sábado, 22 de janeiro de 2022

Black Widow - Black Widow (1971)

 


Uma banda empoeirada, que vem diretamente das quenturas do inferno, mas não vou dizer que seja rara, mas sim esquecida, relegada ao ostracismo pelo massificado público que gosta do rock n’ roll!

Vilipendiada sim, mas importante por ter criado, juntamente com bandas do naipe de Alice Cooper e The Crazy World of Arthur Brown, do “horror rock”, do rock teatral, voltado para o caos, para a loucura do ocultismo, do satanismo. 

Uma das poucas bandas que conseguiu, com maestria, contracenar as suas músicas. Falo do BLACK WIDOW. Falo da banda que foi a primeira ou uma das primeiras a levar os rituais aos palcos em uma espécie de missa negra cênica que, simbioticamente, complementava a sua música, fazendo com que o teatro expressasse a realidade, a verdade de seu som.

Gostaria de falar do segundo álbum de estúdio do Black Widow, homônimo, de 1971. Depois de “Sacrifice”, de 1970, que praticamente inaugurou o progressivo obscuro, com levadas jazzísticas, e pitadas psicodélicas hipnóticas e envolventes e que falava das figuras demoníacas mitológicas, dos rituais sabáticos, temos em “Black Widow” uma sonoridade mais agressiva, mais hard rock, mais progressivo e temas apocalípticos, direcionando a banda a uma proposta um pouco diferente ou acintosamente mais diferente do que “Sacrifice”.


Temas apocalípticos, comportamento humano estavam todos sintetizados em sua música em “Black Widow”, mas os temas ocultos foram minimizados, quase reduzidos. A razão não se saberá ao certo, talvez para atingir novos públicos ou uma simples mudança de curso da banda, mas o fato que tal mudança não deu certo, não teve sucesso sob o aspecto comercial da coisa. Mas não impactou no quesito criativo. O segundo álbum do Black Widow, mostrou uma banda versátil e competente que flertou com uma música mais pesada, um hard rock ainda embrionário no início dos anos 1970 que também ajudou a construir o prog rock mais evidente em seu trabalho anterior, o genial “Sacrifice”.

Mas antes de entrarmos no universo do álbum em questão torna-se mais do que conveniente retroagir no tempo e falar dos primórdios do Black Widow que ajudará a entender um pouco da construção de sua curta, mas significativa carreira discográfica.

O Black Widow foi formado em 1969 na cidade de Leicester, na Inglaterra, em setembro. A banda se tornou conhecida pelas suas apresentações teatrais e sempre foi associada, em um contexto de coadjuvante, com o seu vizinho de Birmingham, o Black Sabbath, mas eram apenas algumas semelhanças, como o teor das letras de terror e satânicas, mas as semelhanças terminavam aí, sendo uma mais multifacetada sonoramente falando e a outra majoritariamente mais pesada e agressiva e, é claro, a popularidade.

Porém a banda foi originalmente formada em 1966 com o nome Pesky Gee! com Kay Garrett (vocais), Kip Trevor (vocais, guitarra e gaita), Chris Dredge (guitarra), Bob Bond (baixo), Clive Box (bateria e piano), Gerry "Zoot" Taylor (órgão), Clive Jones (também conhecido como Clive Beer-Jones; saxofone e flauta).

Pesky Gee! "Exclamation Mark" (1969)

Jim Gannon (guitarra e vocal) substituiu Dredge na primavera de 1969. A banda se separou em setembro de 1969. A banda lançou um álbum pela Pye Records como “Pesky Gee!, Exclamation Mark”, ainda em 1969, antes de Garrett deixar a banda. Os membros restantes continuaram como Black Widow e lançaram seu álbum de estreia, “Sacrifice”, em 1970.

Essas mudanças na formação também foram cruciais e constantes em 1971 saindo o baixista Bob Bond e entrando Geoff Griffith e a entrada do baterista Romeo Challenger no lugar de Clive Box, lançando o autointitulado álbum naquela nova década e nova também foi a proposta sonora deste trabalho do Black Widow. E essas mudanças na formação do Black Widow foram determinantes para dar o peso a sonoridade da banda, marca registrada deste álbum.

