A década de 1970 foi prolífica
para o rock francês, sobretudo para a cena progressiva. Pode parecer óbvio e,
de fato, é, haja vista que o rock progressivo em toda a Europa, teve um terreno
fértil. Mas voltando à França, foi a época da explosão, de um dia para outro,
muitos álbuns soberbos foram lançados, seja por grandes e famosas bandas ou
pelas bandas obscuras, que trafegavam pelo underground.
E a moda estava focada nas
composições complexas, trabalhos conceituais, trazendo como referência bandas
como King Crimson, Gentle Giant, Van Der Graaf Generator e não aqueles ritmos
binários tradicionais do rock inglês ou norte-americano, por exemplo. Não era
música para intelectuais, era uma música mais reflexiva, mais contemplativa,
mais complexa, mas, ainda assim, acessível.
E eu preciso falar de uma banda que, apesar de não ter gozado de sucesso comercial, foi muito importante para a cena progressiva francesa, apesar também de não ter tido uma trajetória longeva e uma discografia vasta. Falo do SHYLOCK.
A história do Shylock começou
no final de junho de 1974, quando dois músicos da região de Nice, então com
apenas dezoito anos, Didier Lustig e André Fisichella, decidiram deixar a banda
local “Fusion”. Tal banda tocava covers dos consagrados Deep Purple e Uriah
Heep. Eles achavam que era a hora e o momento de criar a sua própria música,
fazer música autoral e mais: desbravar a música progressiva!
Lustig teve aulas de piano
desde os oito anos de idade e no Fusion tocava órgão elétrico, que rapidamente
dominou aos dezesseis anos. Fisichella aprendeu a tocar mais tarde, somente aos
quatorze anos de idade. Quando entrou no Fusion sua experiência como músico era
de apenas dois anos!
Eles começaram a procurar
outros músicos para materializarem seu projeto de fazer música progressiva. Foi
quando notaram um anúncio em uma loja de instrumentos musicais de um jovem
guitarrista que procurava outros músicos para montar também uma banda de rock
progressivo. Esse guitarrista era Fredéric L’Epee.
Fredéric, um músico
autodidata, tocava em outra banda local chamada Highway Park que também se
dedicava a tocar músicas de bandas covers inglesas e esses três jovens músicos
se conheceram, finalmente, em 1º de julho de 1974 e se deram bem imediatamente,
afinal tinham as mesmas aspirações, de tocar um rock n’ roll incomum e
ambicioso. E não faltava, aos jovens, energia e inspiração para isso.
E foi assim que surgiu o
Shylock, exatamente um dia depois desses três caras se conhecerem na casa de
Fredéric, em 2 de junho de 1974. Fredéric também tinha um sintetizador Elka, no
qual ele mesmo ensaiava, mas ao ouvir como Didier tocava, imediatamente confiou
o instrumento a ele.
Cabe aqui uma curiosidade:
“Shylock” é um personagem fictício da peça de William Shakespeare, “O Mercador
de Veneza” (1600). Um judeu veneziano, Shylock é o principal antagonista da
peça. Sua derrota e conversão ao cristianismo são o ápice da história. E essa
história migraria do palco teatral para o campo do rock progressivo da França
dando nome a uma banda que nascia.
No dia 4 de julho, eles saem de
férias de verão para a pequena vila de St. Dalmas-Le-Selvajs, onde Didier
passou a sua infância, para ensaiar e já desenvolver seu repertório. Eles
convenceram o prefeito a deixá-los ensaiar na igreja local pelos próximos dois
meses, período que duraria as suas férias. Assim a igreja foi o primeiro ponto
de ensaio do Shylock em sua história.
Assim, em um cantinho do paraíso
nos Alpes, longe de todas as vaidades mundanas, os jovens músicos começaram a
criar a sua própria música. A combinação de improvisações constantes, natureza
exuberante e isolamento completo resultou em uma verdadeira fonte de ideias e
criatividade ilimitada. As suas principais músicas surgiram de longas e
frutíferas improvisações, não havia objetivos estilísticos específicos. Todos
propuseram ideias para os amigos, todos trabalharam juntos, mudaram algo,
adicionaram, removeram, até que a composição assumisse a forma que todos
gostariam.
