domingo, 12 de abril de 2026

Triade - 1998: La Storia di Sabazio (1973)

 

A influência do britânico Emerson, Lake & Palmer para o rock progressivo italiano é notório! Não falo de plágio ou que a Itália progressiva se deita na fama sonora do ELP para construir o seu som. É perceptível! Mas ainda assim a Itália, mesmo com a forte influência, e assim devemos chamar, soube edificar a sua sonoridade com qualidade e originalidade.

Os teclados, as texturas sinfônicas baseadas na música clássica serviram e ainda servem de sustentáculo para o prog italiano. A maioria das bandas clássicas da Itália traz essas nuances de forma latente, viva. As bandas progressivas italianas, principalmente aquelas que atingiram o status de pioneirismo, foram movidas pelo teclado, pelas notas sinfônicas, com um forte toque de dramaticidade tipicamente italiano.

E a banda que falarei hoje indica a forte influência do Emerson, Lake & Palmer, mas, claro, assume também uma história calcada no mistério e na escassez de informações. Assim deve ser, afinal, essa é a razão de ser deste humilde e reles blog que você, estimado leitor, lê. A banda se chama TRIADE.

O Triade era é uma banda que foi concebida na cidade de Florença, na Itália, no início dos anos 1970 e, como o ELP, era um trio que, por décadas, não se sabia seus nomes. Sim, já começa por aqui! No seu único álbum, lançado em 1973, de nome “1998: La Storia di Sabazio”, o selo de Milão, Derby, não creditou seus nomes no vinil. Na realidade apenas seus sobrenomes apareciam como créditos na arte gráfica do álbum. E isso fomentou a aura sombria que pairava na história da banda.

Mas de certa forma isso era comum entre os jovens músicos italianos de rock progressivo na década de 1970 onde se usava nomes “fantasmas” ou pseudônimos para evitar problemas legais, pois a maioria não eram membros da Siae, a italiana Riaa.

Somente anos mais tarde, por intermédio de um árduo trabalho, o historiador de Rock Progressivo Italiano, Augusto Croce e o músico Enrico Rosa descobriram o mistério e a história foi revelada. O tecladista Vincenzo Coccimiglio (que tinha apenas 18 anos na época) conheceu o baixista Agostino "Tino" Nobile em um clube de Rock. Os dois se deram bem e cada um escreveu um lado do material no álbum. Demorou algum tempo, mas eles finalmente encontraram um baterista bom o suficiente para lidar com o que eles escreveram: Giorgio Sorano.

As origens do Triade, no início dos anos 1970, surgiram a partir da banda “Noi Ter”, onde Agostino tocou com Franco Falsini, do Sensations Fix e Paolo Tofani, do I Califfi e, posteriormente, do Area. Ele trabalhou então no Space Electronic, em Florença, onde conheceu Vicenzo. Começaram a tocar juntos e, como disse, compuseram cada um deles, um lado do álbum e com a adição de Sorano formaram finalmente o Triade.

A origem do nome "Triade", poderia ser usada em vários contextos. Talvez religioso, as três divindades, os três músicos ou ainda musicais, um acorde com três notas. O fato é que a nomenclatura tem origem, gira em torno do número "3". A tríade é um termo que se refere a um conjunto de três elementos, pessoas ou coisas. A palavra vem do grego, "trias" que significa "três". O fato é que a origem do nome, sem dúvida, gira em torno do número "3". E já que falei da arte gráfica, o belo trabalho da capa do álbum, foi de responsabilidade da namorada do baterista que era design gráfica.

Triade

Eles foram contratados pelo produtor Elio Gariboldi (um famoso produtor italiano, mais conhecido por ter feito parte da banda italiano “Squallor”) e também contratado, de forma imediata, pelo selo Derby. Em 1973 “1998: La Storia di Sabazio” foi gravado no Rossi Studio, em Milão, e teve a arte, bem interessante e enigmática, desenhada pela esposa de Sorano. Convém lembrar que o selo Derby já havia produzido muitos álbuns de Toquinho ou Gianni Bella, uma gravadora que nada tinha a ver com rock progressivo.

“1998: La Storia di Sabazio” apresentava uma obra conceitual, pequenas “peças” progressivas de no máximo dois ou três minutos cada, explorando diferentes progressões e arranjos instrumentais, tendo o teclado como ponto central de sua música. Tal construção me remete e muito o estilo “Tarkus”, clássico do Emerson, Lake & Palmer”, com os teclados em destaque, sobretudo na primeira faixa, “Sabazio”, que é dividida em quatro partes instrumentais.

O único álbum do Triade é, como disse, fortemente influenciado por Emerson, Lake & Palmer, isso é inevitável, mas não se pode afirmar plágio ou cópia, mas a forte influência britânica na música progressiva italiana. Assim como suas inspirações inglesas, a música do Triade focava em um jogo intenso entre teclados, claro, e seções rítmicas marcadas. E assim se percebia no primeiro lado do álbum, composto por Vincenzo Coccimiglio. Um som instrumental, curtas faixas, influências clássicas, prog com psych em várias partes, um som suave nada intrincado, mas com o toque requintado das teclas de Vincenzo, mostrando virtuosidade.

O segundo lado do álbum, continua no rock progressivo, mas com forte viés melódico e sinfônico, onde Agostino Nobile, compositor das faixas, surge com violão acústico, em vez do baixo, acompanhando os teclados. Aqui, neste lado, traz à memória o Le Orme, mas também traz toques evidentes do ELP, mesclando partes instrumentais, acústicas e vocais, intercaladas com teclados e sintetizadores, sempre dentro da linha progressiva um pouco mais melódica e sinfônica. E o violão lembra os sets de Greg Lake quando esteve à frente do Emerson, Lake & Palmer. Essas nuances, um tanto quanto distintas, entre os lados do álbum ganhou críticas não muito agradáveis, por conta dessas abordagens sonoras, mas penso ser exageradas, pois, apesar de contarem com compositores únicos e diferentes, percebe-se, apesar de tudo, uma base calcada no prog italiano que se praticava na primeira metade dos anos 1970.