A formação do Black Widow que foi responsável pelo nascimento de “Black Widow” tinha Kip Trevor vocais principais, harmonias e maracas, Jim Gannon nos vocais, na guitarra principal e guitarra acústica, Zoot Taylor no órgão e piano, Clive Jones no sax e flauta, Geoff Griffith nos vocais e baixo e Romeo Challenger na bateria.


E o álbum abre com “Tears and Wine” que é um verdadeiro pé na porta, bateria pesada com o sax dançante, insinuante de Clive Jones e uma camada discreta, mas substancial dos teclados que varia entre peso e um vocal melodioso, quase delicado que, entre riffs de guitarra e bateria arrasa quarteirão, mostra o quão versátil é o álbum personificado nesta inaugural faixa.

"Tears and Wine"

“The Gypsy” começa meio folk com dedilhados de violão e contrasta gritantemente com a faixa anterior. Em alguns momentos temos uma pegada mais rasgada com riffs e solos de guitarra capitaneando tal momento, mas voltando ao violão e flauta dando um tom mais “tranquilo” e tendendo, além do folk, para o prog rock de “Sacrifice”.

“Bridge Passage” dá abertura para a “When my Mind Was Young” com uma linha mais comercial, diria radiofônica remetendo aos anos sessenta tendo como referência bandas como Beatles, algo meio gospel também, uma viagem meio progressiva como Pink Floyd com solos de guitarra mais elaborados, em determinados momentos, à lá David Gilmour.

"When my Mind Was Young"

“The Journey” traz de volta o peso, algo talvez cadenciado, mas com a força da bateria marcada e pesada com os riffs de guitarra e os teclados executados de forma visceral. E esse cadenciado me lembra de um pouco do blues rock, uma faixa extremamente multifacetada, rica, de várias texturas, a banda talvez em seu apogeu criativo neste álbum pode ser sintetizado nesta música sem dúvida uma das melhores deste álbum.

"The Journey"

“Poser” segue na mesma toada, uma levada meio bluesy mesclado ao peso do hard rock e, mais uma vez, a bateria e a guitarra travam um salutar desafio, com o vocal bem executado divinamente despretensioso.

E eis que surge uma das melhores do álbum: “Mary Clark”! Para a introdução nos reserva uma levada meio jazzística, o vocal domina as atenções com destaque para alguma introspecção que às vezes irrompe a explosão de seu alcance que vai às alturas e nessa miscelânea toda ainda temos o peso genuíno que dar razão de ser a esse trabalho do Black Widow.

"Mary Clark"

“Wait Until Tomorrow’ é o exemplo perfeito do hardão setentista, bateria quebrando tudo, riffs raivosos de guitarra, vocal meio arrastado e uma camada soberba dos instrumentos de sopro de Clive Jones que entrega mais sofisticação à música”. O que dizer do saxofone envolvente e solar deste gênio multi-instrumentista?

“An Afterthought” vem à tona novamente o folk com o progressivo, uma música curta, mas que trouxe um Black Widow mais contemplativo e fecha com “Legend of Creation”, uma verdadeira epopeia, uma faixa totalmente progressiva capitaneada pelo sax de Jones, que entrega uma sonoridade mais sofisticada e complexa.

E a turnê de promoção de “Black Widow” se deu, porém quase não há registros da banda disponível pela grande rede, além do excelente “Demons of The Night Gather To See Black Widow”, de 1970, que foi gravado para uma TV alemã e cujo set list foi construído com as faixas de “Sacrifice”, há um raríssimo show, de 1971, que cobre a turnê do segundo álbum e conta com uma mescla de músicas dos dois primeiros álbuns de estúdio do Black Widow. Esse show foi realizado na Itália, mais precisamente em Milão, no Teatro Lírico, além de outros dois shows em Roma e Arezzo com as bandas que estavam surgindo à época e que já gozavam de alguma reputação como o Yes e Premiata Forneria Marconi, as bandas da casa.


Porém o único show documentado foi em Milão, tendo versões arrebatadoras como a faixa “Sacrifice” com mais de 13 minutos de duração e a inédita “Wish You Woild” que fora lançada como single em 1971. Infelizmente a qualidade da gravação é bem precária, mas capta a banda em seu ápice, poderosa e visceral tocando clássicos obscuros de seus primeiros dois álbuns de estúdio.

