sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Analogy - Analogy (1972)


Mais um “clássico obscuro” que merece reverências pela história que escreveu no rock progressivo e psicodélico e que tem as suas raízes na Alemanha e Itália. Com essas credenciais territoriais já nos estimula a ouvir, trazendo a certeza de que é algo de alta qualidade sonora. Falo do ANALOGY.

E a sua história é sinônimo da persistência e amor à música que acreditavam sem se render a modismos sonoros, desses que simplesmente não trazem nenhum tipo de consistência e conteúdo, muito pelo contrário, o Analogy, mesmo não tendo o reconhecimento devido, foi um pilar, um baloarte para o dark progressive, para o psych, deixando seu nome na história obscura da cena.

Analogy

Embora as raízes da banda tenham surgido na Alemanha, com alguns músicos nativos daquele país, o Analogy nunca surgiu como banda por lá, sobretudo na sua gênese. Eles trabalharam juntos no norte da Itália, isso no longínquo ano de 1968, mais precisamente na cidade de Varese. 

Martin Thurn, guitarrista e flautista, nascido em 1950, na cidade de Siegen, Alemanha, mudou-se para Bonn, ainda menino, com oito anos de idade onde morou até os dezoito anos e por lá começou a edificar a sua carreira de músico. 

A mãe era professora primária e o pai um juiz e sua família era caracterizada pelo forte catolicismo, criando uma espécie de antítese anárquica no garoto Martin que não gostava nem um pouco daquela realidade religiosa calcada em conservadorismos. A formação musical dele era puramente clássica, começando a tocar violino aos quatorze anos.

Martin Thurn

Foi quando descobriu os Beatles deixando hipnotizado pelo rock n’ roll, fazendo-o largar as regulares aulas de violino e a sua vida certinha. E para descobrir outras bandas foi um pulo, passando a ouvir The Who, Pink Floyd, Small Faces, entre outras bandas que ajudou a edificar o músico Martin, mas, a sua formação clássica nunca o deixou, tendo traços desse momento de sua vida, desenhados na sua formação como músico. 

No início de 1968 ele formou, com alguns amigos, a sua primeira banda, “The Number Six, mas não vingou. Se mudou para Varese, no mesmo ano, para frequentar uma escola internacional e formou imediatamente uma nova banda chamada “Sons of Giove”, junto com um colega e compatriota que vivia desde pequeno em Varese, na Itália, o guitarrista e vocalista Wolfgang Schoene, Roger Schmitt no baixo e o belga Jean-Claude Sibel na bateria. 

O baixista Thomas Schmidt (mais tarde chefe da Pell Mell) também tocou na Sons of Giove por um curto período de tempo. A banda tocou localmente por um ano e não conseguia decolar apesar de fazer uma boa quantidade de shows.

Sons of Giove (1968)

A namorada, também alemã, de Martin, Jutta Nienhaus, andava sempre com esse grupo de estudantes e descobriu sua aptidão pela música, dizia que queria seguir a carreira de cantora e decidiu, junto com Martin, formar uma dupla chamada “Jutta & Martin”, após o fim da Sons of Giove. 

Fizeram muitos shows, gravaram um single cover do Juke-Box (“Here to You / Hot Love” - Jutta & Ice) com uma banda italiana chamada “Alta Società” e, a partir daí, decidiram que queriam dar um upgrade na sua música. 

Eles perceberam que poderiam fazer algo maior, tinham capacidade para isso. Quando o irmão de Jutta, Hermann-Jürgen “Mops” Nienhaus aprendeu a tocar bateria para acompanhar seu amigo, o italiano Mauro Rattaggi, baixista, que tocava em uma banda chamada “The Riverboys”, juntaram-se para formar o que de fato seria o embrião do Analogy, o “The Joice”. 



The Joice (1970)

“The Joice”, mais tarde reduzindo o nome para “Yoice”, foi formada em 1970, logo depois do fim de “Sons of Giove”, no final de 1969. Na formação tinha Jutta, o seu irmão “Mops”, Mauro e Martin e assim permaneceu, em quarteto, entre abril e setembro de 1970, antes de Wolfgang Schoene se juntar a banda tocando violão. 

