quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Caixão - Da Porta ao Sumiço (2020)

 

Nessa minha fantástica caminhada de desbravar as grandes bandas que trafegam nas sombras das obscuridades, me peguei em algumas boas e salutares discussões acerca das condições que a sua sonoridade se relaciona, digamos assim, com o público. Uma delas é: um projeto musical pode ser considerado uma banda?

Pode parecer uma pergunta um tanto quanto desproporcional e boba, sem contexto algum, mas quando me vi refletindo sobre, quando essa questão me veio por um bom amigo leitor, me coloquei a pensar. Será que um projeto que, em tese, tem início, desenvolvimento e fim, pode ser considerada como uma banda constituída, haja vista que, quando se tem uma banda, presume-se que os seus músicos queiram a sua longevidade.

Projetos vem e vão, bandas também vem e vão, fãs idem, cenas também, mas a música, quando é relevante para os seus ouvidos e alma, sem dúvida alguma prevalecerá, passará pelos tempos e modismos, incólume, viva e jovial. Independente de como ela, a música, é concebida, ela é música e precisa ser apreciada, “degustada” como tal.

E essa banda, ou melhor, projeto é digno de reverências, dada a sua originalidade e também a sua sonoridade que nos remete aos prolíficos anos 1970, mas sem soar datado ou algo pasteurizado com a intenção de atingir a determinados nichos ou cenas de cunho saudosistas. Falo da banda ou projeto brasileiro, oriundo do Ceará, chamado CAIXÃO.

Caixão

E que orgulho, ufanismos à parte, dizer que se trata de um trabalho brasileiro, de material original e de contundência sendo feito em um país que privilegia as músicas frívolas, sem sentido e oca em sua concepção, mas essas tocam nas rádios, nas emissoras de massa, em tudo quanto é lugar, chega a ser leviano fazer essas pífias comparações. A Caixão já começa a ser underground e pouco “ortodoxo” com o seu nome.

E foi com o seu nome que, quando o conheci, lá pelos anos caóticos da crise sanitária da COVID-19, que realmente me chamou a atenção (risos)! São as maravilhas do mundo do underground e também os meus apreços e predileções musicais. E diante de tanto lixo musical que nos chega sem sequer pedirmos, torna-se urgente filtrar, para não cair na asneira de ouvir porcarias.

O projeto começou, em 2018, com o baterista Ítalo Rodrigo, conhecido pela banda seminal de crossover Damn Youth e também no Echoes of Death. Ítalo trouxe à tona a Caixão com o intuito de ser um projeto, porque, além de ser a sua concepção, ele pincela os músicos que o acompanha na sua empreitada sonora. Ítalo é a Caixão, pelo menos por enquanto, porque tudo indica que o projeto poderá vir a ganhar contornos de banda. Pode parecer estranho essa condição, afinal, a Caixão é uma banda constituída, independentemente de sua essência.

Lançou, em abril de 2019, um single, de nome “Pássaro Holograma” e um EP, com 5 músicas, também no mesmo mês e ano, de nome “Caixão”. Em setembro do mesmo ano gravou um “Split”, ou seja, um álbum com outra banda, chamado “Candelabro”, com a banda Abismo. O ano de 2019 foi bem agitado para a Caixão! Porém somente em outubro de 2020, em pleno auge da pandemia do COVID-19, lançou seu primeiro álbum chamado “Da Porta ao Sumiço”, cujo selo é a Abraxas, conhecida por ter em seu cast bandas de stoner, doom e occult rock da atualidade. E o cenário do caos sanitário também trouxe um formato um tanto quanto atípico na concepção do álbum sob o aspecto da gravação e sem sombra de dúvida na composição das letras. E será esse álbum alvo do texto de hoje.

EP lançado em 2019

“Da Porta ao Sumiço” foi concebido pela seguinte formação: além de Ítalo Rodrigo, na guitarra, o “dono” do projeto, trouxe Mirelle Sampaio, também na guitarra, Renato Alves, no baixo, Jardel Reis na bateria, com a participação no vocal e na letra de Ângelo Sousa, na música “Vulto”. A arte da capa contou com Fernanda JFL.

O processo de criação do álbum se deu de uma forma bem usual, apesar dos tempos temerosos da pandemia, tendo as ideias vindo em momentos totalmente inusitados, tendo como ponto central as músicas surgirem a partir de um riff. O trabalho foi todo feito em casa, afinal, o caos pandêmico exigiu um distanciamento social, o que certamente deve ter impactado o talentoso Ítalo a conceber as faixas que compunham esse álbum. Usaram para fazer a captação, sendo gravado em caixinhas de guitarra, que inclusive o baixo também foi gravado na caixa de guitarra. A mixagem e masterização ficou por conta de Guilherme Mendonça, amigo de Ítalo.

“Da Porta ao Sumiço” é um álbum que remete às sonoridades setentistas, que vai do hard rock ao psych. Passa pelo progressivo também, nuances mais discretas dessa vertente, mas também com um pé em sonoridades mais contemporâneas, como o stoner rock, por exemplo. O som da Caixão não é, com isso, datado, talvez homenagens às bandas de occult rock dos anos 1970 relegadas ao ostracismo, mas que soa com muito frescor, pois evoca o contemporâneo e a capacidade de se mostrar muito diversificada e difícil de se rotular.

É, sem dúvida, um registro contemporâneo, com referências do passado. É tão diversificado e complexo o som da Caixão neste trabalho que eles conseguem ser solares e introspectivos em uma única música, repetindo-se, em outras faixas. É inegável que, ao ouvir “Da Porta ao Sumiço”, não se consiga cativar pelas melodias envolventes e cheia de personalidade, sem contar com os riffs poderosos de guitarra que traz a versão pesada às músicas, propiciando os diversos andamentos distintos nelas, causando ao ouvinte um arrebatamento sonoro.

