sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Cadenas - Niño Solitario/Rock para Janis (1973)

 

Como apenas duas músicas conseguiram ser responsáveis para a construção de uma cena musical inteira em um país? Um single, mesmo que sem alarde, trouxe o pioneirismo para a música pesada da Argentina, um país latino americano que respirava e ainda respira o rock n’ roll com tamanha passionalidade!

Essa foi a banda, formada em Rosario, em 1972, chamada CADENAS. Apesar da banda não gozar de tamanha fama na Argentina, ostenta, nos dias de hoje, o status de banda cult, sendo considerada uma das primeiras bandas de hard rock da história daquele país, juntamente com outra, mais emblemática e famosa, o El Reloj.

O Cadenas tocou ao lado de grandes bandas, como Pappo’s Blues, Pescado Rabioso, entre tantas outras. Apesar de não atingir êxito comercial fizeram parte da lendária programação do B.A. Rock Festival, em 1972. O B.A. Rock Festival foi um festival ao ar livre, que tentou emular o Woodstock, mas sem aqueles grandes artistas e bandas.

O Cadenas fez parte da edição de 1972. A banda tocou com grandes bandas argentinas de hard rock como Color Humano, Pappo’s Blues, La Pesada, Piel de Pueblo e muitas outras. Revistas famosas, que cobriram o festival, deram algum destaque ao Cadenas, considerando-a como uma das pioneiras do hard e heavy rock.

Mas também tocou para pequenos públicos e em lugares bem modestos, afinal, era uma banda nova e que trafegava no underground, realizando, inclusive shows auto organizados e se encontraram com outras bandas clássicas e importantes da cena pesada argentina, como Beethoven de Orion e Materia Gris.

Cadenas no B.A, Festival, em 1972

O Cadenas foi produto de sua época e foi, claro, influenciada pelas famosas e globais bandas que eram referência na psicodelia e no peso do hard rock, ainda embrionário, como Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Cream, Black Sabbath, Deep Purple etc. Mas trazia um DNA próprio cantando em seu idioma, cantando em espanhol, trazendo peculiaridades que só o rock argentino é capaz de oferecer.

Como disse, o Cadenas foi formado, em 1972, em Rosario, mas estabeleceu-se em Buenos Aires, como muitas bandas que aspiravam sucesso e reconhecimento. Não seria a primeira vez que uma banda do interior, como o Cadenas, iria para Buenos Aires com a intenção de desenvolver seu trabalho na cidade grande. Como a banda Los Gatos, que conseguiu triunfar (vieram da cidade de Santa Fé), várias outras bandas tentaram imitar, pelo menos, a rota pioneira de bandas como Cadenas e Los Gatos.

E a banda, formada por Juan Carlos Tubaro e o icônico baixista Alberto Arbizu, que tocaria baixo no Pappo’s Blues, construiu, edificou a sonoridade pesada do Cadenas. Mas devido a vários desentendimentos dentro da banda fizeram com que Arbizu e Tubaro deixassem o Cadenas.

Mas antes desse desentendimento um produtor havia convidado José Luis Colzani e o guitarrista Marcelo Requena para fazer parte da banda, o que de fato viria a acontecer, mas não chegaram a tocar juntos com Alberto Arbizu e Juan Carlos Tubaro, exatamente por conta dessa série de desentendimentos que motivou a saída desses últimos músicos.

Osvaldo Vitale era amigo de Juan Carlos e Vitale quem convidou Colzani para se juntar à banda, faciltando tabém, claro, a entrada de Juan Carlos Tubaro para o Cadenas. A banda estava procurando outro guitarrista e foi aí que Requena entrou para a banda, até porque Colzani era amigo de Marcelo Requena, o que facilitou e muito a sua entrada.

Foi com essa formação que o Cadenas gravaria o seu single, de 1973, que trariam as músicas: “Rock para Janis” e “Niño Solitario”. Osvaldo tinha contatos com algumas pessoas que trabalhavam no selo Microfon, então ele conseguiu uma entrevista com eles para a banda, que decidiram dar a tão esperada oportunidade para o Cadenas de gravar o single. Foram cerca de 500 cópias prensadas que foram distribuídas em algumas rádios, para promover as músicas, entre alguns mais ardorosos fãs e amigos próximos da banda. As gravações foram realizadas nos famosos estúdios ION, em Buenos Aires.

“Rock para Janis” e “Niño Solitario” foram compostas por Arbizu e Juan Carlos, mas quando Colzani e Requena entraram para o Cadenas deram um toque próprio às faixas com arranjos e solos, dando o “tempero” mais pesado. Foram gravadas em apenas uma tomada, adicionando a voz de Arbizu em uma segunda tomada. Foi gravado em um carretel de oito faixas.

“Rock para Janis” começa com um riff de guitarra pesado e grudento e logo explode com uma bateria que parece levitar, batida dura e pesada, com um vocal alto, potente, quase gritado, mas com algo melódico que me remete ao heavy metal dos anos 1980. A seção rítmica precisa ser enaltecida nessa faixa, o baixo tem um groove invejável. Aqui é uma música de banda, onde todos se destacam. Heavy rock, hard rock e proto metal são o tripé fundamental, com a psicodelia dando o toque, a cereja do bolo.

