Mais uma vez a Itália se revela majestosa e prolífica quando se fala em
rock progressivo. Sua história é irretocável, baseado no primor e na galhardia
de suas bandas que escreveram e ainda escrevem, pois grande parte delas ainda
está a pleno vigor de suas forças e criatividades, histórias espetaculares e
que ainda faz deste país um dos grandes representantes da cena que a cada dia
se faz presente e forte com as clássicas bandas e as novas safras que
certamente perpetuarão o rock progressivo da velha Itália.
E a minha dica de hoje é conhecida de todos os apreciadores da boa
música progressiva e que com sua sonoridade atemporal e arrojada honrou o
clássico e que serve de referência para os tempos contemporâneos. Falo do THE
TRIP e seu álbum mais conhecido, o seu melhor trabalho para muitos: “Caronte”,
de 1971.
The Trip com “Caronte” flerta com os primórdios do rock progressivo na
Itália e ao mesmo tempo se faz perceber a sua sonoridade na nova safra de
bandas progressivas na Itália, sobretudo aquelas que primam pelo peso e
qualidade na melodia e harmonia. Sim, é possível aliar peso, agressividade e
melodia e harmonia com sensibilidade.
Assim é o The Trip com o seu espetacular “Caronte”. E como não posso
deixar de falar de um pouco de história para acrescentar ao tempero sonoro,
vamos a ela. The Trip foi uma das primeiras bandas italianas de rock
progressivo, embora tenha se formado na Inglaterra. Na verdade, se tratavam de
músicos ingleses que foram tentar a sorte na Itália em uma época em que beat
italiano estava em franca ascendência.
Isso era meados da década de 1960. Era a psicodelia, era o beat pop que
estava em voga na Itália e lá foram eles em busca do sucesso. O The Trip viajou
para a Itália e logo serviu de banda de apoio para um cantor de beat-pop
chamado Ricky Maiocchi.
Nessa época o guitarrista era um rapaz novo e desconhecido, um tal de
Ritchie Blackmore. Blackmore, em 1966, foi para a Itália tentar ganhar a vida
como músico, dada também a efervescência daquele país, juntamente com o
Maiocchi, que era vocalista de uma banda chamada The Chameleons e lá ficou por
poucos meses, entre setembro e dezembro.
O pouco tempo que ficou se deu por conta das incertezas com o seu
futuro, pois o show que fazia com o The Trip não estava rendendo dinheiro, o
público parecia não apreciar o som da banda, voltado para o psicodélico mais
experimental, e os proprietários das casas de shows pagavam muito mal, gerando
o retorno precoce do futuro fundador do Deep Purple à Inglaterra.
Mas em 1969, quando Joe Vescovi foi recrutado, logo assumiu a liderança
da banda e começou a trabalhar com a influência de bandas como Vanilla Fudgie,
ou seja, um psicodélico, com um progressivo de vanguarda com pitadas de hard
rock. Em 1970 gravou seu primeiro álbum, “The Trip” e aqui você pode ler a resenha que fiz sobre este belo álbum, com essa proposta, uma
abordagem psicodélica, um acid rock, com um progressivo ainda pouco executado,
embrionário.
"The Trip", de 1970
Mas em 1971, veio “Caronte”. Um misto de hard rock elétrico e vigoroso
com um progressivo com levadas clássicas com influências de Emerson, Lake &
Palmer, como muitas bandas italianas que surgiam no início da década de 70, mas
com aquela pegada ao estilo Vanilla Fudge, graças ao grande Vescovi.
Foi uma guinada espetacular na história do The Trip. “Caronte” foi
inspiração do personagem “Charon, o barqueiro do inferno”, de Dante Alighieri,
da “Divina Compédia” e constrói uma espécie de metáfora ao conformismo, a uma
sociedade conformista, baseada em estruturas frívolas e destrutivas na consumo,
na autodestruição, entre outros. Inclusive há faixas mencionando músicos como
Janis Joplin e Jimi Hendrix, que, ao olhar da banda, retrata esse conceito de “Caronte”.
Charon, o barqueiro do inferno
A banda, quando produziu ‘Caronte”, tinha a seguinte formação: Joe
Vescovi nos teclados, órgão, mellotron,
hammond, William Gray na guitarra,
vocal, Arvid "Wegg" Andersen no baixo e vocal e Pino Sinnone na
bateria.
O álbum começa com “Caronte (Pt. 1)” um espetáculo de hard poderoso com
uma linha de teclados frenéticos, solos viscerais de guitarra, riffs na mesma
escala, uma sonora pedrada.