Como o próprio nome sugere, bem como a sua sonoridade, a Caixão dignifica, por intermédio de seu debut, uma roupagem, como disse, diversificada e calcada nos anos 1970, com viés atualizado trazendo o peso do stoner rock, tudo isso envolto em uma textura bem interessante de occult rock que beira, inclusive, a uma trilha sonora de um filme de terror. Me trouxe à tona até bandas como a italiana Goblin, por exemplo, que sempre explorou o cinema fazendo trilhas para o icônico cineasta Dario Argento.

"Hora de Ir"

“Corrente” segue agora com uma veia mais hard rock com riffs mais pesados de guitarra que, em determinados momentos, fica mais cadenciado, mas nunca leve ou introspectiva. É pesada! A “cozinha” é eficiente. Bateria pesada e marcada, baixo galopante, teclados enérgicos, mas ainda assim, sombrios.

"Corrente"

“Die in the Flame they Created” traz à memória algo de Blue Oyster Cult mais dançante, aquela fase mais comercial da banda dos anos 1980, mas que não negligencia de forma alguma sua pegada occult rock. O stoner se faz presente, o peso e os riffs de guitarra entregam essa vertente na faixa. “And Now Look At the Size of the Damage” segue basicamente a mesma proposta da faixa anterior, dando um caráter mais pop e comercial ao occult rock que permeia na música.

"Die in the Flame they Created"

“Mariposa” traz de volta o peso do stoner rock, capitaneado pelos riffs pegajosos e pesados de guitarra. A seção rítmica segue o conceito da música, se mostrando engenhosa e igualmente pesada. A bateria bate forte sem piedade alguma, mas ainda assim, temos algumas mudanças rítmicas. Bela música!

"Mariposa"

Segue com “Vulto” e a proposta pesada ainda paira sob esse momento do álbum e o hard continua pleno, os riffs de guitarra continuam em destaque, a bateria é pesada, porém cheia de viradas emocionantes. Percebo uma pegada mais heavy metal nesta faixa. A energia e a fluidez nessa música são deveras perceptíveis.

"Vulto"

“Poeira na Luz do Sol” chega mais sombria, mais introspectiva, com uma pegada pesada, porém arrastada, cadenciada, um stoner mesclada a um discreto doom metal. O baixo ganha destaque nessa faixa. É vívido, tocado alto, de forma galopante. A bateria basicamente segue marcada e os riffs de guitarra torna a faixa mais pesada. “Passeio no Céu” traz, mais uma vez, uma textura mais sombria, como na faixa anterior, algo mais introspectiva e soturno. Junto a isso uma pegada mais lisérgica envolve toda a proposta da faixa. A fala ao final da música é um trecho do filme “Compasso de Espera”, de 1973, dirigido por Antunes Filho.

"Poeira na Luz do Sol"

E fecha com “Goodbye Sanity” que se mostra com uma roupagem mais comercial, mais pop e bem dançante. Um conceito em voga entre as bandas atuais de occult rock que mescla o comercial com o occult rock que não é nada original, mas que atualmente é bem difundido nas músicas das bandas que compõe a cena hoje.

"Goodbye Sanity"

 “Da Porta ao Sumiço” pode ser considerado um álbum conceitual, afinal, as músicas, antes de qualquer coisa, se conectam, sonoramente falando. E o significado do nome do álbum também “amarra” esse conceito, pois o sumiço pode ser tanto para dentro quanto para fora, a partir da porta. Significa sumir de si ou dos outros. As faixas trazem esse ambiente de dúvidas, de fraquezas, de medos.

A banda lançou, em março de 2024, o single “Luz Estranha em Quixadá” e recentemente, em julho do mesmo ano outro single de nome “Bloodstains”. Esta última serviu como prenúncio para o lançamento do seu segundo álbum chamado “Entre o Velho Tempo Futuro”, previsto para ganhar luz em setembro. Remessas, no formato vinil, serão disponibilizados a partir de outubro.

"Luz Estranha em Quixadá" (2024)

O que nos resta, enquanto apreciadores do bom e velho occult rock, é aguardar ansiosamente por este tão aguardando novo álbum para ter de volta a Caixão despontando nos palcos e destilando suas músicas carregadas em hard rock, stoner, psicodelia e progressivo. E que o projeto se torne uma banda oficial e longeva. Se a música for o peso determinante não tenha dúvida de que isso logo acontecerá.




A banda:

Ítalo Rodrigo na guitarra

Mirelle Sampaio na guitarra

Renato Alvez no baixo

Jardel Reis na bateria

 

Com

 

Ângelo Sousa no vocal e letra de “Vulto”

 

Faixas:

1 – Hora de Ir

2 – Corrente

3 – Die in the Flame they Created

4 - ...And now look at the Size of the Damage

5 – Mariposa

6 – Vulto

7 – Poeira na Luz de Sol

8 – Passeio no Céu

9 – Goodbye Sanity (Bônus)



"Da Porta ao Sumiço" (2020)


"Entre o Velho e o Tempo Futuro" (Novo álbum de 2024)




 


 


























quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Moses - Changes (1971)

 

Ecos de um longínquo passado, tão distante que parece soar primitivo em determinadas sonoridades. Datado? Talvez! Fora de moda! Moda vem e vai, modismos transparecem para mim algo tão vazio e frívolo que sequer possa interessar aos que gozam de mínima personalidade.