O álbum começa com a suíte “Sabazio” que é dividida por quatro partes, com pouco mais de três minutos cada, são elas: 1- “Nascita”, 2- “Il Viaggio”, 3- “Il Sogno” e 4- “Vita Nuova”. A parte 1 traz um som mais suave, mais pastoral e viajante, quase contemplativo, com um órgão flutuante. A parte 2 já traz um órgão mais pulsante, com a seção rítmica mais enérgica, o baixo e bateria em uma sinergia interessante. A parte 3 apresenta tambores, algo mais percussivo, órgão também pulsante e latente, com energia, além da inclusão de violoncelo. Ao longo da música vai ficando mais poderosa, um pouco mais pesado. A parte 4 traz a predominância de teclados duplos, a prog rock aqui é mais evidente. “Sabazio” é o sonho para qualquer amante de música clássica e progressiva, graças ao órgão, ao piano, violoncelo, com elementos de rock como o baixo e a bateria. Uma sonoridade, embora simples, se revela atraente e elegante o que é incrível para músicos tão jovens à época.

"Sabazio - Nascita" (Parte 1)

"Sabazio - Il Viaggio" (Parte 2)

"Sabazio - Il Sogno" (Parte 3)

"Sabazio - Vita Nuova" (Parte 4)

Segue para o outro lado do álbum com a faixa “Il Circo” que traz uma batida mais voltada para o rock, com uma pegada mais hard, pesada, com um órgão igualmente pesado e enérgico. Aqui as teclas se destaca, com a bateria, marcada e pesada, também protagoniza.

"Il Circo"

“Espressione” soa mais como um típico rock progressivo italiano com sintetizadores, acústico, com pianos doces e vocais calorosos e agradáveis. Aqui percebe-se, de forma nítida, o lado mais suave e romântico da Itália progressiva. Um ótimo trabalho de piano e acústico agradável. Traz um pouco de sinfônico com sintetizadores já para o final da música.

"Espressione"

“Caro Fratello” é parecido com Il Circo, por ser um rock mais acelerado com órgão, mas se expande por incluir mellotron, violão acústico e vocais mais suaves. O destaque fica logo no começo com órgão, bateria e baixo em uma ótima jam, extremamente animado, solar. Aqui também traz, claro, destaque para o órgão, que divide momentos mais animados e enérgicos, com momentos mais intimistas e dramáticos.

"Caro Fratello"

E fecha com “1998 (Millenovecentonovantotto)” começa com uma onda de dedilhados acústicos, com vocais suaves e melódicos, com um baixo bem tocado. A bateria surge dando “corpo” a faixa. Fica mais edificante com sintetizadores alegres e vibrantes, sobretudo em seus momentos finais. As seções acústicas, bem tocadas, se misturam com bons teclados. Se revela uma música com boas camadas e animada.

"1998 (Millenovecentonovantotto)"

Com a mudança do produtor Gariboldi para Munique, na Alemanha, o novo produtor, de nome Lombroso, assume a produção do Triade. A primeira exigência dele foi que a banda voltasse ao estúdio e gravar um álbum mais comercial. A banda imediatamente recusou a proposta. Aqui seria o começo do fim do Triade. Mas não foi apenas a discordância entre produtor e banda, com relação às novas tendências sonoras, que fez com que o Triade findasse, tão precocemente, a sua trajetória.

A crítica também não foi muito gentil com a banda. Os acusou de serem pouco originais, principalmente por não enfatizar tanto, segundo os críticos, a essência do rock progressivo italiano, absorvendo sonoridades britânicas, principalmente do Emerson, Lake & Palmer. Evidente que o único álbum do Triade não soa original e traz influências do ELP, afinal, penso que as raízes progressivas italianas vêm dos britânicos, principalmente do Emerson, Lake & Palmer e nota-se, de forma evidente, a meu ver, uma sonoridade simples, quase inocente, sim, mas muito talhado para o rock progressivo italiano.

“1998: La Storia di Sabazio” talvez não represente totalmente a pureza do rock progressivo italiano que foi se construindo ao longo dos anos 1970, mas é um resultado, como todas bandas que surgiriam no cenário italiano, das influências daquele país, absorvendo ainda as características marcantes da sua sonoridade, as suas peculiaridades.

Após a formação da Triade, quando o baterista Giorgio Sorano entrou por último na banda, surgiu a chance, e foi tudo muito rápido, de se reunir com o produtor Elio Gariboldi. E deve-se a ele por ajudar os jovens músicos à época, a lapidar seu som, produzindo resultados lucrativos, sob o aspecto sonoro, com “1998: La Storia di Sabazio”, que incluíam equipamentos, instrumentos de ponta, como mellotron e um gonue gigante, além de um tempo considerável em um estúdio com um engenheiro de som. E assim surgiu o único álbum do Triade.

“1998: La Storia di Sabazio” entrou na cena prog italiana com um grande destaque, devido às performances ao vivo enérgicas e até extravagantes da banda. Os garotos do Tríade estavam no auge da criatividade e físico e o mundo parecia ser o limite. Logo abriram shows para as grandes bandas da época, como Banco, Premiata Forneria Marconi e Franco Battiato e até conseguiram alguns shows como atração principal, mas apesar da exposição que a banda vinha conquistando, o álbum não emplacava, não correspondendo às expectativas de vendas.

A corrida do ouro do progressivo italiano, nos anos 1970, para muitos virou simplesmente um latão desvalorizado e frustrante e com o Triade não foi diferente. As baixas vendas de seu álbum e o tímido apoio da gravadora fez com a banda cessasse as suas atividades precocemente, como tantas outras que seguiram sua trajetória na mais profunda obscuridade e ostracismo.

