terça-feira, 28 de dezembro de 2021

The Trip - Caronte (1971)

 


Mais uma vez a Itália se revela majestosa e prolífica quando se fala em rock progressivo. Sua história é irretocável, baseado no primor e na galhardia de suas bandas que escreveram e ainda escrevem, pois grande parte delas ainda está a pleno vigor de suas forças e criatividades, histórias espetaculares e que ainda faz deste país um dos grandes representantes da cena que a cada dia se faz presente e forte com as clássicas bandas e as novas safras que certamente perpetuarão o rock progressivo da velha Itália. 

E a minha dica de hoje é conhecida de todos os apreciadores da boa música progressiva e que com sua sonoridade atemporal e arrojada honrou o clássico e que serve de referência para os tempos contemporâneos. Falo do THE TRIP e seu álbum mais conhecido, o seu melhor trabalho para muitos: “Caronte”, de 1971.

The Trip com “Caronte” flerta com os primórdios do rock progressivo na Itália e ao mesmo tempo se faz perceber a sua sonoridade na nova safra de bandas progressivas na Itália, sobretudo aquelas que primam pelo peso e qualidade na melodia e harmonia. Sim, é possível aliar peso, agressividade e melodia e harmonia com sensibilidade.


Assim é o The Trip com o seu espetacular “Caronte”. E como não posso deixar de falar de um pouco de história para acrescentar ao tempero sonoro, vamos a ela. The Trip foi uma das primeiras bandas italianas de rock progressivo, embora tenha se formado na Inglaterra. Na verdade, se tratavam de músicos ingleses que foram tentar a sorte na Itália em uma época em que beat italiano estava em franca ascendência. 

Isso era meados da década de 1960. Era a psicodelia, era o beat pop que estava em voga na Itália e lá foram eles em busca do sucesso. O The Trip viajou para a Itália e logo serviu de banda de apoio para um cantor de beat-pop chamado Ricky Maiocchi.

Nessa época o guitarrista era um rapaz novo e desconhecido, um tal de Ritchie Blackmore. Blackmore, em 1966, foi para a Itália tentar ganhar a vida como músico, dada também a efervescência daquele país, juntamente com o Maiocchi, que era vocalista de uma banda chamada The Chameleons e lá ficou por poucos meses, entre setembro e dezembro.


O pouco tempo que ficou se deu por conta das incertezas com o seu futuro, pois o show que fazia com o The Trip não estava rendendo dinheiro, o público parecia não apreciar o som da banda, voltado para o psicodélico mais experimental, e os proprietários das casas de shows pagavam muito mal, gerando o retorno precoce do futuro fundador do Deep Purple à Inglaterra. 

Mas em 1969, quando Joe Vescovi foi recrutado, logo assumiu a liderança da banda e começou a trabalhar com a influência de bandas como Vanilla Fudgie, ou seja, um psicodélico, com um progressivo de vanguarda com pitadas de hard rock. Em 1970 gravou seu primeiro álbum, “The Trip” e aqui você pode ler a resenha que fiz sobre este belo álbum, com essa proposta, uma abordagem psicodélica, um acid rock, com um progressivo ainda pouco executado, embrionário.

"The Trip", de 1970

Mas em 1971, veio “Caronte”. Um misto de hard rock elétrico e vigoroso com um progressivo com levadas clássicas com influências de Emerson, Lake & Palmer, como muitas bandas italianas que surgiam no início da década de 70, mas com aquela pegada ao estilo Vanilla Fudge, graças ao grande Vescovi. 

Foi uma guinada espetacular na história do The Trip. “Caronte” foi inspiração do personagem “Charon, o barqueiro do inferno”, de Dante Alighieri, da “Divina Compédia” e constrói uma espécie de metáfora ao conformismo, a uma sociedade conformista, baseada em estruturas frívolas e destrutivas na consumo, na autodestruição, entre outros. Inclusive há faixas mencionando músicos como Janis Joplin e Jimi Hendrix, que, ao olhar da banda, retrata esse conceito de “Caronte”.

Charon, o barqueiro do inferno

A banda, quando produziu ‘Caronte”, tinha a seguinte formação: Joe Vescovi  nos teclados, órgão, mellotron, hammond, William Gray  na guitarra, vocal, Arvid "Wegg" Andersen no baixo e vocal e Pino Sinnone na bateria.


O álbum começa com “Caronte (Pt. 1)” um espetáculo de hard poderoso com uma linha de teclados frenéticos, solos viscerais de guitarra, riffs na mesma escala, uma sonora pedrada. 

