sábado, 23 de maio de 2026

Shylock - Giarlorgues (1976/1977)

 

A década de 1970 foi prolífica para o rock francês, sobretudo para a cena progressiva. Pode parecer óbvio e, de fato, é, haja vista que o rock progressivo em toda a Europa, teve um terreno fértil. Mas voltando à França, foi a época da explosão, de um dia para outro, muitos álbuns soberbos foram lançados, seja por grandes e famosas bandas ou pelas bandas obscuras, que trafegavam pelo underground.

E a moda estava focada nas composições complexas, trabalhos conceituais, trazendo como referência bandas como King Crimson, Gentle Giant, Van Der Graaf Generator e não aqueles ritmos binários tradicionais do rock inglês ou norte-americano, por exemplo. Não era música para intelectuais, era uma música mais reflexiva, mais contemplativa, mais complexa, mas, ainda assim, acessível.

E eu preciso falar de uma banda que, apesar de não ter gozado de sucesso comercial, foi muito importante para a cena progressiva francesa, apesar também de não ter tido uma trajetória longeva e uma discografia vasta. Falo do SHYLOCK.

A história do Shylock começou no final de junho de 1974, quando dois músicos da região de Nice, então com apenas dezoito anos, Didier Lustig e André Fisichella, decidiram deixar a banda local “Fusion”. Tal banda tocava covers dos consagrados Deep Purple e Uriah Heep. Eles achavam que era a hora e o momento de criar a sua própria música, fazer música autoral e mais: desbravar a música progressiva!

Lustig teve aulas de piano desde os oito anos de idade e no Fusion tocava órgão elétrico, que rapidamente dominou aos dezesseis anos. Fisichella aprendeu a tocar mais tarde, somente aos quatorze anos de idade. Quando entrou no Fusion sua experiência como músico era de apenas dois anos!

Eles começaram a procurar outros músicos para materializarem seu projeto de fazer música progressiva. Foi quando notaram um anúncio em uma loja de instrumentos musicais de um jovem guitarrista que procurava outros músicos para montar também uma banda de rock progressivo. Esse guitarrista era Fredéric L’Epee.

Fredéric, um músico autodidata, tocava em outra banda local chamada Highway Park que também se dedicava a tocar músicas de bandas covers inglesas e esses três jovens músicos se conheceram, finalmente, em 1º de julho de 1974 e se deram bem imediatamente, afinal tinham as mesmas aspirações, de tocar um rock n’ roll incomum e ambicioso. E não faltava, aos jovens, energia e inspiração para isso.

E foi assim que surgiu o Shylock, exatamente um dia depois desses três caras se conhecerem na casa de Fredéric, em 2 de junho de 1974. Fredéric também tinha um sintetizador Elka, no qual ele mesmo ensaiava, mas ao ouvir como Didier tocava, imediatamente confiou o instrumento a ele.

Cabe aqui uma curiosidade: “Shylock” é um personagem fictício da peça de William Shakespeare, “O Mercador de Veneza” (1600). Um judeu veneziano, Shylock é o principal antagonista da peça. Sua derrota e conversão ao cristianismo são o ápice da história. E essa história migraria do palco teatral para o campo do rock progressivo da França dando nome a uma banda que nascia.

No dia 4 de julho, eles saem de férias de verão para a pequena vila de St. Dalmas-Le-Selvajs, onde Didier passou a sua infância, para ensaiar e já desenvolver seu repertório. Eles convenceram o prefeito a deixá-los ensaiar na igreja local pelos próximos dois meses, período que duraria as suas férias. Assim a igreja foi o primeiro ponto de ensaio do Shylock em sua história.

A igreja

Assim, em um cantinho do paraíso nos Alpes, longe de todas as vaidades mundanas, os jovens músicos começaram a criar a sua própria música. A combinação de improvisações constantes, natureza exuberante e isolamento completo resultou em uma verdadeira fonte de ideias e criatividade ilimitada. As suas principais músicas surgiram de longas e frutíferas improvisações, não havia objetivos estilísticos específicos. Todos propuseram ideias para os amigos, todos trabalharam juntos, mudaram algo, adicionaram, removeram, até que a composição assumisse a forma que todos gostariam.