"Rock para Janis"

“Niño Solitario” começa mais cadenciada, mais arrastada, porém o peso continua lá! Riffs sujos de guitarra, bateria pesada, com batidas que soam como um trovão, baixo galopante e o vocal orquestrando tudo isso corroborando o peso, entregando o suprassumo do hard rock, com gritos e um alcance vocal invejável. Solos de guitarras incríveis e arrebatadores encaminham a música para um final catártico.

"Niño Solitario"

Infelizmente essa é a única, pelo que se tem notícia, a única gravação da banda lançada, digamos, de forma oficial, porque a ligação da banda com a Microfon acabou, devido algumas divergências entre seus gerentes, e nenhuma outra gravadora estava interessada no Cadenas naquela época. E a banda tinha músicas suficientes para um álbum, mas o contrato com o selo havia acabado. Quem sabe esse material vem à tona e ganhe luz algum dia. Talvez seja sonhar demais?

Quase cinquenta anos depois do lançamento do single de 1973, a Yunque Records faria um trabalho incrível com a reedição em vinil. Foi um esforço comunal do selo trazendo à tona esse material, esquecido no tempo, para novas audições. Triste Alberto Arbizu e Juan Carlos Tubaro não ter visto esse relançamento, pois faleceram, mas certamente ficariam muito felizes com esse momento de redescoberta do Cadenas para novos públicos que, graças ao advento das redes sociais, catapultaram a sonoridade da banda para o máximo de interessados possível.

É como se o passado apresentasse ao futuro os pequenos feitos do Cadenas, trazendo à memória avassaladores shows que fizeram no Teatro Olimpia, em Buenos Aires ou apresentações memoráveis no Teatro Astral, onde muitas bandas importantes da Argentina se apresentaram, e também no Teatro El Circuito de Rosario, em Santa Fé. É como se essas músicas executadas nesses espaços ganhassem novos fôlegos com um novo público ávido pelas sombras do obscuro.







A banda:

José Luis Colzani

Marcelo Requena (Guitarra)

Alberto Arbizu (Baixo)

Juan Carlos Tubaro

 

Faixas:

1 - Rock para Janis

2 - Niño Solitario



"Niño Solitario/Rock para Janis" (1973)











 






terça-feira, 20 de outubro de 2026

Coeur Magique - Wanka Tanka (1971)

 

O rock n’ roll francês nunca teve, penso, a visibilidade que merecia, sobretudo nos anos 1970. Evidente que há bandas importantes, que trilharam um caminho de sucesso e reconhecimento, mas infelizmente foram poucas que ganharam a tal notoriedade, como por exemplo, o Magma e o Angie, falando de rock progressivo e hard rock, especificamente.

Mas há aquelas que trafegam o caminho da obscuridade, que não ostentam ou ostentaram o sucesso comercial, mesmo que, muitas delas, tenham sido referência em suas vertentes sonoras. É possível ser obscura e ser referência, ao mesmo tempo? Para algumas bandas, sim!

Uma, em especial, merece atenção, principalmente pelo seu guitarrista, um dos mais influentes do início da década de 1970 dentro do hard rock francês: Claude Olmos. Ele, ao longo de sua trajetória, de sua carreira, flertou com o rock e com a música pop, com tonalidades mais comerciais, construindo uma carreira reconhecida, sobretudo na França.

Mas a banda que falarei hoje, dos primórdios dos anos 1970 que, sem dúvida alguma, está no panteão das grandes desconhecidas do rock francês setentista. Falo do COEUR MAGIQUE. Não podemos deixar de contar a história de Olmos para falar dessa banda que deixou apenas um registro, em 1971, fonográfico, chamado "Wakan Tanka".

Coeur Magique

Olmos nasceu em maio de 1946 em Marselha e acompanhou vários artistas como Sylvie Vartan, Michel Sardou e Johnny Halliday. Seu modelo era Jeff Beck, mas especialmente Jimi Hendrix, canhoto como ele, mas tocando com as cordas invertidas no estilo de Albert King, uma de suas referências também.

Sua carreira começou em meados dos anos 1960 com os 5 Gentlemen e o single folk "Dis-Nous Dylan", mas também com Roy Swart'S and His Blues Shakers, um grupo de rhythm & blues garage que tem como crédito a música chamada "Please Mister Johnson". Em 1969, conheceu o cantor Alan Jack, com que se apresentou com a banda Alan Jack Civilization. Após dois singles, uma apresentação no Festival Amougies e um álbum, a banda se desfez.

"Alan Jack Civilization" (1970)

Em 1970, na cidade de Paris, Olmos, após a sua saída do Alan Jack Civilization, se juntaria ao vocalista Harry Seur, ao baixita Didier Batard, também conhecido como Didier Lessage e ao baterista Laurent Marino formando o Coeur Magique ou, em tradução livre, significa “Coração Mágico”.