Mas parece a fusão do blues e o rock foi um processo de extrema revolução nos idos de 1967, 1968, com a profusão de bandas que aliou criador e criatura em um caldeirão fervilhante, intenso e de uma plenitude sonora bem interessante. O Cream, juntamente com Jimi Hendrix, trouxe a potência do rock e a melancolia sombria do blues, eletrificando, tornando pesado uma vertente que traria outras tantas e tantas bandas seminais fazendo jus aos criadores.

O que dizer de Led Zeppelin ou ainda do underground Blue Cheer ou de John Kay com seu Steppenwolf? Referências que se confundiram com o blues rock, mesclados ainda ao hard e o psych que também estavam pairando pela cena rock na transição dos anos 1960 e 1970.

As bandas seminais e famosas ganharam o mundo, levaram seu nome para o mais alto patamar e excelência do bom e velho rock n’ roll e estão no rol dos clássicos indiscutíveis. Mas e as bandas obscuras? Não podemos discuti-las? Não podemos coloca-las no mesmo patamar de importância?

Bem esse blog que você, estimado leitor, está navegando, traz as bandas obscuras, raras e undergrounds a um nível de protagonismo, mesmo no ápice de seus fracassos comerciais e, aproveitando o ensejo da cena blues rock, que muito me cativa, gostaria de trazer uma banda, surgida na fria Dinamarca, que entrega uma sonoridade quente e diversificada e se chama MOSES.

Moses

Quando busquei referências de pesquisa para construir esse texto que você, bom amigo leitor, está lendo, li alguns comentários do tipo: “Nossa, é um álbum fraco”! “Um álbum básico demais”! “Uma cópia barata do Ten Years After”! Evidente que não quero entrar no mérito das opiniões, afinal, são pessoais e precisam ser respeitadas, mas o “básico”, penso, não pode ser assimilado a algo ruim. Muito pelo contrário, é a essência do rock, a gênese de um estilo.

Quando ouvi, pela primeira vez, o primeiro álbum do Moses, “Changes”, de 1971, foi tão arrebatador que me fez, com o perdão das famigeradas comparações, lembrar as estreias de bandas do naipe de Black Sabbath e Blue Cheer, por exemplo. Uma sonoridade tão primitiva e básica, calcada no peso, em um blues rock elétrico, distorcido e agressivo. A trinca guitarra, baixo e bateria traz uma pegada, além da já comentada, pegada pesada, traz um despojado, algo tão despretensioso, que beira até a inocência de seus músicos, sem contar que o vocal lembra de um bebedor inveterado.

Se para muitos isso possa trazer a noção de amadorismo, para esse que vos escreve é o charme de todo o conteúdo, seja ele intencional ou não. “Changes” é fantástico por isso! Guitarras wah-wah cheia de distorções e lisergia, hard rock, aquele blues eletrificado, tantos atrativos mesmo para um álbum tão básico. É louco, não acha? Ainda encara o básico como ruim? Sugiro rever os conceitos...

Mas antes de destrinchar o único rebento do Moses, “Changes”, vamos tentar falar um pouco dos primórdios da banda. Já digo, amigo leitor, de antemão que, por se tratar de uma banda obscura, pouco se sabe sobre, poucas foram as referências encontradas, mas as linhas desse texto precisam se fazer existir.

O Moses foi formado em uma cidade chamada Esbjerg, na Dinamarca. E o conceito de seu estilo vem muito do passado de dois de seus integrantes, são eles: Jørgen Villadsen e Søren Højbjerg, vocais e baixo e guitarrista, respectivamente, que tocaram em uma banda de blues chamada Fresh Boiled, em 1968. Na realidade essa banda seria o esboço do Moses. Henrik Laurvig, o baterista, tocou em diferentes e várias bandas locais e juntou-se a Jørgen e Søren quando a banda mudou seu nome para Moses, no início de 1969.

A partir daí o Moses excursionou sem parar durante o ano de 1969 e por toda a sua precoce existência e, em 1970, estava em contato com uma gravadora underground chamada Spectator Records. O selo estava muito interessando em gravá-los, contratá-los, mas precisava ver os shows dos caras para ter a certeza de que eram bons o suficiente ao vivo para ter o melhor resultado em estúdio e no verão daquele mesmo ano gravaram, por incríveis dois dias, “Changes” no Spectator Record Studio, em Ålborg, na Dinamarca, porém o álbum só foi lançado em 1971.

A responsabilidade da distribuição ficou a cargo da Spectator Records e teve uma reduzida tiragem, pasmem, de apenas 500 cópias, tornando-o hoje um produto muito valorizado nos sites de vendas de vinis, como acontece frequentemente com muitos desses tesouros obscuros e perdidos dos anos 1970. E como poucos teriam acesso a esse vinil por conta do alto valor, a sorte de nós, pobres mortais, é de que temos alguns canais no YouTube, abnegados, que difundem o álbum, bem como blogs e sites que trazem, além da sonoridade, a história de bandas como o Moses.

E como a banda durou meros três anos ou um pouco mais, ou seja, uma curta existência e trajetória, a formação que gravou “Changes” trazia, como já mencionados: Søren Højbjerg na guitarra, Jørgen Villadsen no vocal, baixo e Henrik Laurvig na bateria. E como também já comentado trazia um hard rock com generosas pitadas de blues e um tempero saboroso de acid rock, com muita lisergia. O peso, aliado ao despojado de sua sonoridade era o charme e fazia da música algo bastante característico, apesar de não trazer nada de revolucionário.

O álbum é inaugurado com a faixa título “Changes” e já escancara com um proto metal configurado em riffs potentes e pegajosos de guitarra com uma levada bluesy. O som é arrastado e pesado, mas traz uma pitada sombria, soturna, diria. Solos de guitarras lisérgicas, ácidas são ouvidas, o peso é corroborado pela “cozinha”, com baixo pulsante e bateria marcada. Mas logo volta ao estágio arrastado que iniciou a faixa. O vocal é um destaque à parte, bem despretensioso. Não hesitaria em dizer que essa faixa trafega entre o stoner e o doom.