"Caronte (Pt. 1)

“Two Brothers” tem mais a cara de um progressivo clássico, com passagens rítmicas, teclados em destaque, uma viagem progressiva em grande estilo, um espetáculo instrumental e um vocal de grande alcance faz dessa faixa um clássico.

"Two Brothers" (Live)

“Little Janie” remete a um The Trip mais psicodélico, uma abordagem mais comercial e acessível que leva a banda aos tempos sessentistas, uma faixa viajante e linda.

"Little Janie", live in Torino 2018

"L'Ultima ora e Ode a Jimi Hendrix” é uma das faixas mais poderosas do álbum. Nesta música o The Trip esbanja em sensibilidade, harmonia, lirismo, uma faixa criativa e que engloba toda a versatilidade da banda: psicodelismo, progressivo, hard rock, tudo se observa nesta música excelente.

"L'Ultima ora e Ode a Jimi Hendrix", live 2011

“Caronte (Pt. 2)” é o desfecho que segue a linha da faixa inaugural, muito peso e tecladeira avassaladora e passional. Assim é “Caronte”, um álbum que abriu as portas do heavy prog na Itália, que foi pioneiro no progressivo pouco voltado para o sinfônico e mais para a agressividade do hard rock e a sensibilidade do rock progressivo.

"Caronte (Pt. 2)

Disco atemporal e necessário para entendermos o que se faz de novo no rock progressivo atualmente na Itália e no mundo, sobretudo com o que conhecemos hoje como metal progressivo tão em evidência nos dias de hoje. A linda capa do álbum é uma representação da ilustração original de Gustave Doré, concebida para somar beleza à fantástica Divina Comédia de Dante Alighieri. 

Em 2021 o The Trip lançou “Caronte 50 Years Later”, em comemoração aos 50 anos de lançamento do espetacular e original “Caronte”, mas isso é uma outra história...



A banda:

William Gray: guitarra elétrica e acústica e vocais

Joe Vescovi: órgão Hammond, piano, órgão sacro, mellotron, arranjos e vocais

 Arvid "WEGG" Andersen: baixo e vocais principais

 Pino Sinnone: bateria


Faixas:

1 - Caronte pt 1

2 - Two Brothers

3 - Little Janie

4 - L'Ultima Ora e Ode a J. Hendrix

5 - Caronte pt 2



"Caronte" (1971)

 

















sábado, 25 de dezembro de 2021

Guru Guru - Hinten (1971)

 


Meus amigos, hoje eu estou em um clima mais hard, mais fiquem calmos, estou em um clima mais hard e progressivo também e desde já falarei de uma banda seminal, poderosa e se não foi pioneira do hard progressivo, foi àquela banda que aperfeiçoou o subgênero, sem sombra de dúvida. Falo do grande GURU GURU e de seu freak, louco e poderosíssimo álbum “Hinten" e sua capa no mínimo inusitada, de 1971. 


Guru Guru sem dúvida foi uma banda inovadora e apesar de ter bebido da fonte do krautrock, um filho da cena, foi além do kraut e inseriu mais peso ao seu som, aliado ao rock progressivo com muita jam sectionO miolo do Guru Guru viria com a reunião de dois amigos, o baterista Mani Neumeier e o baixista Uli Trepte que se conheceram em 1963 e se juntaram a uma banda de jazz que se chamava Irene Schweizer Trio, da pianista suíça Irene Schweizer.


Irene Schweizer Trio com o álbum "Jazz Meets India" (1967)

Em 1968 quando Irene seguiu seu próprio caminho e o Trepte mudou para o baixo o “Guru Guru Groove” foi formado calcado nas experimentações e improvisações jazzísticas que aprenderam no passado com a banda da pianista suíça Irene Schweizer mais o vigor e o peso do rock n’ roll e algumas pirotecnias oriundo da energia do baterista Mani e o talento de Tepte.

Com o conceito formatado e algumas mudanças na formação eles se juntaram ao ex-guitarrista do Agitation Free, Ax Genrich e definiram que essa era a formação ideal para um tipo de apresentação ao vivo pautado na energia no palco e que Genrich correspondia plenamente e o nome da banda foi encurtado para Guru Guru.

Guru Guru

Seu primeiro contrato com uma gravadora já, claro, com o intuito de registrar o seu primeiro trabalho foi com a gravadora "Ohr" que à época era conhecida por recrutar bandas e músicos com uma sonoridade de vanguarda, entrando aí a cena krautrock.