Seu único álbum, lançado em 1971, chamado “Waken Tanka” é cantado todo em francês (Ao contrário de Alan Jack Civilzation, com letras em inglês), composto por sete faixas com apenas trinta minutos de duração. Foi gravado de 16 a 30 de março de 1971, no Studio Michel Magne, Château d'Hérouville. Com engenharia de direção de Dominique Blanc-Francard com assistência de Gilles Sallé. Produzido por Jean-Luc Young e Jean Georgakarakos. Com o selo BYG Records. A arte da capa é de Claude Olmos e a fotografia de Richard Charpagne.

“Wakan Tanka”, que significa “Grande Espírito”, transita no hard rock, psicodelia ao estilo lisérgico bem pesado, com explosões de fuzz ao estilo Jimi Hendrix, com interessantes e atípicos interlúdios tribais e surtos adoráveis de jazz/funk, culminando, por exemplo, na faixa-título que traz uma jam de longa duração bem estruturada como uma cerimônia de vodu, retratando fielmente o que é o álbum, como um todo.

O álbum é inaugurado pela faixa “Pacha” que, embora seja curta, traz um instrumental furioso construído sobre riffs de guitarra fuzz e rimos consistentes, musculosos e bastante pesado. O hard rock na verdadeira acepção da palavra. Na sequência tem “Mademoiselle Marie” que já entrega uma pegada mais funky, mais dançante e solar, com um tempo médio. A linha de baixo precisa ser lembrada nesta faixa, pois é marcante, com um groove envolvente e sedutor, além de um vocal bem irônico.

"Pacha"

A faixa seguinte, “Scène de Ménage”, entrega um blues rock pesado, intenso e consistente, com um refrão estrondoso e um solo de guitarra repleto de wah-wah, ao estilo Hendrix de ser. “Le Cocotier (Part 1)” traz Olmos cantando e tocando marimba. Entrega uma música exótica, imerso em ritmos tipicamente caribenhos. “Le Cocotier (Part 2)” continua na loucura exótica com percussão tribal e conotações jazz-rock bem atípico e interessante.

"Scène de Ménage"

O lado B começa com a mais ousada faixa do álbum, a faixa-título arrasa quarteirão “Wanka Tanka” que, no auge dos seus 9 minutos, começa com tons ritualísticos, muda para um funk pesado e cheio de groove e explode em jams ao estilo Carlos Santana. E fecha dignamente com a faixa “Ellocia”, uma balada melancólica e dramática, envolta em um psicodelia pesada, lisérgica, com vocais igualmente dramáticos e solos carregados de reverberação.

"Wanka Tanka"

O BYG Records lançou dois singles: "Wakan Tanka" (b/w "Ellocia") e "Le Cocotier Part 1" (b/b "Part 2"). Logo após o lançamento de “Wanka Tanka” o Couer Magique se separaria, levando a crer se tratar de um projeto de estúdio, sem pretensões de fazer apresentações ou lançamentos futuros.

Claude Olmos se juntaria ao Magma, em 1973, tocando guitarra no clássico álbum, de mesmo ano, chamado “Mekanïk Destruktïw Kommandöh”. Mais tarde, ele acompanhou ícones franceses do pop como Sylvie Vartan e Johnny Hallyday. Batard também trabalhou na banda de apoio de Christophe, Bahamas, e no grupo de jazz-rock Blue Rose. Laurent Marino foi para Moleskine no meio da febre da disco. Harry Seur tentou uma carreira solo sob o nome Harry Spencer. Didier Lessage (Didier Batard), vai se juntar a Bahamas, Heldon e vai prestar seus serviços a Véronique Sanson, Mike Lester, Patrick Juvet e Alain Bashung.



A banda:

Claude Olmos na Guitarra e vocais

Harry Seur nos Vocais

Didier Lessage no Baixo

Laurent Marino na Bateria


Faixas:

1 - Pacha

2 - Mademoiselle Marie

3 - Scène De Ménage

4 - Le Cocotier (Part 1)

5 - Le Cocotier (Part 2)

6 - Wakan Tanka

7 - Ellocia




"Wanka Tanka (1971)



















sábado, 19 de setembro de 2026

Blast - Damned Flame / Hope (1972/1973)

 

Mons, Bélgica, início dos anos 1970. O que parecia e, convenhamos, de fato, foi a contida cena daquela pequena localidade belga, uma esquecida paisagem sonora, eclodia uma força flamejante que anunciava um som, uma banda que simplesmente desafiou, sobretudo, no longínquo ano de 1971, qualquer definição, de qualquer estereótipo conhecido dentro do rock n’ roll.

Antes de que se convencionou de punk, heavy metal ou quaisquer desses gêneros codificados, surgia uma banda avassaladora que, mesmo com o pouco que produziu entregou, nas pequenas e famigeradas casas de shows locais, uma emoção crua, tresloucada e de uma intensidade que, àquela época, pouco se via ou melhor se ouvia. O nome da banda? BLAST!

Poucas foram as “testemunhas” de sua suja sonoridade, dentro de uma tímida cena local, que viram o Blast se apresentar, eletrificando todas as casas de shows pelas quais passaram, como uma das mais famosas de Mons, “The Chinchin. A energia que foi capturada nesses shows é algo que beira o animalesco, porém arrebatador, catártico mesmo.