Tiveram a sorte de conseguir um contrato que os levou a tocar no norte da Itália e na Suíça, fazendo até dois shows por dia! Então, com isso, conseguiram algum dinheiro para comprar um PA legal e precisava também de aumentar a banda, se juntando a mesma, em 1971, o tecladista italiano Nicola Pankoff que se juntou ao The Joice durante um show ao ar livre! Sim, a sua estreia foi logo em um show importante para a banda e Pankoff tinha, anteriormente, tocado com sua banda. 

A química foi tão boa que não poderia deixar o tecladista passar batido e logo se juntou a banda. Durante um show em Milão, em 1971, na Páscoa daquele ano, Antonio Cagnola, um empresário de Monza, que havia fundado o pequeno selo "Dischi Produzioni 28", se interessou muito pela banda. 

Sua família possuía a fábrica de impressão de discos Microwatt em Vimercate, perto de Monza, e, portanto tinha boas conexões com muitos negócios musicais italianos, incluindo uma das maiores empresas de distribuição, a Messagerie Musicali, posteriormente adquirida pela CBS. 

No início de maio, a banda gravou duas faixas demo chamadas “God Own Land” e “Hey Joe” em um estúdio de Milão, mas a qualidade era tão ruim que não ajudou muito na divulgação da banda. The Joice finalmente assinou contrato de gravação com a Produzioni 28 e a partir daí a banda continuou a tocar de forma ininterrupta.


Foi aí que o nome da banda mudou de novo: “Yoice”. Eles estavam gravando as músicas para o novo álbum e estavam seguindo um caminho meio obscuro e soturno que os produtores achavam que não poderiam vender. 

Como o single era bem comercial, a banda queria mudar a sua imagem de acordo com o seu desenvolvimento sonoro e o nome “Yoice” de alguma forma representava seu “velho” estilo. Por curiosidade o nome “Yoice” foi o nome que foi para o pôster de forma acidental e a banda decidiu manter por achar que era o caminho mais fácil, mas que ficou por pouco tempo. 

Mas para se desvencilhar desse nome a banda se isolou por uma semana em uma cabana na montanha perto do Lago Maggiore para fazer certo corte com esse passado, surgindo o nome Analogy. Mauro Rattaggi, o baixista, teve que sair da banda para assumir seus compromissos militares obrigatórios e Wolfgang teve que trocar a guitarra pelo baixo. 

O primeiro show após a gravação e mudança de nome foi o Festival Villa Pamphili, em Roma, em maio de 1972. E assim surge o seu debut, alvo da resenha de hoje, lançado em 1972 recebendo o nome de “Analogy”. Os produtores estavam irritados com o resultado do álbum: um som pouco comercial, obscuro e ameaçador. 

Um rock progressivo, com pitadas generosas de psych, com algumas viagens experimentais, trazendo à tona a predileção pelo Pink Floyd nos seus primórdios. Decidiram não investir tanto, pensando que não teria o retorno esperado. O dinheiro estava acabando e a banda decidiu gravar e mixar o álbum em apenas dois dias! Além do trabalho sonoro maravilhoso o que também chama e muito a atenção é a arte gráfica do álbum, a sua capa com os integrantes todos nus.


A capa do single e do primeiro álbum são bem parecidas. A seção de fotos aconteceu pouco antes do lançamento do single quando a banda estava pintada, mas também vestida. As fotos com a banda nua foram feitas no mesmo dia, mas não foram usadas, por conta do conservadorismo na Itália no início da década de 1970. 

Mas quando o disco estava para ser lançado, o produtor decidiu usar essa foto, para contrariar. A foto de Mauro Rattaggi foi removida, usando a faixa azul, pois não tinha um trabalho digital para remover. A banda não aprovou essa capa, pois o tecladista Nicola Pankoff era um exímio pintor e a banda queria usar o talento dele, mas os gerentes da gravadora recusaram. 

O Analogy teve problemas com as vendas dos álbuns, pois as lojas não queriam vender “pornografias”, então colocaram uma espécie de pôster para cobrir a capa. Curioso que, em 2010, o selo italiano MAS/BTF relançou o álbum com a mesma embalagem de pôster. 

E falando em vendas, foram colocadas 1.000 cópias e estavam em todas as lojas de discos italianas o que facilitou, em termos, as vendas, esgotando rapidamente, se tornando um item de colecionador desde então. 