Black Widow - "Live at Milano", 1971

Se o álbum não atingiu êxito comercial que a banda esperava e ansiava depois da repercussão de “Sacrifice” e seus temas obscuros e ocultistas que alguns setores da sociedade conservadora abominavam por não entender as diversas formas e manifestações da arte, inclusive a própria indústria fonográfica, conseguiu no aspecto criativo, pois mesmo depois de algumas mudanças significativas na formação da banda, o que gera incertezas, acarretara em um momento de grande virada na sua história discográfica culminando com o talve melhor álbum da banda, o seu terceiro álbum, intitulado apenas como “III”. Grande álbum, grande banda, que merece todo reconhecimento por seu protagonismo na história do occult rock, do dark progressive.


A banda:

 Kip Trevor nos vocais, maracas

Jim Gannon na guitarra

Zoot Taylor no órgão Hammond e piano

Clive Jones na flauta e saxofone

Geoff Griffith no baixo e vocal

Romeo Challenger na bateria


Faixas:

1- Tears and Wine

2- The Gypsy

3- Bridge Passage

4- When My Mind Was Young

5- The journey

6- Poser

7- Mary Clark

8- Wait Until Tomorrow

9- An Afterthought

10- Legend of Creation 




















 


 


domingo, 9 de janeiro de 2022

Electric Sandwich - Electric Sandwich (1972)

 


Eu confesso que não sei dizer como e por quais caminhos a gente garimpa algumas bandas. Não tenho também um método. Sigo a pesquisar pela grande rede alguma banda que me excite no aspecto primordial da imagem. Uma capa interessante, chamativa, apelativa, tenebrosa (gosto disso), um nome instigante, um país, um subgênero em especial etc. 

Enfim não há um padrão, uma metodologia de pesquisa de bandas e, convenhamos, o material é infindável de bandas velhas novas para o grande público, sobretudo, claro, as obscuras, as undergrounds.

Quando estava em minha “caça” por algo que me cativasse, que me chamasse a atenção parei em uma com um nome no mínimo inusitado. Achei que fosse alguma sátira, paródia, algo pastelão, sem muita credibilidade, por um instante decidi sequer acessar o link que te encaminhava à audição do álbum, mas que se dane, estava em um tédio tremendo no dia que qualquer bobagem seria o evento do ano. Acessei o link e comecei a ouvir o álbum! Uau! Mas era simplesmente arrebatador! Uma loucura sonora! Aquilo me cativara desde os primeiros segundos, os primeiros acordes!

Eu estava totalmente envolvido naquele som! Embora não fosse algo revolucionário, era envolvente, lisérgico, tenso, pesado, contemplativo, ao mesmo tempo. Coisas que só a Alemanha nos tempos do velho Krautrock poderia proporcionar.

Como eu poderia esperar algo de bom em uma banda chamada ELECTRIC SANDWICH? Ah meus bons amigos leitores e amantes do velho rock n’ roll, não se enganem com nomes imponentes e capas bonitinhas, não julguem o livro pela capa e pelo nome. Essa banda senhores é avassaladora e deixa a sua mente louca e revirada!

A julgar pela capa! Mas o que significa isso? Seria literal esse nome? Pelo que pude entender, captar é um sanduíche eletrificado, mas será que é isso mesmo a mensagem a ser transmitida? É como fica o seu cérebro quando ouve essa germânica banda: com ele revirado, agitado, desorientado! É o que a banda procurou transmitir em seu único álbum lançado em 1972, homônimo.

Mas antes de disseca-lo, vamos aos primórdios do Electric Sandwich. A banda foi formada em 1969 na cidade de Bonn, por quatro estudantes dessa cidade, jovens e que aspiravam ganhar o mundo com a sua música. Todos já gozavam de alguma experiência tocando em outras bandas locais pouquíssimos conhecidas. 

O baixista Klaus Lormann tocava com "Chaotic Trust”, o guitarrista Jorg Ohlert tocava no "Slaves of Fire"; o baterista Wolf Fabian, o fundador da banda, estava em turnê com uma banda chamada "Muli and the Misfits", e o vocalista Jochen "Archie" Carthaus cantou com os "Flashbacks".

