” segue no mesmo ritmo, com o talento de Joe Vescovi, saudoso, no teclado e o vocal embriagante e transcendental. É sem sombra de dúvida a mais psicodélica do álbum. 

"Visioni Dell'aldila"

“Riflessioni” é uma das melhores músicas do álbum, pois mostra com nitidez sonora a característica da música do The Trip com uma levada lenta e com um trabalho excelente de vocal e uma música totalmente progressiva, muito a frente daquele tempo. 

"Riflessioni"

“Una Pietra Colorata” fecha o álbum com chave de ouro com uma música mais para cima, mais pesada, com uma pegada pop, diria radiofônica, bem interessante. 

"Una Pietra Colorata"

Enfim, não é o clássico do The Trip, mas que desenhou a sua história e de toda uma cena progressiva marcando a transição entre o psicodélico e o prog rock e me arrisco a dizer que é o melhor álbum dessa fase da Itália. A música impressionística do The Trip, como era conhecida naquela época, tingiu, como uma obra de arte, a história da música progressiva italiana e a marcou para todo o sempre.

Agradecimento especial ao Pino Sinnone por ter colaborado pela construção dessa resenha. Grazie!





A banda:

Billy Gray na guitarra e vocal
Joe Vescovi no órgão, vocal e arranjos
Arvid "Wegg" Andersen no baixo e vocal
Pino Sinnone na bateria e percussão


Faixas:

1 - Prologo
2 - Incubi
3 - Visioni Dell'aldilà
4 - Riflessioni
5 - Una Pietra Colorata 



"The Trip" (1970)



quinta-feira, 11 de junho de 2020

Pythagoras - Journey To The Vast Unknown (1980)


Não sou apreciador da música eletrônica, sobretudo com essa proposta dos dias atuais. Sou adepto da música “orgânica”, com os músicos em palco mostrando todo o seu esforço em elaborar a sua musicalidade com os seus instrumentos, extraindo deles o seu melhor. 

Talvez seja um argumento um tanto quanto ortodoxo ou convencional, mas essa é a minha concepção sobre música. Essa banda que abordarei é conhecida por executar um progressivo eletrônico com o pilar sonoro baseado em sintetizadores, teclados e bateria. 

Não sou o mais adequado para tecer comentários técnicos sobre música, sou movido por emoções que a música me provoca, e dessa forma falo sobre elas, mas não consigo ouvir na música da banda holandesa PYTHAGORAS em seu primeiro álbum, chamado “Journey To The Vast Unknown”, de 1980, como progressivo eletrônico. 


Vejo e ouço um trabalho arrojado e desafiador que entrega uma verdadeira sinergia sonora, capitaneada pelas teclas dos sintetizadores, que é basilar do mais puro e genuíno rock progressivo. Não podemos confundir música eletrônica com recursos eletrônicos extraídos de instrumentos, como é o caso do PYTHAGORAS.

É evidente que bandas como Tangerine Dream e Kraftwerk, por exemplo, trouxe o pioneirismo do uso dos sintetizadores à música, mas o Pythagoras trouxe mais sensibilidade a proposta, mais complexidade, mais dramaticidade. 

“Journey To The Vast Unknown” traz o protagonismo dos teclados e dos sintetizadores, mas também enaltece, com qualidade, o rock progressivo e o space rock, em todas as suas concepções. Assim se prossegue o álbum. É belo, é viajante, mostrando que, apesar de ter sido lançado no primeiro ano da década de 1980, considerada, mercadologicamente falando, um período sombrio para o rock progressivo. 

A formação do Pythagoras se inicia em uma loja de discos na Holanda, na cidade de Haia, chamada Moonlight Records, no final dos anos 1970. O proprietário era o baterista Bob de Jong que havia tocado em bandas locais como Key, Pine-Apple e também era baterista de estúdio da gravadora holandesa Phongram. 

Um dos visitantes assíduos da loja era o tecladista René de Haan, que sempre comentava de ambiciosos projetos de fazer música com base nos sintetizadores. Seu quarto, na casa de seus pais, era o seu QG (Quartel General) e estava repleto de instrumentos musicais como o Korg MS 20 e o sintetizador “trilogy”, um piano digital Roland, um conjunto de cordas Solina e um sequenciador digital Firstman 1024. 

Rene de Haan e Bob de Jong

Bob ficou animado e se deixou levar pelo sonho do jovem René, de apenas 19 anos, levando ao lançamento do álbum “Journey To The Vast Unknown”, de 1980, alvo da resenha de hoje. Teve, à época, uma prensagem privada de  apenas 500 cópias. Bob enviou alguns LPs promocionais para alguns DJs conhecidos como Wim Van Putten, Skip Voogd e Frits Spits. 

Em pouco tempo, a novidade: Sua caixa de correio estava cheia de cartas de todo o país de interessados e fãs pela sua música de sintetizador. “Journey To The Vast Unknown” começa com a faixa título, uma suíte, dividida em quatro fragmentos, totalizando pouco mais de 18 minutos: uma música complexa, introspectiva, melódica, convincente, hipnotizante, viajante com suaves e lentos conjuntos de sintetizadores, com a vivacidade da bateria, a simbiose entre sintetizadores, mellotron e bateria é algo maravilhoso nesta faixa, um prog rock com space rock elevado à potência cósmica e de muita qualidade. 

"Journey to the Vast Unknown Part I and II"

"The Journey to the Vast Unknown Part III and IV"

Na sequência tem “In To The In” traz uma introdução mais soturna e contemplativa, claro, dos sintetizadores, entrando o teclado em uma espécie de prog sinfônico mais introspectivo, com a bateria trazendo uma base mais densa. 

E finalmente fecha com a excelente “When It Comes” que parece fazer com sua alma se desprenda do corpo e se põe a vagar, a voar sem destino. Um coro se faz ouvir, o único e breve momento em que se ouve vocais, com teclados delicados e poderosos, ao mesmo tempo, que te estimula a assobiar instintivamente seguindo o ritmo. 

Tudo conspirava a favor: piano, teclados, sintetizadores e a bateria, entrando em seguida, vagarosa, soft, lenta. Linda faixa para fechar um álbum fantástico, emocionante e que entrega ao público a corroboração de que música precisa de músicos inspirados e arrojados, a música orgânica com recursos eletrônicos que se complementam em uma convergência sonora. 

“Journey To The Vast Unknown” foi relançado  algumas vezes e, em alguns momentos, vendidos por cerca de 5.000 cópias, o que é incrível para uma proposta pouco ortodoxa, como o uso predominante de sintetizadores.




A banda:

Bob de Jong na bateria, percussão e sinos tibetanos.
René de Haan nos sintetizadores, strings, sequencer, mellotron e piano.


Faixas:

1 - Journey to the Vast Unknown parte I
2 - Journey to the Vast Unknown parte II
3 - Journey to the Vast Unknown parte III
4 - Journey to the Vast Unknown parte IV
5 - In to the In
6 - When it Comes 



"Journey to the Vast Unknown" (1980)