Então falemos do álbum! Inaugura com “Dark Reflections” é um blues rock, com um tempero progressivo com uma pegada hard e soturna, obscura, tudo envolta em uma atmosfera densa, tendo a regência do vocal maravilhoso de Jutta. Martin a compôs e se trata de um amor não correspondido por uma garota da província de Aix-em-Province. Não há como perceber e sentir o clima sombrio e ameaçador, bem arrastado.

"Dark Refletions", Live at Viterbo (2012)

Na sequência temos “Weeping May Endure”, um som que mescla um pouco de erudito, música clássica e uma sonoridade mais voltada para o psicodélico. E muito disso se confirma com a história de onde foi gravada essa faixa, em uma igreja com a composição do tecladista Nicola. O destaque fica também com os solos ácidos de guitarra e o teclado de fundo dando uma camada mais animada e solar.

"Weeping May Endure"

“Indian Meditation” foi uma faixa que eles tocaram direto como “Yoice” e mostra um clima viajante e lisérgico capitaneado pelo vocal de Jutta, uma nuvem lisérgica com riffs de guitarra bem floydiano.

"Indian Meditation"

“Tin’s Song”, apesar de uma curta faixa, tem uma história interessante. Em 1971, um venezuelano chamado Tin, de alguma forma passou algumas semanas com a banda no Lago Maggiore. Ele dedilhava, de forma limitada, a sua guitarra e tocava aquele mesmo riff várias vezes. Martin perguntou a ele se poderia usá-lo no álbum da banda, transformando-o o que está no álbum: bongôs, um piano soft e algo meio psicodélico faz dessa faixa simples mas animada.

"Tin's Song"

E eis que surge a faixa título: “Analogy”, que traz uma estrutura puramente experimental, calcada em peças psicodélicas e progressivas, com muita vivacidade e diria, pesada em momentos da faixa, com momentos introspectivos, contemplativos e assim a música se alterna, tornando-se atrativa e viajante, em doses chapantes de ópios sonoros. E há uma história interessante por trás dessa faixa. A banda estava ensaiando a música em um topo de uma montanha, quando cerca de 20 pessoas que caminhavam pelo local se reuniu em uma colina próxima e se puseram a ouvir a banda tocar de forma improvisada, durante o pôr do sol. Quando terminaram houve um silêncio total por um minuto, sendo irrompida por frenéticos aplausos.

"Analogy', Live at Viterbo (2012)

“The Years At The Spring” começa animada, dançante, com um riff que me remete a um beat sessentista, cuja letra foi extraída do escritor inglês Robert Browning e não tem como se lembrar das bandas psicodélicas dos Estados Unidos, mostrando que o álbum era deliciosamente versátil.

"The Years At The Spring"

Finaliza o álbum com a faixa “Pan Am Flight 249” mostra a força do blues fundido ao rock progressivo, colocando, mais uma vez o tempero do hard rock, com riffs de guitarra pesados, com alguns solos mais longos e diretos e uma bateria pesada e marcada.

"Pan AM Flight 249", Live at Viterbo (2012)

O futuro não foi dos melhores para o Analogy. Nicola Pankoff saiu da banda em outubro de 1972 e Rocco Abate, um flautista clássico, da Orchestra dela Scala di Milano, se juntou a banda. Surgiu o novo material, “The Suite”, lançado em 1993, uma combinação de música renascentista e rock n’ roll, viajando pela Itália tocando em muitos festivais famosos, mas decidiu encerrar essa trajetória em novembro de 1973 na cidade de Aosta, pois a gravadora havia falido e a banda não queria, não podia financiar as suas turnês com uma sonoridade pouco comercial. 

"The Suite" (1993)

Embarcaram em alguns projetos, cujos “vestígios” podem ser ouvidos no álbum “25 Years Later”, se juntando ainda ao “Collettivo Teatrale La Commune di Dario Fo”, viajando com eles por cerca de seis meses. Reeditaram a dupla “Jutta & Martin” e finalmente decidiram deixar a Itália, se instalando em Londres onde fundaram a banda de new wave chamada Earthbound que fez sucesso. Mas isso é outra história.