E foi assim que surgiu o debut do Guru Guru chamado “UFO”, de 1970. O nome do álbum é uma clara alusão a sonoridade incomum da banda que trazia uma sonoridade selvagem, forte, eloquente, calcada na guitarra com efeitos eletrônicos arrojados, como pedais de wah wah, tendo a psicodelia como ponto forte e um hard rock intenso para a época, além da inventividade de Neumeier e do baixista Trepte, além de Ax Genrich, adicionado a banda para tocar guitarra.

"UFO" (1970)

As apresentações ao vivo eram intensas e indulgentes, beirando a agressividade, a potência e a energia de seus integrantes e tido como uma aberração até mesmo entre os colegas de outras bandas, aguçavam as manifestações políticas e filosóficas, botando, ainda mais, lenha na fogueira. Os músicos faziam parte da União Socialista Alemã de Estudantes e fizeram muitos shows nas universidades, divulgando bem “UFO”.

E diante desses vários shows em universidades, em faculdades e também em eventos estudantis, o álbum do Guru Guru, o “UFO”, alçou voos, com o perdão da analogia, ganhando alguma credibilidade e visibilidade. Esse reconhecimento se deu com um convite que a banda recebeu para tocar no 3º Pop & Blues Festival de Gruga-Halle, realizado em Essen, na Alemanha, entre os dias 22 e 25 de outubro de 1970. O Guru Guru tocaria no último dia do festival, 25 de outubro.


Festival de Essen, Alemanha (1970)

Certamente esse foi o primeiro e mais representativo show do jovem Guru Guru e que traria muita publicidade para os meninos da banda que tocaria nada menos com bandas do naipe de Taste, Fotheringay, East Of Eden e Tyrannosaurus Rex no palco principal, no mesmo dia, mas não no mesmo palco, mas tocaria, em um palco pequeno lateral, com as bandas alemãs como Frumpy, Embryo. Já era muito! 

E essa apresentação teve um registro e que foi lançada apenas em 2003, pela abnegada gravadora Garden of Delights, com o título de “Guru Guru – Live at Essen 1970”, cuja resenha pode ser lida aqui.

A banda voltaria para o estúdio para gravar "Hinten", em 1971. A banda neste álbum esteve certamente em seu auge criativo, um total desprendimento do mainstream que só restringe o músico e as bandas, dando asas a criatividade, sendo despretensioso em sua sonoridade. 

O álbum é o suprassumo do peso, da distorção, da viagem progressiva, uma referência do estilo, mas que, por outro lado, não atingiu a credibilidade que merecia. É referência, mesmo desconhecido, pelo fato de poucos abnegados e apreciadores do prog obscuro conhecerem este e a toda a discografia do Guru Guru e divulgarem a obra, a obra vive por causa dessas pessoas, o fã torna a obra uma referência.

“Hinten” teve como engenheiro de som o ícone do kraut Conrad Plank além de ser produzido pela própria banda, mostrando já, mesmo que no início de sua carreira, a diretriz musical que determinara para a sua história. A banda em “Hinten” era formado por: Ax Genrich na guitarra e vocal, Uli Trepte no baixo e vocal e Mani Neumeier na bateria e vocal.

Guru Guru em 1971

Conny Plank

Um power trio que fez desse álbum um petardo instrumental. Ele começa com a faixa “Electric Junk” uma porrada ao estilo Hendrix de ser, com levadas de jazz fusion e pitadas de space rock, um som apocalíptico de respeito.

"Electric Junk" 

Segue com mais um petardo com “The Meaning Of Meaning” com destaque para a bateria de Mani e os riffs e solos de guitarra de Ax Genrich. É desolador, uma pancada sonora digna de abalar qualquer estrutura certinha e enfadonha da música pop. 

"The Meaning of Meaning"

Continua com a excelente e divertida “Bo Diddley” com uma pegada mais hard do que progressiva, arrebentando tudo que vê pela frente. E fecha com “Space Ship” com uma tendência mais para o hard e space rock, mas sem a adição de sintetizador ou teclado, a sonoridade sideral é extraída da guitarra de Ax, um verdadeiro primor, um talento, uma criatividade exacerbada que mostra uma banda livre para criar, a liberdade criativa do Guru Guru fez da banda, uma das mais conhecidas da Alemanha em sua geração.

"Bo Diddley

“Hinten” é um clássico do hard prog, uma pérola que serviu de influência para bandas como Rush que é tão clássica quanto o Guru Guru e as mais atuais como Earthless por exemplo. Que bom ouvir e ver um pouco do Guru Guru nascer e viver em outras bandas. Bandas como Guru Guru e discos como “Hinten” dignificam e perpetuam o rock progressivo.



