sábado, 9 de maio de 2026

Climax - Gusano Mecánico (1974)

 

O rock latino não goza muito de popularidade em outros continentes tidos como referência do rock n’ roll, como a Europa e a América do Norte, principalmente a terra do Tio Sam, por exemplo. E viajando por alguns países, em especial, da América Latina, o cenário, no que tange a visibilidade, fica ainda pior.

Tirando alguns países como a Argentina e o Brasil, além do México, muito citado quando lembramos dos latinos americanos, apesar de ser da América Central, os demais países sempre caem no ostracismo, sendo, claro, pouquíssimos comentados.

Embora países, como por exemplo, a Bolívia, não seja fértil para o rock n’ roll, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, não se enganem, estimados leitores, que não exista nada de bom nesse país e nos demais também. Querem saber o motivo de ter mencionado a Bolívia? Porque de lá surgiu a banda que eu falarei hoje: CLIMAX.

O Climax não é uma banda tão rara, até traz alguns fãs e adoradores do rock underground, talvez não pudesse até figurar em minhas linhas, mas, em se tratar de um país, como disse, tão pouco difundido para a nossa tão amada e famigerada música, vale e muito a pena falar sobre ela e lá em terras bolivianas o Climax é gigante, um verdadeiro desbravador da música pesada.

E falando em música pesada, não é tão somente pelo fator do país de origem ser pouco conhecido, vale contar a história do Climax pelo único álbum que produziu que é simplesmente sensacional. Válido principalmente para quem aprecia hard rock com nuances blueseiras. Mas acalmem-se, bons amigos leitores, não falarei agora sobre o álbum, mas de sua história e do contexto político e social a qual a banda estava inserida.

Com apenas 16 anos de idade, o baixista Javier Saldias e o guitarrista José A. Eguino formariam, em 1968, a banda “Black Birds”, que mais tarde se tornariam “The Tourtles”. Quando conheceram o prodigioso baterista Álvaro Córdova encontraram o elemento essencial necessário para dar o grande salto para um novo tipo de som e maturidade musical. Um ano depois, começaram a ouvir as novas correntes sonoras pesadas, com viés do blues, que estavam em evidência, como Cream, Steppenwolf e Jimi Hendrix.

Climax

Seria a ruptura com o beat, a psicodelia, para uma veia mais pesada e bluseira. O psicodélico “flower power” estava entediante e demasiadamente pop na transição das décadas de 1960 e 1970 e as influências mencionadas era a porta para uma sonoridade nova e mais arrojada.

A banda ficou tão envolvida nesse som poderoso que estava florescendo que decidiu ir para os Estados Unidos para conhece-lo. Quem sabe seria a chance de tingir com novidades a sonoridade da banda que haviam recentemente formado. Infelizmente na Bolívia não teria como pôr em prática tal audacioso projeto sonoro.

Eles entraram em contato com a prima de primeiro grau de Javier Saldias, que morava em Denver, no Colorado, e ela, gentilmente, ofereceu um lugar para ficarem. Assim, os três, antes de atingirem a maioridade, partiram para os Estados Unidos com a coragem de querer mudar a sua música e trilhar uma nova trajetória. Eles iriam estar dentro do movimento musical, vivendo aquilo tudo!

Denver não era o lugar ideal para respirar a cena psicodélica norte-americana, então foram para São Francisco, na Califórnia e lá puderam assistir aos shows do Jimi Hendrix Experience, The Doors e Steppenwolf e assim puderam participar, ainda como fãs, dos grandes momentos do rock na segunda metade dos anos 1960, marcado por bandas mais pesadas e viscerais. Suas visões musicais mudaram! Foi um arrebatamento sonoro!

Com essa experiência vivida adquirida nos Estados Unidos, a banda, agora com o nome de Climax, faria uma temporada na Argentina e voltaria para a Bolívia se consolidando em torno, claro, de José A. Eguino, na guitarra, teclados e vocais, Álvaro Córdova, na bateria e Javier Saldías no baixo. Os fãs ardorosos de rock n’ roll da Bolívia ficaria impressionados com a sonoridade poderosa do power trio nas suas apresentações ao vivo, onde puderam entregar a potência da guitarra, a sonoridade poderosa do baixo e a energia dinâmica da bateria como nunca antes ouvida na Bolívia.

O público reagiu muito bem, mesmo dentro de um contexto elitista foi totalmente aceito, e a fama de CLIMAX cresceu por todo o país. Já desde suas origens. Nesse sentido, o grupo tinha um estilo poderoso e muito polido, no qual cada membro soava como dois ou três músicos ao mesmo tempo, esse era o segredo do CLIMAX.

O Climax tinha tudo em suas mãos. De uma linguagem sonora muito estridente, muito mais agressiva, onde cada membro tentando impor suas habilidades musicais pessoais, perceberam que juntos eram explosivos se aprendessem os “truques” necessários para trabalharem em equipe.