“1998: La Storia di Sabazio” teve alguns relançamentos. Em 1974, um ano após seu lançamento, o selo Derby o relançou na Itália, no formato LP e cassete. Em 1993 foi lançado no Japão pelos selos Nexus International e King Records no formato LP. Em 1987 novo relançamento no Japão no formato CD, pelo selo Nexus e outro relançamento, em 1993, também em CD, pelo selo CGD. Em 1993 foi a Coréia do Sul. Entre 1994 e 2020 foram vários relançamentos, em CD e LP, alternando entre a Itália e o Japão.





A banda:

Vincenzo Coccimiglio nos teclados

Agostino Nobile no baixo, violão e vocal

Giorgio Sorano na bateria

 

Faixas:

1 - Sabazio: Nascita

2 - Sabazio: Il Viaggio

3 - Sabazio: Il Sogno

4 - Sabazio: Vita Nuova

5 - Il Circo

6 - Espressione 



"1998: La Storia di Sabazio" (1973)



























 


sábado, 4 de abril de 2026

Grit - Grit (1972)

 

Hornsey, Inglaterra, segunda metade dos anos 1960. Das cinzas da banda Merlyn, nasceria a banda GRIT. O Grit trazia, em sua formação, Frank Martinez, na guitarra solo e vocais, Paul Christodoulou no baixo e vocais, Tom Kelly, na bateria e vocais e Jeff Ball, o vocalista principal.

A origem do nome “Grit” veio, como todas as ideias, de lampejos, de “surtos” criativos. Michael, um antigo membro da banda, estava, juntamente com Frank Martinez, andando pelas ruas de Londres e avistaram uma lixeira, onde é armazenada areia que é usada em estradas geladas, com neve e a partir daí veio o estalo: “Grit”! No dia 20 de outubro de 1970 foram ao cartório para registrar o nome.

As origens dos membros do Grit vieram, claro, de outras bandas. O início da carreira musical de Martinez foi com um teste para Joe Meek em seu estúdio na Holloway Road. Mais tarde ele também tocou com uma banda chamada Grand Union, que abriu para o Pink Floyd em 1968 e com membros da John Dummer Band. O baterista Tom Kelly veio de uma banda chamada “Connexion” e Paul Christodoulou tocou no Merlyn juntamente com Frank, essa trazia a espinha dorsal do Grit. Além de Paul e Frank, a formação do Merlyn trazia George Panteli, na guitarra, John Stevens, nos teclados.

A formação definitiva do Grit nasceu quando Frank e Paul convenceram Tom Kelly a se juntar a eles. Foi difícil, no início, mas ele cedeu quando assistiram a um show da banda escocesa Nazareth. O vocalista Jeff foi o último a se juntar à banda quando esta colocou um anúncio na Melody Maker.

Grit

Diferente do que muitos pensavam à época o Grit não era um “power trio”. De fato, a banda, efetivamente, estava em três músicos, pois Jeff Ball, o vocalista principal, foi o último a entrar. Mas não se podia negligenciar a importância dos irmãos Russell para o Grit. John era um ótimo apoiador da banda, embora não tocasse nenhum instrumento, sempre ajudou no que fosse possível. Porém teve de se afastar quando se casou. Jimmy, seu irmão, assumiu o lugar de John, tornando-se roadie e técnico do Grit.

Agora com essa formação o próximo passo da banda seria, como todas as outras, ensaiar, compor material próprio e gravar um álbum para divulgar e viver da sua arte, da sua música. Cabe aqui uma curiosidade acerca do guitarrista Frank Martinez, já que mencionei sobre viver de música: Martinez, apelidado de "Spider", estudou eletrônica no Southgate Technical College e trabalhou na Nolan Amps e construiu um amplificador PA de 100W (chamado de Spider PA) e duas pilhas de alto-falantes, que mais tarde se tornariam parte do equipamento do Grit.

A gravação, realizada na SWM Studios, foi feita na hora, sem ensaios, apenas configurada e pronta, afinal, a banda não tinha grana para pagar por um longo tempo no estúdio. Eles fizeram isso pouco antes do natal, na véspera de natal e o engenheiro de som, no ritmo das festas natalinas, não se aplicou bem ao trabalho e reza a lenda que estava bêbado. Resumo: além do pouco tempo que o Grit tinha, praticamente concebeu o álbum sem amparo técnico. 

Nos LP's, a banda conseguiu encaixar todas as músicas de um lado, o engenheiro reduziu o nível do baixo. As fitas estavam de acordo. As músicas foram escritas pela banda, exceto "Mineshaft" (Tom), "Child and the Drifter" (Paul), "What do you see in my Eyes" (Frank) e "I wish I was" (Paul). Outra faixa escrita por Tom foi "Surrounded by Four Grey Walls" (não gravada).

“Grit”, o álbum ou melhor um rato acetato ou EP como foi lançado à época, basicamente traz um envenenado hard rock, aquele típico, mas inconfundível, hard rock dos anos 1970, porém com reminiscências do rock psicodélico, com guitarras lisérgicas e pesadas, com uma bateria furiosa, baixo pulsante e um vocal forte e direto. Um álbum do seu tempo, mas ainda assim não deixa de entregar grandes surpresas. Um álbum pesado, forte, volumoso, cheio de vida que nasceu e não ganhou o mundo, como tantos outros que, sem nenhum suporte, perece, não vinga. A falta de estrutura, de uma produção adequada, apenas realçou a volúpia de seu som, mostrando-se cru, arrogante e pesado.

O álbum é introduzido com a matadora faixa de “Mineshaft” que, como um trovão, começa com riffs pegajosos e pesados de guitarra que me remete a um heavy metal, um proto metal poderoso, com um vocal alto, gritado, em alguns momentos e até rouco. Bateria em uma batida forte, intensa, baixo pulsante, galopante. Os solos de guitarra se mostra psicodélico, ácido, mas logo se apura, fica mais alto e límpido trazendo aos tempos do hard rock dos anos 1970. Não há como ficar parado a essa hecatombe sonora.