"Caronte (Pt. 1)
“Two Brothers” tem mais a cara de um progressivo
clássico, com passagens rítmicas, teclados em destaque, uma viagem progressiva
em grande estilo, um espetáculo instrumental e um vocal de grande alcance faz
dessa faixa um clássico.
"Two Brothers" (Live)
“Little Janie” remete a um The Trip mais psicodélico, uma abordagem mais
comercial e acessível que leva a banda aos tempos sessentistas, uma faixa
viajante e linda.
"Little Janie", live in Torino 2018
"L'Ultima ora e Ode a Jimi Hendrix” é uma das faixas mais poderosas do
álbum. Nesta música o The Trip esbanja em sensibilidade, harmonia, lirismo, uma
faixa criativa e que engloba toda a versatilidade da banda: psicodelismo,
progressivo, hard rock, tudo se observa nesta música excelente.
"L'Ultima ora e Ode a Jimi Hendrix", live 2011
“Caronte (Pt. 2)” é o desfecho que segue a linha da faixa inaugural,
muito peso e tecladeira avassaladora e passional. Assim é “Caronte”, um álbum
que abriu as portas do heavy prog na Itália, que foi pioneiro no progressivo
pouco voltado para o sinfônico e mais para a agressividade do hard rock e a
sensibilidade do rock progressivo.
"Caronte (Pt. 2)
Disco atemporal e necessário
para entendermos o que se faz de novo no rock progressivo atualmente na Itália
e no mundo, sobretudo com o que conhecemos hoje como metal progressivo tão em
evidência nos dias de hoje. A linda capa do álbum é uma representação da
ilustração original de Gustave Doré, concebida para somar beleza à fantástica
Divina Comédia de Dante Alighieri.
Em 2021 o The Trip lançou “Caronte
50 Years Later”, em comemoração aos 50 anos de lançamento do espetacular e
original “Caronte”, mas isso é uma outra história...
A banda:
William Gray: guitarra
elétrica e acústica e vocais
Joe Vescovi: órgão Hammond,
piano, órgão sacro, mellotron, arranjos e vocais
Meus amigos, hoje eu estou em um clima mais hard, mais fiquem calmos,
estou em um clima mais hard e progressivo também e desde já falarei de uma
banda seminal, poderosa e se não foi pioneira do hard progressivo, foi àquela
banda que aperfeiçoou o subgênero, sem sombra de dúvida. Falo do grande GURU GURU e de seu freak, louco e poderosíssimo álbum “Hinten" e sua capa no mínimo inusitada, de 1971.
Guru Guru sem dúvida foi uma banda inovadora e apesar de ter bebido da
fonte do krautrock, um filho da cena, foi além do kraut e inseriu mais peso ao
seu som, aliado ao rock progressivo com muita jam section. O miolo do Guru Guru viria
com a reunião de dois amigos, o baterista Mani Neumeier e o baixista Uli Trepte
que se conheceram em 1963 e se juntaram a uma banda de jazz que se chamava Irene
Schweizer Trio, da pianista suíça Irene Schweizer.
Irene Schweizer Trio com o álbum "Jazz Meets India" (1967)
Em 1968 quando
Irene seguiu seu próprio caminho e o Trepte mudou para o baixo o “Guru Guru
Groove” foi formado calcado nas experimentações e improvisações jazzísticas que
aprenderam no passado com a banda da pianista suíça Irene Schweizer mais o
vigor e o peso do rock n’ roll e algumas pirotecnias oriundo da energia do
baterista Mani e o talento de Tepte.
Com o conceito formatado e algumas
mudanças na formação eles se juntaram ao ex-guitarrista do Agitation Free, Ax
Genrich e definiram que essa era a formação ideal para um tipo de apresentação
ao vivo pautado na energia no palco e que Genrich correspondia plenamente e o
nome da banda foi encurtado para Guru Guru.
Guru Guru
Seu primeiro
contrato com uma gravadora já, claro, com o intuito de registrar o seu primeiro
trabalho foi com a gravadora "Ohr" que à época era conhecida por recrutar bandas
e músicos com uma sonoridade de vanguarda, entrando aí a cena krautrock.
E foi assim que
surgiu o debut do Guru Guru chamado
“UFO”, de 1970. O nome do álbum é uma clara alusão a sonoridade incomum da
banda que trazia uma sonoridade selvagem, forte, eloquente, calcada na guitarra
com efeitos eletrônicos arrojados, como pedais de wah wah, tendo a psicodelia como ponto forte e um hard rock intenso
para a época, além da inventividade de Neumeier e do baixista Trepte, além de Ax Genrich, adicionado a banda para tocar guitarra.