"Changes"

A sequência tem “I’m Coming Home” que abre com um baixo dançante e com algum groove. A sonoridade me remete ao psych rock com as já perceptíveis pitadas de blues rock. Solos pesados de guitarra rasgam a faixa em um estrondo hard rock tipicamente setentista e logo retoma ao baixo dançante com pegada ácida. 

"I'm Coming Home"

“Everything is Changed” já começa rasgando com riffs arrogantes e agressivos de guitarra. Aqui o hard rock se faz vivo e pleno, mas as bases trazem o psych rock, a lisergia igualmente presente em toda a estrutura sônica do álbum. Os solos de guitarra aparecem e trazem a certeza do peso dessa faixa. A sessão rítmica também seu destaque e cadencia a camada hard da faixa.

"Everything is Changed"

Segue com “Beginning” que abre com um solo curto e direto de bateria, com algumas viradas interessantes e logo irrompe em riffs e solos desconcertantes de guitarra e um baixo muito pulsante e vivo. A destreza instrumental nesta faixa é escancaradamente vibrante e excitante! Um volumoso e potente hard rock que conta ainda, já para o final da música, com um poderoso e arrasador solo de bateria.

"Beginning"

“Skæv” segue na linha hard rock e é cantada em dinamarquês. Um hard rock arrastado, mesclado ao psych rock e um proto stoner invejável. Certamente uma das mais pesadas faixas do álbum, com um trabalho excelente de guitarra. E quando se junta a forma mais agressiva ainda da bateria, a música assume uma roupagem mais de proto metal. Incrível!

"Skaev"

E fecha com “Warning” traz à tona, mais uma vez, a competência rítmica da “cozinha” da banda. Batidas fortes da bateria, o baixo pulsante, solar e dançante dá lugar a riffs pesados de guitarra. O blues rock retorna e vem pesado e intenso. Os solos de guitarra, mais uma vez, ganham destaque, e vem com a já percebida vibe psicodélica, com a lisergia como pano de fundo. E desses “fragmentos” temos uma sessão instrumental apoteótica, repleta de viradas e momentos distintos.

"Warning"

O Moses não conseguiu êxito comercial após o lançamento de “Changes”, em 1971, mas seguiu fazendo shows, se apresentando, mas não conseguiu fazer sucesso e divulgar o seu trabalho. Não teve também a estrutura ideal para tal por parte do selo que também não gozava de capital para tal investimento. Em 1972 a banda se vê obrigada a finalizar as suas atividades.

Porém seus integrantes seguiram, direta ou indiretamente, no mercado da música. Søren Højbjerg ainda está trabalhando como diretor de sua própria organização dinamarquesa de reservas e shows, SHB Agency, em Esbjerg. O baterista Henrik Laurvig continuou em diferentes bandas, a mais famosa das quais foi Mani, com quem gravou o álbum “Kontiki”, pelo selo Genlyd Records, em 1985. Junto com sua carreira musical, ele trabalhou como gerente de vendas nas gravadoras CBS Records e Warner Music, ambas da sucursal da Dinamarca. Já o baixista e vocalista Jørgen Villadsen perdeu o contato com seus antigos companheiros de banda, e atualmente não se sabe sobre seu paradeiro atual.

Um som despojado, inocente, ruim, pouco apurado em termos de melodia, fraco, divertido, atraente por ser e por ter uma sonoridade suja e teoricamente mal produzida. Tantas são as percepções, mas com uma única certeza. É pesado e, no mais puro conceito de seu som, se faz diverso e cheio de possibilidades para os mais variados “paladares” de som que flerta com o blues rock, o hard rock, com o proto stoner e doom. Mesmo básico é diverso. O conceito de tempo parece ser tão irrelevante para o Moses e seu único trabalho que a discussão de ser ou não datado, torna-se pueril. “Changes” teve um relançamento, em 2010, no formato “CD” pelo selo “Shadocks Music”.


A banda:

Jørgen Villadsen: no baixo e vocal

Henrik Laurvig: na bateria

Søren Højbjerg: na guitarra

 

Faixas:

1 - Changes    

2 - I’m Coming Home

3 - Everything Is Changed    

4 - Beginning 

5 - Skæv         

6 - Warning



"Changes" (1971)














 








quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Pandora - Measures of Time (1974)

 

Quando leio alguns textos sobre determinadas bandas ou álbuns observo, nitidamente, que as pessoas buscam algo inovador. Claro que, quando temos um primeiro contato com uma banda, buscamos algo que nos arrebate, perfeitamente natural ter, ou melhor sentir isso. Mas percebo que o nível de exigência tem sido demasiadamente alto a ponto de rejeitar e criticar determinadas bandas e trabalhos por elas produzidas.

A crítica e a rejeição também fazem parte do processo da aceitação ou não de determinados trabalhos, mas penso que buscar sempre algo inovador é demasiado exigir demais de determinadas bandas e principalmente de si mesmo quanto ao seu nível de aceitação e rejeição de determinados trabalhos.

As cenas musicais chegam a níveis de saturação, com um número enorme de bandas que surgem. Percebo isso em movimentos musicais de hoje e do passado e com o rock progressivo não foi diferente, principalmente na primeira metade dos anos 1970, quando viveu sua ebulição criativa, embora nunca tenha sido uma cena palatável e tanto aceita pela indústria fonográfica. E que fique claro que a sua ebulição criativa foi na primeira metade dos anos 1970, mas não significa que em outros tempos não tenha sido.