A banda:

Jutta Nienhaus no vocal
Martin Thurn na guitarra acústica, bongôs e flauta
Nicola Pankoff nos teclados
Wolfgang Schoene no baixo
Hermann-Jürgen Nienhaus na bateria


Faixas:

1 - Dark Reflections
2 - Weeping May Endure
3 - Indian Meditation
4 - Tin's Song
5 - Analogy
6 - The Year's At The Spring
7 - Pan-Am Flight 249




Analogy - "Analogy" (1972)
















domingo, 6 de setembro de 2020

Gila - Night Works (1972)


Muitas das bandas alemãs no início da década de 1970 sofreram com os estereótipos do krautrock. É evidente que cena teve o valor e relevância histórica servindo de influência, de referência para o rock alemão em todas as suas gerações, mas talvez por uma questão mercadológica ou mero modismo o “carimbo” do kraut foi atrelado às bandas que surgiam e sequer tinha a proposta sonora da referida vertente, no máximo uma influência, mas tudo na Alemanha era krautrock. 

E o fato de ter colocado todas as bandas no “saco do krautrock”, na vala comum do esteriótipo, ajudou para a não popularização do movimento, sendo considerado como um estilo limitado e puramente de ruídos estranhos. A Alemanha é mais do que o krautrock. Há uma diversidade de vertentes que vai do próprio krautrock ao hard rock, rock progressivo sinfônico, space rock, entre outros tantos que ganharam alguma visibilidade nos longínquos anos 1970. 

E uma banda que soube com maestria se desvencilhar do kraut, mas ao mesmo tempo tendo o mesmo em seu DNA sonoro, foi o GILA e ainda assim não gozava de tanta popularidade, sendo negligenciada a sua importância para a transição do krautrock minimalista e experimental para o rock progressivo com passagens pelo space rock e um som, apesar de chapante como o kraut, mas complexo e virtuoso.

Assim era o grande Gila. Era uma banda eclética, com uma flexibilidade sonora invejável e apesar de sua curta carreira discográfica foi uma referência no estilo na Alemanha, apesar de ter sido uma banda obscura, embora isso possa parecer improvável. Não para aqueles que a conhece. Então vamos a sua história! O Gila foi formada em uma comuna política na cidade de Stuttgart em 1969 e tinha o nome “Gila Füchs”, que foi dado pelo guitarrista Conny Veit. A intenção era chocar, era subverter e já poderia começar com o nome da banda.

E assim começaram a expor o "Gila Fuck" em slogans, cartazes com as "frases de efeito", tais como: "Crianças, fodam-se seus pais" ou coisas do tipo, apenas para chocar. Mas o cunho político também imperava na banda, afinal nasceram em comunas políticas. Naquela época tudo era político, politizado, a veia subversiva com base na percepção política estava em voga, afinal, era época da Guerra do Vietnã, dos beatnicks, dos lisérgicos, nada mais comum. 



E o comum era: Viver juntos, trabalhar juntos, se divertir juntos! Tudo com base no conceito de liberdade, no conceito da vida desprendidas de certas convenções sociais calcada em conservadorismos extremos, assim nascera o krautrock e claro e evidente o Gila, como muitas bandas surgidas na Alemanha nos confins dos anos 1960 e 1970, beberam dessa fonte.

E a música surgira no Gila com base em decisões de cima para baixo, onde a música pré determinada em uma espécie de forma, com métodos consideravam como música capitalista e direcionadas a escravos da música e da indústria fonográfica. Então já tem uma noção básica de liberdade criativa que pairava na banda, com música improvisada, experimental e longa, sem nenhuma amarra. Assim era o Gila.

No decorrer desse desenvolvimento as demandas musicais da banda foram aumentando. Conny Veit havia entrado em contato com gravadoras, bem como a cena musical também. Naquela época o Gila tinha, além de Veit na guitarra, Fritz Scheyhing nos teclados, Rainer Fuss, conhecido como "Bongo", porque tocava bongô e Walter Wiederkehr no baixo. Mas o "Bongo" jogou a toalha, não queria uma carreira musical e reza a lenda que não era um exímio baterista, apenas tocador de bongô mesmo. 

Então, como as propostas da banda frente à música estava crescendo, era necessário trazer um novo baterista. E nesses contatos estabelecidos por Connie Veit, surgiu um empresário, um executivo da EMI que tinha recém chegado dos Estados Unidos e queria que o Gila tocasse tão bem quanto o Creedence Clearwater Revival e assim foi a primeira incursão da banda na música profissional.

