O rock latino não goza muito
de popularidade em outros continentes tidos como referência do rock n’ roll,
como a Europa e a América do Norte, principalmente a terra do Tio Sam, por
exemplo. E viajando por alguns países, em especial, da América Latina, o cenário,
no que tange a visibilidade, fica ainda pior.
Tirando alguns países como a
Argentina e o Brasil, além do México, muito citado quando lembramos dos latinos
americanos, apesar de ser da América Central, os demais países sempre caem no
ostracismo, sendo, claro, pouquíssimos comentados.
Embora países, como por
exemplo, a Bolívia, não seja fértil para o rock n’ roll, sobretudo nas décadas
de 1960 e 1970, não se enganem, estimados leitores, que não exista nada de bom
nesse país e nos demais também. Querem saber o motivo de ter mencionado a
Bolívia? Porque de lá surgiu a banda que eu falarei hoje: CLIMAX.
O Climax não é uma banda tão
rara, até traz alguns fãs e adoradores do rock underground, talvez não pudesse
até figurar em minhas linhas, mas, em se tratar de um país, como disse, tão
pouco difundido para a nossa tão amada e famigerada música, vale e muito a pena
falar sobre ela e lá em terras bolivianas o Climax é gigante, um verdadeiro
desbravador da música pesada.
E falando em música pesada,
não é tão somente pelo fator do país de origem ser pouco conhecido, vale contar
a história do Climax pelo único álbum que produziu que é simplesmente
sensacional. Válido principalmente para quem aprecia hard rock com nuances blueseiras.
Mas acalmem-se, bons amigos leitores, não falarei agora sobre o álbum, mas de
sua história e do contexto político e social a qual a banda estava inserida.
Com apenas 16 anos de idade, o baixista Javier Saldias e o guitarrista José A. Eguino formariam, em 1968, a banda “Black Birds”, que mais tarde se tornariam “The Tourtles”. Quando conheceram o prodigioso baterista Álvaro Córdova encontraram o elemento essencial necessário para dar o grande salto para um novo tipo de som e maturidade musical. Um ano depois, começaram a ouvir as novas correntes sonoras pesadas, com viés do blues, que estavam em evidência, como Cream, Steppenwolf e Jimi Hendrix.
Seria a ruptura com o beat, a
psicodelia, para uma veia mais pesada e bluseira. O psicodélico “flower power”
estava entediante e demasiadamente pop na transição das décadas de 1960 e 1970
e as influências mencionadas era a porta para uma sonoridade nova e mais
arrojada.
A banda ficou tão envolvida
nesse som poderoso que estava florescendo que decidiu ir para os Estados Unidos
para conhece-lo. Quem sabe seria a chance de tingir com novidades a sonoridade
da banda que haviam recentemente formado. Infelizmente na Bolívia não teria
como pôr em prática tal audacioso projeto sonoro.
Eles entraram em contato com a
prima de primeiro grau de Javier Saldias, que morava em Denver, no Colorado, e
ela, gentilmente, ofereceu um lugar para ficarem. Assim, os três, antes de
atingirem a maioridade, partiram para os Estados Unidos com a coragem de querer
mudar a sua música e trilhar uma nova trajetória. Eles iriam estar dentro do
movimento musical, vivendo aquilo tudo!
Denver não era o lugar ideal
para respirar a cena psicodélica norte-americana, então foram para São
Francisco, na Califórnia e lá puderam assistir aos shows do Jimi Hendrix
Experience, The Doors e Steppenwolf e assim puderam participar, ainda como fãs,
dos grandes momentos do rock na segunda metade dos anos 1960, marcado por
bandas mais pesadas e viscerais. Suas visões musicais mudaram! Foi um
arrebatamento sonoro!
Com essa experiência vivida
adquirida nos Estados Unidos, a banda, agora com o nome de Climax, faria uma
temporada na Argentina e voltaria para a Bolívia se consolidando em torno,
claro, de José A. Eguino, na guitarra, teclados e vocais, Álvaro Córdova, na
bateria e Javier Saldías no baixo. Os fãs ardorosos de rock n’ roll da Bolívia
ficaria impressionados com a sonoridade poderosa do power trio nas suas apresentações
ao vivo, onde puderam entregar a potência da guitarra, a sonoridade poderosa do
baixo e
a energia dinâmica da bateria como nunca antes ouvida na Bolívia.
O público reagiu muito bem,
mesmo dentro de um contexto elitista foi totalmente aceito, e a fama de CLIMAX
cresceu por todo o país. Já desde suas origens. Nesse sentido, o grupo tinha um
estilo poderoso e muito polido, no qual cada membro soava como dois ou três
músicos ao mesmo tempo, esse era o segredo do CLIMAX.