E, diante desse cenário, que penso ter acontecido, muitas bandas surgiram, algumas viram a luz do sucesso, enchendo arenas, estádios e participando de festivais faraônicos e muitas outras caíram no limbo do esquecimento, vagando pelas sombras obscuras do underground.

E essas últimas sofreram e sofrem com uma investida pesada de ultrajantes cópias das bandas famosas, de sucesso. Evidente que não tirarei os méritos dos medalhões do prog rock que conquistaram suas condições de pioneiras e inovadoras, mas qual o motivo de taxar as obscuras de plagiadores? Qual o motivo de pontuá-las como farsantes ou coisa que o valha?

Essa defesa veemente da minha parte, caros leitores, se dá por uma questão óbvia, afinal, esse reles e humilde blog fala de bandas obscuras, mas não se enganem que a defesa seja cega e alienada. Aqui há espaço para críticas, mas principalmente, modéstia à parte, para grandes álbuns e bandas.

E a banda de hoje eu conheci recentemente em uma dessas incursões, às vezes, confesso, aleatórias na grande rede na caça de álbuns obscuros e quando a ouvi simplesmente adorei, porque alia um progressivo sinfônico, com uma pegada mais pesada, um hard mais acessível, com uma sonoridade, diria, comercial, mas de qualidade. Falo da banda sueca PANDORA.

Pandora

Quando levantei referências para este texto que você, fiel e bom amigo leitor, li algumas críticas pesadas, desconstruindo a sonoridade da banda, dizendo que era cópia de ícones como Uriah Heep, Genesis, entre outras bandas de sucesso. Ao ouvir o único álbum lançado pela banda, há cinquenta anos, em 1974, chamado “Measures of Time”, não se percebe, de fato, nada de inovador, era o que se fazia na primeira metade dos anos 1970, na cena progressiva, mas se trata de um trabalho excepcional, muito agradável de se ouvir e é isso que importa aos ouvidos e a alma.

E falando em referências lamentavelmente pouco encontrei sobre a história do Pandora na web, sobre as suas origens, então vai as minhas famigeradas licenças poéticas acerca de sua história obscura. O nome da banda te remete a conhecida “Caixa de Pandora” com a sua história de que os deuses gregos colocaram todas as desgraças do mundo, entre as quais a guerra, a discórdia, as doenças do corpo e da alma em uma caixa. Talvez a inspiração para o nome da banda seja a música como uma manifestação irrestrita de esperança. Há muito a se falar da “Caixa de Pandora”, mas não entrarei em pormenores.

Vamos ao pouco da história do Pandora, a banda. A banda foi formada na cidade de Norrkoping, no sul da Suécia, em 1971 pelo baterista Bertil Jonsson e pelo guitarrista Urban Gotling. Após algumas mudanças na formação a banda gravou o já informado debut, na realidade único trabalho, “Measures of Time”, de 1974. Com a saída de Gotling, a formação que concebeu esse álbum tinha, além de Jonsson, na bateria, Leif Hellquist e Åke Rolf na guitarra, Peter Hjelm, no vocal principal, Janne "Flojda" Dockner no piano e sintetizador e Björn Malmqvist no baixo.

“Measures of Time”, lançado pelo selo sueco SMA, no formato vinil, traz uma música bem executada, com excelentes arranjos e melodias com uma roupagem progressiva sinfônica, com teclados agradáveis e vocais bem envolventes, com uma textura mais pesada, tendendo para o hard rock que harmoniza muito bem com os sintetizadores e a pegada sinfônica, fazendo de sua sonoridade versátil e que pode certamente agradar aos apreciadores de progressivo e hard rock, além de um viés mais comercial, porém bem executado.

Nuances psicodélicas são percebidas também que te faz remeter naquela transição dos anos 1960 para os anos 1970, que se percebe uma sonoridade que tenta deixar o experimentalismo e a pegada beat indo para algo mais complexo e bem trabalhado. Assim o é “Measures of Time”. Não para por aí: ainda se percebe um blues progressivo e calorosas pegadas de krautrock. A sonoridade do Pandora é bem globalizada e se afasta um pouco do som das bandas suecas meio exóticas e pouco ortodoxas do início dos anos 1970.

O álbum é inaugurado pela faixa título “Measures of Time” que começa meio operística, piano e baixo em total sinergia entregando um progressivo sinfônico com riffs pesados de guitarra e um vocal melódico cheio de dramaticidade. E tudo isso ganha vivacidade e emoção com solos lindos de guitarra que logo tem a companhia do piano dando uma cadenciada e “rivalizando” com a guitarra. É a faixa que define bem o trabalho do Pandora.

"Measures of Time"

Segue com “Dusty Ledger” que também ganha vida com o piano na introdução e baixo trazendo uma textura mais misteriosa o que é corroborado pelo vocal mais fechado e introspectivo. O baixo fica mais pulsante, a música ganha mais corpo, os riffs de guitarra trazem uma roupagem hard rock, bateria é marcada e bate mais forte, o vocal segue a proposta com alcances maiores, os teclados dão um tom mais sinfônico, solos de guitarra são de tirar o fôlego. Não há como negar que a faixa se revela complexa e repleta de mudanças rítmicas.

"Dusty Ledger"

“The Queen” segue com a proposta mais sinfônica com uma introdução de piano, mas dessa vez foi rápida, porque ela já começa animada, enérgica e agitada. Vocais mais nervosos, mas não menos melódico, o que sempre me agrada, riffs de guitarra dão o tom mais solar, bateria as vezes pesada ou com uma discreta pegada jazzística, o piano mais frenético entrega o peso, o baixo pulsante e dançante, solos mais acessíveis de guitarra. Sem dúvida a mais animada faixa do álbum.