Electric Sandwich

A cena Krautrock, a base do rock alemão estava apenas iniciando os seus passos no final da década de 1960, mas quando surgiu o famoso selo alternativo Brain em 1971, uma subsidiária da Metronome, algumas incertezas que permeavam as vidas das bandas, no que tange ao seu futuro, poderia ter uma norte, uma sequência. A Brain tinha como objetivo promover, patrocinar as bandas novas e vanguardistas que estavam surgindo naquela época e o Electric Sandwich estava no caminho dos executivos da Brain.

E foi o gerente de produto da Brain, Gunther Korber, que descobriu o Electric Sandwich em um festival de talentos de âmbito nacional organizado pela revista alemã e guia de TV "Hor Zu", que aconteceu em Niedersachsenhalle, em Hannover. Mas a banda não conseguiu chegar às finais do concurso e mesmo sem ter ensaiado eles encararam o festival, convencendo os organizadores e abocanhou o segundo lugar.

Naquela mesma noite, Ohlert, Fabian, Lormann e Carthaus assinaram um contrato com o Brain para uma sessão de gravação experimental. E foi com essa proposta que esses quatro jovens se reuniram: deixar de tocar covers e fazer algo próprio, deles e coisas arrojadas: tocar despretensiosamente, se deixar levar pela música, sem padrões ou estereótipos.

O pessoal da Brain e Metronome estava tão excitados com o som do Electric Sandwich que em 1972 a banda finalmente assinou contrato com Rudolf Slezak Musikverlag, de Hamburgo (que detinha os direitos das músicas de Jane e Epitaph, por exemplo), seguindo para o Dieter Dirks-Studio em Stommeln para gravar seu primeiro álbum com sete faixas.

Faixas essas compostas pelo mais puro heavy rock, hard rock e psicodélico e prog rock com pitadas generosas de jazz rock e blues rock. Percebeu a miscelânea sonora e o motivo pelo qual eu disse que esse álbum é arrebatador?

O álbum é inaugurado com a faixa “China” com aquele solo meio psych, meio pesicodélico sessentista com uma batida discreta e obscura, algo meio introspectivo e arrastado e explode com riffs de guitarra o estilo hardão setentista e órgão barulhento e, ao longo do tempo vai ficando mais visceral, intenso e no fundo vêm as congas, com em uma viagem latina, entrelaçado com uma guitarra dissonante e perigosamente pesada. Um primor!

“Devil's Dream” me parece algo mais “comportadinho”, convencional, mas o que se destaca é o vocal, imperioso, com uma atmosfera densa e ameaçadora, sendo muito bem executado. Mas aí vem o saxofone, que torna tudo mais dançante e lisérgico, traz um pouco da loucura sonora dos primórdios do krautrock e fecha com uma levada meio bluesy.

"Devil's Dream" live

Segue com “Nervous Creek” que tem uma história por trás e fala de um rio que deságua no mar, trata da vida de um simples morador da cidade. Esse era um canal de comunicação que os caras da banda tinham com o seu público, o viés intelectual para atrair aquele público que minimamente entende inglês, compreenda a mensagem. Ela traz um riff bem dançante, bem motown, mas desbanca em um peso visceral de hard rock com alguma velocidade que faria qualquer banda de heavy metal dos anos oitenta pirar! Vocal gritado, alto, todos os ingredientes de um proto metal e vai alternando com a calmaria de um dedilhar de guitarra e assim a música segue o seu curso.

 "Nervous Creek"

“It's No Use to Run” tem uma vibe meio commercial, algo sessentista, das bandas britânicas, com um riff simples dando a camada principal, entrando uma gaita para corroborar a influência. 

“I Want You” começa ao estilo baladinha com um riff meloso, delicado até, um vocal sussurrado, fechado, mas logo vai ganhando corpo com instrumentos de sopro ganhando protagonismo e logo vai ficando alto e mais alto e logo se constrói um som mais pesado e depois volta a balada e assim permanece até o seu final. Excelente!

Em “Archie's Blues” o som que impera o blues rock! O vocal assume um tom dramático, gritado, o alcance vai à estratosfera, o blues se mescla ao lisérgico do krautrock e se torna experimental e único. Não há a sofisticação, mas o arrojo de algo diferente e atípico. Excepcional!