"UFO" (1970)
As apresentações ao vivo eram intensas e indulgentes, beirando a agressividade, a potência e a energia
de seus integrantes e tido como uma aberração até mesmo entre os colegas
de outras bandas, aguçavam as manifestações políticas e filosóficas, botando, ainda mais, lenha na fogueira. Os músicos faziam parte da União Socialista Alemã
de Estudantes e fizeram muitos shows nas universidades, divulgando bem “UFO”.
E diante desses
vários shows em universidades, em faculdades e também em eventos estudantis, o
álbum do Guru Guru, o “UFO”, alçou voos, com o perdão da analogia, ganhando
alguma credibilidade e visibilidade. Esse reconhecimento se deu com um convite
que a banda recebeu para tocar no 3º Pop & Blues Festival de Gruga-Halle,
realizado em Essen, na Alemanha, entre os dias 22 e 25 de outubro de 1970. O
Guru Guru tocaria no último dia do festival, 25 de outubro.
Festival de Essen, Alemanha (1970)
Certamente esse foi
o primeiro e mais representativo show do jovem Guru Guru e que traria muita
publicidade para os meninos da banda que tocaria nada menos com bandas do naipe
de Taste, Fotheringay, East Of Eden e Tyrannosaurus Rex no palco principal, no
mesmo dia, mas não no mesmo palco, mas tocaria, em um palco pequeno lateral,
com as bandas alemãs como Frumpy, Embryo. Já era muito!
E essa apresentação
teve um registro e que foi lançada apenas em 2003, pela abnegada gravadora
Garden of Delights, com o título de “Guru Guru – Live at Essen 1970”, cuja resenha pode ser lida aqui.
A banda voltaria para o estúdio para gravar "Hinten", em 1971. A banda neste álbum esteve certamente em seu auge criativo, um total
desprendimento do mainstream que só restringe o músico e as bandas, dando asas
a criatividade, sendo despretensioso em sua sonoridade.
O álbum é o suprassumo do peso, da distorção, da
viagem progressiva, uma referência do estilo, mas que, por outro lado, não
atingiu a credibilidade que merecia. É referência, mesmo desconhecido, pelo
fato de poucos abnegados e apreciadores do prog obscuro conhecerem este e a
toda a discografia do Guru Guru e divulgarem a obra, a obra vive por causa
dessas pessoas, o fã torna a obra uma referência.
“Hinten” teve como engenheiro de som o ícone do kraut Conrad Plank além de ser produzido pela própria banda, mostrando já, mesmo que no início de sua
carreira, a diretriz musical que determinara para a sua história. A banda em
“Hinten” era formado por: Ax Genrich na guitarra e vocal, Uli Trepte no baixo e
vocal e Mani Neumeier na bateria e vocal.
Guru Guru em 1971
Conny Plank
Um power trio que fez desse álbum um petardo instrumental. Ele começa com
a faixa “Electric Junk” uma porrada ao estilo Hendrix de ser, com levadas de
jazz fusion e pitadas de space rock, um som apocalíptico de respeito.
"Electric Junk"
Segue com mais um petardo com “The Meaning Of Meaning” com destaque para
a bateria de Mani e os riffs e solos de guitarra de Ax Genrich. É desolador,
uma pancada sonora digna de abalar qualquer estrutura certinha e enfadonha da
música pop.
"The Meaning of Meaning"
Continua com a excelente e divertida “Bo Diddley” com uma pegada
mais hard do que progressiva, arrebentando tudo que vê pela frente. E fecha com
“Space Ship” com uma tendência mais para o hard e space rock, mas sem a adição
de sintetizador ou teclado, a sonoridade sideral é extraída da guitarra de Ax,
um verdadeiro primor, um talento, uma criatividade exacerbada que mostra uma
banda livre para criar, a liberdade criativa do Guru Guru fez da banda, uma das
mais conhecidas da Alemanha em sua geração.
"Bo Diddley
“Hinten” é um clássico do
hard prog, uma pérola que serviu de influência para bandas como Rush que é tão
clássica quanto o Guru Guru e as mais atuais como Earthless por exemplo. Que
bom ouvir e ver um pouco do Guru Guru nascer e viver em outras bandas. Bandas
como Guru Guru e discos como “Hinten” dignificam e perpetuam o rock
progressivo.