E nesse meio tempo Daniel Alluno surgiu assumindo o posto de baterista do Gila. A banda começou a tocar em alguns festivais, tocando em Munique, Stuttgart, em clubes, saindo dos pequenos e horrendos lugares que tocava na época em que eram apenas uma comuna política. E começaram a compartilhar o palco com bandas do naipe de Guru Guru, Agitation Free e muitas outras de seu tempo.

O seu debut, o excelente “Free Electric Sound”, de 1971 é um divisor de águas sonoro na Alemanha e, embora entregasse algumas tendências do krautrock, em voga naquele país, trazia também, e em profusão, peças psicodélicas e uma camada generosa de rock progressivo e space rock, um trabalho ambicioso, audacioso que ainda revelava um caótico hard rock em um frenesi experimental, mas com muita qualidade. 

O título do álbum é muito pertinente para a música do Gila: liberdade criativa sem amarras e estereótipos, sem rótulos, um álbum eclético e que absorveu, flertou com todos os estilos que surgiam à época. Uma curiosidade: “Free Electric Sound” chegou a ser produzido no Brasil, ainda que em poucas cópias, lançado pela BASF, cuja política de distribuição era global, com o intuito de atingir a vários lugares.

"Free Electric Sound" (1971)

Lançou outro trabalho, considerado como o segundo álbum, em 1973, chamado “Bury My Heart At Wounded Knee”. A magia do Gila já tinha se perdido, se dissipado, fugindo e muito da proposta de “Free Electric Sound”, indo para uma levada mais simples e direta, com uma pegada mais country, música americana, talvez quisessem se desvencilhar do trabalho anterior, vai saber! 

"Bury My Heart At Wounded Knee" (1973)


Mas por que disse que este álbum é considerado como o segundo trabalho do Gila? Porque havia outro, o “verdadeiro” segundo álbum da banda chamado “Night Works”, gravado em 1972, mas que, infelizmente não fora lançado naquele ano e esse trabalho, esse registro ao vivo do Gila, será o alvo da minha resenha de hoje. 

Embora “Night Works” não tenha sido lançado oficialmente em 1972, é considerado o segundo álbum do Gila e segue a mesma proposta do “Free Electric Sound”: Um rock progressivo com uma levada space rock, uma sonoridade experimental, com tendências kraut, porém mais elaborado, mais bem acabado, com uma melodia complexa, intricada e diria caótica, psicodélica, lisérgica e até pesada. Contava com a formação do primeiro álbum e original com Wolf Conrad "Conny" Veit na guitarra e vocal, Fritz Scheyhing no mellotron e teclados, Walter Wiederkehr no baixo e Daniel Alluno na bateria e percussão.


“Nights Works” foi gravado em um estúdio de rádio em Colônia, no Cologne Radio Studio WDR em 26 de fevereiro de 1972, mas foi lançado apenas em 1999 pelo abnegado e valoroso selo “Garden of Delights” e relançado em 2009 em um box chamado “Free Electric Rock Session: Live in Köln [26.02.1972]".

Ao ouvir o álbum não se percebe as palmas, o que leva a crer que no estúdio não havia público, sendo construído com a proposta de um “alive in studio”. Mas ainda assim se captou toda a beleza sonora da fase mais espetacular do Gila e detalhe: as músicas executadas nessa apresentação na rádio FM de Colônia eram inéditas! Essas músicas não figuravam no primeiro e no oficial segundo álbum da banda. Mais um atrativo para ouvi-lo. Então comecemos! 

A faixa inaugural, “Around Midnight” já entrega o que se espera de uma banda como o Gila: experimentalismo com um progressivo psicodélico e chapante que faz com que o ouvinte sinta a música, relaxe e aprecie, contemple a batida. E vai se desenvolvendo aos poucos. Uma música que faz com que a sua alma se desprenda do corpo e voe, voe...

Gila - "Around Midnight"

“Braintwist” é mais agressiva, riffs ácidos e pesados de guitarra dão o tom inicial, os solos vão se desenrolando, dando mais “corpo” a música. E assim vai se estendo por mais de dois minutos! Um primor! Uma música mais bruta do Gila neste álbum. A bateria vai ganhando destaque, sendo tocada com mais aspereza, o teclado dando a camada progressiva, até que enfim surge o vocal de Conny Veit, meio teatral, meio caótico, rasgado.