Era despojado, sujo, rápido, veloz, pesado e era perceptível sons como punk, speed metal, thrash metal, hard rock, heavy metal, hardcore, tudo! É demasiadamente insano perceber toda essa sonoridade em uma época em que gêneros estavam ainda em total criação, em uma espécie de “tubo de ensaio”, onde poucas bandas como MC5 e Stooges, ousaram em fazer essa sonoridade arrasa quarteirão em plena época do “flower power”.

Liderado pelos vocais viscerais de e baixo estridente de Antoni Cucchiara, pelos riffs de guitarra sobrenaturais de Tony Colonius e pela bateria feroz de Michel Jacobs, Blast incorporava a pura rebeldia sonora. Tanto que o produtor Michel Chevalier, completamente hipnotizado pelo poder da música deles, decidiu chamá-los de “Blast” que, em tradução livre significa “explosão”. Não poderia ter batizado por um nome melhor, porque, basicamente, assim podemos conceituar o som dessa seminal banda. Eram uma verdadeira “granada” auditiva!

Blast

A jornada do Blast começou na École Technique de Hornu, onde Tony e Antoni se conheceram e a química foi imediata, se juntando pela primeira vez. Inicialmente enraizados na British Invasion e nas influências folk como Sixty-Toes e depois The Oaks, logo se aproximaram do rock pesado e blues rock vindo dos EUA. Com a chegada de Michel Jacobs em 1971, a formação estava completa.

Em 1972, mais precisamente em agosto, a banda entrou nos estúdios D.E.S, em Bruxelas para imortalizar a sua ferocidade, os seus petardos. Em uma sessão intensa e louca de duas horas, eles capturaram um som cru e implacável que simplesmente desafiou as convenções e a ortodoxia do rock n’ roll à época. O resultado foi uma pequena prensagem, de 1973, pela Majestic Records, de duas faixas chamadas “Damned Flame” e “Hope”. Sim, nobre e amigos leitores, apenas duas faixas registradas pelo Blast em sua ínfima e famigerada história. Praticamente um single, diria!

As letras exploravam a indiferença social, lutas existenciais e visões proféticas da vida plastificada e mecanizada. “Damned Flame" também foi pioneira no ritmo frenético "d-beat", antecedendo sua popularização por anos.

"Damned Flame" é personificação do proto punk, com uma pegada heavy, com uma velocidade incrível que nos remete ao thrash metal, ao speed metal, com um estilo sujo e despojado, com a bateria e o baixo, a “cozinha” rítmica no centro das atenções. É tudo, nessa faixa, demasiadamente caótico, tenso e intenso. Percebe-se, pelo fato de ser despojado, ser algo bagunçado, beirando o ingênuo, mas penso, ao ouvi-la que tudo, apesar do que é ouvido, é meticulosamente pensado. Eles sabiam o que estava fazendo com essa música!

"Damned Flame"

“Hope” é, se é que podemos dizer assim, mais “comedida”, focando, basicamente no hard rock, mas a pegada suja e grosseira estava lá, como se fora uma assinatura, um DNA mapeado do Blast. A guitarra entrega riffs grudentos, pesados. Aqui a sonoridade se adequa, um pouco mais, ao que se praticava nos idos dos anos 1970, o hard rock. Mas é o hard com o “tempero” do heavy dando um sabor totalmente carregado e encorpado. É de se deleitar com “Hope”!

"Hope"

Esse “single” não teve mais do que 500 cópias prensadas, provavelmente muito menos, afinal, poucas são as informações fidedignas que circulam na grande rede a respeito do único registro do Blast. Na reedição, de 2015, da Death Vault, consta tal informação e consta também, um curioso depoimento do baixista e vocalista Antoni que diz:

“Nosso público teve reações diferentes. Primeiro, eles ficaram surpresos. Para algumas pessoas, não éramos descolados o suficiente, para outras, o que fizemos foi genial." 

Porém antes dessa reedição a banda foi, digamos, redescoberta, graças aos blogs de bandas obscuras que, em 2008, aproximadamente, estavam em seu auge e, mais tarde, replicaram no YouTube fazendo com que fomentasse o Blast como uma banda cult. Mas ainda assim, pouco se conhecia e ainda pouco se conhece, de fato, sobre a história do Blast, bem como o motivo que levaram o seu fim e o futuro de seus integrantes.

Questionou-se, inclusive, à época, se o material difundido na web era de fato real ou não, tamanho era a obscuridade que a envolvia. Mas se confirmava a sua existência, quando alguns desbravadores da música obscura teimavam em flertar, visitar alguns sebos de vinis e, ocasionalmente, encontravam uma cópia original do Blast jogado e esquecido.

Embora o Blast tenha se separado em 1974, sua breve existência deixou uma marca indelével. O lançamento de 1973 e as apresentações ao vivo deles permanecem artefatos preciosos de um momento inovador na história do heavy rock, do punk rock, do hardcore e do thrash metal.