"The Queen"

“Life is Good, Life is Bad” começa com uma salutar “rivalidade” entre piano e a guitarra com seus riffs, tendo uma textura rítmica mais dançante, graças, claro, ao baixo mais pulsante e bateria marcada. Vocal, como sempre, em destaque, sempre melódico e agora em um tom mais dramático. As mudanças rítmicas também é a tônica da faixa, trazendo à tona passagens mais sinfônicas. Na sequência tem “Tailor” com o piano em destaque. A roupagem mais progressiva ganha força nessa faixa e os teclados confirmam essa condição com aquela pegada típica do sinfônico, que logo irrompe nos indefectíveis solos de guitarra sempre bem executada.

E fecha com “Mind of Confusion” traz à tona novamente o hard prog, o peso dos riffs e solos da guitarra e as mudanças rítmicas são arrebatadoras e extremamente solares. E nessas mudanças rítmicas não podemos negligenciar o vocal, destacando-o conduzindo perfeitamente os “humores” da faixa. Traz alcances vocais poderosos a sussurros.

Após o lançamento de “Measures of Time” o Pandora teve alguns bons e importantes shows dando a perceber que a banda vingaria, seguiria o seu curso na história. Abriu banda para bandas mais famosas da Suécia como Kaipa e Trettioariga Kriget, entre outras, isso entre 1975 e 1977, durando até 1981, quando a banda se desfez por diferentes razões, de relacionamento a percepções musicais, sendo que alguns músicos já tinham, inclusive, saído do Pandora para outros projetos.

“Measures of Time” permaneceu como uma total raridade até que a Tachika Records o relançou em mini LP. O selo em questão é um tanto quanto nebuloso, pois seu catálogo está na loja virtual “Syn-Phonic”, mas nem eles sabem se totalmente legalizado, apontando um vínculo com outras empresas como a “Progressive Line” e a coreana “Won Sin”, mas o que vale é a qualidade do lançamento e de que o álbum ganhou alguma repercussão, embora pequena. Teve outro relançamento, agora em vinil e CD, pelo selo alemão Press Alemanha, em 2015 e desde então não se tem notícias sobre um novo relançamento deste belíssimo álbum.

Independente se é ou não inovador, o único trabalho do Pandora, “Measures of Time”, é saboroso de ouvir, é agradável e traz uma complexidade em sua sonoridade muito democrática que faz com apreciadores de progressivo e hard rock se junte e ouça esse trabalho da banda sueca. O mais importante das discussões sobre vertentes do álbum e o bom alimento a alma que a boa música pode nos proporcionar.




A banda:

Björn Malmqvist no baixo

Bertil Jonsson na bateria

Leif Hellquist na guitarra

Åke Rolf na guitarra

Peter Hjelm nos vocais

Janne "Flojda" Dockner no piano e sintetizador

  

Faixas:

1 - Measures Of Time

2 - Dusty Ledger

3 - The Queen

4 - Life Is Good, Life Is Bad

5 - Tailor

6 - Mind Of Confusion 



"Measures of Time" (1974




 


 















quarta-feira, 25 de setembro de 2024

El Ritual - El Ritual (1971)

 

Mais uma banda de países pouco celebrados no que tange ao rock n’ roll! Mas não se enganem, caros leitores, o país desta banda que escrevo trata o rock n’ roll de uma forma muito visceral, apaixonada e conta com uma cena ativa, plena, interessada, com inúmeras bandas que flertam com estilos que vai desde o rock progressivo, blues rock, hard rock, jazz fusion, até o punk rock e o heavy metal. Falo do México!

Talvez não tenha a visibilidade que mereça por ser tratar de um país que está em uma margem, digamos, periférica, sob o ponto de vista econômico, mas nada ofusca ou pelo menos deveria ofuscar a cena que pulsa naquelas terras.

E confesso que, com base nessa premissa de total vilipêndio a cena rock mexicana, não conhecer a fundo as bandas que a compõe, mas, passo a passo, vagarosamente, venho descobrindo as pérolas, principalmente, obscuras que ajudaram e ainda ajudam, pois cresce vertiginosamente em novas bandas, na construção da cena por lá.

E com o pouco que tenho desbravado no rock mexicano percebo, observo que o melhor das bandas que florescem naquela cena, sobretudo surgidas nos anos 1970, é que têm abordagens do heavy psych, no blues rock e também no hard rock. Traz algo de inocente, genuíno, puro em suas sonoridades, algo também de garageiro, talvez pela estrutura ínfima de produção, mas que entrega efetivamente, no fim das contas, o que propõem. Não esquecer também das bandas progressivas, os mexicanos amam o prog rock, mas parece não importar o quão progressiva as bandas se apresentem, sempre estarão enraizados na “pureza” de seu som.

Claro que, em alguns momentos, percebe-se que emulam as bandas americanas, não com a intenção do plágio, mas porque a inspiração, admitamos, de muitas bandas vem dos Estados Unidos e também da Inglaterra, afinal, além da inspiração, são referências.

 E a banda de hoje sintetiza claramente essas percepções sonoras que pairam e tingem a cena rock mexicana dos anos 1970, mas também terei de confessar que me equivoquei em alguns pontos sobre essa banda. Falo do EL RITUAL com o seu único álbum lançado, em 1971, simplesmente chamado de “El Ritual”.

El Ritual

E quanto ao equívoco ele se deu logo de cara com o nome da banda e a sua “rústica” arte gráfica. O contato visual me surpreendeu, pois achava que fosse encontrar um suntuoso hard rock típico, pesado com um quê de proto metal, mas não. Trazia uma “sopa sonora” que ia de progressivo, jazz rock ao heavy psych com uma textura ácida, lisérgica e extremamente indulgente.