Gila - "Braintwist"

"Trampelpfad" começa com um ritmo dançante, os riffs de guitarra protagonizam esse momento um tanto quanto solar e animado, os teclados seguem a proposta. A guitarra vai desenvolvendo a música a um estágio mais hard rock, de mais peso, fica um pouco mais distorcida, a batida da bateria também fica agressiva, um progressivo com apelo hard. Incrível!

Gila - "Trampelpfad"

"Viva Arabica" começa com uma levada meio repetitiva, hipnotizante e que, vagarosamente vai acelerando, a guitarra com seus solos lisérgicos assume a dianteira, tornando a faixa mais “atrativa” e pesada, com o órgão mais tenso e poderoso, acompanhando a guitarra em um salutar duelo.

Gila - "Viva Arabica"

"The Gila Symphony" é uma epopeia sonora no alto de seus 14 minutos de duração. Ele inicia com sons experimentais, sons indistintos, sem melodia, mas logo param para dar licença ao teclado, baixo, bateria, tudo distorcido, quando o teclado começa a delinear a sua camada introspectiva e soturna, a bateria, meio jazzy, também ganha notabilidade, riffs de guitarra surgem, o baixo pulsante, o conjunto instrumental ganha tonalidade, a música fica mais intensa e plural e emendada a “The Gila Symphony” vem “Communication II” seguindo a mesma proposta da faixa anterior, com o protagonismo da bateria, guitarra e o teclado, em um efeito viajante e mesmerizante.

Gila - "The Gila Symphony"

Fecha com “The Needle”, mas estranhamente ela não finaliza, parece ter sido interrompida pela estação de rádio, possivelmente atingido o tempo antes estabelecido ou algum problema técnico que fez a rádio sair do ar ou coisa que o valha. O pouco que se ouviu foram apenas dedilhados de guitarra. 

“Night Works” não tem uma boa qualidade na produção, mas ainda assim mostra um grande trabalho da gravadora “Garden of Delights” que recupera e restaura essa pérola do progressivo alemão, sendo mais do que perdoáveis às falhas na produção dessa apresentação no estúdio de rádio na cidade de Colônia, afinal nada fora alterado para manter a originalidade criativa do som do Gila. 

A arte da capa foi pintada pelo próprio Conny Veit e na época de seu lançamento foi feito um livreto de doze páginas, contendo uma história amplamente elaborada em alemão, inglês e sueco, em um total de 1.000 cópias devidamente numeradas. Uma pérola vibrante e única do Gila e um divisor de águas do valoroso rock alemão. 


A banda:

Wolf Conrad "Conny" Veit na guitarra e vocal
Fritz Scheyhing nos teclados e mellotron
Walter Wiederkehr no baixo
Daniel Alluno na bateria e percussão

Faixas:

1 - Around Midnight
2 - Braintwist
3 - Trampelpfad
4 - Viva Arabica
5 - The Gila Symphony
6 - Communication II
7 - The Needle


















sábado, 29 de agosto de 2020

L'Impero delle Ombre - L'Impero delle Ombre (2004)


Uma coisa pode puxar a outra e de forma contínua e frenética, dependendo do que se propõe a buscar ou enveredar as suas intenções. Sou um grande apreciador da banda inglesa Black Widow, formada na cidade de Leicester, na Inglaterra no final da década de 1960, inclusive fiz um texto interessante sobre a mesma sobre o seu show de 1970 que pode ser lido aqui: Black Widow - Demons of The Night Gather To See Black Widow (1970)

E, como tenho um ávido interesse pelo contexto histórico das bandas que gosto decidi procurar mais e mais sobre a banda e confesso que sou compulsivo pelas suas histórias e que tem uma relação íntima com as músicas que compõe. E quando fazia meus garimpos avistei um link na grande rede que falava de uma banda italiana que tinha, entre outras, uma influência do grande Black Widow. 

Resolvi, pensando que fosse algo relacionado a banda inglesa, conferir e percebi, logo de cara, não se tratar da mesma, mas sim de uma banda chamada L'IMPERO DELLE OMBRE, formada em meados dos anos 1990, mais precisamente em 1995, na região de Gallipoli, na famosa cidade de Apúlia, conhecida por produzir grandes vinhos. 