A Islândia é um país pequeno
que fica no norte da Europa. Frio, vulcânico, para muitos não tem bandas de
rock n’ roll, não tem música, não há uma cena. Não está no rol dos grandes
países que “produzem” grandes bandas de rock.
Tem a cantora, compositora, atriz
e produtora “exótica” Björk, que ganhou proeminência e visibilidade no mundo da
música, sendo o único “produto” de exportação que a Islândia entregou. Ah
senhores leitores não é tanto assim. Admitamos que a Islândia não esteja no rol
dos grandes países que tem grandes bandas e uma proeminente cena, mas há uma,
pouco conhecida sim, obscura, rara para alguns e que, graças às redes sociais e
o abnegado trabalho de fãs que divulgaram seu único álbum lançado no longínquo ano
de 1973 a
banda ganhou alguma visibilidade mostrando que a gélida Islândia produzia
música pesada e quente. Falo do Icecross.
Três garotos desbravadores que foram
responsáveis pelo “big bang” do rock islandês que, na escuridão do nada, fez
eclodir, explodir uma música que não existia naquele pequenino país que, em
meados da década de 1970, não era sequer um país conhecido no Velho Mundo.
Então vamos aos nomes dos vanguardistas do rock n’ roll islandês: Axel
Einarsson na guitarra e vocal, Ásgeir Óskarsson na bateria e Ómar Óskarsson no
baixo. Um super power trio que estava nascendo. O baterista Ásgeir e o baixista
Ómar não eram parentes, apesar do sobrenome igual, mas apenas filhos de dois
homens de nome cristão: “Óskar”, onde para um menino é “Óskarsson” e uma menina
“Óskarsdottir”, filha de Óskar.
Icecross
O Icecross foi formado em
1972 e quem a criou foi o guitarrista Axel e o baterista Ásgeir que, por sua
vez, convidou o baixista Ómar, isso em um dia chuvoso no início do ano de 1972.
Todos eles já tinham uma relativa experiência na música e já haviam tocado em
um punhado de bandas que compunha a cena islandesa, então já se conheciam nesse
circuito.
E quando se juntaram colocaram como objetivo fazer música autoral, a
sua própria música, a música que queria fazer, sem amarras. Na época era difícil
prosperar em um país pequeno e pouco conhecido como a Islândia sem tocar
músicas de bandas famosas como The Beatles e The Rolling Stones ou aquelas
músicas comerciais e palatáveis, músicas radiofônicas mesmo, mas aceitaram o
desafio, estavam dispostos a tentar.
Então começaram a tocar, a ensaiar de
forma até exaustiva para edificar o seu som, criar uma identidade juntos. Eram jovens,
mas tinham disposição e algum talento para criar o DNA da nova banda. Naquela
época Ámundi Ámundason, um agente local, que arranjava trabalho e lugares para
algumas bandas tocar, conseguiu descolar alguns lugares, apesar de pequenos e
sem estrutura nenhuma, para o Icecross também tocar. Era o início de tudo.
Um dos primeiros locais que
o Icecross tocou na Islândia foi nas Ilhas Westmann ou na pronúncia em
islandês, Vestmannaeyjar, um pequeno arquipélago ou município na costa sul da
Islândia. Ámundi, para garantir que alguém aparecesse para ver o Icecross
tocar, curiosamente mandava uma stripper, mas, depois de algumas satisfatórias
apresentações a banda começou a conquistar alguns fãs que, a cada show, começou
inclusive a pedir algumas músicas.
Mas a banda observou que se continuasse na
Islândia não iria sair dessa situação, de tocar em pequenos clubes, em boates
sem estrutura e com um público ainda um pouco indiferente aquele som um tanto
quanto revolucionário e pesado para a época.
Então decidiu arrumar as malas e
levar junto os seus sonhos de fama, dinheiro e reconhecimento na bagagem para a
cidade grande de Copenhagen, na Dinamarca. E foram com a cara e a coragem, sem
pestanejar. A banda viajou da Islândia para a Dinamarca com um velho carro, o "Dodge
Weapon Cariol", um velho veículo militar do Exército dos Estados Unidos,
correndo todos os riscos que o sonho pode oferecer.
Icecross e o seu velho "Dodge Weapon Cariol"
Quando chegaram em Copenhagen,
no outono de 1972, se instalaram em um em distrito verde chamado Christiania
que é conhecida por permitir a venda da maconha e também por ser muito
arborizada, um lugar alternativo com lojinhas de artesanato, restaurantes
orgânicos etc.