No fim, a banda tinha várias composições, que os próprios caras distinguiam apenas pelos números. O fato é que os músicos tocavam música instrumental, e desde as primeiras apresentações as chamavam de “Primeira”, “Segunda”, “Terceira”, entre si. Ao mesmo tempo, uma composição podia fluir suavemente para outra e poucas pessoas conseguiam separá-las com precisão.

Quando o verão acabou e os jovens retornaram para Nice, onde todos estudavam na universidade, começaram a procurar o quarto músico para a banda, um baixista. Procuraram por muito tempo, mas sem sucesso. Então decidiram que o formato de um trio tinha seu próprio estilo e entusiasmo. E assim ficou a formação do Shylock: Frédéric L'Épée na guitarra e baixo, Didier Lustig nos teclados, piano e sintetizadores e André Fisichella na bateria e percussão.

Shylock

Na mesma época a banda foi contatada pelo ex-empresário do Fusion, Christian Guttennoir, que lhes ofereceu a chance de se tornar se empresário. Ele tinha experiência e parte da banda já conhecia o trabalho dele e confiavam em Christian. Então a resposta deles era óbvia.

A terceira visita à vila ocorreu durante as férias da Páscoa, quando as composições “Quinta” e “Sexta” foram criadas. Enquanto isso Crristian já havia planejado, negociado os primeiros shows do Shyock e que aconteceriam no mesmo clube da cidade. A primeira aparição, a primeira apresentação oficial aconteceu em 7 de abril de 1975, diante de uma plateia de 300 pessoas na Maison des Jeunes de Magnan, em Nice. 

Em junho daquele mesmo ano seria na Faculdade de Letras, nos arredores de Nice e Cannes. O feedback do público foi positivo e até mesmo entusiasmado, mesmo com o lado complexo e as longas improvisações das músicas. Os soundchecks pré-show são feitos por amigos da banda. Os músicos até tinham alguma grana para custear seu próprio show de luzes, embora eles próprios preferissem se concentrar na performance.

O álbum também foi mixado várias vezes, até que a versão final deste foi editada em Lyon. Tudo terminou simplesmente com o fato de que as pessoas responsáveis pela mixagem decidiram não convidar os músicos, assim haveria menos disputas. De todo o longo repertório, apenas as composições “Quarta”, “Quinta” e “Sexta” foram preservadas, descartando as três primeiras, que foram consideradas “ingênuas” demais. E o “Quarto” ficou principalmente porque Didier fez maravilhas com o sintetizador Elka, emulando os sons do cravo e dos violinos logo no início da composição.

No entanto, os próprios músicos não gostaram do que ouviram. Eles sentiram que o espírito e o som da banda não foram transmitidos de forma convincente. Músicos perfeccionistas eram eles! Mas decidiram conviver com isso e seguir! O álbum foi chamado de “Gialorgues” e é dele que falaremos nesse texto. O nome foi em homenagem à montanha cujo pico era visível pelas janelas da igreja em St. Dalmas-Les-Selvajs, onde toda a música aparecia. E na capa colocaram a imagem da igreja onde compuseram as músicas que o amigo da banda, Jean Charles Cohen, havia desenhado para eles.

Após a gravação a banda começou a procurar uma gravadora para lançar o álbum. Enquanto isso eles autoproduziram e imprimiram 1.500 cópias. Assim o lançamento foi inteiramente independente, feito pela própria banda, em 1976. O Shylock ofereceu parte dessas cópias para as lojas na Costa e para rádios locais. A recepção foi boa e a imprensa especializada do Sul dedicou alguns artigos e matérias a eles. O álbum também foi enviado para as revistas especializadas em rock n’ rollBest, Extra, Rock & Folk”. O Shylock apareceria na TV, em Monte Carlo.

Christian, o empresário, que havia se ausentado por conta do serviço militar, em 1976, retorna e vai à Paris apresentar o álbum para os grandes selos. A CBS decidiu lançar o álbum. A negociação com este selo, mais precisamente com o seu gerente, Eric Brücker, foi tão proveitosa que o mesmo ofereceu aos músicos um contrato para álbuns futuros. Assim a CBS relançaria “Gialorgues” no início de 1977, mantendo tanto a mixagem quanto a capa intacta. E como propaganda, lançaram um single onde colocaram alguns trechos das composições "Quarta" e "Sexta". Foram 3.000 cópias lançadas no mercado.