"Mineshaft"

Segue com “The Child and the Drifter” que inicia mais discreta, com dedilhados de guitarra, mas foi por pouco tempo, a bateria anuncia mais uma força da natureza que varre tudo que está em sua frente. Ela é pesada, marcada, mas cheia de agressividade que encorpa a música, a deixando poderosa, pesada e totalmente despretensiosa. E tudo isso é confirmado pelos riffs de guitarra. Os vocais aqui estão mais contidos, mais discretos, mais apurados. Solos de guitarra variam entre o peso do hard rock e a lisergia do psicodélico. O que dizer do final? Pesada, um doce caos!

"The Child and The Drifter"

“What Do You See in my Eyes/I Wish I Was” começa atípica para o que se ouviu nas duas faixas iniciais. Guitarras dedilhadas, lembrando The Doors, vocais doces e baixos. Ao ouvi-la me remete imediatamente aos tempos do “flower power” dos anos 1960, com uma pegada meio folk, inclusive. Mas não se enganem, caros leitores, porque, logo irrompe em uma explosão de hard rock, mais uma vez, com destaque para a bateria pesada. A proposta da música é trazer variâncias rítmicas, pois, logo se ouve um belíssimo solo de guitarra com uma vibe mais blues, curto, mas viajante e lindo, mostrando que a banda é sim competente. O final é vibrante, intenso, revelando, ainda mais, a competência instrumental de seus músicos. O hard rock é o protagonista no derradeiro e espetacular final dessa faixa.

"What Do I See in My Eyes / I Wish, I Was"

“1000 Miles” começa pesada, a bateria é forte, intensa e caótica. A música, quando ganha velocidade, ganha corpo, peso, se mostra, se revela um verdadeiro proto metal. As arestas da heavy metal estão nas arestas sonoras, na melodia, na dramaticidade de seus instrumentos. Vocais gritados corroboram tal condição. Em determinados momentos ela se torna arrastada, agora percebe-se o proto doom, a sujeira do som. Espetacular!

"1000 Miles"

Segue com “Across the Windowsill” que é a faixa bônus do álbum, em virtude do seu relançamento. Essa faixa foi concebida quando a banda se chamava Merlyn e traz uma pegada mais garageira, com “pitadas” evidentes de uma psicodelia ácida e pesada, com riffs grudentos, mas pesados de guitarra, que confirmam a lisergia. Na sequência do relançamento do álbum traz a já citada por aqui, “What Do You See In My Eyes/ I Wish I Was” e fecha com a pesadíssima, e também já citada faixa que inaugura o álbum original, “Mineshaft”, aqui chamada de “Down in the Mine”. Para registro histórico vale e muito a pena a audição, sobretudo da avassaladora “Mineshaft”.

"Across The Windwsill"

O Grit, munido de seus acetatos de 12", gravadas em um lado só,  visitou alguns agentes musicais e selos em Londres, para tentar lançar seu material e partir para a turnê em divulgação de sua música, mas ninguém se interessou. Contudo enquanto procurava, um gerente, eles encontraram uma empresa que lhes garantiu uma turnê pela Grécia. Era a chance que precisavam, diante de um cenário de total descaso com a sua música. Eles tinham anunciado o seu álbum na famosa “Melody Maker” e essa empresa grega viu e decidiu entrar em contato.

Era a Mantas Production, do grego Kon Mantas! A banda aceitou a oferta e seguiu viagem para a Grécia em 23 de abril de 1973. Foi uma verdadeira aventura e a chance de que o Grit precisava para deslanchar a sua música. E a aventura já se deu na viagem! Cruzaram boa parte da Europa dentro de uma van e, claro, os problemas mecânicos com o carro apareceriam. Se perderiam também no caminho, mas, enfim chegaram.



Em Atenas a banda finalmente conhece Kon Mantas. Era um cara legal, mas não tinha tanta experiência como empresário ou nenhuma experiência. Colocou a banda em um apartamento. Ficaram bem instalados, mas não demorou muito para entrar em atrito com os moradores do prédio, por conta dos ensaios, e logo foram visitados pela polícia e intimados a sair do local. Mantas decidiu, diante disso, instalá-los em um hotel.

Sem muito trabalho, Kon Mantas começou a buscar outras alternativas para trazer um mínimo de renda para si e também para manter o Grit no hotel, pagando as suas diárias. A banda, consequentemente estava com dificuldades de descolar alguns shows. Mas não deixaram de se esforçar na incessante busca de shows, de apresentações e conseguiu alguns shows com as principais bandas de psych rock da Grécia, como Sócrates e Peloma Mpoklou em grandes festivais. Tocaram em um show pop diante de três mil pessoas. Era o auge para o Grit ou melhor do "Bomba", como ficou conhecida a banda em terras gregas. Tocaram também em um show, ao ar livre, no Palais des Sports Festival, Thessalonica. Eram sete mil pessoas. Estava indo bem, apesar de que, neste último show, o promotor não tenha feito o pagamento do cachê à banda. Mas pelo menos conseguiram se apresentar e mostrar a banda a uma multidão.

Apareceram na TV desta vez, no “Top of the Pops”. Um programa famoso e que muitas bandas emergentes tocaram. Os diretores pediram ao Grit para se posicionarem devidamente no palco, era um programa em que as bandas faziam “playback”, mas o Grit não obedeceu e pularam por todo o lugar. Tiveram alguma publicidade na revista “Fantasia”. Apareceram em outro programa de TV chamado “Golden Shot”, onde também tocaram “playback”. Foram quatro aparições na TV do Grit, no total.

Mas tudo tem um fim! O guitarrista e vocalista Frank Martinez recebeu a notícia, de sua mãe, que o seu pai estava gravemente doente. Ele precisava deixar a Grécia para voltar para Londres, mas a banda precisava conversar sobre isso e como no momento não estavam fazendo shows e consequentemente estavam sem dinheiro para se manter na Grécia. Então decidiu retornar à Inglaterra e os demais da banda retornariam duas semanas depois. A aventura durou de maio a julho de 1973. E no final de julho daquele mesmo ano o Grit optou por se separar. Esse era o fim da banda!

