Certos temas e assuntos, com o
passar do tempo, vão se tornando clichês, se estereotipam, até. Mas é preciso
ser mencionado, pela urgência do tema e/ou se especializa em dizer certos
assuntos ou melhor, se decide desbravar por certos temas. A razão de ser, por
exemplo, deste reles e humilde bolg é falar de bandas obscuras, que trafegam ou
trafegaram no underground e que, por algum motivo, que geralmente são inúmeros,
dada a sua complexidade, sucumbiram.
A ideia central é trazer à
tona as suas histórias, aqui neste site o fracasso compensa enaltecer. E não se
enganem, nobres leitores, em associar fracasso a incapacidade musical, como,
por exemplo, a trabalhos ruins ou coisas que o valham. Não! Há e muito a se
aproveitar, com o digno garimpo, nas obscuridades, no underground!
E, quando me pus a refletir
sobre isso, procurei buscar uma banda e um álbum que personificasse esses
temas, essas questões e trazer aqui, porque, como disse, a ideia central é
contar e disseminar histórias e álbuns que possa arrebatar ouvidos e corações
sedentos por algo que fuja do usual, mas, sempre trazendo a qualidade como
mote.
Claro que a questão da
qualidade pode ser relativa, afinal, as percepções e gostos podem ser
diametralmente diferentes uns dos outros. Isso não é nenhuma novidade,
evidentemente. Mas acalmem-se, estimados leitores, tentarei dizer onde quero
chegar dizendo com isso.
Quando eu ouvi o único álbum
dessa banda pela primeira vez eu vi, ou melhor, li algumas poucas críticas
acerca deste trabalho e digo que todas ou quase todas foram negativas. A
rejeição foi grande, diria. Alguns atribuíram a incapacidade dos músicos, a produção
aquém etc. Ouvi algumas vezes mais para tentar “achar” tais deficiências e
algumas, de fato, foram notadas por mim, como a produção. Contudo, mesmo diante
de alguns reveses, eu adorei esse álbum. Sim! Adorei! São percepções, são
opiniões distintas e isso é salutar para a vida!
Então esse texto seria uma
espécie de me posicionar contrário ao que a maioria disse a respeito dessa
banda e álbum. Mas não é tão somente isso! É um texto para expor o meu apreço
por este álbum e banda, afinal, neste blog irá figurar apenas o que este reles
dono gostar. Sem mais delongas falarei do LASER.
As poucas referências,
sobretudo da Itália, país de origem da banda, dão conta e isso me parece óbvio,
é de que a mesma é considerada como obscura. Mas confesso que, ao ler isso, me
encheu de alegria, pois se até em seu país é tida como obscura, merece figurar
nesse blog.
Os protagonistas do Laser, um
quinteto, eram nascidos entre Roma, Formello e Campagnano e eram: Riccardo Paolucci
(vocais, guitarra), Valentino D'Agostino (vocais, teclados), Loris Cardinali
(guitarra), Adalberto Sbardella (baixo) e Antonello Musso (bateria). O único
álbum lançado pela banda foi “Vita Sul Pianeta”, de 1973.
Os primórdios do Laser, à
época de sua formação, no final dos anos 1960, o nome era bem mais longo, sendo
chamado de "Il Laser, di Elvezio Sbardella". Este foi, por um certo
período cantor e letrista da banda. Nessa primeira formação havia um tecladista
de nome Gino.
Fizeram as primeiras 45 RPM no
ano de 1972, para uma pequena gravadora, de nome Mantra, que ficava em Bolonha.
Os singles se chamavam "Dove Andremo" e "Lacrime di Ragazzo",
sendo, claro, muito raro e feito com uma distribuição local, lançado apenas com
uma capa branca genérica.
No ano seguinte, 1973, após a
formação ser definida, com a saída do tecladista Gino e o nome da banda
abreviado para “Laser”, os cinco músicos foram contratados pelo selo Car Juke
Box, de Carlo Alberto Rossi, que tinha, em seu cast, bandas icônicas como Le
Orme, decidiu investir em novas bandas, em novos talentos em boa companhia com
I Nuovi Corvi e o excelente músico de jazz Paolo Tomelleri. Tudo isso sob a
égide tanto do Maestro Mario Bertolazzi (maestro da Rai) quanto de Renato
Pareti, dos Nuovi Angeli.