A banda:

Ax Genrich na guitarra e vocal

Uli Trepte no baixo e vocal

Mani Neumeier na bateria e vocal


Faixas:

1 - Electric Junk

2 - The Meaning Of Meaning

3 - Bo Diddley

4 - Space Ship











 



domingo, 27 de setembro de 2020

Icecross - Icecross (1973)

 

A Islândia é um país pequeno que fica no norte da Europa. Frio, vulcânico, para muitos não tem bandas de rock n’ roll, não tem música, não há uma cena. Não está no rol dos grandes países que “produzem” grandes bandas de rock. 

Tem a cantora, compositora, atriz e produtora “exótica” Björk, que ganhou proeminência e visibilidade no mundo da música, sendo o único “produto” de exportação que a Islândia entregou. Ah senhores leitores não é tanto assim. Admitamos que a Islândia não esteja no rol dos grandes países que tem grandes bandas e uma proeminente cena, mas há uma, pouco conhecida sim, obscura, rara para alguns e que, graças às redes sociais e o abnegado trabalho de fãs que divulgaram seu único álbum lançado no longínquo ano de 1973 a banda ganhou alguma visibilidade mostrando que a gélida Islândia produzia música pesada e quente. Falo do Icecross. 

Três garotos desbravadores que foram responsáveis pelo “big bang” do rock islandês que, na escuridão do nada, fez eclodir, explodir uma música que não existia naquele pequenino país que, em meados da década de 1970, não era sequer um país conhecido no Velho Mundo. 

Então vamos aos nomes dos vanguardistas do rock n’ roll islandês: Axel Einarsson na guitarra e vocal, Ásgeir Óskarsson na bateria e Ómar Óskarsson no baixo. Um super power trio que estava nascendo. O baterista Ásgeir e o baixista Ómar não eram parentes, apesar do sobrenome igual, mas apenas filhos de dois homens de nome cristão: “Óskar”, onde para um menino é “Óskarsson” e uma menina “Óskarsdottir”, filha de Óskar.

Icecross

O Icecross foi formado em 1972 e quem a criou foi o guitarrista Axel e o baterista Ásgeir que, por sua vez, convidou o baixista Ómar, isso em um dia chuvoso no início do ano de 1972. Todos eles já tinham uma relativa experiência na música e já haviam tocado em um punhado de bandas que compunha a cena islandesa, então já se conheciam nesse circuito. 

E quando se juntaram colocaram como objetivo fazer música autoral, a sua própria música, a música que queria fazer, sem amarras. Na época era difícil prosperar em um país pequeno e pouco conhecido como a Islândia sem tocar músicas de bandas famosas como The Beatles e The Rolling Stones ou aquelas músicas comerciais e palatáveis, músicas radiofônicas mesmo, mas aceitaram o desafio, estavam dispostos a tentar. 

Então começaram a tocar, a ensaiar de forma até exaustiva para edificar o seu som, criar uma identidade juntos. Eram jovens, mas tinham disposição e algum talento para criar o DNA da nova banda. Naquela época Ámundi Ámundason, um agente local, que arranjava trabalho e lugares para algumas bandas tocar, conseguiu descolar alguns lugares, apesar de pequenos e sem estrutura nenhuma, para o Icecross também tocar. Era o início de tudo.

Um dos primeiros locais que o Icecross tocou na Islândia foi nas Ilhas Westmann ou na pronúncia em islandês, Vestmannaeyjar, um pequeno arquipélago ou município na costa sul da Islândia. Ámundi, para garantir que alguém aparecesse para ver o Icecross tocar, curiosamente mandava uma stripper, mas, depois de algumas satisfatórias apresentações a banda começou a conquistar alguns fãs que, a cada show, começou inclusive a pedir algumas músicas. 

Mas a banda observou que se continuasse na Islândia não iria sair dessa situação, de tocar em pequenos clubes, em boates sem estrutura e com um público ainda um pouco indiferente aquele som um tanto quanto revolucionário e pesado para a época. 

Então decidiu arrumar as malas e levar junto os seus sonhos de fama, dinheiro e reconhecimento na bagagem para a cidade grande de Copenhagen, na Dinamarca. E foram com a cara e a coragem, sem pestanejar. A banda viajou da Islândia para a Dinamarca com um velho carro, o "Dodge Weapon Cariol", um velho veículo militar do Exército dos Estados Unidos, correndo todos os riscos que o sonho pode oferecer.

Icecross e o seu velho "Dodge Weapon Cariol"

Quando chegaram em Copenhagen, no outono de 1972, se instalaram em um em distrito verde chamado Christiania que é conhecida por permitir a venda da maconha e também por ser muito arborizada, um lugar alternativo com lojinhas de artesanato, restaurantes orgânicos etc. 

