São Francisco, na Califórnia,
definitivamente foi o epicentro da contracultura norte americana e, arrisco
dizer, mundial, na segunda metade dos anos 1960. O movimento hippie e sua
proposta de paz e amor ecoava em cada canto daquelas ruas e tinha, como principal
difusor, a música e as suas inúmeras bandas que ganharam o mundo com os seus
hinos beat e dançantes. E aqui podemos destacar, de imediato, bandas do naipe
de Big Brother and The Holding Company, Janis Joplin, The Grateful Dead, The
Doors, e tantas outras.
A sonoridade lisérgica, por
vezes experimental, dançante e até mesmo minimalista, era o cerne da cena que
pulsava em shows e personificava em protestos anti-guerra e contra um
conservadorismo imposto pelo status-quo. Mas a música lisérgica, psicodélica,
com um viés criativo calcado na revolução jovem, também tinha nas drogas a
possibilidade da expansão da mente e da liberdade tão ardentemente propagada.
Mas as revoluções não eram
apenas ditadas no comportamento, mas se revelava também na sonoridade das
músicas ouvidas àquela época, e não tão apenas naquela que a cena entregou para
o mundo com as suas bandas famosas, com o beat dançante, experimental, e sim às
músicas ditas “garageiras”, comumente consideradas como mais pesadas,
distorcidas, eletrificadas, com um proto hard rock que destoava do que se fazia
em profusão naquela terra.
E não podemos negligenciar o
blues eletrificado do grande Blue Cheer, que foi o grande representante de
“peso”, literalmente falando, daquela época, na terra do Tio Sam. E, ouvir o
seu debut “Vincebus Eruptum”, de 1968, ápice da psicodelia paz e amor, é como
ouvir uma bomba poderosa e devastadora de blues elétrico que definitivamente
não se adequava ao som massivamente propagado em sua época. Não foi à toa que o
Blue Cheer, com seu trabalho, não só inaugural, mas discográfico, não viu a luz
do sucesso e trafegou pelo underground.
Essa “revolução” sonora me
agrada imensamente e tem me colocado em uma posição de garimpo incessante e eis
que descubro uma pérola que lamentavelmente não ganhou a luz do glamour e o
sucesso de pertencimento de uma cena tão proeminente como a de São Francisco
nos idos dos anos 1960. Falo do MOUNT RUSHMORE.
O blues rock pesado é a espinha dorsal de sua sonoridade, claro, que a atmosfera psicodélica teria de ser inerente, afinal, inserida em um contexto sonoro tão forte e latente como esse, torna-se inevitável, mas o hard rock, ainda um tubo de ensaio no rock, estava definitivamente delineado, desenhado e vivo em sua sonoridade. Um som cru, direto, sem firulas, se via, ou melhor, ouvia no som do Mount Rushmore.
Mas acalmem-se, estimados
leitores, não falemos ainda de sua música e de seu debut, de 1968, centro do
texto de hoje, chamado “High On’, mas tentarei contar um pouco dos primórdios
da banda que talvez possa corroborar ou ainda incrementar o status de banda
cult e, diria, sem medo, revolucionária que estava totalmente dissociada de seu
tempo. Dizem por aí que o tempo é relativo, o que dizer da música daquela
época, capitaneada por bandas esquecidas e obscuras como o Mount Rushmore?
A banda se formou no final de
1966, na 1915 Oak Street, uma grande pensão vitoriana no distrito de
Haight-Ashbury. Em junho e julho de 1967, eles apareceram em cartazes de shows,
no Avalon Ballroom, com outras, incluindo o Quicksilver Messenger Service e Big
Brother and The Holding Company. Não precisa dizer que a banda ganhou certa
atenção devido a sua sonoridade sendo potencializada em performances ao vivo.
Assim ganhou certa reputação ou no mínimo atenção entre os ouvintes e
conhecida, naquela época, como uma banda ao vivo.
E no período entre a sua
fundação e a gravação do seu debut, em 1968, a banda teve muita movimentação em
sua formação, até se constituir nos seguintes músicos que gravariam “High On”:
Mike Bolan (“Bull”) nas guitarras, Glenn Smith “Smitty” nos vocais e guitarras,
Travis Fullerton na bateria e percussão e Tery Kimball no baixo.
Esse certo destaque na cena
local graças ao seu som um tanto quanto deslocado que se fazia na segunda
metade dos anos 1960, lhe rendeu um contrato com a Dot Records, de onde saiu o
já mencionado debut, “High On”, de 1968. E esse som garageiro, tão evidente na
sonoridade blues eletrificado deste álbum, traz a sensação de que o seu
acabamento está mais adequado para uma demo do que para um álbum
convencionalmente finalizado.
Porém, como não estou muito
preocupado com sonoridades convencionais e ortodoxas, muito me fascina, ou pelo
menos tem me fascinado nos últimos anos, e sim, me pautará pelos próximos mil
anos (risos)! Mas creio que essa deliciosa sensação se explique pelo fato da
sua produção, afinal, uma banda pouco conhecida, com uma sonoridade pouco,
digamos, arrojada, não se espera que tenha um financiamento alto para a
produção de seu álbum. Essa produção dá o charme ao som do Mount Rushmore,
definitivamente harmoniza e catapulta o seu som metálico, com habilidades mais
simples, diretas e orgânicas, com riffs de guitarras carregados e pesados, com
uma “cozinha” igualmente pesada e cheia de groove.