E a isso adicione alguns personagens típicos da cultura mexicana como “Machete” ou ainda "Perdita Durango". Tente entrar na situação com a audição de seu álbum e terás essa percepção dignamente louca. Alguns hippies mal-encarados, aqueles rockers mexicanos sujos e perigosos do fim dos anos 1960 e acrescente a isso tudo fortes doses de occult rock, com aquela atmosfera sombria. Pronto! Temos o álbum de El Ritual, de 1971.

A banda é oriunda da região periférica de Tijuana e seu único trabalho, o que é uma pena, é definitivamente uma maravilha colossal. Sua presença e música são atos singulares, espetaculares da cena psicodélica mexicana, encabeçando, com maestria, uma horda de músicos obscuros, alternativos e que não se curvava às tendências pasteurizadas do mainstream. E para entender um pouco a concepção de “El Ritual” é preciso conhecer a sua história e como aqui, neste humilde e relés blog, a história tem protagonismo, vamos a ela.

O El Ritual inicialmente, em seus primórdios, era formado por Frankie Barreño no vocal, guitarra e flauta, Martín Mayo nos teclados, Gonzalo Chalo Hernández no baixo e Abelardo Barceló na bateria. Uma conjunção mágica de músicos que estavam em perpétuo estado de inspiração, deixando se levar pela sua criatividade nua e crua.

Todos eles já tinham alguma experiência, já estavam no cenário do rock mexicano há algum tempo, como era o caso de Martín Mayo e Abelardo Barcelo, que faziam parte de uma banda chamada Graveyard, uma banda de Tijuana que executavam um poderoso rock psicodélico underground sendo um dos expoentes do estilo na região.

Após a saída dos dois do Graveyard, de uma forma um tanto quanto tempestuosa, Martín Mayo tocou em várias bandas de Tijuana e Lalo Barcelo esteve com a banda Peace & Love por um tempo, mas também saiu de uma forma traumática e, com o perdão da analogia, não tinha tanta paz e amor na banda.

E foi assim que Lalo se juntou com “El Diablo” Alejandro Villegas, Gonzalo Chalo Hernández e Frankie Barreño, formando o que seria a primeira encarnação do El Ritual à qual Martín Mayo seria, mais para frente, adicionado. Pronto! A banda estava formada. A banda trabalhou, seguiu com boa aceitação por cerca de um ano, até que Lalo Bracelo e Frankie Barreño se juntaram ao Dug Dug’s de Armando Nava. E o El Ritual findaria.

Por volta de 1970, já na capital, Cidade do México, os Dug Dug’s se separariam devido a problemas de relacionamento entre Franky e Lalo e a tira colo foi o Armando Nava. Já o El Ritual foi reformulado e dessa vez com a seguinte formação: Oscar Alegre no baixo, Frankie Barreño na guitarra e Lalo na guitarra.

O trio começou a se apresentar em pequenas casas de shows e tudo indicaria que iria vingar o novo projeto, mas novos problemas surgiram e essa formação não durou muito tempo, já que Alegre saiu rapidamente e os seus ex-colegas se juntariam ao El Ritual: Martín Mayo e Gonzalo Chalo Hernández. E essa formação finalmente gravaria o primeiro é único álbum da banda em 1971: “El Ritual” pelo selo “Raff”, no qual, após uma audição por recomendação da banda Peace & Love, obtiveram a aprovação dos diretores da gravadora.

“El Ritual” é um álbum que se assemelha a tantas bandas e álbuns, mas ao mesmo tempo é algo tão único, singular. Nele se percebe Deep Purple, Arthur Brown, Black Widow, Coven, o som de Canterbury, as bandas psicodélicas pesadas estadunidenses e ainda assim traz algo tão original e revolucionário em sua música.

Trata-se de um álbum corajoso, arrojado em que se baseia em todos os substratos de rock possíveis e imagináveis, onde qualquer apreciador da música, em todas as suas nuances e flertes sonoros, pode se enamorar pela banda e seu único trabalho.

Aqui vale uma curiosidade acerca da trajetória, curta, mas significativa do El Ritual: A banda, quando foi para a Cidade do México, isso em 1971, participou de alguns festivais e o primeiro fora o histórico Festival Avandaro, do qual nada deu certo, pois enfrentaram sérios problemas de áudio e iluminação, típico de bandas obscuras, que não gozavam de estrutura para apresentar a sua arte.

O “Rock and Wheels Festival” realizado em 1971, em Avándaro, no México, foi uma espécie de Woodstock mexicano, um histórico show realizado nos dias 11 e 12 de setembro, próximo ao Avándaro Golf Club, no Estado do México. O festival tinha como emblema a celebração à vida, paz, amor, a ecologia, as artes e as drogas experimentais e foi comparado ao Woodstock exatamente por isso, além, claro, das apresentações de bandas psicodélicas, a arte contracultural, o uso de drogas e o amor livre. Estima-se que entre os dois dias que durou o festival, o público ficou entre 100.000 e 500.000 pessoas.

O álbum abre com a faixa “Mujer Facil” ou como queiram “Prostituta”, inclusive o nome da música era “Puta”, mas por razões óbvias, o nome foi proibido pela gravadora para evitar “confusões”. Sua sonoridade varia do Guess Who ao Grand Funk Railroad, com foco nos órgãos e na flauta trazendo uma abordagem mais rock, um pouco mais pesada e enérgica, mas com o toque e complexidade do progressivo. Muito dessa música traz à tona a fase do Dug Dugs na época em que Frankie Barreño e Lalo Barcelo fizeram parte desta banda. Tem muito de Armando Nava, líder do Dug Dugs graças aos arranjos e flauta, inclusive este foi um dos primeiros a introduzir a flauta transversal no rock mexicano por volta de 1967-1968.