“Gialorgues” entrega uma música bela e complexa ao mesmo tempo, rica em melodias poderosas que se rompem para se reformar melhor, atmosférica em suas criações, encantadora, melancólica, hipnótica, repetitiva. Um progressivo sinfônico, experimental, calcado no excelente instrumental de seus músicos, mostrando uma habilidade técnica que os colocava acima da maioria dos seus contemporâneos. Um álbum soberbo, sombrio, orgânico, mas complexo, vivo, latente, intenso e dramático.

A abertura do álbum se dá com a faixa "Le Quatrième" (A “Quarta”) e faz uma viagem exuberante de música clássica, com os teclados melódicos e tilintantes que fornecem a base para a dissonância da guitarra e os exercícios técnicos da bateria, em uma levada meio jazz, em seguida. Aqui se percebem ganchos melódicos adoráveis, que me remeteu a algo leve e arejado, contrastando com a arte da capa sombria e até mesmo ameaçadora, mesmo se tratando da igreja em que a música foi concebida.

"Le Quatrième"

Na sequência tem a faixa "Le Sixième" (A “Sexta”) que, curta, é basicamente uma marcha militar de quase quatro minutos de duração. Os teclados me pareceram abafado nessa música, com uma guitarra pesada sobrevoando baixo e bateria. Para uma música curta, tem até um impacto sério à medida que a faixa acelera de andamento e, junto com as teclas atmosféricas, entra em um rock completo com solos de guitarra pesados. Exceto por um pequeno momento de “caos”, a marcha percussiva, a marcha militar, não perde o ritmo. Uma faixa enérgica, considerando que é algum tipo de intervalo.

"Le Sixième"

O apoteótico fim chega com a faixa "Le Cinquième" que se estende por quase 19 minutos e começa com uma sessão de teclado monótona e alguns movimentos percussivos. Mas, por outro lado, depende extremamente dos tons selvagens e dissonantes e traz texturas musicais que lembra o King Crimson. É uma faixa que não se poupa e revela os talentos extraordinários dos seus músicos. Nela se percebem mudanças de andamento, clímax e fundamentos melódicos de tirar o fôlego, que envolve progressivo sinfônico, experimentalismo e até mesmo o avant-prog. É técnico, complexo, porém orgânico.

"Le Cinquième"

Quando pretendem começar a gravar o segundo álbum, chega o período de serviço militar para todos os membros da banda. Os três, portanto, congelaram as atividades da banda por um tempo para, claro, cumprir com as suas obrigações para com a pátria. Quando retornaram, gravaram rapidamente o segundo trabalho, “Île de Fièvre”, em 1978. O álbum é um pouco diferente do debut, pois começa a banda a se inclinar para o jazz rock, mas mantém o ritmo minimalista durante a gravação do álbum. A banda agrega um novo baixista chamado Serge Summa.

"Ile De Fièvre" (1978)

Em 2012, André Fisichella, Frédéric L'Épée e Didier Lustig se reuniram a pedido de um festival nos Estados Unidos que infelizmente não aconteceu. Porém se apresentou, no mesmo ano, no Gouveia Art Rock Festival em Portugal e depois no Prog'Sud, no Pennes Mirabeau, perto de Marselha. Laurent James substituiria Serge Summa no baixo.

"Shylock live at Gouveia Art Rock, 2012"

Em 2014, um álbum "best of" foi gravado no Studio Arion, em Nice, foi lançado e Luca Mariotti substituiria Didier Lustig nos teclados. Tal coletânea teve as músicas escolhidas dos dois primeiros álbuns em um formato mais modernizado. E em 2016 foi lançado nova coletânea, de nome “The Sum of the Parts”, que traziam as mesmas faixas do primeiro “The Best Of” com mais duas faixas bônus, este para o mercado japonês.

Embora sejam comparados ao King Crimson há muito tempo, o Shylock é na verdade uma banda com seu próprio estilo. Claro que eles trazem uma referência muito forte da banda inglesa, mas trazer uma abordagem como a cópia do King Crimson é considerada, no mínimo, um insulto inaceitável ao Shylock. Entre 1988 e 2026, o selo Musea relançaria “Gialorgues” por quatro vezes, em 1988, 1989, 1994 e 2026.







A banda:

André Fisichella na bateria

Frédéric L'Épée – na guitarra e baixo

Didier Lustig nos teclados

 

Faixas:

1 - Le Quatrième

2 - Le Sixième

3 - Le Cinquième

 

 

 

"Giarlorgues" (1976/1977)

 

























 


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