L'Impero delle Ombre

Já me interessei de forma imediata, principalmente com a capa do seu primeiro álbum lançado em 2004, autointitulado. Uma linda arte gráfica que, como um headbanger convicto que sempre fui me impactou de cara. Não é à toa que a capa é a porta de entrada para os álbuns, embora não seja uma unanimidade.


Realmente o L'Impero delle Ombre tem uma relação muito forte, sobretudo na questão sonora e estética, com o Black Widow, pois, quando a banda foi formada seu palco era repleto de cruzes e apelo estético voltado para os filmes de terror, com apresentações teatrais e rituais, como nos primórdios dos anos 1970, pela banda inglesa. 

Mas não se enganem, estimados leitores, que as influências da banda está restrito ao Black Widow, o que, se fosse, seria o máximo, mas traz também referências a bandas como Goblin, Jacula, Black Sabbath, Angel Witch, Paul Chain Violet Theatre e Death SS. 

Seu primeiro álbum é muito eclético e flerta com estilos que vai do heavy rock, heavy metal, hard rock oriundo dos anos 1970, a estilos um pouco mais “recentes”, da década de 1980, como doom metal, metal progressivo e algumas pitadas sombrias de rock experimental mesclado ao psicodélico com occult rock que me trouxe à tona bandas como Coven e Comus.


Mas antes de falar do álbum “L’Impero delle Ombre”, falemos um pouco sobre as origens “ocultas” da banda. L’Impero delle Ombre foi um projeto concebido por Giovanni “John Goldfinch” Cardellino e era, na sua gênese, uma banda cover que basicamente tocava músicas de suas maiores influências como Black Widow, Death SS, Angel Witch e Black Sabbath, além de algumas bandas clássicas italianas do gênero. 

Esta formação não vingou, não teve uma sequência de sucesso, afinal era uma banda cover e, como grande músico que é, Giovanni Cardellino tinha a necessidade de fazer músicas autorais e mostrar ao mundo a sua percepção de música. Então convoca o seu irmão, o guitarrista Andrea Cardellino que, na primeira formação do L’Impero dele Ombre, era muito jovem para tocar, se apresentar em pubs e clubes de música. 

Esse hiato da banda fora decisivo para Giovanni colocar em prática o seu trabalho autoral e colocar o L’Impero delle Ombre em um patamar mais importante para a história da cena rock da Itália que estava renascendo na década de 1990, principalmente entre a cena progressiva, mas que acabava por “puxar” outras vertentes. 

Os irmãos Giovanni, no vocal e percussão e Andrea na guitarra é seguido pelos os outros irmãos Dario e Enrico Caroli, que tocaram no Sabotage, e respectivamente na bateria e no baixo fecharia a formação da banda que gravaria o debut “L’Impero dele Ombre” ou “Empire of Shadows”, em inglês pelo emblemático selo “Black Widow Records”, em 2004, dez anos depois de sua formação.


Um exemplo de persistência, mesclado a dificuldades de que essas bandas, com essa proposta sonora e estética sofrem, alheio ao perfeccionismo de Giovanni e seus colegas tiveram ao longo desses anos todos, com a participação de Bud Ancillotti, no vocal da música “Il Giardino dei Morti” e o tecladista Sandro Massa. 

O álbum foi lançado em 2003 e teve alguma repercussão entre os críticos especializados e o público, principalmente aqueles mais atraídos pelo estilo dark rock e doom metal, com texturas de hard rock setentista e umas pegadas experimentais e progressivas da banda e que estava, de forma mesclada, mas bem conectada, as peças muito bem montadas retratada na música deste debut da banda, afinal já eram músicos maduros e experientes e gozavam de muito talento. 

Mas a banda decidiu intitular o seu som como “Rock de Cemitério”, muito impulsionado também pelo aspecto estético de seus músicos, da produção de palco e as suas apresentações teatrais. Diante do resultado surpreendentemente positivo a gravadora sugere que a banda grave o seu segundo álbum, surgindo, em 2011, o “I Compagni di Baal”, baseados em uma série de televisão francesa da década de 1960 divididas entre sete episódios de 50 minutos cada, em preto e branco, feitos por Pierre Prévert, sendo transmitidos de 29 de julho à 9 de setembro de 1968. 