O Climax tinha tudo em suas
mãos. De uma linguagem sonora muito estridente, muito mais agressiva, onde cada
membro tentando impor suas habilidades musicais pessoais, perceberam que juntos
eram explosivos se aprendessem os “truques” necessários para trabalharem em
equipe.
E com isso logo as ofertas
chegaram. A gravadora de La Paz, “Discolandia”, os contratou para a gravação de
seu primeiro EP, que foi concebido em apenas três dias e lançado em 31 de março
de 1969. Essa primeira obra continha versões de grupos clássicos como
Steppenwolf ("Born To Be Wild"), Cream ("Sunshine Of Your
Love" / "Tales Of Brave Ulyses)" e uma música tributo ao seu
admirado Jimi Hendrix ("Fire").
Naquela época, o CLIMAX já era
uma das bandas mais populares da Bolívia e seu estilo muito pessoal de
interpretar os grandes do Rock os fez criar, pouco a pouco, sua própria
personalidade musical. Esse primeiro EP seria seguido por um segundo, lançado
em 24 de maio de 1970, que continha uma nova versão da música "Born To Be
Wild", além de suas primeiras músicas originais, "The Seeker",
"El Abrigo Café de Piel de Gallina" e "El Ritmo de la
Vida". Com esses dois EPs a banda conseguiu ser um dos mais reconhecidos
da Bolívia e recebeu ofertas de emprego por todo o país.
Naquela época, um quarto membro entrou para a banda, um fuzileiro naval dos Estados Unidos, chamado Bob Hopkins, que eventualmente ficou responsável pelos vocais e gaita, mas apenas para a gravação do segundo EP e para alguns shows ao vivo. Aqueles que ouviam a música desse trio naquela época perceberam que, em termos qualitativos, o CLIMAX estava anos-luz à frente da concorrência. Nos três anos seguintes, mais precisamente entre 1970 e 1973, os membros do Climax, se reuniram para o que seria, finalmente a gravação do seu debut, do seu primeiro álbum e, para variar, os resultados seriam simplesmente espetaculares, trabalho esse que será esmiuçado por aqui.
"Gusano Mecánico", o
álbum que gravaram em 1974, se tornaria uma das primeiras obras conceituais do
rock boliviano, marcando um antes e um depois na cena musical latino-americana.
Ao ouvi-la, todos os críticos e fãs da Bolívia concluíram que era uma
obra-prima e um esforço que até hoje não tem sido igualado em seu país. A
música pulsante, majestosa e ousada da banda fala por si só. Dessa forma, o
CLIMAX deu um salto gigante em sua evolução artística e musical e se
estabeleceu, definitivamente, como a melhor, mais experimental e audaciosa
banda do rock boliviano.
Em “Gusano Mecánico” que, em tradução livre significa “Verme Mecânico” a banda ousou explorar os terrenos complexos do rock progressivo e a fusão de elementos da música andina (bem evidente) com o rock mais inovador, mesclando a isso tudo, claro, o hard rock e a blues rock tão em voga à época. Neste álbum a banda não apenas apresentou uma evolução musical incrível, mas também como músicos. Como curiosidade, a arte da capa traz a interpretação colorida da famosa "Relativity", de M.C. Escher, que mostrava uma escadaria labiríntica com minhocas que representavam a trajetória atual da humanidade no mundo da mecanização como uma engrenagem em uma máquina maior.
Cada membro evoluiu
instrumentalmente de forma incrível e isso, junto com o fato de que todos
levaram o novo desafio muito a sério, os colocou em destaque. Jose
A. Eguino forneceu a estrutura inicial, a parte mais clássica, porque naquela
época toda a banda estudava música muito a sério, e em um estúdio de piano, um
instrumento que Jose A. Eguino estudou na época, algumas melodias do novo álbum
foram acopladas. Por sua vez, Javier Saldias também contribuiu com as letras
das músicas.
O álbum abre com a faixa de
sete minutos “Pachacuttec (Rey de Oro)”, uma composição em duas partes. Uma
verdadeira demonstração de potência, começa com uma avalanche de decibéis,
riffs acrobáticos e solos jazzísticos com toques de acid house, sustentados por
uma batida de bateria convulsiva com influências latinas e um baixo expressivo.
A princípio, tudo parece caótico, mas é perfeitamente controlado. Gradualmente,
o trio então mergulha em uma sequência psicodélica e nebulosa, oferecendo um
contraste marcante antes da explosão final.
“Transfusión de Luz” tem o
destaque da guitarra e os vocais dão um toque psicodélico inevitável, seguindo
a veia inaugurada por bandas do naipe do The Who e Jimi Hendrix Experience.
Aqui, Eguini faz um solo francamente memorável e o trabalho da bateria também
ganha protagonismo, sendo muito cru e pesado.