O álbum é inaugurado pela
faixa “Stone Free”, clássico do Jimi Hendrix, que aqui soa mais animada, mais
comercial, diria, com uma pegada mais hard e menos bluesy, mas, ainda assim, se
percebe que a banda estava estabelecendo o território que queria explorar,
sonoramente falando, haja vista que Hendrix, com suas músicas, também ajudou a
pavimentar o blues rock pesado nos Estados Unidos e no mundo! Sim foi ousado
pela parte do Mount Rushmore, mas mostrou personalidade ao “descaracterizar”, o
clássico de Hendrix. Os riffs pegajosos e pesados de guitarra ornamentam o
conceito fundido de hard rock, a bateria pesada e marcada, o baixo dançante e
galopante. O vocal alto, por vezes é gritado. É inegável perceber que é uma
versão solar e extremamente dançante.
Segue com “Without No Smog”
que já traz, sem sua sonoridade, a pegada blues rock mais vívida. A guitarra
“chora” em solos curtos, a seção rítmica acompanha, dando um tempero mais hard
rock, à faixa. O vocal segue os dedilhados da guitarra e se revela mais
melódico e dramático. Na metade da música a lisergia devolve a banda ao seu
tempo, a guitarra, ácida, destila peso indulgentemente. Experimentalismo mostra
uma banda mais sombria na segunda metade da música.
“Ocean” continua na mesma
pegada que a faixa anterior, mas aqui o hard rock puro e genuíno se mostra mais
vivo, com requintes de detalhes no vocal rasgado, nos riffs sujos de guitarra e
na bateria com batida forte e pesada. E tudo fica mais perigoso e dançante com
a percussão, algo tribal invade o rock n’ roll direto da música.
“I Don’t Believe in Statues”
tem uma pegada mais beat, psicodélica, mas com o sabor do peso, com riffs de
guitarra carregados e gordurosos, é aquela aspereza típica do álbum, sem nenhum
refinamento, ainda bem. Aqui torna-se mais perceptível uma camada, embora
sútil, mas bem significativo, do teclado, do órgão, dando-lhe um direcionamento
para o psicodélico, para a acidez e lisergia.
“Looking Back” chega, no auge
dos seus quase dez minutos de duração como uma louca e deliciosa epopeia
calcada em um colapso de jam bruta, áspera, pautada na lisergia de riffs
encarnados de guitarra, com uma bateria mais cadenciada e um baixo que, apesar
do caos sonoro desorientado, se mostra fiel a batida da percussão. Momentos de
experimentalismo e viagem sonora são percebidas dentro desse contexto, tornando
tudo ainda mais caótico e estranho. Uma batida surge mais dançante que,
loucamente, me remeteu a uma bossa nova, se não estou insano em perceber isso!
Mas a música é insana e pouco rotulável ou nada estereotipada. Uma música
espetacular!
“('Cause) She's So Good to Me”
vem animada, com alguma velocidade, onde ouso dizer que me remete a um heavy
metal, antes do heavy metal. Bateria arrogantemente pesada, os pratos parecem
que vão explodir, os riffs de guitarra continuam a ser sujos, quase indecentes
aos ouvidos e bom senso pretencioso dos ortodoxos do rock. Os gritos vocais
abraçam ou corroboram o peso da música e anarquicamente encaram o status quo
com desdém e arrogância. Espetacular!
A derradeira faixa é um
“medley” das faixas “Fanny Mae” e “Dope Song” e tudo indica ter sido captada
em uma dessas pequenas e fedorentas casas de shows, mas a vibração de um
pequeno público pode ter sido colocada mecanicamente em estúdio, enfim...O fato
é que nessas faixas o que impera é o blues rock. A essência da banda saí pelos
poros dessa música. Peso cadenciado, animado, solar se faz presente em cada
riff e melodia. Aqui o som me parece ser mais polido, a banda se “esforça” para
ser mais técnica e prudente. Ainda assim são faixas especiais e que fecham
brilhantemente esse belíssimo álbum.
Há breves notas do encarte do
álbum “High On” que diz que a banda se autoproclama os “rapazes do interior”
que adoram levar seu caminhão cinza e funky para a estrada, se encarando como
“caipiras”, cheios de confiança e arrogância, mas com apenas habilidades mais
simples. E não me parece nem um pouco arrogante essa percepção, muito pelo
contrário. Assim é “High On”, assim é o Mount Rushmore. Perigoso, pesado,
diferente em sua sonoridade em um universo do beat e do “flower power”.
E essa linhagem sonora traria
um custo muito adverso para o Mount Rushmore. Após o lançamento de “Mount
Rushmore 69”, a banda não teve a adesão comercial de muito dos seus
contemporâneos e, no mesmo ano de lançamento, do segundo álbum, 1969, a banda
sucumbe e finaliza as suas atividades. É o preço que se paga por serem
aventureiros, os “rapazes do interior, no ápice de sua ingênua arrogância, onde
se renderam à criatividade.
Não consegui apurar, com
devida precisão, se “High On” teve outros relançamentos. O que se sabe é que há
um relançamento importante, talvez no formato CD, dos dois álbuns juntos pelo
selo Lizard Records em tiragem bem limitada.
Pouco se sabe sobre o
paradeiro dos músicos, o que lamentavelmente se torna mais do que normal,
levando em consideração o que produziram com seus dois únicos álbuns, apenas se
soube do “paradeiro” do baterista Travis Fullerton que alcançou um reativo
sucesso posteriormente como membro do Sylvester And The Hot Band.
A banda:
Mike Bolan (“Bull”) nas
guitarras
Glenn Smith “Smitty” nos
vocais e guitarras
Travis Fullerton na bateria e
percussão
Tery Kimball no baixo
Faixas:
1 - Stone Free
2 - Without No Smog
3 - Ocean
4 - I Don’t Believe In Statues
5 - Looking Back
6 - (‘Cause) - She’s So Good
To Me
7 - Medley: Fanny Mae / Dope
Song

