No fim, a banda tinha várias
composições, que os próprios caras distinguiam apenas pelos números. O fato é
que os músicos tocavam música instrumental, e desde as primeiras apresentações
as chamavam de “Primeira”, “Segunda”, “Terceira”, entre si. Ao mesmo tempo, uma
composição podia fluir suavemente para outra e poucas pessoas conseguiam
separá-las com precisão.
Quando o verão acabou e os jovens
retornaram para Nice, onde todos estudavam na universidade, começaram a
procurar o quarto músico para a banda, um baixista. Procuraram por muito tempo,
mas sem sucesso. Então decidiram que o formato de um trio tinha seu próprio
estilo e entusiasmo. E assim ficou a formação do Shylock: Frédéric L'Épée na
guitarra e baixo, Didier Lustig nos teclados, piano e sintetizadores e André
Fisichella na bateria e percussão.
Na mesma época a banda foi
contatada pelo ex-empresário do Fusion, Christian Guttennoir, que lhes ofereceu
a chance de se tornar se empresário. Ele tinha experiência e parte da banda já
conhecia o trabalho dele e confiavam em Christian. Então a resposta deles era
óbvia.
A terceira visita à vila ocorreu durante as férias da Páscoa, quando as composições “Quinta” e “Sexta” foram criadas. Enquanto isso Crristian já havia planejado, negociado os primeiros shows do Shyock e que aconteceriam no mesmo clube da cidade. A primeira aparição, a primeira apresentação oficial aconteceu em 7 de abril de 1975, diante de uma plateia de 300 pessoas na Maison des Jeunes de Magnan, em Nice.
Em junho daquele mesmo ano seria na Faculdade de Letras, nos arredores de Nice
e Cannes. O feedback do público foi positivo e até mesmo entusiasmado, mesmo
com o lado complexo e as longas improvisações das músicas. Os soundchecks pré-show são feitos por
amigos da banda. Os músicos até tinham alguma grana para custear seu próprio
show de luzes, embora eles próprios preferissem se concentrar na performance.
O álbum também foi mixado várias
vezes, até que a versão final deste foi editada em Lyon. Tudo terminou
simplesmente com o fato de que as pessoas responsáveis pela mixagem decidiram
não convidar os músicos, assim haveria menos disputas. De todo o longo repertório,
apenas as composições “Quarta”, “Quinta” e “Sexta” foram preservadas,
descartando as três primeiras, que foram consideradas “ingênuas” demais. E o
“Quarto” ficou principalmente porque Didier fez maravilhas com o sintetizador
Elka, emulando os sons do cravo e dos violinos logo no início da composição.
No entanto, os próprios músicos não
gostaram do que ouviram. Eles sentiram que o espírito e o som da banda não
foram transmitidos de forma convincente. Músicos perfeccionistas eram eles! Mas
decidiram conviver com isso e seguir! O álbum foi chamado de “Gialorgues” e é
dele que falaremos nesse texto. O nome foi em homenagem à montanha cujo pico
era visível pelas janelas da igreja em St. Dalmas-Les-Selvajs, onde toda a
música aparecia. E na capa colocaram a imagem da igreja onde compuseram as
músicas que o amigo da banda, Jean Charles Cohen, havia desenhado para eles.
Após a gravação a banda começou a
procurar uma gravadora para lançar o álbum. Enquanto isso eles autoproduziram e
imprimiram 1.500 cópias. Assim o lançamento foi inteiramente independente,
feito pela própria banda, em 1976. O Shylock ofereceu parte dessas cópias para
as lojas na Costa e para rádios locais. A recepção foi boa e a imprensa
especializada do Sul dedicou alguns artigos e matérias a eles. O álbum também
foi enviado para as revistas especializadas em rock n’ roll “Best, Extra, Rock & Folk”. O Shylock apareceria na TV, em Monte
Carlo.
Christian, o empresário, que havia
se ausentado por conta do serviço militar, em 1976, retorna e vai à Paris
apresentar o álbum para os grandes selos. A CBS decidiu lançar o álbum. A
negociação com este selo, mais precisamente com o seu gerente, Eric Brücker,
foi tão proveitosa que o mesmo ofereceu aos músicos um contrato para álbuns
futuros. Assim a CBS relançaria “Gialorgues” no início de 1977, mantendo tanto
a mixagem quanto a capa intacta. E como propaganda, lançaram um single onde
colocaram alguns trechos das composições "Quarta" e
"Sexta". Foram 3.000 cópias lançadas no mercado.