Logo perceberam que era o lugar ideal para as suas posturas hippies, de liberdade, de um mundo melhor, de paz, primordialmente. Logo descobriram um clube chamado pelo sugestivo nome de “Clube Revolution” para tocar. 

Era o lugar ideal! Um lugar que acreditavam poder chamar a atenção do público para a sua música igualmente revolucionária e nova. E tão logo começaram a tocar já chamaram a atenção, deixando os jovens, ávidos por subversão, boquiabertos. 

E o mais legal é que, quando o Icecross terminava de tocar, se misturavam ao público para beber umas cervejas e aproveitar para fazer a divulgação da banda e do que eles se propunham a fazer com a sua música, além, é claro de fumar uns cigarros, afinal, eram tempos de drogas e rock n’ roll, eram todos jovens! 

Após vários shows, estavam muito afinados, em plena sinergia e o próximo passo era gravar um álbum, precisavam registrar esse momento! Não tinham grana para sequer alugar o estúdio por um dia sequer para concretizar esse sonho. Contaram com a ajuda financeira de alguns amigos para financiar a gravação. 

Então, quando conseguiram levantar o dinheiro, entraram no Rosenberg Studio, em Copenhagen, para o tão sonhado momento de gravar um trabalho autoral e com o engenheiro de som Tommy Seebach, que tocou inclusive teclado em algumas faixas, ajudou os meninos do Icecross gravar “Icecross”, em 1973.

Foram prensadas apenas 1.000 cópias do álbum e vendidos exclusivamente na Islândia, por isso atualmente esse disco é muito valorizado entre colecionadores pelo fato de ser extremamente raro, sendo muito caro, se encontrado em suas várias versões ou relançamentos. 

Mas a realidade é que a banda, apesar de buscar fama e reconhecimento pelo seu trabalho, viajou para um país desconhecido, e decidiram mesmo conquistar seu espaço e voltar para a sua terra natal, a Islândia, mas nem tudo é um mar de rosas, os sonhos não foram realizados, mas pelo menos construíram um único, mas poderoso álbum do mais puro e genuíno hard rock típico dos anos 1970. 

E assim é o álbum: pesado, puro e simples! Um hard rock com uma atmosfera sombria, dark, bem obscura, um álbum que pode ser mensurado pelo propósito mais verdadeiro do que esses jovens islandeses queriam fazer desde o início da formação da banda: algo autoral, poderoso, deixando fluir o que eles amavam, a sua criatividade em estado bruto. 

Então vamos ao álbum! Começa com “Solution” que já mostra o cartão de visitas da banda: bateria poderosa, esmurrada, mas com alguma virtuosidade, solos gritantes e rasgados de guitarra e um baixão pulsante, até que entra o vocal melódico e limpo, um som pesado e bem executado com a guitarra e a bateria no auge do poder. 

"Solution"

“A Sad Man's Story” tira um pouco o pé do freio. Uma balada meio melancólica, meio psicodélica, quase acústica, o piano delicadamente tocado, uma faixa viajante e linda, mostrando que a banda é extremamente versátil, que vai do peso as baladas em um estalar de dedos e com enorme competência.

"A Sad Man's Story"

“Jesus Freaks” retorna ao peso e com ele a pancadaria generalizada da bateria e com os riffs pesados de guitarra que logo irrompem em alguns solos poderosos, curtos e grossos. Um vocal desleixado e ameaçador aparece logo, lembrando um proto punk, um punk vanguardista bem interessante. Uma música diria subversiva e arrogante.

"Jesus Freaks"

“Wandering Around” traz uma curiosa introdução meio country, algo dançante e até solar, fugindo aos padrões do álbum e, mais uma vez o destaque fica para a bateria e a guitarra que, em uma simbiose plena, dá vida a música. 

"Wandering Around"

“1999” começa densa, arrastada, sombria, pesada, uma atmosfera tormentosa toma conta da música e faz dela algo ameaçadora, perigosa, um senhor hardão, um senhor petardo, o momento, o ápice de um álbum excelente está sintetizada nesta que é uma das melhores faixas do mesmo. 

"1999"

“Scared” segue com a sequência avassaladora da faixa anterior: pesada e poderosa! O desfile dos instrumentistas é o destaque da faixa. É como costumo dizer que é uma música de banda, ou seja, todos tem destaque em iguais condições, sem contar com o belo vocal que, mesmo melódico e limpo, se encaixa perfeitamente ao momento rude dos instrumentos.

"Scared"

Segue com “Nightmare” que traz um proto metal avassalador. Traz algumas típicas características da vertente que só ganharia o mundo no início dos anos 198º, tais como: velocidade, peso e um vocal mais rasgado e agudo. É a tal música avant garde, música de vanguarda.