Frank Martinez

Martinez deixaria a música em 1974. Mudou-se para a Espanha e decidiu dedicar-se à eletrônica, no que estudou no passado, como autônomo, e com essa profissão aposentou-se. Ao se aposentar voltou a tocar novamente. O baterista Tom Kelly e o baixista Paul Cristodoulou, que tocaram juntos no Merlyn, formaram a banda “Kelly” e depois fizeram uma pausa e, nos anos 1980, Tom se juntaria à banda de heavy metal “Mean Machine”.

Tom se mudaria para Bournemouth e se concentrou na pintura. Ele ainda tem uma bateria em seu estúdio e toca praticamente todos os dias. Paul está atualmente no Chipre tocando com a banda “Reggae Rockers”. O vocalista Jeff continua sua carreira em Benidorm em uma banda de tributo aos Bee Gees.

As gravações e fitas do único álbum do Grit, de 1972, estavam prontas para serem descartadas pela família de Frank Martinez. Ninguém realmente queria aquelas coisas antigas ocupando espaço. Mas antes que isso acontecesse Frank mostrou seu LP, em 2019, para um amigo, fanático por rock e vinis, e ele recomendou que publicasse uma foto e as gravações no Facebook e na internet. O fez de forma totalmente despretensiosa, gostou de compartilhá-lo nas redes sociais, ferramenta esta que não era tão próximo.

E para a sua surpresa veio o primeiro contato da Alemanha comentando que havia comprado um dos acetatos do Grit em um mercado de pulgas e perguntou se poderia usar o material. Martinez não hesitou e autorizou que os usasse. Algum tempo depois um representante da gravadora Guerssen entrou em contato interessado em relançar o álbum. Dessa vez de forma oficial, depois de quase cinquenta anos de sua gravação. Que sorte Martinez não ter descartado as gravações! Então esta foi cedida para o selo que o relançou em 2020. A outra cópia do acetato original, pode ser encontrada em “7001 Record Collector Dreams”, de Hans Pokora, com um ponto máximo dado por raridade. Afinal havia apenas duas cópias pressionadas! Convém lembrar também que tal trabalho foi relançado por selo brasileiro Hellion Records em 2023.

Uma história cheia de aventuras, repleta de obstáculos e muito amor à música, digna de cinema e que mostra uma música forte, intensa, pesada. Uma joia escondida do rock n’ roll que depois de quase meio século na mais pura e genuína obscuridade ganha luz para deleite daqueles que desbravam o lado underground da música de que tanto amamos.





A banda:

Frank Martinez na guitarra e vocal

Paul Christodoulou no baixo e vocal

Tom Kelly na bateria e vocal

Jeff Ball no vocal

 

Faixas:

1 – Mineshaft

2 – The Child and The Drifter

3 – What Do You See In My Eyes / I Wish I Was

4 – 1000 Miles

5 – Across The Windowsill (Merlyn) – Bonus Track

6 - What Do You See In My Eyes / I Wish I Was – Bonus Track

7 – Down In The Mine (Mineshaft) – Bonus Track




"The Grit" (1972)





 




































sábado, 28 de março de 2026

Mutha Goose - I (1975)

 

Uma banda envolta em sombras! Um álbum produzido de forma artesanal, com um número incipiente de cópias! Assim se faz uma banda obscura! Ou melhor: aqui, neste reles e humilde blog, não se faz, mas dissemina, difunde! Bandas como a que eu tentarei contar a história, jamais ganharia, com exceção de um valoroso nicho de abnegados, as redes sociais ou os canais de comunicação e/ou a geração de conteúdos de quem quer que seja.

O rock n’ roll é desconhecido pelos seus ditos apreciadores. E nesse momento em que podemos dizer, com certo risco, que as bandas não são tão somente obscuras, mas as tornam obscuras. O mercado fonográfico tendência e é tendencioso, o modismo é a arma que segmenta, trazendo cenas e bandas, muitas vezes, manipuladas pelo marketing, por empresários, pseudo empreendedores da música, onde a música, a arte, é pincelada por melodias acessíveis, de fácil assimilação, com potencial de “venda”.

E assim simula e projeta as percepções de um mercado que, de joelhos, segue, como uma ovelha, o pastor fonográfico, que decide os nossos gostos musicais. Mas ainda há abnegados, persistentes que, em um nível de resistência, segue na contramão do status quo sonoro e trazem bandas como essa que, modéstia à parte, somente este e poucos blogs, podem trazer. Qual é a banda? MUTHA GOOSE.

O Mutha Goose foi uma raríssima e esquecida banda norte-americana, formada em Indiana que, dada a sua arrojada e pouco ortodoxa música, foi relegada ao ostracismo e, evidentemente, pouco se sabe dela e a grande web, tida como democrática, na difusão, em profusão, de tantas informações, reduz-se a poucas linhas para essa banda.

Foi uma banda que sequer atingiu sucesso em Indiana, mas, ainda assim conseguiu, de forma, como disse, artesanal e limitada, gravar apenas um álbum, em 1975, chamado de “I”, pelo selo Alpha Omega, gravadora de Indiana que atuou no mercado entre as décadas de 1960 e 1970. Claro que pouco se sabe quantas cópias foram lançadas, mas, diante de cenário de total obscuridade e ostracismo, reza a lenda que foi um lançamento privado, com cerca de 50 cópias, apenas, que provavelmente circulou apenas a amigos e pessoas próximas aos integrantes da banda.


A névoa densa da desinformação também circunda entre os seus integrantes que é sabido os seus nomes, mas pouco se sabe quais instrumentos tocavam. A pouco informação pode ser um entrave, mas, preciso admitir que, lá no íntimo do meu ser, a obscuridade, tema central deste reles blog, é um ponto deveras sedutor. A banda trazia Jeff Cefali que, pelo que pude apurar, em minhas pesquisas, era baixista, Dave Limeberry, bateria e Mark Hardy e Herb Hagenwald que desconheço quais instrumentos tocavam.