A banda:

Antoni Cucchiara no vocal e no baixo

Tony Colonius na guitarra

Michel Jacobs na bateria

 

Faixas:

1 - Damned Flame

2 - Hope



"Damned Flame / Hope" (1972/1973)


 












domingo, 6 de setembro de 2026

Wara - El Inca (1973)

 

Eu tenho uma percepção, ou melhor, uma impressão, de que o rock regional, étnico, ou seja, que impõe elementos da música local ao rock n’ roll, não é bem visto ou não é muito bem compreendido. Talvez um intercâmbio cultural pudesse fazer com essa percepção, se real for, cair por terra. E nada como, além de ouvir música, ouvir rock n’ roll, também ser impactado pela cultura que inunda a música da banda que faz audição.

E eu trarei hoje uma banda que é considerada como uma verdadeira jóia do rock boliviano! Sim! Foi o que vocês, nobres leitores, leram, do rock boliviano que trazia em seu som o misticismo andino, além do teor das suas letras. Falo do WARA.

Bem aqui é difícil, se tratando de uma banda latina, de uma banda da Bolívia, ser o Wara uma banda conhecida, primeiro porque aqui, neste reles e humilde blog, traz bandas de temáticas obscuras e, segundo, porque a Bolívia definitivamente não está no rol dos pais “produtores” do que há melhor do rock n’ roll no planeta.

Mas isso não faz do Wara uma banda simplória e tão pouco ruim, muito pelo contrário. Em sua sonoridade traz uma versão, extremamente arrojada, do rock progressivo, com pegada hard rock, ainda nascendo na América Latina, com o já mencionado impacto cultural daquele país, o rock andino.

O seu primeiro álbum, lançado em 1973, de nome “El Inca” entrega, personifica a cultura do seu país, o rock étnico, regional ganha força nesse único trabalho, mostrando, claro, o rock progressivo britânico e o hard rock mais sofisticado. Apesar de uma curta discografia, o Wara escreveu, com maestria, a história do prog rock da Bolívia e, sem dúvida da América Latina. E falando de história, falemos um pouco dos primórdios da banda e de seu único álbum.

O Wara foi formado em La Paz, capital da Bolívia, em 1972. Dante Uzquiano conheceu Omar León no caminho de volta de Buenos Aires para La Paz. Eles voltavam do “BA Rock”, o primeiro festival de rock que aconteceu na Argentina, em 1971. Motivo da aproximação? Pelo tamanho do cabelo! Mas logo perceberam que nutriam outros gostos em comum e, diante disso, combinaram um encontro.

Em La Paz os dois se juntaram a Jorge Comorí, guitarrista e a Pedro Sanjimes, tecladista, que, posteriormente os apresentou a George Cronembold, na bateria. Pouco depois, Carlos Daza se juntaria a banda, alías Daza, Cronembold, Comorí e Uzquiano já haviam tocado em uma banda de música de bailes chamado “Conga”. De bandas como “Grupo Santana Tabú” viria também a semente do Wara.

Wara

Convém falar que, apesar da Bolívia não estar no centro do mundo do rock n’ roll, aquele país trazia uma cena razoavelmente prolífica nos anos 1960 e 1970 principalmente, trazendo algumas bandas como: Los Ovnis, Los Daltons, Los Lasers, Grupo 606, The Blackbyrds, The Loving Darks, The Crickets, Grupo Conga ou o imenso Climax. Esta última tem resenha que pode ser lida aqui.

Comorí resolveu deixar a banda. Então a formação ficou: Omar León, no baixo, Pedro Sanjimes, nos teclados, George Cronembold, na bateria e Carlos Daza nas guitarras, além de Nataniel Gonzales nos vocais, que, vindo de Oruro, se juntaria a eles. Nataniel era conhecido como o “Rouxinol de Ocura”, e veio da banda Steppen Stones.  Dante Uzquiano permaneceu na banda, porém absorvido pelos estudos.

O significado de “Wara” é “estrela”, na língua Aymará, povo conhecido como Quollas e estabelecido desde a era pré-colombiana no sul do Peru, Bolívia, Argentina e Chile. Foi Dante Uzquiano, então estudante de antropologia/arqueologia, que escolheu este nome. Uma palavra que não era da língua espanhola, nem inglesa, para identificar que a banda era claramente boliviana e se tornaria exportador de música local e da sua cultura também.

Era a década de 1970 e algumas bandas de rock bolivianas prestavam tributos ao Lez Zepellin, Uriah Heep, Yes, Alice Cooper etc. A contracultura desenvolvia-se sem que os poderes políticos conseguissem detê-la (lembrando que a Bolívia viva sob forte e combatente ditadura militar de Hugo Bánzer Suárez, com elevados níveis de repressão e discriminação, sobretudo às bandas de rock, claro.

Ainda assim, com esse cenário, totalmente desfavorável, conseguiram gravar, pelo selo Discos Heriba, seu primeiro álbum, em 1973, de nome “El Inca (Música Progressiva Boliviana)”. Em sua capa, além das imagens fazendo menção aos desenhos andinos, trazia estampado também o termo Música Progressiva Boliviana”, como que querendo a banda confirmar e mostrar para o seu público que praticaram o prog rock com influências bolivianas, mas que também traziam coisas britânicas como Deep Purple, Uriah Heep e Atomic Rooster.