"Mujer Facil"

Segue com “La Tierra de que te Hablé” que começa com um tema interessante de folk psicodélico, acompanhado de um violino que traz uma sonoridade lúgubre, linda, melancólica, dramática, sombria. Mas o melhor estar por vir com a guitarra acústica que abre alas para uma espécie de jazz rock bem animado, bem solar.

"La Tierra de que te Hablé"

A sequência traz uma das faixas mais intensas, complexas do álbum: “Bajo el Sol y Frente a Dios”, com uma balada de folk psicodélico meio jazzístico de uma insólita finesse que entrega certa semelhança com o King Crimson em sua fase mais experimental, a fase inaugural. Uma faixa com uma melodia rica, bem estrutura em textura experimentais, lisérgicas e progressivas, mas orgânica, garageira e intensa, ao mesmo tempo.

"Bajo el Sol y Frente a Dios"

“Satanas” já traz o acid rock, a lisergia ao nível máximo com uma pegada bem experimental e garageira, com toques mais voltados também para o hard rock e que remete aos momentos psicodélicos de Iron Butterfly em “In a Gadda da Vida”. É indulgente, é sombrio, com texturas densas, em uma atmosfera nebulosa e perigosa.

"Satanas"

“Peregrinación Satánica” é provavelmente a faixa que mais se adequa, que mais se envolve com os terrenos do rock progressivo britânico, mais precisamente com o som da cena de Canterbury, com elementos excessivos, complexos, cênicos e teatrais típicos do rock progressivo da Inglaterra. Excelente faixa!

"Peregrinación Satánica"

“Conspiración” é uma balada psicodélica um tanto quanto dramática e emocional com solos de teclados e órgãos extremamente intensos e enérgicos, poderosos e solares, que traz um peso que lembra o Vanilla Fudge e os primeiros trabalhos do Deep Purple.

"Conspiración"

“Groupie” é mais acid rock com uma pegada mais dançante, mais latinas, com instrumentos percussivos e que traz à tona um pouco da identidade cultural do seu país, da América como um todo. Um ritmo pegajoso, com uma bela interpretação vocal, bom órgão e lindos riffs de guitarra. Traz à lembrança Carlos Santana. Ótima música!

"Groupie"

“Muerte e Ido” traz seções de metais, mesclada a instrumentações mais próximas da psicodelia padrão, um híbrido interessante com guitarras fuzzeada muito boa e um órgão poderoso e pesado.

"Muerte e Ido"

E para fechar o álbum temos “Tabu”, que foi uma das músicas que se gravou nas últimas seções, mas que saiu solo em um EP em agosto de 1972 e de novo traz pegadas psicodélicas com lindos riffs de órgão que traz algum peso a música.

"Tabu"

Desde o início da confecção do álbum, no trabalho de encarte e preparação de “El Ritual” houve alguns descuidos, já que no referido encarte indica dez músicas quando na realidade tem apenas oito faixas. As duas músicas que faltam são “Tabu” e “Nuestra Gente”. O primeiro, conforme dito, apareceu anteriormente em um EP com quatro músicas. Já a segunda é uma gravação perdida porque embora tenha sido totalmente finalizada (mixagem, transferência e edição), no final não foi incluída e hoje é praticamente impossível determinar onde estava o máster.

A primeira edição de “El Ritual” foi apresentada numa capa de livro, que ao abrir incluía uma ilustração que pretendia refletir e mostrar o espírito e filosofia da banda. O estranho é que em nenhum lugar indica quem está tocando, embora nos créditos de cada música diga quem são os compositores. Obscuro, não?

Nas edições seguintes mudaram a capa do álbum e a ordem das músicas. Quando começou a ser concebido no formato CD, era da gravadora “Denver”, que também não traz nenhuma informação sobra a banda e até se aventuraram a mudar o nome de uma música; no CD “Peregrinación Satírica” agora se chama “Peregrinación Satánica”, o que é diametralmente diferente. E diante de todas essas informações transviadas reza a lenda de que havia um integrante, a participação de um tal Toby (não há maiores informações além desse perdido nome) responsável pelas percussões, mas que carece da devida confirmação.

Eles foram pioneiros no México no uso de luzes e fumaça, dando um clima teatral às músicas, bem como o uso de maquiagem e reza a lenda que faziam isso antes mesmo de bandas medalhonas como o Kiss que até hoje carrega o pioneirismo debaixo do braço. Não quero entrar no mérito da discussão, mas se olharmos pelo lado cronológico da coisa o El Ritual teria surgido primeiro com essa estética.

Teria um segundo álbum e já haviam tomado a decisão de fazê-lo em espanhol, aliás iniciaram as gravações em meados de 1972 com Luís Hernandez nos teclados que substituiu Martín. Lamentavelmente esse álbum, bem como outros projetos que estavam engatilhados não foram realizados e essas gravações também se perderam.

Em novembro de 1972 grande parte dos integrantes do El Ritual voltaram para a sua cidade natal, Tijuana, deixando para traz a Cidade do México. As mortes de Martín Mayo e Chalo Hernández em 2013 fechou definitivamente o ciclo e a possibilidade de uma reunião do El Ritual. Mas deixando uma marca indelével na história do rock mexicano, marcando um pioneirismo no occult rock daquele país.




A banda:

Gonçalo Chalo Hernandez no baixo

Alberto Lalo Barceló na bateria

Frankie Barreño nos vocais, guitarra e flauta

Martín Mayo nos teclados

 

Faixas:

1 - Mujer Fácil

2 - La Tierra De Que Te Hablé

3 - Bajo El Sol Y Frente a Dios

4 – Satanás

5 - Peregrinación Satánica

6 - Conspiración

7 - Groupie

8 - Muerto e Ido



"El Ritual" (1971)