Logo perceberam que era o lugar ideal para as suas posturas
hippies, de liberdade, de um mundo melhor, de paz, primordialmente. Logo
descobriram um clube chamado pelo sugestivo nome de “Clube Revolution” para
tocar.
Era o lugar ideal! Um lugar que acreditavam poder chamar a atenção do
público para a sua música igualmente revolucionária e nova. E tão logo
começaram a tocar já chamaram a atenção, deixando os jovens, ávidos por
subversão, boquiabertos.
E o mais legal é que, quando o Icecross terminava de
tocar, se misturavam ao público para beber umas cervejas e aproveitar para
fazer a divulgação da banda e do que eles se propunham a fazer com a sua
música, além, é claro de fumar uns cigarros, afinal, eram tempos de drogas e
rock n’ roll, eram todos jovens!
Após vários shows, estavam muito afinados, em
plena sinergia e o próximo passo era gravar um álbum, precisavam registrar esse
momento! Não tinham grana para sequer alugar o estúdio por um dia sequer para concretizar
esse sonho. Contaram com a ajuda financeira de alguns amigos para financiar a
gravação.
Então, quando conseguiram levantar o dinheiro, entraram no Rosenberg
Studio, em Copenhagen, para o tão sonhado momento de gravar um trabalho autoral
e com o engenheiro de som Tommy Seebach, que tocou inclusive teclado em algumas
faixas, ajudou os meninos do Icecross gravar “Icecross”, em 1973.
Foram prensadas apenas 1.000
cópias do álbum e vendidos exclusivamente na Islândia, por isso
atualmente esse disco é muito valorizado entre colecionadores pelo fato de ser
extremamente raro, sendo muito caro, se encontrado em suas várias versões ou
relançamentos.
Mas a realidade é que a banda, apesar de buscar fama e
reconhecimento pelo seu trabalho, viajou para um país desconhecido, e decidiram mesmo conquistar seu espaço e voltar para a sua terra natal, a Islândia,
mas nem tudo é um mar de rosas, os sonhos não foram realizados, mas pelo menos construíram
um único, mas poderoso álbum do mais puro e genuíno hard rock típico dos anos
1970.
E assim é o álbum: pesado, puro e simples! Um hard rock com uma atmosfera
sombria, dark, bem obscura, um álbum que pode ser mensurado pelo propósito mais
verdadeiro do que esses jovens islandeses queriam fazer desde o início da
formação da banda: algo autoral, poderoso, deixando fluir o que eles amavam, a
sua criatividade em estado bruto.
Então vamos ao álbum! Começa com “Solution”
que já mostra o cartão de visitas da banda: bateria poderosa, esmurrada, mas
com alguma virtuosidade, solos gritantes e rasgados de guitarra e um baixão
pulsante, até que entra o vocal melódico e limpo, um som pesado e bem executado
com a guitarra e a bateria no auge do poder.
"Solution"
“A Sad Man's Story” tira um
pouco o pé do freio. Uma balada meio melancólica, meio psicodélica, quase
acústica, o piano delicadamente tocado, uma faixa viajante e linda, mostrando
que a banda é extremamente versátil, que vai do peso as baladas em um estalar de
dedos e com enorme competência.
"A Sad Man's Story"
“Jesus Freaks” retorna ao
peso e com ele a pancadaria generalizada da bateria e com os riffs pesados de
guitarra que logo irrompem em alguns solos poderosos, curtos e grossos. Um
vocal desleixado e ameaçador aparece logo, lembrando um proto punk, um punk
vanguardista bem interessante. Uma música diria subversiva e arrogante.
"Jesus Freaks"
“Wandering Around” traz uma
curiosa introdução meio country, algo dançante e até solar, fugindo aos padrões
do álbum e, mais uma vez o destaque fica para a bateria e a guitarra que, em
uma simbiose plena, dá vida a música.
"Wandering Around"
“1999” começa densa,
arrastada, sombria, pesada, uma atmosfera tormentosa toma conta da música e faz
dela algo ameaçadora, perigosa, um senhor hardão, um senhor petardo, o momento,
o ápice de um álbum excelente está sintetizada nesta que é uma das melhores
faixas do mesmo.
"1999"
“Scared” segue com a
sequência avassaladora da faixa anterior: pesada e poderosa! O desfile dos
instrumentistas é o destaque da faixa. É como costumo dizer que é uma música de
banda, ou seja, todos tem destaque em iguais condições, sem contar com o belo
vocal que, mesmo melódico e limpo, se encaixa perfeitamente ao momento rude dos
instrumentos.