É o prog rock, é o prog sinfônico, são nuances pesadas do hard rock, com vocais em espanhol e que, já que mencionei o Uriah Heep, lembra muito os vocias do saudoso David Byron, guitarras incendiárias, aquela típica sonoridade dos anos 1970, riffs blueseiros, além de participações de músicos tocando flauta, violoncelos, violinos, oboé, fagote etc. Sem sombra de dúvida o rock boliviano ganhou destaque e originalidade com o Wara. Eles fizeram bonito, sem dúvidas.


O álbum é inaugurado com a faixa “El Inca (El Señor De La Tierra)” que exibe o prog sinfônico na sua mais genuína concepção e, nesta faixa, o vocal de Nataniel lembra muito a de David Byron, com inflexões operísticas e agudeza tonal evidente. Teclados ampliam camadas progressivas, os violinos trazem uma atmosfera barroca. Os ritmos são vívidos e expressivos que inspiram originalidade.

El Inca (El Señor de la Tierra)"

Segue com a faixa “Realidad” que não perde a espiritualidade e já tende a se aproximar, um pouco mais, do hard rock, talvez do hard prog sem reservas e é inevitável não deixar, novamente, de falar do Uriah Heep em seus primórdios hard progressivo. Em “Canción para una Niña Triste” há uma ornamentação instrumental polifônica e um progressivo, disparadamente sensível, mas denso, delicado, uma verdadeira beleza genuína do prog rock.

"Realidad"

A faixa título, “Wara”, vem com um traje psicodélico multicolorido e demasiadamente ácido e lisérgico. Entrega um toque refinado, sútil, elegante, mas intenso, dramático, com algumas mudanças de ritmo que trazem um arrebatamento aos ouvintes mais exigentes do rock progressivo e do psych rock. E fecha com “Kenko” que basicamente segue a mesma proposta da faixa anterior com a adição de um hard rock mais voltado para o Purple e Heep, com interessantes camadas de teclados que entonam o prog sinfônico, além de violoncelos e um solo de guitarra que parece tornar a música duradoura.

"Wara"

Os militares, que dominavam a política boliviana, não gostaram muito do debut do Wara e as únicas 500 cópias foram praticamente banidas, dificultando o impulsionamento das vendas do álbum do Wara. Depois desse baque, Cronembold e León mergulharam numa pesquisa em comunidades andinas e, em algumas entrevistas, disse Cronembold:

“Meus estudos no conservatório nos levaram a frequentar festivais de música nativa e a gravá-los. Como vestíamos jaqueta de couro e calça jeans, nós éramos vistos com desconfiança, mas aos poucos fomos nos aproximando e membros das comunidades perceberam nossa sinceridade".

Assim, o Wara passou a adicionar elementos folk, andinos, da cultura e das raízes do povo boliviano. Como desdobramento, nasceu o álbum "Maya", de 1975, o primeiro da série "Hichhanigua Hikjatata", totalmente composto na língua Aymará (essa expressão título significa "Agora você vai me encontrar").

"Era hora de resgatar o ser boliviano e essa ideia é válida até hoje, porque os bolivianos continuam num processo de busca por sua própria identidade cultural", afirmou Cronembold há alguns anos. Em "Maya", a banda buscou interpretar musicalmente o livro "Raza de Bronce", do autor Alcides Arguedas, um historiador famoso e obra considerada fundamental no movimento indigenista sul americano.

"Maya" (1975)

“El Inca” teve alguns relançamentos. Em 1993, vinte anos do lançamento original, o selo Discos Heriba, lançaria, no formato K7. Em 2009, pelo selo Revista Arte & Rock, lançaria, em CD, o álbum “El Inca”. Em 2009 também foi lançado em LP pelo selo Mandrax. Em 2018, a gravadora Retro Remasters Plus, lançaria, também em CD. E o mais significativo relançamento aconteceria em 2023, na ocasião do aniversário de número 50 do álbum, no formato CD.






A banda:

Nataniel Gonzales nos vocais

Pedro Sanjimes no órgão, piano, vocais de apoio

Omar León no baixo

George Cronembold na bateria, percussão

Carlos Daza na guitarra

 

Com:

Pablo Vezin na flauta

Jaime Gallardono violoncelo

Freddy Céspedes no violino

Vicenta Claramount no violino

Stefan Rinderknecht no violoncelo

Gustavo Oroza no oboé

Zelma Guerra nos vocais de apoio

Walter Alvarez no fagote

 

Faixas:

1 - El Inca (El Señor De La Tierra)

2 - Realidad

3 - Cancion Para Una Niña Triste

4 - Wara (Estrella)

5 - Kenko (Tierra De Piedra) 




"El Inca" (1973)

















sábado, 29 de agosto de 2026

Messa - The Spin (2025)

 

Aos saudosistas que acham que o rock italiano se limita ao progressivo, está totalmente equivocado ou não quer aceitar que aquele país está trafegando em outras vertentes do rock n’ roll. E não se enganem também de que se tratam de bandas “retrô” que emulam fielmente sonoridades dos anos 1970 e 1980. São bandas que trazem o frescor de um rock mais arrojado e pouco ortodoxo.