E com isso logo as ofertas chegaram. A gravadora de La Paz, “Discolandia”, os contratou para a gravação de seu primeiro EP, que foi concebido em apenas três dias e lançado em 31 de março de 1969. Essa primeira obra continha versões de grupos clássicos como Steppenwolf ("Born To Be Wild"), Cream ("Sunshine Of Your Love" / "Tales Of Brave Ulyses)" e uma música tributo ao seu admirado Jimi Hendrix ("Fire").

Capa EP

Naquela época, o CLIMAX já era uma das bandas mais populares da Bolívia e seu estilo muito pessoal de interpretar os grandes do Rock os fez criar, pouco a pouco, sua própria personalidade musical. Esse primeiro EP seria seguido por um segundo, lançado em 24 de maio de 1970, que continha uma nova versão da música "Born To Be Wild", além de suas primeiras músicas originais, "The Seeker", "El Abrigo Café de Piel de Gallina" e "El Ritmo de la Vida". Com esses dois EPs a banda conseguiu ser um dos mais reconhecidos da Bolívia e recebeu ofertas de emprego por todo o país.

Naquela época, um quarto membro entrou para a banda, um fuzileiro naval dos Estados Unidos, chamado Bob Hopkins, que eventualmente ficou responsável pelos vocais e gaita, mas apenas para a gravação do segundo EP e para alguns shows ao vivo. Aqueles que ouviam a música desse trio naquela época perceberam que, em termos qualitativos, o CLIMAX estava anos-luz à frente da concorrência. Nos três anos seguintes, mais precisamente entre 1970 e 1973, os membros do Climax, se reuniram para o que seria, finalmente a gravação do seu debut, do seu primeiro álbum e, para variar, os resultados seriam simplesmente espetaculares, trabalho esse que será esmiuçado por aqui.

"Gusano Mecánico", o álbum que gravaram em 1974, se tornaria uma das primeiras obras conceituais do rock boliviano, marcando um antes e um depois na cena musical latino-americana. Ao ouvi-la, todos os críticos e fãs da Bolívia concluíram que era uma obra-prima e um esforço que até hoje não tem sido igualado em seu país. A música pulsante, majestosa e ousada da banda fala por si só. Dessa forma, o CLIMAX deu um salto gigante em sua evolução artística e musical e se estabeleceu, definitivamente, como a melhor, mais experimental e audaciosa banda do rock boliviano.

Em “Gusano Mecánico” que, em tradução livre significa “Verme Mecânico” a banda ousou explorar os terrenos complexos do rock progressivo e a fusão de elementos da música andina (bem evidente) com o rock mais inovador, mesclando a isso tudo, claro, o hard rock e a blues rock tão em voga à época. Neste álbum a banda não apenas apresentou uma evolução musical incrível, mas também como músicos. Como curiosidade, a arte da capa traz a interpretação colorida da famosa "Relativity", de M.C. Escher, que mostrava uma escadaria labiríntica com minhocas que representavam a trajetória atual da humanidade no mundo da mecanização como uma engrenagem em uma máquina maior.


Cada membro evoluiu instrumentalmente de forma incrível e isso, junto com o fato de que todos levaram o novo desafio muito a sério, os colocou em destaque. Jose A. Eguino forneceu a estrutura inicial, a parte mais clássica, porque naquela época toda a banda estudava música muito a sério, e em um estúdio de piano, um instrumento que Jose A. Eguino estudou na época, algumas melodias do novo álbum foram acopladas. Por sua vez, Javier Saldias também contribuiu com as letras das músicas.

O álbum abre com a faixa de sete minutos “Pachacuttec (Rey de Oro)”, uma composição em duas partes. Uma verdadeira demonstração de potência, começa com uma avalanche de decibéis, riffs acrobáticos e solos jazzísticos com toques de acid house, sustentados por uma batida de bateria convulsiva com influências latinas e um baixo expressivo. A princípio, tudo parece caótico, mas é perfeitamente controlado. Gradualmente, o trio então mergulha em uma sequência psicodélica e nebulosa, oferecendo um contraste marcante antes da explosão final.

"Pachacuttec (Rey de Oro)"

“Transfusión de Luz” tem o destaque da guitarra e os vocais dão um toque psicodélico inevitável, seguindo a veia inaugurada por bandas do naipe do The Who e Jimi Hendrix Experience. Aqui, Eguini faz um solo francamente memorável e o trabalho da bateria também ganha protagonismo, sendo muito cru e pesado.