"Nightmare"

E fecha com a faixa “The End” que traz a presença dos teclados na sua introdução. Uma pegada mais comercial, mais psicodélica, uma veia mais beat, mas que, gradativamente, vai ficando mais agressiva, mais pesada e assim vai alternando, entre o peso e a pegada mais psicodélica, um som cheio de alternâncias rítmicas.

Icecross - "The End"

Logo após o lançamento do álbum o Icecross ainda fez alguns shows permanecendo um ano na Dinamarca, com Ásgeir e Ómar deixando o barco em 1973 para formar a banda Ástarkveðja. O Icecross se mudou para os Estados Unidos em 1974 com Shady Owens e Axel Einarsson como membros permanentes, mas se separaram em 1975. 

Axel Einarsson fez seu único álbum solo em 1976 chamado “Called it Acting Like a Fool”. Mais tarde, ele se juntou a uma banda chamada Deildarbúngubræður. Lançaram dois álbuns: “Saga til næsta bæjar” e “Enn á jörðinni”. 

Por ser carpinteiro qualificado também trabalhou como tal durante sua estada nos Estados Unidos. Por muitos anos ele dirige um estúdio profissional chamado “Stöðin” que publica CDs e DVDs com música direcionada ao público infantil e morreu recentemente, em setembro de 2020.

Ásgeir Óskarsson é um dos bateristas mais respeitados da Islândia. Seu trabalho pode ser encontrado em mais de 300 álbuns. Gravou cerca de três álbuns solos.

Ómar Óskarsson tocou em várias bandas após o fim do Icecross. Ele mudou de vida e se juntou à uma banda na igreja que frequenta e dirige sua empresa que produz materiais para consertar tetos com vazamentos.

Uma pérola rara, obscura que vem ganhando vida, ressuscitando graças o advento das tecnologias da informação, sendo difundida e compartilhada pelos ávidos garimpeiros da boa música, pelos abnegados fãs de música que divulgam pela grande rede a música do Icecross que parece viver em uma atemporalidade, resistindo ao tempo, forte, cristalina e eterna.




A banda:

Axel Einarsson na guitarra e vocal

Omar Oskarsson no baixo e vocal

Asgeir Oskarsson na bateria na bateria e vocal


Faixas:

1 - Solution

2 - A Sad Man's Story

3 - Jesus Freaks

4 - Wandering Around

5 - 1999

6 - Scared

7 - Nightmare

8 - The End



 "Icecross" (1973)




































sábado, 26 de setembro de 2020

After All - After All (1969)

 

O After All poderia ser só mais uma banda que pereceu precocemente sendo esquecida e relegada, excluída de nossas pretensões de audição ou ser meramente um “produto”, uma edição de colecionador, aquela para compor o catálogo de vinis de algum audiófilo espalhado pelo mundo. Todavia não encaro por esse prisma. Em meus garimpos em busca de novas bandas antigas vilipendiadas pelo público e pelo tempo, descobri recentemente a banda americana After All e ávido por descobrir mais e mais sobre o rock progressivo norte americano essa banda se deparou diante dos meus olhos de uma forma tão ocasional que, ao ouvi-la fui tomado por um arrebatamento que me pergunto, como sempre, e de uma forma veemente, como que uma banda como o After All não tem o seu devido crédito, não tem o seu devido lugar de destaque e pioneirismo na história do prog rock da terra do Tio Sam? Digo pioneirismo não pelo fato cronológico, pois o seu único álbum, lançado no longínquo ano de 1969, mas também pela sua vanguardista sonoridade que, na transição da década de 1960 para a de 1970, já se desenhava um progressivo embrionário com aquela pegada psicodélica, lisérgica, típica, é claro, daquele ano, tempos áureos do referido estilo, com o Woodstock ditando o ritmo e o comportamento também. Sim, caros e dignos leitores, o After All, diante de sua magnânima obscuridade, pode ser considerada como uma das pioneiras do rock progressivo norte americano! A banda que foi o pilar, o sustentáculo para a edificação de um estilo que entregou grandes bandas, apesar de sua maioria pouco conhecidas, mais prolíficas e que não lhe deram o crédito, apesar de fugaz e circunstancial para muitos. Finalmente as mídias sociais e a tecnologia da informação fez jus a essa banda e fez com que eu a descobrisse e que esteja me estimulando a redigir algumas linhas sobre a sua história obscura. Os quatro integrantes que compuseram o After All eram amigos e conhecidos, experientes no circuito de rock de Tallahassee, Flórida e juntos aprimoraram, ainda mais, as suas habilidades. São eles: Bill Moon nos vocais e baixo, Charlie short na guitarra, Alan Gold nos teclados e Mark Ellerbee na bateria e vocais.