Claro que ouvimos referências de cenas de outrora, mas que entregam mesclas totalmente inusitadas para os ouvidos demasiadamente conservadores e que traz um tempero totalmente novo e sedutor aos ouvintes sedentos por sons novos. Preciso falar do MESSA.

A banda, oriunda de Veneza, foi fundada em 2014, banda extremamente nova e que, com seus quatro álbuns de estúdio lançados, em um curto período de nove ou dez anos, trouxeram uma sonoridade calcada no heavy metal, doom metal mais épico e cheio de camadas que vai do new wave ao black metal, carregados de uma atmosfera sombria e marcada pelo experimentalismo e post metal. Loucura, não é? Talvez sim, pelo fato de trazer esses rótulos sonoros, mas na prática, a magia acontece.

Acontece de uma forma nem um pouco datada, deixando a criatividade falar mais alto, sem amarras, sem constrangimento algum de sentir medo da rejeição, muito pelo contrário, haja vista que, diante de tantas vertentes percebidas, a chance de absorver fãs dos mais diversos sons que floresce no rock, é grande, muito grande.

Messa

Evidente que a banda ainda navega pelas águas do underground, mas o faz com maestria, ganhando olhares interessados e arrebatadores. É uma sonoridade consistente, cheia de alma, de sua verdade na mais pura e genuína concepção. Apesar de absorver várias vertentes é nítido e cristalino que existe uma sonoridade bem definida, bem delineada e que edifica a banda a um status que, a médio e longo prazo, de inovadora. Não sei se estou em um estado tamanho de catarse que me impede de ser mais racional. O fato é que a banda, em uma curta trajetória discográfica, está dizendo a que veio.

E falando em discografia preciso, mesmo que de forma bem resumida e rápida, falar sobre seus petardos sonoros, a começar pelo seu debut, “Belfry”, de 2016, com um desenho mais voltado para o doom metal, com aquela atmosfera de occult rock densa e pesada. Depois surgiu para o mundo o segundo trabalho da banda, chamado de “Feast for Water”, de 2018. Aqui ele traz também a pegada doom, mas com uma dose louca e inusitada de blues e post metal, com nuances sutis de progressivo, um metal progressivo volumoso e potente.

"Belfry" (2016)

"Feast for Water" (2018)

O terceiro, lançado somente em 2022, chamado de “Close”, já traz algumas mudanças, diria, significativas, importantes na sonoridade do Messa. Há algo hipnótico e imediatamente nostálgico, mas com o pé da vanguarda fincado no chão. O rock progressivo está mais vívido nas suas composições, fazendo deste álbum o passo mais significativo para a evolução de seus músicos e de sua música.

"Close" (2022)

E esse momento culmina com seu mais recente lançamento, de 2025, chamado de “The Spin”. Aqui o Messa atinge, a meu ver, o nirvana sonoro, aqui a banda se aventura em mais vertentes do rock, aliando tudo que, até então, tinham produzido nos seus três primeiros álbuns, e mostrando para o seu público, para o mundo uma sonoridade calcada no heavy metal, no black metal, no doom metal, no post metal, no metal progressivo, com a new wave.

“The Spin” é um álbum sedutor, deliciosamente atraente, nostálgico, mas com a criatividade dando o norte para o um futuro promissor do rock, sem amarras, sem estereótipos, sendo simplesmente a música pela música. E será nessa viagem louca e necessária que tentarei falar sobre o mais recente trabalha da banda veneziana.

Eu confesso, estimados leitores, que esteja “contaminado” pela euforia de ter feito, desde que esse trabalho do Messa foi lançado, inúmeras audições de “The Spin” e que esteja movido pela passionalidade sendo, consequentemente, incapaz de traduzir em texto, uma crítica construtiva e sem emoções deste álbum. Mas que se dane! Afinal música traz uma dose de emoção e passionalidade e aqui, pelo menos nesse momento, é o que virá à tona.

Mas como não permitir vir à tona quando se, além das vertentes mencionadas, você ainda perceber jazz, blues, o peso seco e direto do stoner, tendo a aura melancólica do doom em sua dança mais épica e menos suja, como típico de sua gênese. E por mais que se revele sombria, oculta, mostra também, por outro lado, suas emoções mais ousadas e declarativas. É incrível o quanto esse mais recente trabalho do Messa é complexo, dramático, melancólico, pesado e contemplativo.

A formação do Messa, para “The Spin”, cuja gravadora é a Metal Blade Records, traz: Sara Bianchin, nos vocais, Mark Sade no baixo e guitarra. Alberto Piccolo, na guitarra e Rocco na bateria, além de Michele Tedesco, no trompete e Andrea Mantione nos sintetizadores, que também foram determinantes para a construção sonora deste álbum. Essa formação, a propósito, é a única desde o início da trajetória discográfica da banda, claro, exceto aos músicos contratados. Digo de Sara, Mark, Alberto e Rocco.