“Material Darkness” a pegada kraut paira com o saxofone e a viagem psicodélica e progressiva dá o tom, o vocal contemplativo ganha espaço, um som mais complexo e sofisticado se revela nessa belíssima faixa, que conta ainda com algumas “pitadas” de jazz rock.

E para fechar com chave de ouro temos a “On My Mind” que assume um caráter “arroz de festa”, um som mais solar mais ainda calcada no psicodelismo dos anos sessenta, aspirando a algo mais voltado para o hard rock.

Após o lançamento do “Electric Sandwich” a banda saiu em turnê pela Alemanha. Apresentou-se em programas de rádio, gravou apresentações para programas de televisão, enfim estavam trabalhando, dentro do possível, a divulgação do seu novo trabalho e ganhando alguma experiência ao vivo. Ralf Kroczek, organista e líder do coro da faculdade de música de Colônia, entrou na banda e abriu shows do Uriah Heep, inclusive. Seria o ápice?

No final de 1973 começou a trabalhar em seu álbum seguinte, mas disputas internas impediram que o segundo álbum fosse concluído. Jorg Ohlert queria que a banda se tornasse mais voltada para o jazz e Wolf Fabian queria algo mais focado na bateria e o seu desejo de terminar seus vários cursos voltados para a música motivou o precoce fim da banda.

Atualmente o baterista Wolf Fabian dirige uma empresa e um estúdio de gravação em Bonn e trabalha como professor. Jochen Carthaus tem uma fazenda na Eiffel onde cria cavalos. O baixista Klaus Lormann é um oficial do governo em Colônia, o guitarrista Jorg Ohlert é um consultor sênior que mora perto do Lago de Constança e o organista Ralf Kroczek ainda trabalha como professor de música. Mas para a nossa alegria a banda retornou aos palcos e canta e encanta a novas gerações com a sua música forte e atemporal.


A banda:

Jörg Ohlert naa guitarra, orgão e teclados

Klaus Lormann no baixo

Jochen Carthaus no saxophone e harmônica

Wolf Fabian na bateria


Faixas:

1 - China

2 - Devil's Dream

3 - Nervous Creek

4 - It's No Use to Run

5 - I Want You 

6 - Archie's Blues

7 - Material Darkness

8 - On My Mind




 








 


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Spettri - Spettri (1972/2011)

 


O rock progressivo italiano é singular. Embora essa afirmação seja óbvia para muitos, ela se faz presente e renova a cada dia quando se descobre bandas obscuras daquele país. Bandas antigas que ganham a luz do dia graças a velocidade das informações protagonizadas pelas redes sociais e a internet que encurta o caminho entre o ouvinte, ávido por explorar novas possibilidades sonoras, e algumas abnegadas gravadoras que redescobrem algumas bandas e promovem o renascimento de suas sonoridades sempre ricas e com peculiaridades avassaladoras, transgressoras e repleto de vanguardismo.

E o pilar do vanguardismo transgressor das bandas obscuras está no teor dos temas que abordam. Temas estes que pouco palatáveis para a sociedade conservadora, para o status quo. As mazelas humanas são expostas, as feridas precisam continuar abertas, mostrando as entranhas de uma sociedade, cuja gênese guarda o que há de mais violento e odioso personificado nos seus instintos mais primitivos.

As bandas obscuras são obscuras porque são marginais, não venderam seus princípios, não corromperam sua arte que, por mais marginal que seja, culmina com a identidade de muitos ouvintes que tem no seu DNA a inquietude da sua indignação com o mundo que vivemos. A obscuridade progressiva italiana traz uma homérica riqueza qualitativa e quantitativa e mostra o quão ainda é inexplorado.

E não podemos deixar de falar da história do SPETTRI. Apesar de ser uma banda pouco conhecida da Itália progressiva, o Spettri sintetiza com veemência a história do rock progressivo desde o início dos tempos, porém com pontos incomuns em sua sonoridade que faz com que seja diferente, maravilhosamente diferente.

A banda foi formada na cidade de Florença no longínquo ano de 1964, pelos irmãos Ugo e Raffaele Ponticiello, vocal e guitarra, respectivamente, Stefano Melani nos teclados e hammond, Giorgio Di Ruvo na bateria e o outro mais jovem do clã dos Ponticiello, Vincenzo, no baixo.