"Scared"
Segue com “Nightmare” que
traz um proto metal avassalador. Traz algumas típicas características da
vertente que só ganharia o mundo no início dos anos 198º, tais como:
velocidade, peso e um vocal mais rasgado e agudo. É a tal música avant garde,
música de vanguarda.
"Nightmare"
E fecha com a faixa “The End”
que traz a presença dos teclados na sua introdução. Uma pegada mais comercial,
mais psicodélica, uma veia mais beat, mas que, gradativamente, vai ficando mais
agressiva, mais pesada e assim vai alternando, entre o peso e a pegada mais
psicodélica, um som cheio de alternâncias rítmicas.
Icecross - "The End"
Logo após o lançamento do
álbum o Icecross ainda fez alguns shows permanecendo um ano na Dinamarca, com
Ásgeir e Ómar deixando o barco em 1973 para formar a banda Ástarkveðja. O
Icecross se mudou para os Estados Unidos em 1974 com Shady Owens e Axel
Einarsson como membros permanentes, mas se separaram em 1975.
Axel Einarsson fez
seu único álbum solo em 1976 chamado “Called it Acting Like a Fool”. Mais
tarde, ele se juntou a uma banda chamada Deildarbúngubræður. Lançaram dois álbuns: “Saga
til næsta bæjar” e “Enn á jörðinni”.
Por ser carpinteiro qualificado também
trabalhou como tal durante sua estada nos Estados Unidos. Por muitos anos ele
dirige um estúdio profissional chamado “Stöðin” que publica CDs e DVDs com música
direcionada ao público infantil e morreu recentemente, em setembro de 2020.
Ásgeir Óskarsson é um dos
bateristas mais respeitados da Islândia. Seu trabalho pode ser encontrado em
mais de 300 álbuns. Gravou cerca de três álbuns solos.
Ómar Óskarsson tocou em
várias bandas após o fim do Icecross. Ele mudou de vida e se juntou à uma banda
na igreja que frequenta e dirige sua empresa que produz materiais para
consertar tetos com vazamentos.
Uma pérola rara, obscura que
vem ganhando vida, ressuscitando graças o advento das tecnologias da
informação, sendo difundida e compartilhada pelos ávidos garimpeiros da boa
música, pelos abnegados fãs de música que divulgam pela grande rede a música do
Icecross que parece viver em uma atemporalidade, resistindo ao tempo, forte,
cristalina e eterna.
O After All poderia ser só
mais uma banda que pereceu precocemente sendo esquecida e relegada, excluída de
nossas pretensões de audição ou ser meramente um “produto”, uma edição de
colecionador, aquela para compor o catálogo de vinis de algum audiófilo espalhado
pelo mundo. Todavia não encaro por esse prisma. Em meus garimpos em busca de
novas bandas antigas vilipendiadas pelo público e pelo tempo, descobri
recentemente a banda americana After All e ávido por descobrir mais e mais
sobre o rock progressivo norte americano essa banda se deparou diante dos meus
olhos de uma forma tão ocasional que, ao ouvi-la fui tomado por um
arrebatamento que me pergunto, como sempre, e de uma forma veemente, como que
uma banda como o After All não tem o seu devido crédito, não tem o seu devido
lugar de destaque e pioneirismo na história do prog rock da terra do Tio Sam?
Digo pioneirismo não pelo fato cronológico, pois o seu único álbum, lançado no
longínquo ano de 1969, mas também pela sua vanguardista sonoridade que, na transição
da década de 1960 para a de 1970, já se desenhava um progressivo embrionário
com aquela pegada psicodélica, lisérgica, típica, é claro, daquele ano, tempos
áureos do referido estilo, com o Woodstock ditando o ritmo e o comportamento
também. Sim, caros e dignos leitores, o After All, diante de sua magnânima
obscuridade, pode ser considerada como uma das pioneiras do rock progressivo norte
americano! A banda que foi o pilar, o sustentáculo para a edificação de um
estilo que entregou grandes bandas, apesar de sua maioria pouco conhecidas,
mais prolíficas e que não lhe deram o crédito, apesar de fugaz e circunstancial
para muitos. Finalmente as mídias sociais e a tecnologia da informação fez jus
a essa banda e fez com que eu a descobrisse e que esteja me estimulando a
redigir algumas linhas sobre a sua história obscura. Os quatro integrantes que
compuseram o After All eram amigos e conhecidos, experientes no circuito de
rock de Tallahassee, Flórida e juntos aprimoraram, ainda mais, as suas
habilidades. São eles: Bill Moon nos vocais e baixo, Charlie short na guitarra,
Alan Gold nos teclados e Mark Ellerbee na bateria e vocais.