Em algumas fontes, apurei que Herb, além de ter sido bem ativo nas composições das cinco faixas do álbum, também foi responsável pela produção deste, ganhando certo protagonismo na sua concepção. Nessa mesma fonte pude observar que o “Copyright”, ou seja, que, por definição, é o direito exclusivo do autor de reproduzir sua obra, geralmente utilizado em obras literárias e científicas, traz o nome de “Mutha Goose Productions”, o que reforça a característica bem artesanal na produção desse álbum, único lançado pela banda.

A sonoridade de “I” traz riffs pesados e fuzz, seja de baixo, como principalmente de guitarra, com bordas duras, sujas e alucinantes de órgãos, incluindo ainda o uso de flautas e piano. Nele se percebe, se ouve um hard rock, com temperos psicodélicos que se entrelaçam com arestas de garage rock e floreios progressivos, com destaque para jams estendidos e vocais lisérgicos. A sonoridade do único álbum do Mutha Goose entrega uma energia crua underground de algumas bandas obscuras dos anos 1970, com a tipicidade do Meio Oeste estadunidense, de sua, claro, ala mais underground.

Aos apreciadores de música pesada e pouco estereotipada, bem como os bons “degustadores” do prog rock com teclados em profusão, irá se deleitar com o trabalho do Mutha Goose. É fato que muito se explica também pela condição desse álbum, pois mostra um resultado que não se rotula, trafegando por várias vertentes, tendo como espinha dorsal, o hard e o prog.

O álbum é inaugurado pela faixa “You Said Goodbye” que introduz em dedilhados viajantes de piano e uma flauta doce, dando um clima pastoral à música, mas vai ganhando corpo, consistência sonora, os riffs mais pesados e pegajosos de guitarra capitaneiam essa transição do acústico ao peso do hard rock. O vocal não pode ser negligenciado, pois, nessa transição é participante de destaque, do melódico ao quase rasgado, ao grito. É a típica faixa progressiva, repleta de mudanças rítmicas, tendo o órgão catártico, energético e que desemboca em um solo frenético de guitarra, com a camada de teclados igualmente poderosos. Uma música organicamente caótica e complexa.

"You Said Goodbye"

“I Think It's You” chega dançante, uma pegada mais sinfônica e cristalina aos ouvidos. O vocal é extremamente limpo e melódico. A faixa é solar, o piano traz o balanço, mas não se engane, a música prega uma peça e se mostra dinâmica, com riffs pesados de guitarra que a coloca em um patamar pesado típico do hard rock e que logo se revela mais acústica, com as flautas trazendo de volta um clima de balada rock mais acessível aos ouvidos. A “cozinha rítmica” ganha destaque no final da faixa, baixo galopante, bateria pesada, guitarra estridente. Excelente!

"I Think It's You"

“Exodus” traz a introdução voltada mais para o psych prog, algo mais experimental, baixo potente, vívido, bateria marcada, pesada, o órgão te manda para mares progressivos e psicodélicos. A lisergia encontra a sofisticação do progressivo. Mas o hard rock, personificado pelo riffs pesado e sujo de guitarra, traz o inusitado, a sopa sonora. Solos ácidos, lisérgicos, garageiros são ouvidos. O complexo em um casamento com o despretensioso.

"Exodus"

“Freak – Hitchhicker” me remete ao minimalismo do krautrock germânico, uma simplicidade carregada de peso, de um hard psicodélico repleto de lisergia e um experimentalismo que beira a jams sections totalmente desprovida de bons modos. É sujo, é garageiro, é louco e pouco ortodoxo. Riffs de guitarra e solos deixam a música ainda mais pesada e é nesse momento que o hard rock, típico, domina. A simplicidade se revela dura e pesada.

"Freak-Hitchhiker"

E fecha com “Being Her Friend” que traz uma introdução mais soturna, diria sombria, com um vocal distante, abafado. Algo dramático, em tom de dramaticidade traz uma camada estranha para essa música. Flautas, suaves notas de teclados corroboram a sua condição soturna e reflexiva. Mas eis que surge a surpresa: A guitarra traz um riff mais dançante, o baixo segue com um groove animado e a bateria, em uma batida marcada e pesada entrega uma pegada distinta a música e assim termina, de forma mais animada e solar.

"Being Her Friend"

A qualidade dessa sonoridade é definitivamente sólida, do seu começo ao fim, um som estranho, por vezes, sombrio, mas muito inventivo e que não se prende a rótulos e estereótipos, fazendo dele uma obra excelente de hard prog, com uma pegada garageira e suja. E quando trazemos à tona essas nuances a um álbum que tem o progressivo, pode parecer, aos ouvidos mais conservadores, improvável, mas sim, é possível associar, claro, de forma arrojada o rock de garagem, por exemplo, ao prog rock.

A edição original, pelo que pude apurar também, por intermédios das escassas fontes disponíveis, é até agora a única deste álbum e, por ter tido uma baixa tiragem, é muito difícil de conseguir, não tendo, como disse, reedições disponíveis, o que faz do único álbum do Mutha Goose e, consequentemente da banda, obscura, rara. Não duvido que esse trabalho, se tem disponibilidade de venda, deve ter cifras estratosféricas, o que faz dessa banda e álbum sedutores dentro de seu universo obscuro. Mas não é apenas por isso, também pela sua sonoridade arrojada e de profunda personalidade criativa.


A banda:

Jeff Cefali no baixo

Dave Limebery na bateria

Mark Hardy ?

Herb Hagenwald ?