"Vita Sul Pianeta"
ou, em inglês, “Life on the Planet” (“Vida no Planeta”) era uma obra conceitual
sobre a evolução da vida, do homem, no planeta. Uma parábola existencial do
homem na Terra em forma narrada, com finais dramáticos e mensagens fortes e de
grande urgência. A sonoridade da banda era principalmente a mescla do hard
rock, com predominância, protagonismo dos seus guitarristas, com o rock
progressivo, com interessantes mudanças de andamento.
Mas não para por aí. Neste
único trabalho do Laser é perceptível o blues rock, pitadas de psych e até
mesmo, muito em virtude dos primórdios do rock italiano, do beat, do pop
macarrônico do país da bota. Embora traga nuances de progressivo, as faixas são
curtas e em alguns momentos, mais básicas, porém viciantes e que cativa a todos
os gostos que variam, claro, do hard ao prog. Acredito que o fato de ter,
acerca desse álbum, certa rejeição, pelo fato de fugir um pouco do que se
ouvia, à época, auge do progressivo italiano, mais voltado para o sinfônico e
coisas mais complexas de bandas mais consagradas.
Mas é inegável observar que
tais músicas trazem melodias cativantes, animadas, solares e muito daquele
espírito do rock italiano, que absorveu o seu ápice e os seus primórdios, sem
dúvida. Esse, posso dizer, sem quaisquer constrangimentos e medo, álbum do
Laser traz, em sua essência sonora, a cultura underground, marginalizando-se do
que se praticava na primeira metade dos anos 1970. E o interessante que até
mesmo nas letras dessas músicas, dada a sua questão conceitual, também entrega
elementos mais underground, diria até mais hippie.
Outro ponto de muita crítica
acerca de “Vita Sul Pianeta” está nos vocais e na produção muito abaixo que,
para muitos, colaborou negativamente para o resultado final deste álbum. Há uma
rotação nos vocais entre três músicos: nos dois guitarristas e tecladista. De
fato, as vozes podem não ser convincentes, estupendas vozes, mas compensa pelos
alcances altos, em alguns momentos mais altos e gritados, o que traz algo pouco
ortodoxo para a realidade dos trabalhos progressivos. Nos momentos pesados das
faixas é extremamente atraente!
O álbum é inaugurado com a
faixa título, “Vita Sul Pianeta” que começa com uma narração, mas logo traz uma
atmosfera sombria, soturna, com os teclados psicodélicos e sinfônicos que é
entrelaçado por riffs de guitarra e solos lisérgicos curtos. A bateria é
marcada e pesada, baixo pulsante, o ritmo, cadenciado, tende para o hard rock e
pitadas progressivas. Vocais altos e agudos entregam uma música mais pesada e
me remetem, por um instante, o norte-americano Vanilla Fudgie. O final já
revela aquele progressivo mais sinfônico tipicamente italiano. Música de muitos
recursos!
“Non Vede La Gente” já começa
cativante com uma pegada meio beat, meio psicodélica, com o hard rock dando o
“tempero”. É inegável que aqui percebe-se o hard prog em sua mais fiel
essência. O peso dos riffs de guitarra e as mudanças de andamento, faz da
música interessante e atraente.
“Sconosciuto Amico” traz o
vocal, praticamente à capela, apenas com um piano e teclado ao fundo, mostra a
voz mais apurada, melódica e tipicamente dramática do rock italiano. Uma balada
prog bem legal vai se revelando aos poucos. Uma sonoridade contemplativa e
viajante que mescla o progressivo e o rock psicodélico. Backings vocals
femininos me remetem a um clássico floydiano dos anos 1970. Mas quando se
encaminha para o final, algo meio King Crimson se percebe com saxofone e uma
pegada experimental.