Era praticamente um trabalho em família. A banda, quando fora formada, em meados da década de 1960 praticava o beat, muito comum naquela época na Itália, baseada na música psicodélica norte americana e britânica, mas com um viés pop, comercial e acessível e lançou alguns EP´s e, a título de curiosidade, passou pelo Spettri o baterista Mauro Sarti que, em 1968, sairia dando lugar a Di Ruvo. Sarti tocaria em outra obscura banda chamada Campo di Marte.

Outra mudança fora no baixo, onde Guiseppe Nenci ficou em curto período de tempo, dando lugar ao irmão mais novo de Ugo e Raffaele, Vincenzo, isso em 1971. As muitas mudanças na sua formação foi a tônica da banda, bem como na sua sonoridade também.

No início da década de 1970 a banda sai do beat e direciona o seu som para uma proposta mais pesada, com uma atmosfera densa lembrando Black Sabbath, com um destaque para os riffs poderosos de guitarra e hammond da pesada remetendo a bandas como Deep Purple e Uriah Heep.

É nesse período que a banda muito produz, tendo material suficiente para gravar um álbum. Em 1972 a banda produz o seu álbum, o “Spettri”, porém, como em muitos casos em que as bandas como uma sonoridade pouco ortodoxa ou ainda sem nenhum patrocínio, esse trabalho não foi lançado oficialmente naquele ano, tendo a luz, saindo da poeira do baú do esquecimento do rock apenas em 2011 graças ao abnegado trabalho do selo Black Widow Records.


O álbum traz o peso e a agressividade primitiva e toscamente mal produzido que traz todo o charme da banda. Neste álbum torna-se perceptível aos ouvidos influências experimentais de bandas como King Crimson e Collosseum, dando-lhe um caráter mais progressivo.

O álbum, conceitual, fala da busca de um homem pelo auto entendimento por intermédio de introspecções metafísicas e também fala sobre o egoísmo e a hipocrisia da sociedade e a destruição existencial da humanidade e a faixa inaugural, “Introduzione”, revela isso, com a fala deste homem.

Na sequência vem a faixa “Prima Parte: Stare Solo” o rock explode com riffs poderosos e hammonds em profusão, uma verdadeira paulada hard prog.

"Prima Parte: Stare Solo" - Live in Firenze (2013)

“Seconda Parte: Medium” arromba a porta com um senhor hard rock com passagens rítmicas de tirar o fôlego, mostrando as raízes do hard prog na Itália. 

“Terza Parte: Essere” começa atipicamente lenta, com dedilhados em violão, introspectiva, trazendo referências de um longínquo King Crimson psicodélico, mas é por pouco tempo, pois a música vai ganhando corpo, com riffs esmagadores e hammond frenético, a música ganha peso, com destaque para o vocal, tenso e altivo.

O álbum fecha com “Quarta Parte: Incubo”, segue o peso com a cozinha poderosa, com linhas de hammond excelentes e passagens entre o peso e calmarias que se conectam perfeitamente a atmosfera deste clássico álbum esquecido.

O Spettri fez grandes shows com bandas influentes do estilo até se desfazer em 1975 que, segundo seus integrantes o motivo fora a indiferença pública em relação a sua proposta sonora. Um álbum cru, tosco, marginal, poderoso, avassalador, transgressor, um diamante bruto que foi lapidado nos dias atuais.


A banda:

Ugo Ponticiello no vocal

Raffaele Ponticiello na guitarra acústica e elétrica

Stefano Melani no Hammond L100

Vincenzo Ponticiello no baixo

Giorgio Di Ruvo na bacteria

Faixas:

1 - Introduzione

2 - Prima Parte: Stare Solo

3 - Seconda Parte: Medium

4 - Terza Parte: Essere

5 - Quarta Parte: Incubo




 

 






 





sábado, 1 de janeiro de 2022

Novalis - Banished Bridge (1973)

 


Meus amigos amantes da música progressiva sou um grande fã do rock progressivo alemão e quando descobri o NOVALIS atingi um nirvana sonoro e um arrepio de felicidade dada a emoção da audição e isso se descreve com fidelidade progressiva no seu debut chamado “Banished Bridge”, de 1973. 