“Cuerpo Electrico - Embrión de
Reencarnación” é a música que encerra o primeiro lado da versão em LP e mais
remete a uma estrutura mais melódica, o que, confesso, me parece um tanto
quanto incomum, levando em consideração o álbum, como um todo, que traz um hard
rock mais sujo, embora bem estruturado, melodicamente falando. Mas ainda assim
surpreende pelo peso, pelo arrojo e pela sua importância, tendendo não apenas
para o hard típico dos anos 1970, mas para um proto metal. Nada era feito assim
na Bolívia!
“Gusano Mecánico”, a faixa
título, abre o lado B da versão em LP e pode ser, sem dúvida, a faixa mais
progressiva deles, algo como um belo hard prog. As mudanças de andamento nessa
música são perceptíveis e trazem lembranças de faixas progressivas pesadas como
“Tarkus”, do Emerson, Lake & Palmer. O destaque fica para a bateria de
Córdova. Riffs pesados de guitarra, solos “floydianos”. É um espetáculo
técnico, de complexidade, mas, por outro lado, é orgânico, traz um trabalho
excelente de instrumentistas de mão cheia.
“Prana – Energía Vital”, ainda
traz a qualidade da bateria: pesada, seca, dura, contando com um solo que domina toda a música, sem soar enfadonho, muito pelo contrário. O que poderia ser chato e indulgente, agregou maravilhosamente,
trazendo, ou melhor, corroborando a capacidade de seu baterista. É
somente a cereja do bolo para exibir o típico e direto hard rock dos anos 1970.
“Cristales Soñadores” fecha o
álbum e aqui há a adição de teclados e talvez me remete a uma pegada
progressiva. Não há informações concretas acerca do músico que tocou teclado no
álbum, há quem diga ter sido Nicolás Suárez, porque a banda fez turnê com ele,
mas traz, repito, um agradável tempero progressivo. Traz também algo melódico,
mais uma vez, como se encerrasse uma viagem. O hard rock continua ali, vivo,
latente, mostrando aos ouvintes a verdadeira e genuína vocação desse brilhante
álbum.
Um brilhante álbum! Toda essa
magia, toda essa explosão criativa do Climax, infelizmente, foi quebrada, de
forma triste e precoce. “Gusano Mecánico” marcaria o começo do fim da banda.
Pouco depois os músicos se separariam. José Eguino e Álvaro Córdova decidiram
deixar a Bolívia. Córdova foi para a Venezuela, onde permaneceu por longos dez
anos. Em 1984 retornou à Bolívia, cumprimentou amigos e familiares e não
demorou muito tempo, embarcando em nova viagem, desta vez para os Estados
Unidos, onde permaneceu por mais uma década.
José Eguino, que praticamente
cresceu nos Estados Unidos, estava sempre indo e voltando daquele país. O único
que permaneceu na Bolívia foi Javier Saldías, que participou de um número
ilimitado de bandas e projetos musicais em seu país, incluindo Mago, Mahadma,
Luz de América, Años Luz, Comunidad, david Lamar Trio, entre outros. Saldías
também é professor no “Conservatório Nacional de Música” e chegou a estrelar o
longa-metragem “Nostalgias del Rock”, de produção boliviana.
Em 1990 o Climax teve uma
breve reunião, mas passou despercebido de tão rápido e sem sequer uma difusão
digna. Já em 1998 seria lançado o álbum, no formato CD, de nome “Climax,
Complete Recordings”, uma reedição de todo o material de estúdio, incluindo os
dois EPs gravados entre 1969 e 1970 e o LP “Gusano Mecánico”. O guitarrista
José Eguino supervisionou pessoalmente a remasterização, mixagem e
digitalização do álbum, garantindo que nenhuma essência musical dos primeiros
anos da banda se perdesse.
Em 2002 a banda se reuniria
novamente para lançar uma nova compilação, agora de nome “Climax de Colección”,
que continha o LP “Gusano Mecánico”, juntamente com as músicas gravadas
anteriormente a este trabalho, que estavam nos seus dois EPs, como algumas
músicas originais como “El Abrigo Café de Piel de Gallina” e “Ritmo de la
Vida”.
“Gusano Mecánico” seria
relançado, em 2005, na Alemanha, pelo selo World in Sound, seria relançado
também no Brasil, em 2018, pelo selo Retro Remasters Plus, no formato CD e o
mais recente relançamento seria em 2025, na Espanha, pelo selo Munster Records.
A banda:
José A. Eguino na guitarra,
teclados e vocais
Javier Saldias no baixo
Álvaro Córdova na bateria
Faixas:
1 - Pachacuttec (Rey de Oro)
2 – Transfusión de Luz
3 - Cuerpo Eléctrico - Embrión
de Reencarnación
4 - Gusano Mecánico
a) Invasión
b) Dominio
c) Abandono
5 - Prana - Energia Vital
6 - Cristales Soñadores










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