“Dove Andremo” segue
basicamente a mesma pegada da faixa anterior: vocal mais soturno, urgente,
introspectivo e uma bateria, meio percussiva ao fundo. Mas conforme o vocal
ganha alcance, a sonoridade vai ganhando mais corpo e irrompe em uma explosão
de riffs e teclados enérgicos em um hard rock potente e volumoso. Mas logo
retorna ao som mais sombrio do início. As mudanças de andamento, mais uma vez,
se mostram evidentes, trazendo a veia progressiva que permeia todo esse
trabalho.
“L'ultimo Canto Del Killer” introduz
com a “cozinha” dando o recado: solo de bateria, baixo cheio de groove, pesado,
e depois vem o peso da guitarra, de riffs mais sujos e pegajosos, entregando,
de imediato, um hard rock cadenciado com o vocal gritado e rouco. Aqui se
percebe também uma pegada mais bluesy, um bom blues rock com recheio
progressivo, um pouco mais sutil aqui, é bem verdade. Talvez uma das mais
pesadas do álbum!
“Corri Uomo” vem trazendo o
carro-chefe do álbum: o hard prog! Aqui há uma belíssima “rivalidade” entre os
teclados, enérgicos, com a guitarra, em riffs pesados e solos curtos igualmente
pesados. O final é de tirar o fôlego com solos de guitarra estrondosos e teclados
ainda mais pesados. Pesado! “Eri Importante” já começa dançante: instrumentos
de sopro animados, teclados lisérgicos, um beat solar. Vocais mais gritados e,
por vezes, melódicos. A pegada pop está mais latente. O beat italiano é mais
vivo nessa faixa.
E fecha com “Alla Fine Del
Viaggio” já começa com o pé na porta, com uma explosão de guitarra, em um solo
bem competente. O hard rock aparece aqui com veemência. A camada de teclados
traz uma textura progressiva. O “duelo” entre guitarra e teclado é um
espetáculo à parte e nítida sensação de um hard prog vem tocando aos ouvidos
deliciosamente. Grande e derradeira faixa!
Poucas foram as cópias
impressas para esse álbum, em 1973. É evidente que a produção, fruto do baixo
envolvimento e investimento da gravadora para com o Laser, esteve aquém, mas
não se pode atribuir a responsabilidade à banda que, mesmo contra tais adversidades,
mostrou competência no que se propôs a produzir. Sim! Um som áspero, mais
pesado, incomum no auge do rock progressivo italiano no início dos anos 1970
que prezava pela qualidade técnica, mas um álbum muito bom diante da sua
proposta de um hard prog.
Os reveses, diante desse cenário, seriam evidentes para a trajetória do Laser. A sua trajetória foi curta, precoce e a banda, lamentavelmente, se desfez logo após o lançamento de “Vita Sul Pianeta”, em 1973. Culminou, também, com a saída do tecladista Valentino D'Agostino que foi obrigado a prestar o serviço militar. A banda se reúne, décadas depois, em 2019.
“Vita Sul Pianeta” teve alguns
relançamentos ao longo dos anos. Em 2000 o selo Akarma o relança, no formato
LP. Em 2012 foi a vez do selo AMS/BTF relançar, também no formato LP. Já
no formato CD o primeiro relançamento foi em 1992 pelo icônico selo Mellow.
Akarma também relançou em 2000, bem como a gravadora AMS/BTF.
Um clássico incompreendido! Um clássico obscuro marginalizado, que caiu no mais profundo ostracismo que o tempo, quem sabe, se encarregará de trazer justiça pela forma arrojada como foi concebido. Produção pobre? Inocência sonora? As percepções são variadas, mas uma coisa é fato: é único por ser simplesmente diferente.
A banda:
Riccardo Paolucci nos vocais e
guitarra
Valentino D'Agostino nos vocais
e teclados
Loris Cardinali na guitarra
Adalberto Sbardella no baixo
Antonello Musso na bateria
Faixas:
1 - Vita Sul Pianeta
2 - Não Vede La Gente
3 - Sconosciuto Amico
4 - Dove Andremo
5 - L'ultimo Canto del Killer
6 - Corri Uomo
7 - Eri Importante
8 - Alla Fine Del Viaggio







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