After All

E isso se nota, nobres amigos leitores, nos arranjos, na melodia das músicas deste único álbum lançado pelo After All. Essa experiência pesou e muito na qualidade de sua música que, logo no seu debut, está belissimamente em evidência aos ouvidos e alma de quem faz uma audição de peito e mente abertas. Um álbum híbrido, como era naquelas épocas de experimentação e inquietude criativa, com levadas jazzísticas, de proto prog, de rock psicodélico, de lirismo, delicadeza, elegância...Uma mescla sonora que é digna de audição realmente. Mas, apesar de o After All ter um combo de quatro excelentes músicos não podemos negligenciar a história de uma poetisa, de uma cantora que esteve por trás desse músico que, apesar de ter sido de forma discreta foi imprescindível para a concepção desse álbum de 1969 da banda. Falo de Linda Hargrove. Linda, nascida também em Tallahassee, na Flórida, em 3 de fevereiro de 1949 foi uma cantora, compositora e poetisa e se aventurou com sucesso na música country norte americana. Ela escreveu muitas músicas de sucesso para muitas bandas e cantores de sucesso do estilo e teve uma grande visibilidade na década de 1970. Linda era conhecida como "The Blue Jean Country Queen", pois se apresentava em seus shows de jeans e sem aquela maquiagem elaborada que outras cantoras country usavam. 

Linda Hargrove

Linda Hargrove, então apenas com vinte anos de idade, se juntou com o After All e ofereceu a eles vários de seus poemas e os caras gostaram no ato! Ela tinha uma capacidade inventiva de criar, elaborar seus poemas para serem cantadas por homens, para homens, ela tinha uma incrível capacidade para adentrar a mente masculina. Era isso que muitos dos músicos de sua geração e que teve, de alguma forma, contato com ela, diziam a seu respeito. Mas não foi apenas a sua capacidade de criação de poemas que fez com que o After All se juntar com a jovem e talentosa Linda. Ela, à época, já estava construindo uma bela reputação na cena local de Tallahassee e tinha sido membro de uma banda dessa região chamada “The Other Side”, em 1967 e gravou inclusive, neste mesmo ano, um álbum com uma veia meio folk rock.

Álbum da banda "The Other Side" com Linda Hargrove

Mas Linda também encontrou no After All um grande parceiro, o baterista e vocalista Mark Ellerbee que praticamente compôs todas as músicas do álbum. E essa harmonização sonora entre Ellerbee e Hargrove foi sensacional! Essa parceria trouxe a banda, às suas músicas uma textura complexa, com uma atmosfera surreal, diria até sombria e contemplativa graças também a já dita experiência dos músicos que fez com que aflorasse nas músicas toda essa complexidade: jazz, rock, psicodélico, progressivo de vanguarda, folk. Uma verdadeira miscelânea que fez do After All importante para a sua cena, ou melhor, foi um verdadeiro desbravador do estilo em seu país. E essa experiência aliada a alguma reputação que criaram surtiu também alguns relacionamentos, aproximações com alguma pessoas, do mundo da música, que os ajudaram na caminhada para o lançamento do seu tão esperado novo trabalho. Os caras conheciam um produtor de Nashville e este estava disposto a gravar um material específico, algo diferente, novo com a banda e melhor: sem nenhum custo adicional por isso, desde que fizesse a gravação desse trabalho rapidamente para não extrapolar nos custos. Então o After All entrou em estúdio no ano de 1969 e gravaram, em poucos dias, “After All”. O lançamento se deu pela Athena Records em poucas cópias, tendo uma tímida e contida venda consequentemente.

Então vamos finalmente as notáveis e surreais músicas desse clássico obscuro. Comecemos com “Intangible She” faz jus ao nome, tão lisérgica que parece nos fazer sair do chão, algo intangível, mas que rompe a nossa alma de forma tão avassaladora que as vezes não temos palavras para descrever. Mas o início da música tem uma levada jazzística capitaneada pela bateria e um órgão envenenado e poderoso e que logo surge um vocal imperioso e grave chapante, que te faz viajar maravilhosamente. A psicodelia e o progressivo, ainda lactente, flertam cosmicamente, lindamente. Pura vanguarda! E o que dizer do solo de guitarra direto e muito bem executado? Que começo!