"Transfusión de Luz"

“Cuerpo Electrico - Embrión de Reencarnación” é a música que encerra o primeiro lado da versão em LP e mais remete a uma estrutura mais melódica, o que, confesso, me parece um tanto quanto incomum, levando em consideração o álbum, como um todo, que traz um hard rock mais sujo, embora bem estruturado, melodicamente falando. Mas ainda assim surpreende pelo peso, pelo arrojo e pela sua importância, tendendo não apenas para o hard típico dos anos 1970, mas para um proto metal. Nada era feito assim na Bolívia!

"Cuerpo Eléctrico - Embrión de Reencarnación"

“Gusano Mecánico”, a faixa título, abre o lado B da versão em LP e pode ser, sem dúvida, a faixa mais progressiva deles, algo como um belo hard prog. As mudanças de andamento nessa música são perceptíveis e trazem lembranças de faixas progressivas pesadas como “Tarkus”, do Emerson, Lake & Palmer. O destaque fica para a bateria de Córdova. Riffs pesados de guitarra, solos “floydianos”. É um espetáculo técnico, de complexidade, mas, por outro lado, é orgânico, traz um trabalho excelente de instrumentistas de mão cheia.

"Gusano Mecánico"

“Prana – Energía Vital”, ainda traz a qualidade da bateria: pesada, seca, dura, contando com um solo que domina toda a música, sem soar enfadonho, muito pelo contrário. O que poderia ser chato e indulgente, agregou maravilhosamente, trazendo, ou melhor, corroborando a capacidade de seu baterista. É somente a cereja do bolo para exibir o típico e direto hard rock dos anos 1970. 

"Prana - Energia Vital"

“Cristales Soñadores” fecha o álbum e aqui há a adição de teclados e talvez me remete a uma pegada progressiva. Não há informações concretas acerca do músico que tocou teclado no álbum, há quem diga ter sido Nicolás Suárez, porque a banda fez turnê com ele, mas traz, repito, um agradável tempero progressivo. Traz também algo melódico, mais uma vez, como se encerrasse uma viagem. O hard rock continua ali, vivo, latente, mostrando aos ouvintes a verdadeira e genuína vocação desse brilhante álbum.

"Cristales Soñadores"

Um brilhante álbum! Toda essa magia, toda essa explosão criativa do Climax, infelizmente, foi quebrada, de forma triste e precoce. “Gusano Mecánico” marcaria o começo do fim da banda. Pouco depois os músicos se separariam. José Eguino e Álvaro Córdova decidiram deixar a Bolívia. Córdova foi para a Venezuela, onde permaneceu por longos dez anos. Em 1984 retornou à Bolívia, cumprimentou amigos e familiares e não demorou muito tempo, embarcando em nova viagem, desta vez para os Estados Unidos, onde permaneceu por mais uma década.

José Eguino, que praticamente cresceu nos Estados Unidos, estava sempre indo e voltando daquele país. O único que permaneceu na Bolívia foi Javier Saldías, que participou de um número ilimitado de bandas e projetos musicais em seu país, incluindo Mago, Mahadma, Luz de América, Años Luz, Comunidad, david Lamar Trio, entre outros. Saldías também é professor no “Conservatório Nacional de Música” e chegou a estrelar o longa-metragem “Nostalgias del Rock”, de produção boliviana.

Em 1990 o Climax teve uma breve reunião, mas passou despercebido de tão rápido e sem sequer uma difusão digna. Já em 1998 seria lançado o álbum, no formato CD, de nome “Climax, Complete Recordings”, uma reedição de todo o material de estúdio, incluindo os dois EPs gravados entre 1969 e 1970 e o LP “Gusano Mecánico”. O guitarrista José Eguino supervisionou pessoalmente a remasterização, mixagem e digitalização do álbum, garantindo que nenhuma essência musical dos primeiros anos da banda se perdesse.

Em 2002 a banda se reuniria novamente para lançar uma nova compilação, agora de nome “Climax de Colección”, que continha o LP “Gusano Mecánico”, juntamente com as músicas gravadas anteriormente a este trabalho, que estavam nos seus dois EPs, como algumas músicas originais como “El Abrigo Café de Piel de Gallina” e “Ritmo de la Vida”.

“Gusano Mecánico” seria relançado, em 2005, na Alemanha, pelo selo World in Sound, seria relançado também no Brasil, em 2018, pelo selo Retro Remasters Plus, no formato CD e o mais recente relançamento seria em 2025, na Espanha, pelo selo Munster Records.





A banda:

José A. Eguino na guitarra, teclados e vocais

Javier Saldias no baixo

Álvaro Córdova na bateria

 

Faixas:

1 - Pachacuttec (Rey de Oro)

2 – Transfusión de Luz

3 - Cuerpo Eléctrico - Embrión de Reencarnación

4 - Gusano Mecánico

a) Invasión

b) Dominio

c) Abandono

5 - Prana - Energia Vital

6 - Cristales Soñadores



"Gusano Mecánico" (1974)





















 





 


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