After All
E isso se nota, nobres
amigos leitores, nos arranjos, na melodia das músicas deste único álbum lançado
pelo After All. Essa experiência pesou e muito na qualidade de sua música que,
logo no seu debut, está belissimamente em evidência aos ouvidos e alma de quem
faz uma audição de peito e mente abertas. Um álbum híbrido, como era naquelas
épocas de experimentação e inquietude criativa, com levadas jazzísticas, de
proto prog, de rock psicodélico, de lirismo, delicadeza, elegância...Uma mescla
sonora que é digna de audição realmente. Mas, apesar de o After All ter um
combo de quatro excelentes músicos não podemos negligenciar a história de uma
poetisa, de uma cantora que esteve por trás desse músico que, apesar de ter
sido de forma discreta foi imprescindível para a concepção desse álbum de 1969
da banda. Falo de Linda Hargrove. Linda, nascida também em Tallahassee, na
Flórida, em 3 de fevereiro de 1949 foi uma cantora, compositora e poetisa e se
aventurou com sucesso na música country norte americana. Ela escreveu muitas
músicas de sucesso para muitas bandas e cantores de sucesso do estilo e teve
uma grande visibilidade na década de 1970. Linda era conhecida como "The
Blue Jean Country Queen", pois se apresentava em seus shows de jeans e sem
aquela maquiagem elaborada que outras cantoras country usavam.
Linda Hargrove
Linda Hargrove, então apenas
com vinte anos de idade, se juntou com o After All e ofereceu a eles vários de
seus poemas e os caras gostaram no ato! Ela tinha uma capacidade inventiva de
criar, elaborar seus poemas para serem cantadas por homens, para homens, ela
tinha uma incrível capacidade para adentrar a mente masculina. Era isso que
muitos dos músicos de sua geração e que teve, de alguma forma, contato com ela,
diziam a seu respeito. Mas não foi apenas a sua capacidade de criação de poemas
que fez com que o After All se juntar com a jovem e talentosa Linda. Ela, à
época, já estava construindo uma bela reputação na cena local de Tallahassee e
tinha sido membro de uma banda dessa região chamada “The Other Side”, em 1967 e
gravou inclusive, neste mesmo ano, um álbum com uma veia meio folk rock.
Álbum da banda "The Other Side" com Linda Hargrove
Mas Linda também encontrou
no After All um grande parceiro, o baterista e vocalista Mark Ellerbee que
praticamente compôs todas as músicas do álbum. E essa harmonização sonora entre
Ellerbee e Hargrove foi sensacional! Essa parceria trouxe a banda, às suas
músicas uma textura complexa, com uma atmosfera surreal, diria até sombria e
contemplativa graças também a já dita experiência dos músicos que fez com que
aflorasse nas músicas toda essa complexidade: jazz, rock, psicodélico, progressivo
de vanguarda, folk. Uma verdadeira miscelânea que fez do After All importante
para a sua cena, ou melhor, foi um verdadeiro desbravador do estilo em seu
país. E essa experiência aliada a alguma reputação que criaram surtiu também
alguns relacionamentos, aproximações com alguma pessoas, do mundo da música,
que os ajudaram na caminhada para o lançamento do seu tão esperado novo
trabalho. Os caras conheciam um produtor de Nashville e este estava disposto a
gravar um material específico, algo diferente, novo com a banda e melhor: sem
nenhum custo adicional por isso, desde que fizesse a gravação desse trabalho
rapidamente para não extrapolar nos custos. Então o After All entrou em estúdio
no ano de 1969 e gravaram, em poucos dias, “After All”. O lançamento se deu
pela Athena Records em poucas cópias, tendo uma tímida e contida venda
consequentemente.
Então vamos finalmente as
notáveis e surreais músicas desse clássico obscuro. Comecemos com “Intangible
She” faz jus ao nome, tão lisérgica que parece nos fazer sair do chão, algo
intangível, mas que rompe a nossa alma de forma tão avassaladora que as vezes
não temos palavras para descrever. Mas o início da música tem uma levada
jazzística capitaneada pela bateria e um órgão envenenado e poderoso e que logo
surge um vocal imperioso e grave chapante, que te faz viajar maravilhosamente.
A psicodelia e o progressivo, ainda lactente, flertam cosmicamente, lindamente.