Era feito com poucos recursos e diria ingenuidade, mas com bom gosto e mensagens extremamente atemporais, pois vinha com muita crítica social e comportamental. Muito dessa história e do demônio “Baal” foi responsável pela concepção sonora, estética e artística da banda no seu início, mesmo sendo concretizada somente com o lançamento do segundo trabalho em 2011, com uma obra conceitual sobre a série. Após vários shows para divulgar o seu primeiro álbum, os membros do L’Impero delle Ombre se envolveram em outros projetos como Witchfield e Homo Herectus em 2008, mas nada se revelou tão sublime como o trabalho do “l’Impero dele Ombre”.

"I Compagni di Baal" (2011)

Mas vamos dissecar, faixa a faixa, o primeiro trabalho da banda, afinal ele protagoniza o texto! O álbum começa com “Il canto del Cigno” que, com uma camada soturna e ameaçadora de um órgão e piano abre as portas do inferno para a excelente “Condanna” que, cantado em italiano, que começa introspectivo, praticamente ao som do vocal abafado e melancólico, mas que irrompe com um riff tipicamente sujo e arrastado, típico do doom metal, com uma proposta mais retrô, dos anos 1970, mas que logo fica veloz e avassalador com um heavy metal que lembra Mercyful Fate e Angel Witch e assim vai cadenciando entre hard e heavy lindamente.

"Condanna"

“Rituale” chega com o vocal dissonante e um riff de guitarra pesado, com um trabalho poderoso da “cozinha” instrumental, com baixo agressivo e pulsante e bateria marcada, com uma camada sombria e perigosa de teclado.

"Rituale"

“Tormento ed Estasi (Di Anime Inquiete Attratte dal Nero)” é um exemplo primoroso de um dark progressive, com passagens generosas de metal e hard rock, que lembra Goblin e Antonius Rex em seus novos tempos. O solo de guitarra que inaugura a música te faz viajar e entrega peso a faixa, eficiente e direto, mas trazendo personalidade a essa faixa com destaque instrumental, uma das melhores do álbum.

"Tormento ed Estasi (Di anime inquiete attratte dal nero)"

“Nel Giardino (Intro)” tem um curto momento falado, ao estilo Jacula, tenso e ameaçador que entrega o peso e a agressividade a “Il Giardino dei Morti” com riffs calcados no heavy rock, de bandas clássicas do heavy metal britânico com destaque também para o vocal tenebroso, limpo de dom alcance e um órgão que confere a faixa um clima sombrio.

"Nel Giardino (intro) e Il Giardino dei Morti"

E eis que surge a obra-prima “Ghost”! Um som abafado, com alguns discretos dedilhados de guitarra, explode em um riff ao estilo Black Sabbath alto, imperioso, pesado com a bateria igualmente pesada e marcada, um típico metal progressivo, com a pegada “dark” já tão característica do álbum. Não podemos negligenciar os solos de guitarra sempre limpos e altivos.

"Ghost"

E fecha com “Corpus, Animae et Spiritus” e o órgão volta a toda prova, remetendo bandas como Jacula e Black Widow, uma ode ao dark progressive, uma reverência ao passado com uma proposta contemporânea.

 
"Corpus, Animae et Spiritus"

O frescor dos novos tempos ganha luz com o L’Impero delle Ombre, com o reflexo da escuridão. Uma sonoridade funesta, com sinos, cantos, teclados, define bem essa banda que definitivamente veio para ficar e figurar como o novo clássico obscuro da Itália, trazendo a tona, em uma espécie de reverência e homenagem, as grandes bandas pioneiras do estilo, mas entregando os novos ares da contemporaneidade.






A banda:

Giovanni "John Goldfinch" Goldfinch no vocal e percussão
Andrea Cardellino na guitarra
Dario Caroli na bateria
Enrico Caroli no baixo

Com:

Sandro Massa nos teclados
Bud Ancillotti, no vocal da música “Il Giardino dei Morti”

Faixas:

1 - Il Canto del Cigno
2 - Condanna
3 - Rituale
4 - Tormento ed Estasi (Di Anime Inquiete Attratte dal Nero)
5 - Nel Giardino (Intro)
6 - Il Giardino dei Morti
7 - Ghost
8 - Corpus, Animae et Spiritus



"L'Impero delle Ombre" (2004)