 

Faixas:

1 - You Said Goodbye

2 - I Think It's You

3 - Exodus

4. Freak - Hitchhicker

5. Being Her Friend




"I" (1975)

 


















quinta-feira, 19 de março de 2026

Jenghiz Khan - Well Cut (1971)

 

Sabe aqueles países totalmente inusitados para a cena rock n’ roll? Pois é, é para eles que eu venho mirando as minhas intenções para desbravar e, não se enganem, caríssimos leitores, há muito a encontrar por aí. As cenas podem ser incipientes em quesitos quantitativos, mas qualitativamente falando a situação muda! Há muito material de altíssima qualidade nos países pouco comentados e esquecidos pelo rock!

Então vale e muito o esforço em desbravar e conhecer tais bandas e álbuns e hoje eu pousei na Bélgica e encontrei um espetacular álbum e banda que merece a sua atenção, caro leitor. Como ela se chama? JENGHIZ KHAN! Mas são aquelas bandas que, como verdadeiros cometas, surgem, como uma força da natureza, gerando impacto, mas que, de forma efêmera, sucumbem, desaparecem.

O Jenghiz Khan surgiu, em 1970, no sul da Bélgica, a partir das cinzas do "The Tim Brean Group" e do "Les Partisans". A formação da banda consistia nos seguintes músicos: Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais, “Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais, Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal e Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais.

Jenghiz Khan

Rapsat foi o último músico a integrar o Jenghiz Khan. Ele veio de uma banda que acabara de lançar um álbum, de nome “Laurelie”. Nos anos 1960, Pierre havia feito parte da orquestra de dança chamado “Les Ducs”, porém em sua banda seguinte, a “Tenderfoot Kids”, onde tocou em quatro singles, revelou ser um excelente compositor.

"Laurelie" (1970)

O nome “Jenghiz Khan” foi escolhido pelo terror associado ao líder mongol e, de fato, essa banda de músicos furiosos, liderado por Friswa, teve impacto no público e incendiou as placas dos festivais onde se apresentavam.

Como todas as faixas do primeiro e único álbum do Jenghiz Khan, “Well Cut”, de 1971, já estava praticamente pronta, Rapsat ficou responsável apenas em tocar o seu instrumento, o baixo. Todos os membros da banda eram compositores, então não teve espaço para Pierre demostrar seus dotes de letrista. Mas se mostrou competente empunhando o baixo, trazendo a sonoridade da banda, algo muito atual.

Além dos músicos serem compositores o seu empresário, o conhecido jornalista de rock, da revista “Telemoustic” ou “TéléMoustique”, Pierre “Piero” Kenroll, ajudou a escrever todas as letras e uma música completa.

A capa deste único trabalho do Jenghiz Khan foi desenhada por Jamic, cartunista da TéléMoustique, apresentava as cabeças dos 4 músicos decapitados brandidas por um gigante e alcançou as melhores vendas belgas, algo que nenhuma banda local conseguia fazer há muito tempo.

E diante desse cenário, “Well Cut” foi lançado até rapidamente, pelo selo “Barclay”, com um som majoritariamente pesado, porém cheio de dinâmica, ou seja, vertentes progressivas, conferindo-lhe complexidade, mas com a capacidade única de ser orgânico, mostrando músicos competentes e técnicos, mas dando tudo de si de forma corporal!

Não sou muito afeito às comparações, mas o Jenghiz Khan, reflete muito a música de seu tempo, embora traga uma sonoridade bem atemporal, rasgando as gerações com muita destreza. Ao ouvir “Well Cut” percebe-se a sonoridade de bandas, das mais famosas, claro, como Uriah Heep, Vanilla Fudgie e Iron Butterfly. Mas como coloca-la em condições de inspirada, se esta surgiu praticamente ao mesmo tempo que as mencionadas? O sucesso de algumas diz muito sobre isso, mas não quero falar sobre isso, e sim do quão importante esse tipo de sonoridade foi nas transições das décadas de 1960 e 1970.

“Well Cut” imprime uma sonoridade que é calcada no riff pesado de guitarra e o bom e velho hammond, que muito me agrada e cativa, um heavy progressivo com pitadas psicodélicas generosas, que vai do sofisticado, complexo, sujo, primitivo e áspero. Uma música que se fazia em profusão no início dos anos 1970, mas com competência, criatividade e muita ousadia, pois não se rendiam as bandas ao estereótipo, afinal, era, diria, uma sonoridade que se descobria, se abrochava em experimentalismos e o Jenghiz Khan não fugia à regra. Era uma desbravadora de seu país, pouco conhecido na cena rock, mas que tinha um radar para o mundo.

O álbum começa com a faixa “Pain” que, um vocal, à capela, dá a introdução para a “cozinha” impor seu ritmo pesado, bateria marcada, agressiva, batida poderosa, baixo pulsante, hammond cheio de vivacidade, riffs de guitarra psicodélicos, mas que dá lugar ao violão e a uma balada. Seus quase oito minutos de duração entrega uma sonoridade repleta de mudanças rítmicas, mostrando o heavy prog muito bem executado. Na metade da música os riffs são mais agressivos e sujos, talvez o momento mais pesado da faixa, que logo se sucedem com solos mais pesados ainda. Música de tirar o fôlego!

"Pain"

Segue com a curta “Campus A”, mas que anima pela pegada meio bluesy, um blues rock bem solar com um vocal cadenciado e, por vezes, um pouco rasgado. É tão somente a guitarra e voz. Simples! Para dar entrada para a próxima faixa, “The Moderate” que inicia com um hammond um tanto quanto sombrio, mas que irrompe em um belicoso som de guitarra e bateria bem agressiva. O baixo dá o groove, o balanço e a cadência. Essa música mostra um Jenghiz Khan mais sofisticado, mas não menos pesado e arrogantemente agressivo. Aqui o vocal é mais potente e gritado e conduz a faixa ao que realmente entrega: peso, mas um peso aliado ao balanço, beira o dançante. Faixa animada!