Pura vanguarda! E o que dizer do solo de guitarra direto e muito bem executado?
Que começo!
After All - "Intangible She"
“Blue Satin” traz um tom melancólico, isso é perceptível no vocal. Os
instrumentos acompanham essa atmosfera soturna, e mediando isso temos aquela “vibe”
jazzy também e que traz o lado mais solar à música e que de “quebra” entrega
alguns solos curtos e lisérgicos de guitarra, mas o destaque fica realmente
para a “cozinha” da banda. A sinergia entre o baixo e a bateria traz esse
tempero mais jazz da música. “Blue Satin” conta a história de um cara que foi
longe demais com uma garota. Em sua mente, ela cresceu e se tornou uma mulher,
mas apenas em sua mente. Mais tarde, ele chora pelo que fez e como a amou “de
sua maneira mesquinha e egoísta”, mas é tarde demais.
After All - "Blue Satin"
“Nothing Left To Do”
introduz suavemente, um lindo e discreto piano traz o pano de fundo para um
vocal limpo, mas cantado quase que de forma sussurrada e assim permanece até a
aurora de uma bateria, mais uma vez, jazzística, envolta em um clima
psicodélico, sendo adicionada por surtos de guitarra com solos curtos e diretos
e aos poucos vai aumentando o tom, a música vai ganhando vida e irrompe em uma
hecatombe de instrumentos e um vocal agora alto e rasgado, cantado de forma
raivosa, diria. Mas logo volta a introspecção. Isso é um exemplo de música
progressiva: cheia de contrastes sonoros, alternâncias rítmicas. Excelente!
After All - "Nothing Left To Do"
“And I Will Follow” traz uma
proposta lenta e viajante e o vocal se faz, mais uma vez, em pleno destaque. A
faixa me remete a algo inteiramente psicodélico, algo do seu tempo e os
teclados chapantes dão o tom da música, sem dúvida alguma. “Let It Fly”, por
outro lado, é a antítese da faixa anterior, tem um balanço, um groove e a
levada dos riffs da guitarra entrega isso plenamente. Essa faixa é o exemplo
crucial das habilidades da banda e da sua capacidade de flertar com muitas
vertentes sem pestanejar e deixar quaisquer dúvidas quanto ao talento desses
músicos.
After All - "And I Will Follow"
After All - "Let It Fly"
“Now What Are You Looking
For?” talvez sintetize com fidelidade, diria, a minha percepção em relação ao
prog rock de vanguarda deste álbum do After All. Uma música cheia de
vivacidade, poderosa, complexa e o teclado tem o protagonismo nessa faixa. “A
Face That Doesn't Matter” segue a mesma proposta da faixa anterior trazendo
aquele clima meio sinistro e sombrio, em tom meio profético que nos faz lembrar
The Doors, por exemplo. A faixa remete ao beat dos anos 1960, até bem dançante,
contrastando com o clima meio pessimista antes analisado.
After All - "A Face That Doesn't Matter"
E fecha com a faixa “Waiting”
que privilegia o belo trabalho de vocalização, entregando, mais uma vez, uma
música lisérgica, lembrando os belos trabalhos psicodélicos de bandas como Vanilla
Fudge, por exemplo, outro baluarte da música norte americana. O salutar duelo
entre guitarra e teclado traz um contexto variado a música e a bateria entrega
um desfecho jazzístico a música. Fechando em grande estilo. Após o lançamento
do álbum, a banda se separou e seguiu caminhos separados, cada um com sua
carreira, mas localmente, retornando para Flórida, embora continuassem amigos.
Já Linda Hargrove, após ter seguido com a banda para Nashville para gravar o
álbum, ficou por lá e decidiu enveredar a sua carreira no mundo do country
music e depois de ter gravado um álbum obscuro foi apresentado ao ex- Monkee
Mike Nesmith que a contratou para o seu selo country. Sua carreira parecia
estar em franca ascensão quando foi diagnosticada com leucemia. Hargrove conseguiu
se recuperar e retomar a sua carreira. Morreu em outubro de 2010. O álbum “After
All” teve um renascimento em 2000-2001, quando foi relançado pelo selo “Gear
Fab”. Graças a esse relançamento esse clássico obscuro e raro pode ser ouvido
pelo máximo número de pessoas possível. E assim que tem de ser: boa música,
independente de ser ou não de bandas consagradas, precisam ganhar luz e
impactar, de forma avassaladora as mentes, os ouvidos e a alma de um bom
audiófilo. E assim é o After All e seu único e nada fugaz álbum. Uma pérola!