A faixa de abertura é “Void Meridian” que dedica um momento a desenvolver um estilo sério, girando seus motores movidos a sintetizadores até que a força da música tenha uma progressão digna de um doom metal que remete ao Trouble, como desfecho. Um começo meio rocker, com zumbidos etéreos, antes do bálsamo mais pesado e rasgado do seu fim. Aqui a banda mostra a sua incrível conexão emocional com a alma de um blues rock pesado, com um doom mais melancólico e sombrio.

"Void Meridian" (Live in Athens, 2025)

Segue com “At Races” que se mostra cativante, embora se apresente um occult rock e até mesmo algo como um hard psych, bem lisérgico, arriscaria dizer. Ela me traz a sensação latente de um tom embriagante, empolgante, que forja um fio convincente e sombrio ou pelo menos reverente. Tem refrão potente, tempos viciantes e vocais arrebatadores e extremamente delirantes.

"At Races" (Official Video)

“Fire on the Roof” se mostra igualmente cativante, o vocal de Sara é admirável, sendo forte, alto, mas cristalino e muito competente. Aqui se percebe, além do peso do doom metal arrastado, porém épico, um synth-rock que te remente imediatamente aos anos 1980, onde o Messa evoca influências que vai do Sisters of Mercy ao Mercyful Fate. O peso do doom e do heavy metal mesclado ao gótico com tempero da new wave dos anos 1980. É simplesmente incrível essa faixa e que nos faz querer ouvir e ouvir novamente.

"Fire on The Roof" (Official Video)

“Immolation” já chega mudando um pouco a dinâmica do álbum. Trata-se de uma balada, linda, contemplativa, sombria. E embora não seja exatamente inédito em termos de instrumentalização, principalmente visto em seu álbum anterior, “Close”, tudo, nessa faixa, é reduzido às estruturas tradicionais de um hard rock que vai evoluindo, encorpando, tendo, consequentemente uma abrupta transformação. Fica o destaque para o slide guitar de Alberto!

"Immolation" (Live in Locomotiv Club, 2026)

Eis que surge talvez a faixa destaque do álbum, “The Dress”! A começar com as harmonias vocais de Sara que entrega um nível de ressonância incrível, isso tudo alinhado a experimentação destemida de toda a banda. Aqui a ousadia instrumental beira a complexidade com um solo de trompete assombroso de Michele Tedesco, fundindo a intensidade lenta do doom, com a fluidez estranha do jazz, criando algo único e intenso aos ouvidos e a alma.

"The Dress" (Official Video)

“Reveal” surge hasteando a bandeira do heavy metal! É impossível não passar incólume nessa faixa, sendo extremamente animada, pesada, com um groove totalmente diferente do que se ouve no álbum. Timbre rítmico envolvente, uma guitarra elástica, com movimento acelerado, que lembrou, penso, algo como death e black metal.

"Reveal" (Official Video)

E fecha com “Thicker Blood” que traz a combinação mais do que completa do rock gótico dos anos 1980 em sintonia com o doom metal mais tradicional, arrastado e sujo. Na realidade aqui nesta faixa percebemos a versão mais evidente do Messa nos seus primeiros álbuns, com uma música mais pesada e direta, trazendo elementos-base de sua música, calcada no heavy metal e no doom metal.

"Thicker Blood" (Live in Italy, 2025)

A arte da capa de “The Spin” é assinada por Nico Vascellari e, à primeira vista, se revela discreta, mas curiosa com um olhar mais profundo. Trata-se de um “ouroboros” metálico emergindo das sombras. Embora eu não possa dizer que entendo o simbolismo diretamente, ele combina com a mentalidade clássica do rock gótico que está bem presente na estrutura sonora deste álbum.

Penso que as escolhas da banda para a arte do álbum parecem ser motivadas por emoção, talvez por um senso de lugar ou movimento que funciona com cada lançamento e suas particularidades. Mas agora o simbolismo parece, ao mesmo tempo, contemplativo e até conflituoso.

“The Spin”, com esse pensamento, se mostra extremo, um exorcismo do “underground extremo” até as raízes rock não tão terrosas assim. O Messa quis mostrar, com seu mais novo recente trabalho, uma profundidade maior ao “esculpir” tais ideias às músicas, mostrando uma nítida mudança de paradigma sonoro, sobretudo nas suas melodias, entregando para os seus ouvintes uma audição dignamente memorável, mas também mostrando ao mundo a que veio.

As fusões das vertentes sonoras, as emoções mais variadas, a sonoridade orgânica e rebuscada faz de “The Spin” um álbum surpreendente, inventivo, transcendendo o metal e mergulhando o ouvinte em um mundo de beleza assombrosa e emoção extremamente carregada e cheia de nuances imprevisíveis. Para apreciadores de algum tempo da banda, “The Spin” trará uma revelação e para os novatos poderá ser uma introdução arrebatadora.







A banda:

Sara Bianchin nos vocais

Mark Sade no baixo e guitarra

Alberto Piccolo na guitarra

Rocco na bateria

 

Com:

Michele Tedesco no trompete

Andrea Mantione nos teclados, pianos e sintetizadores

 

Faixas:

1 - Void Meridian

2 - At Races

3 - Fire on the Roof

4 - Immolation

5 - The Dress

6 - Reveal

7 - Thicker Blood 



"The Spin" (2025)