“Gialorgues” entrega uma música
bela e complexa ao mesmo tempo, rica em melodias poderosas que se rompem para
se reformar melhor, atmosférica em suas criações, encantadora, melancólica,
hipnótica, repetitiva. Um progressivo sinfônico, experimental, calcado no
excelente instrumental de seus músicos, mostrando uma habilidade técnica que os
colocava acima da maioria dos seus contemporâneos. Um álbum soberbo, sombrio,
orgânico, mas complexo, vivo, latente, intenso e dramático.
A abertura do álbum se dá com a
faixa "Le Quatrième" (A “Quarta”) e faz uma viagem exuberante de
música clássica, com os teclados melódicos e tilintantes que fornecem a base
para a dissonância da guitarra e os exercícios técnicos da bateria, em uma
levada meio jazz, em seguida. Aqui se percebem ganchos melódicos adoráveis, que
me remeteu a algo leve e arejado, contrastando com a arte da capa sombria e até
mesmo ameaçadora, mesmo se tratando da igreja em que a música foi concebida.
Na sequência tem a faixa "Le
Sixième" (A “Sexta”) que, curta, é basicamente uma marcha militar de quase
quatro minutos de duração. Os teclados me pareceram abafado nessa música, com
uma guitarra pesada sobrevoando baixo e bateria. Para uma música curta, tem até
um impacto sério à medida que a faixa acelera de andamento e, junto com as
teclas atmosféricas, entra em um rock completo com solos de guitarra pesados.
Exceto por um pequeno momento de “caos”, a marcha percussiva, a marcha militar,
não perde o ritmo. Uma faixa enérgica, considerando que é algum tipo de
intervalo.
O apoteótico fim chega com a faixa "Le
Cinquième" que se estende por quase 19 minutos e começa com uma sessão de
teclado monótona e alguns movimentos percussivos. Mas, por outro lado, depende
extremamente dos tons selvagens e dissonantes e traz texturas musicais que
lembra o King Crimson. É uma faixa que não se poupa e revela os talentos
extraordinários dos seus músicos. Nela se percebem mudanças de andamento,
clímax e fundamentos melódicos de tirar o fôlego, que envolve progressivo
sinfônico, experimentalismo e até mesmo o avant-prog. É técnico, complexo,
porém orgânico.
Quando pretendem começar a gravar o
segundo álbum, chega o período de serviço militar para todos os membros da
banda. Os três, portanto, congelaram as atividades da banda por um tempo para,
claro, cumprir com as suas obrigações para com a pátria. Quando retornaram,
gravaram rapidamente o segundo trabalho, “Île de Fièvre”, em 1978. O álbum é um
pouco diferente do debut, pois começa a banda a se inclinar para o jazz rock,
mas mantém o ritmo minimalista durante a gravação do álbum. A banda agrega um
novo baixista chamado Serge Summa.
Em 2012, André Fisichella, Frédéric L'Épée e Didier Lustig se reuniram a pedido de um festival nos Estados Unidos que infelizmente não aconteceu. Porém se apresentou, no mesmo ano, no Gouveia Art Rock Festival em Portugal e depois no Prog'Sud, no Pennes Mirabeau, perto de Marselha. Laurent James substituiria Serge Summa no baixo.
Em 2014, um álbum "best
of" foi gravado no Studio Arion, em Nice, foi lançado e Luca Mariotti
substituiria Didier Lustig nos teclados. Tal coletânea teve as músicas
escolhidas dos dois primeiros álbuns em um formato mais modernizado. E em 2016
foi lançado nova coletânea, de nome “The Sum of the Parts”, que traziam as
mesmas faixas do primeiro “The Best Of” com mais duas faixas bônus, este para o
mercado japonês.
Embora sejam comparados ao King
Crimson há muito tempo, o Shylock é na verdade uma banda com seu próprio
estilo. Claro que eles trazem uma referência muito forte da banda inglesa, mas
trazer uma abordagem como a cópia do King Crimson é considerada, no mínimo, um
insulto inaceitável ao Shylock. Entre 1988 e 2026, o selo Musea relançaria
“Gialorgues” por quatro vezes, em 1988, 1989, 1994 e 2026.
A banda:
André Fisichella na bateria
Frédéric L'Épée – na guitarra e baixo
Didier Lustig nos teclados
Faixas:
1 - Le Quatrième
2 - Le Sixième
3 - Le Cinquième













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