A história do hard rock tem
nome: UFO! É claro que foi escrita por outros autores, mas o UFO merece a
glória da edificação desta música até os dias de hoje, diante da perpetuação
da música, com os seus “filhos” nascendo e crescendo.
O UFO não recebeu à altura
o crédito como as consagradas Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, entre
outras, coisas do mercado fonográfico, creio. Não somente a música pesada teve a assinatura, a pedra fundamental do
UFO, mas o heavy metal, estilo que ganharia popularidade no início dos anos
1980, ampliando as raízes de sua música de vanguarda àqueles músicos jovens que
construiriam as suas bandas e músicas.
É incontestável a sua importância para o
hard rock, para o heavy rock, para o heavy metal. Em todas as vertentes
pesadas, a frondosa árvore sonora do UFO se fez e faz presente. O UFO, antes
chamada de Hocus Pocus, teve seu nome modificado logo para UFO e tinha na
formação Phil Moog no vocal, Mick Bolton na guitarra, Pete Way no baixo e Andy
Parker, o subestimado e excelente baterista.
UFO em 1971
Essa era a gênese da banda, a
formação original que era a menos conhecida, aquela que não ganhou tanta
projeção, quando da entrada de músicos do naipe de Michael Schenker, na
guitarra, Paul Raymond na guitarra base e teclados, por exemplo. Todavia, não será esta a
fase a ser colocada em destaque por aqui e sim a sua formação mais obscura e
esquecida, a do início dos tempos, dos primórdios do UFO, entre 1969 e 1972.
O primeiro álbum da banda, chamado de “UFO I”, foi lançado em 1970 e
mescla um rock psych, com hard rock e blues rock, sendo considerado, em minha
humilde percepção, como um dos pilares da música pesada e que não conta com
tanta publicidade em relação aos álbuns de bandas como Led Zeppeli, Grand Funk
Railroad, Deep Purple, por exemplo.
UFO I (1970)
Mas a guinada veio com o segundo trabalho, de 1971, chamado de “Flying”.
Um álbum que destoa de toda a característica discográfica que viria depois do
UFO, mas que o torna essencial e importante para a história de um estilo que
ainda estava em consolidação, era embrionário: o space rock.
"Flying" (1971)
Essa música estava
sendo praticada por bandas psicodélicas na Inglaterra e Estados Unidos como
Pink Floyd, por exemplo, mas eram rascunhos de experimentalismo e sons
sinistros caracterizados por ruídos ou coisa do tipo e com o “Flying” do UFO,
juntamente, é claro com o segundo álbum do seminal Hawkwind, “In a Search of
Space”, também lançado em 1971, elevaram o nível e encorpou o que se
convencionou “space rock”. Era, mais uma vez, o UFO fazendo história e não
sendo devidamente creditado por suas façanhas.
E foi com essa formação original que esses dois álbuns foram concebidos. E também foi com essa formação
que a fama do UFO em fazer grandes performances nos palcos, ao vivo, começou a
ser construída, sobretudo na Alemanha e Japão que receberam muito bem o "Flying", mas na Inglaterra e outros "centros" o trabalho foi muito criticado o chamando, inclusive, de "lixo".
E com base nessas
afirmações, não podemos negligenciar a sua história nos palcos, mas há um
registro, uma gravação ao vivo que é obscura, pouco conhecida e que contempla
uma fase da banda esquecida, que é a fase discográfica compreendida entre os
anos de 1970 e 1972, que contempla os seus primeiros álbuns com a sua clássica
formação.
Falo do “Live 1972”, gravado
na cidade de Tóquio, no Japão, em 1972. Esta rara apresentação conta com seis
performances excepcionais da banda e que conta com alguns covers e que foram
gravados no seu primeiro álbum, como “C'mon Everybody”, de Eddie Cochran e “Who
do you Love”, de Bo Diddley.
Foi graças ao
"Flying" e a percepção positiva do público germânico e nipônico pelas
longas suites e viagens psicodélicas e progressivas que o UFO recebeu o convite
de tocar no Japão abrindo os shows da Three Dog Night. Chegando em terras
japonesas o UFO é impactado por uma surpresa: o Three Dog Night cancelou seus
shows. E para não deixar os produtores locais em problemas o UFO acabou sendo
elevado a condição de banda principal.
O UFO fez vários shows pelo
Japão com ingressos esgotados, casas cheias. As regalias de banda principal
também tinha, mas tinha, sobretudo, apresentações avassaladoras, intensas, como
deveria ser. O sucesso da excursão ao Japão foi tamanha que a banda teve que
agendar um show extra no Hybia Park, em Tóquio, onde a banda se apresentou para
mais 20.000 pessoas.
E como consequência desse
feedback tão positivo a Beacon Records teve que, claro, lançar oficialmente uma
apresentação da banda ao vivo e foi exatamente essa última apresentação e por
lá chamada de "UFO Landed Japan" e relançado como "UFO
Live" ou "UFO Live in Japan".
É um álbum que mostra a
banda ainda buscando a sua identidade musical, a sua formação mais crua e
direta, mostrando um hard rock competente e vigoroso, com alguns resquícios do
rock psicodélico e um bom blues rock.