"The Moderate"

Segue com “Campus B” que, entregando a continuação de “Campus A” traz o blues mais eletrificado, com uma pegada mais gospel evocando os primórdios do rock na sua versão mais primitiva. Não podemos negligenciar, claro, a veia blues rock. “The Lighter” começa acústica, dedilhados de violão torna algo mais pastoral, viajante, dando lugar ao hammond e uma bateria mais vagarosa. Eis uma balada com uma característica inteiramente psicodélica, mostrando um produto de seu tempo, verdadeiramente. O trabalho de vocalização me remete ao Uriah Heep nos seus primórdios e também o Vanilla Fudgie. E finaliza com o lindo e direto solo de guitarra!

"The Lighter"

“Hard Working Man” introduz com um solo de bateria e que já denunciaria o peso que viria pela frente! Um solo de guitarra flamejante, mas que logo cadencia, continuando a bateria como profundo destaque. Aqui nesta faixa o hard rock dá o tom, é o carro chefe. Direta, poderosa, intensa, riffs de guitarra se misturam ao toque cavalar como o baixo é conduzido. Traz a “cama” para a sonoridade acontecer, ser tão evidentemente característica.

"Hard Working Man"

Segue com “Mad Lover” que, mais uma vez, inicia, em uma pegada meio flamenca, acústica, meio folk. Aqui percebo que a banda volta aos anos 1960 com um beat psicodélico. O trabalho de vocalização se faz presente e é bem feito. A guitarra, já no fim da faixa, traz uma sonoridade estranha e experimental.

"Mad Lover"

E fecha com a épica “Trip to Paradise” que começa, mais uma vez, com o belo trabalho de vocalização e uma camada soturna de teclados que traz as lembranças psicodélicas. Mas logo termina, porque a explosão do hard rock se faz vivo e latente! Bateria com a já famosa batida pesada, o baixo com aquele groove arrebatador, galopante, por vezes, sem contar com o hammond que me lembrou algo mais sinfônico. Nessa faixa, no auge de seus mais dez minutos, traz de volta o heavy prog, e se mostra capaz de atrair o ouvinte com as inúmeras mudanças de andamento. É no mínimo catártico ouvir essa música. Hard rock, psicodélico e progressivo em um caldeirão de ingredientes misturados, sem nenhuma cerimônia em se rotular. A criatividade ditou as regras que, sem dúvida, faz dessa faixa uma das melhores do álbum! O final, com o solo de guitarra, é simplesmente de tirar o fôlego!

"Trip to Paradise"

Em sua história relativamente curta, o Jenghiz Khan construiu uma boa reputação de banda ao vivo, tocando em muitos festivais e shows. Podemos destacar, como os mais importantes quando dividiram o palco com: "Wallace Collection" (Puzzle P em junho de 1970), "Black Sabbath" (Rock Bilzen em agosto de 1970), "Yes" (Pop Hot Show Huy em 5 de setembro de 1970), "Stray" (Festival de Ghent em 28 de novembro de 1970), "The Tremelous" (Grand Place Ciney em 11 de julho de 1971) e "Genesis" no Festival de Jemelle em 8 de agosto de 1971.

Um segundo álbum estava sendo escrito, mas problemas surgiriam para a banda, culpa de uma cena belga muito restrita, que não permitia que seus músicos ganhassem vida com sua música, bem como também da onda “glam” que varreu o mundo, com furacões como David Bowie, T-Rex, Salde, Sweet entre outros. E o inevitável aconteceu: o fim do Jenghiz Khan, em 1972. Se há resquícios de composição musical que possa ser gravado em um futuro próximo, não sabemos. O fato é que precisamos esperar uma grande novidade a esse respeito! Quem sabe...?

O baixista Pierre Rapsat lançou uma bem-sucedida carreira solo, em 1973. Ele gravou vários álbuns de ouro e platina, transitando entre o rock e a chanson, mas a maioria de suas músicas era cantada em sua língua nativa, o francês. Rapsat faleceu em 21 de abril de 2002, precocemente aos 53 anos de idade.

O vocalista e tecladista Tim Brean juntou-se a banda “The Pebbles”, tocando teclado com eles de 1974 a 1976, enquanto compunha muitas músicas a pedido do selo “Barclay”. Mais tarde tentou a sorte com uma carreira solo sob o nome de “Tim Turcksin”, mas conseguiu lançar apenas algumas músicas em álbuns de compilação.

O guitarrista e vocalista “Big” Frisma juntou-se a banda “Wallace Collection”, fazendo sucesso, posteriormente, com uma banda pop chamada “Two Man Sound”, lançando também dois singles solo. O primeiro, em especial, onde trabalhou novamente Pierre “Piero” Kenroll, recebeu boas críticas. O lado B, chamado “Big Friswa” era uma ótima faixa de rock. Se suicidou em 1988.

O Jenghiz Khan, com seu único trabalho, lançado em 1971, “Well Cut” traz nas raízes, bem como, claro, no teor de suas letras, temas históricos e belicosos, assim como tantas outras bandas de proto metal de sua época. Sim, Jenghiz Khan emulou o som que se fazia em sua época, lá pelos idos dos anos 1970, mas refletiu, com galhardia e competência, aquele rock n’ roll que, das transições das décadas de 1960 e 1970, mostrou-se criativo e catártico.

“Well Cut” teve alguns relançamentos. Além de seu lançamento original, pelo selo Barclay, em 1971, teve lançamento, pelo mesmo selo e ano, no Canadá e na França. Em 1994, teve um relançamento na Coréia do Sul, pelo selo Won-Sin Music Company, outro, dez anos depois, em 2004, pela gravadora Second Life, na Rússia. Mais dois relançamentos, em 2011, na Bélgica, pelo selo Philmarie, um novo relançamento na Coréia do Sul, pela Won-Sin Music Company e vários outros relançamentos por alguns selos europeus.




A banda:

Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais

“Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais

Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal

Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais

Com:

Pierre “Piero” Kenroll nas composições

 

Faixas:

1 - Pain

2 - Campus A

3 - The Moderate

4 - Campus B

5 - The Lighter

6 - Hard Working Man

7 - Mad Lover

8 - Trip To Paradise 



"Well Cut" (1971)