After All - "Intangible She"

“Blue Satin” traz um tom melancólico, isso é perceptível no vocal. Os instrumentos acompanham essa atmosfera soturna, e mediando isso temos aquela “vibe” jazzy também e que traz o lado mais solar à música e que de “quebra” entrega alguns solos curtos e lisérgicos de guitarra, mas o destaque fica realmente para a “cozinha” da banda. A sinergia entre o baixo e a bateria traz esse tempero mais jazz da música. “Blue Satin” conta a história de um cara que foi longe demais com uma garota. Em sua mente, ela cresceu e se tornou uma mulher, mas apenas em sua mente. Mais tarde, ele chora pelo que fez e como a amou “de sua maneira mesquinha e egoísta”, mas é tarde demais.

After All - "Blue Satin"

“Nothing Left To Do” introduz suavemente, um lindo e discreto piano traz o pano de fundo para um vocal limpo, mas cantado quase que de forma sussurrada e assim permanece até a aurora de uma bateria, mais uma vez, jazzística, envolta em um clima psicodélico, sendo adicionada por surtos de guitarra com solos curtos e diretos e aos poucos vai aumentando o tom, a música vai ganhando vida e irrompe em uma hecatombe de instrumentos e um vocal agora alto e rasgado, cantado de forma raivosa, diria. Mas logo volta a introspecção. Isso é um exemplo de música progressiva: cheia de contrastes sonoros, alternâncias rítmicas. Excelente!

After All - "Nothing Left To Do"

“And I Will Follow” traz uma proposta lenta e viajante e o vocal se faz, mais uma vez, em pleno destaque. A faixa me remete a algo inteiramente psicodélico, algo do seu tempo e os teclados chapantes dão o tom da música, sem dúvida alguma. “Let It Fly”, por outro lado, é a antítese da faixa anterior, tem um balanço, um groove e a levada dos riffs da guitarra entrega isso plenamente. Essa faixa é o exemplo crucial das habilidades da banda e da sua capacidade de flertar com muitas vertentes sem pestanejar e deixar quaisquer dúvidas quanto ao talento desses músicos.

After All - "And I Will Follow"

After All - "Let It Fly"

“Now What Are You Looking For?” talvez sintetize com fidelidade, diria, a minha percepção em relação ao prog rock de vanguarda deste álbum do After All. Uma música cheia de vivacidade, poderosa, complexa e o teclado tem o protagonismo nessa faixa. “A Face That Doesn't Matter” segue a mesma proposta da faixa anterior trazendo aquele clima meio sinistro e sombrio, em tom meio profético que nos faz lembrar The Doors, por exemplo. A faixa remete ao beat dos anos 1960, até bem dançante, contrastando com o clima meio pessimista antes analisado.

After All - "A Face That Doesn't Matter"

E fecha com a faixa “Waiting” que privilegia o belo trabalho de vocalização, entregando, mais uma vez, uma música lisérgica, lembrando os belos trabalhos psicodélicos de bandas como Vanilla Fudge, por exemplo, outro baluarte da música norte americana. O salutar duelo entre guitarra e teclado traz um contexto variado a música e a bateria entrega um desfecho jazzístico a música. Fechando em grande estilo. Após o lançamento do álbum, a banda se separou e seguiu caminhos separados, cada um com sua carreira, mas localmente, retornando para Flórida, embora continuassem amigos. Já Linda Hargrove, após ter seguido com a banda para Nashville para gravar o álbum, ficou por lá e decidiu enveredar a sua carreira no mundo do country music e depois de ter gravado um álbum obscuro foi apresentado ao ex- Monkee Mike Nesmith que a contratou para o seu selo country. Sua carreira parecia estar em franca ascensão quando foi diagnosticada com leucemia. Hargrove conseguiu se recuperar e retomar a sua carreira. Morreu em outubro de 2010. O álbum “After All” teve um renascimento em 2000-2001, quando foi relançado pelo selo “Gear Fab”. Graças a esse relançamento esse clássico obscuro e raro pode ser ouvido pelo máximo número de pessoas possível. E assim que tem de ser: boa música, independente de ser ou não de bandas consagradas, precisam ganhar luz e impactar, de forma avassaladora as mentes, os ouvidos e a alma de um bom audiófilo. E assim é o After All e seu único e nada fugaz álbum. Uma pérola!



A banda:

Bill Moon nos vocais e baixo

Charlie Short na guitarra

Alan Gold nos teclados

Mark Ellerbee na bateria e vocais

Faixas:

1 - Intangible She

2 - Blue Satin

3 - Nothing Left To Do

4 - And I Will Follow

5 - Let It Fly

6 - Now What Are You Looking For?

7 - A Face That Doesn't Matter

8 - Waiting