O álbum começa com “C'mon
Everybody” que já vem com uma sonora porrada com riffs de guitarra pesado de
Bolton seguidos de solos mais crus e diretos mas que proporcionavam peso e
agressividade a música.
"C'mon Everybody"
“Who do you Love” dá sequência ao show, com uma introdução bluesy na
guitarra que logo se descamba para uma levada mais funkeada, dançante e que
logo irrompe em uma hecatombe pesada e bem cadenciada. “Loving Cup”, outro cover de Paul Butterfield, é mais classic rock, uma
levada mais rock, genuíno, tendo a “cozinha instrumental” em uma ótima sinergia
e afiada entre Parker e Pete Way, com Bolton fazendo a guitarra “chorar” com
solos longos, encorpados e pesados.
"Who do you Love", Live in Japan (1972)
E eis que surge “Prince Kajuku / The Coming Of Prince Kajuku”, faixa do
segundo álbum “Flying”, de 1971. Aqui ela ganha vida nova, mais peso,
agressiva, direta, crua, irreverente, com velocidade, diria se tratar de um
heavy metal de vanguarda tamanho é o seu peso e temos que creditar reverências
a sessão rítmica. Todos os instrumentos em uma convergência sonora
impressionante.
"Prince Kajuku / The Coming of Prince Kajuku", Live in Japan (1972)
“Boogie For George”, do primeiro álbum, “UFO I”, traz o hardão
setentista típico de volta e com o anúncio do solo denso e poderoso de Bolton a
música vai dizendo a que veio, com peso e agressividade. É de dilacerar os
ouvidos! Fora que ganhou uma linda extensão de improvisação que só garantiu
mais atrativos a faixa.
"Boogie For George"
“Follow You Home” fecha o
show com maestria, com Phil Moog conclamando o público e fazendo o que sempre
fez na sua história como frontman, cativando o público, os tendo em sua mão,
com muita empatia e carinho. Há de se fazer um parêntese de Moog neste show,
vocal perfeito, limpo, altivo, como até hoje, convenhamos.
Após o sucesso da turnê no Japão o UFO tentava conquistar seu espaço no seu país natal, a Inglaterra, mas não conseguia de jeito nenhum, sendo intensamente criticados pela imprensa local. Então Mogg decide investir no glam rock, o que assustou o tímido e discreto Mick Bolton, sendo despedido da banda em 1971. Uma perda que parecia irreparável.
A busca por um novo guitarrista acontece e chegam ao experiente Larry Wallis que havia tocado em bandas como o Lancaster e Blodwyn Pig. A nova formação faz uma série de shows pela Europa, mas não durou muito tempo, por causa de uma briga pesada entre Wallis e Mogg que culminou com a saída do guitarrista. Dessa formação há uns "bootlegs" espalhados pelo mercado obscuro. Wallis tocou no Pink Fairies e participou da primeira formação do Motorhead quando Lemmy Kimilster foi expulso do Hawkwind.
Larry Wallis
No final de 1972 um jovem guitarrista chamado Bernie Marsden, que hava tocado no Skinny Cat, entrou para a banda, depois de algumas boas audições. Partem então por mais uma turnê fugindo da Inglaterra, resolvendo
excursionar na segunda terra onde eram venerados, a Alemanha. Porém, alguns
problemas mudariam a história do UFO para o resto do tempo.
Com problemas particulares, Bernie teve que ficar em Londres para
resolvê-los antes de partir para a Alemanha. Assim, Way, Mogg e Parker foram de
balsa, e esperariam Bernie, que iria de avião, já na Alemanha. Só que o
guitarrista acabou esquecendo o passaporte na hora do embarque, e teve que
ficar na Inglaterra.
UFO com Bernie Marsden
Com as datas já marcadas, mais um incidente ocorre poucas horas antes da
apresentação. A bombástica notícia era que todo o material da banda, trazendo o
PA e alguns instrumentos, havia sido roubado.
A solução encontrada foi alugar o PA e os instrumentos da banda de
abertura, uma iniciante chamada Scorpions, além de pedir emprestado também o
guitarrista, o jovem e talentoso Michael Schenker, enquanto que Bernie acabaria
surgindo posteriormente na mais famosa encarnação do Whitesnake.
Michael Schenker
Sem falar uma palavra em inglês, Michael acabou aceitando graças a
insistência de seu irmão, Rudolph, e então, em apenas 20 minutos, Way passava
todo o repertório do show para o garoto. Foi o suficiente para o mundo do UFO ser
transformado. Naquela noite, o mundo ganhava um dos mais talentosos criadores
de riffs da história do rock, e o UFO finalmente arrancava as cordas que o
prendia e conseguia voar não somente na Inglaterra, mas conquistando todo o
planeta.
Infelizmente Bolton não teve um bom prosseguimento de sua carreira como
guitarrista, mas conta-se que em 1980 ele voltou a trabalhar com a banda como
técnico de guitarra na turnê de ‘No Place to Run’, lançado naquele mesmo ano. O
“Live 72” foi relançado em 2008, na coletânea “Flying, The Early Years” junto
com todos os outros trabalhos pré-Schenker da banda. Excelente álbum que
dignifica a história do UFO.
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