O Novalis, oriundo da cidade de Hamburgo, foi formado em 1971, a partir de um anuncio em jornal convocando músicos para complementar o grupo, por iniciativa de Heino Schünzel e Jürgen Wentzel, baixista e vocalista respectivamente. 


O Novalis, em seu início, não se adequava ao estilo krautrock ou experimental, mas em um progressivo sinfônico com harmonias luxuosas, passagens excepcionais tendo no órgão, nos teclados o seu grande cerne sonoro, a espinha dorsal de sua música. 

São camadas melódicas fantásticas que te faz viajar, músicas belas e majestosas que faz do Novalis e seu primeiro álbum, “Banished Bridge”, um dos pioneiros do rock sinfônico na Alemanha e que teve seu ponto alto em meados da década de 1970.  

Convém falar das origens do nome da banda: Novalis. Muitas das letras da banda foram baseadas na poesia do poeta do século 16 Friedrich Freiherr von Hardenberg, onde “Novalis” era seu pseudônimo. O poeta Novalis era muito conceituado em sua época. Era um homem romântico e sofreu muito pela perda de sua amada. Como em muitos casos não enlouqueceu pela tal perda, mas sofreu de tristeza e morreu apenas com 28 anos de idade.

O poeta Novalis

Colaboraram neste álbum os seguintes músicos, Jürgen Wentzel nos vocais, Heino Schünzel no baixo, Lutz Rahn nos teclados, Hartwig Biereichel na bateria e Carlo Karges nas guitarras, sendo o único álbum gravado em inglês, passando a produzir os trabalhos seguintes em alemão e tendo alguma repercussão comercial. 

Novalis

O álbum abre com a faixa título, com uma atmosfera viajante, transcendental com órgãos tocados com suavidade, um violão acústico dando toda uma atmosfera linda e delicada, uma suíte fantástica, criativa, que me remete o Pink Floyd em épocas remotas, com passagens fantásticas de um rock sinfônico tocado com competência e carregada de emoção. 

"Banished Brisge"

"High Evolution" é uma faixa mais direta, com um excelente órgão de igreja, com um toque também sinfônico, de melodia limpa e forte.

"High Evolution"

"Laughing" mostra um lado frenético do Novalis, de mais energia, mas ainda tendo os teclados de Lutz Rahn como a parte mais importante, mais edificadora do álbum e da banda. Conta com grandes passagens e uma seção rítmica excepcional.

"Laughing"

“Inside of Me (Inside of You)” também tem uma linha mais rock, mais pesada, com teclados e riffs de guitarra poderosos e frenéticos, mas que descamba para o sinfônico que é a marca registrada deste grande álbum, fechando-o com maestria e qualidade.

"Insiste of Me (Insiste of You)"

O Novalis é assim, músicas intricadas, complexas e lindas, uma banda que soube seguir sua diretriz com muita ousadia, arrojo e dedicação e “Banished Bridge” foi o grande pontapé inicial para uma carreira de grandes álbuns.

Não há neste álbum o experimentalismo, o minimalismo do krautrock dos primórdios, não há o peso e a agressividade de riffs de guitarra, não há o space rock, há sim, uma sofisticação, mas, ao mesmo tempo inteiramente acessível aos ouvidos que vai direto à alma, ao coração e que nos arrebata de forma indelével.

Um clássico obscuro que desmistifica de uma vez por todas que o rock alemão é só psicodelia do krautrock e o peso do hard rock. Novalis com “Banished Bridge” nos entrega um rock alemão diversificado, competente e muito pouco estereotipado.

Os álbuns seguintes não teria essas camadas sonoras tão sofisticadas, tendo uma vertente, inclusive, mais comercial, talvez seja por isso que o debut do Novalis entrega algo singular para a história criativa da banda e também para a música alemã.





A banda:

Jürgen Wenzel vocais e guitarra acústica

Lutz Rahn  no órgão, Mellotron, piano e sintetizador

Heino Schünzel no baixo

Hartwig Biereichel na bateria


Faixas:

1 - Banished Bridge

2 - High Evolution

3 - Laughing

4 - Inside of Me (Inside of You)



"Banished Brisge" (1973)